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São Paulo,
 
Farol da sociedade, a imprensa brasileira vive, aos 200 anos, as contradições e desafios de uma atividade pluralista e apaixonante
J&Cia vale-se da efeméride para uma reflexão sobre quem somos, de onde viemos e para onde iremos

Descoberto em 1500 e intensamente colonizado nos séculos seguintes, o Brasil só viria a ter jornais após a chegada da Família Real, em 1808 – até então, por decisão da corte, era proibido produzir impressos no País. A primeira tipografia, a Impressão Régia, só foi instalada em 13 de maio daquele ano e o primeiro jornal, o Correio Braziliense, que comemorou 200 anos de criação no último dia 1º/6, paradoxalmente, nasceu na Inglaterra, pelas mãos de Hipólito José da Costa (ilustração acima) – daí comemorar-se nessa data o Dia da Imprensa. O Correio era, segundo estudiosos, um jornal informativo, denso, analítico, embora se tenha descoberto também relações não propriamente recomendáveis entre Hipólito e o D. João VI (ver comentários de Laurentino Gomes nesta própria edição); circulou até dezembro de 1822. Naquele mesmo 1808, em 10 de setembro, surgiria ainda outro jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro, veículo oficial da Corte, mas que também trazia notícias gerais, do Brasil e da Europa. Imprensa livre, porém, só tivemos a partir de 1821, com a abolição da censura. A imprensa nacional passou nesses dois séculos por períodos de maior e menor desenvolvimento, com maior ou menor liberdade, e se hoje vive um inegável momento de pujança, enfrenta o desafio de adaptar-se à concorrência das novas mídias e à gradativa transferência do seu protagonismo para a cidadania. Embora este Dia da Imprensa, um marco de 200 anos, devesse merecer uma comemoração à altura da sua importância histórica, pouco espaço foi dedicado pelos veículos brasileiros à efeméride. Como lembrou Alberto Dines em artigo postado no Observatório da Imprensa neste dia 2/6, sob o título Uma comemoração envergonhada, “o Brasil foi censurado ao longo de 308 anos. E a culpa maior desta censura deve ser atribuída à Santa Inquisição. (...) A festa do jornalismo não aconteceu porque os donos do nosso jornalismo não quiseram ferir suscetibilidades nem lembrar que a Inquisição não morreu, apenas trocou de nome”.

Nesta edição, os leitores poderão conferir depoimentos instigantes, nem sempre com o mesmo olhar, de Augusto Nunes, Gaudêncio Torquato, J. Hawilla, José Marques de Melo, Laurentino Gomes, Luís Nassif, Luiz Fernando Gomes, Manuel Carlos Chaparro, Paulo Nogueira, Ricardo Gandour, Ricardo Kotscho, Roberto Civita, Rodolfo Fernandes e Sérgio Murillo de Andrade.

Boa leitura!

 
200 anos depois, ainda muito por fazer

J&Cia, que já havia produzido uma alentada edição em abril sobre os 100 anos de ABI e 200 anos de imprensa brasileira, volta ao assunto, buscando fazer uma reflexão sobre este acontecimento e sua projeção no futuro, na palavra de alguns dos mais renomados e influentes jornalistas do País. Para tanto, pediu-lhes que respondessem sucintamente a duas perguntas: 1) A imprensa brasileira cumpriu com dignidade o seu papel ao longo desses seus 200 anos de vida? Quais foram as suas maiores virtudes e os seus maiores pecados ao longo desses dois séculos? e 2) Que desafios se colocam para que ela continue forte, representativa e influente? Reproduzimos a seguir as respostas que recebemos até o fechamento da edição:

