São Paulo,

Infoglobo: pés no presente e olhos no futuro
Empresa vive um dos melhores momentos de sua história recente e abre caminho para ser líder em todas as plataformas, sob a filosofia de que seu negócio é informação e não jornal  

Dona de dois dos maiores jornais do País, O Globo e Extra, e também do popular Expresso – todos no Rio de Janeiro –, além do Diário de S.Paulo, na capital paulista, a Infoglobo deu recentemente um passo decisivo nas suas pretensões de ampliar a influência na mídia brasileira e mais ainda os seus negócios nos mercados em que atua, sobretudo o Rio de Janeiro. A empresa realizou há poucas semanas uma estratégica reestruturação de sua diretoria e o fez com três objetivos básicos: otimizar o presente, interagir com o futuro e qualificar as pessoas, as várias equipes, para transitar entre esses dois mundos. Ou seja, quer aprimorar e tornar mais rentáveis os seus negócios atuais sem perder a “astronave” do futuro e entende que só conseguirá isso com equipes altamente qualificadas.
Não estamos falando de uma empresa qualquer, mas do braço da mídia jornal do maior grupo brasileiro de comunicação, as Organizações Globo. Empresa que, no conjunto, detém a maior tiragem de jornais diários do País, chegando com seus quatro títulos aos 700/750 mil nos dias úteis e à casa de 1 milhão aos domingos.
São 600 jornalistas, de um universo de 3.000 funcionários, permanentemente instigados a ousar, a fugir do lugar comum, a contar boas histórias, a escrever nos jornais aquilo que a televisão, o rádio e a internet ainda não deram, e – o mais importante – com o direito de errar.
Ao criar uma Diretoria de Planejamento e Inovação, a Infoglobo descolou-se parcialmente do presente para mergulhar de cabeça no futuro e interagir com ele, com o claro objetivo de ficar um pouco à frente do seu tempo.
E não se pense que a empresa fez isso por mera retórica ou coisa parecida. Mudar, inovar está no DNA da Infoglobo, como mostram as dezenas de inovações que dia a dia, semana a semana, mês a mês, ano a ano a empresa introduz em seus produtos e que este J&Cia tem acompanhado com o detalhamento possível. Nada de pacotes, de novos projetos, de redesenhos. O último, aliás, tem mais de 12 anos. Desde então, a empresa muda sempre que julga necessário, e como sempre julga necessário, muda sempre. Tem ali uma usina de inovações funcionando. Errando e acertando, mas mais acertando que errando, como mostram os inquestionáveis números.
Foi para conferir esse momento mais do que especial vivido pela Infoglobo, que este Jornalistas&Cia esteve na sede da empresa na semana em que o Rio de Janeiro viveu um tumultuado momento, com o desmoronamento da encosta do Túnel Rebouças, em decorrência das fortes chuvas que assolaram a cidade.
Ao lado da editora regional, Cristina Vaz de Carvalho, o diretor e editor deste J&Cia, Eduardo Ribeiro, entrevistou por quase duas horas dois dos principais executivos da empresa, o diretor-geral Paulo Novis e o diretor de Negócios Corporativos Agostinho Vieira.
Paulo e Agostinho não se furtaram a responder nenhuma das questões apresentadas. Na verdade, apenas uma ficou no ar. Indagados sobre os novos passos da Infoglobo com vistas a ampliar seus negócios no já dominado mercado do Rio de Janeiro, a resposta veio de Paulo: “Sim, temos muito ainda o que crescer no mercado do Rio”. Em quê? Desconversou: “Não posso dizer. Mas, a informação está dada.”
A conversa percorreu múltiplos temas. Passou, por exemplo, pelas razões da empresa em investir – sempre e mais – nas atuais marcas, apostando na fidelização de seus leitores como contrapartida ao rigor editorial de seus produtos; evoluiu pelo conceito do negócio – “nosso negócio não é jornal e sim informação”; enveredou pelos caminhos do mundo digital – onde o segmento online, embora ainda um negócio de baixo valor agregado, cresce a olhos vistos e logo logo, como disse brincando Agostinho, estará pagando os salários dos executivos da casa; defendeu a publicidade e sua presença no mundo online – publicidade, afinal, é informação e o próprio Google já encontrou um jeito inteligente de faturar com ela, por meio dos links patrocinados;  analisou os processos de reestruturação dos jornais brasileiros – que, no caso da Infoglobo, se dão de forma contínua e gradual, pois a filosofia é não chocar os leitores com mudanças radicais; revelou que os jornais gratuitos ainda não estão nos planos da empresa – as contas não batem, como sabem eles e a torcida do Flamengo; e discorreu sobre o PAR, Programa de Participação nos Resultados, que há 14 anos garante rendimentos extras a todos os colaboradores da organização, e que substitui a tradicional “semana do Dr. Roberto”.
Duas questões mereceram dos executivos uma atenção especial. A que abriu caminho para questionamentos sobre a atividade da assessoria de imprensa no Brasil, que poderia, conforme afirmou Agostinho, estar contribuindo para tirar publicidade da mídia e talvez, o que seria mais grave, distorcer a cobertura factual dos principais acontecimentos do País; e a do controle de informação dentro da empresa, fato que alguns dos funcionários consideraram uma política invasiva. Ao responder sobre essa questão, Paulo foi taxativo: esse controle existe e continuará a ser feito com muito rigor, porque ele foi criado para preservar o patrimônio maior da empresa, suas informações. E defendeu seu ponto de vista com uma comparação: os e-mails não são cartas seladas e sim cartões postais, aos quais muita gente tem acesso. Suas palavras, num dos momentos mais tensos da entrevista: “Não podemos mais tratar a informação de forma anárquica, de forma despreocupada. Por que uma empresa de mídia não pode cuidar de proteger a sua informação? Por que eu não devo deixar todos os meus documentos confidenciais abertos na mesa quando vier uma pessoa aqui falar comigo? Em respeito ao patrimônio do acionista. Essa é a melhor resposta. Eu estou aqui como um preposto do acionista para cuidar do patrimônio dele. O patrimônio do acionista não é essa cadeira, não é o móvel, é a informação. Isso, para nós, é uma modernidade – para muitas empresas não é – e vamos implantar com todo o rigor. E já demitimos pessoas por terem errado no tratamento dessa informação. Entendemos ser uma atitude absolutamente legítima. Temos a transparência de informar previamente que é uma preocupação nossa, e nós podemos ter acesso, sim, a qualquer informação que circula dentro do nosso servidor, o que dá a cada um a prerrogativa de não colocar uma informação confidencial, pessoal, ali.”
A seguir, a íntegra da entrevista. Ao final, um breve perfil de Paulo Novis e de Agostinho Vieira, que hoje têm a responsabilidade de gerir o mais antigo e um dos mais lucrativos negócios das Organizações Globo, a Infoglobo. Boa leitura!

Jornalistas&Cia – A mídia jornal foi possivelmente a que se viu mais ameaçada pelo surgimento da internet. No início, chegou a ficar desnorteada, tentando entender o que estava acontecendo. Vocês acham que agora ela já entendeu? E a Infoglobo, especificamente, como atuou nesse jogo e com quais cenários trabalha?
Paulo Novis – Antes de responder especificamente a essa questão, prefiro contextualizar o que estamos fazendo na empresa. Depois chego lá. A primeira coisa que entendemos aqui na Infoglobo é que a estrutura organizacional de uma empresa, especialmente uma empresa de mídia, precisa ser um grande facilitador para desenvolver as questões de futuro e lidar com elas. De presente e de futuro. E nós, sobretudo nos últimos doze meses, passamos a estudar e a avaliar de forma crítica se a maneira como a empresa estava organizada nos levaria a este futuro, a esse cenário que de alguma maneira vislumbramos para o negócio. O que fizemos mais recentemente, e que talvez até tenha gerado esse interesse de vocês, foram algumas mudanças na estrutura da organização. Elas têm como pressuposto o entendimento básico de que o nosso negócio é prover conteúdo para uma determinada audiência, por meio das diversas plataformas, sejam elas as digitais, que se multiplicam pela rápida evolução da tecnologia, sejam as analógicas, em que há ainda um bom campo para crescer. São três os objetivos que buscamos atingir com essa reestruturação: a otimização do presente, ou seja, de nossos produtos e de nossas marcas atuais (como fazer para que essas marcas fiquem cada vez mais relevantes, importantes e cresçam); o olhar sobre o futuro, que nos permitirá acompanhar a evolução e os avanços da tecnologia e dos mercados e ter sempre a empresa preparada para os passos nessa direção; e as pessoas. E aqui estou me referindo a pessoas de todas as áreas da empresa – jornalistas, não-jornalistas, executivos –, porque entendemos que só será possível crescer tanto com os nossos negócios presentes quanto com negócios futuros, inovar, se tivermos pessoas preparadas para transitar nesses dois mundos. Há que se considerar que quem sofre o impacto maior da tecnologia no nosso negócio são as pessoas, seja quem está participando do processo de produção sejam os consumidores das informações produzidas. Estes, aliás, estão consumindo informação de uma maneira muito diferente do que faziam cinco, dez, quinze anos atrás, obrigando com que a forma de ofertar essa informação também evolua. O que não muda nunca, na minha visão, é a essência, ou seja, a informação ética, precisa, plural e isenta; o que é o fato, o que é a notícia, o que é a opinião – isso precisa sempre ficar absolutamente claro. Essa é, em síntese, a essência de nosso negócio. E isso, para uma marca que tem credibilidade, vale em qualquer plataforma. É por isso que queremos investir cada vez mais nas nossas marcas: quanto mais confiáveis forem, mais aceitas serão pelos consumidores de informação. Só desse modo eles continuarão a aceitar nosso conteúdo para, com base nele, formarem suas próprias opiniões sobre o mundo. É um pouco assim que estamos olhando para esse futuro, nos organizando para ele, preparando nossas pessoas para ele. São várias as ações e as estratégias, mas todas passam pela valorização e pela utilização de nossas marcas, que são o nosso maior patrimônio.

