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Jornalistas&Cia faz 12 anos e propõe uma viagem pelos caminhos do jornalismo


Com informação plural das fontes nas quais se exerce, estuda, analisa e interage com o jornalismo, Jornalistas&Cia comemora 12 anos e propõe a seus leitores uma viagem com vistas ao futuro.

Convidamos jornalistas, acadêmicos, publicitários, consultores, empresários, analistas, observadores da comunicação, enfim, a participarem desta edição especial. Aqueles que puderam atender ao nosso chamado nos brindaram com reflexões preciosas. Nesta e nas páginas seguintes, está a lista em ordem alfabética dos que nos ajudaram a fazer esta viagem pelos caminhos do jornalismo.Para nós, não poderia haver melhor presente do que esta oportunidade de viajar com cabeças privilegiadas rumo ao futuro do jornalismo, com ênfase no que se produz no Brasil.Do confronto, e muitas vezes da convergência, de idéias procuramos saber o que se espera do jornalismo frente às mudanças constantes do mercado. Para onde apontam os avanços tecnológicos? Como se dará o encontro de gerações? Que modelos irão perseverar na atividade jornalística e quais estão fadados a desaparecer?Enfim, fomos à busca de opinião de qualidade. O resultado segue pelas páginas seguintes, não só em respostas a nove perguntas que formulamos, mas também na forma de artigos.
Tivemos que editar, e muito, todo o material apurado, para chegar a este formato final. Tudo o que se discutiu daria um livro e, embora tenhamos aumentado o número de páginas, nosso espaço é limitado. Esta tarefa de editar ficou a cargo de nosso convidado, o jornalista Engel Paschoal. Wilson Baroncelli, editor-executivo do Jornalistas&Cia, e eu cuidamos das entrevistas e da coordenação dos trabalhos. Nos bastidores, contamos com a ajuda de nossa valorosa equipe.Óbvio dizer que o jornalismo do futuro está sendo construído, tijolo a tijolo, com argamassa de qualidade, no presente. A dúvida é se o está sendo feito com alicerces sólidos, capazes de garantir a longevidade que se espera de uma atividade e de uma geração. O jornalismo da próxima década, das próximas duas décadas, está nascendo hoje. E é esse fascinante desafio o que J&Cia se propôs. Queremos estar vivos e fortes, como os demais veículos, para, dez ou vinte anos à frente, fazer a releitura desse ensaio futurístico de setembro de 2007. Para ver se mais acertamos que erramos. Oxalá!

Com nossos melhores agradecimentos, em especial aos convidados que participaram desta edição, esperamos que todos apreciem a leitura e façam uma boa viagem ao futuro do jornalismo.

Eduardo Ribeiro

 

Há lugar no futuro para o jornalismo tal como o conhecemos hoje ou estaríamos a caminho de um novo paradigma de comunicação social?
Para falar do hoje e do futuro, muitos se referem ao passado. Ricardo Gandour sintetiza: “A aceleração da história da mídia passa pela proliferação dos correios e telégrafos, que por sua vez foram catapultados pelas ferrovias, que influíram na distribuição dos periódicos. Vieram o jornal, o rádio, o cinema, a tevê, e agora a internet, que é um salto violento, com a troca de dados entre máquinas sem um emissor necessariamente identificado como pivô central. Ela é multifragmentada, vários emissores ao mesmo tempo trocando informações. Ora eu sou o emissor, ora você”. Ele também ressalta que, “até agora, nenhuma nova mídia quebrou o paradigma de que toda mídia nova tem uma fase de turbulência, de inovação, para depois se estabilizar como um avanço, passando a conviver com as mídias anteriores”.

Já Alberto Dines diz que “o jornalismo não está sendo questionado porque ele existe. De uma forma, digamos assim, clara e formal ele existe há 400 anos. Então, o jornalismo não está ameaçado. O que está gerando algumas dúvidas são as tecnologias, os recursos, os meios que serão usados daqui para frente. O jornalismo não vai acabar, mesmo que se transforme em algo cheio de coisas sem importância e irrelevâncias”.Para Dines, não existe “essa discussão sobre o futuro do jornalismo”, mas “uma discussão sobre as diferentes tecnologias que vão veicular o jornalismo”. Ele acha que o jornalismo praticado hoje vai continuar “porque o ser humano não abre mão daquelas coisas que são vitórias para ele. O livro, a palavra escrita, é uma vitória, um triunfo, um progresso. Mas onde essa palavra escrita vai estar inserida – em papel, em cartolina, numa tela, num placar de rua –, essa é uma discussão. A busca da informação e a apresentação da informação periódica, que caracterizam o jornalismo, isso não está em discussão”.Rogério Simões assina embaixo. Ele acredita que ainda teremos veículos impressos em 50 anos porque “a comodidade de se ter um pedaço de papel à mão para ser lido no parque ou na praia manterá o interesse de leitores por livros ou jornais. Esse jornal poderá ser impresso, em casa ou em uma banca, por um computador que, por sua vez, poderá selecionar o tipo de notícia que interessa ao comprador”. Ele também acha que a imprensa, “e aqui incluo qualquer mídia, de jornais a TV e internet”, continuará tendo papel fundamental em qualquer sociedade, “sendo responsável pela busca da informação, por questionar o poder, fomentar debates”.Cremilda Medina contesta o poder da nova tecnologia: “não me contaminei com a euforia de que as tecnologias – e isso começou a ser discutido dos anos 70 para os 80 – provocariam uma mudança radical na nossa profissão. Isto porque máquinas são máquinas, e nós as usamos”. Ela continua vendo ”no jornalismo online o mesmo sistema de agência internacional de notícias do século 19”. O grande problema “sempre foi a questão da inteligência natural, não a inteligência artificial. A inteligência natural tem grandes problemas que não são superados pelas tecnologias e que nem são exclusivamente atuais, mas recorrentes na história da profissão”.Ricardo Gandour lembra que, “em qualquer setor – e talvez no nosso em especial – não podemos abrir mão do papel de influenciar e de formar tendências. Até porque pertencemos a um setor que exerce um papel tão importante na construção e na preservação de uma democracia, no andamento da sociedade, que a análise de tendências não pode ser feita só sob o ponto de vista mercadológico. O futuro de uma sociedade depende das decisões que se tomam. Não podemos abrir mão do nosso papel de ajudar a forjar o futuro”. No entanto, esclarece que “essa tecnologia da internet é essencialmente fragmentadora e desintermediadora em todos os seus aspectos. No comércio, ela tira o vendedor da história e coloca a loja, a fábrica em contato direto com as pessoas. E na ‘mercadoria’ notícia, isso já está tendo impactos importantes”.Para Gandour, “essa nova tecnologia está desafiando o jornalismo como ele se conhece, com lógica de oferta, pois a nova mídia introduz fortemente a lógica da demanda, que passa também a ser oferta”. Ele vê como “ponto central que o grande desafio do jornalismo – e acho que a minha geração deve estar preocupada com isso – é participar da construção dessa nova mídia não tomando a novidade pela novidade, mas carregando para a nova mídia fundamentos básicos de credibilidade, de origem de informação, de pluralismo. Os princípios básicos do jornalismo devem ser transpostos para a nova mídia”. Para ele, mais do que um compromisso, isso “é um dever” da geração que vai passar o bastão à próxima. E devemos fazer da passagem do bastão “uma evolução”.Segundo Carlos Soria, “o futuro é voltar ao núcleo puro e duro do jornalismo. Quer dizer, recuperar todas as virtudes que o jornalismo simboliza e abandonar o peso morto acumulado em décadas: a falta de rigor, o sensacionalismo, a perda do sentido da realidade, a escassa atenção aos verdadeiros interesses informativos das audiências, o medo à liberdade”.José Marques de Melo não crê “que vamos inventar um novo paradigma de comunicação social capaz de excluir o jornalismo. A necessidade humana de informar-se e influir no meio ambiente é ancestral e imortal. Sempre que persistir vida humana em sociedade, a curiosidade em torno do que acontece ao nosso redor representa fator de sobrevivência, um mecanismo de defesa irrenunciável. Por isso o jornalismo permanece como atividade essencial, experimentando mutações tecnológicas, mas que não afetam sua essência cognitiva”. Rodolfo Fernandes tem a mesma certeza: “Creio que estamos num processo de mudança de uma magnitude que não podemos prever, mas não sou daqueles que acha que ‘tudo vai mudar’. Ao contrário: estou certo de que as bases do jornalismo, os seus fundamentos éticos e profissionais, sobreviverão a qualquer ‘novo paradigma’".Luiz Cama concorda: “o jornalismo continuará existindo, malgrado esta proliferação de novas maneiras de buscar, ou pior ainda, de inventar informação”. Ou seja, como a tecnologia colocou ao alcance de todos a possibilidade de transmitir informação, “cada pessoa se transformou quase que num meio”. E, assim, “há mais gente inventando informação do que gente para receber. Essa é a grande diferença”.Marcelo Rech enxerga o jornalista “intermediando” com o público “um acontecimento, um fato, um fenômeno até onde a vista pode alcançar”. Mas vê “mudanças nesse perfil de intermediação”: antes, “a atividade de um editor ou repórter era passar 90% do seu tempo apurando, captando informações. Hoje, ele passa 90% do tempo descartando informações”. Porque hoje há uma inundação de informações “e isso tende a aumentar com a participação do cidadão comum produzindo informação. O papel de intermediação do jornalista vai ficar ainda maior para qualificar, dar sentido e selecionar a informação produzida pelo público e torná-la relevante e interessante para o resto da sociedade”.Carlos Alberto Di Franco diz que “continuamos distraídos com aspectos importantes, mas formais. Jornalismo é conteúdo informativo de qualidade. Internet é instrumento, via, canal. O que precisamos é rediscutir a qualidade dos conteúdos. Chegou a hora de pensar na qualidade da informação. Milhões de jovens consomem Harry Potter. Não obstante, os jornais não têm conseguido atrair leitores jovens. É preciso ter a humildade de indagar as razões”.Para Thomaz Souto Corrêa, “ainda não há tempo suficiente para saber onde vai dar essa onda de jornalismo paralelo representada pelos blogs. Estamos muito no início da curva e é difícil prever em que direção ela vai. Hoje é lícito supor que o bom jornalismo terá seu lugar garantido, porque a grande maioria da população ainda precisa de nós. A quantidade de pessoas achando que o blog compete com o conjunto de informações passadas pelos grandes veículos ainda é muito pequena”.Já para Caio Túlio Costa, “é evidente que há lugar para o jornalismo tal qual o conhecemos hoje, mas é evidente também que está em curso uma mudança de paradigma. Quanto mais você se debruça sobre isso, começa a perceber que tudo indica que o jornalista está perdendo e deverá perder aquele papel de ator principal na área de comunicação”. Isso porque as novas mídias permitem que as pessoas se manifestem “e permitem que as fontes, que antes eram só fontes, passem a ser também protagonistas”. E ele dá como exemplo a Espanha: “e-mails e Instant Messenger, mensageiros instantâneos de celulares, mudaram o resultado da eleição depois dos ataques aos trens em Madri, fazendo com que não-conservadores fossem às urnas e derrotassem Aznar, votando em Zapatero”.Luiz Weis reforça a posição de Costa. Ele não tem dúvida de que o foco desta mudança, “a plataforma, a materialização, chama-se celular, que cada vez menos será um telefone”. E a imprensa, “tal e qual a conhecemos, está fadada a se pulverizar, se desfazer ou a desaparecer”.

Carlos Chaparro é enfático: “Na comunicação, nada mudará de repente, mas nada permanecerá como está. E isso pela simples razão de que, graças à velocidade e ao uso estratégico das tecnologias de informação e difusão, o mundo acelerou extraordinariamente a sua capacidade de produzir mutações no campo das interações humanas”.

 

Que ameaças e oportunidades o novo mundo e a sociedade digital representam para o jornalismo?
Hoje é retrógrado quem acha que jornalista é retrógrado. A maioria absoluta vê mais oportunidades que ameaças à frente. Provavelmente, os jornalistas recém-formados contribuíram para mudar o antigo conceito de que jornalista não gosta de mudar. E a mudança começou há mais de duas décadas. Cremilda Medina ilustra bem isso ao falar dos alunos dela no final dos anos 80: eles “perceberam que a história de se treinar para um emprego, e de preferência uma Folha de S.Paulo,” não tinha mais nada a ver com a realidade. Os alunos da ECA entenderam que não se podia apostar apenas num emprego na grande imprensa. Como “se tratava, sobretudo, de criar novas frentes de trabalho”, a internet, “com a esfera digital de hoje”, abriu o campo de trabalho.

