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São Paulo,
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Mulheres
Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.
Elas brigam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.
Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poderem tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversário ou um novo casamento.
Pablo Neruda
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Célia Chaim
Por Ricardo Kotscho
Vou dar um breve testemunho de quem foi chefiado por Célia Chaim, numa das minhas passagens pelo Jornal do Brasil nos anos 90 do século passado.
As mulheres, como vocês devem se lembrar, estavam começando a assumir o poder naquela época. No caso dela, com muita suavidade, muita conversa, mas era preciso mostrar serviço, trabalhar direito, ter iniciativa, ousar.
Tratava todo mundo do mesmo jeito. Levei muita bronca dela porque vivia perturbando o trabalho dos outros. "Se você não sair da redação agora, te demito! Vai pro bar que depois a gente te encontra lá!" Sempre muito disciplinado, eu ia...
Reencontrei Célia muitos anos depois, de volta à planície, os dois trabalhando na equipe de repórteres especiais da Folha, maldosamente também conhecida como "gráfica do Senado".
Ao contrário da lenda da "gráfica", a gente continuava gostando de trabalhar no pesado, fazer uma boa e velha reportagem, apesar dos muitos problemas de saúde que enfrentamos nesse meio tempo. Célia nem tocava nesses assuntos, sempre manteve um alto astral.
É bom trabalhar sob o comando dela e é bom trabalhar junto com ela na mesma bancada. Para escrever sobre mulheres jornalistas, não poderiam ter escolhido ninguém melhor do que Célia Chaim. Ela sabe do que está falando, como vocês poderão ver nesta edição especial do Jornalistas&Cia. |
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8 de março 2008
Tim-Tim!
Por Célia Chaim
Nordestinas, francesas, bravas argentinas, ribeirinhas amazonenses, loiraças, mulatas, negras, suecas, todas estão no mesmo barco no Dia Internacional da Mulher. Umas na proa, outras no porão. Não é feriado, não tem flores nem vela, tem origem polêmica, violenta e rebelde (*), muita coisa pra contar... E é contando histórias – de política, economia, moda, cultura ... – que a vida das jornalistas enobrece a profissão. Nem mais e nem menos do que os homens jornalistas, mas diferentes. Ainda bem, para evitar que tudo fosse muito sem graça.
Adoro ser mulher – independentemente de ser jornalista –, para ser mãe perdidamente apaixonada por meus filhos Bruno e Pedro, para fazer de conta que tenho alguma coisa a ver com Todas as mulheres do mundo, filme de Domingos de Oliveira, de 1966, ou com a balzaquiana do escritor francês Honoré de Balzac, a Maria, Maria de Milton Nascimento, a inspiração de tantos poemas de Vinícius de Moraes, a Gabriela de Jorge Amado. E a Rosa, de Pixinguinha, “divina e graciosa estátua majestosa / do amor por Deus esculturada!”
Adoro ser jornalista por ter a chance de conhecer gente tão iluminada como Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, o querido geógrafo Milton Santos (1926-2001), rebeldes como Romário, empresários como Antonio Ermírio de Moraes, intelectuais como José Mindlin, revolucionários como Fidel Castro, a médica e sanitarista Zilda Arns, exemplo de liderança e determinação, fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Criança, que, com suas ações, ajuda a salvar milhares de crianças todos os anos, até mesmo fora do Brasil. E, não menos, tomar café e beber água sem nenhum tratamento servidos com tanta generosidade por dona Adália, moradora da favela Imigrantes, onde fui parar na cobertura de um trecho do percurso do translado do corpo de Mário Covas a caminho de Santos. As recomendações médicas em razão de minha saúde, fragilizada na época, passaram batido. E eu, que adoro tomar café em Paris, nunca vou esquecer o café de dona Adália – o melhor do mundo na minha cabeça.
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Esta edição é dedicada a todas as jornalistas que, por meio de vários veículos, informam, opinam, alertam, vigiam, orientam, investigam, denunciam, no mais pleno e ético exercício da profissão que escolheram.
(*) O Dia Internacional da Mulher foi criado em homenagem a 129 operárias que morreram queimadas numa ação da polícia para conter uma manifestação numa fábrica de tecidos, em 8 de março de 1857, em Nova York. Elas reivindicavam a diminuição da jornada de trabalho de 14 para 10 horas por dia e o direito à licença-maternidade. |
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Pagu
Musa do modernismo
Filha de imigrantes alemães ricos, a jornalista, militante, corajosa, rebelde, desaforenta e tantas coisas mais deu um nó no conservadorismo. Fora da ordem como ela, só Leila Diniz. As quatro letras do pseudônimo de Patrícia Rehder Galvão (1910-1962) não precisam de mais nada para identificar a inquieta escritora e jornalista brasileira, militante comunista, com grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922, corajosa e sincera Pagu.
Sempre esteve fora da ordem vigente da época, muito avançada para os padrões de então. Imaginem, lá pelos anos 30-40, a filha dos Rehder, imigrantes alemães do Schleswig-Holstein que enriqueceram na produção de café, fumar na rua, usar blusas transparentes, manter os cabelos eriçados e dizer palavrões. Com apenas 12 anos, Pagu já prestava atenção na Semana de Arte Moderna de 1922 e no início do movimento modernista, do qual mais tarde iria participar.
O desprezo às convenções e os desaforos às regras vigentes de Pagu fazem lembrar a mais cobiçada das musas brasileiras, Leila Diniz. As duas sacudiram homens e mulheres em seus respectivos tempos. Pagu esteve presa por sua militância política como comunista. As duas foram mulheres de atitude, à frente de seus tempos, malvistas pela direita política e opressiva, amadas por poetas, escritores, cineastas; invejadas por mulheres que, para defenderem seu imobilismo, atreviam-se a chamá-las de vulgares. As duas foram perseguidas: Pagu, por sua aliança com o Partido Comunista, levada pelas mãos de Luís Carlos Prestes; Leila, por ter chacoalhado o País inteiro na época da ditadura com uma entrevista que deu ao jornal O Pasquim, em 1969. Foi também depois dessa publicação que foi instaurada a censura prévia à imprensa, mais conhecida como Decreto Leila Diniz, acusada de militante de esquerda.
Pagu viveu grandes amores, um deles com o poeta Oswald de Andrade – que teria deixado a pintora Tarsila do Amaral pela normalista. Na questão de grandes e precoces amores, Leila e Pagu se aproximam mais uma vez. Ambas foram – embora os dicionários brasileiros não registrem o termo que, com o perdão de nossos leitores, decidimos inventar, por justo – “homenrengas”. A primeira, debochada, dizia que "nem sabia com quantos teria ido para a cama”. No jornalismo, a segunda escreveu o que quis e o que não queriam. Leila Diniz não escreveu – foi escrita em cada um de seus passos. Uma é musa do modernismo, a outra, musa da antiga e gloriosa Ipanema. |
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PABLO PICASSO
De guarda- sol na mão
Mas que mulher bonita fez Pablo Picasso, feliz da vida, segurar sorrindo um guarda-sol, visivelmente pesado,
como se fosse um leque!
Foi em 1946 que a linda francesa Françoise Gilot, artista plástica, décadas mais jovem, seduziu e foi seduzida
pelo gênio Picasso. Ela morou com o pintor espanhol de 1946 a 1953, foi mãe de seus fi lhos mais jovens, Claude
e Paloma.
Chamar Picasso de mulherengo é empobrecer sua segunda arte. Todas elas infl uenciaram sua pintura. Fernande
Olivier, também francesa, teria inspirado sua fase rosa. Antes de seu casamento com a bailarina russa Olga Koklova
(com quem também teve um fi lho), morou com Marcelle Humbert. Aos 80 anos, casou-se com Jacqueline Roque,
sua modelo. Entre seus dois casamentos teve algumas amantes, entre elas Marie-Thérèze Walter, mãe de sua fi lha
Maia, e a iugoslava Dora Maat.
E Françoise, sua grande amada? Ela deixou Picasso amargurado com o guarda-sol na mão e foi embora --, a única
mulher a abandoná-lo. |
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| DEPOIMENTOS A CÉLIA CHAIM |
Danuza Leão
Não esqueça o batom!
“Como não tinha falado com um cardeal, não sabia o que dizer; então, elogiei a linda cruz que ele carregava no peito, e sua resposta foi um primor de elegância e talvez – talvez – de vaidade. D. Lucas abriu um grande sorriso e respondeu: “Comprei em Paris”. Adorei saber que cardeais também podem ser ligados em moda”
Numa reunião do JB, no Rio, eu, como chefe da sucursal de São Paulo, tive grande alegria de, sem querer, ficar ao lado dela, aquela supermulher que foi modelo em Paris, casou-se com Samuel Wainer, criador do jornal Última Hora, abençoada por Deus e bonita por natureza. Aconteceu num hotel que achei de luxo (ela, provavelmente, tinha uma avaliação bem mais comedida, menos exagerada). Foi ali que recebi a primeira lição de Danuza Leão, a colunista do jornal: “Nunca saia sem passar batom porque você pode encontrar o homem de sua vida na primeira esquina”.
Danuza tem o que se chama “berço”, mas não é metida a besta. Aos 15 anos freqüentava a casa do pintor Di Cavalcanti. Aos 18, foi a primeira modelo brasileira a desfilar fora do Brasil. Ela foi tudo, de dona de butique a produtora de novelas. Foi a grande paixão do escritor e jornalista Antonio Maria, cuja morte foi assim “diagnosticada” pelo poeta Vinicius de Moraes: “Ele morreu de amor”. Por Danuza, é claro. Seu terceiro marido foi o jornalista Renato Machado, da Rede Globo.
Em suas crônicas e livros, ela não cai no histriônico repertório de alguns ricos, e de muitos aspirantes ainda desengonçados no traquejo do figurino. Conhece o assunto, escreve sem pirotecnias e sempre dá seu recado. Olhem essa, de sua biografia Quase tudo, publicada pela Companhia das Letras:
“Um belo dia fui convidada para a inauguração do Teatro Castro Alves, em Salvador. Todos os baianos ilustres estavam lá; João Gilberto, Bethânia e Gal cantaram. Depois do show, Antonio Carlos Magalhães, que era governador do Estado, recebeu para um fantástico jantar, e tive a honra de ser apresentada ao cardeal d. Lucas Neves, um homem simpaticíssimo. Como não tinha falado com um cardeal, não sabia o que dizer; então elogiei a linda cruz que ele carregava no peito, e sua resposta foi um primor de elegância e talvez – talvez – de vaidade. D. Lucas abriu um grande sorriso e respondeu: “Comprei em Paris”. Adorei saber que cardeais também podem ser ligados em moda”.
O mundo de Danuza perdeu a luz quando seu filho Samuca morreu num acidente de carro quando fazia uma reportagem no interior do Rio Janeiro para a TV Globo.
– Suas crônicas são hoje publicadas todos os domingos, na página 2 do caderno Cotidiano, da Folha de S.Paulo. Escreve gostoso, leve, muitas vezes engraçado.