“Entendemos que só será possível crescer tanto com os nossos negócios presentes quanto com negócios futuros, inovar, se tivermos pessoas preparadas para transitar nesses dois mundos.”


Agostinho Vieira – Gostaria de completar isso. Vocês falaram em ameaça da internet. Para nós, há bastante tempo a internet não é vista como ameaça e sim como uma oportunidade. O nosso site completou dez anos no ano passado, o Globo Online existe desde 1996. No Congresso da WAN, a Associação Mundial de Jornais, deste ano, isso ficou mais claro ainda: tanto a internet quanto outras plataformas de leitura, entre elas até mesmo os jornais gratuitos, representam momentos diferentes de leitura. É aquela velha discussão de que a televisão ia acabar com o rádio... Estamos cada vez mais convencidos de que, ao longo das 24 horas, ou das 16 horas em que as pessoas estão acordadas, cada vez mais elas consumirão informação de formas diferentes. Aí a internet é só mais uma forma de consumir informação. E aí também voltamos àquela frase batida, repetida há muitos anos aqui: ”o nosso negócio – por mais que o pessoal do Parque Gráfico não goste dessa frase – não é jornal e sim informação”. E informação com credibilidade e qualidade, que nos leva a ganhar prêmios de projeção como o recente Vladimir Herzog (Nota da Redação: vencido pela equipe integrada por Angelina Nunes, Carla Rocha, Dimmi Amora, Fábio Vasconcellos, Paulo Motta e Sérgio Ramalho na categoria Jornal e recebido no último dia 25 de outubro, em São Paulo). Essa é a nossa prioridade. Agora, se esse prêmio vai ser ganho por uma matéria publicada no jornal, em revista, na internet ou mesmo na porta da geladeira, se um dia isso acontecer, não importa, a nossa informação vai continuar ali, com qualidade e credibilidade. A decisão mais recente, nesse sentido – é o que o Paulo estava falando –, é que passamos a olhar o nosso negócio por marca. Pegue-se a marca O Globo, por exemplo, quem gerencia essa marca o faz no papel, na internet, no celular, na rua, em qualquer lugar. Temos, portanto, uma gestão da marca Globo, e também a gestão das marcas populares (Extra, Expresso e Diário de S.Paulo), do mesmo jeito. Deixamos de separar o mundo online. Ele passa a fazer parte da unidade Globo, da unidade Populares, ou de futuras unidades que venham a ser criadas. O mundo digital passa a fazer parte cada vez mais do dia-a-dia de nossas redações.
J&Cia – Os jornais já têm algum horizonte de lucratividade nas edições online? Qual a expectativa da empresa, a propósito, em termos de audiência na comparação com a edição impressa? A empresa trabalha com o cenário de possível migração de audiência de uma plataforma para outra? Hoje, como anda a rentabilidade do online?
Agostinho – Como são duas perguntas, essa questão tem duas respostas: uma sobre audiência e outra sobre rentabilidade. Quanto à rentabilidade, já há dois anos que o nosso negócio online, se não fica no azul, empata. E ele só não fica no azul porque cresce rapidamente e demanda sempre novos investimentos. Ele está empatando e proporcionalmente é o negócio que mais cresce, mas que não é um negócio extremamente lucrativo, com certeza não é. Se pegarmos três exemplos aqui – O Globo, que é nosso produto mais tradicional, o Extra, que vai fazer dez anos no ano que vem, e o Globo Online, que fez dez anos –, temos: O Globo com os menores índices de crescimento – cresce um pouquinho, acompanhando o mercado; o Extra crescendo acima do Globo; e o Globo Online crescendo a taxas acima de 30 a 40%. Só que os tamanhos dos negócios são completamente diferentes. Até costumamos brincar dizendo que, no futuro, o Globo Online vai pagar o salário de todos nós. Mas é ainda um negócio pequeno. Do ponto de vista de audiência, cada vez mais, os jornais do mundo inteiro – e temos tentado fazer isso, mas ainda muito timidamente – se vendem em conjunto, ou seja, com a soma das audiências das edições impressas e online. Todo mundo tenta falar de audiência consolidada. Se considerarmos desse modo, a tendência dos jornais é de crescimento da audiência. O Globo, por exemplo, nunca teve tantos leitores como hoje, se considerarmos os leitores de papel e internet.
J&Cia – Como a publicidade tem reagido a isso?
Agostinho – Os maiores índices de crescimento são da internet. E é curioso vermos anunciantes que nem passavam na calçada do jornal entrando neste negócio. No Globo jornal o anunciante é mais varejo, mercado imobiliário. As marcas mais comuns nas revistas e na televisão têm vindo para o mundo digital. Temos tido inúmeros anunciantes que são só do Globo Online e que não são os do papel. Possivelmente porque entendem que sua mensagem, seu anúncio, tem maior eficácia nessa plataforma, com esses veículos.

Nós vamos superar as metas até porque este tem sido um ano muito especial, em vários sentidos.

J&Cia – A empresa vai atingir ou superar as metas de faturamento em 2007? A propósito, qual o faturamento previsto para este ano e quanto dele tem origem no Online?
Paulo – Nós vamos superar as metas até porque este tem sido um ano muito especial, em vários sentidos. Primeiro, do ponto de vista interno. Várias medidas, várias decisões que foram tomadas ao longo dos últimos dois, três anos, se mostraram muito acertadas, e estão dando bons resultados. Externamente, também diversos são os fatores que contribuem para um resultado muito positivo. Um é o custo do papel, que é comprado em dólar, fator que impacta de forma direta o nosso negócio. O papel está estabilizado e o dólar nunca esteve tão baixo. Então, isso é um benefício, um fator extremamente positivo. Há também o crescimento da economia, em diversos setores, o que está sendo muito bom para o meio jornal. O Rio de Janeiro, em particular, está vivendo um momento bastante positivo. Jornal, de uma forma geral, está indo muito bem em todo o Brasil e no Rio de Janeiro, em particular. A economia do Estado, os empresários do Rio de Janeiro estão muito animados, fazendo investimentos importantes. Vou dar como exemplo o mercado imobiliário, que está extremamente aquecido. O nosso predomínio no mercado local, nos diferentes segmentos sociais, tem garantido aos anunciantes uma cobertura completa em todo o Estado, da classe A à classe C. E posso garantir que eles têm obtido excelentes resultados anunciando nos nossos veículos. Vamos bater todas as nossas metas. Poderíamos dizer que, possivelmente, este é um dos melhores anos dos mais recentes da empresa. A participação do Online, mesmo pequena, não fugiu à nossa expectativa. É um negócio que cresce a taxas, como o Agostinho falou, muito altas. Essa questão traz um outro desafio para o futuro do negócio, pois será possivelmente nesse meio digital, seja internet ou outras plataformas, que estarão outras fontes de crescimento. Os modelos de negócio nessa área ainda não estão muito claros, definidos. O fato é que nós não podemos deixar de participar. Precisamos fazer os investimentos necessários para estar lá, ainda que não tenhamos clareza total dos caminhos. E é do mundo analógico que virá, por enquanto, a maior parte dos recursos para financiar os investimentos nesses novos negócios, nesse futuro que não está muito claro para ninguém ainda, nem aqui no Brasil, nem no Exterior, embora existam vários movimentos no sentido de acompanhar para onde essa audiência caminha. Por essa razão, precisamos maximizar os resultados do mundo analógico. Mas, enfim, vamos ter um ano muito positivo.
J&Cia – Você tem o valor dos investimentos nessa área? Ou um percentual?
Agostinho – Os investimentos no mundo digital propriamente ditos?
J&Cia – Sim.
Agostinho – É que, muitas vezes, os investimentos não são específicos. São destinados tanto ao mundo analógico quanto digital. E há muitos projetos cruzados. Mas os investimentos ficaram em torno de R$ 20 milhões este ano.
J&Cia – Ao longo dos últimos anos, foram vários os exemplos de jornais que abriram e fecharam conteúdo na internet. Salvo engano, os mais recentes são Guardian e El País, que estão abrindo conteúdo, apostando num aumento de audiência, em ganhos na publicidade. Como a Infoglobo planeja suas ações nesse campo?
Agostinho – Há muita confusão nessa discussão de abrir ou fechar conteúdo. Acho que o único que fatura como jornal fechado é o Wall Street Journal. Os outros, praticamente todos têm a sua edição digital fechada – uma versão fac-símile do papel, na internet, acessível apenas para os assinantes. Esse é um movimento que nós fizemos este ano, no Globo. Temos 250 mil assinantes do Globo, que pagam hoje a assinatura mais cara do País – em relação, inclusive, a Folha e Estado – e tínhamos essa versão do Globo na internet, que era aberta. Então, fechamos, permitindo acesso apenas para os assinantes. Para ler O Globo na internet, para ler a coluna da Miriam Leitão, a coluna do Ancelmo Gois, é necessário pagar assinatura. Como um assinante faz. Já o Globo Online é completamente aberto, sempre foi. Esse é o modelo que se repete em 99% dos jornais do mundo. Todos têm a sua versão digital – que é a representação do papel – fechada e têm o seu site aberto.
J&Cia – Vocês acham que pode haver novidades por aí?
Agostinho – Não, acho que esse é o modelo mais razoável. Dificilmente conseguiríamos cobrar pelo conteúdo na internet, que já nasceu aberto; ele vai ter que se pagar com a publicidade.
J&Cia – E o Wall Street?
Paulo – Ele sempre foi fechado. Talvez seja o único caso de grande sucesso de fechar o site e cobrar pelo acesso. Mas, neste momento, eles estão pensando em reverter isso, em deixar aberto, porque acreditam que vão ter mais audiência e, conseqüentemente, captar mais recursos pela publicidade.
J&Cia – A próxima questão envereda um pouco por esse caminho. O futuro ainda mostra um alto grau de incerteza quanto aos formatos, audiências, meios e sustentabilidade. Há até algum temor de que a publicidade não migre para as novas mídias com os mesmos recursos hoje aplicados na mídia tradicional. Quais os caminhos de sustentabilidade imaginados pela Infoglobo para os seus produtos? Continuará apostando em assinatura e publicidade ou estuda alternativas?
Paulo – Vamos continuar apostando no atual caminho. Creio que existem duas grandes vertentes. Uma é a vertente da publicidade, porque, na realidade, um veículo de comunicação, em qualquer plataforma, sendo de altíssima qualidade e credibilidade, certamente vai reunir em torno de si uma boa audiência e sempre haverá anunciante interessado nela. E o veículo sempre será um ambiente saudável para que o anunciante coloque a sua marca, o seu produto, o seu evento. Por quê? Porque aquela marca está reunindo em torno dela uma audiência, seja premium, mais popular, segmentada. Sempre haverá anunciante interessado em se associar à credibilidade de um veículo e ao vínculo que este estabelece com sua audiência. O retorno da publicidade, visto por este prisma, estará presente em todas as plataformas. Sempre haverá anunciante de olho em boas oportunidades. A outra vertente, que é a venda do conteúdo propriamente dito, seja na circulação, seja na assinatura, para alguns negócios é absolutamente clara. Esse é um caminho natural, por exemplo, para O Globo. Mas já não é tão claro para o Extra, um jornal em que a venda na banca é muito mais importante do que para O Globo. O Globo tem predominância de assinaturas, por uma questão de cultura, de hábito, e classe social também. Quando se passa para o mundo digital, para as outras plataformas, a questão da assinatura, ou da venda do conteúdo, é exatamente aquilo de que falávamos: uma coisa ainda não muito clara. Temos, porém, a crença de que, quanto mais valor tiver essa informação, maior o potencial de compradores para ela. Se for uma informação que se encontra habitualmente em qualquer lugar – se no Túnel Rebouças, por exemplo, caiu mais ou menos terra, a ”carne de vaca”, como se costuma dizer – seguramente ninguém vai querer pagar por ela. Mas uma informação especializada, seletiva, analítica, que de fato vai agregar valor para aquela pessoa física ou jurídica, cremos que sim, vamos poder cobrar por esse modelo.Quer um exemplo? Estou vendo ali um exemplar do Valor Econômico. Temos a expectativa de que, no mundo digital, o Valor Econômico vá encontrar uma formatação em que as pessoas paguem pela informação por ele oferecida. Porque é uma informação mais técnica, profunda, analítica, produzida por um grupo especializado de jornalistas com base em dados e informações qualificados. Então, criaremos uma informação de tal valor que algumas pessoas físicas ou jurídicas vão se dispor a pagar por elas.