"Nunca é demais repetir que a imprensa chegou por aqui com enorme atraso, o que certamente influiu para que tivéssemos retardado o nosso desenvolvimento como país livre. Além disso, chegou a imprensa, em 1808, mas não a liberdade de imprensa. Da Impressão Régia, de cujo prelo saiu o primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro (10 de setembro de 1808), nada saía sem a autorização de uma junta incumbida de cuidar para que "nada se imprimisse contra a religião, o governo e os bons costumes". A censura prevaleceria por longo tempo, com breves hiatos de liberdade, mesmo depois da Independência. Já em 1823 jornais foram proibidos de circular. Entre outras alegações, a de que "insultavam" os militares. Apesar disso, a crítica foi possível. Mesmo quando não se teve acesso à tecnologia de impressão vinda na bagagem de Dom João VI. O primeiro periódico surgido em São Paulo, O Paulista, por Antonio de Azevedo Marques, era escrito à mão. Só em 1827 apareceria o primeiro jornal impresso, O Farol Paulistano, e, em 1929, o Observador Constitucional, de Libero Badaró, que terminou sendo assassinado por causa das críticas que fazia ao poder imperial. A censura, contudo, não impediu que a imprensa desempenhasse um papel importante em momentos decisivos de nossa História, como na Abolição e no movimento republicano, com o surgimento de grandes jornais como A Província de S.Paulo (depois O Estado de S.Paulo). Mas a República nascente não tardou a recorrer à censura. E mais violentamente ela se faria com o Estado Novo de Vargas e, não muito depois, sob a ditadura militar de 1964. A grande virtude da nossa imprensa, nesses 200 anos, foi contribuir, nos momentos de liberdade, para o avanço da democracia no País. E, mesmo sob censura, a luta de alguns veículos -- grandes jornais ou pequenos pasquins -- pela liberdade de expressão. O grande paradoxo, e portanto grande pecado, foi o apoio que alguns (a maioria, na verdade) desses veículos deram ao golpe de 64. Mesmo que, na maioria dos casos, viessem a se arrepender amargamente...

É inegável que tivemos um grande avanço na imprensa brasileira, nos últimos anos. O papel que terminou desempenhando para apressar a queda da ditadura militar foi da maior importância. A apropriação das novas tecnologias tem contribuído, sem dúvida, para a democratização da informação. Mas, ao mesmo tempo, veículos de comunicação de massa, à frente a televisão, não vêem a informação senão como espetáculo. E na mídia impressa há o que se pode chamar de praga do denuncismo, de um jornalismo editorializado que desconhece limites. Lançam-se versões, sem o menor esforço de apuração, e depois corre-se para colher a repercussão. Isso pode dar resultados imediatos, mas a longo prazo pode desmoralizar um veículo. Para ser forte e influente é preciso um mínimo de respeito à verdade da informação. Não basta enrolar-se na bandeira da liberdade de imprensa..."

Audálio Dantas – presidente da Representação São Paulo e vice-presidente nacional da ABI – Associação Brasileira de Imprensa


“Entendendo-se por ‘imprensa’ o conjunto das grandes publicações do sudeste e do sul do Brasil, cumpriu. A maior virtude foi saber lutar pela liberdade, pela democracia e pela busca da verdade. Os maiores defeitos são congênitos: como mostra o livro 1808, do jornalista Laurentino Gomes, Hipólito da Costa dependia do governo imperial para sobreviver e viveu longe do Brasil real. Esses traços estão no DNA da imprensa brasileira.”

“O maior desafio é livrar-se dessas marcas trazidas do berço.”

Augusto Nunes – diretor Editorial da CBM


“O termo dignidade possivelmente seja exagerado para caracterizar o trabalho da imprensa ao longo de seus dois séculos de existência. Digamos que tenha sido eficiente na missão de informar e interpretar as molduras política, social e econômica. Vale lembrar que a imprensa chegou tarde ao nosso país. Teve papel transcendental no desmonte do Império e instalação da República. Desempenhou papel de destaque na construção da identidade nacional. Abriu consciências e contribuiu para a edificação dos eixos centrais da cultura, da política e das instituições. Acompanhou os ciclos políticos e cobriu os eventos institucionais. Contribuiu para construir e desconstruir perfis de governantes. Foi duramente castigada por ocasião da ditadura do Estado Novo getulista. Como foi sufocada nos anos de chumbo abertos pela ditadura de 64. Resistiu às intempéries. Sobreviveu. É claro que não podemos glorificá-la de maneira plena. Temos um sistema midiático ainda muito concentrado. O poder emissor está nas mãos de poucos grupos. Temos uma imprensa regional ainda muito debilitada, principalmente em regiões mais pobres, onde grupos econômicos agem de maneira a influenciar o fluxo informativo. Ademais, nossa mídia eletrônica – principalmente TV – tem como foco o divertimento, deixando para trás os eixos noticiosos. Percebe-se certa influência sobre a mídia eletrônica, mesmo sendo ela concessão do Estado. Sob o aspecto da estética, não fazemos feio. Os jornais brasileiros integraram-se ao espírito de modernidade. Sob o aspecto da linguagem, estamos defasados. Os textos ainda são precários. Falta-lhes densidade. Criatividade.”

