São Paulo,

O Brasil de 2010

País chega bem, se governo não atrapalhar e apesar dos gargalos
País vive um momento excepcionalmente bom, um boom, mas ao sabor dos ventos, porque não tem feito as reformas, os ajustes e os investimentos necessários para garantir um ciclo de crescimento e prosperidade duradouro. Esta é a visão de cinco jornalistas convidados por J&Cia a debater o Brasil de 2010

 
 
Se fosse preciso dar uma nota de 0 a 10 para o Brasil, a partir dos parâmetros do seu atual desempenho econômico e do que está construindo para os próximos anos, ela seria uma nota sofrível, influenciada por uma disciplina na qual ainda somos muito fracos, a gestão pública. Digamos que o Brasil S.A  tiraria 6,5, como nota média da Nação que representa, formada por iniciativa privada, que contribui com um 9, e pelo governo, que atrapalha com um mísero 4.
O número, absolutamente empírico, retrata com algum grau de fidelidade, no entender deste J&Cia, o que disseram na manhã de 6 de dezembro, na sede da Bovespa, em São Paulo, palestrantes e convidados do seminário O Brasil de 2010 – A visão da Mídia de Economia e Negócios, uma iniciativa conjunta de J&Cia, Jornal da Comunicação Corporativa e Rádio Mega Brasil Online, com organização da Mega Brasil Comunicação.
Como avaliaram alguns dos presentes, foi um encontro de alto calibre, crítico e denso em conteúdo. Ninguém minimizou os problemas que a Nação enfrenta e mesmo os aspectos positivos da economia brasileira, que a muitos podem embevecer e inebriar, foram relativizados, de um lado pelo que todos consideraram a incrível incapacidade do governo em gerir de forma competente o País (uma forma mais elegante de dizer que todos consideram o governo, e não exclusivamente esse que aí está, incompetente demais), e, de outro, pelo muito que ainda falta ser feito para que tenhamos um ciclo efetivamente virtuoso e consistente de crescimento, que não dependa tanto dos “desígnios de Deus”.