“A publicidade adequada, que se utiliza muito bem do meio em que está inserida, sempre será relevante. Publicidade é informação.”

J&Cia – A publicidade já teria encontrado o melhor caminho para tirar melhor proveito da mídia online?
Paulo – A publicidade adequada, que se utiliza muito bem do meio em que está inserida, sempre será relevante. Publicidade é informação. A boa publicidade é informação e compõe aquele conjunto de informações que aquele veículo está entregando. Seja em qual plataforma for.
Agostinho – Cada cliente, cada vez mais, discute a necessidade de evitar que seu anúncio caia na paisagem, seja no papel, seja na internet. Eu recebo quase que diariamente consultas sobre formatos diferenciados de anúncios. Outro dia publicamos um avião da TAM que passava pela página inteira. É claro que tomamos muito cuidado, o nosso critério é sempre de como o leitor vai ver esse anúncio. O leitor não pode confundir o anúncio com a informação, com o editorial, tem que ser uma coisa de bom gosto, mas feita com uma mensagem publicitária. Em alguns momentos até deixamos claro que é uma mensagem publicitária, para não haver confusão. Na internet é a mesma coisa, pois do banner tradicional, também, cada vez mais, as pessoas tentam fugir. Há um modelo inaugurado pelo Google, o link patrocinado, que tem dado resultado. Você está lendo uma matéria e no final há dois ou três links patrocinados com eventos, com informações que complementam aquela matéria. Aquilo é pago e dá retorno para o anunciante. Cada vez mais as pessoas estão entrando com links patrocinados.
J&Cia – Vocês têm uma consultoria ou gente experiente cuidando de inovação? Como funciona a inteligência desse processo na Infoglobo?
Paulo – Recentemente começamos a tratar disso de maneira diferente do que tratávamos. Entendemos que a forma pela qual estamos organizados precisava atender aos desafios da companhia. Um desses desafios é exatamente lidar com o novo, com a inovação, com novas tecnologias, novos modelos de negócio, novos processos. Criamos uma nova estrutura que é ainda muito recente, tem só um mês de vida. No início da entrevista eu falava sobre futuro, coisas de futuro. Pois bem, nós temos hoje uma Diretoria de Planejamento e Inovação, que tem como missão sistematizar o nosso pensamento estratégico, dos negócios atuais e dos modelos de negócios futuros, e ela poderá ou não se apoiar em consultorias ou em técnicos que possam nos ajudar ou vir a nos provocar, falar de coisas novas. Além disso, freqüentamos seminários no Exterior, fazemos visitas a outras empresas de mídia para conhecer negócios que estejam mais avançados. Nos organizamos para planejar e pensar o futuro. Se bem que procuramos fazer com que isso seja uma preocupação de toda a companhia. Os ocupantes de cargos executivos e gerenciais devem estar preocupados com inovação, com futuro, com toda essa modernidade, a despeito de termos agora uma área que nos ajuda a sistematizar isso, para que não fique apenas no reino das idéias ou das especulações. Tem gente que vai lá, arruma, pensa, estrutura, provoca, orça, investe, viaja...

“Há um modelo inaugurado pelo Google, o link patrocinado, que tem dado resultado. Você está lendo uma matéria e no final há dois ou três links patrocinados com eventos, com informações que complementam aquela matéria. Aquilo é pago e dá retorno para o anunciante.”

J&Cia – Quem são?
Paulo – O Ricardo Vezo. E a Joyce Jane, que era responsável pelo Online e agora está fazendo um trabalho brilhante na área de inovação nesse mundo digital. Trouxemos ela para essa área e dissemos: “já que você gosta de encrenca, vamos te dar uma das grandes; nos ajude aqui, no futuro”.
J&Cia – E, nesse processo de inovação, como estão as pesquisas com internautas, com os leitores? A receptividade tem sido boa, tem estimulado vocês a fazerem mais coisas?
Paulo – O primeiro grande indicador de sucesso ou fracasso é a audiência.
J&Cia – E ela tem sido boa?
Paulo – Excelente. Nossa audiência tem crescido e faz parte desse ano excelente que estamos vivendo.
J&Cia – A propósito, você tem os números da circulação do Online e do papel, em todos os jornais do grupo?
Agostinho – A circulação do Globo, nos últimos quatro anos, só em assinaturas, passou de 192 mil para 250 mil. É um crescimento sistemático.
J&Cia – E a circulação total?
Agostinho – Nos dias úteis é de 290 mil, e nos domingos, de 380, 390 mil exemplares. O Globo hoje é o segundo; nos domingos é o maior do País. Na média dos sete dias, é o segundo ou terceiro, dividindo com a Folha. E há o fenômeno do Super Notícia, de Minas, que cresceu muito, e o Extra. Então fica assim: Folha, O Globo, Extra e agora esse jornal de Minas, que faz campanhas promocionais muito ágeis e está vendendo muito. Mas diria que, nos últimos cinco anos, O Globo, a Folha e o Extra têm se alternado nessas primeiras posições.
J&Cia – O Diário de S.Paulo e o Extra vêm fazendo profundas e seguidas modificações, com o objetivo de torná-los mais agradáveis e úteis aos leitores. O Globo, a cada semana, se é que a gente não está exagerando, também apresenta novidades. Do mesmo modo, o Expresso vem fazendo ajustes no seu projeto. O comum, como todos sabemos, são os veículos fazerem reformulações gráficas e editoriais periodicamente e em forma de pacotes. A Infoglobo segue um caminho diferente, talvez único, optando por algo que preferimos chamar genericamente de uma usina de inovações. Quais as razões dessa estratégia?
Agostinho – Há algum tempo adotamos esse caminho e o consideramos o mais correto. Temos obviamente acompanhado as inúmeras reestruturações anunciadas por vários jornais brasileiros, caso da Folha, do Estadão, de O Dia, do JB que virou tablóide, berliner (aquilo não é exatamente berliner, mas um tablóide estendido), e estamos convencidos de que não devemos fazer isso, porque não funciona. Acreditamos nas mudanças contínuas. O Globo, hoje, é completamente diferente do Globo de cinco ou de dez anos atrás. Vamos fazendo as mudanças aos poucos. Se considerarmos alguma coisa interessante, pesquisamos para verificar se é viável e o jornal está sempre evoluindo. Acreditamos na evolução gradual e contínua do jornal. Nosso último grande redesenho foi há 12 anos, em 1995, e não vou dizer que não faremos outro, mas acho pouco provável. Buscamos a evolução e o ajuste de nossos produtos gradualmente, seja num suplemento, seja na concepção do jornal. Vamos pegar, por exemplo, o Diário de S.Paulo, que acaba de lançar uma nova revista de turismo. Quem viu a revista talvez não tenha reparado que fizemos pequenas mudanças nas cabeças do jornal, mais suaves, coisas bem sutis. Se comparar o jornal desta semana com o da semana passada, vai ver que ele mudou. São coisas que vamos ajustando, aos pouquinhos, obviamente tendo o leitor como alvo. Mas não queremos chocá-lo; ao contrário, queremos que ele veja tudo de forma suave e que faça parte do modelo.
Paulo – Acho que a palavra correta para isso é inconformismo. O jornal se sente inconformado. O de amanhã tem que ser melhor que o de hoje. Não só no seu conteúdo editorial, mas, inclusive, na forma. Tudo o que pudermos fazer para tornar o jornal mais agradável, mais atraente, vamos fazer. E fazer isso buscando agradar, de preferência, a todos os públicos que para nós são importantes. Prioritariamente, nossos leitores e assinantes. A conseqüência disso é a fidelização do leitor às nossas marcas e o interesse dos anunciantes em estar ao nosso lado neste processo. Pensamos que isso dá um tom de modernidade, de atualidade às nossas marcas e é isso que o leitor está querendo.

