Jornalistas & Cia - Imprensa Automotiva
 
 
 
 
 
 
 
 
 
São Paulo,

 

Um pouco de história
Você sabe por quê se comemora o Dia do Jornalista em 7 de abril?
A versão mais consistente para a escolha desta data como Dia do Jornalista remonta ao período do Império: a data é comemorada em 7 de abril em homenagem a João Batista Líbero Badaró, médico e jornalista que morreu assassinado por inimigos políticos, em São Paulo, em 22 de novembro de 1830; essa morte gerou um movimento popular que levou à abdicação de D. Pedro I, no dia 7 de abril de 1831. Por causa disso, a data foi escolhida para marcar a fundação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), por Gustavo de Lacerda, em 1908. E a própria ABI foi quem a instituiu como Dia do Jornalista nas comemorações de um século da abdicação de D. Pedro I, em 1931. Agora, a própria ABI, que está fazendo 99 anos em 2007, dá início oficialmente, a partir deste dia 7 de abril, às comemorações de seu centenário de fundação.

Isto não parece um nariz-de-cera. É. E dos bem grandes e pretensiosos, tanto que tem até letra de música/lyrics e título em três linhas, metade em francês (très chic, n’est pas?). Tudo para falar do futuro do jornalista, ou do jornalismo – não ficou muito bem definido, pois nossas fontes, executivos de grandes redações, bons jornalistas que são, não se ativeram à pauta sugerida e derivaram ora para um, ora para outro, ou falaram dos dois. Não importa. Importa é que o teor do que escreveram sobre o futuro do jornalis(mo)ta, sem que combinações prévias houvesse, tem um eixo comum: ele não será obra do destino, o que Deus quiser, whatever will be, will be, mas com certeza reforça o adágio popular francês de que quanto mais muda, mais fica do mesmo jeito. Pois o conceito que perpassa quase todos os depoimentos, qualquer que seja o enfoque de cada um, é que as competências básicas do bom jornalista não mudaram, nem mudarão, com a diversificação das mídias e o advento das novas tecnologias – antes, as reforçaram.
A maioria dos onze executivos que J&Cia ouviu sobre o tema enfatizou a qualificação dos profissionais como essencial ao futuro do jornalismo. Rodolfo Fernandes, de O Globo, resumiu: “Ainda não inventaram a fórmula de fazer um veículo de comunicação qualificado sem jornalistas qualificados. (...) O nome desse jogo é: profissional preparado e veículo com credibilidade – hoje ou no futuro”. Já Augusto Nunes, da CBM, afirmou que “nada substitui o talento humano, esse sim decisivo e imprescindível para a perenidade do jornalismo, em qualquer tempo, independentemente de meios e tecnologias”; e Bruno Thys, do Infoglobo, muito apropriadamente simplificou: “Se o jogador não for bom, a bola não ajuda”.

O papel do jornalista como intérprete dos fatos para audiências cada vez mais exigentes também mereceu destaque. Paulo Nogueira, da Editora Globo, por exemplo, fez referência à “missão essencial de um jornalista – ontem, hoje, sempre. Sob quaisquer circunstâncias, em qualquer mídia – tradicional, nova, novíssima. Ajudar o público a entender o mundo”. Abordagem semelhante usou Marcelo Rech, da RBS: “Para nós ficará reservado o papel mais fundamental: fazer as conexões da realidade e traduzi-las em linguagem atraente e compreensível, imprimindo cada vez mais estilo pessoal, seja em textos ou fotos e ilustrações”. O mesmo enfoque teve Otávio Frias Filho, da Folha de S.Paulo, mas para comparar os papéis dos veículos: “É plausível esperar que os sites se especializem na informação breve e imediata (além de material de pesquisa e comunicação interativa), enquanto os jornais impressos se dediquem a oferecer uma síntese analítica que organize o excesso de informação divulgada a cada 24 horas”. Idêntica direção seguiu Ricardo Gandour, de O Estado de S. Paulo, ao afirmar que “a nova mídia se consolida naquilo que tem de peculiar e vai sedimentando suas características mais fortes – interatividade, instantaneidade, possibilidades audiovisuais. E o leitor ou internauta começa a perceber, de novo, o valor do conteúdo editado. E sobressai a análise, a construção de contexto, de nexo – e aí tanto faz, se no papel ou na web”.Amauri Melo, da Brasil Digital, limitou-se a criticar a excessiva valorização da tecnologia e a afirmar que, “para o futuro, devemos evitar que o jornalismo vire marketing, essa praga que não tem compromisso com o País”.
Outro ponto comum aos depoimentos é que, sem dúvida, o jornalista do futuro – e já do presente – terá que ser muito mais versátil, polivalente, aquele que o adepto do futebol diz que “cobra o escanteio e corre na área pra cabecear”. O “pauteiro-repórter-redator-editor-diagramador, o profissional-síntese”, como o classificou Fernando Mitre, da TV Bandeirantes. Ou, como disse de outro modo Carlos Marques, da Editora Três, “o Jornalismo, na Era da convergência, da notícia em tempo real e de produtos sendo formatados de maneira personalizada para cada leitor ou espectador, está a exigir dos profissionais um conhecimento mais apurado das ferramentas disponíveis e criatividade para colocá-las em prática”.
Confira a seguir a íntegra desses depoimentos:
"Vivemos uma fase de importância brutal da tecnologia. Hoje em dia, um celular vale mais que um jornal impresso. Para o futuro, devemos evitar que o Jornalismo vire marketing, essa praga que não tem compromisso com o País."

Amauri Melo
– diretor-geral da Brasil Digital (Editora Peixes, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, JBTV), braço da Companhia Brasileira de Multimídia. (Ante nossa reclamação de que três frases era muito pouco, ele retrucou: "Comigo, menos é mais”.)
“Uma das características dos avanços tecnológicos é facilitar o trabalho dos jornalistas e reduzir empregos nas redações. Mas a tecnologia agora está dando um salto muito maior e coloca em xeque a própria profissão. As mudanças são excepcionais para um fluxo maior e mais democrático da informação. Isso é bom para o Jornalismo e obriga a mídia a procurar novos caminhos para não ser engolida pela internet. Por um lado, abre novas e amplas possibilidades para os jornalistas, como blogs e inúmeras opções de atuação multimídia. De outro, a profissão terá de ser reinventada por causa dessa ‘concorrência’ de todo e qualquer cidadão. O papel de intermediador da notícia, como ainda é feito hoje, terá de ser repensado. Acabou o monopólio, o mundo ficará cada vez mais online. A saída que vejo para os jornalistas tem nome e sobrenome – qualidade e profundidade. Nessa nova realidade em que todos podem produzir notícias, as faculdades de Jornalismo correm o risco de se tornarem anacrônicas. Uma alternativa acadêmica seria transformar o curso de Jornalismo em uma especialização. Mas, por mais intensa que seja a revolução tecnológica, sempre haverá espaço para quem é curioso e saiba contar boas histórias. Ou seja, um bom repórter.”

Andrei Meireles
– diretor da sucursal de Época em Brasília
 “Os avanços tecnológicos, a multiplicidade crescente dos veículos de comunicação, a democratização da informação, a difusão em altíssima velocidade de fatos e opiniões – essas mudanças são, além de inevitáveis, muito bem-vindas. Obrigam cada meio de comunicação a adaptar-se aos novos tempos e a atender a demandas sempre justas do público. Melhoram a qualidade da informação. E ampliam o mercado de trabalho dos bons jornalistas, capazes de fundir a informação consistente e a análise correta. Nada substitui o talento humano, esse sim decisivo e imprescindível para a perenidade do Jornalismo, em qualquer tempo, independentemente de meios e tecnologias.”

Augusto Nunes
– diretor de Jornalismo da Companhia Brasileira de Mídia
“Há, evidentemente um ganho com a tecnologia: o jornalista passará a contar com mais recursos na apuração e mais rapidez na difusão. Os novos meios exigirão maior flexibilidade do profissional para se movimentar simultaneamente em ambientes diferentes. Mas, na essência, o trabalho será o mesmo. Grandes capítulos que marcaram a profissão foram escritos nas velhas – e barulhentas – Remingtons e Olivettis. Hoje são produzidos em Sansungs e Sonys. A gênese da apuração e do bom texto tiveram, têm e, acho eu, terão pouca influência da máquina. Simplificando: se o jogador não for bom, a bola não ajuda.”