“Desafios que se apresentam: 1) fortalecer as mídias regionais, atenuando a influência dos poderes político e econômico; 2) desconcentrar a propriedade dos meios; 3) ampliar os espaços de cobertura, contemplando com mais espaço e intensidade a realidade regional; 4). ampliar as faixas de leitores da mídia jornalística impressa; 5) melhorar a capacitação da mão-de-obra jornalística, dando ao corpo de jornalistas formação adequada a esses tempos de competitividade, globalização e quebra das fronteiras nacionais; 6) ampliar os eixos da conectividade, estabelecendo maior participação dos ouvintes e leitores; significa reforçar o eixo da comunicação ascendente, da sociedade em direção às mídias, para contrabalançar o fluxo descendente, ou seja, do poder político e institucional para a sociedade; 7) incentivar a base de pequenos e médios jornais das comunidades do interior do país; 8) melhorar a qualidade dos textos jornalísticos; há escassez de grandes repórteres: 9) melhorar o sistema de mando nas redações – precisamos de cabeças mais sistêmicas, generalistas; e 10) expandir o jornalismo investigativo-crítico. Ainda padecemos de um jornalismo muito obediente ao oficialismo de fontes governamentais.”

Gaudêncio Torquato consultor de comunicação e de marketing político


“Acho que cumpriu. Sua maior virtude: Independência. Seu maior pecado: Independência.”

“Desafios: Independência, ética e determinação.”

J. Hawilla – presidente da Traffic (TV TEM e rede de jornais Bom Dia)


“A imprensa brasileira, além de tardia (chegou ao nosso país três séculos depois do seu aparecimento na Europa), manteve-se elitista (destinando-se a uma parcela reduzida da população). Apesar disso, vem demonstrado capacidade de atualização, assimilando novas tecnologias e rotinas de trabalho forâneas. Nesse sentido operacional, vem progredindo continuamente.”

“Seu maior desafio é a democratização: tornar-se popular e servir a toda a sociedade. Ampliar tiragens, usar linguagem coloquial e pautar assuntos de interesse do cidadão comum constituem tarefas inadiáveis.”

José Marques de Melo – escritor e acadêmico de Jornalismo


“A imprensa brasileira nasceu em 1808, ano da chegada da família real portuguesa ao Brasil, com a mesma feição que teria nos duzentos anos seguintes: corajosa em alguns aspectos, subserviente e corrompida em outros, mas nem sempre honesta e transparente nos seus propósitos na relação com os leitores. Para fugir à censura, o Correio Braziliense foi lançado em Londres em junho de 1808. A Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal publicado em território nacional, começou a circular no dia 10 de setembro de 1808, impresso em máquinas trazidas ainda encaixotadas da Inglaterra por Antonio Araújo de Azevedo, o Conde da Barca. Com uma ressalva: só imprimia notícias favoráveis ao governo. O fundador do Correio, Hipólito José da Costa, acreditava numa constituição equilibrada e justa, num congresso forte, em liberdade de imprensa e religião, no respeito pelos direitos individuais. O mesmo Hipólito que defendia a liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, D. João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares do Correio, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Hipólito era, portanto, um editor independente perante os leitores mas que, nos bastidores, gostava de um dinheiro público. O Correio, que não apoiou a Independência brasileira, deixou de circular em dezembro de 1822. Hipólito foi nomeado pelo imperador Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres, cargo que envolvia o pagamento de uma nova pensão pelos cofres públicos. O historiador Oliveira Lima, ao avaliar essa relação secreta, dizia que Hipólito José da Costa, ‘se não foi propriamente venal, não foi todavia incorruptível, pois se prestava a moderar seus arrancos de linguagem a troco de considerações, de distinções e mesmo de patrocínio oficial’. A Gazeta do Rio de Janeiro, ao contrário, não precisava esconder nada: era escancaradamente favorável ao governo. Como se veria nos duzentos anos seguintes, a imprensa nascida em 1808 funcionaria como um espelho da sociedade brasileira ainda em formação, com seus defeitos e virtudes.”

