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São Paulo,
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A epopéia do jornalismo
Um compromisso com a sociedade, com a civilização e com a História
A epopéia do jornalismo brasileiro completa duzentos anos de vida em 2008, dividindo com o centenário da ABI as atenções de quem hoje vê nesse ofício uma das portas de entrada para a Cidadania, na plenitude do termo.
Celebrar um momento como esse, mais do que um júbilo é uma obrigação de todos aqueles que querem contribuir para uma imprensa melhor, tão livre quanto justa, tão forte quanto solidária, tão independente quanto imparcial, tão relevante quanto social, tão altiva quanto humilde, sobretudo nas atitudes que recomendam grandeza de espírito, até mesmo para reconhecer os erros e excessos.
Pois foi com esse espírito que Jornalistas&Cia “saiu às ruas” para essa histórica edição, que, longe de querer esgotar o assunto, coloca-se muito mais como ponto de partida do que como ponto de chegada e que tem como pretensão maior ser um ingrediente a mais no processo de reflexão sobre “o que era, como está e para onde vai o jornalismo brasileiro”. Os agradecimentos a toda a equipe de Jornalistas&Cia, em especial ao incansável
Pedro Venceslau, que se desdobrou com seus outros afazeres para cumprir o compromisso conosco assumido, entregando grande parte dos textos da edição. Ao seu lado, teve no trabalho de pesquisa
Gabriel Kwak. Os agradecimentos também ao parceiro de várias jornadas
Engel Paschoal, que recorreu ao seu arquivo pessoal e às informações públicas para mostrar de uma forma sintética os fatos marcantes desses 200 anos de imprensa no Brasil. Nosso estagiário,
Luiz Anversa, foi decisivo nos depoimentos dos jovens jornalistas, aqueles que trouxeram no sangue o gosto pelo ofício, inspirados no trabalho dos pais. Ao
Paulo Sant”Ana, que usou parte de seu sábado e domingo para diagramar esta edição de modo a que pudesse chegar a todos os leitores neste dia 7 de abril. E, claro, a todos os que contribuíram com seus depoimentos para que esta pudesse efetivamente ser uma edição de gala. É o que esperamos.
Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli
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“A luta pela liberdade de expressão é a luta pela própria democracia”
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especial para J&Cia
“Os 100 anos da Associação Brasileira de Imprensa são 100 anos de luta pela liberdade de expressão no País. E a luta pela liberdade de expressão é a luta pela própria democracia no Brasil.
O Estado democrático só existe, se consolida e se fortalece com uma imprensa livre. E a ABI, ao longo de um século, tem se portado como a guardiã dos princípios mais altos da democracia, da liberdade de expressão e do jornalismo independente, crítico e apartidário.
Um de seus expoentes, o meu conterrâneo Barbosa Lima Sobrinho, acreditava no poder que a imprensa tem de conscientização dos povos e em sua relevância na construção de uma nação soberana, próspera e justa. Sempre me senti irmanado nessa luta, e é por isso que em diversas ocasiões, ao longo de minha trajetória no sindicalismo e na política, estive na ABI e solidarizei-me com suas causas e projetos.
Agora, na Presidência da República, eu não poderia deixar de render minha mais sincera homenagem a esta relevante instituição, que há 100 anos se faz presente no debate político, cultural e social do País. Um grande abraço a todos os que mantêm viva a chama e a tradição da ABI. Muitos outros séculos virão, se Deus quiser!”
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7 de abril, dia do jornalista
Um legado de dignidade e ação
Quando a ABI foi fundada, em 1908, era praticamente impossível viver só de jornalismo no Brasil. Pagava-se quanto e quando dava. As redações eram divididas em duas castas: repórteres e jornalistas. Enquanto um fazia o garimpo do dia em delegacias e necrotérios, o outro ficava na bancada batucando furiosamente uma Royal preta. Apesar dos prazos sempre apertados, ambos tinham que se desdobrar em dois ou três empregos para dar conta do recado.
Foi no diário carioca O Paiz, um dos mais influentes da capital, que surgiu o movimento. Liderados por
Gustavo Lacerda, um autêntico representante do chão de fábrica, um grupo de jornalistas e repórteres começou a se reunir diariamente em uma sala na sobreloja de um imóvel onde funcionava a Caixa Beneficente dos Empregados do jornal.
"Um homem de imprensa deve ser única e exclusivamente um homem de imprensa". Com esse lema nasceu, no dia 7 de abril de 1908, a Associação Brasileira de Imprensa. E a data logo se converteu na nossa efeméride oficial, o
Dia do Jornalista. “Houve uma certa proliferação de datas que comemoram o jornalismo nos últimos anos: Dia do Repórter, Dia do Diagramador, Dia do Fotógrafo, Dia do Revisor. Mas as efemérides mais importantes são o Dia da Imprensa (em 1º de junho) e o Dia do Jornalista (em 7 de abril). De qualquer forma, quanto mais datas de exaltação à profissão, melhor", afirma
Maurício Azêdo, atual presidente da ABI.
Logo vieram as primeiras conquistas: a instituição da carteira de jornalista como documento de identidade, o
I Congresso Brasileiro, em 1918 – no qual nasceu a idéia de se criar um curso superior de Jornalismo –, a emancipação profissional e o recuo da censura truculenta. "O empastelamento é o supremo recurso dos poderosos (...), destruir prelos, derramar mesas de typos, quebrar componidores, espatifar móveis e bobinas, arrastar tudo para a rua e fazer de tudo uma rubra fogueira, esse é o processo sumário", escreveu o jornalista e deputado
Dunshee de Abranches, presidente da ABI entre 1911 e 1913.
Em 1930, a ABI construiu sua sede, considerada um marco na arquitetura moderna brasileira. "A ABI foi protagonista na história das organizações da sociedade civil. Seu papel não é só defender a liberdade de imprensa, mas também as liberdade públicas e os direitos humanos", explica
Audálio Dantas (*), vice-presidente nacional da ABI e presidente da sua representação em São Paulo.
Entre sem bater
Em 1953, a sede da ABI foi a principal trincheira do movimento O petróleo é nosso, responsável pela aprovação da lei que criou a Petrobras. Trinta e três anos depois, em 1988, o então presidente
Barbosa Lima Sobrinho reuniu políticos de todas as tendências, intelectuais e artistas e lotou o auditório da Associação no mais contundente ato em defesa do monopólio estatal. Nos anos de chumbo, a entidade era considerada uma das piores inimigas públicas do regime. Em 1975,
Prudente de Moraes, neto, presidente da ABI, e Audálio Dantas, então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, foram os dois principais líderes do movimento de reação ao assassinato de
Vladimir Herzog, da TV Cultura. Em 1976, um ato terrorista destruiu o sétimo andar da sede da instituição. "Em 1978, o primeiro comitê de anistia foi na sede da ABI. Depois surgiram outros no Brasil inteiro. O movimento ganhou força, até que, em 1979, foi aprovada a lei da anistia", lembra Audálio. Em 1984, foi durante uma entrevista coletiva na ABI que o cartunista
Henfil criou o slogan: "Diretas Já".
Em 1992, a ABI, novamente sob o comando de Barbosa Lima Sobrinho, colocou-se ao lado da UNE na linha de frente do movimento pelo
impeachment de Collor.
Hoje, a ABI é a principal referência do País contra o assédio judicial na imprensa, instrumento usado por grandes empresas, doutrinas e partidos para coibir a liberdade de expressão.
(*) Audálio, o braço paulista da ABI – Em 2006, a ABI voltou a contar com uma representação em São Paulo. Desde então comandado por Audálio Dantas, vice-presidente nacional da instituição, o braço paulista da associação organizou no segundo semestre de 2007 o I Salão do Jornalista Escritor, que levou ao Memorial da América Latina cerca de 13 mil pessoas.
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Azêdo, o presidente nacional
Oscar Maurício de Lima Azêdo formou-se em Direito em 1960, mas nunca exerceu a profissão. Seu currículo inclui passagens por quase todos os jornais cariocas: Jornal do Commercio, Diário Carioca, Última Hora, Jornal do Brasil, O Dia. Foi vereador no Rio de Janeiro por três legislaturas e desde 2000 é presidente da ABI. A seguir, a íntegra da entrevista que ele deu a J&Cia:
J&Cia – Quais são, hoje, as principais bandeiras da ABI?
Maurício Azêdo – A defesa da liberdade de imprensa, o direito de acesso às fontes de informação e os direitos humanos. A ABI tem um crescente prestígio entre jornalistas em função da firmeza com que trata essas questões.
J&Cia – Existem muitas datas de celebração do jornalismo. Isso é bom?
Azêdo – A primeira efeméride (Dia da Imprensa) foi 10 de setembro, dia da primeira edição da Gazeta do Rio de Janeiro, em 1808 (jornal oficial da Corte de Dom João VI). Nos anos 1990, decidiu-se mudar para 1º de junho, data em que começou, também em 1808, a circular o Correio Braziliense, de Hipólito da Costa (veja boxe Entenda as efemérides). Recentemente, o 3 de maio foi escolhido pela Unesco o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa. Houve uma certa proliferação de datas que comemoram o jornalismo nos últimos anos: Dia do Repórter, Dia do Diagramador, Dia do Fotógrafo, Dia do Revisor. Mas as efemérides mais importantes são o Dia da Imprensa (em 1º de junho) e o Dia do Jornalista (em 7 de abril). De qualquer forma, quanto mais datas de exaltação à profissão, melhor. Não creio que isso enfraquece o 7 de abril, Dia do
Jornalista.
J&Cia – Como nasceu o slogan “Diretas Já”?
Azêdo – Foi uma sacada do Henfil. Ele estava ao lado do senador Teotônio Vilela durante uma entrevista coletiva na sede da ABI, quando perguntou de sopetão: "Diretas já, senador?". "Sim, Henfil, diretas já". Os jornalistas adoraram e o Henfil transformou aquilo no mote da campanha.
J&Cia – Qual o legado da ABI para a história do jornalismo brasileiro?
Azêdo – A ABI introduziu um elemento novo no mundo do trabalho: uma associação de trabalhadores, um organismo de classe para defender os direitos da profissão. Ela ajudou a criar as primeiras leis de trabalho dos jornalistas, que foi a primeira categoria a ter direito a um piso de remuneração. O primeiro signatário do [pedido de] impeachment do Collor foi o Barbosa Lima Sobrinho, então presidente da ABI. [A instituição] Resistiu às duas ditaduras, a do Estado Novo e a militar, e foi trincheira para os perseguidos pelo regime.
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Entenda as efemérides
Muita gente se confunde com as efemérides que celebram o jornalismo. 10 de setembro, data da fundação da Gazeta do Rio de Janeiro, em 1808? 1º de junho, quando começou a circular, no exílio em Londres, o Correio Braziliense, de Hipólito da Costa? Ou 7 de abril, data da fundação, em 1908, da Associação Brasileira de Imprensa? Aos fatos. Oficialmente, duas são as datas reconhecidas: 7 de abril,
Dia do Jornalista, e 1º de junho, Dia da Imprensa. Mas nem sempre foi assim. A primeira efeméride do Dia da Imprensa foi estabelecida por Getúlio Vargas: 10 de setembro, uma homenagem ao primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, editada por frei Tibúrcio, integrante da Corte de Dom João VI.
