Jornalistas & Cia - Imprensa Automotiva
 
 
 
 
 
 
 
 
 
São Paulo,
 
Homenagem de Jornalistas&Cia aos jornalistas nipo-brasileiros que ajudaram a fazer uma imprensa brasileira melhor e mais forte e aos pioneiros que deixaram o Japão em 1908, cruzando o mundo na busca de uma vida melhor e mais digna

Concepção, coordenação e texto final: Celso Kinjô
Edição: Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli
Programação visual e editoração: Paulo Sant’Ana
Ilustrações: Mário César
 


A Nissan, que apóia este projeto, é uma empresa japonesa com mais de 70 anos de excelência na concepção e produção de veículos. O DNA japonês pode ser conferido no design, na qualidade mecânica e de acabamento. Mas, além disso, a diversidade cultural é hoje um de seus maiores diferenciais competitivos em mercados globais. A Nissan do Brasil é um bom exemplo disso. Lá, dezenas de executivos japoneses aprendem e ensinam as melhores práticas com colegas brasileiros. Com isso, o olhar sistemático e planejador dos japoneses ganhou mais criatividade e alegria em nosso território.

 
Um olhar para as origens

A idéia original desta edição especial em homenagem ao centenário da imigração japonesa era oferecer um perfil diversificado dos niseis que se destacaram na imprensa – entendida como a grande imprensa de jornais, revistas, rádios, televisões, internet, assessorias.

Quando a investigação avançou o suficiente para permitir uma visão cronologicamente ampla, a balança pendeu para os pioneiros, os que abriram o caminho, imigrantes que, enquanto davam duro na terra ou na cidade, ousaram sonhar fazer jornal. Um jornal impresso em ideogramas. Os primeiros surgiram em 1916, apenas oito anos após a chegada do Kasato Maru, e o que se viu dai para a frente foi o crescimento paulatino dessa imprensa nipo-brasileira, que dividia o espaço das páginas entre notícias daqui e de lá, sem esquecer de folhetins seriados e poemas do gênero haikai. Operando de fato como meio de comunicação da colônia, àquela época espalhada por núcleos interioranos distantes entre si, os jornais da comunidade ajudaram os imigrantes a se integrar ao País.

Na década de 1930, viveram a sua grande fase, mas o sucesso logo viraria um pesadelo com as medidas impostas pelo Estado Novo de Vargas, primeiro estabelecendo censura prévia e tradução das matérias, depois extinguindo a imprensa em língua estrangeira. Quando o conflito mundial acabou, um cisma irrompeu dentro da própria colônia, dividida entre os que aceitavam a rendição do Japão, e uma maioria que se deixou levar pela tese de que o império do Sol Nascente jamais perdera uma guerra, em 2.600 anos de história. Sem jornais para se informar, a colônia rachou. Quando, em 1946, o governo Dutra levantou a proibição e os jornais retornaram à vida, o estrago estava feito, em mais uma demonstração de que o obscurantismo ocupa o espaço deixado pela falta de informação. Jornalistas como Hideo Onaga e seu pai, Sukenari, foram ameaçados de morte; Chizaburo Nomura, editor-chefe do Nippak Shimbum, foi assassinado por fanáticos da Shindo Renmei.

Incompreensão, preconceito, boicote, ameaças, tudo o que se possa imaginar os jornalistas nipo-brasileiros enfrentaram para desbravar a trilha da integração. Ainda durante a guerra, em 1941, Hideo cruzou a fronteira, empregando-se como revisor da Folha da Manhã. José Yamashiro, seu cunhado, desde 1937 era redator de português do Nippak Shimbum. Com absoluto domínio de japonês, Yamashiro prestou concurso e foi aprovado como tradutor juramentado em 1940. Após o fim da guerra, arrumaria trabalho na agência UPI. Fluente também em inglês – fez a Cultura Inglesa até o nível Cambridge –, traduzia e redigia telegramas que eram despachados para os jornais. Hideo e José foram os primeiros niseis jornalistas na grande imprensa. A porta estava escancarada. Apesar de restrições legais nos anos de conflito, os representantes da colônia eram bem vistos, bem tratados e admirados pela conduta séria. Não tardou para que mais niseis passassem a trabalhar em redações, principalmente como repórteres fotográficos, diagramadores e ilustradores, funções que não exigiam domínio da língua e para as quais demonstravam muito talento. Os irmãos de Hideo – Ruy, Romeu e Kaoru – trilharam o mesmo caminho, formando um eminente clã jornalístico, representado na geração posterior por Denise Yamashiro e Marcelo Onaga, entre outros membros que militam atualmente nas redações. Nos anos 60, a integração se multiplicou em número e diversidade profissional, reflexo da própria mudança na colônia, cada vez mais miscigenada, longe de rejeições que o próprio Yamashiro viveu. Rompeu com a primeira namorada, uma gaijin que trabalhava no jornal, por pressões da família, que em hipótese nenhuma aceitava que ele se relacionasse com alguém fora da colônia. Eram outros tempos: a integração apenas começava a se esboçar.

 

Celso Kinjô, 63 anos, é jornalista desde 1964 -- entrou como foca na Ultima Hora, em São Paulo, em 1º de março; um mês depois, o jornal foi fechado com o golpe, voltando a circular duas semanas depois, reerguendo-se aos poucos. Em fins de 1965, foi para o Jornal da Tarde, que formava sua primeira equipe fundadora. Em 1968, fez frilas para a revista Realidade. De 1970 a 1974, chefiou a sucursal paulista da revista Manchete, e a partir de 1973 tornou-se chefe de Reportagem no Rio. No período 1975-76 foi editor-chefe da revista Pop e, em 1979, diretor do Sindicato, na gestão Emir Nogueira. De 1977 a 1984, foi editor-chefe de Placar, mesmo cargo que ocupou em Quatro Rodas em 1985, quando foi para a TV Globo, onde ficaria até 1989, como Editor Regional em São Paulo. Retornou ao JT, então como editor-chefe, lá permanecendo até 2007. Atualmente, é membro voluntário do Comitê do Centenário da Imigração Japonesa, que coordena as comemorações do ano.

 
Cem anos de imprensa nipo-brasileira
Uma breve história (de sacrifícios e tenacidade) dos jornais e jornalistas pioneiros, neste centenário da imigração japonesa

Chamou se Kokai Shinbum (Jornal da Travessia) o primeiro jornal da história dos cem anos da imigração. Em três toscas edições, circulou no próprio Kasato Maru, durante a travessia, relatando o cotidiano a bordo. Rokuro Koyama, um aventureiro de 23 anos, fazia tudo sozinho: entrevistava, redigia, ilustrava, tirava cópias, distribuía. Perdeu o gás quando o representante da companhia de imigração, Shuhei Uehara, chamou sua atenção: “Koyama, não escreva mal nem seja indelicado com tripulantes e passageiros”. É que matéria sobre os carecas a bordo produziu desconforto e algumas reclamações de passageiros. A nascente trajetória jornalística de Koyama foi desse modo atropelada. Mas alguns anos depois ele voltaria à luta.

Para os quase 800 viajantes do navio (781 contratos de trabalho e 20 voluntários como Koyama), que inaugurou a rota Kobe-Santos, 12 mil milhas percorridas em 51 dias (embarque: 28/4; chegada: 18/6), aquele eldorado chamado Brasil representava a escala para a riqueza. Em poucos anos, dois ou três, segundo os prospectos da empresa de viagens, todos ganhariam dinheiro suficiente para retornar e garantir prosperidade aos que tinham emigrado e aos parentes que tinham ficado no outro lado do mundo.

Que a história não era bem essa, puderam constatar na chegada a São Paulo. Antes da viagem, os poucos viajantes que dispunham de alguma poupança tinham depositado o dinheiro na Companhia Imperial de Imigração. Questão de segurança. Ao ser cobrado, na Hospedaria dos Imigrantes, o representante da empresa no Brasil, Shuhei Uetsuka, alegou que o dinheiro não viera no navio. Mais, que não tinha qualquer informação sobre aqueles depósitos. Envergonhado, curvou-se e ofereceu aos imigrantes sua cabeça, literalmente, como forma de reparação. O eldorado começava a se desvanecer e não restava outra saída senão embarcar para as fazendas do interior paulista.

Fábrica de brinquedos

Koyama, o jornalista pioneiro, livrou-se da enxada nesse primeiro embate. Tornou-se secretário e ajudante de Uetsuka, que passou as primeiras semanas apagando incêndios pelo interior. Motins e fugas se registravam todos os dias, não apenas por conta do choque de culturas, mas porque os japoneses foram percebendo que, dadas as condições de trabalho e remuneração, jamais conseguiriam sair do zero, quanto mais retornar ao Japão. Na emergência, Koyama virou intérprete, sem entender português. Embarcado num trem para Ribeirão Preto, conseguiu chegar à fazenda Dumont, onde estavam cerca de 200 japoneses, mobilizados para a fuga. Mediou outros impasses semelhantes pela região. Quando finalmente voltou à capital, soube que a Companhia Imperial falhara também com os próprios funcionários, e que não havia pagamento para sair, nem naquele dia nem nos seguintes. Acabou arrumando emprego na fábrica de biscoitos Duchen, na Moóca.

Ficou pouco tempo, pela simples razão de que não podia conversar durante o expediente. Daquele jeito, não tinha como aprender a língua da terra. Pediu as contas. Tempos depois, empregou-se como copeiro da família Souza Queiroz, num casarão da rua Sete de Abril. Fazia limpeza dos cômodos principais (entrada, sala de estar, sala de jantar) e servia à mesa. Trabalhou em outras residências, até um dia parar em Três Lagoas (MT) atraído pela construção de uma ferrovia. Não suportou o esforço físico de transportar terra e trilhos, fixar dormentes. Contraiu malária. Apelou para o ex-chefe Uetsuka e conseguiu retornar à capital paulista, onde se virou por algum tempo ensinando português para jovens imigrantes. Corria o ano de 1913, cinco anos em terras brasileiras e futuro zero à vista. Por bondade de Uetsuka, dormia no escritório da companhia de imigração. O benfeitor, pouco tempo depois, foi substituído e retornou ao Japão. Ao se despedir, entregou a Koyama um belo presente, nada menos que 200 mil réis (como empregado doméstico, recebia 50 mil réis).

Koyama cogitou lançar um jornal, mimeografado. Um jornal semanal, talvez. Poderia usar o mimeógrafo do escritório da companhia. Uma “viagem” sem norte ou futuro. O amigo Suzuki trouxe-o de volta à realidade, com três argumentos pesados: 1. não havia leitores japoneses na cidade; 2. não se podia contar com assinaturas no interior e, 3. como conseguir anúncios, se a única empresa japonesa na cidade era a Loja Fujisaki, além da própria Companhia de Imigração?

Os 200 mil réis foram investidos na abertura de uma fábrica de brinquedos, no bairro do Belém. Faziam balões de papel, e um carrinho com forma de borboleta, chamado itagaeshi. Não deu certo. À falta de um departamento de vendas, o próprio Koyama saía viajando de trem e de carona, para oferecer seus produtos. Vendia também em feira. Meses mais tarde, estourou a guerra mundial, a Primeira. As vendas caíram a quase zero, o gás ficou racionado, o papel e a borracha, matérias-primas dos brinquedos, subiram muito. Koyama, derrotado, fechou a fábrica e resolveu pegar na enxada. Mudou-se para o interior com a família, pois já estava casado com Tani, uma viúva que acabara de engravidar dele e trouxera três filhos do matrimônio anterior.

Preservar ou integrar?

Não foi fácil. Definitivamente, Koyama não nascera para pegar na enxada, mas em Promissão o trabalho era esse, de sol a sol. O sonho de virar jornalista, felizmente, em breve se tornaria realidade: em 1917, foi designado correspondente no Brasil do Osaka Asahi. Quatro anos depois, em 1921, lançou em Bauru o Seishu Shinpo (Notícias de São Paulo). Não significou o fim dos seus problemas, pelo contrário. Mas com rara perseverança e o apoio de seus patrícios abriram-se os caminhos, naquele interior remoto, para a desejada integração entre oriente e ocidente, Japão e Brasil.

Quando Koyama deixara a capital, em 1915, o terreno estava preparado para um jornal destinado à colônia. O primeiro surgiu em janeiro de 1916, intitulado Nanbei (América do Sul), graças ao imigrante Ken-Ichiro Hoshina, que havia passado antes pelo Havaí e Estados Unidos. Eram, à época, 16 mil japoneses no Brasil. Os da capital se concentravam na rua Conde de Sarzedas, ladeirão na Liberdade que descia da Sé e cuja extensão inferior não passava de um imenso brejo. Em agosto, surgiu o Nippak Shinbum (Jornal Nipo-Brasileiro), que teria longa vida, até ser banido por decreto de Vargas, como todos os diários japoneses, alemães e italianos, em agosto de 1941. Seu fundador foi Akesaburo Kaneko. Três anos depois, o Nippak seria vendido a Saku Miura, jornalista libertário que combatia os poderosos e acabaria expulso do País, para ser preso no Japão. Aos dois jornais se juntou, em janeiro de 1917, o Burajiro Jiho (Notícias do Brasil), lançado pela própria companhia de imigração, que importou do Japão o jornalista Seisaku Kuroishi, com a finalidade clara de defender os interesses da empresa e da nação do Sol Nascente. A impressão desses primeiros jornais era rudimentar, artesanal. A matriz era uma chapa de metal recoberta por uma gelatina e gravada com estilete. A tinta era aplicada nos sulcos que se formavam e, depois, impressa no papel.