– Querida Danuza, não esqueci o seu conselho do batom... |
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Dora Kramer
Espiã da notícia
“Ocupar o mesmo lugar de Castelo, o mais clássico espaço da imprensa brasileira, eis um desafio que não é para qualquer um. Uns nem se atrevem. Outros, ao se atreverem, sairiam diminuídos. Pois Dora Kramer, titular daquele pedaço desde 1995, conseguiu a proeza – pense-se bem, isso não é fácil – de conservá-lo clássico”. (Trecho do texto de apresentação de Roberto Pompeu de Toledo para o livro que traz as crônicas escolhidas de Dora Kramer)
Ela tem bom nome para bailarina. Dora, igual ao de Dora Angela Duncan, que escolheu ser Isadora, “a mãe da dança moderna”, como dizem. A colunista política do jornal O Estado de S.Paulo, Dora Kramer, queria ser bailarina. Não deu. Como recompensa, ganhou o talento de observar e tirar conclusões dos passos, gestos, olhares e frases dos políticos que encenam em Brasília a grande ópera bufa chamada poder. Que ofensa se impõe, a nosso precioso Oscar Niemeyer, no Congresso e no Senado por ele projetados!
Dora conta que vai pouco às duas “casas”. Mas tem tudo na ponta da língua. Sempre escreve com interpretações amparadas em análises. Ela contou, por exemplo, com alguma antecedência, que o ministro da defesa do então presidente Fernando Henrique Cardoso, Élcio Álvares, iria cair. Acertou em cheio. Botou fogo na política quando, em 1993, lançou o livro Passando a limpo, a trajetória de um farsante, escrito em parceria com Pedro Collor de Mello, o irmão do farsante, Fernando Collor, o “caçador de marajás”. O livro entrou na categoria dos “bestalhões céleres”, claro que por conta do célere personagem. Dora também escreveu O Resumo da História, fatos e personagens que marcaram a política brasileira, apresentado por Roberto Pompeu de Toledo – uma honraria e tanto. |
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Eleonora de Lucena
Salve a gaúcha!
“Buscar entender o mundo em que se vive, não se conformar com a simples rotina”
Quando Eleonora de Lucena entra na redação da Folha de S.Paulo não dá para se ouvir nem o toc-toc de seus sapatos. Mais do que discreta, a gaúcha, editora-executiva do maior jornal em circulação do País, não precisa gritar, menos ainda exercitar as recorrentes micagens do “poder” no jornalismo para que todos ali saibam que ela é a Eleonora.
“Abracei a idéia de ser jornalista num impulso no final do colegial. Entrei na faculdade e já comecei a trabalhar. Tinha dúvida se preferia seguir o curso de História. Cursei as duas faculdades de forma paralela, mas acabei seduzida pela descoberta diária do novo. O jornalismo é isso: aprender a cada dia algo de diferente, perguntar sempre, deixar a cabeça aberta para o contraditório, a dúvida, o conflito. Buscar entender o mundo em que se vive, não se conformar com a simples rotina. Por isso gosto de ser jornalista.Trabalho na Folha desde 1984 e exerci diversas funções. Hoje sou editora-executiva.” |
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Eliane Cantanhêde
Quanto mais difícil, melhor
“Adoro o meu trabalho. Viajo muito, conheço pessoas novas, lugares diferentes e temas complicadíssimos o tempo todo”
Richarlyson, jogador do São Paulo, apontado como um dos melhores do futebol brasileiro na atualidade, dá show em todas as posições que encontra para fazer emocionantes jogadas. Como ala (um lateral mais avançado), como meio de campo, como atacante e, eventualmente, até como zagueiro, ele é “o cara”. No jornalismo, “o cara” é Eliane Cantanhêde, colunista da Folha desde 1997. Comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Participou intensamente da cobertura do choque entre o Boeing da GOL e o jato Legacy, em setembro de 2006.
“Adoro o meu trabalho. Viajo muito, conheço pessoas novas, lugares diferentes e temas complicadíssimos, o tempo todo”. Ela conta que começou com temas sociais, como educação, saúde, trabalho. “Passei para a política, que move o mundo. Cheguei à política externa e nunca deixei de me interessar por assuntos de defesa. E estou sempre aprendendo. Poucas profissões te dão tanta chance de estar sempre aprendendo, descobrindo.”
Mas a sua rotina...
“Não pense que tudo são flores. O jornalismo é cansativo. Trabalha-se muito, abandona-se muito a família. Minha rotina não é de muita dedicação. Acordo cedo, malho na academia, leio a Folha e mais um jornal, corro para a redação. Daí é fonte, internet, telefone (tenho dois fixos e dois celulares na minha mesa). E bater perna. Num dia, Congresso. No outro, Itamaraty. Num terceiro, Ministério da Defesa. E tome de almoços e jantares de serviço, que são a chance de conversas mais elaboradas e inteligentes, sem dezenas de jornalistas e microfones por perto”.
Eliane recebe centenas de e-mails todos os dias, muitos acrescentando informações ou perguntando coisas. Muitos elogiando, outros esculhambando. “E há os ‘petistas de internet’ e os ‘tucanos de internet’, azucrinando a vida, sem nenhum compromisso com a verdade. Alguns divulgam uma versão do que escrevi diferente do que realmente escrevi, fazem correntes e a versão passa a ser verdade. Falam que vão me processar, me crucificar, me chamam de vagabunda, daí para pior. Mas não dou a menor bola”. Ela diz que só fica atenta para a crítica real, sincera, pensada. “Se leio um e-mail consistente, mesmo que duro, presto atenção, reflito, respondo”.
E as fontes?
“No final das contas, as fontes em geral têm um pé atrás comigo, mas tenho uma relação de respeito mútuo com elas. E o problema é outro: a internet. Nunca se sabe se os ‘petistas’ são petistas mesmo ou se estão a soldo, se os ‘tucanos’ são tucanos mesmo ou se estão cavando uma boquinha para ganhar algum xingando os outros. Mas o fato é que há os petistas malhando os jornalistas que eles acham tucanos, e os tucanos malhando os jornalistas que eles acham petistas. E eu apanho dos dois lados! Esse é o meu melhor troféu”. |
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Fátima Turci
A perguntadeira
“Ser educada com meus entrevistados me custou caro. Eu perguntava o que todos perguntavam, só que de maneira diferente”
Ela ficou mais bonita, parece que mais bonita e mais feliz. Depois de 20 anos trabalhando em jornais na área de Economia, Fátima Turci mudou: associou-se a uma agência de Comunicação, a CDI. Mudou mais uma vez. Foi para a tevê e gostou. Fátima entrevista quem ela quer porque construiu uma imagem de lisura e ética com seus entrevistados. A educação que recebeu desde criança não conseguiu torná-la uma jornalista agressiva. “E isso me custou caro”, ela diz. Discreta, não conta que no tititi comentavam com ironia sua delicadeza ao falar com entrevistados. “Eu perguntava o que todos perguntavam, só que de maneira diferente”.
Com mais de 30 mil entrevistas feitas ao longo dos 33 anos de carreira, Fátima diz ser “quase missão impossível ou até injustiça (seja com os personagens que passaram na minha vida ou mesmo com minha capacidade de recordar) elencar as melhores... Sem fugir da missão, diria que realmente cada entrevista teve seu papel preponderante, seja porque ajudou a esclarecer uma pessoa ou centenas, seja porque propiciou um furo jornalístico que alavancou minha trajetória ou simplesmente porque, ao contar ou repercutir um fato, alguém gerou um movimento de mudança na sociedade”.
Mas diante da insistência para que cite alguns desses personagens, ela busca no Oscar, de Hollywood, a inspiração para uma saída honrosa. “Escolho então pelo conjunto da obra”. Entre seus personagens e fontes preferidas, pelos furos que deram, pelo papel que desempenham nos respectivos setores em que atuam e pelo respeito que sempre demonstraram para com ela e com o jornalismo, estão Antonio Ermírio de Moraes (“pela constante lição de crença no valor dos homens; de luta e garra para o empreendedor brasileiro”); Washington Olivetto (“por sua capacidade constante de reinventar, inovar, criar, inquieto e eternamente ensinando como viver”); o presidente da CVC Guilherme Paulus (“pela preocupação constante em gerar empregos e negócios”); o ex-ministro e empresário Roberto Rodrigues (“sempre disposto a esclarecer, elucidar dúvidas, colocar o agronegócio onde realmente merece, com bom senso e capacidade irrefutáveis”); Ozires Silva, em seus diferentes papéis (“jamais deixou de opinar e, acima de tudo, passar sua experiência para o setor e o mercado, numa demonstração ávida por renovação de metas e objetivos”); Maurílio Biagi (“um visionário do que seria o futuro da energia verde, renovável e todo o setor sucroalcoleiro”); José Carlos Semenzato, modelo do novo empreendedor brasileiro e dono de franquias, como Microlins, Embelleze e Number One (“pela incansável disposição em ensinar o caminho do sucesso empresarial”); o hoje ministro Miguel Jorge (“que teve um papel fundamental na minha carreira, como professor, chefe de Redação e fonte nos diversos setores aos quais esteve ligado”). Das fontes e personagens que já se foram ela diz que não pode deixar de relembrar duas: “uma constante, como o Comandante Rolim, da TAM, desde o início de seu negócio até o auge da companhia; e outra carismática, como Ernesto Illy, incentivador, antes mesmo de nós, brasileiros, do nosso café”.
Depois de longas passagens por grandes veículos, Fátima não perdeu o ímpeto de mudar e arriscar. Agora ela está no novo canal aberto da Record, o RecordNews, lançado em setembro de 2007, todos os dias, às 17 horas. “Acredito que a mudança é fundamental para o crescimento”.
Fátima e Romário estão ali nos mil – só que ela com mais de 30 mil entrevistas, ele com mais de mil gols. Adivinhe quem é o grande ídolo dela na arte de entrevistar? O americano Larry King. Entendam bem: ela não quer ser ele, Larry King é apenas seu ídolo. |
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Erothildes Medeiros
Simplesmente Tida
Voz mansa e delicada, Erothildes Medeiros, a Tida, é a cara da rebeldia a todos os revezes da vida. Anda da muletas pra lá e pra cá, dando um baile na poliomielite que sofreu quando pequena.
Ela parece gostar de “bailes”. Casou há dois anos com o namorado de 16 anos atrás, quando tinha 39 anos e ele 18. Uma bela história de amor. Ela morava no Rio quando, com dois filhos – “meus filhos”, ela diz –, ele, descasado, a procurou para repetir a história antiga. Hoje, morando em Brasília, conta sem nenhuma frescura que tem 55 anos e ele, 34. Conversamos por telefone no meio de uma festa infantil, rolando bolo pra tudo quanto é lado, quando falou que gosta muito de ser jornalista, de trabalhar na agência de notícias do Senado, de ter feito assessoria institucional para a ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina e a Devanir Ribeiro, hoje deputado pelo PT. Não omite sua opção política pelo ex-partido de Erundina, menos ainda sua decisão de ser feliz.
Mas quem a vê hoje em Brasília, não pode imaginar o quanto essa moça, que ainda puxa muito nos erres, num típico sotaque caipira, militou na capital paulista, enfrentando, como muitos de nós, a sanha da ditadura. Revisora, no início de carreira, foi uma das mais assíduas ativistas do PT, num primeiro momento, e do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, onde atuou por muitos anos. Era ter uma reunião, uma assembléia, uma rodada de chope nos botecos nos arredores da rua Rego Freitas (onde fica o Sindicato), e lá ia Tida, com suas muletas, para os encontros. Cheia de energia, sorriso nos lábios, contagiando quem quer que fosse, com sua alegria, firmeza de caráter e vontade, muita vontade, de viver e de revolucionar.