Em 2000, durante a gestão Fernando Henrique, o deputado gaúcho Nelson Marchesan criou um projeto de lei, que foi aprovado pelo Congresso, mudando a data para 1º de junho. Motivo: a Gazeta do Rio de Janeiro foi um jornal "chapa branca". Logo, seria mais justo homenagear a primeira publicação independente do país, o Correio Braziliense, que era produzido em Londres pelo gaúcho Hipólito da Costa e entrava como contrabando no país.
Segundo o livro Imprensa brasileira – personagens que fizeram história, o projeto de Marchesan surgiu em nome de um forte movimento reivindicatório que instaurou-se no Rio Grande do Sul e foi criado pela ARI – Associação Riograndense de Imprensa. Os gaúchos defendiam que a imprensa "independente" precedeu a imprensa "oficialista".
Há hoje, porém, sérias controvérsias sobre Hipólito da Costa, que teria sido subvencionado pelo próprio D. João, embora com alguma liberdade de crítica. Também a mudança de data do Dia da Imprensa fez a efeméride, ao menos no curto prazo, perder força, pois os jornalistas não assimilaram a troca em sua plenitude. Com isso, ganhou o
Dia do Jornalista, que assumiu, para efeitos públicos, esse lugar.
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O ativista Barbosa Lima Sobrinho
Advogado, jornalista, ensaísta, historiador, político e professor, eleito para a Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras aos 50 anos de idade, Barbosa Lima Sobrinho foi o mais emblemático dos presidentes da ABI. Quando assumiu a instituição pela primeira vez, em 1926, reformou estatutos, regulamentou a concessão da carteira de jornalista e estabeleceu intercâmbio com as associações de imprensa dos Estados. Foi deputado federal, governador de Pernambuco e procurador do Rio de Janeiro, então capital do país. Em 1984, foi um dos oradores mais aplaudidos na campanha das
Diretas Já. Em 1992, atendendo a um pedido de Ulysses Guimarães, foi o primeiro cidadão a assinar o pedido de
impeachment de Fernando Collor de Mello. "Não gosto de homenagens, eu gosto é de luta", dizia. Escreveu sua coluna no Jornal do Brasil até os últimos momentos de vida, em 2000, quando morreu, aos 103 anos de idade. Seu filho,
Fernando Barbosa Lima, símbolo do telejornalismo brasileiro, seguiu os passos do pai e hoje é presidente do Conselho Deliberativo da entidade. "Faz uns 30 anos que sou sócio. Minha carteira foi assinada por meu pai".
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200 anos de imprensa brasileira e 100 de ABI
Por Engel Paschoal*
Eu poderia começar dizendo que, até 1999, o Dia da Imprensa era comemorado em 10 de setembro, porque nesse dia de 1808 a Impressão Régia (trazida por D. João VI) lançou o primeiro jornal do País, a Gazeta do Rio de Janeiro. Mas esse não foi o nosso primeiro jornal. Por isso, a partir de 2000, o Dia da Imprensa passou para 1º. de junho, porque nesse dia de 1808 foi lançado o Correio Braziliense, por
Hipólito José da Costa (HJC), que o enviava da Inglaterra para cá, por navio. Mas vou começar dizendo que, por pouco, tudo isso não foi nada disso. Apesar de HJC ser “o mais brasileiro dos nossos jornalistas”, ele quase nasceu uruguaio. HJC nasceu em 1773 na Colônia do Sacramento – hoje parte do Uruguai, mas na época território luso-brasileiro –, foi criado em terras gaúchas e, aos 19 anos, estava na Universidade de Coimbra, Portugal. Foi beneficiado pela reforma curricular da faculdade de Filosofia, “neutralizando o viés jurídico-filosófico que a dominava até então, para dar-lhe uma orientação moderna, de natureza científico-naturalista”
[José Marques de Melo, organizador de Imprensa Brasileira – Personagens que fizeram história
vol. 1 (Imprensa Oficial/Universidade Metodista/2005)].
Em 1798, aos 24 anos, diplomou-se em Direito, pretendia voltar ao Brasil e dedicar-se à agricultura, na propriedade da família em Pelotas, RS. O que, quem sabe, talvez levasse HJC a plantar nosso jornalismo em outra horta. Mas ele ficou em Portugal, fez carreira diplomática e, entre 1798 e 1800, a serviço da Coroa Portuguesa, foi observar a economia agrícola dos EUA. A viagem desenvolveu seu lado repórter. Voltou a Portugal e em 1801 ingressou na Casa Literária do Arco do Cego à Impressão Régia, de Lisboa. Em 1802, foi a Londres comprar livros para a Biblioteca Pública e máquinas para a Impressão Régia. Ao voltar, foi perseguido e preso pela Inquisição, de 1803 a 1805. Conseguiu exilar-se na Inglaterra em 1807, ali ficando até morrer, em 11/9/1823, dias antes de ser nomeado cônsul geral do Império Brasileiro na Inglaterra. O Correio Braziliense que HJC lançou era uma brochura clandestina, mensal, com mais de 100 páginas e conteúdo favorável às posições inglesas sobre a política de Portugal e do Brasil. O jornal sobreviveu de 1808 a 1822, um ano antes da morte de HJC. Portanto, a nossa imprensa nasceu exilada e de oposição, apesar de feita por um próximo ao governo. Salve, salve.
Com a Corte no Rio, surgiram vários jornais editados em Londres e com entrada legal ou clandestina no Brasil. Mas o primeiro jornal radicalmente oposicionista foi o Preciso, de
José Luís de Mendonça, em 1817, em Recife. Só teve um número, mas salvou nossa honra. No Correio do Rio de Janeiro, de 21/10/1822, o português
João Soares Lisboa interpelava o Imperador, ora, pá, o que lhe valeu o primeiro processo por abuso de liberdade de imprensa. Foi absolvido, mas obrigado a deixar o Brasil. A caminho da Europa, estimulado pelos textos de
Cipriano José Barata de Almeida, desceu em Recife e aderiu à Confederação do Equador. Morreu numa emboscada, em 29/11/1824. Eta português arretado, hein?
O baiano Cipriano Barata, nascido em 1764 e formado em Direito em Coimbra, lançou em 9/4/1823 a Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco. Passou sete anos preso entre Pernambuco e Rio, sempre publicando o jornal. Ao sair da prisão, em 1830, aos 68 anos, foi recebido como herói, mas, frágil e doente, deixou o jornalismo. Até aí, a imprensa praticamente se limitava ao Rio e ao Nordeste. Em 23/10/1829, começou a circular o paulista O Observador Constitucional, de
João Baptista Líbero Badaró, 32 anos. Genovês, médico de formação e deputado, Badaró fugiu para cá em 1826. Foi vítima do tiro de um tenente, em 20/11/1830.
Da abdicação de D. Pedro I à maioridade de D. Pedro II, foi total a liberdade de imprensa. Em junho de 1821, surgiu o Diário do Rio de Janeiro, do português
Zeferino Vito de Meireles, o primeiro a serviço do consumidor. Em janeiro de 1833, nasceu O Auxiliador da Indústria Nacional, precursor do jornalismo econômico. O principal jornal do início do Segundo Império foi O Brasil, de
Justiniano José da Rocha, de junho de 1840, inédito ao juntar literatura e política. O Correio Mercantil, de 1852, lançou
Manuel Antônio de Almeida, que publicou Memórias de um Sargento de
Milícias. Em 1856, José de Alencar era redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro, quando surgiu a idéia de oferecer brindes aos assinantes. Assim, saiu o primeiro livro dele,
Cinco Minutos e, depois, O Guarani e A Viuvinha. O Diário fechou, mas, relançado em 1860, revelou
Machado de Assis como setorista do Senado e crítico literário.
Em 1870, começou a circular no Rio A República, jornal do Partido Republicano Brasileiro, com
Quintino Bocaiúva entre os redatores, e que iniciou o jornalismo de fato: pregava separação entre Igreja e Estado; combatia o castigo corporal das Forças Armadas e defendia a federação. Em 1875, surgiu A Província de São Paulo – o Estadão –, no maior empreendimento da imprensa brasileira até então. Levantou 50 contos de réis para comprar o Correio Paulistano. Como não deu, às 11h de 4/1/1875 saiu o primeiro número. A Província inovou com a venda avulsa: montado a cavalo, com um pacote de jornais junto à sela, o ajudante de impressor
Bernard Gregoire saiu às ruas em 23/1/1876, tocando uma corneta. A partir daí surgiram os jornaleiros e as bancas de jornais. Gregoire virou símbolo do jornal.
Em junho de 1859, chegou ao Brasil o italiano Angelo Agostini. Em 1/1/1876, lançou no Rio a Revista Ilustrada, no filão da Semana Ilustrada, O Mosquito e O Mequetrefe. Chegou a quatro mil exemplares, recorde sul-americano, e Agostini passou a viver de assinaturas. A expansão da caricatura, da charge e da ilustração foi possível porque, com o telégrafo, o telefone e as linhas férreas, a informação chegava mais depressa ao jornal e este, ao leitor. Em 1877, instalou-se no Rio a agência de notícias Reuters-Havas, distribuindo telegramas internacionais. O primeiro a publicar um telegrama da agência foi o Jornal do Commercio, surgido em 1/10/1827, o mais antigo do Brasil e que teve como colaboradores o
Barão do Rio Branco, Machado de Assis, Euclides da Cunha e Austregésilo de
Athayde.
Depois da Abolição, a imprensa chegou à República. Em São Paulo, Julio de Mesquita já havia entrado em A Província de São Paulo, do qual logo se tornou diretor. No Rio,
Quintino Bocaiúva dirigia O Paiz e saiu para integrar o novo governo. Em 9/4/1891, quando ainda se escrevia Brazil, foi fundado o Jornal do Brasil, o JB, que, depois, abrigou gente como
Carlos Castello Branco, cuja coluna política foi um marco. O Correio da Manhã, fundado em 15/6/1901 por
Edmundo Bittencourt, no Rio, e fechado em 8/7/1974, é um exemplo da pressão político-militar. Em 1929, Edmundo passou a direção ao filho
Paulo. A mulher dele, Niomar Moniz Sodré Bittencourt, foi diretora do Correio de 1963, quando Paulo morreu, até 1969, enfrentando os mais duros anos da ditadura militar.
Em 7/4/1908 nasceu a ABI – Associação Brasileira de Imprensa. O primeiro presidente eleito (1910/13) foi
Dunshee de Abranches, pai da condessa Pereira Carneiro, do Jornal do Brasil.
Barbosa Lima Sobrinho presidiu a ABI três vezes: em 1926, aos 29 anos, como o mais novo presidente; em 1930; e em 1978, aos 81 anos, como o mais velho presidente.
Em 19/2/1921, surgiu a Folha da Noite, cria de dois ex-Estadão, que por um tempo a financiou e imprimiu. Depois vieram a Folha da Tarde e da Manhã, unidas na Folha de S.Paulo em 1/1/1960. Em 13/8/1962,
Octavio Frias de Oliveira a comprou, transformando-a depois no maior jornal do Brasil, superando o próprio Estadão. O Globo foi lançado em 29/7/1925, por
Irineu Marinho. Em 21/8, ele faleceu, assumindo Eurycles de Mattos como diretor-redator-chefe e
Roberto Marinho, primogênito de Irineu, como proprietário. Em 6/5/1931, Eurycles faleceu e Roberto Marinho assumiu também a redação. A partir de O Globo, ele criou o maior império brasileiro de comunicação, incluindo a Rede Globo.