Bruno Thys
– diretor de Redação do grupo de populares do Infoglobo – Extra, Diário de S. Paulo e Expresso
 “No novo cenário, que já está desenhado, acho que a palavra mágica para os profissionais de Jornalismo é, em primeiro lugar, versatilidade. A capacidade de atuar ou de se adaptar às várias mídias e às suas diferentes demandas. O Jornalismo, na Era da convergência, da notícia em tempo real e de produtos sendo formatados de maneira personalizada para cada leitor ou espectador, está a exigir dos profissionais um conhecimento mais apurado das ferramentas disponíveis e criatividade para colocá-las em prática.
Segunda missão, e essa fundamental para a sobrevivência no meio: cada repórter, editor ou publisher tem que se empenhar ainda mais na busca do conteúdo diferenciado. O profissional que quiser se destacar terá de oferecer o algo mais nas matérias que publica – agregar valor ao que informa, de acordo com a sua própria bagagem de conhecimento e estilo. Na prática, é a volta ou a valorização, mais uma vez, do chamado ‘jornalismo de autor’, que projetou e continua a projetar tantos profissionais.
A revisão do modus operandi da atividade em nenhum momento vai significar o fim dela como a conhecemos. A prática do jornalismo continua vital em todas as sociedades ditas democráticas e que têm na informação um instrumento de desenvolvimento. Mas, como em todos os ramos, a adaptação aos tempos é algo inevitável.

Carlos José Marques
– diretor Editorial da Editora Três (IstoÉ, Dinheiro, Gente, Dinheiro Rural, Planeta, Menu e MotorShow); diretor de Redação de IstoÉ e Dinheiro
“Das Atas Diurnas criadas por Julio César (os mais antigos escritos aparentados com jornal), passando pela era dos tipos móveis nascidos no Século XV, até a comunicação em tempo real  pela web, a arte de noticiar evolui, sob maior ou menor pressão, numa mesma linha de exigência: a busca da precisão em atendimento ao interesse público. É claro que sempre houve, nos solavancos deste enredo, retrocessos brutais e outros mais sutis, embora não menos devastadores. São fases.
Logicamente, no mundo da internet e da simultaneidade, velhas ameaças de inibição e controle da informação se desfazem como pó, embora várias formas de dominação ganhem corpo na área. Entre outras, grandes conglomerados e suas relações com o poder compõem a conhecida pauta de debates.
Mas fiquemos na tecnologia e na atividade básica do jornalista – a maneira mais simples de pensar o nosso futuro profissional.
No que é a essência, a razão de ser da atividade jornalística e seu objetivo principal, não há mudança de natureza. Nem pode. Capturar e selecionar o fato, dimensioná-lo, construir o texto, consolidar a matéria, revelando suas possibilidades de significação – isso é básico e está acima de qualquer aparato tecnológico. Unido a preceitos como o do respeito à realidade, digamos, jornalística – a chamada realidade factual – e à saudável disposição de criticar e fiscalizar os que atuam com poder sobre a vida da sociedade, aí se completa o fundamental da nossa atividade profissional.
Era assim (ou devia ser) no passado; assim é (ou deveria ser) no presente e será (ou deverá ser) assim no futuro, aspecto independente de qual seja o suporte físico da notícia.
Mas se há mudanças significativas? É claro: as transformações nos processos de modernização que vivemos provocam o tempo todo, instigando a competência do jornalista – e aqui não estou me referindo ao óbvio aprimoramento profissional para lidar com novos instrumentos tecnológicos. Mais tecnologia exige mais segurança e, portanto, mais preparo e eficiência na área do... conteúdo. 
Quando entrei pela primeira vez numa redação de jornal, o processo de preparação de uma edição diária, suas etapas e seus meios de supervisão quase nada tinham a ver com o que se faz hoje. Vejo agora um pauteiro-repórter-redator-editor-diagramador trabalhando na tela do computador e me lembro de um grupo de profissionais de outros tempos, cada um cumprindo sua etapa. Lá embaixo, na oficina, outra série de etapas hoje inexistentes complementaria o processo. Um processo que, por sua própria natureza, passava por várias fases de supervisão.
Não é difícil concluir que o profissional-síntese de hoje (ouvi essa expressão num debate e gostei ) deve – pelo menos teoricamente – concentrar também a competência de vários. E aí a segurança no conteúdo é o prato de resistência. Teoricamente, pelo menos.”

Fernando Mitre – diretor de Jornalismo da TV Bandeirantes
“Foi preciso aguardar 500 anos, desde que Gutemberg tirou o conhecimento dos mosteiros, para se presenciar uma revolução tão extraordinária quanto a digital. São boas novas para o processo democrático. Qualquer um pode ter o seu próprio veículo, um site, um blog. Tanto os jornalistas quanto os vizinhos do Jefferson. Os custos gráficos, e o capital, deixaram de ser um limitador para a liberdade de expressão. Qualquer um pode ter sua própria emissora de tevê com equipamentos que custam um carro popular. É democrático. Apesar de, eventualmente, poder gerar crises de credibilidade. Mas há uma questão relevante ainda não resolvida: o modelo do negócio. Ter seu próprio veículo não quer dizer que o jornalista vá sobreviver disso. A internet ainda não se tornou economicamente viável. O que fazer? Ora, nem os editores do New York Times sabem. Diante dessa dura realidade, o melhor a fazer é ligar o computador e criar seu próprio blog. Naquele século e meio que durou entre a Revolução Francesa e a viabilização dos jornais como negócio, centenas de milhares de cérebros pensantes, ideólogos e idealistas fizeram exatamente isso: abriram seus próprios (e pequenos) jornais, pois tinham algo de relevante a dizer. Façam o mesmo! Façam um blog. A TV digital vem aí; criem um novo canal.”

Hugo Studart
– diretor da sucursal de IstoÉ em Brasília
 “Entendo que o futuro do jornalista é ser crescentemente valorizado. Há 30 anos, gastávamos 90% do nosso esforço recolhendo e organizando informações. E era importante. Agora que passamos 90% do tempo DESCARTANDO e organizando informações, é absolutamente essencial. Nosso papel de intermediários e processadores de diferentes realidades será cada vez mais complexo e vital, portanto. Naturalmente, este perfil vai exigir jornalistas com maior capacidade de análise e interpretação. O espaço do flagrante e da mera descrição de fatos será crescentemente preenchido por amadores ou cidadãos comuns, gostemos ou não. Para nós, contudo, ficará reservado o papel mais fundamental: fazer as conexões da realidade e traduzi-las em linguagem atraente e compreensível, imprimindo cada vez mais estilo pessoal, seja em textos ou fotos e ilustrações.”

Marcelo Rech – diretor de Redação de Zero Hora e diretor de Conteúdo dos jornais do Grupo RBS
 “Não há dúvida de que material jornalístico tem sido produzido e oferecido ao público em quantidade muito maior do que no passado recente. Os meios e formatos para veicular essa produção também se multiplicaram. Existe hoje uma competição muito mais acirrada pela atenção do consumidor de informações.
Parece provável que as formas clássicas de jornalismo (jornais, revistas informativas e telejornais) vão conviver com as formas mais recentes (telejornais de tevê por assinatura, sites noticiosos na internet, blogs).
Também parece provável que jornais e revistas mantenham duas plataformas complementares, a impressa e a eletrônica, como já vem ocorrendo. A maioria dos sites noticiosos de audiência expressiva pertence a jornais de credibilidade. Por razões de custo, a tendência é que o material impresso seja cada vez mais seletivo, de modo a consumir menos papel.
É plausível esperar que os sites se especializem na informação breve e imediata (além de material de pesquisa e comunicação interativa), enquanto os jornais impressos se dediquem a oferecer uma síntese analítica que organize o excesso de informação divulgada a cada 24 horas.
Tudo indica que haverá espaço para todos os tipos de jornalismo, desde o mais leve até o de melhor qualidade.
Mas o jornalismo de qualidade é caro. O grande desafio dos jornais comprometidos com a busca da qualidade será o de reter circulação e publicidade na versão impressa, e assegurar receita publicitária crescente na versão eletrônica.”

Otavio Frias Filho – diretor de Redação da Folha de S.Paulo
 “Penso no futuro dos jornalistas, e me ocorre uma frase utilizada há pouco pelo novo diretor da revista Time, Richard Stingel. Stingel disse que o papel da nova Time é decifrar para seu público um mundo crescentemente complexo e mutante. Não há nenhuma novidade revolucionária nas palavras dele, mas elas de certa forma nos lembram da missão essencial de um jornalista – ontem, hoje, sempre. Sob quaisquer circunstâncias, em qualquer mídia – tradicional, nova, novíssima. Ajudar o público a entender o mundo. Essa missão é permanente. Resiste ao tempo. Quanto mais complexas as coisas, e vivemos numa era de grande complexidade, mais relevante a missão do bom jornalismo e do bom jornalista. A mídia em que será exercida essa missão não importa. Pode ser revista, ou rádio, ou tevê, ou jornal. Pode ser blog, ou site, ou celular. Pode ser uma mistura desses meios. Para citar mais uma vez a Time, o novo mandamento lá é que a revista impressa e o site (no qual os blogs são a grande atração) formam, juntos, um todo. Não são partes isoladas, mas peças que se integram e se completam harmoniosamente. Por mais mídias que surjam, por mais mudanças que a tecnologia traga, a missão do bom jornalismo estará lá, preservada, sequiosa por gente talentosa que a pratique em benefício da sociedade.”