Hoje em Brasília, deixou saudades nos amigos, mas encontrou um caminho de felicidade que o destino lhe reservou.
Pensa menos de um minuto para apontar Ricardo Kotscho como um dos principais jornalistas do País, sem saber, provavelmente, de uma façanha de Kostcho que ela iria adorar. Vamos lá: anos atrás ele sugeriu e fez para uma revista tida como importante uma grande matéria sobre negócios dos índios. A revista recusou com várias desculpas e, certamente, pouca ousadia e muito preconceito. Ricardo levou a matéria para outra revista, Caminhos da Terra, e com ela ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo naquele ano. Sabe, Tida, eu, que assisti na arquibancada a recusa, confesso que, quietinha para não perder o emprego, adorei... |
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Joyce Pascowitch
Saiu na Joyce!
“Eu sei que o trabalho de colunista às vezes é visto como uma coisa menor, mas não ligo para isso”, diz. O colunismo, Joyce explica, não é fofoca, é informação privilegiada de bastidor, escrita de uma maneira gostosa, esperta. Pode ser sobre política, moda, cultura...
Sair na Joyce pode ser a melhor ou a pior notícia para o personagem em questão. “Minha imagem ficou ligada à de uma colunista séria que dá notícias em primeira mão”. Foi isso o que Joyce Pascowitch fez durante seus 14 anos de Folha de S.Paulo. Na linha de Zózimo Barrozo do Amaral, o senhor colunista de todos os tempos, falecido em 1997, Joyce não se limitou a jogar purpurinas na chamada “alta sociedade”. Ela foi a primeira jornalista a denunciar a escandalosa “operação Uruguai”, que resultou no impeachment do então presidente Fernando Collor, e também a primeira a falar que Rosane Collor, a mulher do presidente, estava tendo um affair com um mineiro, “o que deixou Collor (mais) louco da vida com ela”. Joyce deu outros furos jornalísticos, mas esses, ela diz, “são os mais saborosos”.
Ela conta que não foi por acaso que acabou virando jornalista. “Comecei a trabalhar vendendo anúncios para a revistinha de uma boate chamada Galery, que era do meu irmão”. Bisbilhotava muito. E tirou lições do melhor que conheceu. Textos saborosos, escrita fácil, de maneira que a maioria entenda, foi uma grande lição que aprendeu com o dramaturgo e jornalista Antonio Bivar, até hoje seu parceiro. “Foi com ele que aprendi que a gente tem que escrever do jeito que pensa e fala, escrever fácil, de maneira que os outros entendam. Ele escreve bem, tem um olhar diferenciado, não tem aquela dureza.”
Joyce chegou à Folha de S.Paulo a partir do trabalho mostrado na “revistinha”, chamada AZ. “Eu não sabia escrever no computador e nem na máquina”. Tudo, porém, deu certo. Ela sabe e diz que “o trabalho de colunista às vezes é visto como uma coisa menor, mas não ligo para isso”. O colunismo, Joyce explica, não é fofoca, é informação privilegiada de bastidor, escrita de uma maneira gostosa, esperta. Pode ser sobre política, moda, cultura, economia, mas sempre “privilegiada”.
Será que Joyce – como Zózimo – teve um empurrão de sua condição social em seu sucesso profissional? “Ué, como é que uma pessoa rica consegue entrar nesse meio? Eu fui muito bem educada – educada para me portar bem, a respeitar os outros, educada culturalmente. Isso sim faz a diferença, facilita o meu trabalho. Eu chego preparada nos lugares, sei me comunicar, sei respeitar e tenho um repertório grande, desde quando era criança. Essa é a diferença e o dinheiro realmente ajuda”.
E o colunismo na grande imprensa?
“De certa maneira eu continuo fazendo, na minha revista (Joyce Pascowitch), lançada há pouco mais de um ano, e no site Glamurama, que existe há oito anos”. Glamurama é nome de sua editora – um sucesso em expansão.
Era isso o que Joyce queria ser quando crescesse?
“Não, quando eu era bem pequenininha, dizia que quando crescesse queria ser mãe, porque minha mãe era só mãe e, por ironia do destino, eu tenho dois enteados, que são meus filhos. Não tenho filhos biológicos”. |
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Neide Duarte
A rua é dela
Neide Duarte faz jornalismo "à moda antiga" sem perder nada dos novos recursos. A diferença é que ela "vai lá – seja onde for –, conversa muito sem seguir rígidos roteiros, não tem pressa para acabar conversas e entra em todas – da favela aos salões da Fashion Week. O mais interessante é que o tema pode ser o mesmo, mas a matéria dela será sempre diferente e melhor.
Quer ver Neide Duarte fazer uma grande reportagem? É só soltá-la na rua com uma pauta sem muitos detalhes. "A rua sempre será mais rica que a redação. Na rua tudo muda, quase nada que imaginamos é real, porque não existe nada mais vibrante, mais louco e transformador do que a realidade”, garante ela. Certa vez, no começo de sua carreira, recebeu uma pauta sobre uma pizzaria que tomara conta da cidade. Em vez de seguir o caminho fácil do "negócio bem sucedido", xeretou, xeretou até descobrir que aquela pizza "boa e barata" era feita com tomate de sobra de feira, quase podre.
Para quem queria ser detetive, Ivanhoé, qualquer coisa heróica assim, até que a visita à pizzaria popular lhe proporcionou liberar algum instinto de investigação.
Ela conta que virou jornalista "por causa do cheiro". Que coisa estranha! "Quando estava no colégio, fomos fazer uma visita à redação da Folha de S.Paulo. Assim que entrei no prédio senti aquele cheiro do papel e da tinta, as máquinas trabalhando. Depois, a redação escura e a Helena Silveira circulando por ali. Fiquei encantada e para sempre marcada com aquela imagem de filme de detetives dos anos 50, de divisórias de vidro canelado e madeira marrom escura. O mundo a ser descoberto por aqueles aventureiros, desbravadores”.
Uma de suas grandes competências é "falar o idioma" de seus entrevistados – pobres que perderam a casa com temporais, loucos por carros do salão do automóvel, mulheres lindas que fazem dali um trampolim, endinheirados "babando" (pelas mulheres ou pelos carros?), faxineiros que se esfolam para não deixar um cisco no chão, e por aí vai... A lição fundamental veio depois de vinte e tantos anos de profissão, quando estava na TV Cultura, fazendo o programa Caminhos e Parcerias. "Pela primeira vez, descobri que era possível seguir um caminho com o qual eu tinha sonhado, mas nem sabia que tinha sonhado. Só percebi o caminho quando estava nele”. Era a estrada de Mirandiba, sertão de Pernambuco.
"Lá fui eu e a equipe de cinco pessoas. Onde fica Mirandiba?, perguntamos a um casal que viajava numa carroça puxada por burro.
– Ah, são novato aqui, é?
Depois de muita conversa sobre a nossa vida, a vida deles, contaram como deveríamos fazer para chegar em Mirandiba. No final, o senhor olhou pra gente e disse: ‘tive muito prazer’; e a mulher nos deu uma benção: ‘Nossa Senhora da Guia leve vocês na mão de Deus’. Deveria ser só uma informação, mas ao indicar o caminho para a cidade, indicaram também o caminho para a minha vida. Naquele momento vi um vão, uma fresta por onde caminhar. Aquela era a arte que eu buscava, aquela era a poesia, o jeito de falar do povo do sertão. Aquela era a ética, o respeito, o belo, tudo o que buscava vislumbrei ali, de repente, naquela gente. Era aquele o Brasil que eu queria ver na tevê.” |
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Ruth de Aquino
Talento, esforço e pé na tábua
“Florear, trapacear é péssimo para uma reportagem. O resultado pode ser um texto estéril, que não toca especialmente a ninguém. A falsidade contamina as palavras e a pontuação.”
“Costumo relutar sempre que preciso escrever ou dar respostas sobre mim. Pode ser deformação da profissão. Perguntar é mais divertido. O jornalista é pago para explorar sua curiosidade mórbida pelo alheio. Ganha para ser testemunha, para ouvir e observar. Depois, contar uma história, com fim, meio e início. Contar escrevendo, e pensando que alguém vai ler... E se emocionar, ou se irritar.
O texto precisa ser sedutor e honesto o suficiente para levar alguém a deixar o pão queimar na torradeira. Quem disse isso foi Tomás Eloy Martinez, escritor e jornalista argentino. A honestidade talvez seja a única opção para quem deseja criar um texto jornalístico. Ernest Hemingway contou essa história no clássico Paris é uma festa. O escritor americano sentia-se bloqueado, sem inspiração e sem grana, passando frio e fome em Paris, quando percebeu que tinha caído na armadilha da pretensão. Escreva uma frase, apenas uma, dizia Hemingway a si mesmo, sobre algo que você conheça muito bem, algo em que você acredita, algo que não comporte uma mentira. O resto virá sem esforço. Não dá para fingir no momento do embate com a tela de computador ou a folha de papel. Florear, trapacear é péssimo para uma reportagem. O resultado pode ser um texto estéril, que não toca especialmente a ninguém. A falsidade contamina as palavras e a pontuação.
Nasci em Copacabana, assinei a primeira reportagem em 1974, e o jornalismo me levou à Europa, África, Ásia, América do Norte. E a São Paulo. Não fico me lembrando do que fiz nessas três décadas. Sou avessa à nostalgia profissional. Catalogar conquistas ou decepções me dá a sensação de ser mais velha do que sou. No jornalismo, o acaso, a sorte e os chefes competentes contam muito mais do que escolhas racionais. Mesmo com todo o estresse da profissão, os plantões de fim de semana, as viagens súbitas, os feriados inexistentes e os horários descabidos, meus dois filhos decidiram cursar Jornalismo, porque sempre tiveram a impressão de que eu fazia o que queria. É um bom sinal. Reclamei muito pouco da profissão.
O jornalismo foi fundamental nessa felicidade de equilíbrio instável, na corda bamba. A imprevisibilidade casou bem com o desejo de ciganear e desembarcar em realidades estranhas, onde é preciso despir-se rapidamente dos preconceitos para ser um jornalista razoável. O título da autobiografia de Ben Bradlee, o lendário editor do Washington Post na época de Watergate, soa perfeito, a meu ver: A Good Life. Uma boa vida. Para quem tem uma relação plena com o jornalismo, as lembranças que ficam são a adrenalina e a diversão.
Sempre me surpreendo quando um jovem repórter ou uma jovem editora me contam uma história sobre mim. Uma palestra minha que os inspirou. Uma orientação numa reunião de pauta. Algumas lendas, verdadeiras ou não, sobre atitudes, justas ou não, que tomei em diversos cargos de chefia. Às vezes nem me reconheço nelas. São histórias perdidas na névoa dos pescoções ou nas reviravoltas de edições, de primeiras páginas, de capas. A maioria eu já esqueci porque o que me importa mesmo é o presente. Acredito que só terei tempo de lembrar o passado quando ele não tiver mais utilidade para mim.