O Cruzeiro, de 10/11/1928, já existia havia 11 anos quando foi comprado por Assis
Chateaubriand. Millôr Fernandes estava lá desde 1938. Depois chegaram
Péricles e o “Amigo da Onça”, David Nasser, Nelson
Rodrigues. Nos anos 60, alcançou 750 mil exemplares. Éramos apenas a metade dos “80 milhões em ação, pra frente, Brasil” da Copa de 70. Nela,
Mário de Moraes ganhou, em 1956, com Ubiratan de Lemos, o primeiro
Esso de Jornalismo, com Uma tragédia brasileira – os
paus-de-arara. Eles viajaram de caminhão com um grupo de nordestinos em busca do Sul maravilha.
A imprensa sempre reagiu ao cerceamento da liberdade de expressão e influiu na história. Em 1945, apressou a queda do Estado Novo com
Carlos Lacerda entrevistando José Américo de Almeida, que rompeu o silêncio do DIP. Em 1950, entrevista de Vargas a
Samuel Wainer recolocou o ditador na política. E, em 1954, um atentado a Lacerda levou ao suicídio de Getúlio. Nos anos 70, os alternativos recuperaram a combatividade. Em outubro de 1975, o assassinato de
Vladimir Herzog fez a sociedade repudiar o regime e trazer de volta a democracia.
*Engel Paschoal escreveu “A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira” (MegaBrasil/2006 e Publifolha/2007)
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Entrevista
José Marques de Melo faz um resgate histórico da mídia brasileira
José Marques de Melo é um dos maiores especialistas em história do jornalismo do Brasil. Professor aposentado da USP e titular da Cátedra Unesco de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo, criou a Rede Alfredo de Carvalho (Rede Alcar), organização dedicada ao resgate e preservação da história da imprensa brasileira. Nesta entrevista a
J&Cia, Marques passa a limpo a história dos jornais e jornalistas. E reclama: "Jogaram as efemérides no lixo".
Jornalistas&Cia – Por que os jornalistas brasileiros, hoje, não têm o hábito de celebrar suas efemérides?
José Marques de Melo – Até os anos 1950, celebrava-se muito. A categoria era mais festiva. Da segunda metade do Século XX para cá, os jornalistas ficaram mais... pós-modernos. As bases acham isso careta. Jogaram as efemérides na lata do lixo, como se não houvesse nada para comemorar. O ano de 2008 era para ser de celebração do bicentenário da imprensa. Mas está tudo muito morno. Foi justamente para isso que criamos a Rede Alfredo de Carvalho, para pautar essas efemérides. A própria imprensa não dá cobertura para isso. Prefere falar da abertura dos portos e de Dom João VI.
J&Cia – As tiragens brasileiras ainda são pequenas?
Marques de Melo – O Brasil tem 200 milhões de habitantes, mas só tem 10 milhões de exemplares diários de jornal. Isso é a tiragem de só um jornal de Tóquio, por exemplo. Isso é um obstáculo para o processo civilizatório.
J&Cia – Quais são os momentos que marcam, nestes duzentos anos, as grandes mudanças de paradigma da imprensa brasileira?
Marques de Melo – A tipografia chega ao Brasil três séculos depois da Europa e dois depois da América. Nossos vizinhos conheceram a imprensa muito antes. O projeto colonial do Brasil era predatório e extrativista. No caso da Espanha, foi uma colonização de Estado. O Correio Braziliense, que era produzido em Londres, era um jornal de elite, feito por um homem erudito, o Hipólito da Costa. Ele fazia uma resenha do mês. Era um jornalismo analítico de muito boa qualidade. Já a Gazeta do Rio de Janeiro era oficiosa, feita pela Imprensa Oficial. Mais tarde, virou o Diário Oficial. Esse jornal foi muito desprezado pelos historiadores, mas ultimamente vem sendo redimensionado. A historiadora portuguesa Maria Beatriz Luiza da Silva, por exemplo, conta que a Gazeta dava informações importantes, não era um jornal desprezível.
J&Cia – O ano de 1823 foi marcado pelo enfrentamento da Corte contra a imprensa mais combativa...
Marques de Melo – Em 1821, foi decretada a liberdade de imprensa em Portugal e aqui. Foi quando começou esse movimento pró-Independência, que culminou em 1823, com a censura de Dom Pedro I. Ele era uma figura paradoxal: censurava a imprensa, mas escrevia sob pseudônimos. A exacerbação dos ânimos chegou a tal ponto que criou-se uma legislação.
J&Cia – Onde estava concentrada a imprensa nessa época?
Marques de Melo – Nas províncias desenvolvidas: Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Maranhão. São Paulo foi um dos Estados que mais demorou a ter imprensa. Só começa depois de 1822.
J&Cia – O primeiro século foi dos jornalistas e jornais combativos – Cipriano Barata, Líbero Badaró...?
Marques de Melo – Não podemos generalizar. Havia muitos militantes, mas outros, como
Evaristo da Veiga, eram mais prudentes. O grande problema da imprensa brasileira é que ela não se desenvolveu muito. Esse tipo de jornalismo reivindicatório é intermitente. Em vários momentos ele volta, já que tivemos poucos períodos de liberdade.
J&Cia – Nos primeiros 100 anos, quais foram os grandes jornais?
Marques de Melo – O Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, que é o mais antigo em circulação no Brasil, e o Diário de Pernambuco. Depois surgem Estadão, JB, Correio Paulistano.
J&Cia – Qual era a linha ideológica deles?
Marques de Melo – Depende do poder vigente: eram monarquistas, depois ficaram conservadores, republicanos, estadonovistas... O "mensalão" começou na imprensa com Campos Salles, que repassava recursos para a mídia.
J&Cia – Quando a imprensa deu seu grande salto?
Marques de Melo – O grande salto foi dado com os imigrantes, nos anos 1910, 1920. Eles chegavam aqui com o hábito de ler. Nessa época, em São Paulo, a imprensa em língua estrangeira era mais forte do que em língua portuguesa.
J&Cia – Qual foi o jornal que popularizou a imprensa escrita?
Marques de Melo – O Última Hora marcou época porque introduziu a imprensa popular no Brasil.
Samuel Wainer incorporou o tablóide, inspirado na imprensa norte-americana. Foi o primeiro jornal em cadeia do país. Era um jornal nacional com edições regionais. Apoiava Getúlio Vargas. Alguns diziam que era de esquerda, mas apoiava o governo. Tinha uma qualidade muito boa. Ganhou a simpatia da classe média e das lideranças. Acabou depois do golpe de 64, que matou vários jornais que não se engajaram no golpe.
J&Cia – Qual foi o legado do Notícias Populares? Por que acabou?
Marques de Melo – O Última Hora foi subproduto de um jornalismo popular que se desenvolveu no Rio, com O Dia, A Notícia. O NP tinha a fórmula do Ultima Hora. Não era político, mas tinha espaço para o sindicalismo. Abria, ainda, espaço para todas as religiões. Acabou porque a crise da imprensa brasileira é cíclica.
J&Cia – E entre as revistas, quais foram as mais marcantes?
Marques de Melo – O Cruzeiro foi uma revista revolucionária. Chegava a todas as bibocas deste país. Era muito ágil, com grandes repórteres e reportagens. Era semanal e os repórteres eram estimulados com grandes furos. Tinha o
Edmar Morel, que fez escola. O David Nasser era o grande polemista.
J&Cia – E Manchete?
Marques de Melo – Foi uma revista que marcou pela aproximação com as elites, mas não inovou muito. Depois de O Cruzeiro veio Realidade, que foi, essa sim, a grande inovação. Introduziu um jornalismo diversional. Matérias de grande qualidade.
J&Cia – Realidade foi a grande revista nestes 200 anos?
Marques de Melo – O Cruzeiro teve mais impacto do que Realidade, que é da minha época. O Chatô tentou lançar O Cruzeiro em outros países, em língua espanhola, para competir com Life. Foi esse, aliás, o começo da derrocada dele. Depois destas duas vem Veja, que ocupa um papel de liderança. Há outras revistas, como Cigarra e Fon-Fon, que tiveram menos impacto, mas foram importantes.
J&Cia – Que outros jornais o senhor acha que merecem destaque na galeria da imprensa brasileira?
Marques de Melo – Correio da Manhã, que foi criado pelo Paulo Bittencourt
e editado pelo Costa Rego, nos anos 1930, teve uma importância muito grande no período getulista. Formou uma geração de jornalistas. Durou até 1964, quando foi sufocado. Era um jornal de elite, que concorria com O Globo, que era mais popular. Tinha, ainda, Diário Carioca, Diário de Noticias, Crítica, que era do
Mario Rodrigues.
J&Cia – E hoje, o que lhe agrada?
Marques de Melo – Estamos em uma maré baixa. Só leio internet. Às cinco da manhã já li tudo. Os jornais chegam frios. A imprensa diária não tem interpretação. Não é culpa dos jornalistas, mas das empresas. Os jornais portugueses me agradam mais.
J&Cia – Gosta da Piauí?
Marques de Melo – Acho uma revista pedante, elitista. Trata de questões de uma minoria.
J&Cia – Sem pensar, cite alguns nomes que marcaram época.
Marques de Melo – Hipólito da Costa, Ruy Barbosa, Evaristo da Veiga, Costa Rego...
J&Cia – Euclides da Cunha?
Marques de Melo – Ele não era jornalista... No Século XX, Antonio
Callado, Joel Silveira, Edmar Morel, Samuel Wainer, Carlos Lacerda, Barbosa Lima Sobrinho e Danton
Jobim.
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Repórteres de ontem, de hoje e de sempre
Não se pode falar propriamente em "imprensa brasileira" nos seus primeiros anos, apesar de ela existir oficialmente desde 1808. O leitor não tinha alternativa a não ser uma imprensa insípida, chapa-branca e com periodicidade irregular. Nem poderia ser diferente, uma vez que, no começo da "Impressão Régia", nascida com a chegada da Família Real ao Brasil, contávamos com apenas dois prelos e 28 caixas de tipos. Além disso, D. João VI baixou édito em 24 de junho de 1808 determinando: "Nada se imprima contra a religião, governo e bons costumes."
Tampouco a reportagem havia se estabelecido como instituição, no seu formato convencional. Os jornais eram veículos de campanhas políticas e os jornalistas nada tinham de farejadores de notícias e operários da apuração, aproximando-se mais de "publicistas" e homens de partido.
Mas nada melhor para festejar o Dia do Jornalista do que lembrar alguns ícones de nossas redações em todos os tempos.
Jornalismo sem medo de cara feia
Poucos como o baiano Cipriano Barata (1762-1838) levaram ao extremo a compreensão da imprensa como contrapoder. A defesa das liberdades fundamentais, o ideal republicano e o jornalismo de idéias, panfletário, tiveram nele um esgrimista apaixonado, polêmico e incansável. Subversivo por vocação, fazia de seu jornal, Sentinela da Liberdade, que durou de 1823 a 1835, uma lâmina afiada contra os donos do poder. Desde a Revolução Pernambucana de 1817 – ou antes até –, distinguiu-se pela sua bravura, e efetivamente não dava trégua ao reinado de D. Pedro I. Formado em Filosofia pela Universidade de Coimbra, deputado às Cortes de Lisboa, Cipriano colecionou prisões: uma delas, por exemplo, em 1831, deveu-se a suspeitas de que ele tramava um movimento republicano cujo detonador seria uma sublevação de escravos. Pioneiro da imprensa republicana, defendia também a participação da mulher na vida política. Caio Prado Jr. fez-lhe justiça ao reconhecer nele "uma figura pouco lembrada na história revolucionária do Brasil. É, entretanto, uma de suas maiores expressões, porque em sua longa vida não teve um momento de descanso, dedicando às lutas populares todas as suas energias."