Paulo Nogueira – diretor Editorial da Editora Globo

 “Nós, jornalistas, fomos classicamente treinados no que eu chamo de ‘lógica da oferta’. Fomos treinados a sermos os intermediadores da notícia, a ponte entre os fatos e os nossos públicos. A apurar e a editar, enfim. O advento da internet introduziu fortemente, no ambiente de comunicação e também em outros setores, a ‘lógica da demanda’. Ou seja, o público passou a editar conteúdo, e até a influenciar a oferta pelos seus hábitos de ‘leitura’ – leia-se navegação. Num estágio inicial (que ainda vivemos, em certa medida) da nova mídia, é natural que isso assuste certos profissionais, e ao mesmo tempo encante o público, pelo impacto da novidade. Ora, nunca foi tão fácil navegar, pesquisar e garimpar conteúdos, aqui e ali, de fontes boas e outras nem tanto. Mas, passada a fase inicial do encantamento, logo se perceberá – e já se está percebendo – que certas informações carecem de contexto, de nexo. Assim, a nova mídia se consolida naquilo que tem de peculiar e vai sedimentando suas características mais fortes –interatividade, instantaneidade, possibilidades audiovisuais. E o leitor ou internauta começa a perceber, de novo, o valor do conteúdo editado. E sobressai a análise, a construção de contexto, de nexo – e aí tanto faz, se no papel ou na web.
Minha perspectiva é a de que sempre haverá demanda por conteúdos editados. Independente da mídia, se no papel ou na internet. E isso vai demandar, mais e mais, jornalistas bem formados, bem preparados. Nada diferente do que sempre foi. Mas, agora, com muito mais possibilidades de veiculação.”

Ricardo Gandour – diretor de Conteúdo de O Estado de S. Paulo

“Os desafios para os profissionais do Jornalismo são permanentes e acredito que vão além de avanços tecnológicos e/ou novos meios, pois, mesmo neste contexto, na verdade continuam presentes os requisitos de sempre: mais qualificação, melhor nível educacional e cultural, comprometimento com a verdade e visão pluralista do mundo. As pessoas que continuarão produzindo os conteúdos que serão difundidos pelos meios de comunicação terão que ser mais e mais atentas ao seu preparo, a fim de atender a um leitor/ouvinte/telespectador cada vez mais exigente. Mas isso tem sido assim nas últimas décadas, não há um mistério especial neste processo. Ainda não inventaram a fórmula de fazer um veículo de comunicação qualificado sem jornalistas qualificados. Os órgãos que tentaram – e não foram poucos – perderam relevância ou nem existem mais. Portanto, se as notícias daqui a vinte anos serão transmitidas pelo papel, por um e-paper, pela internet, pelo celular, por sinais de fumaça, ou por tudo isso junto, não importa: por trás desse aparato, terá sempre um jornalista. E quanto mais qualificado for este profissional, mais credibilidade terá o seu veículo e mais relevância ele alcançará na disputa com os concorrentes. O nome desse jogo é: profissional preparado e veículo com credibilidade – hoje ou no futuro.”

Rodolfo Fernandes – diretor de Redação e Editor Responsável do jornal O Globo

"Primeiro, acho que vai acabar com a reserva de mercado por diploma, mas haverá um aumento sensível no nível de exigência do mercado. Acredito que os cursos de Jornalismo passarão a ser de pós-graduação, teremos médicos-jornalistas, advogados-jornalistas, sociólogos-jornalistas, por exemplo. Depois, acredito piamente na anarquia do mercado digitalizado, na proliferação indiscriminada de estações de tevê, blogs etc. O usuário acessará a estação que quiser na web, pelo comando de voz instalado em sua tela plana na parede, que recebe e emite imagem. A Teletela de George Orwell, sem o Big Brother por trás. Mas o sucesso, a grande audiência sempre será para um número reduzido de pessoas, onde irá concentrar-se a verba da publicidade. A revista semanal de informação deverá acabar. O jornal tomará seu lugar, como uma ‘revista diária de informação’, enxuto, mas de altíssima qualidade de reportagens. As revistas tenderão a ser cada vez mais segmentadas. E o velho jornalão vai para a internet, podendo ser impresso em casa, aos pedaços, dependendo do interesse do usuário, ou lido na máquina."

Tales Faria – diretor das sucursais de Brasília do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil e titular da coluna InformeJB

 

Furos e grandes nomes, na visão de grandes nomes e furões
Nossa proposta era simples: homenagear, no repórter, a figura do jornalista – afinal, quem, se não ele, representa a essência da profissão? Por isso, pedimos breves declarações de renomados profissionais da reportagem sobre quem foi, na opinião de cada um, o grande nome do jornalismo de nossa história e por quê (só não valia o próprio) e qual o furo que lhes marcou a vida e/ou o jornalismo brasileiro. Alguns responderam ao pé da letra, outros, pela metade, outros ainda derivaram. Mas todos, sem exceção, deram depoimentos consistentes.

Algumas curiosidades: entre os dez entrevistados, dois tiveram seus nomes citados por três colegas como autores de grandes furos do jornalismo nacional: Ricardo Kotscho, indicado por Caco Barcellos, pela série sobre mordomias para o Estadão, e Lula Costa Pinto, por Fernando Rodrigues e Guilherme Barros pela entrevista com Pedro Collor para Veja. Interessante também notar que, numa amostra tão pequena, três apontaram, como sendo o maior, o mesmo furo na outra ponta do escândalo Collor: a entrevista de Mino Pedrosa e João Santana, de IstoÉ, com o motorista Eriberto França, que recebeu os votos do próprio Lula, de Fernando Rodrigues (ele indicou dois furos) e de Lillian Witte Fibe. Como grande personalidade do jornalismo brasileiro, o vencedor foi Claudio Abramo, com os votos de Fernando, Lillian e Kotscho. Guilherme e Marcos Sá Corrêa indicaram Elio Gaspari. Os demais apontaram João Guimarães Rosa (Caco), Samuel Wainer (Fátima Turci), Dorritt Harazim (Lula), Carlos Lacerda (Luís Nassif) e Mário Mazzei Guimarães (José Hamilton Ribeiro).

As opiniões estão detalhadas a seguir. De quebra, uma palavra quase oficial sobre a data, também de um grande repórter: Audálio Dantas, da ABI.

 

“Não sei se podemos chamá-lo assim, mas para mim o maior repórter brasileiro foi João Guimarães Rosa. Grande Sertão – Veredas, além de literatura, é uma grande reportagem.
Considero a série de reportagens sobre as mordomias, que Ricardo Kotscho fez no Estadão em 1975, como o maior furo da imprensa brasileira. Aquelas denúncias sobre corrupção e privilégios em plena ditadura têm um grande simbolismo.”

Caco Barcellos – repórter da TV Globo

 

“O melhor jornalista é Samuel Wainer.  A escolha é pelo conjunto da obra, pela revolução na imprensa e pelo caráter empreendedor, mas sem deixar de questionar muitos dos métodos e da condução ética do seu trabalho, o que nos remete a boa reflexão sobre a atualidade.
O furo. Neste momento em que celebridades são enaltecidas como estandartes nacionais, transformando big brothers em heróis e estrelas, acho que é hora da nossa categoria refletir e homenagear os milhares de jornalistas anônimos, que diariamente correm atrás da mais pura notícia, talvez do verdadeiro furo. Sem espaço aqui para grandes polêmicas, vamos apenas provocar debate. Há muito não temos a busca do furo de reportagem, seja por comprometimento político ou econômico dos veículos de comunicação ou por redução de pessoal que impede qualquer jornalista de dedicar tempo para ir atrás da notícia. Os chamados furos têm sido dados de mão beijada a jornalistas escolhidos por fontes interessadas em manipular informações. Prefiro enaltecer, sim, uma categoria inteira, que dia-a-dia busca a notícia que afeta diretamente a vida do País.”

Fátima Turci – Apresentadora do programa Economia e Negócios, na Rede Mulher

 

“Considero Cláudio Abramo o maior nome da história do jornalismo brasileiro por duas razões: as posições claras dele sobre o que era a atividade jornalística e a contribuição que deu para a modernização da profissão.
Quanto ao maior furo, na realidade foram dois, ambos ligados ao mesmo episódio, o impeachment do ex-presidente Fernando Collor: o primeiro foi a entrevista com o irmão dele, Pedro, que Luís Costa Pinto fez para Veja, que desencadeou todo o processo; o segundo foi a matéria de João Santana e Mino Pedrosa, em IstoÉ, com o motorista Eriberto França, que praticamente liquidou a fatura.”

Fernando Rodrigues – repórter de Política da Folha de S.Paulo, em Brasília

 

“O maior jornalista eu acho que é o Elio Gaspari. Já o maior furo acho difícil de apontar, mas eu diria que talvez seja, pelo menos na história recente, a entrevista do Pedro Collor. Mudou a história, no meu entender. Já o maior furo mundial talvez seja o Watergate.”