“Uma das características mais curiosas do mundo atual é que toda pessoa com acesso a um computador se julga no direito de ser produtora de conteúdo. Num planeta em que todos produzem conteúdo, que papel sobra para os jornalistas e editores? A boa novidade é que em nenhum outro momento da história da humanidade a função dos jornalistas foi tão essencial. As pessoas estão afogadas em informação, mas poucas sabem lidar com ela. Ao contrário, o excesso de informação criou um nível de ansiedade sem precedente nas pessoas. Nesse novo mundo, acho que cabe aos jornalistas três funções básicas: ser editor; ser curador da informação e antecipar tendências e necessidades. Editar é ajudar as pessoas a se orientar nesse oceano de informação. É, portanto, separar o joio do trigo. Cabe aos jornalistas separar o relevante do que é inútil ou não confiável. Num mundo digital em que todos podem produzir conteúdo, cabe aos jornalistas apontar o que é confiável e o que não é. Esse papel de curadoria, ligada ao senso de ética e responsabilidade social da profissão do jornalista, nunca foi tão importante. As pessoas precisam aprender a confiar no que lêem, vêem, ouvem ou consomem.”

Laurentino Gomes – escritor, autor de 1808


“Maiores momentos: Campanha da Abolição e Campanhas das Diretas. Os maiores pecados: as tentativas de derruba de presidentes eleitos em 1954, 1960, ao longo dos anos 90 e em 2005.”

”Desafios: apego aos princípios jornalísticos básicos, que foram totalmente atropelados nos últimos 15 anos pelo jornalismo-espetáculo.”

Luís Nassif – diretor da Agência Dinheiro Vivo


“A imprensa brasileira já nasceu combativa. E ousada. O Correio, de Londres, abertamente lutava pela independência. Ocupava espaço que aqui inexistia. Uma combatividade que permeou por estes 200 anos, enfrentando o arbítrio e expressa em símbolos-maiores da resistência em diversos períodos de força, como o Correio da Manhã, O Estado de S.Paulo, o Jornal do Brasil, o Pasquim e os nanicos dos anos 80, que de nanicos, quando muito, só tinham a forma. Não foi unânime, sempre houve os que por conta de interesses pessoais ou econômicos se colocaram ao lado da força, do poder. Seja qual fosse o poder. Seja em que ideologia militasse. Faz parte do jogo, felizmente, não foram a regra. Em tempos de democracia, de liberdades consolidadas, a imprensa tem novos desafios, redefinindo papéis. Fiscalizar sempre – mas sem o denuncismo fácil como tantas vezes se viu –, com responsabilidade acima de tudo. Ser útil, não ter vergonha de prestar serviço. Ter a capacidade de responder às necessidades de um leitor em transformação, em um país que se transforma, num mundo que se reinventa, tecnologicamente, culturalmente e socialmente. Ser como um porta voz deste cidadão é o único caminho.”

Luiz Fernando Gomes – editor-chefe do Lance


“A história desses 200 anos da imprensa brasileira poderia ser escrita pelos dois vieses da grande contradição que condiciona o nosso jornalismo, desde o Correio Brasiliense: haveria uma história a contar pela perspectiva do ideal que vincula o jornalismo aos valores humanistas da liberdade, da justiça e da dignidade humana, ideal que pressupõe a capacidade da independência – e haveria belos momentos e belos exemplos a recortar, em todos os períodos desses 200 anos; e outra história seria contada, se a perspectiva assumida fosse a das razões econômicas e financeiras da sobrevivência dos jornais – e essa seria uma história de um jornalismo fortemente dependente do poder político e do poder econômico. Talvez o melhor símbolo dessa contradição seja o próprio Correio Braziliense, que foi, em sua época e nas suas circunstâncias, um baluarte das mais avançadas idéias e ideais, com conteúdos de indiscutível qualidade intelectual, mas que talvez só tenha sobrevivido, como empreendimento, graças à ajuda financeira de D. João VI, que jamais foi criticado ou contrariado pelo jornal, e o usava para controlar as cortes. Nos limites das circunstâncias de cada época e de cada momento histórico, e de um modo geral, a imprensa brasileira sempre oscilou em movimentos de sobrevivência, entre as razões dos ideais e as pressões de quem a financiava. Com momentos e experiências de esplendor e progresso nos períodos de liberdade, e momentos de heroísmo nos períodos de ditadura – e penso, no último caso, nas glórias e sacrifícios da imprensa alternativa, nos anos mais duros do regime militar. Quanto às principais virtudes, elas se manifestam, principalmente, na capacidade de evoluir tecnicamente, na convergência das três grandes vertentes da linguagem jornalística: texto, desenho gráfico e fotografia. O padrão técnico da imprensa de hoje sintetiza, de forma exuberante, essa vocação histórica do nosso jornalismo impresso, é tão bom tecnicamente quanto precário, no aspecto ético. Acrescente-se, a isso, uma outra vocação, a de dar consistência empresarial aos empreendimentos, que é hoje um dos traços mais fortes do jornalismo brasileiro.”