“Acreditamos nas mudanças contínuas. O Globo, hoje, é completamente diferente do Globo de cinco ou de dez anos atrás. Vamos fazendo as mudanças aos poucos.”

J&Cia – E a briga para ser o maior e mais influente jornal do Brasil?
Agostinho – Não existe exatamente uma briga. No Globo, há muitos anos essa história é um tanto ultrapassada. O Globo se orgulha muito de ser um jornal do Rio de Janeiro, sente uma ligação forte com a cidade, e não é uma ligação só nossa, é da própria família Marinho. E é uma coisa que se vê com muita nitidez. Não temos, em momento algum, vergonha de estar no Rio de Janeiro e de ter essa ligação com a cidade, com o Estado. Fazemos uma quantidade enorme de eventos culturais O Globo aqui no Rio – Projeto Aquarius, apoio ao teatro, à música, balé, eventos ao ar livre, debates... Enfim, gostamos muito dessa relação. Mas, apesar de ser um jornal do Rio de Janeiro, ele tem prestígio nacional. Sem dúvida alguma é um jornal obrigatório na mesa e na casa de todos os formadores de opinião do País. Creio que pouca gente que se entenda como formador de opinião no País deixa de ver O Globo em algum momento do seu dia, e isso em qualquer lugar. Porque é importante ter essa informação. E basta ver: qualquer matéria importante e exclusiva que publicamos – e são várias – repercute imediatamente em vários outros meios e acaba virando uma bola de neve. Somos um jornal do Rio de Janeiro, da classe média do Rio de Janeiro, mas que tem uma repercussão nacional importante. A nossa circulação fora do Rio nem é tão relevante. Até poderia ser, principalmente em algumas praças, como Brasília, São Paulo, Recife e Belo Horizonte. Mas esse prestígio nacional, queremos continuar tendo. Não sei se existe uma briga com a Folha e o Estado. Eles brigam muito entre si, por um bom motivo, que é o mercado paulista. Nós, pelo nosso lado, estamos muito tranqüilos nessa nossa posição. Afinal, nos últimos cinco anos, a curva de circulação de nossos produtos sobe de forma lenta, gradual, mas sistemática, constante.
 J&Cia – O Globo é um dos mais premiados jornais do Brasil. O Extra também tem conquistado muitos prêmios. Como vocês encaram essas premiações? Como se preparam para elas?
Agostinho – Em termos de organização, temos uma secretária da redação cuja preocupação é acompanhar os prêmios e informar as pessoas sobre eles. Mas o trabalho principal é o incentivo que damos, nas nossas redações, à boa matéria, à boa informação, informação de qualidade, à matéria exclusiva. O jornal não pode repetir o que a televisão já deu no dia anterior, não pode repetir o que a internet já deu, não pode repetir o que o rádio dá todo o dia. Não vamos repetir. O jornal tem que ser uma coisa diferente. Ele é o meio que mais aprofunda a informação, que mais forma opinião, em que o leitor vai mais fundo, e nós fazemos esse papel. Não temos nenhum pudor em liberar o repórter para ficar 30, 60 dias fora de pauta, se for preciso, para fazer uma grande reportagem. Acreditamos nas grandes reportagens, nas informações de fôlego. E são essas que acabam se transformando em prêmios, não é? Acaba sendo só uma conseqüência do nosso trabalho. Em todos os nossos veículos.
ER – Uma coisa nos chamou a atenção hoje: a capa do Extra não traz o Túnel Rebouças entre seus principais destaques; traz apenas uma chamadinha (Nota da Redação: neste dia, 26/10, o Rio de Janeiro ainda vivia uma situação de caos com o desabamento da encosta do Túnel Rebouças, que provocou a sua interdição por alguns dias).
Agostinho – É, provocamos mesmo o nosso pessoal: não tenham medo de errar. Acho que todo mundo está liberado para errar. E creio que temos acertado mais do que errado. Temos a liberdade de errar, porque não temos medo de errar, e acabamos acertando. As redações têm isso muito claro, incentivamos isso. Podem ousar, vamos ousar. Isso é importante, o leitor gosta e tem dado resultado.

“O Globo se orgulha muito de ser um jornal do Rio de Janeiro, sente uma ligação forte com a cidade, e não é uma ligação só nossa, é da própria família Marinho. E é uma coisa que se vê com muita nitidez.”

J&Cia – Voltando ao nosso roteiro, temos hoje, no Brasil, cerca de 1.100 empresas de assessoria de imprensa, ou agências de comunicação, como agora são denominadas. Essas empresas empregam cerca de 12 mil funcionários, número expressivo, e faturam cerca de R$ 700 milhões por ano.
Paulo – Quanto?
J&Cia – R$ 700 milhões. Com um crescimento médio de 15% ao ano, nesses últimos dez anos. A informação é da Abracom, a associação que reúne essas agências. A imensa maioria tem como principal atividade a divulgação de informações dos clientes nos veículos de comunicação. Embora façam outras coisas, essa é a principal atividade. Como a Infoglobo encara esse segmento, e qual a orientação que dá aos seus jornais, aos seus jornalistas, nesse relacionamento com os assessores de imprensa?
Agostinho – Eu, particularmente – e aí é uma posição muito pessoal –, tenho críticas a algumas assessorias. Não gosto de generalizar, porque existem assessorias muito boas. Mas tenho insistido em uma instrução à Redação, porque vejo dois perigos nesse grande crescimento das assessorias de imprensa no Brasil. Um, do ponto de vista de negócio: é claro que tira receita dos jornais. Uma pergunta que não conseguimos responder ainda: em que medida o crescimento enorme das assessorias de imprensa tirou receita de publicidade dos jornais? Em que medida um determinado setor da economia deixou de anunciar no jornal, achou mais interessante, ou mais conveniente, contratar uma assessoria de imprensa, do que investir em publicidade? Essa é uma conta difícil de fazer, mas acho que deveríamos tentar. Mas há um outro nível, que me preocupa mais ainda, que é o do papel do jornal, da função do jornalista. Qual é o papel do jornal, do jornalista? O papel básico é reportar a informação, levar para o seu leitor o que está acontecendo na cidade, no país, no mundo, com a maior visibilidade, com a maior isenção possível. A partir do momento em que existe uma relação muito próxima entre o jornalista e o assessor – e aí creio que o problema não está só nas assessorias, mas em algumas redações também –, me preocupa saber se o que está saindo no jornal é exatamente o mais importante que está acontecendo na cidade, no país, no mundo, ou é o que interessa ao cliente da assessoria de imprensa. Ela é uma assessoria de imprensa ou é uma empresa de lobby? Talvez esteja exagerando para explicar o meu ponto de vista. Mas essa é uma discussão que ainda está na mesa, que travamos hoje nas redações...
J&Cia – Vocês discutem isso com as equipes?
Agostinho – Temos discutido. Primeiro, temos uma reunião semanal do Conselho Editorial das Organizações Globo, de que fazem parte todos os diretores de Redação das empresas do grupo. Temos discutido ali. E temos reuniões mensais com todos os editores dos nossos produtos e esse tema já discutimos duas ou três vezes. É importante a orientação dos editores, principalmente aos repórteres mais novos, para não caírem nessa armadilha. Ele liga para um assessor e facilita um pouco a vida, não é? Mas pode correr o risco de não estar levando a informação mais isenta ou mais razoável para o seu leitor. A relação é boa com grande parte das assessorias... Como o mercado das redações acabou ficando um pouco menor, as assessorias cresceram muito. Muitas das pessoas que hoje comandam assessorias vieram das redações. Em todos os nossos jornais, todos têm uma relação ótima com eles... Mas existe essa preocupação com o lado comercial, se o jornal não perde receita, em parte por conta disso, e com a parte mais importante e mais fundamental da missão do jornalista, que a gente não pode perder.