Ricardo Gandour vê “oportunidades de interatividade com os leitores, internautas”, que permitem “captar mais reações de gente que não poderia reagir ao veículo e agora pode”. Para ele, o problema está em “começarmos a menosprezar valores mais clássicos de comunicação de qualidade”. E lembra a capacidade do País de, historicamente, “assimilar uma nova etapa com rapidez sem necessariamente completar a etapa anterior’.Para Carlos Chaparro, oportunidades não faltarão para a ampliação e a diversificação dos negócios área da comunicação: “a complementação de mídias, a combinação de periodicidades e linguagens, as imbricações de públicos, as relações de causa e efeito, intencionais e controladas, nos percursos da notícia – são fatores que aceleram demandas e valorizam a capacidade empresarial e/ou institucional de oferecer respostas a essas demandas”. Mas ele alerta para três perigos: 1) as dificuldades, “crescentes, [das empresas de comunicação] de resistir ao poder objetivo do marketing” e dele se utilizar visando o “sucesso que se mede em números e cifrões”; 2) “a tentação de esquecer as dores e alegrias, os sonhos e as lutas, as conquistas e os fracassos locais”, por causa dos problemas universais que têm chamado nossa atenção; e 3) “a dificuldade em preservar a independência da narração jornalística, sob as pressões conflitantes de práticas cada vez mais intensas de democracia participativa”.Carlos Soria só vê oportunidades: “o mundo digital generaliza a informação em tempo real, multiplica exponencialmente o acesso às fontes, reduz os custos de produção, possibilita uma interatividade inteligente, democratiza a comunicação, renova constantemente os atores da informação, ajusta o mercado”.Alberto Dines vai além: as oportunidades “são enormes”. E cutuca: “apesar de dez anos de internet, ainda não temos no Brasil portais noticiosos que satisfaçam como o jornal de manhã”. Após os telejornais da noite, “os portais de notícias entram numa pasmaceira e só vão começar a dar notícias no dia seguinte de manhã”.Mais do que falar em oportunidades, Dines esmiúça o que pode ser um diferencial para uns, mas também trazer ameaças para muitos. Aproveite: “a grande oportunidade é que à meia-noite você tenha tantas informações que, no dia seguinte, não precise ler o jornal, nem ouvir o rádio”. Isso porque a maioria dos portais está ainda atrelada à estrutura de jornais: “Estão atrelados ao conforto, à conveniência, estão atrelados, sobretudo, à omissão dos empresários, que não querem investir. Porque, para ter um UOL dando um show às 22h30, tem que investir! Investir muito. Só que o UOL pertence à Folha, que nesse horário já está fechando a sua primeirinha. Então, eles não estão interessados em se furarem. E nenhum portal independente, como o Terra ou o Último Segundo, vai investir para fazer uma grande edição à noite”.Dines é incisivo: “é por isso é que eu digo: o jornalismo é o mesmo, mas precisa haver iniciativas capazes de adequar o velho jornalismo às novas modalidades, sendo que a nova modalidade é o jornalismo 24 horas. O ser humano, hoje, está 24 horas atento, porque há um grande contingente de pessoas que dormem de dia e trabalham de noite, há a questão das diferenças de fusos horários... Sei lá quantos milhões de brasileiros estão do outro lado do mundo, que de manhã cedo querem saber o que os telejornais da noite deram no Brasil. Em suma, essa adequação é que vai precisar ser feita, mas as regras são as mesmas. As pessoas estão dependendo da criatividade tecnológica e não usando da criatividade organizacional, não usando todas as possibilidades, sobretudo nessa questão de horário”.E completa: “os jornais matutinos vão ter que fechar um pouco mais tarde. Os jornais vespertinos já estão reaparecendo, há muitas experiências, sobretudo desses jornais bem urbanos, ligados a metrô ou circunscritos a uma determinada área da cidade. Muitos deles estão dando certo na Europa”. A rigor aqui também: depois do Destak, lançado em julho de 2006, São Paulo ganhou o Metro, em maio deste ano.Segundo José Marques de Melo, “as ameaças e as oportunidades preocupam os jornalistas e não necessariamente o jornalismo. Se estes não se reciclam e procuram adaptar-se às mudanças perdem o espaço, que acaba sendo preenchido pelos mais hábeis e maleáveis. Na sociedade digital não ocorre algo diferente. O jornalismo permanece como atividade vital, mas os jornalistas que se enclausuraram na Galáxia de Gutenberg estão sendo superados pelos habitantes do Planeta de Bill Gates”.Para Rodolfo Fernandes, “a principal oportunidade é a ampliação da audiência e a interação, esta fantástica ferramenta que as novas tecnologias nos proporcionaram. Neste sentido, o jornalismo tem espaço para ficar mais dinâmico e profundo – o que é ótimo. A principal ameaça é a perda do conteúdo nacional e da qualidade editorial, na medida em que pessoas e grupos sem visão estruturada do papel da mídia entrem nesse mercado e o desorganizem. Basta ver o mundo fantástico dos blogs para imaginar as oportunidades; ao mesmo tempo, e contraditoriamente, é só presenciar o (baixo) nível dos debates que se trava nesse meio para pensar nas ameaças”.Luiz Cama enche a bola dos jornalistas: “a internet exige um jornalismo que é clássico. O jornalismo para o sujeito que recebe informações através do celular é clássico, feito com os mesmos princípios de quem fazia jornal há 100 anos. O Terra, quando há uns anos quis se tornar bacana e se vender para uma porção de gente, na época da bolha, e o UOL, a mesma coisa, foram buscar quem a peso de ouro? Jornalistas, porque eles querem fazer exatamente jornalismo”. Mas avisa: o desafio “é fazer isso sem ser superficial, já que a tendência é não aprofundar porque não tem tempo, espaço ou não quer. Você pode ser profundo ou superficial tanto em cinco como em cinqüenta parágrafos”.Carlos Alberto Di Franco também vê só oportunidade: “estávamos excessivamente acomodados. A internet, tal como ocorreu com o advento da televisão, foi uma sacudida nos esquemas burocráticos. Os conservadores perderão, mas os criativos assistirão ao renascimento dos jornais. Num Brasil com 180 milhões de cidadãos é ridículo falar da morte do jornalismo impresso. Não somos os Estados Unidos!”Marcelo Rech endossa: “há muito mais oportunidades do que ameaças, porque a sociedade digital qualifica a apuração e a informação fica muito mais precisa. A conferência de dados ficou mais rápida, simples, eficaz e confiável graças à internet”. Lembra ainda que “se conseguem públicos muito maiores hoje, a convergência possibilita que você amplifique a sua voz e texto, antes limitados a uma circulação restrita”. A ameaça é “para quem não se reinventar. Mas essa ameaça é uma seleção da economia, da evolução do ser humano”.Thomaz Souto Corrêa também se coloca no “grupo que acredita que a mídia digital é muito favorável ao jornalismo. Podemos falar com mais gente o tempo todo; podemos interpretar melhor e mais depressa desejos e necessidades do leitor; a mídia digital nasceu para a segmentação, de uma maneira como a mídia impressa não pode fazer. A ameaça maior é não prestar atenção e perder o bonde”.Caio Túlio Costa segue a linha das vantagens: “porque cada vez mais você vai precisar de profissionais que entendam muito mais do que antes. É o profissional ‘policapaz’, com ‘multicapacidades’. Hoje você monta um canal de televisão com muito menos dinheiro do que há dois anos e muitíssimo menos do que há 10”. Ele acha que “a comunicação ainda não é pervasiva (permanentemente invasiva), mas vai ser. Você não vai se desligar em nenhum momento dos gadgets que vão permitir essa comunicação”.Luiz Weis pergunta “se vamos reproduzir aqui duas tendências” que estão muito claras nos Estados Unidos. Uma é “a concentração da mídia em grandes grupos que não são necessariamente de comunicação, em que a comunicação é um negócio entre outros, já num sentido menos canônico do que o tradicional”, pois, “para eles tudo é comunicação”. A outra “é essa coisa degradante do infotainment. Porque todas essas grandes corporações de mídia hoje têm um poderoso componente de entretenimento, elas vendem distração. E fica essa mistura de diversão e informação”.

Apesar das vantagens, Rogério Simões vê, “como ameaça, a facilidade de o consumidor ter acesso apenas às notícias que lhe interessam, aos programas dos quais gosta, o que pode criar um cidadão mais fechado em seu campo de interesse”. Mas ressalva que “esse novo poder dado ao leitor/consumidor eleva qualitativamente a relação entre usuários da informação e quem a produz, porque o leitor passa a ter uma ação mais participativa e, com isso, cobra e contribui mais”.

 

Os veículos e os grupos tradicionais de comunicação sobreviverão? Terão, na sua opinião, capacidade de contínua adaptação às rápidas e revolucionárias mudanças?
Ao contrário de outros setores, veículos e grupos tradicionais de comunicação devem sobreviver. Por isso, teve gente que relembrou a história de que uma nova mídia não suplanta outra, como já dito anteriormente. Mas todos deixam claro que a sobrevivência depende de mudanças.