De forma inédita, este J&Cia pôs lado a lado os diretores de Redação das três principais revistas de economia do País: Cláudia Vassallo, da tradicional e longeva Exame, que admira e é admirada em todo o País e a cada 15 dias freqüenta com desenvoltura e maioridade os círculos empresariais e da economia; Luiz Fernando Sá, da decenal IstoÉ Dinheiro, publicação que, passada a fase mais difícil da crise que abalou a Editora Três, que a edita, recupera o seu poder de fogo e retoma a rota de crescimento e lucratividade que sempre teve, desde o lançamento, trazendo semanalmente em suas páginas um jornalismo de qualidade numa área – a de negócios – estratégica para o desenvolvimento do País; e Nelson Blecher, da recém-nascida Época Negócios, a única mensal entre as três, ele que, após anos integrando o estupendo time de Exame, aceitou o desafio de ir para a concorrente Editora Globo e ali fazer uma revista instigante, ousada, refinada, com o ambicioso propósito de ser uma espécie de bússola da área de negócios do País – Cláudia, que era sua chefe direta, não perdeu o amigo, longe disso, mas ganhou um concorrente de peso, que chegou ao mercado para certamente pôr pimenta na disputa, obrigando todos a serem ainda melhores.
A esses três concorrentes diretos, pela primeira vez ombreados num debate, se somaram outros três prestigiosos profissionais: Eduardo Oinegue, que por 19 anos acumulou experiências na revista Veja – onde passou por praticamente todos os cargos, até ser redator-chefe –, e que, curiosamente, foi chefe direto tanto de Claudia quanto de Nelson, no período de pouco mais de um ano em que dirigiu Exame, atualmente dedicado à sua própria empresa, a Análise Editorial, que já tem no currículo seis anuários, entre eles o de Comércio Exterior, Os Advogados mais Admirados do Brasil e o que está na boca do forno, Os Médicos mais Admirados do Brasil; Moisés Rabinovici, decano do grupo, que viveu grande parte sua trajetória profissional no Exterior, pelo Estadão e Agência Estado, cobrindo guerras, conflitos civis e também economia, e atualmente dirigindo o Diário do Comércio, um dos mais antigos jornais do Brasil, mantido há décadas pela Associação Comercial de São Paulo; e Fátima Turci, atual âncora do programa Economia e Negócios da Record News, e que carrega na biografia passagens por Estadão, Agência Estado, Jornal do Brasil, além de uma temporada como sócia-diretora da CDI – Casa da Imprensa, uma das mais importantes agências de comunicação do Brasil. A ela, aliás, coube a missão de conduzir os trabalhos, organizando tanto a participação dos expositores quanto do público.
O encontro no auditório da Bovespa contou com a presença de  empresários e executivos de marketing, presidentes e diretores de algumas das mais importantes agências de Comunicação do País e executivos de Comunicação de médias e grandes corporações, garantindo a diversidade de figurinos e pensamentos, importante e enriquecedora num debate dessa natureza.
Em tese, o Brasil foi aprovado, mas num juízo de valor mais severo talvez tivesse ficado de “depê”. Para a geração mais antiga, estaria de “segunda época”, aquela forma que as escolas tinham de obrigar os alunos menos aplicados a fazer um novo exame (dependência, no linguajar das universidades). A boa notícia é que, levado ao “conselho de classe”, passou . Não, é claro, sem enfrentar duras críticas e alguns pensamentos divergentes.
No epicentro do debate, claro, ficou o governo. Mas não faltaram advertências de que hoje a sociedade é a responsável direta pela escolha democrática de seus governantes, tendo, portanto grande parcela de responsabilidade sobre o que acontece, e de também caber a ela a tarefa de empurrá-los, quando necessário, para a rota pretendida.
Unanimidade? Difícil, para não dizer impossível. Mas as opiniões, mesmo divergentes, não se mostraram necessariamente antagônicas. Tome-se o caso da CPMF. Para uns, que como todos os outros odeiam impostos e consideram a carga tributária brasileira uma indecência, não há como não admitir que do ponto de vista do governo este é o mais inteligente dos tributos, por ser fácil de controlar e “insonegável”; para outros, mais radicais na análise e que fazem questão de colocar o governo no paredão, a CPMF é o mais burro dos impostos, por ser perverso e penalizar toda a sociedade pelo efeito cascata que provoca.
Presença do Estado na economia? Também aqui há divergências, porém não de fundo e sim de dimensão ou mesmo de sutilezas gramaticais. Enquanto muitos consideram que esta presença deveria ser pequena, outros acham que ela deveria ser muito pequena, ínfima, imperceptível.
Mudanças? Que ninguém se iluda, na visão dos convidados, pois elas não virão, ao menos neste governo, que, com popularidade em alta, não cogita pôr em pauta temas “desagradáveis”, como as reformas trabalhista, tributária e política, entre outras. Todos as defendem, mas sabem que elas não têm a menor chance de vingar até o final do mandato do Governo Lula, o que levou Cláudia Vassallo, por exemplo, a lamentar que, embora viva um bom momento, o País esteja desperdiçando uma excepcional chance de fazer as mudanças que poderiam garantir, sem sustos, um longo ciclo de crescimento e prosperidade.
 