“O jornal não pode repetir o que a televisão já deu no dia anterior, não pode repetir o que a internet já deu, não pode repetir o que o rádio dá todo o dia. Não vamos repetir. O jornal tem que ser uma coisa diferente.”

J&Cia – Nessa linha, as Organizações Globo, de um modo geral, são rigorosas na questão ética e procuram demonstrar isso explicitamente. Temos visto aí alguns casos, envolvendo até nomes consagrados do jornalismo. Com que princípios e procedimentos a empresa trabalha nesse campo? Em questões, por exemplo, como brindes, viagens, almoços, informações privilegiadas, como vocês trabalham a questão ética dessas informações?
Agostinho – Temos um manual de normas e procedimentos – já antigo, foi revisto há uns dois ou três anos – que procuramos seguir ao pé da letra. As direções das redações têm o papel de cuidar disso. Com relação a brindes, por exemplo, não aceitamos nenhum, eles são formalmente devolvidos. Existe até uma carta-padrão para devolver, com o máximo de carinho e educação, para as pessoas que mandaram o brinde, mas eles são normalmente devolvidos. No caso das viagens – e isso é um problema de todos os jornais – para as matérias de turismo, principalmente, os jornais não conseguiriam manter os seus cadernos de turismo se fossem bancar todas essas viagens. Então, é comum aceitar, eventualmente, um convite para uma viagem, deixando sempre claro que o jornalista viajou a convite de alguém, mas que tem toda a liberdade para ser crítico com o lugar que visitou. É esse o objetivo, deixar claro, ser transparente.
Paulo – Gostaria de registrar a atenção e dedicação que a própria família Marinho dá à questão editorial. Isso é importante frisar. O João Roberto, que é responsável pelo Conselho Editorial, reúne-se, disciplinadamente, todas as 3ªs.feiras, com os responsáveis pelo conteúdo editorial de cada um dos veículos... Ele não se reúne comigo nem com o Agostinho, mas com o Rodolfo Fernandes, para falar do Globo. Da mesma maneira que ele se reúne com a pessoa da TV Globo, ou da Editora Globo, ou de Época, dos veículos, e ali discute os assuntos pertinentes. Isso é ótimo. Não adianta definir risco, valores, posturas, se não os pratica cotidianamente e se não há um sistema de discutir e acompanhar permanentemente essas questões, até porque dúvidas acontecem sempre, em especial nesse tipo de assunto. Outra coisa que eu gostaria de destacar é, no caso específico do Globo, a estrutura do produto. Está absolutamente claro, na estrutura do produto Globo, o que é notícia, o que é opinião, inclusive com um box escrito Opinião em cima. Essas coisas não se misturam. E, de alguns anos para cá, esse Opinião circula ao longo do jornal, sempre que a editoria do jornal entenda que ali deva opinar. Antigamente, havia apenas os artigos de fundo, um ou dois artigos; agora pode ter aonde quiser. Vai ter um pequeno artigo, escrito lá Opinião – além das colunas, que são as opiniões dos seus titulares. Esses três espaços dentro do jornal dão ao leitor, ao longo do tempo, a clara percepção do quê é o quê. Mas, voltando ao assunto assessoria de imprensa... Partindo do pressuposto que estamos aqui falando das assessorias sérias, importantes, e há assessorias que têm jornalistas da maior seriedade, acho que é um trabalho que talvez seja muito lícito, legítimo, mas creio que a responsabilidade toda está no próprio jornal, no jornalista que está na redação, recebendo aquela informação. Ele sabe que ela contém um viés de interesse e que ele, em nome da correção do seu trabalho, tem que levar isso em consideração ao analisá-la. Acredito, aliás, que isso é feito com maior freqüência nos grandes jornais. O risco maior são os pequenos veículos, os jornais mais fracos do ponto de vista de ética, que, aliás, acabam, ao longo do tempo, penalizados na sua audiência exatamente por essa falta de rigor profissional.

“Temos a liberdade de errar, porque não temos medo de errar, e acabamos acertando. As redações têm isso muito claro, incentivamos isso. Podem ousar, vamos ousar. Isso é importante, o leitor gosta e tem dado resultado.”

J&Cia – A Infoglobo ainda tem o que crescer no mercado do Rio, onde já exerce tanto predomínio?
Paulo – Sim, muito.
J&Cia – Em quê?
Paulo – Não posso dizer. Mas, a informação está dada.

“Em que medida um determinado setor da economia deixou de anunciar no jornal, achou mais interessante, ou mais conveniente, contratar uma assessoria de imprensa, do que investir em publicidade? Essa é uma conta difícil de fazer, mas acho que deveríamos tentar.”

J&Cia – E fora do Rio? A interiorização, por exemplo.
Paulo – O Rio de Janeiro é uma praça super-relevante para nós. É onde somos dominantes e é daqui que nasce a nossa força para crescer. Até para outras plataformas, deverá ser do Rio de Janeiro que virá a fonte de recursos. Quando digo que temos muito para crescer no Rio, é porque, cada vez mais, com a segmentação de informação, conhecendo esse público-alvo através de outras visões, segmentando esse público-alvo, nós temos hoje um conteúdo jornalístico, um conjunto de marcas que nos permite pensar em fazer produtos e projetos específicos para esses outros segmentos. Quando juntamos isso com tecnologia, com esse mundo digital, aí extrapolamos as fronteiras, inclusive geográficas. O nosso crescimento virá da competência que tivermos de agregar, em torno das nossas marcas, esse conteúdo, muita qualidade e a capacidade de conquistar novas audiências. Vamos crescer conquistando novas audiências.
J&Cia – O Relatório Reservado de anteontem (24/10) revelou que a família Marinho estava no páreo para adquirir o Estado do Paraná e eventualmente a Tribuna do Paraná. Tem algum fundo de verdade essa informação?
Paulo – Isso é completamente falso, não tem sentido.
J&Cia – Apesar dos vários investimentos feitos nesses últimos tempos no Diário de S.Paulo, volta e meia surgem boatos de que as Organizações Globo não estariam satisfeitas com o negócio e gostariam de se desfazer dele. Até rumores de que a Globo tentou vender de volta o jornal ao Orestes Quércia, ex-governador de São Paulo, surgiram. Quais os planos e com que cenários trabalha a Infoglobo para sua atuação no segmento jornal em São Paulo?
Paulo – A origem desses rumores é basicamente o seguinte: quando a Globo comprou o Diário do Quércia, a empresa tinha uma dívida absolutamente conhecida por nós. Essa dívida não é da Infoglobo. É, originariamente, da empresa Diário de S.Paulo com credores externos, que não conhecemos. São credores de um empréstimo que o Diário de S.Paulo fez nos idos dos anos 90. Compramos o jornal em abril de 2001 e fizemos todo um planejamento para o negócio. Em setembro de 2001, veio o Bin Laden e deu no que deu. Vocês sabem de toda a crise que a mídia brasileira passou e se estendeu por todo o mundo. E não podia ser diferente com o Diário. É óbvio que todo o plano que fizemos para o jornal naquele período sofreu um revés. E, da mesma maneira que várias empresas de mídia tiveram que renegociar suas dívidas, em especial as dívidas em dólar – porque o dólar foi a R$ 4 em outubro de 2002 –, também o Diário iniciou seu processo de renegociação dessa dívida, no sentido de pagá-la, mas em condições que estivessem ao seu alcance. O que estamos vivendo hoje é uma negociação absolutamente legítima de um devedor sentar com o seu credor e dizer: olha, preciso renegociar a dívida porque a performance que eu imaginei para o negócio não aconteceu por estas razões macroeconômicas. Até porque as razões internas e microeconômicas só nos têm dado boas notícias. O produto tem recebido investimentos, melhorado, agora temos revistas, estamos fazendo tudo para conquistar mercado. Dado o montante da dívida, e dado o tamanho desse negócio, é necessária uma renegociação. Então nós estamos em plena negociação. Algo absolutamente legítimo e natural no mundo dos negócios. Essa negociação, obviamente, se acirra num determinado momento, porque também faz parte do processo. Nós publicamos no Valor Econômico um comunicado relatando exatamente qual era a característica da dívida e o que estava sendo proposto. Fizemos isso por livre e espontânea vontade, porque não há nenhuma necessidade de uma empresa expor a negociação de uma dívida com o seu credor. Mas por que fizemos isso? Até por sermos um veículo de comunicação. Até por entendermos que era importante demonstrar que nossos veículos, que dão informação das pessoas, dos assuntos e dos governos, também podem noticiar, de forma isenta e transparente, o que estava acontecendo conosco. Publicamos no Valor Econômico para atingir essa comunidade econômico-financeira, informando as características da nossa dívida, as características da nossa negociação. Óbvio que, por sermos um veículo de comunicação, e pelo Diário estar vinculado à Infoglobo, e pela Infoglobo estar vinculada às Organizações Globo, isso tem uma reverberação muito maior do que se fosse outra empresa qualquer, devendo 30 milhões de dólares. É disso que estamos falando. Ela toma uma proporção absolutamente maior do que o fato merece. É um processo de negociação que a gente espera que termine de uma forma muito boa.