Quanto à longevidade dos veículos e grupos tradicionais, Cremilda Medina afirma: “ou há uma dinâmica de aperfeiçoamento de corresponder às necessidades do tempo, da época, ou desaparecem. Em termos do suporte, impresso, não-impresso, eletrônico, já vi essa discussão muitas vezes. Porque quando surgiu a fotografia, diziam que a pintura ia desaparecer. Quando o cinema surgiu, a fotografia iria desaparecer. Quando surgiu a televisão, o cinema ia desaparecer. As mídias sofrem alterações porque é a dinâmica histórica. Umas desaparecem por incompetência, por insolvência, por n motivos. Mas não que a mídia impressa vá desaparecer”.Do ponto de vista editorial, Ricardo Gandour defende os valores ligados à tarefa de editar: “hierarquizar, priorizar, interpretar e analisar. Inclusive transpondo isso para a nova mídia. Na vertente empresarial, o que está colocado é se, para se implantar, o quanto dessa nova mídia vai canibalizar a mídia anterior. Qual o modelo de negócio que viabilizará e dará perpetuidade a essa nova mídia?”Carlos Soria não faz concessões: “na nossa indústria, somente sobreviverão os que tiverem entusiasmo, a energia moral e a decisão de fazer grandes mudanças. Mudar para fazer multimídias integradas locais, regionais ou nacionais, que levem a informação e o entretenimento a quem quiser, onde quiser, quando quiser e como quiser, ao preço mais conveniente”.José Marques de Melo acha que “os veículos e os grupos são como as pessoas que os comandam. As mudanças e adaptações dependem de vontade política. Se elas são retardadas ou tomadas equivocadamente, podem ameaçar a sobrevivência institucional. A história do jornalismo está repleta de fusões e falências, mas também de triunfos que podem servir como parâmetros para as lideranças atuais”.Esta também é a opinião de Luiz Weis: “o jornalismo que conhecemos hoje já está incorporando, em larga medida, esses novos paradigmas, que têm a ver não só com o modo de produção da notícia, do produto jornalístico, mas com as condições da indústria, do business, do negócio – para não falar das condições políticas etc. Em contrapartida, tem o Financial Times, um jornal da época de ouro – se é que a gente pode falar isso – e eles continuam fazendo aquilo: texto, texto, texto bem-escrito. Imagino que façam um investimento brutal em qualidade de texto. Também existe El País, que é um jornalaço, embora em formato diferente. A primeira página dele é política, economia, são os grandes acontecimentos. Isso tudo para enfatizar a diversidade. Então, fica difícil analisar. De que jornalismo, de que país, de que público estamos falando? Mas há uma coisa nesse paradigma que me parece clara, para o bem ou para o mal: historicamente, os jornais ideológicos, os jornais políticos, que tinham que formar a opinião pública, privilegiavam aquilo que, a critério deles – os donos, os editores, aquilo que os ingleses chamavam de chatering classes, as classes conversadoras –, era importante as pessoas saberem, sobre economia, relações internacionais, essas coisas. A isto se contrapõe hoje, com bastante ênfase – variável, conforme o lugar e tudo –, que o hard news não é necessariamente aquilo que é importante, mas aquilo de que as pessoas falam”.Alberto Dines também acredita na sobrevivência dos veículos, mas com modificações: “eles precisam levar em consideração que têm que investir e se adequar às novas tecnologias”. Dines observa que, “como a tecnologia se universalizou, o jornal impresso, diário, vai ter que ser mais analítico. Também teremos jornais com periodicidades diferentes. Na Europa – no Brasil não existe isso – você tem o jornal semanal. Na Inglaterra tem o Observer, o Sunday Times. Em Portugal, o Expresso. E na Argentina, um jornalzinho ótimo, chamado Perfil, está fazendo denúncias contra o Kirchner. É semanal, sai aos domingos, sábado à noite, acho. E vende muito”.Rodolfo Fernandes provoca: “alguém imagina que o The New York Times vai acabar? Não. Mas todos os atuais players sobreviverão? Provavelmente, não. Assim como os Diários Associados não sobreviveram à era da TV, outros grupos sem visão estratégica enfrentarão dificuldades semelhantes. Sobretudo quem negligenciar na qualidade editorial e na credibilidade. O que se sente é, ainda, uma sensação de que está todo mundo tentando algo que não sabe exatamente se vai dar certo. O The New York Times fecha o seu conteúdo e meses depois o abre de novo. Que planejamento estratégico resiste a isso? A capacidade de aceitar desafios e uma contínua adaptação às mudanças são essenciais”.Luiz Cama avalia que os grandes diários perdem a oportunidade de poupar papel: “apesar de eu apreciar as matérias bem-trabalhadas, eles escrevem demais. Por outro lado tem esses jornaizinhos distribuídos em esquinas, que são para se ler e descartar imediatamente. É o trabalho bem-feito dentro de uma nova tendência, de ser mais rápido, mais curto, sem superficialidade. A Zero Hora está fazendo uma experiência em Porto Alegre, que é a criação de uma redação tão importante quanto a redação do jornal em papel para fazer o seu jornal eletrônico”.Carlos Alberto Di Franco atribui a sobrevivência à visão estratégica das empresas: “as companhias que não investirem exponencialmente em treinamento, qualificação de pessoal, estou certo, morrerão. O fator de diferenciação não serão os canais ou a tecnologia, mas a qualidade dos recursos humanos”.Marcelo Rech lembra que “os meios de comunicação que entenderem que estamos no meio de uma enorme evolução tendem não só a sobreviver como a tirar proveito dessa mudança. Primeiro, porque uma redação de jornal, de revista ou televisão, tem uma capacidade de apuração e processamento que a maior parte das organizações não tem. Segundo, temos marcas construídas ao longo de séculos, décadas, que o público passou a associar com a comunicação. É óbvio que não podem se acomodar na força da marca e na glória do passado. Têm de se reciclar, inovar constantemente. Os meios de comunicação não são mais uma porta aberta ao público. Eles têm de alcançar o público com SMS, via celular, diferentes plataformas. Entre os grandes grupos de comunicação do Brasil e do mundo, não vejo ninguém desatento a isso”.Thomaz Souto Corrêa faz uma análise sintética, mas densa: “sobreviverão os rápidos, não importa se tradicionais ou não. É preciso repensar as empresas de médio e grande porte, para que sejam ágeis e abertas. O mundo digital implica tentativa e erro, sistema que não sobrevive à lentidão de decisões”.Caio Túlio Costa relembra a criação do UOL, em 1995: “montar um jornal é fácil, porque é uma coisa que existe desde 1600. Revista também tem há muito tempo, televisão há quase 100 anos. São indústrias estabelecidas, com regras, histórico. Quando a gente começou a mexer com internet, sabíamos muito pouco. Sabíamos que não queríamos um produto apenas voltado ao jornalismo, mas um produto abrangente, capaz de atender as comunidades, que já fosse interativo. Aí o UOL nasceu com chats, bate-papo”. Para o futuro, ele diz que “estamos engatinhando na questão da mídia pervasiva. O próximo momento é de convergência, e as pessoas falam convergência sem ter noção do que vai ser. Falam em TV Digital achando que vai melhorar a imagem. Não é isso. A TV Digital é muito mais do que televisão. A convergência não está num aparelho de televisão que você vai usar como computador e ver a mesma coisa no computador e no celular. A convergência está no chip e na idéia da portabilidade. Vamos viver daqui a pouco a digitalização das comunicações, o total desaparecimento dos fios. Fio já é um anacronismo. Você vai ter um gadget na sua casa e, com um único chip, vai controlar toda a sua comunicação. Acho que os suportes, a maneira de comunicar, vão fazer com que nós tenhamos de trabalhar novas formas de relacionamento com o consumidor”. Quanto à sobrevivência dos grupos tradicionais de comunicação nesse cenário ele diz que “a velha mídia – quando falo velha mídia não é no sentido pejorativo e sim no de tradicional, como jornal, televisão, rádio – vai ter de se adaptar e entender esses novos conceitos. Eles só vão sobreviver se entenderem e estiverem usando essas novas ferramentas, não há saída. O que não quer dizer que vão acabar. O que precisa acabar é a cultura de achar que a nova mídia canibaliza a velha e, portanto, faz com que ela não acelere a sua participação nessas novas mídias. Veja por um exemplo internacional, o que a Time fez com a América Online, uma das maiores empresas de internet do planeta, que mais entendia de internet. A Time fundiu-se com a América Online e a matou. Tinha 35 milhões de assinantes, hoje tem 12.  Matou, não existe mais. Isso tudo é uma falta de compreensão e um mecanismo de defesa muito grande do seu negócio embutido no não entendimento da necessidade da mudança, que é essa mudança de paradigma. Poucas empresas entenderam isso, o Murdoch, com 75 anos, entendeu.Para Rogério Simões, “grupos poderosos podem sobreviver se souberem se adaptar. A BBC investe em novas mídias e sofistica a sua relação com os telespectadores/ouvintes/leitores para manter-se à frente num mercado cada vez mais fragmentado. A internet tornou-se uma espécie de espinha dorsal do mundo da informação, estabelecendo um novo paradigma nas relações entre consumidor e produtor de informação. Todos precisam se ver como produtores de conteúdo, de informação, independentemente de como essa informação vai chegar ao usuário. Na avaliação da BBC, a televisão é uma entre várias formas de se produzir e divulgar conteúdo audiovisual. O conceito de vídeo é muito mais amplo do que o de TV e foi abraçado por sites e jornais tradicionais, como o The New York Times, que, apesar de não ser TV, passou a produzir conteúdo em vídeo. Todos têm a chance de sobreviver nessa realidade, especialmente os grupos tradicionais, que têm mais recursos e experiência. Resta saber se eles têm a disposição e a coragem suficientes para mudar”.

Carlos Chaparro não vê futuro para os grupos tradicionais “nos formatos em que ocuparam espaços nos modelos antigos. Mas outros grupos se formarão, em novos formatos – o das aglutinações, por exemplo. Outro exemplo é o das alianças e combinações entre atividades, competências e tecnologias que se complementam. Os grupos tradicionais podem não ter a capacidade de contínua adaptação. Mas o capitalismo tem”.

 

O jornalismo como negócio, como fator de geração de empregos, como atividade que exerce influência social, será maior ou perderá espaço diante deste novo cenário que se avizinha?
Na verdade, e talvez porque muito poucos são empregadores, praticamente ninguém fala do jornalismo como negócio, como fator de geração de empregos. A maioria se atém à influência social do jornalismo neste novo cenário.

Ricardo Gandour acha que para o jornalismo ser maior ou perder espaço “vai depender bastante do equacionamento econômico, porque qualidade jornalística tem valor, tem um custo associado, é exercido por profissionais preparados, com uma visão de mundo que é fruto de uma experiência acumulada, e isso custa. A sociedade deveria enxergar isso com cautela, com uma visão de longo prazo e não imediatista. Isso é uma interrogação ainda, o jornalismo de qualidade tem um custo e ele é sustentado por um modelo de negócio que está sendo desafiado pela nova mídia. Aonde isso vai nos levar? Devemos lutar pela preservação do valor do conteúdo editado, mesmo na nova mídia, convivendo com as novas funcionalidades interativas”.Em termos profissionais e econômicos, Gandour arrisca alguns palpites: “primeiro, preservar o valor do conteúdo editado. Edição é seleção, hierarquização, construção de contexto, de nexo. A interatividade total e fragmentadora da internet não traz isso a priori, porque ela é desconstrutiva por natureza. Ela joga e alguém precisa trabalhar para construir o contexto. Não há garantias de que todos farão isso por completo. Há também uma necessidade quase ‘biológica’, que é a da fixação da informação por algum tempo. Somos um agrupamento de células que levam um tempo para digerir, metabolizar e reagir. Então, a informação fixada por algum tempo não tem menos valor (em comparação com o real time, que também tem o seu valor), porque primeiro é preciso reflexão, assimilação, troca de idéias, para depois eu ter contato com a versão 2.1 do artigo. A quadrifonia – quem foi leitor da SomTrês como eu? – foi rejeitada pelo mercado porque nós somos estéreo. O mercado não aceitou quatro porque somos incapazes de perceber”.Para Carlos Soria, “já estamos vendo as tendências. Ganhar dinheiro – claro que de forma lícita – é um dever ético. Mas os lucros da nossa indústria têm que se equilibrar até chegar aos padrões médios de outras indústrias. O jornalismo seguirá gerando empregos, cada vez mais qualificados e menos proletários; e os meios de comunicação continuarão sendo meios de primeira importância no serviço e na integração das sociedades, se cumprirem com a condição absoluta de melhorar exponencialmente sua qualidade. Não se pode esquecer que as sociedades se fazem menos permeáveis às influências externas – e também ao jornalismo – quando sua cultura e educação são mais densas. E quanto mais denso o meio social, mais se necessita de qualidade para penetrar e influir socialmente”.José Marques de Melo toca num ponto pouco lembrado: “estamos no limiar de uma sociedade em que o ócio assume papel preponderante na vida social. O trabalho deixa de ser fator exclusivo. O jornalismo precisa assimilar essa inovação, adotando novas formas de expressão para continuar narrando fidedignamente o real. É preciso que o gênero jornalístico diversional seja mais cultivado e valorizado”.Alberto Dines acha que os jornais vão conseguir se manter: “é só eles se adequarem, escolherem o seu segmento, o seu estilo. Quando a empresa é bem-sucedida, ela pode fazer dois ou três produtos adequados, segmentados, que podem ser muito proveitosos. Um exemplo é essa revista mensal, Piauí. Eles optaram por fazer um jornalismo de clave baixa. Estão comemorando o primeiro aniversário, com quase 40 mil assinantes. Não fazem manchetes, não produzem grandes trepidações, mas estão lá. O público está contente. Isso se chama adequação, uma segmentação precisa. Outro exemplo é o Grupo Lance. É diário e tem uma edição paulista, uma carioca, uma mineira e uma paranaense. Eles têm um site muito bem-feito, o Lancenet, com televisão e também um programa de rádio. É um caso de segmentação, uma aposta, uma definição. Gasta dinheiro, treina gente – eles têm cursos de treinamento –, são redações grandes. Então, tem lugar. Precisa é se mexer, não ficar parado, fazer adaptações”.Para Rodolfo Fernandes, “o mundo da comunicação será cada vez maior e mais importante. As transformações em curso não serão no sentido de enfraquecer o mercado, mas sim no de ampliá-lo. Se entendermos informação e comunicação lato sensu, esse é um dos mercados do futuro. Informação será uma ‘mercadoria’ (não gosto da expressão, mas vá lá) cada vez mais valorizada no nosso planetinha mais e mais globalizado”.Luiz Cama fala em “muita ideologia e interesse comercial nessas coisas”. E explica: “Um belo dia surgiu a ideologia do digital, dos sites, da internet. Você se lembra da bolha assassina, que cresceu e depois matou um monte de gente? O que diziam naquela época os preconizadores, e ainda hoje procuram divulgar, com estatísticas mundiais? ‘A mídia clássica acabou’. Acabou coisa nenhuma. Não impede que você tenha, como sempre teve, uma miríade de coisas em torno, ajudando essa eficácia e sendo eficaz para o segmento. Não é o problema de acabar com o mercado de trabalho. Ele vai se diversificar. Vai ter emprego para as pessoas no jornal de papel, nos jornais eletrônicos, nessa diversificação de canais”.Carlos Alberto Di Franco está certo de que “no Brasil, a mídia impressa tem um longo caminho a percorrer. Podemos e devemos gerar empregos. O que é que pode nos atrapalhar? Viver assombrados com a força das miragens: a miragem da internet, a miragem do envelhecimento dos nossos leitores. O pânico gerado pelos problemas pode esconder o magnífico horizonte das soluções. Crise não é sintoma de fracasso. Pode ser, sem dúvida, um sinal de oportunidade”.Thomaz Souto Corrêa “ousaria dizer que, numa sociedade jornalística digital, será preciso mais gente do lado dos veículos. É infinita a possibilidade de ir ao encontro de comunidades em busca de informação, principalmente se especializadas. Nesse sentido, o alcance social do jornalismo aumenta, não diminui. Até porque estará falando com as pessoas muito mais de perto, mais próximo de seus anseios, dúvidas, questões a debater”.Caio Túlio Costa lembra quando, nos anos 70, Nixon foi reeleito nos Estados Unidos apesar de a mídia ter denunciado o caso Watergate e, mais recentemente, de Bush ter vencido Al Gore, mesmo com a mídia contra. Lembra também que Lula foi reeleito, a despeito da grande imprensa “ter passado dez meses falando da corrupção do governo” e que Renan Calheiros foi absolvido pelo Senado contra toda a campanha da mídia nacional. Isso para dizer que “nós estamos assistindo a uma mudança muito importante na esfera pública e que faz com o que o jornalismo comece a perder o seu papel de grande protagonista, seja como ator principal no papel da comunicação, seja como se fosse um dos maiores fatores na opinião pública”. Para ele, hoje “há um monte de problemas envolvidos com isso, a questão da assimetria, toda a questão das agências de comunicação que não existiam. Hoje existem assessorias de imprensa que manipulam um tipo de dado que vai ser publicado e conseguem chegar de uma forma X ou Y junto aos jornalistas, portanto junto aos leitores, telespectadores ou ouvintes. Há toda a questão da ligeireza com que a gente tem de trabalhar, tem de ser muito rápido para dar as notícias na internet; portanto, nós estamos sendo menos exatos do que éramos”. Estes problemas “vão ser trabalhados pelos profissionais da comunicação, que vão precisar de muito mais habilidade. Mas isso não é uma ameaça, é um desafio”.Luiz Weis também fala da mídia internacional, mas com outro enfoque. Cita o que escreveu a propósito da Madeleine, a menina que sumiu em Portugal. Na mesma semana, houve outro grande atentado no Iraque. Mas todos, inclusive a BBC, “falavam da menina e nada do Iraque”, apesar da Inglaterra ter sido “o país onde houve o maior número de protestos contra a participação de tropas” na guerra do Iraque.Rogério Simões tem “a impressão que a nova era digital está ampliando as possibilidades para o jornalismo, mas ao mesmo tempo exigindo mais qualidade e permitindo uma competição muito maior e acirrada. Oportunidades não faltarão, mas tradicionais empregadores perderão espaço para núcleos de produção menores, e antigos empregados optarão por uma ação independente, uma espécie de economia informal da informação. Acredito que informação e análise de qualidade sempre terão espaço e, portanto, valor de mercado, garantindo renda para aqueles que as produzem. Mas haverá um aumento, sim, dessa espécie de economia informal da informação, com sites feitos em pequenas garagens no interior dos Estados Unidos, ameaçando a autoridade de grandes jornais ou grandes redes de TV”.