Nunca me especializei em nada. Mas fiz mestrado sobre ética em Londres. Cobri um ano de Fórmula 1 sem jamais ter escrito sobre esporte antes. Dirigi um jornal popular de banca após ser editora internacional de jornal de elite. Fui repórter, redatora, correspondente internacional, editora, diretora, trabalhei em rádio, jornais e revistas. Hoje, na revista Época, assino uma coluna semanal e sou redatora-chefe de hard news. O que significa “notícia quente”. Em Brasil, Política e Geral. Estar antenada cansa, mas costuma ser menos exaustivo do que remar contra a própria natureza. Por mais que tente, não consigo ignorar o que acontece na esquina ou no mundo. Nem deixar de refletir sobre os fatos.
Não me tornei cínica com a idade. Nem acho que o jornalismo seja necessariamente um exercício mais profundo de frustração, comparando com outras carreiras. Frustro-me, claro, quando não consigo fazer uma boa edição ou escrever um bom texto, à altura da história, dos fatos e das versões que compõem uma verdade.
Diante de um jovem repórter, ansioso em representar a verdade, logo após o fim da censura e da ditadura militar no Brasil, o craque das letras Armando Nogueira recomendou: “Prefiro que você se preocupe mais com as versões do que com a verdade”. Armando queria dizer que, diante de uma história polêmica, é sempre preferível ouvir com humildade todas as versões do que tentar retirar dali uma verdade suprema e única.
Se eu não fosse jornalista, me perguntam, o que seria na vida? Acho que eu seria menos feliz.” |
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Soninha Francine
Olha só a Soninha!
“No começo do meu trabalho no jornalismo esportivo, especialmente no futebol, a agressão mais leve que ouvi foi ‘volta para o tanque’. Nem liguei.”
“O que essa mulher está fazendo aqui, no meio do futebol?”
Soninha Francine fazia o que faz há anos: comentários esportivos na ESPN Brasil e reportagens sobre futebol. Ela não integra aquele grupo de loiras que, com freqüência, são colocadas na tevê como enfeites de programas esportivos. Nada contra. Acontece que Soninha – casada três vezes (a primeira, com 16 anos), mãe de três filhos – Rachel 23, Sarah, 21 e Julia, 10 – não nasceu para “enfeitar” nada, mas para atuar, agir, contestar, transformar. Ela é mais bonita fora do vídeo. Seu rosto limpo faz lembrar alguma coisa de Audrey Hepburn. Mas não se enganem: ela é uma doce fera que trabalha sem parar. Estudou num colégio de freiras politizadas e assim a “bombeirinha” não demorou muito para se tornar uma “incendiária” do bem, contra a miséria, a fome, a falta de ética. Trabalhou oito anos na MTV, foi professora de inglês na Cultura Inglesa, contra-regra no cinema (sua formação universitária). É budista.
Vejam só quem brinca com ela: Tutty Vasques, jornalista de verdade, esplêndido na arte do fino humor: “A coisa mais fofa da ESPN, Soninha deixou o ‘Saia Justa! na noite desta quarta-feira. Agora me diga: Dá para imaginar a Soninha sem saia justa? Coisa mais linda, né não?!”
Suas primeiras experiências no futebol foram recebidas com agressividade tosca, tipo “volta para o tanque” e daí para baixo. Os elogios também eram preconceituosos, na linha “que beleza uma mulher falando tão bem sobre futebol”.
Esse tipo de gente encontrou mais argumentos para “descer a lenha” em Soninha quando foi demitida da TV Cultura de São Paulo, onde comandava um programa diário, por falar que fumava maconha em uma reportagem publicada na revista Época. Sem muita chance para explicar que sua intenção não era estimular o consumo de drogas, mas discutir sobre ele, saiu. E ganhou a ESPN Brasil.
Antes de entrar na televisão, Soninha, formada em cinema pela USP, atuou como atriz amadora em várias peças. Uma delas, como Joana, papel principal da peça Gota d'Agua, de Chico Buarque de Hollanda, atuando junto com Laerte Mello, com direção de Robson Corrêa de Camargo. A performance recebeu o prêmio de melhor produção no Drama Festival da Cultura Inglesa, de 1984. Mas sabe o que ela queria ser? Cantora.
Muitos de seus admiradores prefeririam vê-la cantando do que, apesar de suas boas intenções, integridade, talento e ética, convivendo com o lamacento mundo dos políticos. |
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Mulheres de fibra também na Comunicação Corporativa |
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Maristela Mafei
A máquina Maristela
“A abertura da economia estava exigindo que principalmente as grandes corporações mudassem taticamente, não dava mais para ser aquela coisa fechada com a imprensa, com os consumidores, com seus funcionários.”
Ela é dona de uma entre as quatro maiores agências de comunicação do País, conclusão que dispensa aquela numeralha toda para confirmá-la (você vai entender por quê logo mais). A agência Máquina da Notícia, de Maristela Mafei, ex-repórter da Folha de S.Paulo, começou o trabalho “do outro lado da mesa”, como dizem os jornalistas, com a conta da Parmalat, no tempo em que assessor de imprensa era “aquele chato” que tentava glamurizar o que anunciava como pauta: o novo sabor de um iogurte, a nova linha de isso e aquilo, o inóspito executivo daqui e dali... Telefonavam sem parar para saber se a “brilhante idéia” emplacou. Como último recurso “ameaçador”, uns poucos tentavam vender a tal da pauta “exclusiva” diretamente aos superiores do repórter.
A Máquina, hoje Grupo Máquina, começou com a Parmalat e Maristela Mafei na metade dos anos 1990. Foi uma empreitada do “eu sozinha”. Ela conta que “ninguém quis ir comigo, ser meu sócio. Falavam que eu era louca”. Não era uma avaliação de todo incorreta quando ela afirma que “não tinha a menor idéia”. Maristela, então, mostrou que loucura pouca é bobagem. Agarrou seu primeiro cliente correndo todos os riscos com otimismo. A Parmalat, então patrocinadora do time do Palmeiras, aparecia muito porque estava no auge da campanha dos bichinhos de pelúcia. Um inferno para as mães, que corriam de um lado para o outro atrás dos tais bichinhos e quando o filho olhava o coelhinho já dizia: “mãe, por que você não trouxe o leão?”
Criança nunca se satisfaz, não dizem isso? Como uma criança exigindo a coleção completa da empresa, a ex-repórter da área de abastecimento da Folha de S.Paulo colocou o seu próprio leãozinho para fora. “Todos os manuais de economia me recomendariam para não fazer do jeito que eu fiz”. Todos os manuais estavam errados.
O Grupo Máquina é hoje uma agência de comunicação diversificada, com faturamento atual de R$ 26 milhões e 72 clientes. Tem conta da Ambev, da Sadia, do grupo Camargo Correia, Lojas Americanas... O trabalho vai das relações com o governo às cartilhas de recursos humanos, com relações públicas, análise de mídia.
Seria necessário um chamado folder (em português mediano significa um relatório que apresenta e explica a empresa) para mostrar como a agência de Maristela virou um grupo bem sucedido e estruturado em vários setores. Não basta ser jornalista, ter um bom texto e faro para notícia nesse negócio paralelo – e de alguma forma complementar – ao jornalismo tradicional, digamos assim. A palavra mais feia – porém a mais adequada – é “empreendedorismo”. Quem tem, tem, como Maristela; quem não tem... |
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Yara Perez
Jornalista executiva
“Eu sou a única sócia mulher”. E "eles" tratam bem você? "Tratam. Ou tratam bem ou tratam bem, não têm outra opção. Mas aqui não há esse problema. Meus sócios são muito éticos”.
A jornalista Yara Perez não é a atriz que gostaria de ser, seguindo o exemplo de sua avó, Manuela de San Esteban, que atuava em teatro amador. Mas dona Manuela se encheria de orgulho ao saber que sua neta é vice-presidente da CDN, maior empresa do setor de comunicação corporativa do País, responsável pela supervisão de contas e pela área de Treinamento da agência. Yara fez um grande passeio pelos caminhos do Jornalismo, de chefe de Redação da Rádio Canadá Internacional, em Montreal (*), a assistente do inesquecível narrador de futebol Osmar Santos. Passou por revistas femininas da Editora Abril, produziu e dirigiu programas jornalísticos de rádio e tevê. "Trabalhei no Palácio do Governo, com o bom e saudoso Franco Montoro”.
Foi em Brasília que ela conheceu João Rodarte, presidente da CDN, longe de imaginar que algum tempo depois se tornaria sua sócia. Um novo encontro com ele aconteceu três anos depois e Yara mudou de vida, passando a ser patroa. Migrou da militância de esquerda para uma atividade essencialmente capitalista, mas sem nunca ter perdido a essência: boa de briga, sempre que vê direitos ameaçados faz aflorar o seu lado guerrilheiro e se esquece temporariamente de seu lado empresarial, às vezes para desgosto e aflição de seus sócios do frágil sexo forte.
Na próspera CDN, agência que faturou em 2007 cerca de R$ 40 milhões, ponteando o setor, é responsável pela supervisão de contas e pela área de treinamento. "Eu sou a única sócia mulher daqui”. E "eles" tratam bem você? "Tratam. Ou tratam bem ou tratam bem, não têm outra opção”. Mas ela não tem esse problema: "Meus sócios são pessoas profundamente éticas e boas".
(*) Yara havia ido ao Canadá com o marido, o também jornalista Rodolfo Konder, perseguido e torturado pela ditadura militar. Tinha sido aluna dele no curso de Comunicação da FAAP. |
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Maysa Penna
Foi um rio que passou em minha vida
Seu jeito meigo e o sorriso nos lábios não deixam margem a dúvidas. Maysa, em ação, é um retrato fiel da famosa frase de Chê: “hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”.
A menina atrevida de 19 anos não se intimidou em começar sua vida de jornalista na porta de delegacias. Maysa Penna trabalhava no Diário da Noite. Sem juízo e sem medo, falava com delegados, policiais e bandidos. Num certo dia, a pauta era ir a determinada delegacia para entrevistar um estuprador que acabara de ser preso. Ela foi, acompanhada do fotógrafo e do advogado da empresa que, diante da insanidade da situação, deixou Maysa de lado, fez ao bandido violento as perguntas que ela queria. Maysa voltou à redação depois da bem sucedida empreitada e à primeira pergunta do chefe – e aí? – levantou a cabecinha travessa e disse “tá aqui”. Virou a mascotinha da redação.
Maysa tem boas histórias para contar. Achava Economia um fardo, mas foi parar justamente na editoria de Economia do Estadão, na época uma página apenas, depois do turfe. E não é que começou a fazer matérias de negócios – novidade absoluta – para se desviar do que não gostava? “Fui a primeira e escrever sobre isso”. Foi a primeira também a dar um susto em todos ao entrar na redação de calça comprida vermelha, camiseta verde, sabe-se lá o quê nos pés.
A seu único filho, Klaus, hoje com 18 anos, meio que isolado e meio por baixo na escola porque sua mãe, ao contrário das outras, sempre estava trabalhando na hora da saída, deu um show. “No auge da culpa”, ela conta, tirou cópias e mais cópias de suas reportagens assinadas, que foram parar mãos dos amiguinhos de Klaus. “Ele virou herói na escola”, diz.