Guilherme Barros – titular da coluna Mercado Aberto, da Folha de S.Paulo

 

"Ficaria entre Mino, Raimundo Pereira e Mário Mazzei Guimarães.
No fim, opto por Mazzei. Foi diretor de Redação da Folha quando se fez o primeiro manual de redação. Foi também sob sua administração que a Folha se tornou o jornal de maior circulação do País, o que mantém até hoje (antes do Mazzei, a Folha disputava o terceiro lugar em São Paulo).
Era chefe de Redação, mas, também, repórter. Ganhou nessa condição o Prêmio Esso Nacional com uma matéria sobre o rio São Francisco (ô assunto recorrente...).
É pioneiro do jornalismo ecológico no Brasil, embora possivelmente nem usasse essa expressão. Defendia a natureza, as matas, quando todo mundo só falava em derrubar e queimar.
Apesar de homem de confiança de Nabantino (então dono da Folha e homem criativo e grande empreendedor), Mazzei não era puxa-saco de patrão. Na histórica greve de 61 dos jornalistas de São Paulo, estava no piquete que foi obrigado a enfrentar a carga de água que a polícia aplicou nos grevistas acampados diante da redação dos Diários.
Mazzei sempre falou com orgulho de ter sido membro do ‘piquete da bunda molhada’, evento que foi determinante do êxito da greve, e que, por ironia, teria sido a razão de Nabantino (que era quem ‘bancava’ Mazzei) ter desistido de mexer com jornal (acabou vendendo para o Frias).
O furo que marcou a minha vida de jornalista não foi meu. Foi do Neil Ferreira.
O Neil agora anda pela publicidade. Não acostumou a ganhar pouco, então deixou o jornalismo.
Mas, nos anos 60, na Folha – então jovenzinho e tão bonito! – Neil era o repórter que cada um de nós queria ser. O texto, simples e primoroso; a informação precisa e importante; a notícia que só ele tinha; a emoção que passava.
A reportagem do Neil sobre a pesca da baleia (trucidamento) na Paraíba é inesquecível: foi o furo que eu queria ter dado.”

José Hamilton Ribeiro – repórter do Globo Rural

 

 “Impossível saber quando o público brasileiro voltará a ser informado por algum veículo, qualquer um, de qualquer mídia, dirigido pelo brilho, talento, genialidade e integridade do jornalista Claudio Abramo, que morreu em 14 de agosto de 1987. É um detalhe, mas veja só a coincidência: se estivesse vivo, Claudio estaria completando 84 anos justamente neste 6 de abril. Jesus, que shows de competência, agilidade e criatividade ele dava na Folha de S.Paulo. Em 11 de setembro de 1973, eu o vi contando à redação que o presidente do Chile, Salvador Allende, tinha acabado de se matar. Menos de 5 meses depois, em 1º de fevereiro de 1974, eu tive o privilégio de trabalhar na edição extra que a Folha poria nas bancas às 3 da tarde sobre o incêndio do edifício Joelma, no centro de São Paulo.
O que aprendi com essas e tantas outras experiências de grandes crises sob o comando de Claudio? Além de um jornalista completo e intelectual, era também um genial operador de redação. Na hora da crise, ele empunhava as rédeas da cobertura como um maestro. Rápido, ‘desmanchava’ o time para refazê-lo em função do acontecimento que importaria ao leitor. Organizava a saída dos repórteres, nomeava uma espécie de ‘comitê'’ daquela edição, e ainda – creiam-me, jovens estudantes – era, de longe, o melhor diagramador do jornal. Desenhava pessoalmente as páginas e nos surpreendia e brindava com manchetes e títulos absolutamente brilhantes.
No dia seguinte, eu pegava o jornal em casa, e meu queixo caía ao ver aqueles títulos.”

Lillian Witte Fibe

 

“Na minha opinião, a maior jornalista brasileira em todos os tempos é Dorrit Harazim. Ela detém o mais elegante texto do jornalismo brasileiro e alia isso ao rigor de apurações implacáveis. Sua sólida formação intelectual faz com que os textos jornalísticos sejam permeados por verdadeiras lições de contextualização. Além disso, é a mais competente líder de equipes de jornalistas em grandes coberturas, como Olimpíadas, Copas do Mundo, escolhas de Papas e Golpes de Estado e também cultiva como poucos a sábia arte de preparar grandes repórteres: dedica-se a explicar aos mais jovens, aos menos experientes, o porquê de cada pedido, o porquê de cada exigência. Então, para mim, é a Dorritt Harazim.
Quanto ao furo: a descoberta de Eriberto França, feita por Mino Pedrosa, na Istoé, é um dos momentos épicos do jornalismo. Tão épico que até hoje essa história ainda tem um mistério: por quê o Eriberto, um motorista como tantos outros que poderia estar cego e embevecido pelo fato de trabalhar com poderosos, copiava os cheques que lhe eram encaminhados? Ele não fez isso apenas próximo à denúncia – fazia isso sistematicamente, muito antes de Pedro denunciar PC e Collor. Por quê? Até hoje não sabemos. Descobrir Eriberto permitiu à CPI do PC dar um rumo às investigações e isso levou à conclusão pelo impeachment. Esse é o furo no qual voto.”

Luís “Lula” Costa Pinto – repórter especial do Correio Braziliense

 

“O mais influente jornalista da história moderna brasileira foi Carlos Lacerda. Ajudou numa queda de Getúlio Vargas, no lançamento da candidatura de Jânio Quadros e, posteriormente, na sua renúncia. Tinha erudição, dominava os fundamentos da economia e, mais tarde, revelou-se grande administrador. Só que o jornalismo que praticava era ideológico, do ‘esquentamento’ das denúncias, do uso da informação como uma arma, da transformação de qualquer irrelevância em denúncia ‘grave’.  Era jornalismo? Cinqüenta anos depois continuou fazendo escola, mas com seguidores de muito menos talento.
O furo da minha vida foi a denúncia da manipulação do segundo decreto do Plano Cruzado pelo então consultor-geral da República Saulo Ramos. A denúncia me valeu o Prêmio Esso Categoria Nacional de 1986. E também um processo do Saulo Ramos, que contava, como uma das peças centrais, com uma carta de solidariedade assinada pelos economistas do Cruzado -- minhas fontes na denúncia.”

Luís Nassif – diretor da Agência Dinheiro Vivo

 

 “Elio Gaspari. Porque escreveu, com seus livros sobre os governos militares, a melhor reportagem política de várias gerações.
O furo, acho que foi uma reportagem que fiz, ainda estudante secundário, com a cara-de-pau da juventude e coragem da ignorância, sobre a passagem do pintor Alberto da Veiga Guignard por Itatiaia, onde morou num hotel do parque nacional, deixando dezenas de pinturas para trás. Eu estava de férias na serra. Levava na bagagem uma velha câmera Kodak Retina IIIC, meia dúzia de lâmpadas para o flash e dois rolos de filme Ektachrome. Não tinha a menor idéia de como se contava uma história  jornalística. Por isso mesmo, apurei, entrevistei, escrevi, fotografei e levei texto e fotos à revista Manchete, na praia do Flamengo, que a publicou uma semana depois em seis ou sete páginas coloridas. Eu fiquei achando que jornalismo era assim mesmo – feito nas horas vagas, ao ar livre e, de quebra, ainda pagava bem mais do que uma mesada.”

Marcos Sá Corrêa – escreve no site NoMínimo e na revista Piauí.

 

 “O grande nome do jornalismo brasileiro que eu conheci foi Claudio Abramo, o visionário realista que aliou um talento único para reformular jornais e comandar redações àquilo que ele mesmo definiu como a ‘ética do carpinteiro’ – quer dizer, fazer as coisas direito, com honestidade.
Não foi bem um furo, mas a cobertura completa da Campanha das Diretas, em 1984, um trabalho da equipe de reportagem da Folha de S.Paulo do qual eu tive muito orgulho de participar.”

Ricardo Kotscho

 

7 de abril
“Há várias datas dedicadas aos jornalistas no Brasil. Temos o que podemos chamar de nosso dia – o 7 deabril – , que deve servir para uma reflexão mais aprofundadasobre o papel que nos cabe como profissionais da informação. Lembrar-nos, por exemplo, que a informação verdadeira a que tem direito a sociedade nem sempre é possível. E que nem todos os que clamam pela liberdade de imprensa o fazem no interesse geral.
No entanto é preciso lembrar que essa liberdade é essencial para a preservação das demais, quer dizer, do próprio sistema democrático.
Aproveito a oportunidade para lembrar que Associação Brasileira de Imprensa, fundada nessa data há 99 anos, marcou a sua história pela defesa intransigente da liberdade de informação. No próximo Dia do Jornalista, 7 de abril de 2008, quando completará 100 anos, será essa luta o principal motivo de comemoração.”