Com o advento da imprensa nipo-brasileira, começou a se consolidar uma dualidade que resistiria às turbulências do mundo, incluída aí a Segunda Guerra. Preservar ou integrar? Fechar-se em gueto ou fundir-se no melting pot tropical? Os tradicionalistas, que eram maioria absoluta da colônia, insistiam na tese do retorno, isto é, fazer do Brasil uma passagem para o futuro melhor na terra natal. As diferenças, até mesmo divergências, entre as duas culturas, favoreciam esse ideal da volta à pátria. A figura do imperador impunha-se como fiador desse processo. Saku Miura, poliglota que dominava inglês e alemão, além de japonês e português, investia contra a intenção de que os filhos dos imigrantes recebessem cidadania nipônica. Escrevia: “A vocação de jornalista consiste em não nos distanciarmos de nossos deveres, distinguindo claramente o bem do mal e fazendo críticas justas”. Quando algum repórter seu manifestava receio, discursava: “Não faz mal que nosso jornal seja destruído, escreva o que pensa!” Em junho de 1928, Miura foi acusado e preso por “desacato à autoridade imperial”, além de comunista. Em 1931, mereceu um decreto de expulsão do País. A intervenção de amigos levou à revogação da medida extrema. Mas, em 1939, a força dos adversários mostrou-se irresistível e ele acabou deportado para o Japão. Detido pela polícia política em Tóquio, cumpriu pena durante a guerra. Libertado em 1945, morreu pouco depois, de desnutrição.

 
Onaga e Yamashiro, os desbravadores

Outro jornalista que militou bravamente entre os defensores da integração foi Sukenari Onaga, patriarca do principal clã nipo-brasileiro de jornalistas. Teve cinco filhos, sendo quatro homens, todos jornalistas (Hideo, Ruy, Romeu e Kaoru), e uma mulher (Aya), que se casou com o jornalista José Yamashiro. Onaga chegou do Japão por outra rota. Engenheiro naval diplomado pela Escola Superior de Navegação Comercial de Tóquio, no grau de 2º Comandante, em 1912, viajou para o Peru e resolveu ficar, inclusive porque havia uma colônia okinawana, sua terra de origem. Dois anos depois, decidiu mudar para o Brasil. Transpôs os Andes em lombo de burro, acabou na ferrovia Madeira-Mamoré. De lá, chegou a Manaus, onde foi roubado do pouco que tinha. Viajou, algum tempo depois, para o Rio, onde trabalhou como copeiro. Durou pouco no emprego, transferiu-se para São Paulo e fez de tudo um pouco.

Artesão de leques, mecânico da Light, mecânico de frigorífico, Sukenari se virava para ganhar a vida. Movido pelo espírito de aventura, pôs de novo a mochila nas costas e foi parar no Mato Grosso, e plantou e vendeu verduras algum tempo. Em 1918, voltou a São Paulo e, enfim, conseguiu emprego no Burajiro Jiho, no qual logo foi promovido a editor-chefe. Conhecia o ofício, pois em Tóquio tinha trabalhado no Japan Times, fazendo revisão de inglês. Quatro anos depois, mudou-se para o Nippak Shimbum. Na década de 30, tornou-se proprietário e diretor do Nippon Shimbum. Sempre defendeu a tese, avançada para a época, segundo a qual “filho de japonês nascido no Brasil é brasileiro, portanto, deve ser educado como brasileiro”.

Pelo menos nos primeiros tempos da imigração japonesa, quem optasse pela vida nas cidades em detrimento do trabalho no campo era execrado. “Quem se mudava para São Paulo era considerado um verdadeiro herege”, escreve o historiador e também imigrante Tomoo Handa, em seu alentado O Imigrante Japonês. “Mesmo na época da revolução de Isidoro, em 1924, aqueles que vinham para São Paulo, principalmente se fossem solteiros, eram taxados de ‘vagabundos’”. José Yamashiro, um dos primeiros niseis a ingressar na grande imprensa brasileira (o primeiro, de fato, foi seu cunhado Hideo Onaga, que entrou como revisor da Folha da Manhã em 1941 – ver O nosso japonesinho é o melhor), começou em jornais da colônia, e conta: “Naquela época (anos 40), jornalista ainda não constituía propriamente uma profissão na sociedade. Na colônia japonesa, os jornalistas que trabalhavam nos jornais editados em língua japonesa eram os que não prestavam para a lavoura. Tinha-se a idéia de que jornal era coisa de vagabundo, de quem tem preguiça de pegar no batente”. O clima na redação do Nippak, onde Yamashiro começou, era amadorista: “Os jornais da colônia pagavam uma miséria. Os jornalistas recebiam quando o dono tinha dinheiro. Daí era uma festa, aquela animação”.

Outro veterano, Katsuo Uchiyama, que na década de 1950 se tornou editor-chefe do São Paulo Shinbum, recorda: “Antes da (2ª) Guerra, os jornalistas trabalhavam porque gostavam, não importava o quanto ganhavam. Depois, isso mudou, as pessoas passaram a pensar mais na sobrevivência”.

“Guia orientador da sociedade”

Os jornais, a despeito do preconceito em relação a seus profissionais, tiveram uma função integradora e comunitária indiscutível, desde os primórdios. Tudo bem que boa parte do conteúdo se referisse a atualidades do Japão. Mas a vida nova no País era facilitada pela prestação de serviços. Ao publicar o índice de preços agrícolas, por exemplo, o jornal municiava o imigrante de informações vitais para o negócio. No controle social, seu papel não era menos importante. Um jovem que sumisse de casa era facilmente localizado com a publicação de seu nome na coluna “procura-se”. Sendo a vergonha um sentimento execrado pelo pudor japonês, evitava-se a qualquer custo ter o nome publicado sob esse logotipo. Anúncios do Banco de Yokohama explicavam como remeter dinheiro para o Japão, versão que décadas mais tarde seria reproduzida, no sentido inverso, pelos jornais e sites dirigidos aos dekasseguis brasileiros no Japão. O consulado publicava avisos, informando sobre cartas ou pacotes que recebera, porque o remetente não sabia o endereço do destinatário, ou sobre pedidos de dispensa de serviço militar. Por ser o único meio de comunicação da comunidade, veiculava, como anúncios, convocações para reuniões, notas de nascimento, casamento ou falecimento, mensagens de congratulações ou mesmo pêsames.

E, claro, havia muita opinião. O editorial ocupava o espaço nobre da primeira página, assinado pelo diretor. Naquela época, tinha-se o jornal como shakai no bokutaku, algo como “guia orientador da sociedade”. Por seu intermédio, os imigrantes formavam opinião a respeito dos grandes temas de atualidade e mantinham os elos com a terra distante. Também na capa do jornal estampava-se o folhetim em capítulos, ibope máximo entre todas as páginas. No início, eram versões romanceadas de aventuras de samurais, ou biografias de shoguns. Com o passar dos anos, a oferta se diversificou, e nos anos 50 o cardápio oferecia histórias brasileiras, como A Carne, de Júlio Ribeiro, ou Iracema, de José de Alencar.

O noticiário geral, inclusive de São Paulo, a metrópole mais próxima de todos e sede do consulado, ocupava páginas internas. E não faltava a publicação de poemas clássicos da terra natal, tipo haikai ou tanka, acompanhados por colaborações dos próprios imigrantes com sensibilidade criativa. Tudo escrito em ideogramas, nos sistemas kanji (símbolos complexos que representam idéias) e kana – hiragana e katakana (sílabas de sonoridade próxima à do alfabeto romano). Montar textos exigia rigor, simplicidade, pois os tipos correspondentes tinham de ser localizados em caixas apropriadas, e elas eram numerosas. Quanto mais idéias e/ou informações, mais ideogramas. A prática impunha títulos genéricos, suscetíveis de se resolver em um ou dois carimbos de kanji. Algo assim: Enchente! Ou: Boa safra.

Fenômeno de marketing

Quando decidiu aumentar a periodicidade de seu jornal Seishu Shinpo para dois dias por semana, em 1930, Rokuro Koyama, o jornalista pioneiro do Kasato Maru, importou do Japão um estoque de nada menos que 800 mil tipos! Em suas memórias, lembra ter chorado na redação quando foi informado de que a encomenda chegara no Rio, em lugar de Santos, por causa da revolução de Isidoro Gomes, em São Paulo. Depois de seis semanas, a carga foi desembarcada, e ele conta: “Exalava um cheiro nostálgico de pinho, me fazendo relembrar meus tempos de menino, quando trabalhei catando tipos num jornal. Eu mesmo separei calmamente os tipos por números de traços, pelos radicais dos ideogramas”. De impressora nova, movida a eletricidade, o Seishu Shinpo em nova fase foi lançado em maio de 1925. Empreendedor, Koyama se empolgou, produziu anuários, edições especiais, melhorou de padrão de vida. Lembra: “A moradia da família e o jornal passaram a ser em locais separados. Pela primeira vez, comprei uma escrivaninha para meu uso exclusivo na Casa de Móveis Koga, com seis gavetas”. Finalmente chegavam tempos de vacas gordas.

A década de 1930 marcou o auge da imprensa nipo-brasileira. Os navios traziam levas crescentes de japoneses, a essa altura atraídos por parentes que aqui já estavam ou por relatos de sucesso. Os três jornais da capital (Nippak, Burajiro Jiho e Nippon Shimbum) possuíam gráficas próprias. A circulação dos dois primeiros beirava os 20 mil exemplares; o terceiro tirava 5 mil. Os maiores empregavam, em 1933, mais de 60 funcionários cada, número que subiu para 300 no final da década. No interior, a penetração era absoluta. Segundo a pesquisa Japoneses da Jurisdição de Bauru, os jornais que serviam à colônia alcançavam 90% da população. Em 1939, de acordo com o levantamento, o número de exemplares enviados à região suplantava o número de famílias. O índice de leitura andava próximo dos 100%! A imprensa nipo-brasileira explodia como um fenômeno de marketing e ajudava a vender qualquer produto anunciado, dos livros importados pelas livrarias ao shoyu e outros condimentos típicos produzidos pelos empórios da capital, sem falar em eletrodomésticos e terrenos.

Mas a instabilidade no outro lado do planeta logo iria conspirar contra os jornais. Em 1937, Getúlio decretou o controle da imprensa de língua estrangeira. Dois anos depois, estabeleceu censura prévia, com tradução obrigatória das matérias, do japonês para o português, e criação de uma seção em português. Em 1941, finalmente, foi banida a circulação de qualquer veículo do gênero. Até 1945, a colônia viveu um pesadelo terrível. Famílias foram desalojadas de suas casas, alguns japoneses foram humilhados e agredidos nas ruas de várias cidades; famílias que residiam no litoral foram removidas para a capital, e dali para o interior. Não havia informação disponível na língua-mãe, salvo por meio das emissoras de rádio que transmitiam em ondas curtas.

Integração do jornalismo

O fim da 2ª Guerra não encerrou o pesadelo, pois a colônia se viu rachada. A minoria, denominada makegumi, aceitava a versão dos jornais brasileiros, indicando a derrota do Eixo, que o Japão integrava. Mas a maioria, espalhada pelo interior, os kachigumi, garantia que o Japão vencera a guerra, e qualquer versão contrária não passava de intriga, ou mentira. O lado “vitorista” radicalizou ao ponto de criar uma organização terrorista chamada Shindo Renmei, que nos anos seguintes dedicou-se a ameaçar e matar os “derrotistas”, ou “esclarecidos”. O editor-chefe do Nippak Shimbum, Chizaburo Nomura, foi assassinado no dia 1º de abril de 1946. Sukenari Onaga e seu filho Hideo foram incluídos na lista dos jurados de morte. A polícia paulista demorou um bom tempo até achar o fio da meada e neutralizar a organização terrorista. Quando tudo terminou, a calma voltou a reinar na colônia. Três jornais, São Paulo Shimbum, Jornal Paulista e Diário Nippak (nada a ver com o anterior Nippak Shimbum), lançados depois da guerra, passaram a dominar a cena. Ao longo das décadas seguintes, seguiram acompanhando o cotidiano da colônia e da pátria-mãe. Assistiram à lenta mas inexorável integração de niseis e sanseis à sociedade brasileira, incluindo o próprio jornalismo. Quando o século 20 aproximou-se do final, havia esgotado a missão desses jornais.

O São Paulo Shimbum segue em frente, escorando-se em estratégias novas de mercado; os concorrentes optaram pela fusão, de que resultou o Nikkey Shimbum. Novos veículos, surgidos na diáspora dekassegui, circulam no Japão e aqui, como o Nippo-Brasil e o Tudo Bem. Na televisão, a colônia teve sua época com o Imagens do Japão; hoje, conta com a TV Nikkey, que leva ao ar pelo cabo, sábados à noite, um programa de atualidades pré-gravado. No mundo sem fronteiras, a NHK coloca sua programação em tempo real, assim como Globo e Record podem ser vistas por nossos patrícios no distante arquipélago. Cem anos depois, travessia concluída, vale a pena olhar para trás e homenagear os pioneiros que escreveram essa história.

 

Fonte privilegiada
Além de livros e depoimentos gravados, a história da imigração mereceu uma tese de mestrado da jornalista Cristina Miyuki Sato, em 2004, apresentada e aprovada na ECA-USP. Intitulada Brasil em Ideogramas/Histórias de Vida de Jornalistas da Imprensa Nipo-Brasileira, reconstitui a odisséia dos imigrantes que sonhavam em fazer jornal. Na introdução, Cristina explica:

“Os jornais em japonês sempre encerraram para mim um certo mistério, apesar da relativa proximidade. Na infância, nas mãos do meu pai ou do professor da escola japonesa, negavam-se a ser decifrados: havia sempre um ideograma difícil, vários ideogramas difíceis no meio de cada simples frase. Não traziam as ilustrações bonitas dos livros japoneses para crianças, nem a facilidade de leitura de um Notícias Populares ou de um Diário da Noite, sempre disponíveis no bar popular da família. Mais tarde, mesmo trabalhando em veículos voltados para a comunidade de japoneses e descendentes, as páginas em japonês continuaram tão distantes como eram antes.”