Maysa Penna, a mãe que chorou ao ver o filho virar herói na escola, é sócia de Claudia Rondon na RP1 Comunicação. |
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Voice
Quarteto da Harmonia
Ana Regina Bicudo é a “voice” da Voice, agência de comunicação institucional criada há 20 anos pela jornalista Norma de Souza Alcântara. No quarteto, Beth Guaraldo e Márcia Leite aceleram os tamborins.
Ana Regina é a “anfitriã” da agência. São mais três sócias: Norma, a fundadora e diretora, Beth e Márcia, todas a driblar diariamente o dito popular de que um é pouco, dois é bom, três é demais e quatro ... Não é uma mega-agência, mas tem o trunfo de passar a imagem de que tudo ali é conduzido no estilo “feito a mão”. Uma butique. Anos atrás, essa “butique” fez um trabalho memorável para o Club Mediterranè – sempre com Ana Regina dando “o tom da festa” com discrição sob medida para o sucesso do evento. Não por acaso, também sócia-diretora, dirige a área que responde pelas ações de relações públicas dos clientes. Até o endereço combina com a agência: rua Harmonia, na Vila Madalena.
O quarteto funciona como o nome da rua em que atua. Norma – empenhada neste momento em escrever o livro dos 20 anos da Voice –, cuida de projetos de posicionamento e alinhamento de comunicação, e do Comitê de Prevenção e Administração de Crises da agência; Beth, quase 30 anos de experiência (boa parte em comunicação digital), comanda a área de Conteúdos & Novas Mídias; Márcia, do Planejamento Estratégico. E Ana Regina, ex-executiva de comunicação da Embratur e da Paulistur, cuida da “voice” da Voice. |
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Elas, por eles
Ricardo A. Setti
Sem chiliques ditatoriais e exibições humorísticas do poder, Ricardo Setti é considerado “o melhor chefe de nossas vidas” por dez entre dez jornalistas (homens também) que tiveram o privilégio de trabalhar com ele – e não para ele. |
Benza Deus!
“Sou daqueles que acreditam que você só se torna um bom jornalista se, entre outras circunstâncias, tiver mentores, aqueles chefes que, profissão afora, orientam, ensinam, dão bronca e, sobretudo, inspiram.”
“Tive o privilégio – benza Deus! – de trabalhar com mulheres desde o começo, já longínquo, de minha carreira. Comecei cedo, com 18 anos, e hoje, aos 61, posso dizer que vi, com prazer, a profissão passar de machista, quase misógina, para uma daquelas em que as mulheres mais se aproximam da plena igualdade com os homens, embora ainda considere um absurdo haver tão poucas mulheres nos postos principais de mando de grandes veículos e empresas de comunicação.
Trabalhei com mulheres na condição de colega, na de subordinado e na de chefe. Vivi, entre muitas outras, a riquíssima experiência de chefiar dezena e meia de mulheres jornalistas muito categorizadas – diretoras de Redação – durante quase dois anos, na qualidade de diretor Editorial das revistas femininas da Editora Abril.
Tal como se deu na profissão com a crescente presença feminina, também me beneficiei enormemente desse convívio ao longo dos anos. Aprendi muito – a dar valor à intuição, a aprimorar a sensibilidade e a admirar a seriedade, a aplicação, a inteligência e a coragem das colegas de redação em diferentes veículos. Sim, coragem: entre muitos casos, lembro o de uma repórter, subordinada a mim no Jornal do Brasil em São Paulo, que no exercício de seu (bom) trabalho recebeu de um político muito conhecido a proposta indecorosa e obscena de tornar-se sua amante em troca, entre outras supostas vantagens, de "um apartamento montado". Profissional correta, mãe de filhos, ela voltou para a redação humilhada, desabafou comigo chorando – infelizmente não tínhamos prova para processar o canalha – mas, dias depois, fez questão de apresentar-se a uma coletiva do mesmo político, por considerar seu dever.
É claro que, como sempre acontece, nem tudo foram flores. Invariavelmente defendi as mulheres profissionais contra clichês machistas, mas considerava golpe baixo certas atitudes como, por exemplo, uma subordinada recorrer ao choro depois de receber reparos, civilizados e procedentes, a seu trabalho. Também confesso que me horrorizei, como diretor das Femininas da Abril, diante de uma ou outra diretora de revista que se revelava indignada com a gravidez de alguém de sua redação.
Sou daqueles que acreditam que você só se torna um bom jornalista se, entre outras circunstâncias, tiver mentores, aqueles chefes que, profissão afora, orientam, ensinam, dão bronca e, sobretudo, inspiram. Não cabe a mim dizer se me tornei um bom jornalista. Mas quero assinalar que, entre meus grandes mentores, contáveis nos dedos de uma só mão, figura uma mulher: Dorrit Harazim, minha chefe em Veja, em duas diferentes situações, por quase seis anos. Sem ter compartilhado tarefas com Dorrit e testemunhado a cada dia seu talento, sua tenacidade, sua imensa capacidade de trabalho, sua ética e, sobretudo, seu rigor eu não seria o jornalista que sou nem teria chegado onde cheguei na carreira.
É algo que compensa, de longe, o fato de que a maior punhalada pelas costas que recebi na vida profissional tenha vindo de uma mulher. Mas nesse caso tratava-se de problema de caráter, e não obviamente de gênero.
Para finalizar, como não ver com especial apreço as mulheres no jornalismo, tendo uma filha – Adriana Setti – jornalista e, modéstia à parte, trabalhadora e talentosa, que tanto orgulho me dá?” |
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Ari Schneider (*)
Competência é fundamental
Ari Schneider é daqueles que inspiram e encantam por sua inteligência, atitudes e talento profissional. Cativa sem esforço. Não levanta a voz. E que não se duvide de sua capacidade de enfrentar e vencer desafios e de sua lealdade com a profissão e com aqueles que com ele um dia trabalharam. |
“Os feios que me perdoem, mas competência é fundamental. Por isso, cada vez gosto mais de trabalhar com mulheres. Ao menos no jornalismo, são tão competentes quanto os homens, com vantagens. Para começar, são organizadas e disciplinadas quanto a prazos, horários de fechamento, pontualidade, coisas desse tipo. Esforçadas. Cuidadosas. Atentas. Leais. Solidárias. Na imensa maioria têm bom astral, nem TPM as abala. E ainda por cima são bonitas. Nem precisariam”.
(*) Editor de projetos especiais do Estadão |
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Juca Kfouri
O vovô Juca, corintiano, não pisa na bola quando fala de mulheres e, dizem, fez muitos gols trabalhando com elas em sua carreira jornalística. |
Para Julia e Luiza
Não é recomendável fazer qualquer insinuação de que Juca Kfouri, gentil, elegante jornalismo, é um lorde – mesmo que a instituição inglesa venha em português. Ele é tão zeloso com o idioma que fala “sítio” em vez de site.
Chamá-lo de cavalheiro me parece antigo, dos tempos do meu avô Ignácio, português, louco por mulatas, que morreu insistindo para que eu fosse a Batalha, cidadezinha onde nasceu. Cumpri a promessa e conheci a linda vila portuguesa com menos de 20 mil habitantes. Seja o que for, Juca Kfouri é Juca Kfouri, jornalista de longa carreira, quase sempre ao lado de mulheres – muitas jornalistas. “Nunca tive problemas de convívio com elas”, diz o avô supercoruja de Julia e Luiza, hoje talvez as “mulheres” mais importantes para esse jornalista que não se deixa emudecer com os inúmeros processos que enfrenta por conta de suas denúncias sobre a vida bandida dos bastidores do futebol.
A ética de Juca rendeu uma indicação ao Prêmio Esso de Jornalismo à revista Placar, então por ele dirigida. Foi em 1982, quando organizou uma reportagem que denunciava a chamada "Máfia da Loteria Esportiva", na qual jogadores eram comprados por apostadores a fim de garantir que os resultados dos jogos da loteria fossem aqueles em que haviam apostado. A reportagem, feita por Sérgio Martins, deslanchou uma enxurrada de ameaças em telefonemas anônimos a Juca. O trabalho dele sempre priorizou o viés investigativo no esporte, coisa que havia sido feita por poucas vezes na história da imprensa esportiva brasileira. Ele trabalha muito – e muito bem -- na ESPN Brasil e ESPN internacional, na rádio CBN, é colunista e tem um blog no UOL que já ultrapassou a marca de 30 milhões de visitas.
Mas suas encrencas são sempre com homens que estão dentro ou fora do campo de futebol – gente que ele não poupa quando ultrapassa a linha da lisura. Com as mulheres – exceto uma que não vale a pena lembrar –, ele foi diretor da revista Playboy, que sempre trouxe ótimas entrevistas, mas, imagino, mais ou menos vendidas conforme a mulher da capa. Não dá para esquecer um filme de Woody Allen em que este, para disfarçar, comprou tudo o que encontrou pela frente numa banca de jornais e revistas em Nova York e, no último minuto, fingindo que já saía da banca, lembrou-se de comprar a Playboy com uma cara de desinteresse de quem parecia estar comprando uma revista de 200 páginas sobre os prédios mais altos do mundo.
Neste 8 de março, Juca, tudo isso cai para a segundona, porque a taça agora vai para Julia e Luiza. |
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As chefas
Faz tempo que a dobradinha jornalistas mulheres-economia dá certo. Tão certo que algumas delas se tornaram “chefonas” de alguns dos mais importantes veículos do setor. |
Nem mais, nem menos. Apenas diferentes
Vera Brandimarte, diretora do Valor Econômico, viu nascer, crescer e se consolidar um projeto ambicioso da parceria O Globo/Folha de S.Paulo. Sob o comando de Celso Pinto era difícil errar e não demorou para que “o jornal de economia” se tornasse referência importante para leitores “especializados”, empresários, analistas, governo. Vera assumiu a direção quando Celso teve de se afastar por problemas de saúde. Ela não é nenhuma “doçura” de chefe, dizem alguns de seus subordinados, mas que não duvidem de sua competência. A primeira edição do Valor foi lançada em 2 de maio de 2000 e não é preciso muita pesquisa para perceber que o jornal conquistou novos leitores, jovens, universitários e universitárias, além de ter seduzido leitores de seus concorrentes – o que não é pecado, longe disso, quando se faz com ética e competência. O jornal ganhou diversos prêmios nos últimos anos.
Vera parece ter tomado gosto pelo papel com palavras impressas bem pequenas. Veja só: aos seis anos, já alfabetizada, lia diariamente os editoriais do Estadão para seu avô que, vítima de diabetes, perdeu a visão. “Não entendia patavina do que estava lendo, mas não perdia a entonação, obedecendo cuidadosamente os sinais de pontuação. (*)
Sandra Carvalho, diretora do Núcleo de Tecnologia da Editora Abril, formado pelas revistas, sites e eventos da marca Info, é de uma competência indiscutível. Escreve bem, pensa bem, parece incansável. É uma diretora disciplinada e disciplinadora. Foi com ela que a atual diretora de Redação da Exame, Claudia Vassallo, deu seus primeiros passos. Desde que saiu do Curso Abril em 1992, Claudia nunca esteve em outra revista. Pelas mãos de Paulo Nogueira, então diretor de Redação, hoje diretor Editorial da Editora Globo, ela começou como colaboradora na redação e hoje comanda uma equipe de praticamente 50 pessoas. Leitora das revistas Fortune, americana, e The Economist, inglesa, defende o que provavelmente foi uma das primeiras lições que aprendeu: a cobertura de economia e negócios não precisa ser chata, muito presa aos dados oficiais do assunto.