“Vejo principalmente três grandes desafios, que se colocam de maneiras diferentes, mas convergentes, a jornalistas, empresários do jornalismo e fontes usuárias do jornalismo: 1) Informar e elucidar com veracidade e clareza; 2) Criar capacidades novas, nas formas de pensar e fazer jornalismo, para responder eficazmente às crescentes demandas sociais de dizer e saber, numa sociedade marcada cada vez mais pelas práticas de democracia participativa; e 3) Consolidar, nas razões de ser e fazer, ideários conectados ao projeto da Nação brasileira, sintetizado no artigo V da Constituição.”

Manuel Carlos Chaparro – escritor e acadêmico de Jornalismo


“Sim, a imprensa brasileira cumpriu com dignidade seu papel ao longo desses 200 anos de vida. Sob muitos aspectos, foi melhor que o Brasil neste período: mais dinâmica, mais inovadora, mais moderna. Sempre teve no leitor um vigilante severo, e isso a obrigou a respeitar o ‘mercado’. Jornais e revistas que de alguma forma ‘ofenderam’ o leitor, ao fazer um jornalismo de conteúdo e ética duvidosos, foram para o cemitério em grande número. A imprensa brasileira vive sob um regime positivo de darwinismo: sobrevivem e florescem aqueles que fazem os melhores conteúdos, qualquer que seja a plataforma.”

“Os desafios para o futuro são os mesmos de sempre, adaptados às circunstâncias. A mídia digital terá uma presença formidável na sociedade, e as grandes empresas de mídia entenderam que o que parecia ser uma ameaça é, na verdade, uma grande oportunidade. Quem vai dominar o jornalismo digital é quem tiver marca, credibilidade e conteúdo -- e estes são os ativos das grandes empresas de mídia. No caso das revistas, o que vai acontecer é uma espécie de ‘parceria’ entre o conteúdo impresso e o conteúdo digital. Na Editora Globo, os editores são instados a ter ‘um olho na revista e outro no site’, e esta é uma cultura nova que vem se enraizando entre nós rapidamente. As revistas vão para seus ‘territórios de vantagem competitiva’: o que os americanos chamam de great writing, textos de primeira qualidade, fotos incríveis, design arrojado, papel de qualidade. Enfim, um produto que você folheia com prazer ‘sensual’, e não raro coleciona. Os sites das revistas operam no regime do 24 por 7 -- furos, rápida mobilidade de noticiário, o compromisso com o célebre lema da CNN, ‘aqui você é o primeiro a saber’, numa tradução livre. A marca das revistas será a combinação do conteúdo impresso e do conteúdo digital. No caso, por exemplo, de Época: a edição impressa é uma tarefa semanal nossa; a edição digital é uma tarefa de todo momento. Época é ambas.”

Paulo Nogueira – diretor Editorial da Editora Globo


“Cumpriu com dignidade e louvor. Ajudou a escrever a história e fez parte dela. Aperfeiçoou-se juntamente com o desenvolvimento da sociedade. Foi uma janela de liberdade em períodos de opressão e censura, co-protagonizou a volta da democracia e é até hoje seu monitor vigilante. Esteve e está ao lado da população: fiscalizando os poderes, denunciando e expressando indignação diante de injustiças e imoralidades, ajudando a entender planos econômicos, esclarecendo a nova ordem social e econômica. Um País com uma imprensa livre, independente e de qualidade é um País melhor. E o Brasil pode hoje se orgulhar de ter órgãos de imprensa que se situam entre os melhores do mundo.”

“Há duas frentes de desafio: a) varrem o mundo ventos renovados do individualismo, do hedonismo. As relações estão pautadas pela competição, bela busca da eficiência, do bem-estar pessoal e por uma forte dose de mercantilização. Com isso, o debate público, o interesse pelo coletivo e pelas políticas públicas, está ficando em segundo plano; b) as novas mídias digitais, que têm muito de notável e de positivo, em grande medida exacerbam a comunicação ‘individualizada’. A audiência vira emissora. Pessoas, especialmente os mais jovens, querem ter contato com quem pensa igual. Disso tudo deriva a grande missão para a geração que hoje edita notícias: tentar perpetuar os valores do jornalismo, os valores da edição, transpondo-os para as novas mídias. O cenário é mundial. Mas o Brasil não pode se permitir o azar de, justo na hora em que consolida sua democracia, sua economia e seu papel no cenário mundial, deixar de ter jornalismo legítimo. O Brasil precisa de uma imprensa forte – e reconhecida pela sociedade como tal – para bem seguir em frente.”