Audálio Dantas – vice-presidente da ABI e presidente da Representação em São Paulo


Os veículos, a Academia e a formação profissional do jornalista
Aonde quer que se vá, já nos acostumamos a ouvir queixas quanto à baixa qualidade da educação formal no Brasil e que ela é um dos grandes inibidores ao desenvolvimento do País. Agora mesmo acabamos de ser informados sobre um grande pacote de medidas governamentais que, mais uma vez, pretende resolver, igualmente de vez, o problema da baixa qualidade do ensino brasileiro. Num cenário como esse, como não poderia deixar de ser, o Jornalismo não é exceção. Uma das queixas mais comuns diz respeito à proliferação de faculdades por todo o território nacional sem a adequada contrapartida tanto de infraestrutura (laboratórios de jornalismo, rádio e tevê, por exemplo) quanto de um corpo docente apto a preparar os futuros profissionais para um mercado em constante mutação, que enfrenta a concorrência efetiva da figura do repórter-cidadão, dos milhões de blogs que hoje disseminam informação por todos os poros da humanidade, das centenas e milhares de sites e portais alojados na web, das rádios e tevês digitais, da telefonia móvel e do que mais está por vir.
Face a esse quadro, pedimos a representantes da Academia e de veículos de comunicação reflexões sobre como encontrar caminhos comuns para aproximar uma de outros, o quê fazer para que essas instituições recuperem o poder de reflexão, de pensar a atividade, de sair do mecanicismo, de formar gerações mais críticas, criativas, ousadas.
De uma forma geral, representantes dos veículos de comunicação, naturais e principais destinos dos jovens jornalistas que todos os anos são, literalmente, despejados no mercado (estima-se algo em torno de 5 mil), não fazem críticas contundentes às instituições de ensino. Alguns até as elogiam. Muitos inclusive preferem afirmar que seus programas internos de treinamento visam atender a necessidades específicas do trabalho de cada um e não a preencher lacunas da formação profissional de jornalistas. Ana Estela de Sousa Pinto, da Folha de S. Paulo, enfatiza que a grande deficiência na formação profissional, hoje, é não se encontrarem pessoas interessadas em desenvolver as características básicas do jornalista e que as faculdades não estimulam os alunos a tê-las; ela as especifica: “Ter conhecimento para interpretar os fatos que cobre e capacidade para contá-los de forma correta – e, se possível, com graça; ser curioso, investir na sua própria formação, ler muito para ampliar o seu espectro cultural e ser esperto o suficiente para perceber quando o querem enganar”. Embora considere que a atual geração tem uma formação “um pouco melhor” do que a de vinte anos atrás, Nívia Carvalho, de O Globo, diz que os jovens de hoje escrevem bem, mas seus textos são pasteurizados, têm um conhecimento diversificado, mas sem profundidade, desconhecem o que foi feito no jornalismo nos últimos anos e não têm o hábito de ler jornal: “A grande vantagem deles é o domínio de ferramentas; é a primeira geração que entra nas redações sem precisar aprender o básico”. Francisco Ornellas, do Estadão, garante haver motivos mais do que suficientes para continuar acreditando no jornalismo e usa como justificativa para essa opinião os 510 novos jornalistas que os cursos internos do jornal ajudaram a formar entre 1990 e 2006: “A maioria absoluta deles – 96% –  atua hoje em grandes redações do País. São os jovens que fazem a imprensa hoje e habitam as redações. Não há como negar-lhes competência, eficiência, empenho, ética”. Para Ricardo Stefanelli, de Zero Hora, a universidade não tem que preparar o estudante para a prática: “Ela deve instigá-lo a questionar, deixar a sua mente aberta para o debate e, claro, dar-lhe os fundamentos teóricos. E isso, a meu ver, as faculdades de jornalismo do Rio Grande do Sul têm feito muito bem. As novas gerações me parecem cada vez mais bem preparadas e mais precoces. Nós é que vamos ensinar a prática a esses estudantes”. E Hamilton dos Santos, da Abril, arrisca uma proposta para aproximar os futuros jornalistas brasileiros da realidade do mercado editorial: “Basta deixar de lado as obsessões ideológicas ultrapassadas e centrar fogo em pesquisas que resultem em boas saídas para a produção de conteúdos em multiplataformas, digitais e analógicas”.
Pelo lado da Academia, Carlos Chaparro, da ECA-USP, enfatiza a importância do jornalismo para os processos da construção democrática (“Não há como pensar em democracia sem jornalismo.”), mas ressalva que os jornalistas terão de se capacitar – técnica, ética e intelectualmente – para atuarem nesses processos como narradores confiáveis de uma atualidade cada vez mais complexa: “Terão de ser profissionais que sabem alcançar e compreender o âmago dos conflitos, capazes, portanto, de enxergar nos fatos não apenas o que eles são, mas, principalmente, o que significam”. E José Marques de Melo, fundador da ECA-USP, embora faça uma veemente defesa dos jornalistas hoje diplomados no que chama de “instituições de qualidade” (“... possuem competência suficiente para ocupar postos de trabalho nas redações das empresas do ramo...”), identifica que falta uma maior interação com o mercado e a sociedade: “O restabelecimento do estágio ajudaria a refinar o treinamento profissional. O controle da qualidade do ensino pela corporação jornalística, mediado pelo governo, poderia separar o joio do trigo, colocando em quarentena as ‘fábricas de diploma’ (escolas de baixo nível)”.

Confira a seguir a íntegra desses depoimentos:

 

“Não concordo com a tese de que a profusão de mídias da atualidade esteja a exigir do profissional de jornalismo uma formação muito diferente da que sempre foi necessária para o bom desempenho da atividade. A qualidade do trabalho que se requer é a mesma, bem como as competências fundamentais do profissional que o faz: ele precisa ter conhecimento para interpretar os fatos que cobre e capacidade para contá-los de forma correta – e, se possível, com graça; precisa ser curioso, investir na sua própria formação, ler muito para ampliar o seu espectro cultural e ser esperto o suficiente para perceber quando o querem enganar. O aparato tecnológico hoje existente não muda isso; é razoavelmente fácil aprender a usá-lo.
Creio que a grande deficiência na formação profissional, hoje, é não encontrarmos pessoas interessadas em desenvolver aquelas características básicas. As faculdades de Jornalismo também não estimulam os alunos a tê-las. Muitas não oferecem oportunidade de que eles apliquem na prática os conhecimentos teóricos que adquirem, seja por não terem jornais-laboratório ou porque estes não são bons ou porque muitos professores não têm vivência profissional. Os alunos saem da faculdade sem saber português. É certo que essa deficiência não nasceu no curso superior, mas é um absurdo que um aluno de Jornalismo saia da faculdade sem saber escrever.
Na Folha, temos atacado esse problema por meio de convênios – com a USP e a FIAM, por exemplo –, pelos quais nossos profissionais dão aulas nas faculdades; e com o nosso Programa de Treinamento, que forma 20 profissionais por ano, todos depois contratados para nossos veículos (só não fica quem opta por ir para outro lugar). O segredo desse índice de aproveitamento é uma rigorosa seleção dos candidatos.”

Ana Estela de Sousa Pinto – coordenadora do Programa de Treinamento da Folha de S. Paulo

 

“Peculiaridade da atividade jornalística, não creio que o inconformismo deva permear também nossa visão sobre a formação atual do jornalista. Por uma razão simplíssima: o jornalismo brasileiro é, hoje, melhor do que era há 20 ou 30 anos. Mais profissional, menos partidário. Há escolas ruins, faltam mais reportagens? Sim, tudo é verdade, mas não há como negar que o profissional de hoje está mais preparado.
Tenho detectado isto ao longo dos últimos 18 anos, desde que o Curso Estado de Jornalismo foi instituído. A própria existência de programas desse tipo, hoje empreendidos por várias empresas brasileiras, sinaliza na direção do otimismo. No caso do curso orientado pelas redações do Grupo Estado, no período 1990-2006 ele foi disputado por cerca de 23 mil postulantes e colaborou com a formação de 510 novos jornalistas. A maioria absoluta deles – 96% –  atua hoje em grandes redações do País. São os jovens que fazem a imprensa hoje e habitam as redações. Não há como negar-lhes competência, eficiência, empenho, ética. Há motivos mais do que suficientes para continuar acreditando no jornalismo.”