Antes de Cipriano, porém, Gonçalves Ledo e o padre Januário da Cunha Barbosa já haviam instituído no seu jornal Revérbero Constitucional Fluminense uma tribuna, uma caixa de ressonância para suas campanhas. Veículo a favor da Independência por excelência, circulou no Rio de Janeiro de 15 de setembro de 1821 a 8 de outubro de 1822. Mas a imprensa nossa de cada dia ainda não se havia consagrado ao gênero da grande reportagem, como a entendemos...
Mesquita e o cheiro de pólvora
Pouco depois de Júlio de Mesquita (1862-1927) – advogado em Campinas, de família tradicional – ter abraçado o jornalismo a partir de colaborações esporádicas, foi guindado a redator-gerente do jornal A Província de São Paulo (fundado em 1875 por
Francisco Rangel Pestana e Américo de Campos). Em 1889, transformou A Província em O Estado de S. Paulo, a essa altura já como um dos sócios.
Mas o que vem ao caso aqui não é o Mesquita que fez do Estado o jornal que chegava a vender inacreditáveis 10 mil exemplares em fins do século XIX. É o Mesquita observador arguto da Primeira Grande Guerra, em boletins semanais com todas as galas de estilo. Editada em quatro volumes, a crônica da conflagração mundial por Julio de Mesquita, pai, livrou-se do convívio com as traças que povoam os arquivos, a bem do leitor brasileiro
(A Guerra – 1914-1918, Editora Terceiro Nome).
Euclides e a Odisséia brasileira
Julio de Mesquita enviou o engenheiro e ex-oficial do Exército Euclides da Cunha (1866-1909) para Canudos, no sertão da Bahia, a fim de destrinchar para o leitor de O Estado de S. Paulo o movimento messiânico que eclodiu na comunidade, liderado pelo beato Antônio Conselheiro. Segundo historiadores, a repressão das tropas legalistas contra os fanáticos deixou um saldo de 20 mil mortos. Se não fosse o testemunho do correspondente Euclides da Cunha sobre a sétima expedição da campanha de Canudos, pouco – ou nada – se saberia sobre o massacre dos jagunços amotinados, sobretudo em São Paulo. Num dos seus "despachos", relatou: "Um jagunço degolado não verte uma xícara de sangue”. As 30 reportagens, a partir de julho de 1897, deram origem em 1902 ao monumental ensaio histórico
Os Sertões, a nossa Odisséia brasileira.
E foi justamente Euclides personagem de uma outra reportagem antológica, produzida por outro gigante do jornalismo e da pesquisa histórica no Brasil,
Francisco de Assis Barbosa (1914-1991). Em 1941, Barbosa trouxe para a extinta revista Diretrizes o depoimento inédito do coronel Dilermando de Assis, amante da esposa de Euclides e que assassinara o escritor, em legítima defesa. Com sua versão do trágico episódio, Dilermando rompeu um silêncio de décadas e reconstituiu fatos e respondeu na reportagem
Euclides da Cunha não foi assassinado às calúnias que lhe atiraram na face durante tanto tempo.
A defesa da categoria em primeiro lugar
Figura que merece ser grifada quando se fala na grande reportagem de campo na virada do Século XIX para o XX é
Gustavo de Lacerda (1853-1912). Idealizador da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), é também reconhecido como um dos pioneiros da literatura de esquerda no Brasil. Seu livro
O Problema Operário no Brasil, data de 1901. Mas foi, acima de tudo, repórter. Parecia carregar o jornalismo nas suas veias. Trabalhava em três redações ao mesmo tempo.
Nasser e os anos dourados de O Cruzeiro
No auge da revista O Cruzeiro, a estrela mais em voga do staff da revista era o repórter
David Nasser (1917-1980), que emplacou com o fotógrafo francês Jean Manzon (que havia trabalhado, na França, em Paris Match e France Soir, o maior vespertino daquele país, à época) uma das dobradinhas mais bem sucedidas da arte da reportagem no Brasil (parceria que durou de 1943 a 1951). Seu biógrafo,
Luiz Maklouf de Carvalho, provou à farta que nas suas criativas reportagens sobrava imaginação mas faltavam autenticidade e apuração. Numa delas, publicada em junho de 1944, supostamente sobrevoando num bimotor a Serra do Roncador, na selva de Mato Grosso, revelou ao Brasil algo até então desconhecido do grande público: duas aldeias de índios xavantes, que tentaram de toda maneira acertar umas boas flechadas na aeronave. A reportagem Enfrentando os chavantes! (originalmente publicada com
ch mesmo) desdobrou-se por 20 páginas ilustradas por 20 fotos.
Nasser, que também fez nomeada como compositor de música popular – autor de sucessos como
Nega do Cabelo Duro e Ave Maria no Morro –, igualmente assinou uma série de reportagens na revista denunciando os abusos cometidos pela polícia política da ditadura do Estado Novo, não dando sossego ao ex-ditador Getúlio Vargas e a seu antigo chefe de polícia, Filinto Muller.
O Turco dizia-se ainda ameaçado por essa empreitada: “Sei que estou arriscado a levar uns tirinhos aí pela rua, depois de relatar tudo isso. Mas esta é a reportagem que eu sempre quis escrever. A reportagem que guardei tanto tempo”.
Parte das romanceadas reportagens de David Nasser foi reproduzida nos 17 livros que publicou.
Wainer, repórter-perdigueiro e empreendedor
Pode-se dizer que Samuel Wainer (1912-1980) foi o criador da imprensa de massa no Brasil. Fundador do revolucionário jornal popular Última Hora, em 1951, estruturou uma cadeia de jornais com veículos em cada capital: assim surgiram a Última Hora de São Paulo, do Rio Grande do Sul, de Pernambuco e assim por diante. Mas não só como um dos desbravadores da imprensa brasileira ajudou a escrever a história do jornalismo no país: Wainer também esculpiu reportagens históricas, como a da criação do Estado de Israel, direto de Tel Aviv e Jerusalém, e foi o único latino-americano dos 450 jornalistas credenciados para cobrir na Europa o Tribunal de Nuremberg, na Alemanha, que julgou os criminosos de guerra nazistas no fim da Segunda Guerra. Mas a pauta que o celebrizou e que viria a causar uma reviravolta nos destinos do País foi a entrevista exclusiva que fez com o ex-ditador Getúlio Vargas, na época afastado da política, exilado voluntariamente no seu retiro numa fazenda em São Borja. Essa entrevista repôs o nome de Getúlio em circulação, sendo decisiva para selar a sorte do político gaúcho: a reconquista da Presidência "nos ombros do povo", como se dizia.
A amizade íntima com o presidente levou Wainer a fundar a Última Hora justamente para defendê-lo da campanha acirrada que lhe moviam os demais jornais. Sob fogo cerrado, o
Bessarabiano acabou suspeito de ter recebido favores ilícitos do governo e teve seus empreendimentos editoriais investigados pela
CPI da Última Hora, constituída em 1953 para apurar o financiamento do Banco do Brasil ao jornal.
Tico-Tico, rápido no gatilho
Um dos repórteres mais completos que o Brasil conheceu, só que no rádio e na televisão, foi
José Carlos de Moraes, o Tico-Tico (1922-1999), perito em dar uns "olés" em seus colegas de trabalho na caçada ao "furo". Che Guevara, John Kennedy, Evita Perón, Aldous Huxley (escritor inglês, autor de
Admirável Mundo Novo) e Cristian Barnard (cirurgião sul-africano pioneiro do transplante cardíaco) foram algumas das personalidades que entrevistou. Elétrico, se desdobrava para arrancar a cobiçada declaração do entrevistado ilustre. "Comigo era à queima-roupa e
c'est fini!", dizia. Era atrevido até: nas coberturas internacionais, abria caminho entre seus colegas até alcançar a autoridade com seu microfone. "Please, quickly speech for my country...brazilian press!", dizia o monoglota Tico-Tico. Amigo de presidentes e ministros, cobriu a inauguração de Brasília e a coroação de todos os papas de sua época. "Furou" mais uma vez seus colegas ao conquistar uma entrevista da estrela Carmem Miranda em Hollywood. "Carmem Miranda não dava entrevista para repórter brasileiro nenhum", orgulhou-se em depoimento ao Museu da Televisão Brasileira. Mas houve um porém: foram tantos os palavrões que ela disse que a entrevista não pôde ser levada ao ar... No total, contando todas as suas viagens como repórter, Tico-Tico deu cerca de 13 voltas ao redor do mundo.
Para Truman Capote nenhum botar defeito
As envolventes reportagens do sergipano Joel Silveira (1918-2007), sempre temperadas com o sal da ironia, lhe valeram o apelido de "víbora", etiquetado por um de seus patrões, o todo-poderoso Assis Chateaubriand. Com seu odômetro acusando passagens por quase todos os jornais da grande imprensa, Joel é tido como um dos cardeais do "jornalismo literário" brasileiro. O filé-mignon de suas reportagens sobre a campanha dos pracinhas da FEB na Segunda Guerra Mundial está imortalizado no livro O
Inverno na Guerra. Durante nove meses e quatorze dias, Joel Silveira acompanhou passo-a-passo o circo de horrores que se desenhava sob seus olhos nos campos da Itália. Para ele, a experiência não foi nada risonha e franca e representou o funeral de todas as suas inocências de jovem de 26 anos: “Você via aqueles monumentos, aquelas casas, aquelas cidades, de mil, dois mil anos, serem destruídos em meia hora, naquele bombardeio dos aviões. Aquilo vai amadurecendo você. Eu vi até que ponto a fome pode levar, pai entregando o filho por uma barra de chocolate...”, costumava contar.
Zé Hamilton, o poeta da reportagem
Da geração seguinte a de Joel, o premiado repórter José Hamilton Ribeiro (1935) parece saber que seus textos não foram escritos para forrar a gaiola do papagaio. Quem duvidar é só se dar ao trabalho de ler a clássica reportagem
Nosso repórter viu a guerra de perto, na revista Realidade, de maio de 1968, uma aula de jornalismo de guerra. Zé Hamilton cobriu o conflito no Vietnã e perdeu a perna esquerda na explosão de uma mina terrestre em Quang-Tri, no Norte daquele país. Mas no rastro de boas histórias e grandes personagens, esse paulista da pequena Santa Rosa do Viterbo não pensa duas vezes em arriscar sua pele, seja em meio a uma guerra, seja indo a nocaute ao levar um coice de um boi carreiro, como aconteceu durante a gravação de uma reportagem para o
Globo Rural, da TV Globo, onde hoje trabalha. Nunca quis ser conhecido somente como “o repórter que perdeu a perna na guerra."
Jânio de Freitas e a eterna vigilância
Reconhecido por uma combatividade que não pede licença a ninguém, Jânio de Freitas (1932), num furo de reportagem sempre lembrado nas escolas de jornalismo e resgatado nas antologias do gênero, revelou em maio de 1987 a fraude na concorrência para a construção da Ferrovia Norte-Sul pelo governo Sarney (que, no projeto original, ligaria o Maranhão ao Distrito Federal). Habilmente, Jânio antecipou o resultado da licitação, em código, nos classificados da Folha, quatro dias antes da proclamação oficial dos vencedores. E mais uma vez exorcizou o chavão de que jornalistas não mudam o mundo. Pode ser, mas, com engenho e arte, conseguem que uma concorrência seja anulada, que uma estrada não seja construída (pelo menos com a extensão pretendida) e ainda levam para casa o
Prêmio Esso do ano.