Presente ao debate, o diretor de Marketing de uma importante empresa pública brasileira, onde atua há pouco mais de dois anos, após ter vivido mais de três décadas na iniciativa privada, sempre em cargos de projeção, fez um diagnóstico sintético e, tanto quanto se pode deduzir, preciso da situação atual existente no serviço público, em algumas áreas. A esse diagnóstico ele dá o nome de a “questão dos terços”: “um terço do pessoal trabalha, um terço não trabalha e outro terço trabalha contra”. Por causa dos concursos, as pessoas são “imexíveis”, sendo impossível fazer política de mérito. Ele lembrou que enquanto a mídia concentra suas críticas nos dirigentes, deixa de jogar luzes sobre os andares de baixo do “edifício do setor público”, onde efetivamente muitas vezes as coisas emperram. No calor dos debates, alguém chegou a sugerir que também no serviço público se deveria adotar a meritocracia, com pagamentos de bonificações para quem for produtivo, a exemplo da iniciativa privada. Ao que o expositor Eduardo Oinegue imediatamente retrucou: “Pelo amor de Deus, não. Isso seria a primeira deixa para os demais pedirem isonomia, e um batalhão de gente iria ganhar sem trabalhar e sem qualquer mérito”.
O tom dos debates e a qualificação da audiência podem ser medidos pela presença, entre os convidados, de José Drummond Júnior, presidente da Whirlpool, que no Brasil é dona das marcas Brastemp e Consul, entre outras. Ele defendeu que “o País precisa ser como uma empresa: crescer, ter competitividade e desenvolver talentos”. E da mesa, Nelson Blecher, aproveitando a presença do empresário no plenário, não deixou passar a oportunidade: “Já que está aqui terá de nos dar uma coletiva ao final”, falou, em tom de brincadeira, descontraindo ainda mais o ambiente.
Além de Drummond, o evento registrou também as presenças dos presidentes do Banco Safdié, Luiz Orlando Foz, e da Associação Brasileira do Mercado Institucional de Limpeza, Ernesto Brezzi.

Oinegue, na sua explanação, deixou claro, em vários momentos, que a iniciativa privada – que vai bem, sim senhor, obrigado – tem de esquecer o governo e continuar com o que vem fazendo muito bem: investir, qualificar, empreender, lucrar e ocupar cada vez mais espaços, de modo a provocar um lento mas progressivo esvaziamento da presença estatal na economia e um encolhimento da máquina governamental. Mas que ninguém tenha a ilusão de que isso virá num passe de mágica. A imagem que usou foi a de que o Estado é como um móvel antigo que ganhamos da tia e não sabemos o que fazer com ele; fica na sala, atravancando o caminho: “A iniciativa privada é que vai fazendo as mudanças, sem se preocupar com ele. Quando se repara nelas, foram feitas e pronto”. Mais enfático ainda, buscou inspiração em duas figuras polêmicas da história mundial, arrancando risos do plenário: Ronald Reagan, ex-presidente dos Estados Unidos, a quem se atribui a afirmação de que “o governo não é parte da solução, o governo é o problema”, e Benito Mussolini, o ditador italiano fascista, que um dia disse: “Governar a Itália não é difícil, é inútil”.
 