Carlos Chaparro não acredita no encolhimento do jornalismo: “ao contrário, o jornalismo romperá as fronteiras das redações e se expandirá como linguagem e processo, sem donos e sem redis. De que forma, e com que conseqüências, não sei”.

 

O jornalista do presente terá lugar no jornalismo do futuro? Que mudanças se devem esperar no perfil e na formação dos jornalistas do amanhã? Ele continuará a ser um profissional assalariado?
Em meados de setembro, a France Presse lançou a AFP Foundation para elevar o padrão do jornalismo, treinar profissionais em países em desenvolvimento, fazer media training em organizações, fornecer material para escolas e universidades e organizar seminários. Aqui, entrevistados defendem as novas gerações de jornalistas, dizendo que eles estão surpreendendo ao chegar às redações. Mas dizem também que, embora com preparo maior, viagens e estudo no exterior, os novos não têm formação humanística, nem capacidade de pensar, de ousar.Na opinião de Carlos Soria “diminuirá o perfil de assalariado e se fortalecerá o perfil do profissional liberal que já tem o jornalismo. Se nas redações desaparece definitivamente a ’cadeia de montagem’ como forma de organização, e penetra até o fundo das empresas a idéia de que o coração do negócio está nas redações, buscaremos jornalistas que tenham uma magnífica cabeça, um grande sentido de liberdade própria e alheia, e o dom da comunicação. O jornalismo macdonalizado, o jornalismo como uma pura correia de transmissão de fontes interessadas, ou o jornalismo domesticado que olha sempre a outra parte, perderam notavelmente a credibilidade social da atividade jornalística. Há pela frente uma estupenda batalha. Voltar ao núcleo duro e puro do jornalismo, que comentava no início, nos devolverá essa credibilidade.”

Ricardo Gandour acha que “essa nova tecnologia fragmentadora e potencializadora de comunicação instantânea exige cada vez mais uma formação na essência, na ciência pura. Os cursos têm de ter uma carga muito forte, com ciclo básico nos primeiros dois anos e um nível de profundidade maior em ciências sociais, filosofia, lógica, história, geografia, direito e ética. O sujeito que não tem referenciais filosóficos, de lógica, não sabe como contrapor situações. Não sabe traçar um panorama lógico do contexto em que se encontra a notícia para estabelecer que fontes consultar. Na hora de escrever, não imagina em que medida um discurso indireto pode fazer o jornal endossar ou não uma declaração. As escolas de jornalismo deviam se inspirar nos cursos que investem pelo menos a metade dos semestres na construção dos fundamentos”.Para José Marques de Melo, “a formação dos jornalistas no Brasil está sendo feita, com raras exceções, de forma anacrônica. Defendo uma mudança radical, inclusive porque o trabalho assalariado começa a perder significação num mercado cada vez mais terceirizado. Mas o elemento crucial continua a ser o elitismo dos jornalistas formados pelas universidades, que desdenham a cultura popular”.Alberto Dines acha que “o jornalista vai ter que se aparelhar melhor para tirar proveito dessas tecnologias, mas não muda nada. Os princípios gerais não mudam”. No entanto, “a formação continua problemática. Apesar de termos 350 escolas de jornalismo, 80% delas ficam abaixo do desejável. As escolas não querem contratar jornalistas experimentados como professores. Para isso, teriam que pegar um veterano, colocá-lo seis meses para fazer um curso de didática, e transformá-lo em professor. Então, pegam teóricos e a garotada fica repetindo um blábláblá de alguém que nunca pisou numa redação de jornal, ou então que trabalha em assessoria de comunicação. Há ainda o problema da base cultural. A educação secundária no Brasil, e mesmo a superior, não dá base cultural, nem visão do mundo, não ensina a escrever, nem a pensar. Você não tem no Brasil professores da história do jornalismo porque essa matéria não é obrigatória. Estão botando no mercado de trabalho jornalistas que mal conhecem o Gutenberg e só ouviram falar de alguns jornais antigos que já acabaram”.Em termos de vínculo de emprego, Dines diz que “está muito ruim, porque você tem muitos jornalistas e empresas que aboliram o contrato de trabalho, carteira profissional, plenos direitos. Mas não é um problema só de dinheiro ou de benefícios trabalhistas. É também de caráter profissional”. Quando o jornalista é PJ, ele age “diferentemente de um empregado. Inclusive isso de não ir sempre à redação faz com que ele não tenha convivência, porque a redação não era apenas uma coincidência de endereços. Ali, no trabalho conjunto, mesmo sem reunião de pauta, o fazer jornalismo era uma produção incessante de pautas. O companheiro já estava ali do lado, e você trocava idéias. Hoje a redação perdeu muito de sua importância, porque muitas pessoas já não vão lá todos os dias”.Segundo Rodolfo Fernandes, aqui “vigora a lei do diploma para jornalista e a Receita Federal acha que só é trabalhador a pessoa com carteira assinada. Ou seja, para chegar a esse suposto mundo do amanhã, com um mercado em que o profissional vive das suas diversas intervenções na área da comunicação, ainda temos muito caminho a percorrer. A internet pressupõe um mundo desregulamentado, mas nunca se deve desprezar a força do corporativismo e do estatismo no Brasil – aquilo que José Murilo de Carvalho já definiu como ‘estadania’, em contraponto à ‘cidadania’. O jornalista de um mundo cada vez mais digital precisará passar por novas qualificações, sem desprezar os fundamentos básicos da atividade atual”.Para Carlos Alberto Di Franco, “o futuro desenha um jornalista muitíssimo melhor na sua formação humanística, cultural. Precisamos, cada vez mais, de profissionais cultos, capazes de escrever com profundidade e elegância sobre os complexos problemas da vida contemporânea. As faculdades erram ao apostar em máquinas e equipamentos. É preciso apostar na cultura”.Marcelo Rech acha que, no curto prazo, há “perspectivas de ampliação do mercado de trabalho. Com a mídia digital, qualquer um pode abrir um portal e qualquer empresa, lançar um portal de nicho para determinado público. No médio prazo, existe uma tendência de jornalistas mais qualificados para interpretar uma grande quantidade de informações e dar ao público o significado. No longo prazo, acima de 20 anos, o jornalismo continuará com a nobreza que o caracteriza, mas com concorrência cada vez mais intensa de públicos e grupos de não-jornalistas. A credencial de jornalista não será mais dada pelo diploma, e sim pela realidade, pela capacidade que cada um tem de atrair públicos e processar a informação”. Segundo Thomaz Souto Corrêa, “a crescente necessidade do jornalista multimídia – que fotografa, filma, escreve e fala – não vai nos fazer prescindir das grandes vozes e textos do jornalismo. Uma atividade não eliminará a outra, espero”.Já Caio Túlio Costa acha que “as escolas estão muito preocupadas em formar o jornalista para o jornal, revista, rádio e televisão. São poucas as que formam um multimeios. Falta uma formação humanística, ética – não essas regrinhas de ética, de conduta e sim, uma formação ético-filosófica, o que é ética da comunicação, da responsabilidade, como a história do conhecimento trabalha isso – e qual é a importância disso para a discussão do jornalismo. As escolas formam muito mal desde o primário. Não é que o estudante chega na escola de jornalismo e não sabe escrever. É pior do que isso, ele não sabe ler. E como de casa você pode fazer todo o trabalho de comunicação, de design, de apuração, de envio da edição, isso está mudando não o jornalismo, mas para todo mundo, e está mudando também a forma de contratação. Essa é outra mudança de paradigma, o mundo do trabalho está mudando”. Apesar disso, Costa diz que “a gente consegue fazer bons produtos e tem excelentes empresas de comunicação. O Brasil na internet é um caso único. É o único do mundo com quatro grandes portais concorrentes, três nacionais e um internacional. A Argentina não tem isso, nem a Espanha, nem a França”.Para Luiz Weis, “há menos jornalistas e menos jornalistas qualificados. A ignorância da nova geração é compatível com a do público. E há uma sobrecarga de trabalho não só porque tem menos gente e você tem de fazer três matérias, mas porque todo mundo agora virou jornalista de agência noticiosa, não existe mais deadline”. Quanto à formação, ele diz que “técnica jornalística não é um bicho de sete cabeças. Se você não é de todo analfabeto, domina mais ou menos aquele negócio. O problema é a bagagem, que diminuiu e tornou o jornalista mais limitado. Porque simplesmente dizer que aconteceu tal coisa, não acrescenta nada. A multiplicidade de fontes primárias de informação já dá isso. Agora, estabelecer conexões de sentido entre os fatos que são já de domínio público – porque você está na internet, no rádio, na televisão, no celular – requer um pouco mais, e isso não existe, definitivamente”.Cremilda Medina não endossa as críticas às novas gerações de jornalistas: “eu acompanho as gerações e elas cada vez estão melhores, ao contrário do que alguns colegas dizem no mercado. Eles dizem isso porque não admitem o talento dos jovens. Penso que nós estamos com jovens crescentemente melhores para assumirem essa responsabilidade. O que eles precisam é aprender a trabalhar com ferramentas mentais, com a inteligência natural, que está travada em clichês mentais, em travas mentais, que não saem do lugar. Uma é a da causalidade, somos viciados na causalidade única das coisas, quando está mais do que provado que os fatores que atuam sobre determinada realidade são vários, nunca um só, então há uma intercausalidade. Mas assim há muitas, um elenco de umas dez, no mínimo, que nós podemos mexer com a visão de mundo e a maneira de se postar dentro do mundo. Outro problema seriíssimo da nossa inteligência – e isso eu faço num laboratório há 20 anos e é implacável no seu diagnóstico –, é que nós temos um raciocínio muito esquemático, e não temos aquela sensibilidade capaz de inquietar esse mastodonte que está na nossa cabeça, do ponto de vista ideológico, conceitual. A gente tem aquela verdade lá dentro e acha que está sendo muito inteligente quando opina sobre as coisas com aquele monolito lá dentro”. Ela cita o neurocientista e neurocirurgião Antonio Damásio ao afirmar que são a sensibilidade, o tato e os estímulos neurológicos quem levam o cérebro à possibilidade de pensar: “daí a necessidade de trabalharmos com a inteligência natural. Tudo partimos em pedaços, descrevemos e damos uma opinião a respeito. Isso é o nosso vício atávico, de uma inteligência que está mal aproveitada. E com o atual facilitismo de se entregar a uma posição estática do corpo diante da máquina, corremos o risco, muito rapidamente, de ter inteligências mais atrasadas, mais simplificadoras do que a própria máquina, o próprio computador, que está avançando para uma inteligência artificial mais complexa. É um desafio terrível. Eu não quero encampar esse futuro, nem para mim, nem para os meus netos e nem para os meus alunos”.  Segundo Rogério Simões, “como haverá aumento de uma espécie de economia informal, então muitos hoje assalariados poderão se tornar independentes e esta poderá ser uma opção interessante e necessária para futuros profissionais. Mas a verdade é que, assim como os veículos têm que se tornar produtores de conteúdo, independentemente da mídia em que operam, os jornalistas têm que esquecer qualquer ligação com um formato específico. Não haverá mais espaço para ‘jornalista de rádio, de TV ou de jornal’. Todos, na verdade desde já, precisam estar dispostos a dominar todas as mídias”.