Kotscho e o apostolado da reportagem
Da geração desmamada na adrenalina das redações dos anos 1960, outra grife da reportagem de longo curso na imprensa brasileira é
Ricardo Kotscho (1948). Desde então, a barulhenta máquina de escrever do atual repórter-editor da revista Brasileiros nos deu páginas saborosas do melhor jornalismo investigativo, como a memorável ressonância magnética que empreendeu em agosto de 1976 na corrupção escondida nas entranhas do regime militar, abrindo a caixa preta das mordomias de altos funcionários federais da época.
(Júlio de Mesquita Neto, então diretor-responsável do Estadão, chegou a declarar sobre a reportagem: "Em trinta anos de jornal, eu nunca havia visto uma reportagem repercutir tanto”.) Ou ainda a série especial que Kotscho fez em Serra Pelada, o maior garimpo do mundo, foco de conflitos entre garimpeiros e a Companhia Vale do Rio Doce, entre posseiros e grileiros, na corrida obsessiva pelo ouro daqueles subsolos.
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O mais antigo
Criado em 1827, o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, é o mais antigo em circulação ininterrupta da América Latina
Foi em uma oficina apertada na rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro, que o gráfico francês
Pierre-René-François Plancher de la Noé editou o primeiro número de um pequeno boletim de quatro páginas. No conteúdo, notícias do comércio e das chegadas e partidas no porto marítimo. Foi dessa forma, e com o objetivo de conquistar um filão dominado pelo Diário do Rio de Janeiro, que nasceu, em 1º de outubro de 1827, o Jornal do Commercio – cópia do francês Journal du Commerce. A iniciativa, segundo registros, teria contado ainda com a colaboração do médico e cientista
José Francisco Xavier Sigaud.
Da rua do Ouvidor para a atual sede, na rua do Livramento, o Jornal do Commercio é, hoje, o mais antigo diário em circulação ininterrupta da América Latina. Depois dele vieram O Estado de S.Paulo (1875) e o Jornal do Brasil (1891).
O período de vida do JC vai do regime monárquico à República; da modernização do sistema econômico às restrições das liberdades individuais no Estado Novo e no regime militar; e finalmente à abertura política. Mas muita coisa mudou desde a sua fundação. O controle acionário passou de
Félix Pacheco a Elamano Cardim e San Tiago Dantas, até Assis Chateaubriand assumir em 1959 e integrá-lo aos Diários Associados, o maior império de mídia da época. Atualmente, o comando pertence ao Condomínio Acionário dos Diários Associados.
O fundador, Pierre Plancher, era famoso na França por editar obras ligadas ao pensamento iluminista. Deixou seu país para escapar da perseguição após a queda de Napoleão. Chegou exilado ao Brasil em 23 de fevereiro de 1824, a bordo da fragata La Cécile, acompanhado do impressor Justin Victor Cremière. Na bagagem, além da experiência do jornalismo francês, o tipógrafo trouxe equipamentos avançados à época, interessado em montar um comércio livreiro no Rio. Assim que lhe foi concedido o título de impressor real, em maio do mesmo ano, ele iniciou suas atividades de editor no Brasil.
O atual diretor-presidente do diário, o publicitário e economista Maurício Dinepi, que integra os Diários Associados desde 1971, diz que “o JC é um veículo de informação analisada, pesquisada e responsável, com total credibilidade. Assim chegamos até aqui. Mantendo fiel a informação comercial, política e econômica". Depois de assumir a vice-presidência, em 1997, Dinepi chegou à presidência com a morte de
Ibanor Tartarotti.
De Plancher a Dinepi, o jornal investiu pesado em um ágil processo de modernização. Com os atuais 35 mil exemplares dirigidos ao público AA, além de uma versão
online (www.jornaldocommercio.com.br), o Jornal do Commercio atende especialmente as capitais Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, todas com estrutura própria. Está entre os líderes do segmento em venda avulsa nas bancas do Estado do Rio de Janeiro. Em 2005, o jornal inaugurou sua redação paulista, lançou edições regionais para Brasília e Minas e passou a circular às 2ªs.feiras. "A praça de São Paulo é da maior importância para todos, e principalmente para um jornal de Economia. Estamos desde outubro de 2005 investindo continuamente. Temos jornalistas em São Paulo, onde também é feita a impressão. Idem em Brasília e Belo Horizonte. Expandimos para esses Estados, mas não devemos entrar no Rio Grande do Sul, Pernambuco e Amazonas, por nesses locais já existirem jornais com o mesmo nome".
O pior momento enfrentado no JC, aponta Dinepi, foi o fechamento da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, em 1971: "As S/As com sede fora do Rio deixaram de ter obrigatoriedade legal de publicar seus atos, avisos e balanços no Rio de Janeiro, principalmente no Jornal no Commercio, que era o único na praça, o mesmo acontecendo em relação à crescente fusão dos bancos, pois aqueles que os absorviam tinham sempre suas sedes fora do Rio".
Criado para o noticiário econômico, o jornal viu-se envolvido em questões políticas, ainda que evitasse o confronto direto – na segunda metade do século 19, o JC era a representação máxima do conservadorismo. Com a liberdade de imprensa garantida na Constituição de 1824, a influência do jornal seria logo revelada na participação decisiva na preparação e divulgação do movimento que forçou a abdicação de D. Pedro I, em abril de 1831. "(o JC) Era o mais importante da época", diz Dinepi.
Figuram no rol de colaboradores do jornal personalidades como Barão do Rio do Branco, José de Alencar, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Austregésilo de Athayde, Barbosa Lima Sobrinho, José Sarney, Carlos Heitor Cony e outros. "Até D. Pedro II era um dos articulistas do JC, escrevendo sob pseudônimo. Situações engraçadas, de 'furos' incríveis, ocorreram até que descobriram que o próprio imperador era quem escrevia", acrescenta o presidente.
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Do bico ao piso
Antes da organização sindical, o jornalismo era visto como um "bico" e os profissionais da área tidos como boêmios, irresponsáveis, militantes. As mulheres eram excluídas devido à esfera hostil e às condições de trabalho, que – assim como os salários – eram péssimas. Setenta e quatro anos depois da fundação do primeiro sindicato no Brasil, novas questões põem em xeque a profissão.
O primeiro sindicato de jornalistas do Brasil foi fundado em Juiz de Fora (MG), em 1934, com um "título"
sui generis: Sindicato dos Intelectuais Proletários Militantes da Imprensa. A denominação "sindicato" foi concedida em 22 de novembro de 1941, quando o Ministério do Trabalho e Previdência Social expediu carta sindical mudando o nome da entidade (que se mantém até hoje). Esse foi o início da organização dos jornalistas, que se concretizou em abril de 1937, ano da fundação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJPSP).
Os jornalistas começaram a se organizar durante a primeira gestão de Getúlio Vargas, um presidente ávido por mudanças estruturais na sociedade. Até a fundação do sindicato paulista, os profissionais da imprensa militavam no Sindigraf (Sindicato das Indústrias Gráficas do Estado de São Paulo), que era o único da área de comunicação, tendo sido criado em 1923. "Getulio Vargas tinha o objetivo de modernizar a sociedade brasileira. Com o incremento dessa mobilização urbana, os jornalistas viram a necessidade de uma organização específica para eles", conta
Guto Camargo, presidente do SJPSP. Na primeira edição do boletim informativo publicado pela entidade constavam algumas bandeiras ousadas para a época: regularização da profissão, criação de cursos superiores de Jornalismo e defesa da Caixa de Previdência (aposentadoria) da categoria.
Em novembro de 1938, o governo Getúlio Vargas, com assessoria dos sindicatos de jornalistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, criou a primeira legislação sobre a profissão. Ficou estabelecida a jornada de trabalho de cinco horas, podendo ser elevada contratualmente para sete com compensação financeira.
O Decreto-Lei 910 estabelecia, ainda, que o jornalista deveria ser brasileiro (nativo ou naturalizado) e não poderia ter antecedentes criminais. Mas nada foi estabelecido sobre formação acadêmica ou cursos de Jornalismo. Mas os sindicalistas não desistiram e passaram a defender que um curso de Jornalismo fosse oferecido pela USP, dentro das faculdades de Filosofia e Letras. "Havia necessidade de uma formação e de uma qualificação mais direcionada para o jornalista, que não fosse tão aleatória", explica Camargo. Vários jornais da época compartilhavam desse pensamento. Em setembro de 1939, o então presidente do SJPSP, José de Oliveira Orlandi, criou uma comissão "pró-Curso de Jornalismo" e realizou diversas visitas e audiências para viabilizar o projeto.
A investida deu resultado e a categoria conquistou uma licença para a criação da Escola Superior de Jornalismo, por decisão do Conselho Nacional de Educação. Mas não foi o suficiente. O tão esperado curso de Jornalismo só seria inaugurado em 1947, fruto de uma iniciativa privada: a Fundação Cásper Líbero criou a Escola de Jornalismo Cásper Líbero, a primeira de ensino superior de Jornalismo do Brasil. O curso da USP, como o sindicato queria, só foi criado em 1966, com a Escola de Comunicação e Artes (ECA). Já a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão foi decretada em 1969, durante o Governo Militar, pela Lei 972/69.
Outra conquista importante foi a aposentadoria para jornalistas, em 1959, com a Lei 3529/59, decretada por Juscelino Kubitschek; determinava ela: "Serão aposentados pelos Institutos de Previdência a que pertencerem, com remuneração integral, os jornalistas profissionais que trabalhem em empresas jornalísticas, quando contarem 30 (trinta) anos de serviço. Considera-se jornalista profissional aquele cuja função, remunerada e habitual, compreenda a busca ou documentação de informações, inclusive fotograficamente, e a redação de matéria a ser publicada".
O piso salarial – demanda antiga, da década de 1930 – foi conquistado com a greve de 1961. Antes dela, o salário mínimo do jornalista equivalia ao de um trabalho braçal que não necessitava de nenhuma formação e instrução diferenciada.
Na década de 1980, mais mudanças. Durante a gestão de Lu Fernandes, única mulher a dirigir o sindicato de São Paulo, o estatuto foi modificado para que fossem aceitos como sócios jornalistas sem vínculo empregatício, os frilas. O profissional liberal podia ser sócio do sindicato desde que publicasse trabalhos jornalísticos constantemente, que vivesse de Jornalismo e que não fosse patrão de jornalista. Também na década de 1980 houve o reconhecimento dos profissionais de consultoria jornalística, os assessores de imprensa, que passaram a ser considerados tão jornalistas quanto os profissionais de redação.
Greves
A primeira grande greve dos jornalistas ficou conhecida como "piquete de bunda molhada". Foi em 1o de dezembro de 1961, quando os jornalistas decidiram ir às ruas para reivindicar reajuste de 60% no salário, além do estabelecimento de um piso salarial de 26 mil cruzeiros (dois salários mínimos). A intenção era parar as redações e impedir a publicação dos jornais. Os grevistas impediram que os caminhões de entrega de jornais fossem para as ruas. Alguns grupos bloqueavam os portões, outros espalhavam óleo e tachinhas nas saídas dos caminhões. A manifestação mais marcante aconteceu em São Paulo, na rua 7 de abril, em frente à sede dos Diários Associados. Os rumores eram de que o jornal sairia de qualquer maneira. A direção chamou a polícia, que chegou com mangueiras e bombas de gás. Os jornalistas resistiram aos fortes jatos d'água. "Tem uma foto clássica desse movimento, com todos os jornalistas encharcados. A roupa grudada no corpo marcava toda a silhueta dos jornalistas e deu origem ao nome do ‘piquete de bunda molhada'", conta Camargo. Mas valeu a pena. O grupo do piquete foi aumentando e a polícia não conseguiu quebrar a corrente. Depois de cinco dias de greve, o Tribunal Regional do Trabalho deu ganho de causa aos jornalistas: reajuste de 45% no salário, com a criação do piso de 22 mil cruzeiros.