Moisés Rabinovici, o Rabino, como todos carinhosamente o chamam, mais do que o dedo, vê a pata do Estado na Economia, com ingerências descabidas e inibidoras do crescimento a longo prazo e, além disso, teme que o País caminhe institucionalmente para um populismo a Chavez, o que pode se constituir num forte inibidor para a chegada de novos investimentos. Ele levou aos presentes o testemunho de que, em recente reunião com líderes setoriais, notou um importante grau de ceticismo em relação à manutenção do crescimento da economia, pelos gargalos que já começaram a surgir; e citou especificamente dois setores que já estariam diante desse impasse: o de embalagens, que parou de crescer, e se parou de crescer é porque não há coisas para embalar; e o da construção civil, que chegou ao limite do crescimento porque o estoque de áreas na cidade de São Paulo se esgotou.
A propósito do olhar hipnótico que a mídia e setores importantes da economia têm por Brasília e pelo que de lá emana, Luiz Fernando Sá, ao fazer sua exposição, enfatizou que a imprensa infelizmente falha, por valorizar demais o que vem dos políticos e ignorar ao extremo o que há no Brasil real, o Brasil da iniciativa privada, das realizações, do Interior. Na mesma linha de Oinegue, de que o setor privado vai fazendo a sua parte, apesar de Brasília, ele lembrou que a livre iniciativa espraiou-se de forma vigorosa por todo o País, alheia ao Planalto e constituindo uma nova e múltipla alternativa ao carro-chefe do País, a cidade de São Paulo. Citou o ranking das 100 maiores empresas publicado recentemente por IstoÉ Dinheiro, das quais, em 30 setores, 50% eram de fora da capital paulista, demonstrando a pujança e a importância econômica que as demais regiões começam a ter para o Brasil.
Quando o assunto é governo, impostos, Estado, difícil resistir a uma boa crítica. Impossível não apontar erros, desmandos, incoerências, inconsistências, incompetências e dezenas, quem sabe, centenas de outras “ências”, tal o poder de arbítrio que o Estado carrega nas suas relações institucionais com a sociedade. Pior, com desmandos que se avolumam e que dia-a-dia vêm à tona, para tristeza dos brasileiros. No entanto, como mostra a fisiologia humana, ao apontar um dedo acusatório contra alguém (o indicador), nós simultaneamente apontamos outros três para nós mesmos. Em outras palavras, ao buscar culpar o Estado por todos os males, estamos simultaneamente mostrando a nossa incapacidade de contribuir para encontrar as soluções.
 
É esse, de certo modo, o jogo que tem sido feito pela iniciativa privada. Ela sabe que não deve deixar de criticar e pressionar o governo, mas, consciente de suas responsabilidades, sabe que não deve também deixar de fazer a sua parte. E talvez esteja aí a explicação de estar ela hoje vivendo um excepcional momento. Momento, a propósito, que arrancou de Nelson Blecher a enfática afirmação de que o Brasil passou nos últimos anos pelo maior choque de capitalismo de sua história, um choque que, segundo ele, tornou-se absolutamente visível a partir do Plano Real, quando a moeda se estabilizou e o País mudou de patamar. Blecher, que não poupou o Bolsa Família, chamando-o de Esmola Família, disse que esse avanço poderá ser infinitamente maior quando o País, com uma economia consolidada e uma distribuição efetiva de renda, gerar consumidores e não cidadãos de segunda classe que dependam de favores do Estado para sobreviver. Ele destacou que, já em curso, essa mudança de patamar está provocando uma elevação das classes sociais e gerando um mercado consumidor mais sofisticado. E é para esse novo e relativamente desconhecido mercado que muitas empresas passaram a direcionar os olhares e os investimentos, sabedoras do potencial que esses vários Brasis emergentes representam para os negócios.
Aliado a isso, como lembrou Luiz Fernando, o País vive um boom no mercado de capitais, com dezenas de empresas realizando IPOs. São empresas que passaram a acreditar na estabilidade econômica, na força das instituições políticas, na Bolsa de Valores como forma de financiamento de expansão e que, para realizar esse movimento, precisam necessariamente incorporar ao seu DNA um novo modelo de gestão, profissional, transparente, ético, social e ambientalmente responsável e, obviamente, competitivo.
Esse movimento provocou no setor empresarial brasileiro o que Blecher chamou de um “choque de governança”, ou seja, além de mais capitalistas, as empresas brasileiras estão passando a ser também melhor e mais profissionalmente administradas, inclusive e sobretudo as empresas familiares.