Carlos Chaparro vê a internet “como sinal do futuro, e o que ele representa para o jornalismo? Um ambiente fantástico, maravilhoso, de resgate do texto, depois de tanto se ter espalhado que entraríamos irreversivelmente na era da imagem. Até na televisão o texto é cada vez mais essencial. Certamente mudarão as formas de produção do jornalismo, devido às inovações tecnológicas. Mudarão, também, os papéis sociais e culturais do jornalismo, em sociedades marcadas pela capacidade discursiva das pessoas e instituições. Mas a linguagem caminhará apenas para requintes qualitativos que platéias cada vez mais críticas e interativas exigirão do jornalismo. Nesse jornalismo de amanhã, saber escrever terá o significado de saber pensar. Sem obedecer a verdades pré-estabelecidas tão ao gosto das antigas fronteiras disciplinares, que simplesmente devem ser pulverizadas. Quanto às formas de contrato e remuneração, a tendência para a terceirização é irreversível. O que não quer dizer que a figura do assalariado desapareça. Porque haverá alternativas para diversos tipos de acomodação”.

 

Que cenários em termos evolutivos se podem esperar para as mídias tradicionais (jornal, revista, rádio e televisão) e para as novas mídias (internet, rádio e tevê digital, telefonia celular etc.). É possível apontar algum novo caminho?
Se a ocasião faz o ladrão, parece claro que sabemos transformar crise em oportunidade. Nem todos sobreviverão, mas estamos atentos para transformar os meios tradicionais de acordo com os caminhos trazidos pelas novas mídias. Ricardo Gandour explica: “o sujeito, classicamente, entre 6h, 7h da manhã e 23h, via um jornal no café da manhã, depois ouvia rádio no trânsito, chegava ao trabalho e ali não consumia mídia alguma. Ao voltar, ouvia rádio de novo e, em casa, ligava a tevê e mais tarde ia dormir. A internet e o celular preencheram esses vazios. O celular está direto com ele, usa computador um pouquinho em casa e a tevê por assinatura aumentou as opções à noite. O jornal entrou ainda mais no final de semana”. Ele admite que, com esses espaços, “as novas mídias comprimem as outras, que perdem um pouco de share, mas continuam. Então, cabe às mídias tradicionais entenderem esse novo papel e adequarem a sua oferta, com mais análise, mais contexto, mais personagens, mais histórias bem contadas”.

Carlos Soria diz que “as experiências das últimas décadas nos ensinaram que ou se deixa de falar de meios tradicionais e de novos meios, como se isso fosse uma confrontação dialética, ou a distinção fundamentará uma classificação entre velhas e novas empresas. Na verdade, os velhos e os novos meios são simplesmente os ‘meios’. Só há meios e integração de meios. Se as coisas forem vistas assim, nossas empresas serão capazes – como vêm fazendo – de incorporar os avanços técnicos e assimilar os novos meios até fazê-los velhos meios”.José Marques de Melo não crê que “os dilemas principais do jornalismo sejam de natureza tecnológica. A tecnologia existe para corresponder às demandas. Quando uma máquina se torna obsoleta, aparecem outras, melhores, mais velozes e baratas. O calcanhar-de-aquiles do nosso jornalismo está na sua concepção coletiva. Os jornalistas se consideram todo-poderosos, sabem tudo e pensam que podem monitorar os desejos da sociedade. Por isso estão ilhados nas redações. O caminho novo é a velha escuta das ruas. Estabelecer sintonia permanente com as aspirações das audiências a que servem constitui o dever inadiável dos jornalistas”.Alberto Dines vê “lugar para todos. Mas quem está comandando é a tecnologia e poucas pessoas estão pensando em novos produtos. O Fontevecchia, que fez o Perfil lá na Argentina, pegou uma brecha e tenho certeza de que está dando certo. Os dois grandes jornais da Argentina, o Clarín e La Nación, são muito pesados no domingo. O Perfil é quase uma revista. Então, acho que precisa haver um pouco mais de criatividade empresarial. Os jornalistas estão se virando, tentando criar coisas pequenas. Mas são coisas pequenas, falta empresário para apostar”.Rodolfo Fernandes, sem ser “guru”, acha que “os jornais não serão mais mídia de massa (a rigor já não são há tempos), mas continuarão exercendo papel relevante como balizadores da opinião de interessados em informação mais qualificada. O rádio tem extraordinária capilaridade. A TV, esta sim, vai brigar pela primazia da imagem, que é o seu diferencial. Concordo com os que vêem a internet como ameaça maior à TV do que aos veículos impressos. A internet não vai mudar os jornais – ela já mudou! E para melhor, no sentido de que eles radicalizaram a sua função de ser um espaço para reflexão, qualidade e opinião abalizada”. De certa forma, Luiz Cama concorda: “os nossos e os grandes jornais do mundo têm massa de informação exagerada, tanto noticiosa quanto editorial. As páginas de política ocupam espaço demais. Isso vai acabar, pois custa muito fazer um jornal com tantas páginas, como Estadão, Folha e O Globo de domingo”.Carlos Alberto Di Franco insiste: “a grande aposta é na qualidade dos conteúdos. Continuamos gastando tempo excessivo na discussão do acessório. Tanto faz jornal, rádio, internet, tevê digital. O que realmente importa, perdoe-me a CBN, é a qualificação de ‘quem toca a notícia’”. Já Marcelo Rech vê o Brasil “muito mais próximo da Índia do que da Espanha do ponto social. E isso não tende, embora possa ter evoluções, a mudar nas próximas décadas. Significa que existe um enorme potencial a ser explorado junto aos que têm e vão ter menos acesso a mídias novas”. Como as novas mídias custam caro e “no Brasil há uma tendência de não se pagar por informação”, ele acha difícil que “a televisão paga ou a banda larga, que ainda têm custo pesado”, cheguem “a 80 ou 90% da população. Portanto, essas camadas continuarão sendo nos próximos 20 anos grandes consumidoras de rádio, jornais populares e tevê aberta”. Nas classes média e média alta, “vão se sobrepor, como já estão se sobrepondo, camadas de mídias”. O que “vai transformar o modo como conseguimos informação é via um aparelho móvel, não é celular, mas um pouco semelhante ao IPhone, um faz-tudo mesmo, que capta informação digital, multimídia e permite leitura mais agradável hoje, a qualquer momento, em qualquer lugar. É a grande evolução nos próximos 10, 15 anos”.Thomaz Souto Corrêa gosta muito “da tese do jornalista americano Roger Fidler, para o qual as mídias não se anulam umas às outras. Elas se metamorfoseiam e adquirem características que pareciam exclusivas de um determinado meio. Em geral, todos os tipos de veículos estão estendendo sua atuação nas plataformas online. O caminho é servir o leitor fiel onde quer que ele esteja, na hora que ele quiser, com o equipamento que ele tiver disponível naquele momento. Como nem tudo é para todos, é preciso – desde sempre – conhecer o leitor para atendê-lo”.Para Caio Túlio Costa, “as mídias tradicionais não vão continuar crescendo como cresceram até os anos 80. Em termos de quantidades de exemplares, mundialmente falando, o que diminui é o mercado de jornais de qualidade. Então, os jornais encontraram um novo nicho, onde pode haver um crescimento, que é esse voltado aos jornais de preço baixo ou de distribuição gratuita. As revistas estão se segmentando e aumentam a quantidade de títulos. O rádio está se digitalizando e vai sempre ter gente no trânsito, via internet ou em casa, ligada no rádio. A televisão não perde telespectador, mas tempo de audiência. Não é que a internet está roubando, mas que você está vendo um DVD, ou está no videogame ou no iPod. A internet está crescendo muito, mas não tão rapidamente quanto o celular. No Brasil, fala-se em 40 e até 50 milhões de internautas. Quem está sofrendo mais, visivelmente, são os jornais de qualidade, que vão ter de se reinventar e já se mexem. O celular vai exigir muito da gente. Ainda é muito difícil ler no celular. Mas daqui a pouco você faz assim e sai uma tela na sua frente”.Segundo Rogério Simões, “as mídias tradicionais vão se fundir cada vez mais, perder importância ou até desaparecer. Hoje, equipes de TV em canais tradicionais da Europa trabalham de forma semelhante às equipes de vídeo de sites de jornais que passaram a produzir material audiovisual. Priorizam a flexibilidade, a mobilidade, em operações de baixo custo em que um repórter sai com uma câmera leve na mão e produz uma reportagem sozinho. Os podcasts de sites de jornais deram a repórteres que antes só escreviam a responsabilidade de apresentar programas, o que exige locução melhor, textos com estrutura diferente. Mas esses jornais sabem que, para sobreviver, terão que ser um pouco de rádio ou TV, não só jornal. Portanto, se há um caminho do qual não temos como fugir é o da sinergia entre as mídias tradicionais. Vamos ter uma participação cada vez maior do público nessas mídias, seja com opiniões ou com conteúdo produzido por leitores/ouvintes/espectadores, o chamado UGC (User Generated Content)”.Carlos Chaparro é taxativo: “o caminho é o da convergência. Jornal e revista são cada vez mais abstratos, com capacidade de alcance que vai muito além das tiragens. Graças à internet, leio jornais europeus ao mesmo tempo que os leitores locais. Ouço rádio e assisto à tevê no computador. Uso a internet para captar e espalhar ao mundo informações e opiniões que me interessam. Gravo entrevistas feitas por telefone, e transfiro o som para os circuitos das redes universais, em difusão imediata pelo mundo inteiro. E em breve, poderemos usar a tecnologia digital para interferir nos conteúdos das mídias. O profissional de comunicação terá de lidar com todas essas formas e de fazer combinações entre elas”.

Cremilda Medina acha que “as situações-limite da sociedade sempre nos colocam o desafio da atualização. É só nessas condições que a gente pode medir a temperatura de quanto avançamos ou quanto regredimos. Porque vamos assim: para trás, para frente, para os lados, não é escadinha do progresso”. Para ela, “avançamos bastante, porque, por exemplo, as mídias do Congresso, a TV Senado, a Rádio Senado, a TV Câmara e a Rádio Câmara, a Agência de Notícias do Senado, a Agência de Notícias da Câmara, nos dão uma oportunidade de cidadania, de participação, que nós não tínhamos antes”. E mostra como sabemos transformar dificuldade em oportunidade. Faz tempo. Na votação das Diretas-Já, O Estado de S. Paulo “conseguiu driblar a sessão fechadíssima do Congresso. Não havia celular nem internet, mas tinha telefone. O Estadão conseguiu, por telefone, lá dentro, mandar informações para a redação em São Paulo e nós fazíamos um pôster de 20 em 20 minutos, que era levado para a Praça da Sé, onde havia um telão que não podia funcionar porque fora fechado. Mas esse pôster com notícias de 20 em 20 minutos, dando idéia da votação, era projetado no telão da Praça da Sé”.

 

A publicidade terá força suficiente para continuar sustentando o mercado editorial ou um novo modelo de sustentabilidade para o negócio jornalismo deve ser pensado?
A publicidade sempre procurou a credibilidade do jornalismo para acompanhar os seus anúncios e o jornalismo sempre contou com a verba publicitária para compor a sua receita. Ambos caminham juntos. Mas, com os novos meios, muitos são os desafios: propaganda e internet ainda se estranham; os classificados, quem diria, estão migrando da mídia impressa para a internet; na rede, o consumidor se acostumou a receber informação grátis. Enquanto isso, o dilema da sustentação da TV Pública continua.