O interesse de infância, somado à experiência em redação de jornais da colônia, deu, a Cristina, a certeza de estar diante de um material vivo, denso, fundamental para se compreender a trajetória do processo de imigração e integração dos japoneses à sociedade brasileira. Por meio da imprensa da colônia, tem-se um panorama privilegiado dessas relações, que incluíram censura prévia e fechamento dos jornais. A jornalista resgata a história dos vários títulos que exerceram muita influência na vida dos imigrantes, mesmo porque se tratava de seu único meio de informação ¬– até os vendedores de assinaturas, quando apareciam nas casas simples dos núcleos do interior, eram tratados com respeito, pois, imaginavam os colonos, traziam notícias e fofocas frescas das redações. Sobre o fascínio que os jornais exerciam sobre a comunidade imigrante, Cristina compara: assim como um americano sonha em erguer uma igreja quando chega a um lugar, a primeira idéia de um japonês é lançar um jornal.

 
O nosso japonesinho é o melhor (*)
Por: Audálio Dantas

Hideo Onaga, primeiro nisei a se tornar jornalista no Brasil, fez reportagens que marcaram época. Uma delas, sobre a organização terrorista Shindo Renmei, quase interrompeu a sua carreira, que seria a de um dos melhores repórteres brasileiros. Um mestre, responsável pela formação de profissionais que hoje se destacam na imprensa

No início de 1946, poucos meses depois de terminada a 2ª Guerra Mundial, com a derrota do Eixo (aliança da Alemanha, Itália e Japão), Hideo Onaga era um homem marcado para morrer. Seu nome estava na lista da Shindo Renmei, que espalhava o terror entre os japoneses e seus descendentes no Brasil, aos quais queria impor uma velha crença – a da invencibilidade do Japão.

Hideo tinha 25 anos e era repórter, o primeiro nisei a se tornar jornalista no Brasil. Escrevia, com a precisão e o brilho que marcariam a sua carreira e o colocariam entre os maiores repórteres brasileiros, sobre as atividades da Shindo Renmei, cujos grupos de execução – os Toko Tai – já haviam praticado vários assassinatos e prometiam prosseguir em sua tarefa de eliminar todos os que, na colônia, admitissem a derrota do Japão na guerra.

Os fatos, porém, contrariavam a crença dos fanáticos. E o repórter Hideo Onaga dizia a verdade em suas reportagens. Por isso estava marcado para morrer. Mas a ameaça não o impediu de seguir adiante em sua carreira de jornalista, iniciada aos 20 anos, em 1941, na revisão da Folha da Manhã, hoje Folha de S.Paulo.

Morte aos "infiéis"

A Shindo Renmei tinha encontrado campo fértil para semear o terror. Aqui no Brasil, durante a guerra, os japoneses eram confinados no interior, não tinham direito à informação. Foram proibidos de ter rádio. A maioria não sabia português. Para muitos, prevalecia o que sabiam da história. Em duas tentativas de invasão do Japão, ambas no Século XIII, a China teve sua frota destruída por vendavais, os kamikase (vento divino, em japonês). Depois, o Japão partiria para a ofensiva e seria vitorioso quando invadiu a China. Em 1941, durante a 2ª Guerra, os pilotos suicidas que se lançavam com seus aviõezinhos contra a base americana de Pearl Harbour foram chamados de kamikase.

Hideo relembra a história da Shindo Renmei e da primeira ameaça de morte que recebeu e faz um reparo ao que considera um equívoco do jornalista Fernando Morais em seu livro Corações Sujos. A Shindo Renmei não ordenava a ninguém que se matasse por não admitir a derrota do Japão. Simplesmente mandava matar os que considerava "infiéis".

– Podiam até avisar que as pessoas estavam marcadas para morrer. Avisavam e muitas vezes cumpriam a ameaça – completa Hideo.

Não conseguiram alcançá-lo, nem a seu pai, que o preparara para ser brasileiro e bom repórter. Hideo recorda o velho Sukenari, que chegou ao Brasil em 1912, imigrante diferenciado, depois de atravessar os Andes a pé ou em lombo de mula desde o Peru. Era engenheiro naval, mas terminou fundando o segundo jornal escrito em japonês no Brasil, o Nippon Shimbum, em 1933. Já havia, então, acrescentado ao nome um brasileiríssimo José, enquanto a mãe de Hideo, que se chamava Yuki (neve, em japonês), passou a se chamar Maria Lúcia. Não renegava a origem. Era um gesto de integração ao País.

Em troca de vales

Aquele japonesinho que deixava o medo de lado na hora de escrever suas reportagens era, ao mesmo tempo, alvo das ameaças da Shindo Renmei e da admiração dos leitores, os "patrões" que escolheu para toda a vida. Foi por eles que decidiu deixar de lado a carreira de advogado, para a qual se preparara na velha e prestigiada Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Mais do que vocação, a escolha do curso de Direito tinha um sentido muito especial para Hideo: como advogado, seria o seu próprio patrão. Mas, como pretendia formar uma grande clientela, logo percebeu que não seria bem assim:

– Se eu tiver muitos clientes, cada um deles será um patrão.

Optou pelos leitores, distantes e fiéis, patrões que o seguiriam pelas publicações em que trabalhava. Além da velha Folha, Hideo trabalhou nos Diários Associados, Última Hora, revistas Visão, Realidade, A Construção, Quatro Rodas e Mundo Econômico. Foi correspondente da revista Time em São Paulo. Por breves períodos exerceu cargos de chefia, um dos quais como editor-chefe da Gazeta Mercantil.

A opção pelo patrão-leitor levou-o a pedir demissão do primeiro emprego. Num dia de setembro de 1945 chegou à redação da Folha e teve a confirmação de uma notícia que era anunciada havia alguns dias. O jornal tinha sido vendido ao magnata Matarazzo, dono de metade das fábricas de São Paulo. Patrão assim não agüentaria. Deu meia-volta:

– Aqui não trabalho mais.

Como ele, dezenas de jornalistas deixaram a Folha da Manhã. Hideo e quase todos os demais foram trabalhar no Jornal de S.Paulo, que acabava de ser fundado por Hermínio Sacchetta, um dos mais experientes e respeitados jornalistas da época. O jornal não podia pagar os salários. Em vez de moeda corrente, os repórteres recebiam vales para aquisição de mercadorias no Preço Fixo, loja de confecções que era um dos poucos anunciantes. Foi no Jornal de S.Paulo que Hideo publicou suas reportagens sobre a Shindo Renmei. Além de vales do Preço Fixo, recebia ameaças de morte.

"Vá aprender português"

Na ampla sala de seu apartamento no bairro de Higienópolis, em São Paulo, Hideo Onaga define-se como um "velho repórter". Inquieto, apesar da prática diária de ioga, é um rijo senhor de 80 anos. Um senhor jornalista. Não faz mais, claro, aquelas reportagens que lhe renderam ameaças, algumas vezes, e o respeito dos colegas e admiração dos leitores, sempre. Mas não brinca em serviço. Quando lhe telefonei para marcar a entrevista, avisou:

– Tem que ser na parte da manhã, ou no fim da tarde, depois do expediente.

O expediente, na empresa de consultoria de Shigeaki Ueki, ex-ministro das Minas e Energia no governo Ernesto Geisel, começa logo depois do almoço e termina no final da tarde. Hideo já chega ao escritório com a leitura dos jornais em dia. Com Ueki, faz uma rápida análise do noticiário, principalmente o econômico. Trocam idéias. Ueki, que já foi chamado o "japonesinho do Geisel", costuma produzir, com grande rapidez, relatórios e pareceres. Principalmente sobre energia, assunto que, diz Hideo, domina como ninguém.

O texto final, em inglês ou em português, com os convenientes retoques na forma, fica por conta do velho e sempre competente jornalista. Hideo aprendeu a tratar o texto desde seu tempo de copidesque bem escolado na revisão da Folha. É o mesmo texto, na qualidade, dos tempos em que Ueki teve Hideo como assessor especial no Ministério das Minas e Energia e na Presidência da Petrobrás.

Pode-se dizer que o excelente texto do japonesinho que foi revisor de jornal nasceu de uma lição de casa. Dizia-lhe o pai, José Sukenari Onaga:

– Eu sou japonês, você é brasileiro, vá aprender português.

Foi. E aprendeu muito bem. Aos 16 anos teve um conto premiado pela Revista Universal. O primeiro e único conto que escreveu e que mais tarde seria reproduzido pela revista do centro acadêmico, ao lado de outro, de uma colega do curso de direito chamada Lygia – a Lygia Fagundes Telles hoje consagrada como uma das nossas maiores escritoras.

Um capitão jura vingança

O japonês que Hideo aprendeu em casa dava apenas para o consumo doméstico. Do que aprendeu, guardou pouco. Sobraram algumas palavras do carinho materno, por exemplo. Por isso, teve dificuldades de comunicação quando visitou o Japão em 1954, acompanhando o ministro Ueki em visita oficial. Salvou-se pelo inglês. Edwaldo Pacote, colega e discípulo de Hideo na Folha, espalhou uma história que correu redações e mais tarde foi publicada por Ricardo Boechat, por inspiração da irreverência de Otto Lara Resende.

Num restaurante de Tóquio, Hideo resolveu pedir o jantar, em japonês. Otto saiu espalhando: Hideo chamou o maitre, fez o pedido. Apesar da discrição que se exige de um bom maitre, o homem desatou a rir:

– O Hideo chamou o maitre e ordenou: "Neném quer papar".

A história correu redações. Mas não tanto quanto as muitas outras, verdadeiras, que recolheu em sua longa carreira de repórter. Uma das primeiras, ainda nos anos 40, ele foi buscar em Ituverava, interior de São Paulo, onde um esperto capitão da Polícia Militar convenceu uma rica velhinha a lhe passar toda a fortuna. Na verdade, a velhinha era mantida em cárcere privado pelo capitão, cujas espertezas foram reveladas nas reportagens de Hideo. Como sempre, depois de minuciosa investigação, de um paciente trabalho de repórter. Nesse trabalho de perguntar e perguntar, Hideo chegou à zona da cidade. Era zona brava, na época. Tanto que era conhecida como o Paralelo 38, numa alusão à guerra que corria solta na Coréia.

As histórias do Paralelo 38 e das espertezas do capitão renderam a Hideo, além de repercussão entre os leitores, um título de persona non grata conferido pela Câmara Municipal de Ituverava, e uma – mais uma – ameaça de morte do capitão, que algum tempo depois, quando foi condenado a dez anos de prisão, avisou:

– No dia em que sair da cadeia vou matar aquele japonês.

Hideo não se abalou:

– Continuei a fazer as minhas reportagens. No mínimo, tinha dez anos pela frente.

Na cadeia, o ex-capitão não se cansava de repetir a ameaça. Estava certo de que, sem aquelas reportagens, poderia ter desfrutado tranquilamente da fortuna da velhinha. Conseguiu redução da pena para cinco anos. E continuou a ameaçar:

– Quando sair daqui vou acertar aquele japonês.

Hideo foi avisado. Tomou suas precauções, claro, mas logo recebeu outro aviso da direção da prisão:

– Pode ficar sossegado. O homem morreu do coração.

Oswald, vizinho de página

O ódio do ex-capitão era grande, mas em compensação o trabalho de Hideo era cada vez mais admirado. Mário Lobo, secretário da Folha da Tarde (edição vespertina da velha Folha), costumava dizer: – Texto do japonês pode descer direto pra oficina.

Podia. Era bem-cuidado, preciso, sem floreios mas sempre atrativo para os leitores. Nada do linguajar que recorria a expressões do tipo "pavoroso incêndio", "precioso líquido" e afins. Muito menos "pelo contrário", que Mário Lobo definia como barba encravada.

Os que foram chegando depois à redação (um deles fui eu, em meados dos anos 50) tinham Hideo como referência. Entre outros, José Hamilton Ribeiro, Edwaldo Pacote, Washington Novaes.

Pacote lembra, hoje:

– O Hideo não era um repórter policial, mas fazia reportagens de polícia melhor do que ninguém. O segredo estava em não se limitar aos boletins, reproduzir as versões da polícia. Muito menos criar versões próprias, fazer sensacionalismo. Ou romancear histórias de crimes.

Mas seu trabalho, sempre rigoroso, poderia servir para interpretação literária. Foi assim no caso que terminou conhecido como "o crime do poço". Um jovem estudante matou toda a família e jogou os corpos num velho poço abandonado do quintal de sua casa, na Rua Santo Antônio, no centro de São Paulo. Ao lado das reportagens de Hideo o jornal publicava um texto de ninguém menos que Oswald de Andrade.

Não era para qualquer um fazer dupla com um escritor daquele tamanho. Mas além da dupla com Oswald de Andrade, fez outra, de grande sucesso, com o fotógrafo Antônio Pirozelli, uma das primeiras e bem-sucedidas da imprensa brasileira. Pirozelli sabia, além de fotografar bem, farejar notícia. Muitas vezes, numa reportagem, Hideo dividia com ele a tarefa de seguir pistas.

Os casos Volante e Tormin

Foi assim no caso de Luís Volante, que nos anos 50, durante meses, foi um dos mais procurados pela polícia de São Paulo. Era um motorista de táxi, autor de um crime e acusado de vários outros. Fugira depois de matar um colega, por questões pessoais. À fuga seguiu-se uma onda de assassinatos de taxistas, todos atribuídos a ele.