Ocupe o cargo que ocupar, Cida Damasco é sempre ela, divertida, competente, capaz de resolver problemas repentinos sem demonstrar o menor sinal de estresse. Parece sempre saber que, no final, tudo vai dar certo. Como é que Cida consegue tão grande serenidade quando “o circo pega fogo”? Só a experiência explica. Poucas jornalistas tiveram oportunidade de trabalhar no saudoso NP, apelido de Notícias Populares, polêmico demais, abusado, zero de restrição. Cheio de gírias, matérias de sexo e violência em textos curtos e fotos grandes. Vendia como pipoca, 110 mil exemplares. Que sorte de Cida ter começado por lá, como copidesque. O jornal do grupo Folha fechou, a função de copi acabou, e logo depois Cida começou a sua decolagem para a Economia. Trabalha hoje como editora do caderno de Economia&Negócios do Estadão. Salve Cida!
Márcia Raposo, paulista de Pariquera-Açu, trabalha há cinco anos no jornal Diário Comércio e Indústria, o DCI, do ex-governador Orestes Quércia. Só na Gazeta Mercantil ficou exatos 23 anos e oito meses. A mãe dela, dona Lúcia (**), olhou meio torto, antes de rezar e depois de falar que nunca tinha ouvido falar naquele jornal. Mas foi ali que sua filha se atirou de corpo e alma. Trabalhou em várias áreas, “menos finanças”, diz com gratidão que aprendeu muito com seus chefes – Roberto Müller Filho, Matías Molina e Sidnei Basile. E, menção não menos honrosa, Getúlio Bittencourt, a quem sucedeu há poucas semanas na Diretoria de Redação do DCI. A carreira de Getúlio sempre foi muito bem sucedida e teve um momento marcante: ele caiu na boca do povo (e ganhou um Prêmio Esso) quando ouviu do último presidente da ditadura militar, João Figueiredo, a frase mais estúpida que a cabeça dele, Figueiredo, igualmente estúpida produziu: “Prefiro o cheiro de cavalo ao de povo”. Foi no lugar de “Getulinho” que Márcia assumiu a direção do DCI.
Criou seus dois primeiros filhos (o terceiro ainda não era nascido na época) sob a mira dos sucessivos pacotes econômicos de alguns anos atrás. “A mãe vem de madrugada hoje porque saiu mais um pacote”, ela conta que diziam Gustavo e Beatriz (“linda, linda mesmo e não é conversa de mãe”). Fabrício, de apenas 10 anos, para sua sorte, só conhece pacote de presente. E como é a doce mãe no papel de “chefa”? “Sou muito chata e exigente”.
(*) Texto do livro Jornalistas Brasileiros/ Quem é quem no Jornalismo de Economia, de Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal.
(**) Dona Lúcia faleceu recentemente. |
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Um passeio pelas mulheres de Rio, Brasília, Minas e Bahia |
Rio de Janeiro
Se as cidades tivessem gênero, o Rio seria classificado como uma cidade feminina. Muito já foi dito a esse respeito, e todos começam por lembrar as curvas da paisagem. No jornalismo, aqui, talvez fosse mais apropriado considerarmos as curvas que formam o desenho do cérebro das muitas mulheres que se destacam nesta profissão. |
Redações equilibradas em gênero e presença forte da mulher
Por Cristina Carvalho
A Rede Globo tem o maior número de jornalistas contratados do Rio, e, deles, 270 são mulheres. O número sobe para 573, se considerarmos as sucursais de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Recife. Estão distribuídas por quatro departamentos, as chamadas Centrais – de Jornalismo, Produção, Comunicação e Pesquisa – além da Globo.com. E representam 43,7% do total, diante dos 56,3% de homens.
Nesse conjunto, destaca-se Alice Maria, diretora da GloboNews. Nem mesmo sua insistência em se manter nos bastidores, pois é avessa a entrevistas e fotografias, evita o fato de ser constantemente lembrada entre os grandes nomes da imprensa brasileira. Alice entrou na emissora como estagiária em 1966, participou da criação do Jornal Nacional, do qual foi editora-chefe; deixou sua marca no Hoje, Jornal da Globo e Bom Dia Brasil, e em programas jornalísticos como Fantástico, Globo Repórter e Globo Rural. Esteve afastada da casa durante seis anos e voltou em 1996, para a implantação do projeto da GloboNews, pelo qual responde até hoje.
As grandes redações de impressos do Rio, medidas pelo volume da contribuição sindical, são a da Infoglobo, seguida de O Dia. Em O Globo, a sede no Rio e mais as sucursais de São Paulo e Brasília, têm, somadas, um número equilibrado: as 165 mulheres são 45,5%, contra 54,5% de homens. Vale ressaltar a presença de Helena Celestino entre os três editores-executivos. E dos cinco editores do que chamam de “cabeça do jornal”, três são mulheres: Sílvia Fonseca, na Política, Cristina Alves, na Economia, e Sandra Cohen, na Internacional. Restam para os homens a Rio e o Esporte, este último um bastião inexpugnável do machismo, na definição do diretor de Redação Rodolfo Fernandes.
Na redação do Extra, contando com o compacto Expresso, 46 mulheres respondem por 37% do total, contra 63% de homens. Os destaques são Vivianne Cohen, editora responsável pelo Expresso, e Denise Ribeiro, editora da Geral do Extra, área tradicionalmente masculina, ainda mais nos populares. Denise está no jornal há dez anos, desde a fundação, e diz de seus comandados: “A maioria é de homens, e eles são grandes companheiros”. Sua formação é de repórter de Polícia, área em que trabalhou por dez anos, e vê aí desvantagem em ser mulher: “Acho que dificulta um pouco na carreira, de uma forma geral. Preocupam-se com a roupa que você usa, as fontes com quem você fala, mais do que com a matéria que você escreve.”
No grupo O Dia – cujas donas são mulheres e uma delas, Gigi Carvalho, ocupa a Presidência – a redação é 60% masculina e 40% feminina, com 98 mulheres. A editora-executiva Ana Miguez, que divide o posto com um homem, conta com um trio de editoras de Produção exclusivamente feminino: Cláudia Cecília, Elaine Gaglianone e Karla Prado. O tablóide Meia Hora ainda é um reduto masculino. Mas no Esporte Marluci Martins é quem dá as cartas no blog de futebol do online. Márcia Disitzer, 14 anos de profissão e o mesmo tempo em O Dia, passou por várias fases do jornal. Hoje é a editora do caderno de comportamento D Mulher, área feminina por excelência, e comenta sua condição: “Ser mulher é o máximo; seria infeliz se tivesse nascido homem. Sou vaidosa mesmo, gosto de batom e salto alto”. Mesmo acreditando que, hoje em dia, as mulheres transitem bem em todas as áreas, com reduzida diferença de gênero no tratamento dispensado, ela acha que ainda falta à mulher chegar ao poder. E espera que, ao chegar, consiga preservar a doçura.
O escritório da Editora Abril, a quarta maior redação do Rio, abriga a sede da Vejinha e as sucursais de Veja, Exame, Contigo, Ana Maria, Minha Novela, Tititi, Viva, Sou+Eu, Casa Cláudia, Estilo e parte da MTV. Ali, as mulheres são maioria: 58%, para 42% de homens. Lucila Soares, chefe da sucursal de Veja, lembra sua origem de repórter e editora de Economia, área que costuma contar com muitas mulheres, a quem todos em volta sempre se referem como “as meninas da Economia”. (O tratamento que infantiliza a figura da mulher seria carinhoso ou um ranço machista?) Apesar de, em sua carreira, nunca ter tido qualquer sinal de que a condição feminina influenciasse para facilitar ou dificultar o trabalho em si ou as promoções que dele decorrem, Lucila acredita que, no jornalismo, o que ainda falta conquistar não é muito diferente dos outros setores: os altos cargos. “Há muita mulher em cargo de chefia, mas quando começa a ascender a hierarquia, são bem poucas”, diz. Porém, reconhece que, nas grandes empresas jornalísticas, há mecanismos de gestão em constante aperfeiçoamento e a questão quantitativa torna-se cada vez menos importante. “É a linha da história se desenrolando”, comenta sobre os muitos avanços já obtidos. E avalia o desempenho das mulheres ressaltando a forte presença feminina: “Na nossa profissão isso é bem marcante, noto nas minhas colegas. As mulheres em geral têm um rigor profissional, uma sensibilidade jornalística, um faro que conta muito. Rigor, detalhismo e sensibilidade são o tripé”.
Reduto feminino? Pois saibam que na Comunicação Corporativa “não há lugar para mulherzinha”
A Comunicação Corporativa, no Rio, caracteriza-se por ter algumas de suas principais agências comandadas por mulheres. Um comentário de Luciana Gurgel, da Publicom, reflete essa realidade não apenas na direção das empresas como na composição das mesmas: “Coisa curiosa, a presença feminina é maior no Rio do que em São Paulo. Não só pelas contratações, mas pelas entrevistas e currículos que chegam, como um padrão de comportamento na área de Comunicação.”
Neste plantel, algumas qualidades aparecem com mais freqüência: “A mulher tem a capacidade de se concentrar em muitas coisas ao mesmo tempo, como a casa e os filhos, e leva isso para o trabalho. Respeita cada momento,” avalia Beth Garcia, da Approach. O que Carina Caldas de Almeida, da Textual, resume: “É muito boa em organização e processos”. Luciana concorda: “A mulher tem organização, método. Nesse ponto, meu lado feminino de saber ‘arrumar a casa’ conta”. E Kiki Moretti, da InPress Porter Novelli, acrescenta: “Sou avessa a rótulos. O que vejo de diferente é que a mulher tem algumas habilidades: detalhista, persistente, carregadora de piano. Tem mais capacidade de entrega. É capaz de planejar, ser estratégica e executar com a mesma firmeza. São perfis mais completos de profissional.”
Tanto na InPress como na Approach, as mulheres respondem por 90% da equipe. Forte nas contas da área do Esporte, a Textual não registra a mesma tendência: “Até alguns anos, tínhamos um time predominantemente masculino. Foi preciso equilibrar, e hoje talvez sejam 60% de homens para 40% de mulheres. Uma combinação genial das maneiras diferentes de ver o mundo”. E na Publicom: “Procuramos balancear. Acho que fica um ambiente muito mulherzinha. Isso muda quando tem homem na equipe”.
Em alguns momentos, é difícil ser mulher, e isto aparece, de maneira quase unânime, no contato com o cliente. Elas reconhecem, e reagem para reverter a situação. “A sociedade ainda é machista. Em algumas situações, algumas reuniões, a gente sente que o cliente estaria mais confortável se fosse um homem falando, para discutir certas coisas. Mas não vou fazer discurso. Nunca me senti mais frágil por ser mulher. Nunca me coloquei assim”, diz Kiki Moretti. Carina Almeida faz eco: “Ainda enfrento resistências ao comandar a empresa, por ser mulher. Apesar de estar melhor do que alguns anos atrás, a mulher tem que provar muito sua capacidade, para que o tomador de decisão a aceite. Ao aparecerem as vantagens de um comando feminino, isto se dilui”. Luciana Gurgel especifica as situações em que isto ocorre: “Já houve casos de clientes em que percebi que o fato de ser mulher inspirava menos confiança. Lidamos muito com crise, seqüestro, polícia, é natural que o cliente imagine que um homem vá se sair melhor. Mas isso é contornável e reversível, quando você demonstra segurança. Em nenhum caso esta situação permaneceu.”