Apesar da bem-sucedida greve de 1961, o segundo movimento geral, ocorrido em 1979, não teve sucesso. Mais de 1.500 jornalistas aderiram à greve. O grupo se reuniu em uma grande assembléia em 16 de maio, na Igreja da Consolação. A principal reivindicação era o reajuste de 25% no salário (a inflação estava a 22%). Outra assembléia realizada no dia 23, no Tuca (Teatro da Universidade Católica), deu ainda mais força ao movimento: as redações deveriam parar de funcionar. Porém, os donos das empresas de comunicação souberam cobrar de alguns funcionários de confiança a não-interrupção da produção do jornal. Resumo da ópera: gráficos, administrativos e radialistas não pararam de trabalhar.
Os jornais que chegaram às ruas em 25 de maio estavam descaracterizados, com matérias de dias anteriores, mas foram publicados. Apesar de estarem em grande número, os jornalistas não puderam resistir à pressão da Polícia Militar, que mandava sua tropa de choque espancar e prender os profissionais, e o movimento foi perdendo força. Os noticiários não pararam e havia cada vez mais matérias reutilizadas em jornais, rádios e tevês. A categoria estava sobre incessantes ameaças de demissão e a greve não resistiu. Depois de seis dias de protestos, o Tribunal Regional do Trabalho decretou a ilegalidade da greve, que acabou tendo um reflexo negativo para os profissionais da época: muitos dos postos de trabalho não existiam mais quando eles resolveram voltar. Como os jornais circularam com cerca de 10 ou 15% de profissionais durante a greve, acabaram aprendendo a trabalhar com menos gente. Foi uma época de demissões e de decepção para a categoria.
Nasce a Fenaj
Em setembro de 1946, foi fundada a Federação Nacional dos Jornalistas, a Fenaj. Na primeira ata de discussão da entidade constavam os seguintes temas: ensino superior, ética e regulamentação da profissão. Para seu atual presidente,
Sérgio Murillo de Andrade, só um desses três temas ainda precisa ser discutido: a ética.
Nos anos 1990, o movimento sindical perdeu força em todos os segmentos, e no mundo todo. Com o Jornalismo não foi diferente. "Estamos correndo o risco de regredir na nossa organização profissional de 70 anos. O ataque à obrigatoriedade do diploma, a tese de que não há necessidade de termos Lei de Imprensa alguma, a idéia de que novas tecnologias estão mudando a forma de fazer jornal e de que a profissão pode desaparecer, isso tudo é um ataque organizado e pensado contra a organização da profissão", alerta Guto Camargo. Para ele, a função atual do sindicato é debater essas mudanças no cenário da profissão e manter a categoria unida. E Murillo desabafa: "O grande desafio é enfrentar a ideologia atual, que desvaloriza o sindicato e acha que só ONG é legal, e recuperar o nível de filiação dos sindicatos, que sempre foi alto no Brasil. Temos que atrair os novos jornalistas para a organização, porque eu já estou velho e cansado e minha geração precisa ser substituída”.
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Filho de peixe...
Muitas vezes à revelia e até contrariando conselhos, mas invariavelmente com orgulho, filhos, sobrinhos e netos de jornalistas com freqüência optam pela profissão. E, aparentemente, o fator genético também interfere positivamente na carreira deles.
O que leva um jornalista a seguir a carreira do pai, da mãe ou de um parente próximo? O renome que alguns destes alcançaram? Ou simplesmente a convivência, da mesma forma que acontece com advogados, médicos, engenheiros, comerciantes e outros tantos? J&Cia foi buscar a resposta com profissionais que vivenciam essa condição e, embora esta não seja uma constatação científica, a genética parece, sim, fazer diferença nessa opção. Porque, mesmo os que não se encaminharam automaticamente para a profissão desde o vestibular, acabaram picados pela “mosca azul” do Jornalismo.
É o caso, por exemplo, de Juliano Basile (filho de Sidnei Basile, da Abril), de
Graziella Beting (filha de Cecília Zioni, da Folha de S.Paulo, e sobrinha de
Joelmir Beting, da Band), de seu primo Cleber Beting (filho da irmã de Joelmir) e de
Patrícia Toledo de Campos Mello (filha de Hélio Campos Mello, da revista Brasileiros). Juliano diz que cursava Direito na USP mas, como gostava de escrever e tinha interesse por vários assuntos, no 3º ano era responsável pelos jornais dos alunos da faculdade, criou um informativo semanal, abriu o Jornal do Centro Acadêmico XI de Agosto aos alunos e, quando viu, estava fazendo jornalismo 24 horas em plena Faculdade de Direito – daí também para o curso de Jornalismo e empregos na Folha, Gazeta Mercantil e Valor (onde ainda está, em Brasília), foi só uma questão de tempo. Já Graziella afirma que sua escolha veio na época do vestibular, “aos 48 minutos do segundo tempo – pois pensava em fazer arquitetura ou
design – quando me dei conta de que o jornalismo, mais que qualquer outra carreira, era a que melhor conciliava tudo o que eu mais gostava: ler, escrever, estudar, viajar, pesquisar e ainda trabalhar com a parte gráfica (pensando o
layout de uma página, por exemplo)”. O primo dela, Cleber, foi estudar Física na Universidade Federal de São Carlos, um ano depois passou para Engenharia Civil, época em que dois amigos abriram um jornal semanal em Porto Ferreira e o convidaram para escrever uma coluna sobre música (seu
hobby). Abandonou a faculdade e, enquanto aguardava o vestibular de 1990, os dois amigos o chamaram para "dar uma força" no jornal. “Eles diziam que eu escrevia melhor que eles. Topei e aí foi paixão imediata. Depois de uma semana no jornal, não tinha dúvida: é isso o que eu quero fazer da vida. No final de 90 comprei metade do jornal e logo após, em 91, comecei o curso de Jornalismo em Ribeirão Preto, à noite”. E Patrícia afirma ter muito resistido antes de decidir ser jornalista, tanto que fez um ano de Direito antes de entrar na ECA-USP: “Mas Direito não era minha praia, eu gostava mesmo era de jornalismo. Meu pai me alertou – é um trabalho duro, horários malucos etc. –, mas eu sempre gostei de escrever e não consegui escapar, desde criança fazia jornaizinhos na escola. E sempre fui muito fã do meu pai, adorava ouvir as aventuras dele”.
Entre os que foram jornalistas “desde criancinha” estão outro filho de Cecília Zioni,
Erich Beting, Naomi Suzuki (filha de Nair Suzuki, do Estadão), Maurício Noriega
(filho de Luiz Noriega, que ficou muitos anos na TV Cultura), Renata Cafardo
(filha de Pedro Cafardo, do Valor Econômico), Mariana Oliveira
(filha de Germano Oliveira, da sucursal paulista de O Globo) e Camila Gomes (filha de
Laurentino Gomes, da Abril). Todos eles apontam dois fatores como decisivos para a opção: a convivência com jornalistas e a admiração pelos pais – ou mãe, no caso de Erich. Este, aliás, quando pequeno freqüentava a redação da Folha nos plantões de Cecília, que, depois, adolescente, trocou pelos estádios de futebol, acompanhando o primo
Mauro Beting (filho de Joelmir) no início da carreira: “Aí juntei a paixão do esporte pelo gosto da profissão. O curioso é que nunca havia pensado em ser outra coisa desde pequeno do que jornalista em esportes. Antes até do Mauro abraçar a causa”. Outro que acompanhava o pai em redações, estúdios e estádios é Noriega. Já Renata diz que desde criança brincava de editar revistas, jornais, de bancar a repórter em eventos familiares: “Passei minha infância e adolescência só ouvindo falar em fechamento, pauta, matéria. O gosto pela notícia acabou sendo natural para mim, nunca ouvi uma notícia com o distanciamento de quem apenas consome a imprensa. A notícia sempre fez parte da minha vida”. E Camila parece estar entre as recordistas de referências jornalísticas, pois cita pai, mãe, padrasto, madrasta, colegas de trabalho deles todos e, para arrematar, até o primeiro namorado: “Acho que o que me influenciou foi viver neste meio e ver a importância de estar sempre atualizada e de, ainda que de forma pequena, ter uma intervenção social significativa como jornalista”.
Embora já intuísse a importância relativa da genética na opção dos entrevistados pela carreira jornalística, J&Cia decidiu perguntar a eles qual a característica profissional do pai, mãe ou parente que consideravam mais relevante. O objetivo foi aferir até que ponto o exemplo familiar teria pesado na decisão. O resultado – novamente com a ressalva da sua pouca consistência científica – foi que todos, com pequenas nuances, apontaram valores (ética, caráter, integridade, coerência, isenção, honestidade e justiça) e competências (objetividade, organização, dedicação, criatividade, iniciativa e, é claro, saber escrever muito bem). Erich afirma que “se eu tiver 10% dessa capacidade de Dona Cecília em cativar as pessoas, já me darei por feliz na vida”. Renata garante que, até hoje, vê o pai falar com paixão do seu trabalho, de uma capa bem feita, de uma manchete, da maneira como o Valor abordou determinado assunto: “Isso me motiva e sempre me motivou”. Graziella aponta a mesma característica na mãe: “Ela está completando 40 anos de jornalismo e vejo nela, a cada pauta, a mesma animação e seriedade de sempre”. Patrícia diz que o pai é um dos raros profissionais que consegue ser um fotógrafo brilhante e também ótimo diretor de Redação. E Cleber fala que o tio “tem o poder de transformar assuntos muitas vezes espinhosos ou complicados para quem não é do ramo (economia) em algo agradável, simples e até irônico”.