Francisco Ornellas – Curso Estado de Jornalismo

 

"Os programas de treinamento editorial das grandes empresas de comunicação sempre investiram no incremento da capacidade técnica de seus profissionais. Atualmente, o foco estende-se também à formação de base, para tentar suprir a lacunosa formação que recebem nas escolas, desde o ensino fundamental. 
O bom treinamento editorial é o que se esforça para instilar nas redações a preocupação com uma formação intelectual adequada, levando o profissional a revisitar o fazer jornalístico e retomar o contato com a esfera acadêmica. A boa prática decorre de boa formulação teórica e a teoria depende dos resultados observados na prática. Por isso, é necessário fortalecer o elo com a sala de aula e o jornalista, por sua vez, precisa entender esse elo como salvaguarda de sua já combalida imagem – a percepção de que ele é despreparado e imaturo para o mercado de trabalho se espraia na opinião pública.
O Google nasceu no ambiente acadêmico de Stanford enquanto algumas de nossas universidades se dedicavam a discussões bizantinas. Para aproximar os futuros jornalistas brasileiros da realidade do mercado editorial basta deixar de lado as obsessões ideológicas ultrapassadas e centrar fogo em pesquisas que resultem em boas saídas para a produção de conteúdos em multiplataformas, digitais e analógicas.”

Hamilton dos Santos – diretor de Treinamento e Desenvolvimento Editorial do Grupo Abril

 

 “Nestes 60 anos de experiência acumulada na formação universitária de jornalistas, o Brasil construiu uma matriz pedagógica que lhe confere singularidade no panorama mundial. Mesclando o padrão europeu (ensino teórico) com o modelo americano (aprendizagem pragmática), logramos uma via crítico-experimental que está em processo de aperfeiçoamento.
Os jornalistas hoje diplomados nas instituições de qualidade possuem competência suficiente para ocupar postos de trabalho nas redações das empresas do ramo. Sua formação para o mercado se dá em laboratórios e agências experimentais. Sua preparação para o exercício da cidadania responsável transcorre em aulas e seminários que ensinam a pensar, conduzindo à aprendizagem permanente.
É um sistema perfeito? Absolutamente não. Mas pode ser melhorado. Falta uma maior interação com o mercado e a sociedade. O restabelecimento do estágio ajudaria a refinar o treinamento profissional. O controle da qualidade do ensino pela corporação jornalística, mediado pelo governo, poderia separar o joio do trigo, colocando em quarentena as ‘fábricas de diploma’ (escolas  de baixo nível).”

José Marques de Melo – Fundador do Departamento de Jornalismo da Universidade de São Paulo

 

 “O Dia do Jornalista deveria ser festejado com reflexão. Reflexão, principalmente, sobre os novos papéis que o jornalismo terá de assumir, nos atuais formatos de relações de poder que organizam as sociedades contemporâneas, marcadas pelo desembaraço e pela competência com que os atores sociais usam a notícia, como forma de agir no mundo e sobre o mundo.
A notícia, antes controlada pelo jornalista, conquistou autonomia. Circula em redes universais sem depender da ação mediadora do jornalismo. Em decorrência, mudaram a lógica e as estratégias das interações sociais que se utilizam do jornalismo como ferramenta do sucesso.
Porém, nem o jornalismo nem os jornalistas perderam importância. Ao contrário: como linguagem e como espaço público dos conflitos que interessam à democracia e à civilização, o jornalismo se tornou partícipe essencial dos processos da construção democrática. Não há como pensar em democracia sem jornalismo. Mas os jornalistas terão de se capacitar – técnica, ética e intelectualmente – para atuarem nesses processos como narradores confiáveis de uma atualidade cada vez mais complexa. Terão de ser profissionais que sabem alcançar e compreender o âmago dos conflitos, capazes, portanto, de enxergar nos fatos não apenas o que eles são, mas, principalmente, o que significam. O jornalista do século XXI terá de saber usar as artes da narração e assumir responsabilidades de intelectual, tendo como referencial obrigatório os ideários éticos da sociedade.
Este é o profissional que a Universidade terá de formar.”

Carlos Chaparro – professor de Jornalismo da ECA-USP

 

“A multiplicação dos programas de estágio nas grandes empresas é prova de que os jovens precisam de treinamento. São programas muito sérios, e isto é um alerta para a Academia. Existe, sim, um hiato enorme entre a universidade e o mercado de trabalho. Em algum momento, precisaremos abrir um canal de aproximação. A nova geração tem virtudes, mas tem problemas. Porém, é preciso ter cautela nesta avaliação. Será que a nossa geração saiu preparada da universidade? Se compararmos com vinte anos atrás, o jovem de hoje teve uma educação um pouco melhor. Eles escrevem bem, mas o texto é pasteurizado, pouco criativo, sem preocupação em desenvolver um estilo. Consomem muita informação, o que lhes dá um conhecimento diversificado, mas sem profundidade. Há um desconhecimento do que foi feito de jornalismo nos últimos anos, além de não terem o hábito de ler jornal. A grande vantagem é o domínio de ferramentas: é a primeira geração que entra nas redações sem precisar aprender o básico.
O Programa de Estágio Multimídia, que eu coordeno, uma parceria entre o Infoglobo e o Sistema Globo de Rádio, dura um ano e, nele, os participantes passam, em rodízio, pelas principais editorias dos impressos O Globo e Extra, pelo Globo Online e pelas rádios Globo e CBN. Acompanham as etapas de produção do noticiário nas três mídias, da saída com repórteres ao fechamento da primeira página, e assistem a palestras com profissionais de diversas editorias e veículos.
Termos ainda a Academia Infoglobo, o centro do processo de qualificação permanente dos profissionais das redações. Entre os cursos estão os de edição de vídeo para internet, introdução à reportagem com auxílio de computador, antropologia do consumo, mídia e pesquisa, criatividade e inovação, línguas estrangeiras. Até 2006, passaram pela Academia 50% dos profissionais que compõem a redação mais madura de O Globo, 79% da redação muito jovem do Extra, e 68% dos que trabalham com a linguagem inteiramente nova do Online.
E há também o Projeto Calandra, de aperfeiçoamento para novos jornalistas contratados, escolhidos em prova de seleção interna. Sem periodicidade fixa, tem como foco as discussões sobre temas atuais do jornalismo. Luiz Paulo Horta responde pela Academia e pelo Calandra.”

Nívia Carvalho – coordenadora do Programa de Estágio Multimídia do Infoglobo

 

“Temos excelentes escolas aqui, como a PUC e a UFGRS, em Porto Alegre, as faculdades em Santa Maria e Pelotas, só para citar algumas. Mas a universidade não tem que preparar o estudante para a prática. Ela deve instigá-lo a questionar, deixar a sua mente aberta para o debate e, claro, dar-lhe os fundamentos teóricos. E isso, a meu ver, as faculdades de jornalismo do Rio Grande do Sul têm feito muito bem. E as novas gerações me parecem cada vez mais bem preparadas e mais precoces. Nós é que vamos ensinar a prática a esses estudantes.
Aqui no Zero Hora o programa funciona desde 1990. Ele vem evoluindo desde então, mas o objetivo permanece: é ter os melhores estudantes de jornalismo do Rio Grande trabalhando na Redação. Hoje o programa dura cerca de dois anos. Recrutamos estudantes, preferencialmente do 3º e 4º períodos, duas vezes por ano. São cerca de 200 candidatos a cada vez, que passam por uma seleção que inclui provas de português, inglês, conhecimentos gerais, ética e texto. Entre 10 e 15 são selecionados e vêm trabalhar aqui como auxiliares de Redação, função equivalente à dos antigos contínuos, office-boys que não fazem trabalho de rua. É uma função humilde, que lhes permite, muitos deles oriundos de famílias ricas, passar por um teste de sobrevivência profissional, que se integrem socialmente. Com o tempo, eles vão galgando outras posições menores dentro da Redação, mas nunca fazem matéria, pois não queremos usá-los como mão-de-obra barata, mesmo porque é ilegal. Mas ficam conhecendo tudo e a todos e são tratados como iguais: participam de todos os treinamentos, seminários, palestras, cursos, podem sair com repórteres se quiserem, podem escrever matérias paralelas para fins de avaliação do editor, se assim desejarem. A idéia é que, quando se formarem e se tiverem demonstrado agilidade, criatividade e clara noção do trabalho, possam ser requisitados por algum editor, desde que vaga exista – mas não lhes damos garantia dessa vaga. De qualquer modo, esse processo favorece a que sejam os melhores formandos disponíveis, pois já estarão aptos a trabalhar em qualquer lugar.”