Os jornais publicavam matérias enormes, com detalhes sobre a ação criminosa de Volante. Até que Onaga e Pirozelli entraram na história. Conseguiram chegar ao fugitivo depois de se comprometerem, com o advogado dele, a não revelar seu paradeiro. Um jornal acabava de atribuir mais um crime a Luís Volante, que teria sido localizado no Rio de Janeiro. Isso no mesmo dia em que a Folha da Tarde publicava uma longa entrevista com o fugitivo. Entre as fotos, algumas em que ele aparecia em pontos conhecidos da cidade de São Paulo. Numa dessas, segurando um exemplar da Folha, no qual se podia ler a data.

Para que isso fosse possível, Pirozelli hospedou o fugitivo em sua própria casa, antes providenciando a retirada da família para a casa de um parente. Poucos dias depois, Volante se apresentou à polícia para responder pelo crime que realmente havia cometido.

Hideo e Pirozelli seguiram em frente. Viraram mundo, muitas vezes desmontando ficções jornalísticas, desvendando mistérios como o do corpo de uma menina despachado para São Paulo por trem e que passou meses no depósito da estrada de ferro sem que ninguém o reclamasse. O destinatário era um certo Catão Tormin, sem endereço. Sobre o misterioso personagem se publicavam as mais fantásticas histórias. Até que a dupla Hideo/Pirozelli começou a fazer o caminho inverso ao percorrido pelo que alguns repórteres chamavam de "macabra encomenda". Encontraram, nas matas de Ceres, em Goiás, um agricultor rodeado de filhos.

– O senhor é Catão Tormin?

Era. Em vez da pergunta à queima-roupa – "Você matou sua filha?" –, própria da maioria dos repórteres policiais, Hideo rodeou:

– Quantos filhos o senhor tem?

Resposta: eram aqueles que o repórter estava vendo e mais uma menina que tinha morrido. Catão queria enterrá-la em São Paulo, onde tinha participado da Revolução de 32. Despachou e foi esperar o corpo. Disseram que não tinha chegado, concluiu que se extraviara, voltou para Goiás.

A história foi confirmada na polícia. Ali acabava o mistério e nascia mais uma grande reportagem. Muitas outras seriam feitas. Uma entrevista exclusiva do ex-ditador Getúlio Vargas, que se refugiara numa fazenda do interior gaúcho e se preparava para retornar ao poder pelo voto, nas eleições de 1950, foi obtida graças a um pequeno golpe de esperteza. Mal pisou o chão, Hideo mandou embora o aviãozinho alugado. Não tendo como voltar, teve a entrevista.

Perdido na selva

Quando o general Perón foi derrubado, em 1954, Hideo era um entre dezenas de jornalistas que tentavam, em Buenos Aires, uma entrevista com o ex-presidente, refugiado num navio da marinha paraguaia, no rio da Prata. Enquanto esperava, empenhou-se numa busca paralela. Tentava localizar o corpo de Evita Perón, morta havia dois anos, e que se tornara uma espécie de santa argentina.

Não viu o corpo, guardado a sete chaves, mas conseguiu uma entrevista com o embalsamador de Evita. Um homem estranho, que conservava em sua mesa de trabalho uma cabeça humana embalsamada. Sua obra-prima, não fosse o trabalho feito com o corpo de Eva Perón, que havia morrido com menos de 30 quilos. Foi como se tivesse de "esculpir" o corpo original. Não podia revelar o local do corpo refeito, mas na conversa com Hideo o embalsamador fez uma revelação: perguntou a Perón, que partia para o exílio, o que deveria fazer com o corpo de Evita. Resposta do general:

– Haga Io que quiera.

A única vez em que não conseguiu realizar uma reportagem, Hideo Onaga virou notícia. Em 1950, tentou encontrar um avião da Pan American que caíra na selva amazônica. Com ele e Pirozelli iam dois companheiros do jornal Última Hora do Rio de Janeiro, um dos quais torceu o pé depois de dois dias de caminhada pela mata. Não dava para prosseguir. A volta, penosa, durou dias. Os jornais estamparam manchetes: "Repórteres desaparecidos na selva".

Se fosse hoje, o repórter Hideo poderia ser encontrado nos áridos caminhos do Afeganistão. Buscando, talvez, as razões dessa guerra de alvos tão imprecisos, assim como buscou as razões dos vingadores da Shindo Renmei, que acreditavam cegamente na invencibilidade do Japão. E que por essa crença matavam.

(*) Esse texto foi publicado originalmente na revista Sras.&Srs. (Edição Especial – Ano I – nº 1 – 2001) e aqui reproduzido com a anuência do autor

 
Os impasses de Okubaro

Jorge Okubaro, editorialista do Estadão, teve a vida marcada por diversos impasses. O principal deles, ser brasileiro ou japonês, que trazia desde o berço, julga ter resolvido: fez da língua portuguesa um meio de vida

No epílogo de O Súdito, história da vida do pai imigrante, Jorge Okubaro narra um dos muitos impasses que viveu. Dessa vez, era um casamento com alguém fora da colônia, união rejeitada como heresia:

“O primeiro desses casamentos, o de Seiki (quarto filho), causou um trauma familiar. O fato de sua esposa ser gaijin, considerado intolerável por Massateru e Fussako (os pais), levou ao rompimento entre pai e filho. Este saiu de casa para casar; aquele não permitiu seu retorno. Só quando se constatou a gravidade de sua doença Massateru pediu a Massayuki (primogênito) que procurasse Seiki. ‘Quero vê-lo pelo menos mais uma vez antes de morrer’, disse a Massayuki. Depois de anos de separação, encontraram-se no Hospital Cristóvão da Gama, em Santo André, onde Massateru estava internado à espera da cirurgia. Reconciliaram-se. Foi uma das poucas vezes em que Massayuki viu seu pai chorar aos prantos.”

Impasses iguais a esse povoaram boa parte da vida de Jorge Junzi Okubaro. A começar pela busca de uma identidade. O cotidiano doméstico que partilhava com os pais e sete irmãos contrastava com o mundo lá fora. Em casa, era Junji, ou Jun. Na escola, Jorge, ou Okubaro. Ou “japonês”, se preciso fosse uma associação instantânea.

Um japonês num país de gaijin. A rigor, ele e a família, e toda a colônia japonesa, eram os gaijin do Brasil. Lutando para sobreviver, uma das armas da comunidade era não permitir o ingresso de estranhos em seu seio. Mas, muito pior, foi o cisma que explodiu após o fim da 2ª Guerra Mundial.

Linguagem ambígua

A mãe estava grávida dele, Jorge, em 1946, quando o pai Massateru foi preso pelo Dops, acusado de integrar a Shindo Renmei (Liga do Caminho dos Súditos), formada por imigrantes e descendentes, que sustentava a vitória do Japão na 2ª Guerra. O noticiário dos jornais e das rádios não passava de empulhação, bradavam os fanáticos, cujo fundamento era de inexcedível triunfalismo: o Império do Sol Nascente jamais perdera uma batalha, em 2.500 anos de história. O líder, Junji Kikawa, um coronel da reserva imperial, argumentava ¬– com razão, e registrou a versão em depoimento à polícia – que no documento firmado por Hirohito, diante do general MacArthur não aparecia a palavra rendiçã e muito menos incondicional. “Não passa de um pedaço de papel”, ironizava o ex-militar, que emigrara para o Brasil frustrado por uma forte miopia que o impediu de seguir na caserna. A linguagem ambígua do “Rescrito Imperial”, título do texto da capitulação, favorecia interpretações dúbias. Exemplo: o trecho “a situação da guerra torna-se cada vez mais desfavorável para nós”, na redação definitiva tornou-se “a situação da guerra se desenvolveu de modo não necessariamente vantajoso para o Japão”.

Assim justificada, a Shindo Renmei ameaçava e praticava atos terroristas contra aqueles que reconhecessem que o Imperador Hirohito, filho do Sol, fora posto de joelhos. No auge de sua atuação, concentrada no interior paulista, a organização teve mais de 31 mil suspeitos fichados pela polícia política. Entre associados, contavam-se mais de 100 mil, afora 60 mil simpatizantes. Como saldo definitivo, 23 mortos e 150 feridos. Jorge nasceu em meio a essa conflagração. E o pai decidiu homenagear a Shindo Renmei, acrescentando ao seu registro de nascimento o nome do mentor da ideologia vitorista, Junji Kikawa.

Rotina difícil

Entender como Jorge conseguiu resolver esse, digamos, “pecado original”, fica claro em sua decisão de prestar vestibular para Engenharia da USP, em 1965, aos 19 anos. Àquela altura, com três irmãos economistas e mais uma estudando Direito, atendeu a um antigo desejo do pai, que sonhava com um engenheiro na família. Rachou livros e apostilas, varou noites e fins de semana, mas entrou na Poli. O pai já estava muito doente. Até por isso, sem dúvida, Jorge se superou. Logo que as aulas começaram, arranjou uma vaga no Crusp, conjunto residencial para estudantes, e se transformou em “uspiano” de tempo integral. Cursava o segundo semestre quando ficou sabendo da inauguração, ali mesmo na Cidade Universitária, de uma escola de jornalismo. A namorada, também estudante, com quem viria a se casar bons anos depois, fez sua inscrição. Quando saiu a lista de aprovados, Jorge soube que teria que encarar, em 1967, um segundo curso, na recém-inaugurada Escola de Comunicações e Artes, a ECA.

Imaginou tocar a vida desse jeito, ainda que, para se manter, lecionasse num curso de Madureza, em Santo André. Uma rotina difícil de conciliar, com tantos horários e roteiros para acomodar. Esse impasse, a bem da verdade, continua por se resolver, porque não concluiu nenhuma das duas faculdades.

Acontece que no meio do caminho, em 1968, apareceu uma oportunidade de trabalhar num jornal. Como eram os usos e costumes da época, um colega de madureza, Ricardo Maranhão, informou-o da novidade. As condições propostas eram absolutamente desfavoráveis, mas ele não apenas topou como intuiu que ali poderia surgir um horizonte profissional. Numa época da vida em que se pode fazer escolhas radicais, Jorge aceitou ganhar uma terça parte do que recebia como professor de cursinho. Pior: aceitou trabalhar de meia-noite às 6h da manhã. Sem registro em carteira, ou seja, sem qualquer coisa parecida com estabilidade no emprego.

Militância e prisão

Sua tarefa na Folha da Tarde, que naqueles tempos saía para as bancas, de fato, após o meio-dia, era de “separador de telegramas”. O dia 3 de abril de 1968 assinala o início da carreira jornalística de Jorge Okubaro que, feitas as contas, soma quatro décadas de profissão. Há cinco anos, escreve editoriais para o Estadão. Sua especialidade na página 3, pessoalmente editada pelo dr. Ruy, são os temas econômicos. Pouco a ver com a Engenharia ou as Comunicações e Artes de seu tempo de universitário. Menos a ver, ainda, com lidas noturnas ou a triagem de telegramas. Mas a trajetória que percorreu, assim como exigiu tenacidade, determinação e paciência, foi difícil, longa e sujeita a não poucos acidentes de percurso.

Na FT, centenas de madrugadas depois, Jorge assumiu como editor de Internacional. Em 1971, insatisfeito por alguma razão, pediu demissão, largou a profissão e foi trabalhar como promotor de vendas na Volkswagen, em São Bernardo. Mudança de rota imprevista, refletindo um pouco sua militância política na clandestinidade. Entre 1969 e o início de 1971, tinha participado do POC (Partido Operário Comunista), um dos grupos de esquerda radical que se dedicavam a combater a ditadura militar. Por divergências, saltou fora. Em agosto, foi preso pela Oban: seu nome e endereço figuravam na agenda de um militante, capturado antes. Permaneceu 15 dias na prisão da Tutóia, entre interrogatórios, acareações, ameaças e uma apavorante ausência de informações. Porque não tinha mais vínculos com o POC, acabou transferido para o Dops. Pela lógica, deveria ser posto em liberdade, pois não tinha sido acusado de delito algum. Também por conta de usos e costumes da época, passou outros 15 dias no Dops. Esgotado o prazo, em vez do alvará de soltura, nova transferência, agora para o superlotado Presídio Tiradentes.

Permaneceu dois meses encarcerado, sem que qualquer acusação fosse formalizada. Acabou indiciado em processo na Justiça Militar, acusado de violar a Lei de Segurança Nacional. Em outubro, finalmente foi colocado na rua. Deprimido, triste, rumou direto para a casa da família, em Santo André. A prisão continuou, agora com grades psicológicas. Durante um mês, receando que estivesse sendo vigiado pela repressão, ou que os telefones que viesse a usar estivessem grampeados, ou mesmo por pudor oriental, não procurou ninguém. Parecia lhe bastar o círculo estritamente familiar. Recluso, via os dias passarem. Aos 25 anos, estava diante de outro impasse: o que fazer da vida, sem trabalho e sem futuro?

Um dia, não agüentou a pressão e ligou para a Folha da Tarde. Àquela altura, seria uma possibilidade distante, senão inexistente. Surpreso, ouviu, do outro lado, o colega e redator Marino Maradei informá-lo de que a Direção de Redação estava à sua procura. Para quê? Para oferecer o emprego de volta, simplesmente isso!

Dessa forma inesperada, Jorge retomou sua trajetória de jornalista, como redator de Geral. A FT passara a matutino e o horário de trabalho não era tão ingrato. Meses depois, arrumou outro emprego, na assessoria da Secretaria de Economia e Planejamento. Foi a conta certa de juntar os dois salários e casar-se com Nancy, a namorada da época de escola. Um ano mais tarde, passou à assessoria do Palácio dos Bandeirantes. A vida pareceu se aprumar, pois no ano seguinte foi promovido a subsecretário de Redação, encarregado de coordenar as editorias, ajudando a definir a primeira página e editando, além disso, Local e Nacional. Tornou-se o quarto nome na hierarquia da redação.