Rico, o debate se estendeu a muitos outros aspectos, entre eles o de que corremos, sim, o risco de gargalos produtivos e mesmo de algum apagão, sem que isso represente, ao menos no horizonte de 2010, um desastre para o País. A crença é de que com o dólar atual e com criatividade e ousadia, as empresas brasileiras conseguirão fazer frente, de uma forma quase natural, a eventuais crises de abastecimento, como ocorreu recentemente com a indústria automobilística, que está fechando 2007 com recorde histórico de produção, apesar dos prognósticos de que esbarraria no desabastecimento de autopeças, fato que em nenhum momento veio a se confirmar.
Outra questão debatida com grande ênfase disse respeito aos talentos brasileiros. Hoje, o Brasil, na visão ali colocada, tem executivos de alta linhagem ocupando cargos proeminentes em algumas das mais importantes organizações mundiais, inclusive no Exterior, e no entanto não dispõe de quadros em quantidade suficiente para preencher os milhares de cargos qualificados existentes. Na outra ponta, sobram profissionais desqualificados, que não encontram emprego em lugar algum, caindo na informalidade. A correção desse cenário foi unanimemente defendida por todos, como sendo a única forma efetivamente capaz de permitir ao Brasil acelerar seu desenvolvimento. Como? Pela educação em todos os níveis, acabando com o medíocre sistema de ensino que tanta vergonha faz o País passar, para construir um outro que favoreça o surgimento de novas gerações mais cultas e talentosas.

Fátima Turci, que apimentou em alguns momentos os debates, moderando a participação dos expositores e do plenário, encerrou enfatizando que “os empresários vão contribuir para um Brasil melhor se continuarem a cuidar com competência dos respectivos negócios, sem se descuidar de pressionar o Estado para os ajustes e melhorias necessárias, o que precisa ser feito com o apoio de toda a sociedade”.

Como conclusão dos debates, é possível extrair a seguinte síntese: o Brasil vive talvez o seu melhor momento econômico nas últimas décadas, fruto muito mais da conjuntura internacional favorável do que de ajustes feitos nos campos político, econômico e social. Mas, sem alicerces firmes, no primeiro vendaval corre-se o risco de que o telhado e as paredes dessa construção desabem, mostrando o quão vulnerável nossa economia continua a ser.
 
A seguir, um resumo de cada uma das apresentações. A íntegra do seminário poderá ser ouvida pela rádio Mega Brasil Online (www.megabrasil.com) nesta 2ª.feira (10/12), às 18h30.
 
“O melhor dos países do Bric”
Eduardo Oinegue
“A mídia brasileira retrata hoje integrantes do grupo de países conhecido como Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) de forma positiva. Da China, a mídia mostra moda, consumo, industrialização; da Índia, a imagem principal é de empreendedorismo. Do Brasil, a mídia mostra esses aspectos, mas aponta igualmente o outro lado, da corrupção, do crime organizado, da miséria. Essa é uma visão clara e correta do País, mas como a nossa mídia mostra tudo, o Brasil fica parecendo pior do que os outros. É um paradoxo do jornalismo. A distância favorece a que a imprensa mostre os outros países de forma mais amena. Mas o Brasil é o melhor do Bric. Algumas razões:
  • Tem mais solidez institucional;
  • A economia é cada vez menos dependente do governo;
  • A Lei da Responsabilidade Fiscal vem levando gradativamente a maior responsabilidade na gestão da administração pública;
  • Tem havido constante renovação dos quadros políticos;
  • Tem havido mais rigor na fiscalização eleitoral;
  • Os políticos adotam cada vez mais um discurso de austeridade na gestão de recursos públicos;
  • Como a sociedade fiscaliza mais, embora ainda exista muita corrupção, ela já não é tão descarada;
  • O País dispõe de muitos recursos naturais;
  • A sociedade brasileira é mais complexa e mais consolidada do que as dos demais países do Bric;
  • Embora ainda haja muita carência de doutores no Brasil, é muito alta a qualidade dos nossos cursos de pós-graduação;
  • Têm havido avanços significativos nas áreas de saúde, meio ambiente e governança corporativa.

São inúmeros os desafios e carências que o País precisa enfrentar para continuar crescendo com consistência, entre eles, para citar apenas alguns, a criminalidade, a carga tributária e a educação.
Em contrapartida, algumas das principais vantagens que o Brasil têm em relação aos demais países do Bric para conseguir isso são democracia, empresários comprometidos com o lucro, liberdade de imprensa e solidez institucional.”