E como todos são jornalistas, a terceira e última pergunta que J&Cia lhes fez foi justamente o que é ser jornalista. Também aqui as respostas não foram muito diferentes umas das outras:
“É ser chato, impaciente, intrometido, reclamão. E, no final de tudo isso, é ficar contente em poder contar sempre uma novidade para alguém. Acho que essa é a essência.” (Erich Beting)
“Buscar a verdade detalhada acima de tudo e saber informá-la, da forma mais objetiva possível, ao seu leitor, seja ele quem for.” (Naomi Suzuki)
“Uma grande responsabilidade, acima de tudo. Em qualquer área, o desafio de informar, analisar e opinar com seriedade e coerência faz dessa profissão uma honra e um desafio.” (Maurício Noriega)
“Acredito que jornalista é um sujeito ‘perturbado’, no bom sentido. Ele quer saber o que está acontecendo para ‘publicizar’ as questões. Ao levar os fatos para o público, o jornalista amplia os debates em torno de grandes assuntos, de grandes questões, e, ao fazê-lo, chama a atenção da sociedade para a tomada de decisões”. (Juliano Basile)
“Para mim, é gostar de notícia. O jornalista participa da história, faz a história, influencia na história. Então, ser jornalista, é querer fazer parte disso. E não se contentar em ser espectador, leitor.” (Renata Cafardo)
“É não ter vergonha de perguntar, ter sede por informação, saber compilar esses dados e procurar a melhor forma de transmiti-los às pessoas. É buscar sempre informar o correto, o verdadeiro, com as versões de todos os envolvidos, para assim ajudar a sociedade a formar sua própria opinião sobre os fatos.” (Mariana Oliveira)
“Algo genético, hereditário e altamente contagioso (e contagiante)...” (Graziella Beting)
“É fazer as perguntas certas, saber ouvir e saber transmitir uma história para um leitor, de forma que ele entenda o que está acontecendo, ou mesmo veja e ouça através das palavras do jornalista.” (Patrícia Toledo de Campos Mello)
“É uma devoção. Com uma boa dose de insanidade.” (Cleber Beting)
“É ser curioso, interessado. É ter uma vontade contínua de saber mais, de descobrir o mundo que nos rodeia, estar sempre disposto a aprender e passar adiante a informação de forma consciente.” (Camila Gomes)
E para aqueles que, apesar de todos os indícios que J&Cia apresentou ao longo deste texto, ainda duvidam da “geneticidade” do Jornalismo, reproduzimos como derradeiro reforço a essa tese um trecho do depoimento de Juliano Basile:
“Sou jornalista, meu pai também e minha mulher trabalha na TV Globo há quase dez anos e adora noticiar. Meu bisavô era tipógrafo. Veio da Calábria com 14 anos e passou a trabalhar com linotipos nos bairros operários de São Paulo. Exatos 100 anos depois de meu bisavô chegar a SP, fomos à Calábria, encontramos a cidade dele e descobrimos que era um antigo centro de impressão de jornais. Descobrimos, inclusive, a história de um parente distante (para lá de tataravô) que vivia de imprensa, provavelmente usando máquinas desenvolvidas a partir da impressora de Gutenberg, e foi o pai do dialeto calabrês. Então, é provável que algo venha do sangue...”
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O outro lado
Jornalistas&Cia saiu do ambiente das redações para ouvir opiniões, positivas ou negativas, sobre a imprensa brasileira. Personalidades de diversas áreas responderam a duas questões: A imprensa está cumprindo seu papel? Qual o maior pecado da mídia brasileira?
Paulo Betti – ator e diretor de cinema
“Creio que a imprensa brasileira tem cumprido seu papel. É claro que, como qualquer outra instituição brasileira, muitas vezes ela tropeça, não sendo exceção numa sociedade que tem como seu maior mal a péssima distribuição de riquezas.
Resumindo, não creio que a imprensa brasileira seja melhor ou pior do que o Brasil.
O seu maior defeito, no entanto, é que, às vezes, ela se julga dona da verdade e não se permite correções. Outro defeito grave é que ela se diz sempre imparcial quando todos sabemos que a imparcialidade é impossível.
Torço para que a imprensa seja cada vez mais forte e mais plural. Bendigo o aparecimento de alternativas como a internet e suas possibilidades. Estou sempre desejando o fortalecimento e o aparecimento de nanicos.”
Paulo Skaf – presidente da Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp)
“Dentro das limitações impostas pela realidade do País, a imprensa brasileira, pelo menos em parte, tem procurado desempenhar seu papel de bem informar – com ética, coragem e eficiência. Embora, muitas vezes, sinto falta de notícias de um Brasil que também trabalha e produz, que está fazendo boas coisas e lutando para crescer.
Dessa forma, entendo como o maior pecado da imprensa brasileira ela ter-se afastado do dia-a-dia do povo brasileiro, da realidade das ruas, do campo. A imprensa tem mostrado muito mais Governo do que povo, embora isso seja igualmente importante. Na verdade, está sobrando conversa de gabinete e faltando a voz das ruas, do campo.”
Daniel Filho – diretor e produtor de cinema e televisão
“A imprensa tem cumprido seu papel brilhantemente. Até a diversidade de linha política dos órgãos que informam é fundamental. Mas, por outro lado, o fato de o Governo e os políticos continuarem impunes, apesar da forte divulgação dos fatos, é preocupante. Creio que seja uma dificuldade inerente à imprensa. Ver governantes caírem, candidatos renunciarem em países próximos e nossos escândalos continuarem sem fim é desalentador. Cabe uma pergunta: é o carisma do Governo ou a falta de poder da imprensa?”
Lúcia Stumpf – presidente da UNE
“A imprensa brasileira não está cumprindo o seu papel, que deveria ser o de colaborar para o fortalecimento do processo democrático brasileiro e ser porta-voz das mais diversas opiniões. Isso ocorre – e é exatamente esse o seu maior pecado – porque existe um grande monopólio na imprensa brasileira. Nossa imprensa está concentrada na mão de poucas famílias e conglomerados econômicos. Isso é o maior entrave para seu desenvolvimento e impede que ela seja a protagonista das mudanças sociais tão necessárias no Brasil.”
João Doria Jr. – empresário, jornalista, publicitário e presidente da Doria Associados
“A imprensa tem sido fundamental nos momentos mais críticos da vida do País. Ela esclarece, denuncia, explica, informa, melhora o conhecimento. A democracia brasileira tem uma dívida de gratidão para com a imprensa. Dívida, aliás, que se tornou uma conta-corrente. Uma depende da outra.
Diante disso, não considero que haja um grande pecado. Há apenas alguns equívocos, impulsionados pela pressa, falta de pesquisa ou conhecimento. Um erro da imprensa pode determinar o insucesso de uma pessoa ou de uma corporação. Jornalistas devem ter prazer em pesquisar, apurar e esclarecer. Preguiça e precipitação não combinam com o bom jornalismo. O sentimento do direito a resposta, a eqüidade, posicionamento isento e ético também são propriedades fundamentais ao bom jornalista.”
Betty Milan – escritora e psicanalista
“Acho que a imprensa tem cumprido um papel importante, sobretudo no que diz respeito à denúncia da corrupção. Na área de educação sentimental, na qual eu trabalho atualmente, o papel da imprensa também pode ser decisivo, já que a educação pela Igreja é arcaica, a literatura é referência para poucos e a família, nas grandes metrópoles, tende a se reduzir à família monoparental (formada por só um dos pais e seus descendentes). Apesar disso, critico a imprensa pela forma como trata o crime, ou seja, pela sua exploração mercantil.”
João Pedro Stédile – coordenador nacional do MST e da Via Campesina Brasil
“A imprensa brasileira é um verdadeiro oligopólio de grupos econômicos da classe dominante que usam os meios de comunicação para defender seus interesses políticos e econômicos. Nesse sentido, a imprensa não está cumprindo seu papel republicano de discutir os temas relacionados a toda a sociedade. A imprensa deveria ser a pedra fundamental da democracia, mas está muito longe de garantir o direito das pessoas de receberem informações amplas e completas, para que todos possam julgar e tomar posição nas discussões. Precisamos de um modelo de comunicação, tanto impresso como digital, que crie condições para que todos os setores sociais possam se comunicar com igualdade.”
Arthur Poerner – escritor e jornalista
“Desde 1962, quando iniciei a minha carreira jornalística no quase bicentenário diário conservador carioca Jornal do Commercio (fundado em 1827), venho observando que a mídia impressa brasileira segue uma trajetória de altos e baixos no que se refere ao cumprimento do seu papel. Com dois anos de profissão, por exemplo, assisti, chocado, na redação do Correio da Manhã, à pusilanimidade com que a nossa imprensa aceitou a violação constitucional que foi o golpe militar. Isto não impediu, contudo, que o mesmo jornal e outras publicações se juntassem à imprensa alternativa, alguns dias depois, no combate à ditadura e na defesa da democracia.
As falhas e pecados da imprensa brasileira se devem, a meu ver, a sua excessiva dependência em relação ao chamado poder econômico, a sua estrutura ainda em grande parte familiar e monopolista e, atualmente, a sua preocupação maior em entreter do que em informar e esclarecer os leitores (a atriz Maitê Proença, em seu romance memorialístico, diz que ‘os jornais não gostam de gente normal’ e que ‘a imprensa precisa de notícias sangrentas e escandalosas’). Parece-me evidente que tais problemas estão relacionados, por sua vez, à incipiente democratização dos meios de comunicação e à falta de um marco regulatório, cuja criação caberia ao Conselho de Comunicação Social, previsto na Constituição.”
Silvio de Abreu – novelista
“A imprensa brasileira não é uma coisa só. Há imprensa e... imprensa. Temos vários episódios que provam que a imprensa brasileira cumpriu o seu papel. No caso do impeachment do ex-presidente Collor, nas denúncias sobre o mensalão, na cobertura dos acordos nem sempre honrosos dos partidos que dão sustentação ao Governo no Congresso. Só que não cabe à imprensa julgar ou punir tantos desvios. E estes limites de ação dão a impressão de que ela, a imprensa, não apura o suficiente. Faz algum tempo, sair no jornal com a pecha de ladrão era uma vergonha. O infrator já estava meio punido, Hoje parece que ninguém liga mais.”
Cláudio Weber Abramo – diretor-executivo da Transparência Brasil
“Caso se esteja falando do conjunto completo dos veículos, incluindo-se os locais e regionais, então a conclusão inevitável é que a imprensa cumpre muito mal seu papel de informar. Em geral, os veículos de imprensa são controlados por interesses políticos e econômicos atuantes – e muitas vezes dominantes – nos locais (Alagoas, Maranhão, Rio Grande do Norte, Amazonas, Pará etc.). O compromisso informativo desses veículos não é com o público, mas com os seus controladores (Sarney, Collor, Jader Barbalho, Alves ou Maias etc.).
Sob o ponto de vista da conduta profissional de jornalistas, não é incomum, nesses lugares, que o assessor de imprensa do governador ou do prefeito ou do subsecretário de alguma coisa seja também colunista do jornal ou da tevê. A saber, independência zero e credibilidade nenhuma.
Fechando a atenção sobre os veículos que têm condições econômicas de manter independência em relação a forças políticas e a interesses econômicos (Folha, Globo, Estadão, Grupo RBS etc.), o principal problema é a carência de recursos para aplicação na reportagem. Os veículos dependem excessivamente de fontes secundárias e de informação pronta. Isso estimula a prática do jornalismo declaratório, praga da imprensa brasileira e responsável pela publicação de resmas de lixo todos os dias.”
Luiz Flávio Borges d'Urso – presidente da OAB-SP
“Entendo que a imprensa está cumprindo seu papel. Na minha visão, a principal missão da imprensa é propiciar a todos os cidadãos o exercício de seu direito de saber, para que possam formar opinião sobre todos os fatos e exercer sua cidadania plena na esfera pública. O jornalista é o mediador entre os saberes e a sociedade. As informações que divulga, certamente, devem estar lastreadas pelo compromisso com a verdade e pela diversidade das fontes, que nos ajudam a refletir sobre determinado episódio. Portanto, as maiores virtudes da imprensa são certamente sua credibilidade, seu compromisso ético e a defesa dos interesses públicos. Estes fatores ficam comprometidos quando a mídia, levada pelo açodamento e, muitas vezes, pelo sensacionalismo, deixa de apurar devidamente os fatos e lança acusações infundadas sobre determinadas pessoas. Os danos causados jamais poderão ser reparados. A Escola Base ilustra bem este fato.”
Mário Prata – escritor
“Obrigado pelo convite, mas não gosto de fazer críticas a ninguém nem a nada porque se eu for responder às perguntas vou arrumar muitos inimigos. A pauta é ótima, eu é que sou péssimo.”