Ambição de raros

Veio, então, a célebre greve de 1979, à qual seguiu-se a sua demissão da Folha da Tarde, por ter aderido à paralisação e participado de piquetes. Seu trabalho na assessoria no Palácio não foi afetado. Com tempo livre à noite, por alguns meses participou do ABCD Jornal, que acertou ao apostar no movimento sindical que produziria Lula, mas errou ao acreditar em circulação paga que garantisse a sobrevivência. A experiência durou pouco. “Ninguém pagava pelo jornal”, recorda.

No ano seguinte, reincidindo na tendência de buscar amolação, aceitou trabalhar na rádio Jovem Pan, como editor do Jornal da Manhã. Pegava no serviço às 3h30 da madrugada e não parava de batucar scripts na máquina, até o raiar do dia, quando o matutino entrava no ar. Quatro meses depois, pediu as contas: já não tinha idade para excessos do tipo.

Entre 1982 e 1986, foi editor-executivo do Diário do Comércio. Ao completar 40 anos, em 1986, decidiu colocar em prática seu projeto de vida profissional. Acumulando alguma experiência em jornalismo econômico, que exercitara nos anos anteriores, candidatou-se à revista Visão, controlada pelo empresário Henry Maksoud, conhecido pelo perfil autoritário. Jorge planejava aprofundar-se nesse universo, tornar-se um especialista na matéria, com a ajuda de livros, cursos e do trabalho. Tudo para, um dia, ser editorialista do Estadão. Ambição de raros, até pela imagem de oráculo do pensamento liberal. Mas esses raros, ele sabia, necessitavam de um saber enciclopédico, um domínio das realidades do poder, tudo isso embalado em uma retórica cartesiana. Além de um trunfo pessoal: “Leio editoriais do Estadão desde criança”, garante. Significa que desde os tempos em que a primeira página do jornal não admitia senão assuntos internacionais, nos anos 50, Jorge já consultava os conteúdos da 3.

Apurar matérias para depois transformá-las em capas da Visão ¬– foram mais de 30, em dois anos, ele lembra – serviu de aprendizado valioso, para o qual contribuíram muito os cursos específicos que realizou, de interpretação de balanços (na Trevisan), de economia para jornalistas (na FEA) e de mercado de capitais (na Adeval). Escrever os textos era a parte menos complicada, diz Jorge, que se recorda das discussões acaloradas com Maksoud, um engenheiro de pontos de vista tão assentados quanto dogmáticos. Pelo seu projeto, ficaria dois anos na revista, mas esticou o prazo em dois meses, ao cabo dos quais recebeu um convite para ser repórter especial na sucursal do Jornal do Brasil. Mal teve tempo de esquentar cadeira, pois no início de 1989 recebeu um telefonema de Frederico Branco, que conhecera na Visão. Amigo de Ruy Mesquita, o dono da famosa página 3 do Estadão, Fred o recomendara para integrar a equipe de editorialistas. Usos e costumes, até para esse cargo que impõe certa liturgia, eram iguais aos de um jovem à procura de um estágio: submeter-se a um teste. Jorge foi informado de que havia uma vaga no Jornal da Tarde, e propôs dois temas da cidade sobre os quais escreveria, com roupagem de editorial. Era o teste. Dias depois, recebeu um telefonema. Era Fernão Mesquita, diretor do JT e filho do dono da página 3: “O doutor Ruy gostou e aprovou. Quando você pode começar?”

Brasileiro ou japonês?

Jorge Okubaro, metódico como todo oriental, lembra-se de ter começado a trabalhar num 27 de abril, sendo registrado a partir de 1º de maio de 1989. Durante 14 anos, trabalhou sob o comando de Fernão, no Jornal da Tarde. Quando a família Mesquita se afastou das redações, em maio de 2003, passou para o Estadão.

Assentou raízes na casa, onde trabalha há quase duas décadas. Acredita ter resolvido o impasse que trazia desde o berço: “Eu sou Jorge? Sou Okubaro? Sou brasileiro ou japonês?” A seu ver, ele e seus companheiros de profissão e origem foram radicais ao escolher o jornalismo; em suas palavras, “fazer da língua portuguesa um meio de vida”. O pai teve papel decisivo nessa opção. Depois de sair da prisão, em 1946, Massateru tomou a decisão de deixar o interior e a lavoura, esquecer aquela experiência traumática da Shindo Renmei. Como escreveu Jorge no JT, em 10/2/2001, relembrando aqueles tempos:

“Talvez tenha sido uma lição. Pouco depois desses fatos, ele se convenceu de que sua vida deveria, a partir de então, ser construída no Brasil. Decidiu que seus filhos deveriam falar somente português, em casa, na escola ou no trabalho. Deixou a vida rural de Araraquara, em direção à vida urbana de São Paulo. Sentiu-se imensamente honrado quando, menos de dez anos depois de ter sido preso pelo Dops, viu seu filho mais velho tornar-se oficial do Exército brasileiro. Enfim, podia sentir-se, também ele, um brasileiro, embora não tivesse tido oportunidade de requerer cidadania local.”

 
Imigrante, mulher, jornalista

A vida de Mitsuko Kawai daria um filme. Aliás, vários filmes, tantos foram os traumas que encarou desde que nasceu e enfrentou com estoicismo incomum, um após outro, no Japão e no Brasil – até, aos 54 anos, tornar-se jornalista e iniciar uma trajetória na qual conquistou o domínio das duas línguas, que sabia traduzir indistintamente. Escreveu livros, incluindo a autobiografia intitulada Sob Dois Horizontes, além do confessional Jornalista por acaso.

O primeiro trauma surgiu na primeira infância. Segundo descreve, “quando nasci, em 28/11/1921, era uma menina feia, com cara de menino e de nariz chato, o que deixou minha mãe muito decepcionada. Ainda por cima tinha o cabelo ondulado (...). Era chamada pelas amigas de ‘mestiça’. Minha mãe não gostou e certo dia mandou raspar minha cabeça com navalha. Eu tinha cinco anos. No dia seguinte, a repentina aparição de uma menina careca assustou toda a vizinhança”.

Nascida e criada em Kiryu, a “cidade da seda”, a 100 km de Tóquio, Mitsuko adorava ir à escola, era sempre a primeira da classe. Uma vez, ganhou um prêmio com este tanka (poema curto japonês, de 31 sílabas): “Digno pinheiro/verdes as suas folhas/ainda que o açoitem/o vento e a neve”. Seu professor se entusiasmou com talento tão precoce, e confidenciou ao avô coruja dela: “Mitsuko possui tanta vontade pelo saber que promete ser alguém na vida.”

A crise econômica arrostou a profecia e, aos 12 anos, ela seguiu com a família para o Brasil. Adeus, estudos; adeus, futuro. Em vez disso, puxar enxada o dia todo, “como era duro!”

Ao se casar, então, aposentou as ilusões de adolescente. Sentiu que não iria iniciar vida nova: “Naquela época, o casamento significava um braço a mais na família, por isso o rapaz procurava a moça mais robusta, e a família dele também dava preferência às moças com saúde de ferro e que tivessem muita força. Se era bonita ou inteligente, não tinha a mínima importância”. Quanto à cerimônia, nada de especial: “Não houve festa, nem igreja, nem cartório, nem lua-de-mel, nem aliança. Ele prometeu que mais tarde, quando tivesse dinheiro, compraria a aliança. Já se passaram 50 anos de vida conjugal, e ainda não vi esta aliança”.

Instantes dramáticos

O dia-a-dia se arrastava nos verbos capinar, plantar, derrubar, cozinhar, lavar... cuidar das crianças, tirar água do poço. Mitsuko garante: as mulheres, na roça do seu tempo, trabalhavam duas vezes mais que os homens. “Como trabalhavam!”, recorda nas memórias, olhando para trás como se contemplasse outra pessoa, submissa, passiva, prestativa. Prova disso é a manobra articulada pelo marido, quando conseguiu parar com a faina pesada e foi admitido no escritório da cooperativa. Sem ela saber, foi “contratada” como ajudante de cozinha da única pensão do lugar. O que seria seu salário servia para quitar as refeições que o marido fazia no expediente.

A primeira filha nasceu em 11 de fevereiro, dia em que o Japão comemora sua fundação. Outros quatro viriam. Todos nasceram sem assistência de parteira ou médico. O próprio marido cortava o cordão umbilical e dava o primeiro banho. E 24 horas depois de dar à luz Mitsuko retomava sua rotina de trabalho. Mas trauma maior, mesmo, viria quando se espalhou a notícia de que a guerra acabara. À noite, uma multidão cercou o barraco onde a família morava, exigindo que o marido saísse à porta. Morto de medo, ele avisou a mulher: “Vou sair. Se me executarem, talvez poupem a vida de vocês”, decidiu, entregando-lhe um ’38, com orientação expressa: “Esses homens, que já estão fora de si, são capazes de matar vocês também. Antes que isso aconteça, mate todas as crianças. Não erre. Encoste o cano na cabeça de cada uma e puxe o gatilho. Depois de matar todas, você atire na própria cabeça”.

Foram, ela lembra, os instantes mais dramáticos de toda a vida. Matar os próprios filhos, que amava mais do que tudo naquela vida miserável? Deixou o revólver sobre um armário e abraçou-se às crianças, que dormiam. Depois do que considerou uma eternidade, ouviu pancadas na porta. Era o marido, ensangüentado, quase moribundo, mas vivo. Tinha sido salvo pelo farmacêutico do lugar, que afugentara a turba dando tiros para o alto.

O primeiro emprego real

Várias pragas depois (gafanhotos, borboletas brancas, bichos), que consumiram energia e paciência, a família mudou-se para a capital. O cotidiano difícil continuou. O marido arranjava bicos na rua; ela tricotava e costurava para obter algum extra. Mesmo afogada nos afazeres domésticos, Mitsuko defrontou-se com um impasse. Como acompanhar a educação escolar dos filhos, se não dominava a língua? “A meu modo – escreveu na biografia – eu abria a cartilha da mais velha e começava a estudar”. Descobriu, em seguida, a biblioteca municipal Amadeu Amaral, perto de onde morava, no bairro paulistano do Jardim da Saúde. Resolveu freqüentar o local. Toda semana, pegava livros para ler. “As funcionárias, que no começo me olhavam com curiosidade, tornaram-se minhas amigas. Elas gentilmente me ajudavam a encontrar todos os livros de que precisasse”, relembrou Mitsuko.

Quando se sentiu segura, articulada no manejo do português, dedicou-se a traduzir, para o japonês, artigos que lia em jornais paulistanos. Para sua surpresa, um dia recebeu carta do Diário Nippak, convidando-a para trabalhar, como tradutora e redatora. Era, e foi, seu primeiro emprego real, aos 54 anos!

Nem a família apostou muito. O marido: “Experimente. Se não servir, você logo será despedida”. A filha: “Apesar da idade, a senhora é muito ingênua e inexperiente. Será que dará conta do recado?”

Chegou na redação, apresentou-se e logo recebeu uma pilha de revistas e jornais para traduzir. Claro, escolheria, do material, os artigos que considerasse mais interessantes. Assim se iniciou sua jornada de 12 horas de redação, que se prolongaria, sem férias e sem outros benefícios. Mas estava feliz, estava fazendo aquilo que sempre sonhara, escrever. “Escrevia praticamente 12 horas por dia, mas nunca me cansava”, escreveu Mitsuko. Lia seus textos várias vezes, para corrigir erros, chegava a descer do metrô e retornar à redação apenas para mudar uma palavra que no caminho considerou mais adequada do que a que havia usado. Tanta dedicação despertou a atenção da chefia, que delegou a ela uma tarefa desafiadora: traduzir A Muralha, de Dinah Silveira de Queiroz, para publicação em capítulos diários. Até então, a matéria-prima dos folhetins eram romances japoneses. A repercussão foi absolutamente favorável, e o Nippak passou a publicar traduções de O Guarani, O Lampião. Um dia, foi chamada pelo diretor Toshihiko Nakabayashi e ouviu um elogio que considerou um grande prêmio: “Não tem mais nada para corrigir nos seus artigos, a senhora pode se considerar uma jornalista!”

Sentiu a barra

Do mesmo Nakabayashi, Mitsuko aprendeu as três regras de ouro do jornalismo diário. Segundo suas memórias: “O ponto principal é saber escrever rápido. O acontecimento de hoje tem que ser publicado amanhã, senão a notícia perde o valor”. A segunda lição: “Nunca esquecer que o artigo será amanhã lido por centenas, milhares de pessoas. Os amadores não têm medo de escrever, mas o profissional deve ter o máximo de cuidado para não cometer erro. É questão de senso de responsabilidade”. E a principal: “O jornalista tem que ser imparcial, do começo ao fim. No artigo, não podem entrar a sua opinião, o seu gosto e seu sentimento”.

Depois de quatro anos de Nippak, Mitsuko recebeu um convite do São Paulo Shimbun. Topou. A redação era bem maior, exclusivamente composta por homens. Ela sentiu a barra, lembra: “Eu era a única redatora, uma intrusa no mundo dos homens (...). Soube que existia outro tabu na redação: nenhuma mulher durava mais de três meses. A redação tinha veteranos que já trabalhavam ali havia dezenas de anos. Às vezes, vinha uma cara nova do Japão, com diploma na mão, mas não durava muito. As pessoas da colônia raramente se candidatavam, porque nenhuma delas passava no teste com o redator-chefe, por falta de conhecimento da língua japonesa”. Do alto de seus quase 60 anos, temperados em suor e determinação, Mitsuko se impôs. Trabalhou 11 anos no São Paulo Shimbun, traduzindo, redigindo e, claro, adaptando romances, como Chão Bruto, de Hernani Donato. Editou uma página infantil, onde apresentava fatos importantes da cena brasileira.