“Me preocupa saber se o que está saindo no jornal é exatamente o mais importante que está acontecendo na cidade, no país, no mundo, ou é o que interessa ao cliente da assessoria de imprensa. Ela é uma assessoria de imprensa ou é uma empresa de lobby?”

J&Cia – Qual a expectativa de crescimento, de investimentos no mercado de São Paulo?
Paulo – São Paulo é um mercado importante, relevante e cujo tamanho justifica a nossa presença. A alternativa que encontramos como mais adequada nos anos de 2000 e 2001 foi adquirir títulos na praça. Poderíamos atuar de diversas outras maneiras. São Paulo é cheia de oportunidades, mas até por isso há uma competição extremamente acirrada. E, de tão acirrada, acaba, muitas vezes, gerando perda de valor das próprias marcas que estão brigando. Nós conhecíamos essa característica do mercado quando fomos para lá. E acreditamos que vamos ganhar esse mercado por meio de um produto da melhor qualidade, com foco, com posicionamento específico. Para isso temos trabalhado e feito os investimentos necessários, em especial em pessoas. Pegamos alguns de nossos melhores talentos, que já demonstraram saber fazer muito bem o produto, e transferimos do Rio para São Paulo, com o objetivo de qualificar o produto.
J&Cia – O Luiz André Alzer, atual editor-chefe do Diário de S.Paulo, é um deles?
Paulo – Sim, o Alzer, que está respondendo de forma extremamente positiva. Bruno Thys é responsável pelo negócio Diário, do ponto de vista editorial. Mas esse assunto da dívida é eminentemente financeiro, que está sendo tratado pela área financeira. E a área editorial e a área de marketing cuidam do produto.
J&Cia – E como está a circulação do Diário?
Paulo – 70 mil durante a semana e 110 mil nos finais.

“Com relação a brindes, por exemplo, não aceitamos nenhum, eles são formalmente devolvidos. Existe até uma carta-padrão para devolver, com o máximo de carinho e educação, para as pessoas que mandaram o brinde, mas eles são normalmente devolvidos.”

J&Cia – Quais os planos da Infoglobo para enfrentar a chegada dos jornais de distribuição gratuita, que já são uma realidade em várias partes do mundo e começam a se assanhar aqui no Brasil, começando por São Paulo, mas de olho no mercado carioca? Qual o plano de vocês para esse segmento, para uma eventual chegada mais forte desses jornais?
Agostinho – Como todos os jornais do mundo, observamos esse negócio de jornal gratuito aqui no Brasil. Aliás, já observamos há bastante tempo. Ele ficou mais forte a partir dos últimos cinco anos. Há dois grandes traders no mundo, que são o 20 Minutos e o Metro; o Metro acabou de chegar ao Brasil. Agora, em todas as contas que fazemos – nós e a torcida do Flamengo –, esse número não é bom, é negativo. É verdade que o mercado de São Paulo é grande, mas, por enquanto, não vemos interesse em entrar nisso, se o mercado continuar dessa maneira. Os jornais Metro e Destak, em São Paulo, foram beneficiados um pouco, nessa chegada, pela mudança na legislação da cidade, que proibiu a mídia exterior, proibiu o outdoor. Então, os distribuidores do Destak e do Metro acabaram virando outdoors ambulantes, como costumamos falar. Eles fazem performances, distribuem produtos; ocuparam, acabaram tendo um pouco dessa receita que ia para a mídia exterior, que foi proibida e que passou em parte para esses jornais. Mas, mesmo assim, até onde conseguimos enxergar, isso não chega a ser um bom negócio, dar dinheiro. E há problemas de credibilidade e de qualidade de produto. Enfim, estamos observando, temos feito as nossas contas – com certeza todos os outros jornais têm feito também –, mas, no momento, ainda não é um negócio que nos interesse.

“O nosso crescimento virá da competência que tivermos de agregar, em torno das nossas marcas, esse conteúdo, muita qualidade e a capacidade de conquistar novas audiências. Vamos crescer conquistando novas audiências.”

J&Cia – A Infoglobo, como de resto a Globo como um todo, se orgulha muito da política de recursos humanos que adota para o desenvolvimento e retenção de talentos. Tem a Academia Infoglobo, convênios com as mais reconhecidas instituições de ensino, para cursos de executivos, enfim, algumas outras políticas de cargos e salários. Quanto a Infoglobo investe nesse campo e como mede os resultados?
Paulo – A nossa reestruturação privilegiou muito a questão do presente, a questão do futuro e a gestão de pessoas. Nós consideramos absolutamente essencial atrair, reter, formar e desenvolver as pessoas para elas poderem transitar nesse novo mundo em que estamos vivendo. Um mundo que as impacta sobremaneira naquilo que têm de mais valioso, que é o seu jeito de ser, e o seu conhecimento. Entendemos hoje que, tão importante quanto à capacitação técnica, é a capacitação comportamental. E isso tem uma razão básica: vivemos num mundo em que temos mais perguntas do que respostas. As respostas virão da complementaridade de competências. Foi-se o tempo em que uma organização, inclusive da mídia, colocava um grande executivo, um grande editor, um grande diretor de comercialização, para resolver todos os problemas, acreditando que ele teria todas as respostas para os problemas de crescimento e expansão dos negócios. Isso não existe. Vamos conseguir resultados pela soma de competências de diversas pessoas, de diversos profissionais, que tenham sua experiência de vida. Só que para que isso aconteça de uma maneira saudável é preciso que essas pessoas saibam trabalhar juntas, tenham competência para trabalhar em equipe. E nem todo mundo tem. É preciso que a empresa crie um ambiente propício a isso. Quando o Agostinho falou que na Infoglobo é permitido errar, não foi uma frase de efeito. É uma atitude. A ênfase que damos no comportamental, no treinamento e no desenvolvimento das pessoas é exatamente em busca de – e talvez estejamos longe do nosso sonho, mas já caminhamos muito – termos os melhores e os mais completos profissionais. Por que mais completos? Quando o profissional é técnica e comportamentalmente bom, ele está apto a transitar neste mundo, que é muito mais o mundo do ”e” do que o mundo do ”ou”. Acabou o mundo do ”ou”: ou é isso ou é aquilo. Hoje é isso e aquilo. E nem todos têm a capacidade de assimilar o impacto que essas mudanças provocam na vida de cada um. Alguns lidam super bem e outros não. Nós queremos as pessoas que lidam muito bem com isso. Até porque a empresa não tem muito o que fazer em relação ao comportamento, pois é uma coisa que a pessoa traz com ela. O que a empresa precisa fazer é dizer: olha, é isso o que privilegiamos, este ambiente é propício para isso, venha nos ajudar a potencializar esse ambiente. Se você não sabe Power Point, vamos te mandar fazer um curso; se você não sabe isso e aquilo, vamos preparar você. A parte técnica, preparamos, investimos. A Academia Infoglobo tem uma característica muito interessante, porque 80% do corpo de professores, dos instrutores, são profissionais da casa, que têm um conhecimento bastante forte da cultura e transmitem parte desse conhecimento para os outros. De vez em quando buscamos alguém de fora, para ouvirmos um pouco do que está se fazendo por aí. Hoje devemos estar investindo algo na ordem de R$ 3 a 6 milhões em desenvolvimento, em treinamento, em viagens, na Academia Infoglobo. Eu acho pouco, se puder invisto mais. Não fazemos mais porque os nossos recursos são menores do que os nossos sonhos.

“Compramos o jornal (o Diário de S.Paulo) em abril de 2001 e fizemos todo um planejamento para o negócio. Em setembro de 2001, veio o Bin Laden e deu no que deu. Vocês sabem de toda a crise que a mídia brasileira passou e se estendeu por todo o mundo. E não podia ser diferente com o Diário.”

J&Cia – A empresa tem uma política de participação nos resultados ou algum tipo de bonificação?
Agostinho – Temos um programa que está completando 15 anos. A evolução foi muito interessante, porque no período do Dr. Roberto – e ele sempre valorizou, foi muito pró-ativo nisso –, no dia 29 de julho, que é o aniversário do jornal, todos ganhavam 25% do salário. E isso entrou para a cultura e a história da Globo como a “semana do Dr. Roberto”. À medida que os tempos mudaram, a empresa começou a perceber que, embora interessante, isso era uma atitude paternalista. Fazia muito mais sentido que essa participação estivesse vinculada aos resultados da companhia, até porque poderia acontecer de que num determinado ano ela não pudesse fazer esse gesto. A partir de 1992, a empresa optou por um novo modelo e o gesto absolutamente paternalista – óbvio que com significado importante, mas paternalista – deu vez a um programa gerencial mais racional e melhor para os funcionários. De forma que temos hoje um sistema chamado PAR, de Participação nos Resultados, pelo qual, se a empresa ficar abaixo dos 80% de suas metas, ninguém ganha nada, mas quando ela atinge algo acima de 80%, dependendo da performance das áreas, pode-se chegar até a um salário inteiro, para a empresa como um todo. E para os cargos executivos existe uma remuneração variável, que é muito mais aguerrida, porque são indicadores mais pesados em função de resultados da própria área. O conceito é: se o acionista tiver algum benefício real naquele ano na gestão da companhia, os funcionários também irão se beneficiar. Porque não faz sentido o funcionário se beneficiar e o acionista não, já que é ele quem está colocando o dinheiro e tendo o risco. Mas é muito justo que essa gestão, esses três mil funcionários que estão tocando o negócio, e tocando muito bem, dando um resultado muito bom, também se beneficiem e partilhem desse resultado. Apesar da importância e relevância desse programa, o que atrai, retém, etc, um funcionário, é um conjunto de valores e não só o salário, a remuneração. Claro que isso é importante e é por esta razão que queremos estar sempre na faixa alta do mercado. Esse sempre é o nosso desejo, a nossa intenção. Queremos ter os melhores funcionários, os mais bem pagos.
Paulo – A vida nem sempre permite que a gente faça o que quer. Mas esse é o nosso desejo.