Tudo tem seu preço, e as mulheres bem sucedidas avaliam o que ganharam e perderam com o esforço exigido para chegar lá. Diz Beth Garcia: “Me lembro de uma cena. Voltando do trabalho, à meia-noite, passou uma menina linda, de bicicleta, vindo da praia. Parei no sinal e comecei a chorar. Estava exausta”. Depois dessa fase, ela pôde curtir os gêmeos, hoje com quatro anos: “Montei a Approach ainda muito nova. Esperei para ter os filhos com mais maturidade e tempo. Então, pude me dar seis meses de licença-maternidade”. Na maioria dos casos, porém, o que existe são mulheres divididas, como conta Luciana Gurgel: “Isso é o que mais me chama a atenção: a funcionária pede para ir a uma reunião na escola dos filhos com o maior constrangimento. São escolas caríssimas, de mães que trabalham para ter seus filhos lá, e marcam horários difíceis para elas. Por ser mulher, tenho sensibilidade e mantemos na Publicom um esquema flexível. Mas a família cobra, a própria mulher se cobra, vejo o quanto elas sofrem”. Carina Almeida, da Textual, acredita que os filhos de hoje já nascem com esse ritmo e o jeito é aproveitar o tempo junto da melhor maneira possível, e propõe ainda: “Profissionalmente, a mulher já conquistou respeito, credibilidade e acesso. Hoje precisa equilibrar melhor outras atribuições e demandas femininas, nos relacionamentos, na saúde e beleza. Não há mágica: se um lado sobressai, fica com um peso grande demais”.
Essas mulheres assumem sem constrangimento a importância dos homens em suas vidas profissionais. Ao contrário das jornalistas de redação, que seguem trajetória independente mesmo quando casadas com colegas de profissão, as empreendedoras tiveram e têm nos maridos um forte ponto de apoio. Algumas das maiores empresas foram fundadas por um casal, mas até Beth Garcia, que viu a carreira deslanchar antes que Sérgio Pugliese deixasse o trabalho, também bem sucedido, em O Globo, para se associar a ela, reconhece: “Quando comecei a Approach, existia preconceito dos jornalistas de redação contra assessoria. Sérgio veio quatro anos depois, e para mim foi um alívio. Não teria conseguido estruturar o negócio, crescer, sem ele. Me deu impulso e confiança. Eu estava no limite, à beira de uma estafa, ele viu que eu me desdobrava, sem poder atender à demanda. Em momento algum pedi, foi uma decisão dele, que me surpreendeu na época”. Há quem traga da infância o gosto pela profissão, como Carina Almeida. Filha do fotógrafo Evandro Teixeira, ela cursou simultaneamente Jornalismo e Economia. Na hora de optar, essa influência fez a diferença, ainda que de cunho emocional: “Aquela redação glamurizada, que eu via com meu pai quando era pequena – de grandes coberturas, viagens, aventuras –, hoje está muito diferente”.
Quando pensam no que falta conquistar, as mulheres vão do otimismo ao inconformismo, passando pelo meio-termo. Luciana Gurgel está no primeiro grupo: “Não vejo problema de aceitação. A formação é idêntica. Não vejo diferença de salário, como ocorre em outras áreas. Na Comunicação, a mulher sai muito bem na foto. Demorou para chegar onde está, mas, em comparação com outras profissões, talvez em poucas as mulheres estejam tão bem posicionadas”. Já Beth Garcia tem restrições: “Existe o reconhecimento da capacidade profissional, mas criou-se o estigma de que a comunicação é uma área mais feminina. Nos segmentos de mentalidade mais antiga, vemos casos de falta de respeito profissional, de sedução descabida. Misturam às vezes os papéis. Na política, por exemplo, é preferível ter um homem no atendimento”. E Kiki Moretti desabafa: “Até o Dia da Mulher eu acho uma bobagem. Quem tem dia especial é minoria; os homens não têm seu dia. É preciso ter nítido na cabeça que as mulheres não são minoria, estão aí de igual para igual. E, para isso, a primeira coisa que a mulher precisa conquistar é a convicção de ser igual”.
Não faltou a Kiki convicção para enfrentar uma situação-limite, quando Ivandel Godinho, seu marido e sócio da empresa, foi seqüestrado e morto em 2003. Ela relembra o momento: “Quando aconteceu aquilo, juntei todas as mulheres da InPress. Não havia homens naquela reunião. Disse a elas: aqui não tem lugar para mulherzinha, somos mulheres de fibra”. São todas.
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Brasília
Em Brasília, há cada vez mais esmalte adornando as unhas dos dedos que pressionam os teclados nas redações. Mais batom nas bocas que anunciam as notícias pelos microfones de rádios e tevês. E, principalmente, mais vozes femininas comandando jornais, assessorias e emissoras da Capital Federal. |
Planalto rosa-choque
Por Katia Morais
Essas profissionais que ocupam cargos de chefia não vestem Prada e estão longe de encarnarem a figura diabólica e esnobe representada por Meryl Streep no bem-sucedido longa metragem hollywoodiano sobre os bastidores de uma revista de moda. São mulheres batalhadoras, e, não raro, acumulam a tarefa de organizar a redação com a de organizar o lar e educar crianças – a chamada dupla jornada, que também atinge as profissionais sem cargos de chefia.
Nas principais redações de Brasília, essencialmente nas emissoras, que inclui as do jornalismo no setor público, é exatamente a mais jovem entre elas que hoje emprega, em termos proporcionais, o maior número de mulheres – a TV Brasil. A emissora, comandada por Teresa Cruvinel e Helena Chagas, respectivamente presidente e diretora de Jornalismo, conta com 61 jornalistas, dos quais 74% são mulheres. Destas, 47% estão em cargos de chefia, no Jornalismo, na Produção, nas editorias de texto e na Reportagem. A TV Justiça vem em 2º lugar, com 68% de mulheres na redação, a imensa maioria (86%) em cargos de chefia. Em 3º ficou a TV Globo, que tem a diretora Sílvia Faria à frente de 95 jornalistas na sucursal candanga – 64% são mulheres, das quais 44% ocupam cargos de comando.
Em termos absolutos, a Câmara e o Senado estão entre os órgãos que mais empregam jornalistas mulheres na cidade, grande parte procedente dos concursos públicos realizados desde 1997. Juntas, as duas casas legislativas empregam 128 mulheres, de um total de 261 profissionais. A Câmara é a que mais emprega mulheres no Jornalismo. Por lá, atuam 70 profissionais, de um total de cerca de 130 jornalistas. Há 21% de mulheres em cargos de chefia, incluindo as diretoras dos veículos da Casa: Jornal, Agência e TV Câmara, além da Coordenação de Jornalismo, que também é comandada por uma mulher. Já o Senado tem quatro diretoras: a de Jornalismo; a da TV, mais a adjunta; e a da Agência Senado. Num universo de 131 jornalistas, há 73 homens e 58 mulheres.
Elas também marcam presença nas redações dos jornais. O Correio Braziliense, principal representante da cidade, tem Ana Dubeux como editora-chefe. Em termos quantitativos, o diário é um dos que mais emprega na região. São 133 jornalistas, dos quais 57 mulheres (43%), 14% delas em cargos de chefia. Na sucursal do Valor, destaque para a diretora-adjunta Cláudia Safatle e para a chefe de Redação Rosângela Bittar. As duas comandam 17 funcionários, sendo 12 homens e apenas cinco mulheres, um dos raros casos em que elas estão em minoria.
Vale também registrar que algumas profissionais marcaram época em Brasília – como Ana Tavares, secretária de Imprensa da Presidência da República ao longo dos oito anos do governo FHC; Sônia Carneiro, notável repórter da Rádio Jornal do Brasil, que coordenou a sucursal de Brasília por quase 20 anos; e ainda Marilena Chiarelli, uma das pioneiras da reportagem política na TV Globo local.
"Carregando pedras e plantando flores"
É da poeta Cora Coralina a frase citada por Ana Dubeux – 26 anos na profissão, dos quais 13 no Correio Braziliense e cinco no atual cargo de editora-chefe – para abrir seu depoimento. Ela considera que já existiu mais preconceito contra as mulheres: "Nunca me senti acuada na redação por ser mulher. Talvez tenha participado de um período mais leve. De uns 20 anos pra cá começou a haver uma mudança nesse quadro, mas não significa que o preconceito não exista – e existe bastante", acredita. Diz que nunca deixou de fazer matéria porque um homem poderia fazer melhor. "E olha que comecei cobrindo futebol! Eram uns cinco homens na equipe, e eu não podia entrar nos vestiários. Trabalhava junto com outra colega, que hoje é diretora de Redação", recorda. Diz que hoje as mulheres trabalham mais à vontade nessa área. Cita que no Correio, por exemplo, a repórter Cida Barbosa, que cobre futebol, foi a única representante do jornal a cobrir a Copa de 2006. "Já conseguimos queimar muitas etapas, as redações estão cheias de mulheres em todos os setores, mas o mercado deveria absorver mais delas em cargos de chefia", afirma, lembrando que as dificuldades que enfrenta na vida são as de toda mulher. "É uma pauleira enfrentar o dia-a-dia para conciliar o trabalho e a profissão. Tenho dois filhos e tento estabelecer algumas regras, como, por exemplo, levá-los e buscá-los no colégio, antes de vir para o jornal, além de acompanhar as tarefas de casa".
“Repórter da editoria de Escândalos"
Sônia Filgueiras, repórter especial de Política da sucursal de O Estado de S.Paulo, sempre esteve envolvida com números e denúncias, e costuma adotar a frase ao definir sua função nas redações. Com 20 anos de reportagem, foi setorista no Palácio do Buriti e no Banco Central, pela Radiobrás. No Jornal do Brasil, escrevendo para Seu Bolso, não conseguiu se distanciar do banco. "Não queria me casar, nem ter filhos. Só queria saber de trabalho. Claro que eu tinha namorados, mas, coitados, ficavam um pouco às traças", diz ela, bem-humorada. Sônia garante que nunca sofreu preconceito ou enfrentou dificuldades para exercer a profissão por ser mulher. "Se enfrentei, nem percebi", comenta. Mas admite que as coisas complicam quando se trata de conciliar o trabalho com a vida pessoal. Nos últimos anos, logrou dar alguma previsibilidade à sua rotina familiar. Pelo menos três vezes por semana vai buscar o filho no colégio. Mas, com freqüência, quando chega em casa ele já está dormindo. "Quase nunca ter a chance de colocá-lo para dormir é algo que me entristece muito. Procuro compensar essa ausência com um final de semana prazeroso. Mas, acima de tudo, não permito que meu filho tenha qualquer dúvida a respeito do imenso amor que sinto por ele", completa. Sônia menciona o período crítico em que se dedicou ao mestrado na UnB, defendendo tese sobre a autonomia do Banco Central. "Tive que tirar férias e continuar indo à redação, me instalando em um cantinho da sala. Foi infernal, mas valeu a pena", confessa. Quanto às dificuldades enfrentadas na profissão, não tem dúvidas: "Acho que, de maneira geral, o mundo ainda é dos homens. Mas não me preocupo muito, porque, no final das contas, o que nos dá firmeza é a qualidade do trabalho".