Com o marido doente, ela se demitiu do jornal. Passou, então, a escrever livros, em português e em japonês. Viajou ao Japão, em 1985, quando completou 51 anos de Brasil. Emocionou-se ao rever a pequena Kiryu, ao saber que boa parte dos amiguinhos morrera na guerra. E voltou a São Paulo. “Até hoje – explicou no fecho de Sob Dois Horizontes – muitas pessoas me perguntam como consegui ser jornalista numa idade em que muitos se aposentam. Não sei. Pode ser o resultado de muita força de vontade e perseverança. Pode ser que tenha tido sorte, circunstâncias que me favoreceram, ou destino. Talvez alguma coisa que estava oculta dentro de mim e que veio à tona com a primeira oportunidade. Talvez. O certo é que tudo isso, como água que corre para terreno mais baixo, aconteceu naturalmente.”

Mitsuko Kawai morreu aos 76 anos, num acidente de trânsito, em fevereiro de 1998.

 
A marca da fumaça

Rokuro Koyama mostrou criatividade ao fazer um jornalzinho a bordo do Kasato Maru. Treze anos mais tarde, usou da mesma criatividade para concretizar seu sonho. Morando no interior, teve a idéia de rifar o terreno de 20 alqueires onde trabalhava, mais um burro, uma carroça, um machado e uma foice.

Foi à luta. Percorreu os núcleos de japoneses, propagando seu plano de lançar um jornal que tivesse notícias frescas (os da capital demoravam mais de uma semana para chegar) e que mostrasse a dura vida dos imigrantes na lavoura. Em dois meses, vendeu 150 bilhetes e arrecadou 7 contos de réis. Viajou à capital para comprar equipamentos. Ao retornar, constatou que estava zerado de finanças. Mal teve tempo de se angustiar, pois apareceu um japonês a cavalo em sua casa: “Você é Koyama? Sou Miyamoto, da colônia Santa Olímpia. Um amigo me contou que você vai lançar um jornal em Bauru, mas precisa de mais 2 contos. Bem, tenho uma economia e lhe trouxe 1 conto e meio”.

Esse anjo chamado Miyamoto disse mais. Que consultara a mulher e esta concordara com o gesto: “Ela me disse: sim, vamos emprestar, o dinheiro é feito para ajudar as pessoas que estão precisando”.

Outros tempos, quando se oferecia dinheiro a um desconhecido. Depois que se despediram, ainda deslumbrado, Koyama comentou com a família: “Será que ele é gente mesmo?”

Bauru ficou pequena

O Seishu Shinpo (Notícias de São Paulo) circulou pela primeira vez no feriado da Independência de 1921. Não foi bem um lançamento de gala, porque os textos saíam borrados, a impressão era irregular. O cônsul em Bauru ironizou: “Não vai acabar no terceiro número. Vai acabar é no segundo!” Solidário, entregou a Koyama 200 mil réis para ajudar nas despesas. O Shinpo tinha quatro páginas, com sete colunas, e seu tamanho equivalia a um quarto da página do Estadão. Ao cabo de um ano, tirava 500 exemplares; outro ano mais, e a circulação estava em 800 jornais. Novos núcleos agrícolas se espalhavam, o que significou uma enxurrada de anúncios para o único jornal que tinha os leitores-alvo: “Esses anúncios eram cinco vezes mais caros que os comuns e representavam uma grande renda”, escreveu Koyama em suas memórias. Em fevereiro de 1923, um grande terremoto sacudiu o Japão, o pior do século. Ligado nas notícias, Koyama chegou a tirar edições extras e, num gesto ousado, lançou uma campanha de donativos para as vítimas entre os leitores japoneses das linhas Noroeste e Sorocabana. “Os leitores ficavam agradecidos com as notícias que publicávamos. Senti a emoção de ser jornalista”, lembrou. No embalo do negócio, pensou grande e decidiu importar tipos com caixas de acondicionamento, guilhotinas. O jornal, aí sim, sairia impresso de verdade. A encomenda chegou em 40 dias, e Koyama repetiu o itinerário de viagem pelas várias colônias nipônicas, agora para garantir o dinheiro da “modernização”. Garantia vários anos de assinatura a quem colaborasse, pediu ajuda a produtores de algodão, passou a sacola em geral. O Shinpo estourou no interior. Logo saiu com um Anuário dos Japoneses da Noroeste, levantamento dos negócios de toda a região, logicamente recheado de anúncios com fotos dos comerciantes. Estes, bem a propósito, remetiam exemplares do jornal a parentes que tinham ficado no Japão, para demonstrar prosperidade.

Em 1930, com nove anos de existência, o Shinpo passou a circular duas vezes por semana. Ficou, assim, à frente da concorrência da capital, oferecendo notícias mais quentes da guerra da Manchúria, que teve o Japão como um dos litigantes, e transformando os anuários em gorda fonte de receita. O jornal atingiu a marca de 8 mil assinantes, consolidando-se como traço de união da colônia. Nessa altura, Koyama importou 800 mil tipos e adquiriu nova impressora. Bauru ficou pequena para ele e seu jornal. A receita obtida com os chamados projetos especiais (anuários, edições comemorativas) era limitada pelo modesto calibre, à época, dos empreendedores japoneses. Projetando uma circulação diária para um futuro próximo, amadureceu a idéia de alcançar a capital e juntar-se aos concorrentes. Realizou a mudança no final de 1935. Tanta efervescência tinha a ver com seu modo de administrar a família. A atitude xiita de reprimir relacionamento dos filhos com gaijin, isto é, não-japoneses, não teve guarida em sua casa. Shizuko, uma das filhas, casou-se com o brasileiro Dario Almeida; Yoshiko, mais velha, com um inglês da Light&Power; o primogênito Toshinobu preferiu uma alemã. É verdade que Toyama e a mulher torceram o nariz para Yoshiko, mas fazer o quê?

A mudança para São Paulo oxigenou o Shinpo, que em um ano passou a rodar três vezes por semana. Um serviço especial foi criado para os leitores: uma escuta de rádio era convertida em texto e transmitida, online, aos leitores que ligassem. Entre 1936 e 41, teve 10 mil assinantes. Mas a guerra no mundo caiu como uma bomba sobre Koyama e o seu Shinpo. Ele lembra:

Passo para uma nova vida

“Em maio de 1941, o nome do Seishu Shinpo não estava na lista dos jornais que seriam fechados. Quem sabe era uma estratégia do governo permitir que pelo menos um sobrevivesse? Não acreditei muito nisso, mas pedi ao correspondente no Rio que se informasse. Eu mesmo fui para o Rio. Chegando lá, verificamos que o nome do jornal constava do decreto proibitório, apenas deixara de ser publicado devido a alguma falha”. Em julho de 1941, depois de duas décadas de luta, o jornal de Koyama fechou definitivamente.

Na manhã do dia 14 de agosto de 1945, Koyama tentava captar a Rádio de Tóquio. O som era péssimo, e ele mais intuiu, do que ouviu: o Japão perdera a guerra. Em seu diário, escreveu: “Senti o sangue congelar nas veias. Fiquei diante do rádio por dois ou três minutos em estado de choque, como se tivesse perdido a consciência. Eu e minha esposa não comemos nada naquele dia, nada nos passava pela garganta. Choramos a noite toda, e o dia amanheceu sem que tivéssemos tirado sequer um cochilo”.

Nessa noite, dia 15, depois de até pensar em suicídio, Rokuro Koyama chamou os filhos e, com eles, acendeu uma fogueira que consumiria a coleção inteira do Seishu Shinpo, de setembro de 1921 a julho de 1941. “Minha vida estava naqueles jornais. Fiquei olhando a marca escura que a fumaça deixou na parede branca. Era o símbolo do meu passado, que também desaparecia junto. Fiquei mais aliviado, meu desespero e tristeza diminuíram. Eu estava com 60 anos. A partir daquele dia, eu dava o primeiro passo para uma nova vida. Como se eu nascesse de novo. Mas nada de arrependimentos”.

Com o vírus de jornalista nas veias, Koyama produziu o livro História dos 40 anos de imigração, em 1949. Vendeu 2.400 exemplares. Em 1956, iniciou suas memórias, trabalho que concluiu em dois anos, nos quais produziu três mil páginas. Daí para a frente, virou uma vez mais sua bússola criadora e dedicou-se por inteiro a pesquisar tupi-guarani, tendo lançado dois livros nos anos 70. Esse neto de samurais – pelos dois lados paternos – faleceu aos 90 anos, em 1976. No fecho de Koyama Rokuro Kaisoroku, o livro de suas memórias, ele conta como se recuperou, após longos padecimentos que lhe tiraram a visão e a audição: “Interrompi o soro e os remédios. Comecei a beber, primeiro muita água (...). Gostava mesmo era da água da chuva. Quando chovia, enchia os baldes e bebia a água deliciosa (...). Este imigrante do ‘Kasato Maru’, sujeito cego, surdo e velho – estou com 90 anos – encerra aqui suas memórias, na expectativa de que alguém escreva a história dos 70 anos da colônia japonesa no Brasil”.

 
Ânsia de saber

Que José Yamashiro foi um grande jornalista, sua trajetória por diversas publicações deixa claro. Mas há um detalhe que o instala num olimpo especial: o do domínio soberano de duas línguas antípodas, português e japonês.

É senso comum, garantido, que o japonês não se dá bem com consoantes. Incapaz de falar Brasil, gagueja um desajeitado Bu-ra-ji-ro. Hoje, sabe-se que a questão é mais em cima, tem a ver com o cérebro. É que as letras do alfabeto, unidas em palavras, formam uma frase que configura a mensagem. O ideograma, ao contrário, é a própria mensagem. Onde entra o cérebro de Yamashiro nessa história?

Segundo o professor Yoshihiko Kaneoya, autor de Aspectos Etimológicos e Lingüísticos da Escrita Ideográfica Kanji, o hemisfério esquerdo do cérebro “processa o pensamento lógico, analítico; reconhece as partes que constituem um todo”. O professor apresenta, em seguida, o outro lado: “O hemisfério direito é responsável pelo pensamento abstrato, criação, imaginação. É o que combina as partes do todo, reconhecendo as relações entre essas partes. É o lado artístico, poético”.

Traduzindo: a linguagem ocidental é trabalhada no lado esquerdo do cérebro, aquele que junta as partes e forma o todo; a oriental japonesa, que tem nos ideogramas kanji sua estrutura principal, é trabalhada no hemisfério direito.

O neurologista brasileiro Raul Marino Júnior, cirurgião e professor da USP, autor de O Cérebro Japonês, acrescenta: “...tarefas fonéticas solicitam de preferência o hemisfério esquerdo, enquanto que tarefas puramente visuais ou ideográficas solicitam preferencialmente o hemisfério direito”.

Tradutor juramentado de japonês, redator de texto impecável em português, dominando também o inglês, Yamashiro escrevia, falava, interpretava, ouvia e lia essas línguas com perfeição. Ao se conhecer sua formação, fica claro que se tratava de um superdotado, para empregar uma nomenclatura recente. A mobilização de áreas diferentes do cérebro para se expressar neste ou naquele idioma é apenas um dos aspectos da sua inteligência privilegiada.

Nasceu em Santos, primogênito de uma prole de dez, mas foi criado no meio do sertão, filho de imigrantes de Okinawa. O registro de nascimento (20/4/1913), lavrado em Prainha (hoje, Miracatu, às margens da BR-116), classificou o bebê como sendo de cor “parda”.

O pai, Riukiti, enfurnado no fim de mundo que era o Vale do Ribeira do início do século passado, tinha o hábito de escrever um diário. Registrou, nele, o embate inclemente proposto pela natureza (enchentes, pragas, vendavais, insetos de todos os calibres e picadas). Muitas décadas depois, o filho escreveu Trajetória de duas vidas – uma história de imigração e integração, juntando as duas biografias. Criança, falava no dialeto okinawano com os pais. Antes de ser alfabetizado, foi iniciado nos kanji por um professor também imigrante. Só aos 9 anos foi matriculado numa escola rural paulista, distante seis quilômetros pela linha de trem, fora uma travessia de balsa e um trecho de mata. No ano seguinte, uma escola de japonês foi construída pela comunidade onde a família Yamashiro e outros imigrantes moravam, e ele também passou a freqüentá-la.

Estudar na cidade

Ao entrar na adolescência, o pai o escalou para trabalhar no bananal. Mais crescido, já adolescente, passou a cuidar da carvoaria, muito longe de casa, com a função de fechar a chaminé de cada forno quando sentisse o carvão chegar ao ponto. Acordava várias vezes de madrugada para cumprir a tarefa, que registrou num texto intitulado Monólogo. Perdeu o papel, escrito em ideogramas kanji. Muitos anos mais tarde, reconstituiu, em português, aquelas aspirações juvenis:

“Encontro-me só neste casebre dentro do mato. É noite. Silêncio, só entrecortado pelo cricri de grilo solitário que se esconde no meio da folha de juçara que cobre a cabana. Devem ser 11 horas. Sem relógio, artigo de luxo, adivinho a profundidade da noite. Durante o dia trabalhei no forno, de onde retirei todo o carvão ainda quente, no ponto para ensacamento e posterior embarque. Como sempre, estava um calor de suar até os ossos, sujo de carvão e cinzas no rosto e em todo o corpo. Depois do banho, comi o que sobrou do almoço: feijão, arroz e palmito frito na banha. Gostaria muito de sair deste sufoco. Chega dia, passa noite, trabalho mais trabalho. No meio do mato. Papai encontrou nesta atividade um meio de se safar da grave crise financeira que veio piorando de ano para ano”.

“Já por duas vezes pedi ao papai que me deixasse estudar na cidade, Santos, ou São Paulo. Mas ele respondeu que era absolutamente impossível nas circunstâncias atuais, pois não tinha condições financeiras de custear os estudos. Precisava esperar a melhoria da situação econômica e, ainda, conseguir um emprego para mim. Eu trabalharia para custear pelo menos parte das despesas da vida na cidade e, se possível, dos estudos”.