Ricardo Gandour – diretor de Conteúdo do Grupo Estado


“Durante esses 200 anos, é difícil dizer se a imprensa cumpriu seu papel (que papel?), porque não sou tão velho assim nem estudioso da história da imprensa brasileira. Não dá para generalizar, porque a imprensa brasileira viveu muitos ciclos de altos e baixos, mais ou menos livre, mais ou menos atrelada a governos e grupos econômicos. Nos últimos 50 anos, pelo menos, tivemos muitas mudanças na linha editorial dos nossos principais jornais. Se pegarmos só os três maiores, Folha, Estadão e Globo, veremos que eles não tiveram uma história linear nem mesmo na defesa da democracia. Os três, por exemplo, apoiaram ostensivamente o golpe militar de 1964, para só anos mais tarde se engajarem, lentamente, na luta pela redemocratização do País.”

“O principal desafio que se coloca para todos nós é como encarar a revolução provocada nas comunicações humanas pelo advento da internet, a maior desde a invenção da imprensa por Joseph Guttemberg, há mais de 500 anos. Ninguém sabe onde isso vai dar, mas uma coisa é certa: quaisquer que sejam as plataformas do futuro, não muda a natureza do nosso ofício, que é o de descobrir as novidades para contar e explicar o que está acontecendo, com a maior honestidade possível.”

Ricardo Kotscho – diretor da revista Brasileiros e colunista do iG


“Para ser ‘forte, representativa e influente’, a imprensa deve continuar desempenhando seu papel de cão-de-guarda do País. Necessita – antes de tudo – do respeito à Constituição que lhe garante a liberdade tão fundamental para isso. Precisa também da indispensável vontade – não apenas dos jornalistas, mas também dos proprietários – para fazê-lo. Não menos importante, precisa da independência econômica que somente existe na medida em que não dependa do governo para o seu sustento básico. E isto exige, por sua vez, a competência, a concorrência e a publicidade que somente a livre iniciativa gera e estimula.”

Roberto Civita – presidente da Editora Abril


“Foram 200 anos de idas e vindas, mais idas do que vindas, muita censura e pouca liberdade. Mas nos últimos 25 anos vivemos uma época de ouro, com o mais ‘longo’ período de liberdade de nossa história. Não apenas uma liberdade concedida, pois isso houve também na era de D. Pedro II, o mais democrata e ‘republicano’ de nossos governantes. Agora vivemos um regime realmente pleno de liberdade política e – mais importante – econômica, que é a mãe de todas as liberdades. Na grande imprensa brasileira, hoje, a participação do setor público na publicidade oscila entre 2% e 5%, para desespero dos governantes de plantão, que não têm mais meios de pressionar a imprensa de qualidade. Isso é inédito na nossa história, e raro no mundo.”

“Temos grandes desafios. Consolidar a liberdade de imprensa, algo que, por exemplo, está na lei de um país como a Suécia desde 20 anos antes da Revolução Francesa. Garantir a pluralidade editorial. Enfrentar os desafios e oportunidades da revolução digital. E, sobretudo, investir em qualidade e em bons profissionais – é aí que a imprensa vai se diferenciar de seus reais, imaginários e potenciais concorrentes.”

Rodolfo Fernandes – diretor de Redação de O Globo


“Cumpriu e cumpre com dignidade o seu papel social. Um imprensa livre e de qualidade é uma conquista da sociedade brasileira e deve ser comemorada por TODOS, não apenas pelos empresários. Acredito que o maior pecado original tenha sido, e de certa forma ainda é, a dependência excessiva e o vínculo com os interesses do Estado e, mais recentemente, do poder econômico.”

“Não tenho dúvida de que o maior desafio colocado para a mídia nacional seja o compromisso estratégico com um projeto nacional que inclua um sistema democrático de comunicação, com um novo marco regulatório, desconcentração da propriedade e instrumentos democráticos de controle público. Para a Fenaj, também é essencial a adoção de medidas que efetivamente valorizem o trabalho dos jornalistas brasileiros. Uma pauta negligenciada com freqüência pelos donos da mídia nacional.”

Sérgio Murillo de Andrade – presidente da Fenaj

 
 


 
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