Ricardo Stefanelli – editor-chefe do Zero Hora e responsável pelo programa de treinamento do jornal


Cursos de jornalismo invadem Salvador
A cidade teve um crescente aumento de faculdades desde 2000 e, hoje, o mercado não consegue absorver todos os profissionais. Isso pode ser um exemplo do que acontece no restante do País.
Por Vanderlei Carvalho*
A demanda por cursos de jornalismo em Salvador incentivou o surgimento de faculdades particulares em curto espaço de tempo. A abertura de novos cursos tornou mais fácil o acesso à profissão, já que antes somente era possível obter essa formação pela Universidade Federal da Bahia, por meio da Faculdade de Comunicação Social. De 2000 para cá, Salvador ganhou oito faculdades privadas. Atualmente, cerca de 20 estão autorizadas pelo MEC a ensinar Jornalismo na Bahia.
A Facom, criada pela ABI, funciona desde o fim da década de 50, mas com um vestibular bastante concorrido, muitas pessoas não conseguiam nela ingressar. O aparecimento de outros cursos favoreceu a entrada de quem não era aprovado na universidade pública. Há quatro anos como coordenador do curso da Facom, Maurício Tavares avalia como de baixa qualidade a maioria das faculdades privadas, nas quais muitas vezes são formadas pessoas sem nenhum dom ou habilidade jornalística. “Não existe um órgão, a exemplo da OAB para os advogados, que aplique uma prova para filtrar esses alunos. Além disso, com a proliferação dessas faculdades, fica impossível colocar todo mundo no mercado. Hoje em dia, é comum contratarem alunos da Facom como estagiários porque os profissionais sabem que eles passaram por um processo mais rigoroso”, esclarece Tavares. Para ele, a concorrência é boa no sentido de avaliar e comparar a estrutura dos cursos com o da UFBA.
A Faculdade Integrada da Bahia deu início à propagação e estendeu a oportunidade a todos de cursarem jornalismo, sendo a primeira a implantar o curso, em 2000. Segundo sua coordenadora de Comunicação Social, Mônica Celestino, havia demanda de profissionais em Salvador e isso exigiu a formação do curso para poder suprir as carências do mercado que recebia apenas alunos da Federal. “Nos primeiros vestibulares, tivemos uma grande concorrência, muita gente tentou”, relembra Mônica. Hoje, devido à quantidade de cursos, a concorrência não é como antes e a faculdade forma aproximadamente 30 alunos por ano. “Muitos alunos acabam desistindo em função de não poderem custear os estudos ou por não terem afinidade com a área escolhida. Mas os que permanecem aqui têm a oportunidade de estudar diferentes mídias, além de aprender todas as ferramentas, técnicas, planejar estratégias e ações de comunicação”, comenta Mônica.
Já na Faculdade 2 de Julho, onde o curso existe desde 2001, o número de formados é maior. Em 2005, foram 56, e no ano passado, 45. “O aluno tem que se instrumentar para atender o mercado de trabalho. Se ele sabe fazer, está dentro; se não souber, está fora. A faculdade o prepara para atuar com webjornalismo, tevê, impresso, revista e assessoria. Temos ainda aqui um jornal-laboratório que é voltado para a sociedade, com informações de utilidade pública; assim damos voz à população e prática aos alunos”, diz o coordenador Deval Gramacho, que é formado pela Facom e está no cargo desde 2004.
Também em 2001, a Faculdade de Tecnologias e Ciências abriu o curso de Jornalismo. Em média, a FTC forma 50 alunos a cada ano. De acordo com o professor e coordenador Bernardo Carvalho, esse número tem decrescido devido à queda na procura do vestibular. Ele acredita que o crescente aumento de cursos seja um dos principais motivos para essa redução. “Damos condições efetivas aos nossos alunos para fazerem rádio e impresso. Possuímos ilhas de edição, laboratórios de tevê, internet e um semestre dedicado à disciplina de Assessoria de Comunicação. O aluno tem uma visão ampla do que é requerido pelo mercado, mas reconheço que nem todos conseguem emprego na área”, diz. Bernardo ministra a disciplina de Jornalismo Especializado e, como professor, pede aos alunos que busquem novos nichos de mercado e novas demandas para se destacarem da concorrência.
A Faculdade Regional da Bahia ainda não formou nenhuma turma, pois só implantou o Jornalismo no ano passado. A Unibahia, Faculdade da Cidade de Salvador, Faculdade Social da Bahia (FSBA) e a Faculdade Jorge Amado também oferecem Jornalismo. Com grades curriculares parecidas, elas investem em tecnologia e materiais, como câmeras digitais, filmadoras, microfones, gravadores, estúdios de tevê e rádio. Mas profissionais atuantes afirmam que os recém-formados chegam com muita técnica e pouca bagagem humanística, ou seja, sem muita reflexão sobre a conduta e a vida humana. Para Linda Bezerra, chefe de Reportagem e colunista do Correio da Bahia e editora na TV Band, as faculdades deveriam dar mais espaço às disciplinas que ensinam o aluno a refletir e analisar o homem. “Eu tenho visto textos informativos, mas não são interessantes. Um texto tem que provocar o leitor. Nele, o jornalista tem que transmitir suas vivências culturais e pessoais. Não sei se as faculdades estão preocupadas somente com quantidade e andam se esquecendo da qualidade. Mas acho que deveriam investir mais em disciplinas como a Sociologia”, ressalta. Ela analisa a proliferação de escolas como uma forma de obter lucro e considera algumas faculdades “fábricas de ganhar dinheiro”.
A presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sindijor-BA), Kardé Mourão, afirma que o órgão não é responsável pelo controle dos cursos de Jornalismo. Esta, segundo ela, seria tarefa de um Conselho Federal de Jornalismo, que ainda não foi criado. “Não é ruim ter novas faculdades. O sindicato não é contra a abertura de novos cursos, mas a favor de um controle das suas condições físicas e da didática. Nós defendemos a formação de nível superior específica em jornalismo e, hoje, lutamos pela regulamentação da profissão”, comenta. Para ela, a exigência do diploma é quesito primordial e não pode ser considerada apenas uma questão burocrática. “Vemos o nosso mercado ocupado por pessoas que não são jornalistas formados pelo ensino superior. Ter um diploma é exigir respeito porque ele é um investimento financeiro e pessoal”, complementa. Sobre o mercado saturado, Kardé explica que o Sindicato realiza constantemente debates nas faculdades para alertar os alunos. Além disso, a falta de mobilização dos jornalistas deixa a categoria sem força para impor melhores condições de trabalho e salários justos.
O Sindijor-BA tem 2.000 associados, mas o número de registros profissionais na Bahia é bem maior. O mercado da cidade de Salvador é restrito para os jornalistas. Existem apenas três jornais impressos, cinco emissoras de tevê e duas emissoras de rádio com jornalismo diário, além de dois portais (A Tarde Online e IBahia). O maior mercado é o de assessorias de comunicação, que conta hoje com cerca de 30 empresas. Porém, elas não conseguem absorver todos os recém-formados. Como a quantidade de profissionais que se formam é maior do que o mercado atual pode admitir, a carreira acaba por se tornar mais difícil e concorrida.
* Diretor da Contraponto Comunicação e correspondente de J&Cia em Salvador

Aos que contam e fazem a história
Engel Paschoal*

Ao me convidarem para esta homenagem, não titubeei: vou falar de alguns para cumprimentar todos. Sempre admirei jornalistas, os historiadores modernos, que nos colocam no meio do que acontece. Em qualquer lugar do mundo.