“Óbvio que, por sermos um veículo de comunicação, e pelo Diário estar vinculado à Infoglobo, e pela Infoglobo estar vinculada às Organizações Globo, isso tem uma reverberação muito maior do que se fosse outra empresa qualquer, devendo 30 milhões de dólares. É disso que estamos falando.”

J&Cia – E em 2007, essa participação vai chegar ao topo?
Agostinho – Quando esse modelo foi implantado, em 1992, muita gente reagiu: pô, vão tirar a “semana do Dr. Roberto”. Isso aí é um truque para acabar com ela. Nesses 15 anos de história, só deixou de ser pago uma vez, em 2001, exatamente o ano das torres. Nos outros 14 anos, todos ganharam mais do que os 25%. Todos. Eu até brincava: olha, quem quiser trocar, eu topo, eu banco a “semana”, mas fico com o que sair. Nunca ninguém topou apostar. Em 14 anos, todos receberam acima dos 25%, várias vezes um salário, 75%. É um plano realmente vencedor.
J&Cia – São quantos funcionários?
Agostinho – 3.000, com o Parque Gráfico. São 2.400 só na Infoglobo.
J&Cia – Desses, quantos são jornalistas?
Agostinho – A Redação do Globo tem 340, mais 100 do Extra, mais uns 90, 100 do Diário,... Vai dar em torno de 600, 620.
J&Cia – Nos últimos três anos, a economia tem tido um crescimento estabilizado, mas, ao mesmo tempo, há uma tendência mundial de queda da circulação de jornais. No Brasil, país ainda em desenvolvimento, fala-se numa tendência contrária, de expansão da circulação, a reboque do crescimento econômico. Com que cenários a Infoglobo trabalha?
Agostinho – Com certeza, varia de um produto para outro, mas nossa tendência é de crescimento, crescimento pequeno, mas expressivo.
J&Cia – Dá para sonhar com uma tiragem de um milhão de exemplares no Brasil?
Agostinho – Em 1995, 1996, que foi o boom de colecionáveis, nós tiramos, nós e a Folha, acho que o Estadão chegou a isso, a tirar mais de um milhão de exemplares. Mas estavam muito anabolizados, muito alavancados por promoções. Depois esse número caiu e hoje se estabiliza na casa dos 400 mil, por aí. Acho que é um número real e que vem crescendo aos pouquinhos.
J&Cia – Podemos chegar a uma grande tiragem?
Agostinho – Penso que sim, mas depende muito do crescimento da economia. A classe C cresceu bastante, muita gente da classe C passou para a classe B. E notamos nos jornais populares, no Extra, e nos outros tablóides, um pouco dessa entrada das pessoas. Creio que podemos sonhar um pouco, sim. É questão de tempo.

“Não fazemos mais porque os nossos recursos são menores do que os nossos sonhos.”

J&Cia – Nessa direção, como a Infoglobo tem trabalhado o público jovem? É possível que o jovem seja conquistado para a mídia impressa, ou o negócio é efetivamente trabalhar a mídia virtual com ele?
Agostinho – Nós temos alguns caminhos. Quer dizer, temos algumas coisas no nosso produto. Hoje no Globo, por exemplo, temos um projeto jovem, que é o Megazine, e um suplemento infantil, o Globinho. Aliás, fizemos uma ação superinteressante, que foi uma capa feita só por crianças. Uma coisa que dá até para gerar um trabalho antropológico curioso: como foi o dia das crianças no jornal vendo e interagindo com a redação. E elas, ao final, escolheram a primeira página, não houve nenhuma imposição. Escolheram as fotos, os assuntos. É um jornal diferente do que a gente está acostumado a ver. O El País deu matéria sobre isso, e já há duas universidades interessadas em pesquisar o tema. Então, temos esses investimentos no jornal. Às vezes erramos. Ah – vão dizer – o leitor do Globo é um público mais velho. Não é! A média de leitor do Globo está entre 35 e 40 anos. O do Online é parecido, um pouquinho mais jovem que do Globo papel, vai de 30 a 35 anos. E nesse movimento online é importante a participação dos jovens. Mas há outras coisas aí, como, por exemplo, O Globo na Universidade, com uma série de ações que têm o objetivo de trazer esses leitores para nosso negócio. Valeria a pena a experiência dos gratuitos, que conquistaram espaço em vários países e são uma coisa interessante? Mas aí as contas não fecham. Seria o caso de pensar em produtos específicos para esse público ou vamos trabalhar com os nossos produtos mesmo, buscando adequações? É um público que nos interessa muito e para o qual olhamos com muita atenção, até porque as oportunidades existem e precisam ser aproveitadas.
J&Cia – A reportagem ainda é a alma do jornal, mas ela tem tido problemas no mundo todo, e no Brasil não é diferente. Como vocês trabalham a questão do furo, da reportagem? Você falou que vários repórteres eventualmente ficam muito tempo atrás de um assunto...
Agostinho – Temos isso em muitos dos nossos produtos, principalmente O Globo e o Extra. Agora também o Diário de S.Paulo, que não tinha tanto essa cultura, está começando a ter. E logo, logo, não se surpreendam se o Diário voltar a ganhar prêmios, porque tem feito matérias muito interessantes, reportagens, já um pouco com essa filosofia que estamos levando do Rio para lá. A ousadia é fundamental. Se o jornal ficar repetindo o que está na televisão, o que está na internet, no rádio, ele vai morrer. Precisa ter informação própria e encontrar uma maneira de contar de outro jeito aquilo que já deu na televisão, um outro caminho para contar a mesma história. Isso para nós é fundamental. É sinônimo de sobrevivência, de interesse. Você tem que surpreender o leitor todo dia. Se não, o que ele vai ler no seu jornal?
J&Cia – Como vocês monitoram a concorrência, nesse sentido? Tomam um furo e o que acontece?
Agostinho – Hoje em dia – vou tomar cuidado com o que vou dizer, porque pode parecer arrogância, mas não é –, nos preocupamos mais conosco mesmo. Claro, olhamos a concorrência, tanto na área comercial quanto na redação. Podem ir à Redação do Globo que vão ver: na sala de reunião há todos os veículos, todos os jornais do dia. No início da reunião, fazemos uma avaliação de pontos positivos e pontos negativos do nosso jornal em relação à concorrência, o que fizemos bem e o que fizemos mal, o que erramos e o que poderíamos ter feito melhor. Sermos furados vai nos dar muitos pontos negativos, sem dúvida. Mas trabalhamos olhando para a frente. No passado já houve uma preocupação maior com o furo do concorrente; hoje olhamos, respeitamos, damos o crédito. É fundamental dar crédito ao concorrente, quando eles fazem uma boa matéria. A gente tenta preservar isso. Mas nós nos preocupamos com o que podemos fazer melhor amanhã. Isso não foi tão bem, amanhã como podemos fazer melhor?
J&Cia – Quais jornais do mundo consideram os melhores, os que precisam ser levados em conta no trabalho feito pela Infoglobo?
Agostinho – Há alguns jornais em que gostamos de nos espelhar. El País, por exemplo, é um jornal diferente. Não podemos deixar de citar o New York Times, sem dúvida. É um grande jornal, apesar de todos os problemas que tiveram recentemente, na era Bush; a gente fica com um pé atrás com a cobertura que fizeram. Le Monde, da França, apesar dos problemas da imprensa francesa. O Guardian. São alguns jornais que gostamos de ler e achamos que são interessantes para nós, que podem servir como referência do que respeitamos.

“A média de leitor do Globo está entre 35 e 40 anos. O do Online é parecido, um pouquinho mais jovem que do Globo papel, vai de 30 a 35 anos. E nesse movimento online é importante a participação dos jovens.”