Dificuldades e preconceitos
Helenise Brant, 23 anos de profissão, está na Radiobrás desde 2003. Começou a carreira na Rádio Globo de Belo Horizonte, onde passou por todas as funções. Implantou a CBN mineira, antes de vir para Brasília reestruturar a CBN local. Chegou a abrir uma produtora de rádio no DF e a atuar nos ministérios da Educação e de Ciência e Tecnologia, até aceitar convite de Eugênio Bucci para trabalhar na Radiobrás, onde acumula, atualmente, a Direção de Jornalismo do órgão com a Gerência-Executiva da TV Brasil. Helenise admite que passou por muitas dificuldades e preconceitos por trabalhar em rádio. Conta que precisava se impor, não só como profissional, mas como mulher, mostrando sua qualidade humana nas reuniões de trabalho, onde não raro era a única representante feminina. "Isto foi muito marcante para mim. Hoje é diferente, é mais sutil, mas ainda há muito machismo", lamenta. Para ela, as mulheres ainda são minoria em postos de comando nas redações. "Se elas têm desempenho igual ao de um homem, não há motivo para não ocuparem os cargos de chefia mais elevados". Mineira que acabou se fixando em Brasília, Helenise não vê problemas em conciliar a vida familiar com o trabalho. "Eu trabalho muito, e cuidar da vida pessoal é só mais um trabalho". |
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Minas Gerais
Substituta de Ana Cecília Rezende, correspondente de Jornalistas&Cia em Minas Gerais, atualmente em férias, Cristina Fonseca, da Link Comunicação, de Belo Horizonte, traçou os perfis de duas profissionais de redações mineiras, que aqui representam as jornalistas das Alterosas. |
Habilidade e sensibilidade
Por Cristina Fonseca
Maria Eugênia Lages enfrentou uma série de dificuldades para demonstrar suas qualificações como jornalista, principalmente quando foi promovida a secretária de Redação do Hoje em Dia, em 1996, cargo em que está até hoje. “Fui promovida à chefia durante uma crise, quando o jornal voltou a circular aos domingos e mudou o sistema de paginação. Fui chamada às pressas, num fim de semana, para coordenar a edição. Nessa época, o HD tinha dois outros chefes de Redação e, apesar de desempenhar a mesma função que eles, levei alguns meses para convencer o diretor de Redação (Carlos Lindenberg) a equiparar meu salário ao deles. No início, ele me deu um cargo de adjunta, com salário um pouco menor. Mas depois que isso foi resolvido não enfrentei outros preconceitos”, diz.
Ela informa que conseguiu se firmar no cargo e que o jornal lhe deu suporte quando sua filha, Maria Fernanda, nasceu, há cinco anos. “O Lindenberg me apoiou bastante, chegando a mudar meu horário para que pudesse ficar mais tempo com ela. Quando ele precisou que eu voltasse para o turno da noite, me liberou de vir ao jornal na parte da manhã. São atitudes que me ajudaram muito a manter a qualidade de vida da Maria Fernanda”, garante.
Por ocupar um cargo de chefia, Maria Eugênia diz que precisa organizar bem suas atividades profissionais e pessoais. Ela se estrutura para ter as manhãs livres, quando fica com a filha, faz hidroginástica, compras, entre outras obrigações. Para poder se dedicar à rotina diária do jornal, contratou uma funcionária, que ajuda nos trabalhos domésticos e nos cuidados com a filha, e conta com a compreensão do marido, também jornalista. “Isso me dá tranqüilidade quando tenho que avançar horários, trabalhar nos finais de semana e feriados”.
Na opinião de Maria Eugênia, as mulheres conseguem ser mais organizadas que os homens e fazer mais coisas ao mesmo tempo. “Quando ia sair de licença-maternidade, deixei organizadas as escalas de plantão e folgas e a previsão de férias e substituições de toda a redação de todos os meses que ficaria fora. É uma engenharia complexa e acho que poucos homens teriam paciência de fazê-la”, afirma.
O desafio de ter um cargo de chefia, explica ela, requer habilidade para lidar com muitos problemas pessoais e sensibilidade para auxiliar as pessoas, sem prejudicar o trabalho, além de administrar muitas crises. “Sou uma pessoa meio explosiva, brigo, exijo, mas não guardo mágoa de discussões. Na tensão diária do fechamento, com deadline gritando, os conflitos são até normais”, admite.
Aos 42 anos, Maria Eugênia Lages é formada pela UFMG. Trabalhou como free-lancer para a Folha de S.Paulo, revistas Veja BH e Veja (entre 1991 e 1995), Caras e Quem, nas assessorias de comunicação da Prefeitura de Belo Horizonte (1986 a 1988), Secretaria de Estado de Esportes, Lazer e Turismo (1989 a 1991) e Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. Foi produtora da TV Bandeirantes, em 1992. Está no Hoje em Dia desde junho de 1992, onde foi repórter, editora-adjunta e editora de Economia, editora de Política, editora do Caderno Minas. Assumiu a Secretaria de Redação em janeiro de 1996.
Dificuldades inerentes à profissão
Ser bom ou mau jornalista independe do sexo. Não é o fato de ser mulher que abre ou fecha as portas, mas a competência, o compromisso e a capacidade de se relacionar. Essa é a opinião de Teresa Caram, editora-assistente do Núcleo de Suplementos do Estado de Minas. Há cinco anos no cargo, ela responde pelos cadernos semanais Bem Viver, Emprego, Gurilândia, Imóveis, D+, Guia de Negócios e Direito&Justiça.
“Preconceitos por ser mulher eu nunca enfrentei na minha vida profissional. Acredito até que isso não exista mais atualmente, haja vista que as redações estão tomadas pelas mulheres, que vão mostrando do que são capazes”, afirma. De acordo com ela, as dificuldades são inerentes à profissão e atingem a todos. “São muitas. A começar pelo próprio perfil da atividade. Correr contra o relógio na apuração e no fechamento de uma matéria, checar se as informações estão mesmo corretas, fechar um caderno e em seguida já começar a preparar um novo. Mas são coisas que a gente consegue superar quando gosta do que faz”,.
Para Teresa, o mais difícil é conciliar as atividades profissionais e domésticas. Por isso, ela montou uma estrutura familiar que lhe dá tranqüilidade para sair de casa pela manhã e só voltar à noite, além dos trabalhos nos finais de semana e feriados. “Felizmente, tenho uma colaboradora que me ajuda muito. Meus dois filhos (14 e 9 anos) entendem a natureza do meu trabalho. E tenho um marido que me dá toda a força possível para que possa pensar na minha carreira. Quando estou em casa, compenso o pouco tempo com a qualidade do relacionamento. Dedico-me inteiramente a eles, com atividades de lazer em família, como clube, cinema, shopping, uma partida de boliche ou mesmo assistir a um bom filme, acompanhado de pipoca e refrigerante”.
Com o passar dos anos, afirma Teresa, a mulher vai se firmando no mercado de trabalho, demonstrando que é capaz. “Mas o fato de elas terem de sair de casa para trabalhar, sem deixar de lado as tarefas de casa, fez com que ficassem sobrecarregadas, o que as levou a um esforço redobrado para mostrar que poderiam ser tão ou mais competentes do que os homens”.
Teresa acredita que a mulher tem uma vantagem adicional: é mais sensível, sabe se relacionar bem e tenta criar um ambiente harmônico. “Dá um toque especial no trabalho, pois pensa e age com o coração em primeiro lugar. Talvez isso explique por que elas têm alcançado postos de chefia nas empresas, embora ainda seja um contingente baixo quando comparado com o número de mulheres nas redações de rádio, tevê e jornal”, finaliza.
Teresa Caram é jornalista formada pela PUC Minas e exerce a profissão desde 1985. Produziu matérias para diversas revistas e jornais. Atuou em rádio, como redatora e comentarista econômica. Trabalha no Estado de Minas desde 1991, onde foi repórter, subeditora e, depois, editora-assistente na Editoria de Economia, em que ficou por dez anos. |
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Bahia
Competentes, profissionais e femininas. Assim as mulheres superam as dificuldades e invadem os meios de comunicação |
Também na terra de Mãe Menininha, as meninas crescem e aparecem
Por Mariana Trindade, com a colaboração de Daniela Vieira
Acabou o tabu. Colocou-se também um ponto final na guerra dos sexos. Primeiro a submissão, depois a emancipação, e hoje é possível dizer que vivemos a era da superação feminina em aspectos gerais, inclusive no mercado de trabalho. Mulheres para todos os lados! Engenheiras, médicas, advogadas. Mulheres no Senado, nas gerências e nas redações (um bom exemplo quando falamos da competência profissional feminina).
Em se tratando de Bahia, em especial de sua capital, é possível perceber a massiva presença das damas nas produções dos maiores veículos de imprensa da cidade. Não que os homens – característicos reis do jornalismo, principalmente até a década de 1980 – tenham perdido sua majestade, mas podemos considerar que o trono do “quarto poder” é hoje ocupado pelos gêneros em proporções menos desiguais. Mas, como ocorre em grandes mudanças sociais, o caminho da independência é árduo.
O trabalho jornalístico dificultou a inserção das mulheres no meio, pela necessidade de, além de cumprirem com as responsabilidades profissionais, lidarem com a difícil missão de administrar o lar. Haja tempo e disposição! Mas isso nunca foi problema para a chefe de Reportagem e editora do caderno de economia do Correio da Bahia, Ana Cristina Santiago. Formada há 13 anos, Ana aprendeu a ser mulher, mãe e jornalista, remindo o tempo para realizar diversas tarefas diárias: “Tenho uma filha de 12 anos e preciso conciliar as obrigações de mãe com o meu trabalho, que começa bem cedinho, em casa, quando acordo para ler os jornais do dia. Às 13h vou para a redação e geralmente saio por volta das 19h30, 20 horas. À noite gosto de assistir a última edição de um jornal na tevê. No entanto, como meu trabalho é pautar, estou sempre em estado de alerta seja o dia/horário que for. Trabalho também em finais de semana alternados na edição do jornal”.
Tendo começado sua carreira no período que marcou definitivamente a presença feminina nos veículos de comunicação (década de 1990), Ana diz que as mulheres de sua geração sempre tiveram destaque, mas não esconde as dificuldades. “O mercado ainda é tacanho e na minha área, Economia, sinto que a maioria das fontes (empresas, órgãos e outros) não facilita ou não dá importância ao nosso trabalho. Por estar em Salvador, também sinto dificuldade em ter acesso às fontes de âmbito nacional”, desabafa.
Já a pauteira da TV Bahia Márcia Freire, profissional há 15 anos, diz superar o desânimo causado pelo estresse e pela falta de incentivo graças à paixão pela profissão: “Gosto do que faço, acho dinâmico e isso acaba me satisfazendo. Comecei a trabalhar em telejornal e a partir diss | | | |