“Com 16 anos, tenho forte vontade de estudar para encontrar um lugar ao sol. Não sei bem nem o que estudar. Minha grande aspiração consiste em escapar desta situação de atraso nos estudos. Do jeito que estou, vou acabar analfabeto, pois o curso primário não me alfabetizou bastante para ler jornal ou livros. Quanto ao japonês, pelo menos comecei a ler, embora mal, os jornais editados em São Paulo. Os kanji aprendidos em cursos rápidos me possibilitam compreender expressões, mesmo quando não consigo ler, pois posso decifrar o sentido. É por isso que espero com ansiedade e até impaciência os semanários japoneses que chegam de trem no meio da semana. Por outro lado, em Cedro, dificilmente se encontra algum livro para leitura. No ano passado, caiu nas minhas mãos um exemplar de Kento Shugi (Ideologia do esforço), escrito por um senhor Ichizaemon Morimura, ao que parece um empresário de sucesso. É uma obra que estimula os jovens a estudar e porfiar para progredir na vida. Ensina com muitos exemplos como a aplicação ao estudo e ao trabalho honesto contribui para o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser humano”.

“Como desejo sair deste fundo do poço, de onde vejo algumas estrelas brilhantes, mas perdidas lá no alto infinito...”

Frente de batalha

O pai, reconhecido, deixou gravado no diário, a respeito dessa época:

“ ...aos 14 anos já estava crescidinho, magro e alto para filho de japonês. Foi quando começou a trabalhar na carvoaria. Não largava de livro que lhe caísse nas mãos. Tinha muita vontade de estudar na cidade. Eu queria atender, mas me encontrava no fundo do poço das dificuldades financeiras, não podia nem pensar em mandá-lo estudar em São Paulo. Disse-lhe para esperar mais um pouco, ter paciência. A partir de 1928, passou a ajudar-me mais no bananal. Ao meu lado plantava mudas de bananeira, transportava bananas de carroça, até a estrada de ferro, onde o trem parava para carregar os cachos amontoados ao lado da linha.”

“Não posso esquecer o seu auxílio na carvoaria e no bananal. Devo destacar a coragem por ele demonstrada aos 14-15 anos, contrariando sua aparência franzina. Os seis fornos produziam 600 sacos de carvão por mês. O trabalho de maior responsabilidade era permanecer sozinho no casebre construído no meio da selva, onde se ouvia a gritaria de bugios dia e noite, e constava haver onça rondando por perto. Ele, José, acordava a qualquer hora da noite para fechar a chaminé do forno que estava no ponto para formar o carvão (...) Mesmo armado com uma espingarda, para um garoto de 14 ou 15 anos a tarefa exigia muita coragem. Acredito que só uma pessoa com profundo senso de responsabilidade poderia se desincumbir de uma tarefa dessas, num ambiente tão rústico, desabitado e desprotegido.”

O sonho de mudar para a cidade se concretizou no ano seguinte, quando o pai o levou até São Paulo, para conversar com Sukenari Onaga, jornalista que atuava na Sociedade Japonesa de Beneficência, a Dojinkai. Graças a ele, José foi admitido como auxiliar de escritório na Dojinkai. Arrumou vaga num pensionato e inscreveu-se no curso de português que funcionava ali mesmo – “meu português deixava muito, mas muito mesmo, a desejar; conhecia um pouco melhor o japonês”, escreveu na biografia. Entre os professores, o pintor Tomoo Handa, autor do alentado O Imigrante Japonês, o mais amplo levantamento da vida brasileira da colônia a partir de 1908. Quando sentiu segurança, matriculou-se num curso de admissão ao ginásio, prestou exame e foi aprovado.

Em 1932, estudando e trabalhando, alistou-se como voluntário no Movimento Constitucionalista e por três meses, até o armistício de 1º de outubro daquele ano, esteve mobilizado numa das frentes de batalha. Essa participação, por iniciativa própria, demarcou sua cidadania brasileira, se é que ele tinha alguma dúvida. O pai, Riukiti, escreveu em seu diário, a respeito de José:

“De constituição física não robusta, não deveria se aplicar com excessivo esforço aos estudos. Sempre achei que, mesmo sendo inteligente, de nada adiantaria se não gozasse de boa saúde. Por isso, achei uma leviandade ele tomar parte na revolução. No entanto, ele terá as suas razões para tomar decisão tão ousada. Apesar de nossa extrema preocupação como pais, pensamos: uma vez que partiu para a guerra, deve agir dignamente, a fim de não manchar o nome de cidadão nipo-brasileiro”.

Nas férias do fim de ano, visitou a família em Cedro e presenteou o pai com o capacete de ferro que tinha usado na revolução.

Parceria com Hideo

Três anos depois, diplomou-se bacharel em Ciências e Letras, após curso ginasial de cinco anos. Não tinha a menor idéia sobre que faculdade tentar. Pensou em Medicina, optou por Química – uma das primeiras turmas da USP –, que largou no segundo ano, por estafa. De perfil marcadamente workaholic, buscava recuperar o tempo perdido: corria atrás de mais cursos, não desperdiçava chances de acumular empregos, ou mesmo bicos. “A sensação daqueles anos é de constante falta de tempo, a pressa de recuperar o atraso nos estudos”, escreveu o jornalista.

No início de 1947, já casado com Aya, irmã de Hideo Onaga, Yamashiro aceitou o convite do cunhado para tocar a parte portuguesa do recém-lançado Jornal Paulista. A proposta do novo veículo era esclarecer a colônia sobre quem ganhara a guerra. Em suas memórias, Yamashiro estima que 90% dos imigrantes residentes no Brasil não aceitavam a versão da rendição e apoiavam o terrorismo da Shindo Renmei. Foram tempos difíceis, recorda:

“A redação, na rua Bueno de Andrade, recebia freqüentes ameaças de ataque e mesmo de morte. A polícia política colocou um guarda na entrada do prédio”.

No fim do ano seguinte, trocou de redação e foi para a UPI, na av. Liberdade. Dois anos depois, mudou-se para a Reuters, que funcionava no mesmo prédio da Folha da Manhã. Ali se iniciou sua transição para a grande imprensa brasileira. Em 1952, herdou o posto de revisor na Folha do cunhado Hideo, que tempos depois o levaria para a revista Visão, onde começou em maio de 1954. “Eu não podia imaginar que estava começando uma nova e importante fase da minha vida de jornalista, ganhando um bom salário para os padrões da época. E nem que permaneceria no emprego durante 14 longos anos”, conta Yamashiro, que entrou como secretário geral e chegou a chefe do Departamento Editorial.

A parceria da dupla seria revivida numa nova publicação, a revista Mundo Econômico, patrocinada pela então poderosa Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC). Depois, Yamashiro editaria Indústria e Desenvolvimento, para a Fiesp. Foi seu último registro em carteira, com baixa em 1980. Tímido, avesso aos holofotes, participou das discussões travadas no Sindicato dos Jornalistas, logo após o assassinato de Vladimir Herzog, chegando a presidir uma das assembléias. E, durante os terríveis anos de chumbo, acolheu Massafumi Yoshinaga, integrante de uma organização terrorista, que acabou morto. “Minha família concordou em abrigá-lo nos fundos da residência, onde poderia ficar mais seguro, sem dar na vista. Uma noite, ele saiu silenciosamente para destino ignorado. Eu nunca mais soube dele”. José Yamashiro morreu, aos 92 anos, em agosto de 2005.

 
Uma vida em quadrinhos

A vida, para Julio Shimamoto, é uma HQ, preferencialmente de terror, gênero no qual se tornou mestre, e como Mestre é reverenciado por aficionados do gênero. Aos 5 anos, em 1944, ganhou os primeiros gibis do pai. Ficou fissurado, ali mesmo começou a rabiscar desenhos imitando o que tinha visto nas revistas. A família vivia em Borborema, interior paulista, próximo à divisa com Mato Grosso, região onde disputas de terra provocavam confrontos violentos entre jagunços e posseiros. O pai imigrante administrava uma fazenda. Na escola, para onde foi aos 7 anos, a violência o pegou de frente. Ele mesmo conta:

“Em 1947, fazia apenas dois anos que a 2ª Guerra Mundial tinha acabado, e sofri violenta perseguição por parte de um grupo de alunos delinqüentes. Isso acontecia na hora do recreio e na saída da escola. Empurravam-me para o meio de um “corredor polonês” e enchiam-me de chutes e pancadas. Quando disse para meu pai que sairia da escola, ele começou a contar-me a história de nossos ancestrais samurais, além de ministrar-me aulas práticas de artes marciais à noite, depois que voltava do campo, no intervalo para o jantar. Instou para que eu reagisse às provocações, e que não me envergonhasse de ser filho de japoneses. Entenda a minha confusão: sendo brasileiro, ser perseguido como “estrangeiro” aos 7 anos de idade! Papai nasceu em Shingu, província da Wakayama. Depois de completar seus estudos de contabilidade, veio para o Brasil, em 1927, cinco anos depois de seus familiares.”

Episódios da infância como esse tiveram influência decisiva no futuro. Certa vez, um matuto de maus bofes praticou uma tocaia contra Kioichiro, o pai, que escapou por pouco. Entre os empregados da fazenda, no entanto, o clima até que era amistoso. O problema era a guerra sem lei pelas terras da região.

Em casa, o menino Julio curtia os desenhos, e ficou eufórico quando ganhou de uma prima dois almanaques de 300 páginas, Tico-Tico e Globo Juvenil, de grande circulação. Kioichiro, o pai, recebia o Estadão, e o filho ia direto na página de tiras, para acompanhar Mutt&Jeff. Enturmado na escola, passou a trocar gibis com os coleguinhas e chegou a montar uma coleção respeitável para alguém exilado no fundo do sertão. Não demorou para que a paixão por HQs prejudicasse seu rendimento escolar. O pai nem precisou investigar para descobrir o motivo e, severo, resolveu a questão de um jeito que lhe pareceu definitivo: queimou as revistas numa fogueira.

Duplamente reprovado

“Aquilo foi terrível – lembra Shimamoto – pois quase a metade dos gibis não me pertencia, era de meus amigos. Mesmo assim, continuei lendo escondido. Guardava as revistas num buraco, fora de casa, coberto por um pedaço de telha de amianto, e camuflado com terra e galhos secos. Até que um dia alguém que conhecia meu segredo surrupiou meu acervo!”

A permanência no extremo oeste paulista não se prolongou por muito mais tempo. A região era violenta, lei e ordem não passavam de letra morta. Em 1953, o chefe da família decidiu partir para a capital, pois perdera o emprego de administrador. Fixou-se em Ferraz de Vasconcelos, tocando uma granja, sem direito a descanso remunerado. “O trabalho era sem domingo ou feriado”, conta Shimamoto, “porque as aves tinham que ser alimentadas todos os dias”. Meio ano depois, mudança para Santo André, onde o pai foi trabalhar como vigia da fábrica da Kolynos e do Biotônico Fontoura. O filho Júlio, 14 anos, arrumou um emprego e, com a idéia amadurecida, planejava tornar-se desenhista publicitário. Começou bem, para um iniciante: aos 16, empregou-se no departamento de promoções da Sears. Imaginava trabalhar com prancheta e lápis de desenhar, mas foi mesmo utilizado como office-boy. Pediu as contas.

Dois meses depois, pasta debaixo do braço, bateu na porta do ilustrador Miguel Falcone Penteado, que dirigia uma editora. Na pasta, levava A Conquista do Acre, contada em quadrinhos. Foi duplamente reprovado, pela má qualidade dos desenhos e pelo roteiro que reduzia os bolivianos a um degrau inferior. Falcone, paternal, deu-lhe força, recomendou que retornasse quando sentisse mais firmeza no traço. Dito e feito. Quando preparou uma coleção nova, de desenho mais elaborado, mereceu elogios e um convite, para cuidar da série Acredite se quiser, página de revista que pinçava fatos ditos extraordinários, daí o título.

“Senti um frio na barriga”, lembra Shima, que topou o desafio e se deu bem. Logo recebeu novas encomendas. Criou uma HQ de legítimo terror, intitulada Satanásia, a Mulher do Diabo. Passou a desenhar para revistas infantis, contando aventuras de palhaços que faziam bastante sucesso na televisão, Fuzarca & Torresmo e Arrelia & Pimentinha. Em seguida, o primeiro número do Capitão 7, outro sucesso no vídeo. Encontrara, enfim, seu futuro, uma carreira a seguir.

Colonialismo econômico

Hoje, rende comovido tributo à HQ:

“Para mim, embora o quadrinho nunca tenha significado um meio confiável de sustento, sempre me proporcionou os melhores momentos da minha vida. Foi importante para a formação não apenas artística, mas também da minha personalidade, sobretudo por fortalecer a minha auto-estima.” (Entrevista a Wellington Srbek, pesquisador de quadrinhos em Belo Horizonte.)

Shima poderia ter ido longe, de todos os pontos de vista. Mas, se auto-intitulando “caipirão”, nunca se sentiu tentado a emigrar. Travou a batalha das HQs aqui mesmo. Só que o setor nunca se fortaleceu, por causa da concorrência hegemônica do exterior. Os heróis americanos, Mandrake, Marvel, Fantasma, Zorro e muitos outros, jamais perderam a banca. E, dentro do Brasil, grandes editoras sufocavam quem ousasse mostrar a cara, caso da Outubro, criada nos anos 60 para veicular exclusivamente criações nacionais. Um núcleo de produção de quadrinhos nacionais em forma de cooperativa foi fundado no Rio Grande do Sul, com apoio explícito e público do então governador Leonel Brizola. Quando o golpe militar calou o País, a HQ nacional calou junto, posta no mesmo embornal dos partidos de esquerda. Shima, com diversos companheiros, foi acusado de comunista.