J&Cia – Os jornais estão muito preparados para serem críticos, exercerem o olhar crítico da sociedade, cobrarem o poder público. Têm feito isso com uma razoável competência, com acertos e erros, serenidade e exagero, em alguns momentos. Mas um jornal também sabe reconhecer e elogiar? Ou esse é um sentimento proibido nas redações?
Agostinho – Dá para admitir que isso é uma coisa um pouco mais difícil. O papel do jornalista é sempre desconfiar mesmo. O jornalista está sempre desconfiando de alguma coisa. Isso é fundamental. Acho que isso é um pouco o que o leitor espera dele. Mas poderíamos equilibrar um pouco mais também com elogios. Às vezes as pessoas conseguem fazer, mas a maioria nem tenta. O papel do jornal é ser o porta-voz da sociedade, alguém que aborda coisas com que as pessoas precisam se preocupar. Temos discutido algumas vezes, só como curiosidade, como seria fazer um dia só de notícias boas. Achamos difícil, chegamos a tentar no primeiro dia do ano.
J&Cia – Fazer um caderno...
Agostinho – É, mas aí a gente se lembra do que aconteceu com o Bateau Mouche, exatamente numa virada do ano (Nota da Redação: o naufrágio do barco Bateau Mouche, que levava cerca de 150 pessoas para assistirem à queima de fogos na Baía da Guanabara na madrugada de 1º de janeiro de 1989; 55 morreram) e a idéia acabou ficando pelo caminho. A área comercial gostaria muito que a gente fizesse um dia só de notícias boas, só que esse é um projeto... Estamos discutindo. Talvez o caderno seja uma alternativa. Mas acho que o nosso papel é crítico mesmo, e é isso que os leitores cobram da gente.
J&Cia – Uma última questão. Grandes empresas, de qualquer ramo, têm políticas formais de controle da informação. A própria Infoglobo lançou em abril seu manual de conduta para os funcionários. Medidas como a implantada em agosto último, pela qual os gerentes (editores) passam a receber relatórios com os números de telefone com que as editorias mais falam, repercutiram na redação como sendo invasivas. Até onde a Infoglobo controla seus funcionários? Existe na empresa um limite formal para esse controle? Apareceu na Pesquisa de Clima o descontentamento com isso?
Paulo – Deixe-me fazer alguns comentários sobre essa questão da segurança de informações. Todos nós estamos aí às voltas com a revolução do mundo digital e isso tem mexido com a vida das organizações. Vamos pegar especificamente o caso dos e-mails. As pessoas têm uma noção errada com relação a e-mail. E-mail não é carta. Não é como uma antiga carta, que alguém escreve, envelopa, fecha, sela e vai chegar na sua casa, endereçada a você, e você vai abrir, vai ler. E-mail é um cartão postal. Você mandou de Paris para a sua família mas, no percurso, houve muitas oportunidades de outras pessoas verem. É uma noção errada as pessoas acharem que o e-mail que eu estou mandando para você só você vai abrir, só você vai ler. A tecnologia permite que esse e-mail fique acessível para muita gente. Quantas vezes não erramos, quantas vezes nós mesmos mandamos e-mail para pessoas erradas? Sérgio Dias e Sérgio Bias, com esses dois Sérgios no seu cadastro, alguma hora você vai mandar errado. Então, todas as organizações grandes, sérias e do nosso porte têm preocupação com a segurança das informações, têm uma filosofia e uma política para isso. Não podemos mais tratar a informação de forma anárquica, de forma despreocupada. Por que uma empresa de mídia não pode cuidar de proteger a sua informação? Por que eu não devo deixar todos os meus documentos confidenciais abertos na mesa quando vier uma pessoa aqui falar comigo? Em respeito ao patrimônio do acionista. Essa é a melhor resposta. Eu estou aqui como um preposto do acionista para cuidar do patrimônio dele. O patrimônio do acionista não é essa cadeira, não é o móvel, é a informação. Isso, para nós, é uma modernidade – para muitas empresas não é – e vamos implantar com todo o rigor. E já demitimos pessoas por terem errado no tratamento dessa informação. Entendemos ser uma atitude absolutamente legítima. Temos a transparência de informar previamente que é uma preocupação nossa, e nós podemos ter acesso, sim, a qualquer informação que circula dentro do nosso servidor, o que dá a cada um a prerrogativa de não colocar uma informação confidencial, pessoal, ali. Não fazemos isso depois; fazemos antes, porque faz parte de um processo de segurança de informação da companhia. Eu imagino e aceito que, para alguns setores da companhia, isso possa parecer uma coisa mais invasiva. Mas invasivo é o processo, é o sistema. Isso é um problema do sistema, não da Infoglobo. Se uma pessoa que não trabalha aqui pedir para usar um computador para passar um e-mail até pode, mas esse processo tem que ter mecanismos de segurança. Você não pode permitir que uma pessoa que não tenha uma relação mais íntima e doméstica com a casa possa entrar no nosso servidor. Até por risco de entrar um vírus. Só para dar uma idéia, nós temos todo tipo de segurança possível e imaginável contra spam. No entanto, pergunte a qualquer um de nós quantos spams recebemos por dia; são muitos. Mas sabe quantos são barrados todo dia pelo nosso sistema de segurança? 230 mil. Por dia. E se entrar agora no meu e-mail, vou identificar uns cinco a oito spams que conseguiram entrar. São remetentes que conseguem driblar o sistema. Tivemos numa ocasião problemas com o nosso servidor, que travou, inclusive o próprio Globo Online, pela ação de um hacker nos Estados Unidos. Vejo como muito natural a seriedade no trato com a informação, que é, como eu já havia dito, um patrimônio que não é nosso, mas do acionista. Por isso é que temos hoje uma área de Risco e Segurança da Informação, ligada diretamente a mim, com pessoas especialistas nisso. E a minha visão é a de que seremos cada vez mais rigorosos com isso. Para segurança das próprias pessoas, dos executivos, dos jornalistas, dos funcionários. E me sinto muito confortável nesse sentido e digo mais: hoje alguém pode passar um e-mail para você, assinado por mim, e não ser meu. A não ser que ele contenha uma assinatura digital. Mas você não sabe se eu tenho assinatura digital. Então vem lá: Paulo Novis. Mas pode ser um e-mail falando um absurdo espetacular para você, te dando uma informação maluca: Infoglobo acabou de comprar o Teatro Amazonas. E você é capaz de publicar essa informação, dar um furo, pensando se tratar de uma informação confiável. E eu nunca te mandei isso. Acontece, é possível. Por isso, temos que tomar medidas de segurança absoluta, para que essas coisas não aconteçam. Isso vai desde a informação que está digitalizada, dentro da sua máquina, a informação que está dentro da sua sala, a informação que está na sua pasta, a que você fala, a cópia que você mandou tirar. Há documentos de que não se deve tirar cópia; se você precisa tirar, tem que ir buscar essa cópia. Não é incomum numa empresa você buscar uma cópia que mandou tirar e haver lá outras cópias, de outros assuntos, que alguém tirou e não foi buscar. Pode não ser um documento importante, um documento confidencial, mas está na mão de não sabe mais quem. Há essas preocupações hoje, com a velocidade e o volume da informação – nós hoje estamos assim completamente obesos de informação. E essas informações escapam. As inúteis, as úteis, as importantes e as confidenciais. Aqui precisamos separar isso. O que é inútil tentamos evitar, porque não temos mais tempo nem saco para isso; das que são importantes precisamos cuidar; as confidenciais precisam ter confidencialidade, certo?

“Eu estou aqui como um preposto do acionista para cuidar do patrimônio dele. O patrimônio do acionista não é essa cadeira, não é o móvel, é a informação. Isso, para nós, é uma modernidade – para muitas empresas não é – e vamos implantar com todo o rigor.”

J&Cia – Existe algum benchmarking nessa área? Vocês servem hoje de referência ou foram buscar?
Paulo – Olha, o que temos são duas pessoas especializadas nesse segmento, algumas consultorias, inclusive advogados, que nos apóiam do ponto de vista de legislação. Um benchmarking específico de empresa de mídia, não. Talvez a Infoglobo seja, nas próprias Organizações Globo, a mais avançada nesse segmento, nesse cuidado e segurança da informação.
J&Cia – Vocês já foram procurados por alguma outra empresa jornalística para falar desse projeto?
Paulo – Até o momento, não. Mas esse é um processo também doméstico, interno. Confesso que é a primeira vez que um jornalista me faz essa pergunta. É a primeira vez que falo sobre esse assunto. Mas não teria nada contra ser benchmarking no assunto, tal a relevância que vejo nele.

Perfis


Agostinho Cardoso Vieira
q Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez especialização nas seguintes áreas: Imprensa Internacional, pela Universidade de Navarra (Espanha); Gestão, pela Fundação Dom Cabral (Belo Horizonte, Minas Gerais); e Gestão Avançada, pela Insead, Fontainebleau (Paris, França). Exerce a função de diretor Corporativo de Negócios da Infoglobo, desde 2002.  Com mais de 20 anos de carreira, á ocupou as funções de repórter de Cidade e Política, editor-assistente de Política, editor de Cidade e editor-executivo do Globo. Atuou, por dois anos, como diretor-executivo da CBN, emissora que integra o Sistema Globo de Rádio. Começou sua carreira no jornal Luta – O jornal do povo e no Jornal dos Sports. Entre os prêmios que ganhou, destacam-se o Esso de Jornalismo, 1984; e o Society of Newspaper Design, de 1998.


Paulo C. Novis
q Economista formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, tem pós-graduação nas seguintes áreas: em  Marketing, pelo  IAG-PUC; e em Gestão de Negócios, pelo Insead, Fontainebleau (Paris, França). Acumula ao longo da carreira experiência como gestor nas áreas de exportação, turismo, varejo, agências de propaganda e veículos de comunicação. Está há 11 anos nas Organizações Globo, onde também já atuou como diretor-geral do Sistema Globo de Rádio (CBN e Rádio Globo) por cinco anos. É, desde 2001, diretor-geral da Infoglobo Comunicações S.A., empresa que edita os jornais O Globo, Extra e Expresso, no Rio de Janeiro, e Diário de S. Paulo, em São Paulo, e o site de notícias O Globo Online. É membro do Conselho de Administração do Valor Econômico – joint-venture da Infoglobo com o grupo Folha de S.Paulo, e do ZAP – site de classificados, sociedade com o Grupo Estado de São Paulo. É membro voluntário da Endeavor.

 
 


 
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