Luiz Cama faz ardorosa defesa da publicidade, antes de avaliar os impactos das novas mídias na sua atividade: “no Congresso existem centenas de projetos, alguns absolutamente absurdos, contra a publicidade em si. Alguns até convenientes. As pessoas, entidades, instituições, os políticos de todo o tipo e outros interessados nesses projetos esquecem, ou fingem não saber, que o que sustenta a comunicação neste país é a publicidade. E o que sustenta a massa de diversão que existe neste país é a publicidade. Hoje, não se faz nada nesse País, devido aos custos de tudo, sem patrocínio. Existiam estatísticas antigamente que diziam que se a publicidade não existisse, a revista Veja, que custa R$ 8,50 na banca e R$ 5,00 para o assinante, teria que custar R$ 40,00”. Para ele, a chamada “mídia clássica”, ameaçada quando do surgimento da “bolha da internet”, “continua sendo a coisa mais eficaz neste País, genericamente a mais eficaz em termos de publicidade: um belo comercial em um belo programa de televisão. É o mais barato, o mais eficiente, o que chega para todo mundo”. Cama lembra que o “bolo” do patrocinador é um só: “os anunciantes não podem continuar aumentando indefinidamente os seus recursos. Eles têm de ser seletivos, surge muita coisa nova a todo momento”. Nesse sentido, ele aponta dois desafios para a publicidade: “um é saber fazer e o outro saber aplicar”, referindo-se à criatividade e à dotação de verba aos novos meios.No entanto, Carlos Alberto Di Franco diz que o desinteresse pelo jornal pode afetar a publicidade: “o que vislumbro é um mercado publicitário cada vez mais crítico. Qual a razão de se esperar grandes investimentos publicitários se o leitor considera o jornal um produto sem importância? Se o jornal melhorar, não há publicidade que resista”. Quanto aos veículos impressos, Rogério Simões lembra que “outra questão é o preço de capa, já que os jornais gratuitos hoje representam uma ameaça significativa. Estes estão baseados num modelo financiado apenas pela publicidade e que, em quase todos os lugares onde existe, ainda não conseguiu gerar lucro. Mas parece ser um modelo muito bem aceito pelos leitores e que pode indicar alguns caminhos para o jornalismo diário tradicional”.Por sua vez, Thomaz Souto Corrêa fala de avanços da publicidade online: “li uma notícia de que a publicidade online está explodindo na Inglaterra, o maior crescimento do mundo. No final do ano passado, tinha 14% de toda a verba publicitária. Era zero alguns anos atrás. Ou seja, por mais lento que seja o crescimento em alguns países, a tendência é crescer de maneira importante. Por outro lado, é preciso valorizar o conteúdo que está sendo dado online, porque não há razão para que seja gratuito – a não ser o que está virando commodity, como notícia em tempo real etc. Acho que em algum momento a mídia impressa vai começar a vender assinaturas de pacotes, incluindo papel, computador e principalmente celular. Aí talvez tenha uma sustentabilidade ainda não atingida”.A receita de Caio Túlio Costa é semelhante: “não há a menor dúvida que não só a publicidade, mas a venda de novos serviços e as possibilidades interativas, comércio eletrônico, vão fazer com que essa mídia tenha uma capacidade de sustentação muito maior que meramente a publicidade sempre deu. Acredito que é um modelo híbrido de sustentação, não só com publicidade e propaganda, mas também com vendas de serviços e comércio eletrônico”.Para Alberto Dines, “assim como o jornalismo, outra coisa que é indestrutível é a publicidade. Ela se acopla ao jornalismo. O jornalismo, desde o século 19, é sustentado, primeiro pelos classificados, depois pelos anúncios maiores. No início, os jornais eram sustentados pela venda avulsa, com interesses políticos. A publicidade só vai sobreviver ligada ao jornalismo ou ao entretenimento, que também pode ser jornalístico”.No entanto, ainda há desequilíbrios entre a publicidade e os novos meios. Com relação à internet, Rodolfo Fernandes pergunta: “como rentabilizar uma operação em que o consumidor rejeita totalmente o anunciante? Alguém recebe alegremente um pop-up?” Entre os muitos problemas, ele aponta: “já há programas feitos especialmente para evitar a propaganda nos sites. Antes de atrair o consumidor (e os anunciantes), a internet não conseguirá dar o salto econômico para ocupar um espaço compatível com a audiência que os leitores já lhe reservam. Hoje, um suplemento dominical de qualquer jornal da grande imprensa, feito por uns cinco jornalistas, fatura mais do que um site inteiro, com uma média de 70 profissionais. Enquanto a internet patinar na casa de 1% do faturamento das empresas jornalísticas, o modelo atual prevalecerá. Mas a geração de leitores que está chegando agora ao mercado cresceu se acostumando a ver a informação como algo gratuito. Vai ser difícil mudar essa tendência. Nos Estados Unidos, os primeiros anunciantes que abandonaram os jornais foram os classificados. Temos um grande desafio pela frente”.Como ele, Carlos Soria diz que acredita que “acostumamos o mercado a pensar que a matéria-prima informativa e de entretenimento é grátis. Vamos em direção a um novo modelo econômico na comunicação, sobretudo pelos efeitos da gratuidade e pelas mudanças radicais que se produziram na publicidade”. Segundo Soria, “o modelo de sustentabilidade que guiou durante cem anos o negócio jornalístico vai mudar, já está mudando. Redescobriu-se o que já se sabia, mas parecia esquecido: o preço é um fator decisivo na escolha de compra ou conexão com o meio”.Carlos Chaparro não se sente confortável em discutir o assunto, estranho ao seu campo de estudos, mas não se furta a opinar: “penso que as transformações tecnológicas, culturais e sociais provocarão também a criação de novos negócios e de novas formas de sustentabilidade do jornalismo. O acesso pago aos conteúdos, por exemplo, já representa uma fonte importante de receita para diversas empresas de comunicação, em diversos ramos do negócio da comunicação. Já existe, por exemplo, a assinatura de sistemas de notícias pela telefonia celular”.Como ele, José Marques de Melo alega não ter elementos para discernir os novos cenários mercadológicos, mas lembra que, “sustentabilidade significa fazer crescer a receita dos anunciantes avulsos para evitar a dependência governamental ou corporativa”.Falando em dependência, a preocupação de Cremilda Medina recai na TV Pública: “o grande problema que eu vejo é como a TV Pública ou a comunicação pública vai se sustentar, porque o Estado nacional faliu. Se não tem recursos para a saúde, infra-estrutura, se não tem recursos para toda a nossa experiência social, sem falar de questões de inclusão social, problemas de distribuição de renda etc., como é que vai ter dinheiro para bancar a rede pública?”Assim como Thomaz Souto Corrêa, Rogério Simões também diz que “a internet já representa uma fatia significativa do bolo publicitário, num processo mais desenvolvido na Europa e nos Estados Unidos do que no Brasil. Isso realmente é um desafio, já que jornais, revistas, TVs e rádios sempre tiveram um modelo baseado na renda publicitária. No caso da TV, a publicidade tradicional está perdendo espaço, já que muitos assistem, na TV digital, a seus programas favoritos na hora que querem e sem a publicidade que antes entrava nos intervalos. A publicidade continuará sendo vital para o financiamento da mídia, mas novos formatos terão que ser desenvolvidos para atender aos interesses dos anunciantes, dos veículos de comunicação e, especialmente, dos consumidores”.Marcelo Rech lembra do “modelo de fragmentação da publicidade que nós já estamos vendo em alguns países e que vai acontecer com mais força no Brasil nos próximos 20 anos. A mídia vai estar muito mais presente em diferentes cenários, que vão desde propaganda de rua a milhares de sites, revistas, mídia convencional, não-convencional, no céu. Enfim, isso é uma fragmentação evidente que está acontecendo e não creio que mude esse cenário a ponto de conseguir, por si, sustentar empresas de comunicação”.

Ricardo Gandour avalia que “o mercado publicitário tem duas grandes preocupações: uma, de longo prazo, que é a construção de marcas com credibilidade; e outra, mais imediata, que é com vendas, o que é natural e legítimo. Não há dúvida de que a nova mídia é atrativa, nesse sentido. Ela permite uma medida imediata do retorno. O que a sociedade como um todo – e o mercado publicitário faz parte dessa sociedade, num sentido mais amplo – precisa enxergar é também o papel dos setores de comunicação na construção do País. Acho que o jornalismo clássico, aquilo que se acostumou chamar de ‘a imprensa’, não pode ser visto como um elemento qualquer do mundo midiático. Um país com um bom jornalismo é um país melhor. Em certa medida, toda a cadeia produtiva deveria estar preocupada com o futuro do jornalismo no País, e não só com a categoria de produtos midiáticos de forma geral. É uma reflexão”.

 

“O novo padrão de consumo de informações, que surge com as novas gerações, provocará, a médio e longo prazos, um colapso nos formatos atuais da mídia, acarretando, em conseqüência, uma ruptura com os padrões éticos e estéticos do jornalismo”. Considera esta uma afirmação absurda?
Equilíbrio talvez seja a melhor palavra para sintetizar as respostas dos entrevistados. Onde se lê colapso, leia-se transformação. Onde se lê ruptura, leia-se inovação, oportunidade. A maioria preserva os valores éticos e imagina evoluções estéticas.

Carlos Soria atribui às novas gerações, por sua alfabetização digital e visual, “uma forma nova de se aproximar da informação e do entretenimento, uma nova estética e uma forma diferente de ordenar os valores éticos. Mas sempre foi assim, ainda que historicamente as mudanças de mentalidade tenham sido ocasionalmente mais lentas. Nossa indústria, seus promotores, seus editores, hão de se aproximar do mercado com vontade de aprender, sem renunciar jamais à sua ética pessoal. E aprender é, entre outras coisas, ser sensível às mudanças demográficas, políticas e sociais, indagar dos novos hábitos e tendências, prestar atenção especial às gerações mais jovens, seguir as migrações tecnológicas de suas audiências”.Aprender é também um conceito implícito na resposta de Thomaz Souto Corrêa: “cabe aos jornalistas manter os valores éticos, até para podermos ser comparados com iniciativas irresponsáveis, como aparecem, por exemplo, em certos blogs. Quanto aos padrões estéticos, não vejo diferença entre mantê-los seja em que plataforma for. De novo, é preciso ficar muito perto do leitor, para entender quais os valores que mais aprecia”.Para falar dos padrões éticos e estéticos, “sem deixar de usufruir o que a nova mídia tem de positivo”, Ricardo Gandour refere-se ao cenário social e político em que a comunicação acontece: “a globalização estimula a mobilidade dos capitais e a unificação de mercados, de gostos, de logística mundial, economia de escala, moeda estável. Emergem com força valores ligados ao individualismo e ao hedonismo, com o enfraquecimento do debate político e a globalização dos padrões de consumo. Com o jornalismo de celebridades surgem a Hola e a Caras, na Espanha e na Argentina, além da literatura de auto-ajuda. O que é a auto-ajuda senão a busca da maior eficiência pessoal, um valor individualista? Na comunicação, o fenômeno concomitante é a internet, com a comunicação 1-para-1. E ela turbina ainda mais isso tudo, pois é altamente individualizadora. Por outro lado, traz muita coisa positiva: as facilidades de contato, de pesquisa, de interatividade. Mas o jornalista que vai para a internet deve ter a clara visão do contexto social e histórico em que isso está acontecendo, para poder contrabalançar as coisas”.José Marques de Melo diz que “enquanto a sociedade não muda em seu conjunto, de nada serve um código de ética ou um decálogo de padrões estéticos estabelecido por uma corporação, porque estarão fora do contexto, serão inaplicáveis. Os padrões éticos ou estéticos de uma sociedade dependem do avanço civilizatório, o que implica a universalização do sistema educacional e distribuição mais justa do produto social”.Para Alberto Dines, “a história do jornalismo está ligada à busca de melhoria do ser humano e não de piorá-lo. O Observatório, por exemplo, o nosso site, tem hoje uma leitura apreciável, mas não publica palavrões, ofensas pessoais. Se o sujeito puser a gente corta, não sai mesmo!”. Dines destaca ainda o direito autoral: “é uma questão que tem que ser pensada, você não pode permitir uma liberalidade, pois, se não, do que nós, jornalistas, vamos viver se não tivermos direitos autorais? Jornalistas, escritores... Tem que haver o direito autoral, mas fiscalizar isso na internet é complicado. Aí também entra a conscientização pessoal. Os veículos de internet precisam adotar certos princípios”.Para Rodolfo Fernandes, “assim como a TV não acabou com o rádio – que está aí cada vez mais forte –, a internet não vai acabar com a TV, e muito menos com os jornais. Haverá mais consumidores de informação, fruto de um mundo com mais educação, e há espaço para diferentes formas de veiculação. Quem investir em qualidade, credibilidade, diversidade e pluralidade vai estar bem posicionado neste mundo. Parece fácil, mas não é – credibilidade demora anos para se construir e muito pouco tempo para se destruir”.Como ele, Luiz Cama evita os termos “colapso” e “ruptura”, para dizer que “jornalismo é uma coisa e monocomunicação, fofoca, é outra. Se Deus quiser, nós ainda vamos ter o jornal, o rádio e a televisão entre nós por muitos anos. Quem sustenta grande parte do lazer, prazer e informação do povo brasileiro é o veículo eletrônico grátis que entra na casa dele 24 horas por dia, pago pela publicidade e por alguns subsídios por aí”.Em vez de colapso, Carlos Alberto Di Franco vê “diminuição da força da mídia impressa. Mas, como nosso negócio não é imprimir papel, tanto faz. O nosso negócio é conteúdo qualificado. O suporte é secundário”.Marcelo Rech substitui o termo “colapso” por um questionamento que leva a mídia ao aprimoramento, a uma melhor qualificação: “não acho que haja colapso nos formatos. Pelo contrário, alguns formatos dão certo não só pela forma, mas pela apresentação, ou pelo conjunto de percepções que o produto exibe. Por exemplo, a Economist, de formato e postura convencionais, mas com um conteúdo de tal forma qualificado na percepção do público que a consome, que ela tem um futuro dentro desse formato por muitas épocas à frente. Já a questão ética é uma das poucas percepções positivas que as empresas que construíram seu patrimônio de credibilidade ao longo de décadas podem exibir num mundo onde ninguém sabe quem é quem, o que está por trás de novos players entrando no mercado da comunicação, quais são os grupos econômicos que financiam essas empresas, chamadas de novos entrantes. Mais do que colapso ou ruptura, vai haver fortalecimento de padrões éticos nas empresas que querem e entendem que podem fazer disso o seu diferencial em relação a novas marcas chegando ao mercado. Esse vai ser o fator diferenciador positivo para quem tem produto para entregar”.Caio Túlio Costa não entende “colapso” e “ruptura” de forma negativa. Segundo ele, “essa ruptura pode levar para novos padrões. Estávamos acostumados com a velha informação que mudava pouco. Se você ler um livro de Balzac, vai ver que o jornalismo que se fazia na França, na Europa, no século 19, não é muito diferente do jornalismo que se faz hoje. O que mudou foi que antes a gente fazia e despejava informação. Hoje a gente tem que dialogar com o leitor. Isso é muito desconfortável para as velhas gerações, faz com que mude realmente o jeito de pensar”.Rogério Simões vislumbra “maior participação dos leitores nessa nova realidade, assim como a proliferação de fontes de informação, que levarão à busca pela qualidade. Haverá maior fiscalização da parte dos consumidores. Reportagens levianas serão mais regularmente desmascaradas por blogueiros, o que já ocorre com certa freqüência nos Estados Unidos. Eticamente, temos a chance de evoluir, já que a informação deixa de ser privilégio de grupos econômicos, cujos interesses são muitas vezes estreitos, e passa a ser de domínio público. Em relação à estética, vejo uma mudança positiva, já que estamos numa fase de mais experimentação, mais ousadia. Perderão aqueles que insistirem em padrões ultrapassados e que não mais se justificam”.Luiz Weis aproveita para falar do “jornalismo-cidadão”: “talvez seja ainda muito cedo para fazer juízo. Mas, mesmo levando isso em conta, o resultado é muito negativo. Porque cada um se dá o direito de achar que pode qualquer coisa. O que ainda existe de bom na blogosfera são jornalistas que aplicam à nova forma de expressão os atributos, os talentos, os princípios e as experiências do jornalismo tradicional. Então, esses blogueiros que você tem na Folha, no Estado, no Globo, são os mesmos jornalistas. Porque não existe no Brasil um João da Silva que não é jornalista e virou jornalista-cidadão. A falta de credibilidade é outro problema gravíssimo desse momento de mudança. A informação circula a uma velocidade muito maior, porque deixou de ser física, deixou de ser átomo, para ser byte. De um lado, é bom, porque milhares de pessoas ficam sabendo de coisas na hora. Só que milhares de pessoas ficam sabendo de coisas erradas a toda hora. O erro se multiplica na razão direta da velocidade da informação. É o preço que você paga pela oportunidade que a tecnologia deu de uma infinidade de pessoas ser informada em tempo real”.Para Cremilda Medina, não há colapso enquanto houver a escrita. Ela credita às escolas a intensificação do “ato de cidadania que é a escrita” e diz: “a escrita tem uma força que não desaparece, porque é a afirmação da nossa passagem pela vida. Se você não se escreve, você não é. Então, a meninada pode estar ameaçada por todas as seduções que andam por aí, mas haverá um momento em que a descoberta, o prazer da escrita vencerá. Vence porque é de tal forma arrasadora a alegria que a gente passa, quando consegue escrever alguma coisa. Escrever lato sensu”.