 
“Potência agrícola e energética”
Cláudia Vassalo
“O Brasil do sonho e o Brasil do pesadelo se cruzam o tempo todo. O crescimento de 5% sobre uma base como a brasileira é significativo. As perguntas são: por quanto tempo haverá esse crescimento? E esse crescimento seria um vôo de águia ou um vôo de galinha?
E se a crise chegar à economia americana, como muitos temem, o que pode acontecer com o resto do mundo? Se isso acontecer, é certo que terá para o Brasil um duplo impacto: o direto, por interferir nas negociações bilaterais, e o indireto, por afetar economias emergentes como a China, o que terá conseqüências óbvias para o Brasil, que hoje é um grande exportador de commodities para aquele país.
Os principais problemas que o Brasil enfrenta para chegar bem a 2010 são: risco de apagão de infra-estrutura física, como portos, aeroportos e estradas; excesso de burocracia (faltam, para se ter idéia, funcionários para carimbar guias de exportação e, sem isso, cargas não podem ser embarcadas e perdem-se contratos); educação muito deficiente, que tem como conseqüência a falta de oferta de profissionais qualificados no mercado. E aqui temos uma outra questão relevante: resolver problemas na infra-estrutura física é sempre muito mais fácil do que na da educação, fato que num País como o Brasil é preocupante.
O País melhorou muito nos últimos anos e é hoje respeitado internacionalmente como potência agrícola e energética, sobretudo agora, pela sua capacidade técnica e de produção na geração da chamada energia verde.
Falta planejamento estratégico aos governos, visão de Estado, o que não é privilégio desse governo, mas dos vários governos que já passaram pelo País. E sem isso é difícil o País crescer de forma consistente, vivendo muito mais à base de um crescimento aos solavancos. Por isso, não será de se admirar que o crescimento dos dois últimos anos do mandato do atual presidente se situe entre 3 e 4% (até 2010).
Apesar de tudo, o Brasil é o melhor País do Bric.”
 
“A geopolítica é um dos nossos gargalos”
Moisés Rabinovici
“Discordo do Oinegue quando ele diz que a economia está blindada em relação a Brasília. A CPMF, por exemplo, não é apenas uma questão econômica, mas política. É uma clara demonstração de como a pesada pata do governo interfere no dia-a-dia.
Outra preocupação diz respeito às questões geopolíticas, surgidas com a ascensão de governos populares na América Latina. A Hugo Chávez e Evo Morales se somará Cristina Kirschner. Lula instituiu com Chávez um grupo de governantes no Foro de São Paulo e esse alinhamento pode transformar o Brasil na Venezuela de amanhã, o que assusta os investidores. Preocupa também a coloração política das questões econômicas. A mídia não vê isso.
Os principais entraves para o crescimento são o excesso de impostos que o brasileiro paga e a burocracia que inibe a livre iniciativa.
Como não entendo de Economia, recorro a projeções de especialistas, que apontam para a necessidade de o Brasil ter de passar por uma modernização geral se pretender continuar crescendo. Recente pesquisa do Ibope apontou que os setores que mais crescerão nos próximos cinco anos são, pela ordem, telecom, agricultura, serviços e comunicações, entre outros.”
 