E começo pelo primeiro, Hippolyto Joseph da Costa Pereira Furtado de Mendonça, o Hipólito José da Costa. Gaúcho de Sacramento, saiu bem no retrato. Bacharel em leis e filosofia pela Academia de Coimbra, fez carreira diplomática no governo português, com missões nos EUA. Apesar de próximo do poder, não se deixou seduzir por ele. Para fugir da Inquisição, exilou-se na Inglaterra. De lá, lançou em 1º. de junho de 1808 o “Correio Braziliense”, o primeiro jornal brasileiro. Brochura clandestina mensal, chegava ao Rio de Janeiro nos porões dos navios.
Os jornalistas daqui estavam muito próximos da corte e não apenas fisicamente. José Luís de Mendonça, entretanto, fez o primeiro jornal radicalmente oposicionista em 1817, no Recife: o “Preciso” teve um único número, mas era semente para germinar.
Cipriano José Barata de Almeida foi o pioneiro do jornalismo revolucionário no Primeiro Reinado. Baiano, em abril de 1823 lançou no Recife a “Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco”. Passou sete anos na cadeia entre Pernambuco e Rio de Janeiro, sempre publicando o jornal de alguma forma. Saiu da prisão em 1830, aos 68 anos, como herói, mas, frágil e doente, afastou-se do jornalismo.
A distância da corte alimentava a ousadia. Frei Joaquim do Amor Divino, Frei Caneca, porque filho de tanoeiro, lançou, em dezembro de 1823, o “Tifis Pernambucano”. Seguiu criticando o governo até a eclosão da Confederação do Equador, movimento separatista republicano do Recife. Preso em combate, morreu fuzilado em 1825.
Antonio Mariano de Azevedo Marques, o Mestrinho, também em 1823, lançou o primeiro jornal de São Paulo, “O Paulista”, pois até então a imprensa praticamente se limitava ao Rio e Nordeste. Mas logo surgiram outros “paulistas”.
João Baptista Líbero Badaró, médico genovês e deputado fugido da Itália, chegou a São Paulo em 1826 e três anos depois colocou em circulação “O Observador Constitucional”. Será que não influenciou outro genovês 130 anos depois? Mino Carta, apesar de não dirigir, veio criar a “4 Rodas”, depois “Jornal da Tarde”, “Veja”, “IstoÉ”, “Jornal da República”, “Senhor” semanal e “Carta Capital”. Badaró, vítima de um tiro, agonizou 24 horas e deixou a frase célebre: "Morre um liberal, mas não morre a liberdade". Mino cria seu emprego. E, polêmico, se diz honrado por 31 colegas recusarem o convite para entrevistá-lo no “Roda Viva”, em 2000. O recorde anterior, 17 recusas, era de ACM.
Às 11h de 4 de janeiro de 1875, saiu o primeiro número de “A Província de São Paulo”, reunindo republicanos moderados em um empreendimento que foi o maior da imprensa brasileira até então. Júlio César Ferreira de Mesquita, o Júlio de Mesquita, de colaborador virou dono do jornal, cujo nome mudou, em 1890, para “O Estado de S. Paulo”. O “Estadão” foi um marco, tendo em suas páginas gente como Euclides da Cunha, cujo “Os Sertões” nasceu depois das reportagens que fez para o jornal. Júlio colocou o nome Mesquita na história do jornalismo, com filhos e netos, entre eles outros dois Júlios e um Ruy.
Jornalistas não só relataram a história, como a fizeram. Uma entrevista de Carlos Lacerda com o oposicionista José Américo de Almeida, em 1945, que rompeu com o silêncio imposto pelo DIP, apressou a queda do Estado Novo. Cinco anos depois, uma entrevista de Getúlio Vargas para Samuel Wainer recolocou o ditador no centro da política brasileira e no poder federal.
Cásper Líbero, nascido em 1889 em Bragança Paulista, SP, fundou aos 22 anos a Agência Americana, a primeira agência de notícias do Brasil. Em 1918, comprou “A Gazeta”, vespertino fundado em 1906. Revolucionário, lançou vários suplementos e “A Gazeta Esportiva”, provavelmente o primeiro dedicado ao assunto no País, e criou a Corrida de São Silvestre. Em 1947, quatro anos depois dele ter morrido num desastre aéreo, em seu nome foi criada a primeira Faculdade de Jornalismo do Brasil.
Cláudio Abramo não foi dono de jornal, mas fez muito pelos dois maiores de São Paulo. Contratado por Octavio Frias de Oliveira, publisher da ”Folha”, porque tinha sido do “Estadão”, ajudou a ultrapassar o concorrente.
Carlos Castello Branco foi um marco na política com a “Coluna do Castello”, que começou em 1º. de janeiro de 1962 na “Tribuna da Imprensa” e depois foi para o “Jornal do Brasil”. Escreveu a mais famosa coluna política da imprensa brasileira até a morte, em 1993. Vários seguiram o jeito dele de tratar a política como se deve.
Janio de Freitas é um exemplo. Nascido em 1932, em Niterói, RJ, é jornalista desde 1955. Participou, junto com Odylo Costa, filho, Armando Nogueira, Reinaldo Jardim e José Ramos Tinhorão da grande reforma gráfica e editorial do “Jornal do Brasil”.
Outro é Elio Gaspari, também da “Folha” e mais um italiano que se abrasileirou. O 30 de dezembro de 1978 era o último dia dele como editor de Política do “Jornal do Brasil”, pois no dia seguinte ia para ficar dois anos em Nova York como correspondente. O Congresso Nacional havia decidido que em 31 de dezembro, à meia-noite, terminaria a vigência do AI 5. Todo mundo sabia, mas só ele não se esqueceu. No dia seguinte o “JB” foi o único a dar a notícia, com cinco páginas. Ele guarda até hoje a lauda com a manchete "O regime do AI-5 acaba à meia-noite de hoje" que foi levada para ser composta na oficina do jornal.
O Ricardo Noblat, também. Pernambucano de Recife, é jornalista desde 1966. Acabou com a imagem “chapa branca” do “Correio Braziliense” e há três anos criou “o primeiro blog de política a partir de Brasília” (Castellinho acessa todo dia lá em cima).
Mário de Moraes, de “O Cruzeiro”, ganhou em 1956, junto com Ubiratan de Lemos, o primeiro Esso de Jornalismo, com a matéria “Uma tragédia brasileira: os paus-de-arara”. Durante 11 dias, viajaram incógnitos com 102 retirantes, num “pau-de-arara”, de Pernambuco à Baixada Fluminense.
Sergipano de Aracaju, Joel Silveira começou a lida em 1935. O semanário “Diretrizes”, lançado por Samuel Wainer e Azevedo Amaral em 1937, deu a ele a oportunidade de se transformar no nosso primeiro grande repórter. Em 1943, passou uma semana em São Paulo, onde, com ajuda de Di Cavalcanti, fez a ferina reportagem “Grã-finos em São Paulo”. Em 1944, pelos Diários Associados foi à Itália junto com seis mil pracinhas combater o Eixo em Monte Castelo.
O jovem cinéfilo Alberto Dines começou no jornalismo em 1950. Doze anos depois, com uma carreira feita em jornais e revistas, foi para o “Jornal do Brasil”, onde promoveu uma grande mudança. Depois de 12 anos (o nome dele tem 12 letras, Zagalo), o “JB” o demitiu. Magoado, foi para os EUA. Voltou a convite da “Folha”, na qual fez a coluna “Jornal dos Jornais”, de crítica aos meios de comunicação, um pioneirismo adotado via ombudsman pela própria “Folha” anos depois.
Audálio Dantas começou jornalista em 1950, aos 20 anos. Por volta de 1963 estava em “O Cruzeiro”, quando descobriu Maria Carolina de Jesus, moradora de favela, que tinha um diário. Com a matéria dele, o diário acabou publicado como “Quarto de Despejo”, livro de sucesso no Brasil e exterior. Audálio aliou ao faro de repórter a veia política, presidiu o Sindicato dos Jornalistas nos anos de chumbo, com importante papel quando do assassinato do Vlado, em 1976, e chegou a deputado federal.
Thomaz Souto Corrêa é o revisteiro-mor do Brasil. De Mirassol, SP, veio fazer economia no Mackenzie. Quando resolveu trabalhar, não fez economia: chegou a ter quatro empregos ao mesmo tempo. Em março de 1963, depois de quase oito anos de “Estadão”, foi chamado por Luis Carta, diretor de “Claúdia”. Luis era irmão do Mino e filho de Giannino Carta, um dos chefes de Thomaz no “Estadão” (como filho de italiano jamais trai o pai, pode acreditar que Giannino “vendeu” Thomaz ao Luis).
Descendente de alemães, Joelmir Beting veio de Tambaú, SP. "Fui bóia-fria aos sete anos de idade. Desembarquei em São Paulo com a roupa do corpo, literalmente empurrado pelo padre Donizetti Tavares de Lima, meu guru”. Assim surgiu o homem que passou o jornalismo no meio das pernas do economês.
José Hamilton Ribeiro veio do campo: nasceu em Santa Rosa do Viterbo, SP. E para o campo voltou: hoje está no “Globo Rural”. Mas entre um e outro, ganhou vários Esso, rodou o mundo, perdeu uma perna no Vietnã. É unanimidade rara no meio.
Clóvis Rossi, nascido no Bexiga, além de grande jornalista, é um jornalista grande. Repórter, colunista e membro do Conselho Editorial da “Folha”, é um dos mais internacionais (para compensar não ter feito diplomacia, sonho de jovem).
Réplicas e tréplicas entre jornalistas são comuns. Entre pai e filha, só uma. Ricardo Kotscho, são-paulino de Porangaba, tem carreira reconhecida. Mas acabou contestado pela filha, que reclamou do texto do pai falando bem de São Paulo no “No Mínimo”.
O corintiano Juca Kfouri foi diretor de “Playboy” e de “Placar”. Em 1982, comandou uma das matérias mais explosivas do esporte: a da máfia da loteria esportiva. Não foi pra Passargada, mas era amigo do rei. A amizade acabou por causa do acordo de Pelé com o presidente da CBF. Perdeu a amizade, mas ganhou o processo que a CBF ("Casa Bandida do Futebol" nas colunas que escrevia na “Folha”) moveu contra ele.
Lillian Witte Fibe foi a primeira Luluzinha a entrar para o então clube do Bolinha da economia. E ainda, irrequieta, em julho de 2000 foi pro “Terra” fazer “um novo canal de notícias multimídia”. Mas nunca escondeu que, atrás da coleguinha bem-sucedida, tem um Alexandre Gambirasio.
Só uma mulher? Bom, como elas estão tomando conta das redações, o Edu Ribeiro pode convidar uma para escrever o texto o ano que vem.
* Editor da coluna “Responsabilidade Social e Ética” no UOL e Globo Online, escreveu “O Relógio de Urupa” (Melhoramentos/1988); “Jornalistas Brasileiros, Quem é Quem no Jornalismo de Economia” em parceria com Eduardo Ribeiro (Mega Brasil/2005); e “A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira” (Mega Brasil/2006 e Publifolha/2007).


 
 


 
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