Carlos Chaparro encerra esta discussão de forma direta: “com a sofisticação discursiva dos conflitos, o jornalismo terá de zelar pelos seus compromissos com a ética, para que continue a ter razão de ser como linguagem confiável. Quanto aos padrões estéticos, as duas variáveis que mais fortemente marcam o sedutor discurso jornalístico são e continuarão a ser a retórica do conflito e o vigor da veracidade. Em todas as mídias pelas quais o jornalismo se expressa”.

 

O jornalismo contemporâneo é fruto de um processo de permanente evolução nos campos da linguagem, da estética, da elaboração da informação, do tempo de consumo da notícia, dos meios e plataformas de veiculação, das técnicas narrativas etc. Para onde essa evolução está apontando?
Falar desta evolução é voltar um pouco a respostas já dadas, às vezes com uma visão mais ampla, ou contrária à de outros. Carlos Chaparro acha que “o que evolui é a vida e as formas individuais e coletivas de vivê-la. O que transforma o mundo não é o jornalismo, mas as ações humanas, hoje fundamentalmente discursivas, que o jornalismo projeta na sociedade em formas de relato e comentário. O jornalismo faz parte dos processos sociais e culturais da vida humana. É a ferramenta expressiva dos sujeitos que agem no mundo, para transformá-lo. E terá de encontrar e oferecer respostas eficazes às demandas humanas de dizer e saber, em cada época”.

Ricardo Gandour adota a mesma linha: “eu gostaria que esta evolução apontasse para que se preserve a inteligência da apuração, no sentido de dar contexto, analisar, não só o outro lado da informação, mas todos os lados da informação e para que a edição – ou seja, o formato final da narrativa – seja mais inclusiva. Essa é a nossa missão e uma área em que ainda temos que progredir. O jornalismo ainda pode encantar as pessoas. Estamos devendo isso”. Mas discorda frontalmente de Chaparro ao dizer que não tem a menor dúvida de que o jornalismo fez um mundo melhor: “Ah, fez! Alguém já disse que o jornalismo deve ‘afligir os confortáveis e confortar os aflitos’. Acho que temos conseguido afligir os confortáveis, mas precisamos confortar mais os aflitos. Ou seja, trazer mais orientação, mais informação útil ao cotidiano do leitor”.Carlos Soria filosofa: “Quem sabe é chegada a hora da antropologia. Muda o homem, mas também se pode dizer que não muda. Seguimos nos comovendo com a dor, a alegria, o sentido solidário de vida, o amor, a beleza da cultura e da natureza, o deixar atrás de nós algo que perdure mais ou menos tempo. Voltar os olhos à antropologia é saber conviver com a técnica sem nos fazermos seus escravos; valorizar os aspectos pessoais, mas superar todo individualismo por meio de uma visão comum e solidária; deixar somente de descrever o mundo para comprometer-se com a sua melhora e sua transformação”.José Marques de Melo acha que “o jornalismo contemporâneo é produto de tudo isso [que está na pergunta], mas as mudanças não ocorrem autonomamente. Elas dependem de alterações radicais na vida das sociedades de que fazem parte. Por isso, em sociedades estagnadas como a nossa é difícil apontar sinais evolutivos. Temo que os sinais regressivos sejam mais evidentes, apesar de poder ser interpretado como pessimista”.Cremilda Medina vê “um avanço muito relativo nessa esfera”. Resgata “narrativas muito consistentes e muito criativas” na televisão e diz que, mesmo no “dia-a-dia, a gente pinça peças muito bem feitas, muito autorais. Porque o problema é esse, é preservar a autoria”. Isso pode ser um diferencial dessa eventual nova fase do jornalismo? Ela responde que “sim, porque na medida em que os jovens autores, ou jovens profissionais, não estão mais condicionados à carreira do emprego, na medida em que eles vão se libertando dessa amarra de ser um empregado da empresa X, fazer carreira naquela empresa, repórter, editor, não sei o quê, eles preservam a sua dignidade”.Para Alberto Dines, “existe uma grande incidência para a baixa da qualidade”. E conta de uma jovem jornalista que participou do programa do Observatório da Imprensa: “eu fiquei encantado. Falei para ela: ‘O seu vocabulário é tão bom, você articula as frases tão bem’. Eu me senti obrigado a estimulá-la, porque, provavelmente, o chefe dela, lá onde ela trabalha, não faz isso”.Rodolfo Fernandes acha que “ninguém vai reinventar a roda. Ninguém ainda conseguiu inventar uma forma de fazer jornalismo sem jornalista e sem furo. Portanto, estamos falando de aprimorar os profissionais de informação num mundo cada vez mais complexo para servir a um consumidor cada vez mais exigente. Essa evolução é natural, não começa agora, é permanente e dialética – quanto mais informado o leitor/espectador/internauta/ouvinte for, mais exigente ele será com os seus veículos”. Mas ressalta que “temos desafios de conteúdo para resolver com nossos novos leitores muito mais sérios do que apenas a plataforma pela qual eles nos acessam”.Segundo Luiz Cama, “aquele jornalismo clássico de busca, trabalho sobre informação e transmissão da informação vai conviver com outro tipo de transmissão de informação que não é jornalismo, é uma imensa comunidade eventualmente até de fofocas, que vai transmitir de quem quiser dizer para quem quiser ouvir. Serão dois tipos de mundo da informação, lado a lado, um ameaçando o outro, pois as pessoas não têm tempo de dar atenção aos dois”.Carlos Alberto Di Franco aposta, “sem dúvida, na qualificação da informação. Ao contrário do que muitos pensam, vislumbro uma nostalgia de conteúdo. O estresse contemporâneo será seguido de um processo de recuperação da identidade do homem consigo mesmo. Quem investir na velocidade sem conteúdo, no mundo do clipping, morrerá na praia. Quem investir no conteúdo, sem descuidar dos avanços da tecnologia, irá ao encontro de um homem exausto de novidades e sedento de âncoras mais profundas”.Marcelo Rech acha que “a grande transformação é na notícia, no formato de lead tradicional, que, quem, como, quando, onde, por quê. O território da notícia passa a ser quase uma exclusividade de rádio online, de televisão. A transmissão do fato que está acontecendo ou que acabou de acontecer passa a ser dominada pelas mídias instantâneas. O que a gente dizia de brincadeira anos atrás, de que não havia nada mais antigo do que jornal de ontem, já se pode dizer hoje que não há nada mais antigo do que notícia de ontem. Então, jornais e revistas vão cada vez mais seguir, na minha opinião, em três linhas. Uma, de antecipação, servir de guia para o que vai acontecer naquele dia, semana, ou dali para a frente, para acompanhamento nas demais mídias. Será um roteiro que antecipa o que está por trás, o que vai ser decidido, o que pode ser decidido e como vai ser decidida alguma coisa, no que isso vai mudar a vida das pessoas. Na segunda linha, mais do que noticiar os fatos dos dias anteriores, vai interpretar o significado deles, fazer uma análise, combinada com informação, do que aquilo impacta na vida do cidadão. E na terceira linha, muita análise e opinião”. Como acha que “o debate segue muito aceso na sociedade”, para Rech “o papel dos veículos é cada vez mais servir de intermediação desse debate”.A respeito da tendência sobre informação e entretenimento, o infotainment, Rech tem opinião bem contrária à de Luiz Weis, na pergunta 2: “Eu não vejo problema de a informação se mesclar com o lazer e o prazer. Existem problemas se a informação se mesclar com ficção, obviamente. O entretenimento pode ser encarado de duas formas: como ficção ou como prazer e lazer. Se a informação é captada como prazer, ótimo; nem toda a informação é hard news, que precise ser consumida de maneira dolorosa ou do ponto de vista crítico. Mas é completamente diferente quando encaramos entretenimento como ficção. Aí existe um risco, de querer misturar os dois, que dá bobagem”.Segundo Thomaz Souto Corrêa, “todas as características desse processo permanente deverão estar em todas as mídias. Não vejo um texto que precise ser melhor escrito para ser lido no papel, em detrimento de uma tela, seja ela de que tamanho for. São essas características que fazem do jornalismo a alma e os olhos dos leitores. É tarefa nossa manter essa evolução, colocar nesse novo jornalismo a obsessão de fazer o melhor para o leitor. Essa postura fará com que, não importa em que plataforma, o bom jornalismo continue a predominar”.Para Caio Túlio Costa a evolução “aponta para a questão da ubiqüidade, que é o pervasivo. Há uma presença, cada dia mais próxima, da mídia no cotidiano de todo mundo, há a questão da multilateralidade da informação, que é interativa. É aí que está o germe da mudança”. Quanto ao fazer jornalístico, ele acha “que as regras são sempre as mesmas, pode ser que você tenha que correr mais, mas isso não inibe em nenhum momento a necessidade de ouvir o outro lado, checar os dados, buscar a eqüidade da informação”.

Segundo Rogério Simões, essa evolução “aponta para um mundo onde a informação é mais acessível, mas mais fragmentada, onde o jornalismo tradicional enfrentará uma batalha diária para sobreviver, mas onde as possibilidades são infinitas. É um mundo de relações mais democráticas entre produtores e consumidores de informação, onde, digo mais uma vez, a qualidade será uma moeda de valor altíssimo. A informação pura e simples estará disponível em todos os cantos, mas a informação, a análise e o debate de alta qualidade serão valorizados como nunca”.