Leonardo Boff – teólogo
“Há no Brasil imprensa e imprensa. Existe a imprensa empresarial, a mais forte, que defende interesses empresariais e corporativos. Diria que grande parte dos grandes jornais se inscreve nesta linha. Não é segredo que O Estado de S.Paulo expressa o ideário da alta burguesia paulista e do pensamento orientado pelos que dominam o mundo. A Folha de S.Paulo se opõe de forma tão contundente ao Governo Lula e a tudo o que diz respeito a ele que praticamente se transformou num partido de combate e oposição, defraudando os direitos dos leitores de receberem uma informação mais isenta. O Globo se alinha sempre aos poderosos do momento. Depois de ter apoiado Lula, participou de um complô midiático, por ocasião do "mensalão" e da campanha eleitoral da reeleição, para derrubar o governo. Com outros jornais, pretendiam, ilusoriamente, formar a opinião pública e ganhar o povo contra Lula. Enganaram-se redondamente, pois o poder está mais difuso (internet, blogs etc.) e capaz de se transformar num contrapoder. Não se conscientizaram do fato de que o povo, cansado de eleger candidatos das classes dominantes, decidiu votar em si mesmo e elegeu Lula como seu representante.
Mas há também uma imprensa mais eqüidistante dos interesses corporativos e que faz um bom jornalismo (mesmo de oposição), como é o caso do Jornal do Brasil e de outros nas capitais dos Estados. O bom e velho JB estava em crise mas lentamente se recuperou e hoje ostenta um jornalismo de análise de boa qualidade.
A Revista Veja merece destaque à parte. Representa o que há de mais arrogante, cínico, sem escrúpulo e manipulador que existe na imprensa brasileira. Ela tenta liquidar todas as celebridades, desde Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Chico Buarque, Frei Betto, João Pedro Stédile e tantos outros. Usa a intimidação a jornalistas e a empresas para subordinar os que podem contrariar seus interesses, é politicamente antidemocrática, eticamente irresponsável e jornalisticamente desqualificada.
Diante disso, o maior pecado da imprensa brasileira é sua falta de isenção e pensar mais nos interesses empresariais do que na boa informação aos leitores. Outro pecado é não dar suficiente cobertura às lutas populares, ao que vem de baixo. Quando se refere a este mundo dinâmico e criativo é pelo seu lado extravagante ou quando conflita com a ordem estabelecida, que é uma ordem na desordem. Criminaliza facialmente seus líderes e ridiculariza suas causas, a maioria, históricas, por terra, teto, segurança, educação, casa e segurança alimentar.”
Laurindo Lalo Leal Filho – jornalista e sociólogo
“Depende do que considerarmos ‘o papel da imprensa’. Se for o de ser porta-voz dos setores economicamente dominantes da sociedade, ela cumpre bem o seu papel, com as poucas exceções de praxe. Grandes meios de comunicação dependem, para funcionar, de altos investimentos, que acabam por integrá-los invariavelmente aos setores hegemônicos nas sociedades capitalistas. Com isso, eles têm a necessidade de passar ao conjunto da sociedade uma visão de mundo particular como se fosse a visão de toda a sociedade. Esse papel a maioria dos meios de comunicação no Brasil cumpre à perfeição.
A questão é que o pecado não está na imprensa, mas no tipo de sociedade que não permite uma diversidade maior na circulação de idéias, opiniões, visões de mundo. No caso dos meios impressos, a impossibilidade se dá pela falta de recursos capazes de impulsionar jornais ou revistas portadores de posições não-hegemônicas. Nos casos dos meios eletrônicos, especialmente em relação à tevê, a situação é mais grave. São concessões públicas que deveriam oferecer um leque de alternativas ao público, o que infelizmente não ocorre. Confunde-se, na tevê, informação com espetáculo, sempre a serviço dos índices de audiência ou dos interesses econômicos e políticos dos concessionários desses serviços. Eles cometem pecados gravíssimos.”
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Todos os presidentes da ABI
Gustavo de Lacerda – 1908-1909
Fundou a ABI e foi aclamado presidente em 7 de abril de 1908. Dos oito diretores da primeira gestão, quatro eram colegas de Lacerda na redação do jornal
O Paiz. No livro A trincheira do jornalismo, Edmar Morel conta que a organização da categoria sempre foi mais que uma bandeira para Lacerda.
Francisco Souto – 1909-1910
Com a morte de Gustavo de Lacerda, assumiu o vice, Francisco Souto. Sua gestão foi marcada por um forte movimento de sabotagem e retaliação dos donos de jornais contra a ABI. Apesar da pressão, conseguiu impedir o fechamento da instituição.
João Dunshee de Abranches – 1910-1911 e 1911-1913
João Dunshee de Abranches Moura tomou posse em 13 de maio de 1910. Durante sua gestão, a categoria cresceu e conquistou vitórias importantes, como a instituição da carteira de jornalista como documento de identidade. Além de jornalista, Dunshee era deputado federal. Na Câmara, apresentou um projeto de lei – mais tarde transformado em lei – que concedia uma subvenção anual de 20 contos de réis à Associação.
Belisário de Souza – 1913-1915 e 1915-1916
Com apenas 27 anos de idade, Belisário de Souza foi o substituto de Dunshee. Foi também deputado estadual e federal, mas teve sua carreira política interrompida pela Revolução de 30.
Raul Pederneiras – 1915-1917 e 1920-1926
Segundo Victor de Sá, autor de Um repórter na ABI, com ele a instituição adquiriu sua personalidade jurídica, "publicando e registrando na folha oficial a nova lei orgânica, e fazendo registrar todos os livros da tesouraria no Tesouro Nacional".
João Guedes Neto – 1917-1920
Nos seus três anos de mandato, dedicou-se à construção do Retiro dos Jornalistas e à organização do
I Congresso Brasileiro de Jornalistas.
Barbosa Lima Sobrinho – 1926-1927, 1930-1931 e 1978-2000
Nos seus 103 anos de vida, Barbosa Lima Sobrinho exerceu três mandatos na Presidência da ABI, à qual se dedicou até a sua morte, em 2000 (ver Boxe 3).
Gabriel Loureiro Bernardes – 1927-1928
Assumiu a Presidência para um mandato de um ano, deixando claro que daria prioridade à instalação da nova sede, sem descuidar das melhorias das instalações provisórias.
Manuel Paulo Filho – 1928-1929
Segundo Edmar Morel, a eleição de Manuel Paulo Filho foi uma das mais acirradas da história da instituição. Ele não conseguiu unir a categoria, mas registrou algumas vitórias importantes, como a intervenção junto ao Congresso para a organização das Caixas de Pensões e Aposentadorias, que funcionariam como seguro social para os trabalhadores da imprensa.
Alfredo Neves – 1929-1930
Foi difícil manter a ABI neutra num episódio, a Revolução de 30, que agitava todo o país, mas ele conseguiu organizar uma comissão de juristas para defender os associados ameaçados, ao mesmo tempo em que se manteve firme na luta para recuperar o fôlego financeiro da instituição e fez reformulações no Estatuto, introduzindo, entre outras, modificações que privilegiavam as necessidades sociais.
Herbert Moses – 1931-1964
O carioca Herbert Moses foi quem mais tempo permaneceu à frente da ABI. Foi redator da Revista Souza Cruz e secretário da Associação Comercial. Dirigiu também a Revista Moderna e acompanhou
Irineu Marinho na fundação do jornal O Globo, em 1925.
Celso Kelly – 1964 -1966
Promoveu diversos cursos e prêmios jornalísticos, mas foi nomeado diretor-geral do Departamento Nacional de Ensino do Ministério da Educação e renunciou ao cargo.
Elmano Cruz – 1966 e 1974-1975
Apesar das curtas passagens pela Presidência, entrou para a história da ABI como um dos líderes mais resolutos da Associação.
Danton Jobim – 1966-1972
Assim como Herbert Moses, engajou-se na defesa da liberdade de imprensa. Liderou o movimento de combate à Lei de Imprensa imposta pelo Governo Castelo Branco. Foi senador pelo antigo MDB.
Adonias Filho – 1972-1974
Adonias de Aguiar Filho foi romancista e membro da Academia Brasileira de Letras. Teve atuação relevante na defesa dos jornalistas presos e dos jornais censurados.
Líbero Oswaldo de Miranda – 1975
Tinha então 73 anos de idade e não chegou a presidir uma reunião sequer, pois morreu de infarto dez dias depois de ser empossado.
Prudente de Moraes, neto – 1975-1977
Era conhecido pelo pseudônimo de Pedro Dantas, com o qual assinava suas crônicas esportivas. Foi eleito em 30 de setembro de 1975. Sua gestão foi marcada pelo episódio do assassinato de Vladimir Herzog .
Fernando Segismundo – 1977-1978 e 2000-2004
Foi fundador do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, onde lecionou História Política e Econômica no curso de
Capacitação Jornalística. Escreveu vários livros, entre eles Imprensa brasileira – vultos e
problemas.
Mauricio Azêdo – 2004-2007 e 2007-2010
Foi repórter, redator, cronista, editor, chefe de reportagem, editor-chefe e diretor de redação de inúmeros veículos, como Jornal do Commercio, Diário Carioca, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Jornal dos Sports, Última Hora, O Dia, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo.
Fonte: www.abi.org.br
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Linha do tempo
J&Cia passa a limpo os cem anos de história das revistas no Brasil*
1900 – Entra em circulação a bem humorada Revista da Semana, pioneira no uso de reportagens fotográficas. Durou até 1959, sendo, assim, uma das revistas de vida mais longa do mercado editorial brasileiro.
1902 – Com uma diagramação revolucionária para a época, nasce O
Malho, uma revista elegante. Durou até a década de 30.
1905 – Chega às bancas Tico-Tico, a primeira revista infanto-juvenil brasileira. Foi a revista preferida de uma geração de intelectuais, poetas e artistas, entre eles Carlos Drummond de Andrade, que a chamou de "segunda vida dos meninos".
1907 – Com fotos de acontecimentos sociais e tendo Di Cavalcanti como capista, nasce
Fon-Fon, a primeira revista feminina. Em 1914, fez história ao defender o voto feminino.
1908 – Com os melhores caricaturistas da época, surge Careta.
1928 – A grande revolução: nasce O Cruzeiro, que deu a primeira capa com fotos em cores.
1948 – A revista do rádio chega para cobrir o universo musical.
1952 – Adolfo Bloch lança Manchete, que rivalizou com O Cruzeiro. Também nesse ano é criada
Cinelândia, a primeira revista brasileira de celebridades.
1959 – Com design arrojado assinado por Carlos Scliar, Nahum Sirostky lança
Senhor, a precursora das revistas de autor.
1961 – Abril lança Claudia
1966 – Chega às bancas Realidade, a revista das grandes reportagens.
1968 – Inspirada nas semanais norte-americanas, Veja chega ao mercado com uma proposta diferente de tratar a notícia e assume a liderança.
1971 – Exame marca a entrada da Abril mais fortemente no mudo dos negócios.
1976 – IstoÉ entra na briga pelo mercado das semanais.
1986 – Nasce Trip, hoje a mais prestigiada revista jovem do país.
1993 – Lançada a revista Caras, publicação que reintroduziu no País o jornalismo de celebridades.
1994 – Mino Carta lança Carta Capital, após ter feito o mesmo com
Quatro Rodas, Jornal da Tarde, Veja, IstoÉ e Jornal da República.
1997 – Domingo Alzugaray cria IstoÉ Dinheiro para concorrer com Exame.
1998 – A Editora Globo entra na briga das semanais com Época, inspirada na Focus alemã.
*Referências bibliográficas: "História das revistas no Brasil", Editora Abril. "Revistas brasileiras no século 20: uma história de sucessos", Thomaz Souto Corrêa - Revista IMPRENSA - 2005.
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