“Cada vez menos Brasília, menos São Paulo e mais Brasil”
Luiz Fernando Sá
“O seminário é importante pela inédita oportunidade de sentar e discutir com colegas que quase não se falam e pelo fato de estar sendo realizado na Bovespa, entidade que melhor representa o momento econômico por que passa o País.
O Brasil está deixando de ser uma economia de mercado e se transforma num capitalismo de mercado. Um exemplo é o número de IPOs, que dobrou este ano, mostrando que as empresas estão se financiando mais pelo mercado do que pelas agências oficiais, como o BNDES. Ainda que isso não signifique uma blindagem de discussões estatais, dá mais segurança aos investimentos das empresas.
O Brasil deverá crescer na faixa de pelo menos 5% nos próximos dois anos, até por inércia.
O comércio exterior do Brasil é ainda pequeno em relação ao mundo. O País tem uma blindagem externa porque tem um mercado interno forte e em expansão. Consegue crescer mesmo que haja alguns sustos externos.
Concordo com Oinegue e Cláudia quanto aos problemas de infra-estrutura e de falta de profissionais qualificados. Acredito que a abertura da economia nessa área de infra-estrutura deve favorecer melhorias. A Vale, por exemplo, investe em ferrovias, e a TAM se dispõe a fazer o mesmo na área aeroportuária.
Sou um otimista com um pé atrás. Acredito no crescimento por causa do cenário externo favorável (o Brasil é mesmo o celeiro do mundo, o grande fornecedor mundial de proteínas); por ter muita mobilidade social, que vai gerar impacto econômico; caminha para ter moeda forte sustentada pela política de superávits, o que lhe dá maior poder de negociação internacional; e por ser líder das energias alternativas, como o etanol e o biodiesel.
A economia brasileira é cada vez menos Brasília, menos São Paulo e mais Brasil.”
 
“Choque de capitalismo, choque de governança, choque de gestão”
Nelson Blecher
“O País passou pelo maior choque de capitalismo de sua história nos últimos anos. Isso ficou muito mais visível com o Plano Real.
A ’esmola família‘ não é solução, embora esteja favorecendo o crescimento econômico. E esse crédito farto está gerando um mercado diferenciado. Mas nós temos de gerar novos consumidores e não cidadãos dependentes de favores do Estado.
Haverá muitas mudanças na cultura de negócios, por razões sociais, tecnológicas e demográficas, implicando também mudanças nas políticas governamentais.
A abertura de capital das empresas está começando a provocar um outro choque nas empresas, o choque de governança. É um processo que está de certo modo revolucionando sobretudo as empresas familiares, que estão conseguindo, a partir desse novo patamar de gestão, reduzir significativamente os problemas de sucessão, responsáveis pela derrocada de inúmeras organizações, e também a sonegação. Obviamente que ainda há resistências em muitas das organizações familiares por conta da mentalidade patrimonialista que predomina em muitas delas. Mas o avanço é visível.
Outra coisa que hoje salta a olhos vistos é a chamada valorização dos intangíveis, com marcas e capital humano passando para o 1º plano, o que décadas atrás sequer integrava o rol de preocupações das empresas.
Não é demais lembrar que na década de 70, face ao know-how adquirido por nossos executivos em lidar com inflação, exportávamos executivos financeiros para todo o mundo. Hoje continuamos a exportar executivos, porém são dirigentes de empresas, muitos deles ocupando altos cargos em algumas das mais importantes organizações mundiais.
A governança, em decorrência dos resultados obtidos pela iniciativa privada e do reconhecimento da sociedade pelos benefícios auferidos, começa também a chegar ao setor público, o que é muito bom para o País.
São muitas mudanças acontecendo ao mesmo tempo, por isso é difícil saber onde isso vai dar. As inovações tecnológicas estão mudando, por exemplo, o marketing das empresas e vão provocar mudanças também em várias outras profissões. Vemos hoje as empresas procurando trazer para suas áreas de marketing profissionais oriundos das periferias da cidade, numa atitude que busca internar nas organizações conhecimentos desses novos consumidores que o mercado passou a conhecer.
O Brasil gera muita excelência acadêmica, mas infelizmente pouquíssima inovação. São nítidas e históricas as resistências das universidades públicas em fazer parcerias com as empresas, como se isso fosse um pecado, mas a cada dia essa será uma questão central para o desenvolvimento do País, seja no campo empresarial e mesmo da ciência e tecnologia.
E não é demais lembrar que muitas multinacionais de prestígio estão empenhadas em investir no País, transformando o Brasil em centro de excelência.”
 


 
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