Está surgindo um novo desenho no mercado
Eleno Mendonça

A imprensa está se encontrando. Se olharmos pelo retrovisor, vamos ver que durante muitos e muitos anos a imprensa teve uma cara formal: jornal, rádio, TV. Até os meios de se fazer esses veículos eram caquéticos. De uma hora para a outra, num curtíssimo espaço de tempo, em termos históricos, assistimos à chegada do fax, depois da informática, depois da internet e com ela todos os googles, blogs e orkuts. É tudo muito rápido e não há, nas redações, uma cultura capaz de deglutir e pensar de forma convergente como conciliar todos essas novidades.Dos veículos, creio que os impressos foram os mais atingidos. É que sua produção sofre mais com essa ligeireza da concorrência que se estabeleceu. Para piorar o cenário, vieram os jornais grátis, disputados a tapas nos locais de maior movimento da cidade.A grande questão é: como os jornais vão encarar essa disputa. Tenho pra mim que será preciso uma mudança de cabeça, de cultura. E tenho pra mim também que os jornais ainda não se deram conta, de verdade, da intensidade do avanço dessas tecnologias e da premência de mudanças um tom acima, bem mais radicais.Enquanto os jornais continuarem dando as notícias dos meios eletrônicos, vistas um dia antes com o benefício da imagem animada, continuarão assistindo à queda de suas tiragens, ou a manutenção das mesmas à custa de muita promoção de propaganda. Os jornais têm de mudar o perfil, investir em pessoas, matérias especiais, produzir coisas mais analíticas, que acrescentem de fato algo de novo ao que se vê no dia-a-dia.

No final, tudo vai se acomodar, mas o mercado publicitário tem apenas um tamanho. Cresce um pouco por ano, da mesma forma como os veículos. Com o crescimento exagerado de uma das pontas, alguém acabará perdendo participação. Haverá uma acomodação, claro, mas daqui a 10 anos certamente o mercado terá uma nova estrutura. O desenho do mercado será outro.

 

De rivais a aliados no mundo digital
Luiz Fernando Gomes

Antes tarde do que nunca, os editores de jornais pelo mundo despertaram para a Era digital. A mídia eletrônica não é mais vista como um adversário, uma ameaça, um alvo a ser destruído – como se isso um dia fosse possível. Em 1996, um Congresso da Associação Mundial de Jornais, em Paris, assistiu a um desfile de palestrantes que alertavam para a extinção do jornalismo impresso, a derrocada das empresas tradicionais de mídia, atropeladas que seriam pela multiplicação da internet. Parecia verdade, eram argumentos sólidos, baseados em números e elaborados por alguns dos grandes pensadores da comunicação moderna. Dava até vontade de mudar de profissão...No ano passado, em Moscou, dez congressos depois, o clima já era bem outro. A internet, o jornalismo online digital, as novas plataformas de distribuição de conteúdo – agora incluídos WAP, mobile, TV sob IP e outras tecnologias – já não são mais percebidos como rivais, e sim aliados. As mídias se completam. Cada uma com a sua linguagem, suas características, suas definições. O jornalismo digital não acaba com o impresso como a televisão não acabou com o rádio ou o DVD não sepultou o cinema. As empresas de comunicação, de fato, vão se reinventando, mudando seus processos de trabalho, apostando na produção multimídia. E vencendo o desafio. A versão online do The New York Times já tem mais leitores do que o papel. Mas isso já não preocupa, é bom para a marca, para o negócio, audiência maior gera receita publicitária maior.As redações mundo afora vivem permanente e entusiasmado processo de transformação. Como o Times, Washington Post e The Guardian, só para ficar nos gigantes tradicionais da mídia americana e inglesa, unificaram suas equipes de online e de papel. No Post, 10 horas de programação de rádio são produzidas diariamente na redação. E 50 repórteres – entre os quais alguns dos veteranos nomes do jornalismo impresso americano – passaram por treinamento, foram capacitados como vídeorepórteres e produzem até cinco matérias de TV por semana. Não se trata de sobrecarga de trabalho – ninguém faz tudo ao mesmo tempo –, mas de diversidade de qualificação, todos terão capacidade de fazer tudo.

Credibilidade, qualidade, profundidade e especialização são as armas dos grandes jornais para conquistar o território da web. São atributos de alta percepção pelo público, construídos ao longo de décadas por repórteres, editores, profissionais comprometidos com a essência do jornalismo. E que os sites de notícias e portais de buscas, filhos da internet, muito tempo ainda vão demorar para conseguir. Somar a estes atributos a agilidade da informação online e a modernidade da multimídia vai fazer de nós os capitães dessa batalha, perpetuadores dos valores do bom jornalismo. Não há outro caminho – ou alguém fará isso por nós.

 

Um olho para o papel, um olho para o site
Paulo Nogueira

Já é um clássico do jornalismo contemporâneo o memorando que o novo diretor da Time, Richard Stengel, enviou a todos os jornalistas da revista. O memorando os conclamava a pensar na Time não apenas como revista impressa, mas como resultado de uma combinação entre a versão semanal no papel e a versão digital. Stengel citou nome a nome os jornalistas da Time que estavam contribuindo de forma relevante para o site. “Esta lista tem que aumentar”, afirmou.Stengel, em seu memorando, mostrou o jornalismo e o jornalista do futuro. Todas as mídias tradicionais – revistas, jornais, rádio, tevê – terão uma versão poderosa na internet se quiserem sobreviver. O jornalista vai ter que se adequar a esse cenário. Um editor de revista, por exemplo. Hoje a divisão de seu tempo entre o papel e a internet é esmagadoramente favorável ao papel. Em não muito tempo, se quiser permanecer em sua função, ele terá que rever essa conta. Um dia, que não está longe, a divisão será meio a meio. Metade no tempo na versão impressa, metade do tempo na versão online. É imperioso criar uma cultura editorial online na mídia tradicional. É o que Stingel está fazendo na Time. É o que está sendo feito na Editora Globo. É o que todo mundo que aspira a estar vivo amanhã está ou deveria estar fazendo.Importante notar a mudança de percepção, na mídia tradicional, a respeito da internet. Até recentemente, a internet era vista como uma grande ameaça. Agora, ela passa a ser encarada como uma oportunidade extraordinária. A internet vai ser dominada pelos jogadores capazes de criar grande conteúdo. Gente que tenha credibilidade, relevância e marcas potentes. Tudo isso a mídia tradicional tem. A questão, para ela, é viajar com tais atributos – rapidamente, na frente da concorrência – para a internet.Quem fizer isso vai se dar bem em todos os sentidos. A começar pelo financeiro. Hoje há, no mundo todo, uma enorme desproporção entre a audiência crescente da internet e a verba publicitária. Muita gente conectada cada vez mais tempo no computador e um dinheiro publicitário que não reflete essa realidade. No Brasil, cerca de 3% da verba publicitária vai para a internet. Nos Estados Unidos, cerca de 5%. Mas na Inglaterra – já apontada pelas consultorias internacionais de mídia como exemplo – esse número sobe para 16%. Eis o futuro.

Os anunciantes vão colocar cada vez mais dinheiro na internet, em todos os países. Quem vai capturar esse dinheiro é quem for capaz de criar conteúdos de alta qualidade. A elite da mídia tradicional tem uma fabulosa chance de crescer como negócio se conseguir aliar ao que já tem de forte em seu campo de atuação um conteúdo primoroso para os internautas. O mesmo princípio – com a conseqüência de uma carreira vitoriosa -- vale para os jornalistas.

 

A mídia mudou, que bom
Roberto Duailibi

A imprensa é sempre reflexo do que acontece na sociedade. Assim é que o lado boêmio da mídia e, com certeza, dos seus jornalistas, nos anos 60 e 70, guardava profunda relação com o que acontecia nas noites cariocas e paulistanas, com o ar conspiratório que todo publicitário e jornalista possuía nos chamados anos de chumbo. De repente, todo mundo se sentia um tanto Che Guevara.Depois veio a abertura, as patotas ficaram menos evidentes, não era mais preciso conversar tanto nos bares, na noite. Ficou a imagem dos boêmios. Os profissionais da comunicação sempre foram o espelho de tudo o que se passa. Na abertura política cresceram os jornalistas da área de política, depois vieram os pacotes econômicos e a proliferação do modelo “Joelmir e Nassif”, a nos fazer entender afinal o que acontecia.O tempo seguinte foi marcado pela privatização, pelas crises internacionais, pela chegada dos meios eletrônicos.Hoje estamos vivendo o verdadeiro boom da internet, dos blogs, dos chamados conteúdos eletrônicos. Como quando do surgimento do cinema, do crescimento das revistas, todos os meios passam por profunda fase de acomodação. Há lugar para todos, mas certamente haverá uma fase de muitas incertezas para todos os meios.Do ponto de vista editorial, a mídia vive a fase do jornalismo investigativo. A qualidade dos jornalistas brasileiros na apuração é fantástica e nos surpreende todos os dias com denúncias para todos os gostos.Fico sempre imaginando se não tivéssemos esse trabalho. Ainda bem que existe esse desejo de escarafunchar a vida dos suspeitos, de buscar a origem dos fios de meadas. O Brasil, tenho certeza, é bem melhor assim, escancarando suas feridas e punindo, ainda que apenas com o achincalhamento público, as más figuras de nossa sociedade.Tudo isso é um dos papéis da nossa imprensa, que com tudo isso, quando dá tempo, ainda nos brinda com textos brilhantes, com divertidas colunas, com lazer, esporte e tudo o mais.Do ponto de vista da propaganda, é claro que ela continuará sendo a maior fonte de receita dos veículos. O segmento publicitário também tem evoluído e rápido, vieram a convergência, os novos meios, as novas formas de fazer veículos, mas não tenham dúvida de que essa relação entre a propaganda e os veículos sempre será estreita.

O jornalista e os veículos evoluíram. Ainda bem.

 

A mudança está do outro lado
Sergio Valente

Não sou jornalista. Mas sou um consumidor voraz de notícias. Desde o amanhecer. De jornal, antes de sair de casa. De TV, enquanto tomo café.  De rádio, no caminho para o trabalho. Na internet, ao chegar. No blackberry, em meio ao engarrafamento. No dia em que chegam as revistas mensais. Tenho uma necessidade física de sentir o papel nas mãos e não sei viver sem estar conectado. Mesmo a trabalho, na  China, o blackberry está sempre à mão.
Embora me sinta pouco à vontade para falar sobre o futuro do jornalismo, para mim, é o jornalismo que descobre, revela, informa e forma a opinião pública. E este papel – na minha modesta opinião – é inquestionável, imutável na sua essência.
Desculpas já pedidas antecipadamente, arrisco-me a dizer que o surgimento e a popularização de uma nova mídia sempre vêm acompanhados de interrogações: qual será o papel do novo meio, seu futuro, como será sua coexistência dos meios já existentes e qual será seu impacto no futuro destes? No cerne de tudo, cinco palavras (pelo menos): mobilidade, tecnologia, customização, democratização e velocidade.
Se pararmos para pensar, a internet é informação just-in-time, como o rádio; usa imagens eloqüentes, como a TV, e permite análises profundas como jornal e revista, pois pode remeter para um sem-número de referências e arquivos. De certa forma, a interatividade também sempre existiu, sob a forma da ligação do ouvinte, da carta do leitor, do contato com a TV.
A maior mudança não está do lado de quem faz, nem de como faz. Mas sim, do outro lado, do lado de quem recebe a notícia. Que quer e agora pode interagir com quem a divulgou. Que dá sua resposta em tempo real. Não apenas o jornalismo, mas toda a indústria da comunicação, inclusive a comunicação publicitária, vive hoje bem mais que o ajuste à popularização de um novo meio. Pois não se trata simplesmente de uma inovação tecnológica, mas a mudança de padrões de comportamento.
Diz-se que, seja quando há muito dinheiro na economia e surgem n marcas, seja quando há escassez de recursos, o consumidor tende a pender para o lado de marcas fortes, (re)conhecidas. Há paralelo no jornalismo? Arrisco-me a dizer que sim: títulos e jornalistas com credibilidade, nomes que nos vêm à mente em primeiro lugar por estarem permanentemente a serviço da informação. Não importa em que meio, o importante é que traduzem a essência do jornalismo: credibilidade, pertinência, atualidade, informação, correção.
Sou um brasileiro que acredita firme e inabalavelmente no papel da imprensa na formação da cidadania, na defesa da ética. Mas não sou futurólogo, não sou especialista. Nem jornalista. Só posso dizer que vivemos uma época de mudança de hábitos. De formação de novos hábitos. E épocas de mudança também trazem imensas e infinitas possibilidades e oportunidades, para quem está atento, para quem está apto, para quem está aberto e para quem saiba identificar anseios e necessidades.
PS: A DM9DDB se tornou referência mundial em internet, ao ser a primeira agência do mundo a receber o título de Cyber Agency of the Year no Festival Internacional de Cannes, em 2005. Isto só aconteceu, em grande parte, porque anos antes decidimos não traçar uma fronteira invisível entre os mundos on e offline – pois o consumidor não faz esta distinção. O importante é a idéia. O resto, é forma.


 
 


 
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