Ele sabe, desde sempre, que o ponto crítico reside no colonialismo econômico. “As editoras de livros – explica na mesma entrevista a Srbek – preferem investir em autores estrangeiros consagrados, salvo exceções. Essa fórmula é adotada também no setor de quadrinhos – basta uma simples olhada nas estantes das gibiterias, lotadas de publicações americanas, européias e asiáticas (sobretudo japonesas)”. Os mangás nipônicos viraram coqueluche mundial – “fazem sucesso por terem enfoques e narrativas diferentes dos comics americanos, que usam muito texto nos baluns. No mangá, usam-se longas seqüências de cenas mudas, como nos filmes, sem muito bla-bla-blá. Esses leitores foram inicialmente fisgados pelos animes (desenhos animados japoneses). Hoje, é fenômeno mundial. Os coreanos e os chineses de Taiwan e do continente também estão produzindo seus mangás, começando a lograr algum sucesso internacional.”

O que salvou Shima da vala comum onde tombaram legiões de quadrinhistas foi seu traço inigualável, pessoal, reconhecível neste mais de meio século de prancheta e pincel. Ele avalia sua posição:

“Muitos especialistas dizem que meus desenhos se destacam pelo dinamismo e violência coreografada nas cenas de ação. Não fui influenciado pelos jagunços que conheci na infância, uma vez que nunca os vi em combate. Mas os gibis, as narrativas sobre samurais, e minha posterior reação contra meus agressores, incentivado por papai, sem dúvida acabaram influindo em meus trabalhos”.

Os bons vão para fora

Em 1972, mudou para o Rio de Janeiro, e por muitos anos a HQ ficaria reduzida a coadjuvante em sua vida, pois a prioridade passou a ser o trabalho na publicidade, na agência Caio Domingues. Voltaria a desenhar em 1995 e a partir daí não abandonou mais o que chama de sua “cachaça”. Refugiado em Jacarepaguá, toca projetos de HQ, com calma e método orientais. Compara sua arte à do jogador de futebol, na perspectiva do mercado de trabalho. Quem é bom mesmo vai para fora, Ziraldo e Maurício de Sousa, duas exceções, ganham muito bem, e “os provincianos como eu, caipirão, ficarão por aqui, envelhecendo”.

Aos 69 anos, o Mestre reconhece um certo desencanto quando olha ao seu redor. “Meus filhos só leram quadrinhos na infância, lembra. Hoje, nem lêem os quadrinhos que desenho. Quanto às crianças de hoje, de todos os extratos sociais, têm acesso aos computadores nas escolas e nas lan-houses, ampliando seu lazer e ocupando seu tempo ocioso. Isso faz com que decresça progressivamente a venda de gibis, ano após ano”. É apenas um instante, porque em sua oficina, como designou seu estúdio, dispara projetos, um atrás do outro. Comemorando o centenário da imigração, desenhou a História da Imigração Japonesa no Brasil/Banzai em Mangá, com roteiro de Francisco Noriyuki Sato, editada em livro pela Associação Cultural Saúde, de São Paulo. Produziu duas histórias vividas por seus pais, dramatizando fatos e personagens do tempo de criança. Uma delas está nas bancas, lançada pela Editora Escala. Outra, encomenda da revista Front – Via Lettera, será lançada 6ª.feira, dia 20 de junho.

Shima pretende seguir adiante. Diz, com convicção: “Ainda não fiz a minha agaquê preferida. Lembro-me sempre do que disse a minha avó. Tenho vontade de viver mais um pouco, de verdade, ainda que provinciano e matuto”. O jeito de manter o entusiasmo está na leitura dos fanzines, edições de HQ alternativas: “Gosto dos fanzines, me fazem recordar meus inícios de quadrinhista inseguro e esperançoso. Procuro manter ainda essa inquietação de principiante. Repudio o conformismo. Ensinou-me a falecida avó que quando tudo fica fácil, é porque se está prestes a morrer, se já não morreu”, registrou tempos atrás ao site Areia Hostil.

 
Os grandes momentos de Matu

São mais de 40 anos, quase meio século, que as lentes de Matuiti Mayezo, o Matu, vêm documentando a vida paulistana, ele que só passou por duas redações. A primeira foi a sucursal da Última Hora do Rio, seu batismo jornalístico, em 1965. Enturmou rapidinho com os colegas nas coberturas e logo estava vendendo ou fazendo frilas para Correio da Manhã, France Presse. Os tropeços da vida o ensinaram desde cedo a ir à luta, e não é por outra razão que, aos 77 anos, Matu continua na ativa, hoje na Folha de S.Paulo.

Dos pais, sabe muito pouco, o suficiente para dizer que, anos depois de desembarcarem em Santos, vindos do Japão, tomaram outro navio rumo a Buenos Aires. Deixaram a prole para trás. Matuiti, nascido em 1931, e o irmão foram criados pelos avós, que cultivavam legumes numa chácara da cidade. Ele se lembra de crescer numa minicolônia japonesa, com seis famílias vivendo nessa chácara. Veio a guerra e a expulsão dos estrangeiros de nacionalidade inimiga da faixa do litoral. O avô tinha conhecidos em Avaré, no oeste do Estado, e a família se transferiu para lá – sem poder levar nada, pois os bens tinham sido expropriados. Avaré foi a primeira etapa, depois, Santa Cruz do Rio Pardo. A guerra acabou, as restrições de ir e vir caíram, e Matu decidiu sair da roça, tentar a vida em São Paulo. “Ou estuda ou morre”, ele se lembra de ter ouvido do avô, quando era ainda um adolescente.

Sábio conselho, que o jovem nisei, aos 19 anos, seguiu em parte. Na capital, matriculou-se numa escola de comércio, que largou no segundo ano. A essa época, conseguira um bico num estúdio fotográfico da Moóca, avenida Álvaro Ramos. No início, ficava apenas observando o trabalho. Mais tarde, aprendeu a retocar negativos. Não demorou muito e estava apto a disparar flashes de 3x4, 6x9 (de passaportes) e até fotos de casais em trajes cerimoniais. Virou o popular lambe-lambe, em busca de um futuro. Até que um dia conheceu um fotógrafo da McCann Erickson, que o convidou para ajudá-lo na agência, e ele topou.

Lamarca, Joelma, Lula...

“Foi o primeiro degrau da escadinha”, lembra Matu, que do alto de seu percurso de 50 anos atrás de uma câmera lembra os grandes momentos. São, naturalmente, coberturas que mobilizaram a cidade, o País. A primeira delas, as enchentes de Caraguatatuba, no verão de 1967. “Passei fome e sede”, diz, recordando as tentativas de descer a pé até o litoral, a partir de São José dos Campos, pois trechos da estrada tinham sido levados pela tromba d’água que caíra e, com ela, toneladas de terra e pedras. Além do sacrifício físico, eram imensas as dificuldades de enviar os filmes, que teriam de chegar até São José e, de lá, embarcados em algum ônibus. Congressos da UNE, lembra-se de dois. No primeiro, em 1967, realizado em Valinhos, num convento, as lideranças estudantis enganaram o aparelho policial, com um esquema preventivo de segurança que funcionou direitinho. Representando um informal e secreto pool jornalístico, Matu documentou o encontro e as fotos estamparam as primeiras páginas dos principais jornais do País. O segundo, no ano seguinte, foi o de Ibiúna, de resultados absolutamente opostos.

Naturalmente, os grandes momentos da carreira de Matu foram vividos na Folha. Ele aponta as coberturas inesquecíveis: o cerco ao capitão Lamarca, no Vale do Ribeira – “ficamos presos uma semana no meio do mato, com os militares ameaçando matar os jornalistas que tentassem sair de onde estavam, uma barra pesada”; o incêndio no edifício Joelma, que viu começar, pois estava fazendo uma cobertura na Câmara Municipal, logo em frente – “aquilo não dá para esquecer, foi a pior tragédia que testemunhei”; as correrias nos protestos de metalúrgicos em São Bernardo, quando Lula começou a aparecer – “um dia, um soldado correu atrás de mim, eu subi uma escada e pedi ao dono do bar pra me esconder, fui parar no freezer”. Menos mal que o freezer estava desligado, o comerciante despistou o policial e Matu saiu à francesa do local.

Casado com a gaijin Maria Ramos, Matu criou dois filhos e quatro netos. Estes lhe deram três bisnetos. Do pai, Massaiti, sabe que deixou outros cinco filhos argentinos, portanto, seus irmãos de sangue. “Quando já era adulto, meu irmão viajou uma vez para fazer uma visita e não deu certo”, conta.

 
Vocação herdada, competência adquirida

Em sua identidade, se lê: Alexandre Sassaki Madruga Gomes.

Sua assinatura, pela qual é conhecido no meio e especialmente na redação de O Globo, onde ocupa o posto de editor de Fotografia, é, simplesmente, Alexandre Sassaki.

Nem tem muito jeito de japonês, pois o pai tinha ascendência portuguesa. Da mãe, cartógrafa do IBGE, além do sobrenome, assumiu um espírito de aventura e a determinação que circula no DNA oriental. Confessa que não fotografa há 14 anos, desde que assumiu funções executivas, ainda nos tempos de O Dia; hoje, à frente de um time de 34 repórteres fotográficos, integra o staff de um dos maiores jornais brasileiros, unindo a vocação, herdada, para artes visuais a uma reconhecida competência, adquirida, como gestor.

Desde cedo se interessou por fotografia, conta, interesse despertado nas visitas ao IBGE, que tem um grande departamento de imagens. Ensaiou os primeiros cliques com orientação do húngaro que chefiava o setor na repartição e lhe ensinou a precedência do conhecimento técnico para se produzir qualquer boa fotografia.

Com o foco acertado, saiu por aí disparando com sua câmera. Algum tempo depois, decidiu fazer cursos de aperfeiçoamento, pois sentiu que a fotografia deixara de ser apenas um hobby e se transformara em bola da vez como opção de carreira. Viajou, primeiro, para os Estados Unidos, premiado por ganhar um concurso fotográfico. Em São Francisco, cumpriu seu primeiro curso. Voltou, engatou alguns frilas para pequenos jornais de bairro, enquanto se candidatava à grande aspiração, um estágio no Japão. A mãe dava força. Batalhou e conseguiu chegar ao objetivo.

Em Tóquio, trabalhou como assistente de fotografia em um escritório de arquitetura. “Esse período foi definitivo para o meu aprendizado técnico”, conta Sassaki. “Fotografando obras de arte, esculturas, aprendi o domínio da técnica, o controle de perspectiva”. Nascido no Rio, de mãe paulista, sotaque bem carioca, não demonstra sinais exteriores da raça. “Fui comer sashimi só recentemente”, afirma, citando mesmo seu desconforto de ser e ter-se sentido um estrangeiro no País dos avós. Tudo lhe parecia estranho, da comida ao idioma, do trânsito com mão invertida ao formalismo que achava exagerado. Claro, o Japão dos anos 1970, da tecnologia de ponta e da ocidentalização progressiva, pouco tinha a ver com a cultura e a tradição dos antepassados pelo lado materno.

Amostra supreendente

“Lá, trabalhava o tempo todo, foi uma escola sensacional, como conhecimento técnico foi definitivo, eu precisava dessa base para evoluir”, diz, impressionado com o rigor nipônico na execução de qualquer trabalho, por simples que seja. Ele, que procurava uma escola de formação técnica, encontrou o veio certo, que acoplou ao talento e à criatividade que trouxe do berço. De volta à terra e ao Rio, logo tornou-se repórter fotográfico, e decidiu adotar o sobrenome materno. Mulher pequena, de 1,54 m, e decidida, a mãe rodou bastante pelo interior do País, sempre realizando viagens do IBGE, levantando dados para a confecção de mapas, um trabalho missionário de desvendar o interior.

“Assumi essa identidade, Sassaki, pela admiração que eu tinha por ela”, confessa, no mês do centenário e no ano em que completa 30 anos de carreira, repartidos entre Veja, O Dia e O Globo. Neste, comanda, há 10 anos, uma equipe de 34 profissionais na sede, além de outros cinco em Brasília e um em Recife. Um time cada vez mais capacitado, que vem mudando de acordo com sua liderança e visão do ofício. “O equipamento é relativamente fácil de operar. O xis da questão é o que o profissional vai fazer da pauta”, explica, revelando que em torno de 70% dos profissionais que supervisiona são formados em Comunicação, afora dois engenheiros e um advogado. Numa atividade tradicionalmente marcada pela intuição e, claro, o olho jornalístico, a amostra não deixa de ser surpreendente.

“O futuro é a formação, o profissional tem que se atualizar sempre, tem que olhar as tendências, investir em cursos permanentemente, tornar-se um multimídia que trabalha para jornal, site, vídeo, blogs”, anima-se Sassaki, que faz questão de promover seminários, workshops ou qualquer acessório do gênero que agregue benefícios aos colegas. O resultado pode ser visto nas páginas do jornal, que tem uma reputação de excelência em edição de fotografia.

Como a miscigenação está na origem, Sassaki casou-se com uma francesa. Tem dois filhos, um deles, Hugo, também fotógrafo.

 
Humberto Kinjô e a camisa 2 de Zé Maria

Lembrança da repressão, anos 70: a camisa 2 de Zé Maria serviu como passaporte para quatro militantes do MIR, nos idos de 1973, em Santiago do Chile. A barra, como ficou registrado, andava pesadíssima. Os soldados de Pinochet, orientados pela Dina, polícia política do regime, caçavam esquerdistas por toda parte. Não havia julgamento. A ordem era prender e matar.

Aqui, o Corinthians seguia na fila, somava quase 20 anos sem títulos. A Fiel legitimava seu nome e lotava os estádios em qualquer partida. E explodiu, um ano antes do golpe no país vizinho, num clássico com o Palmeiras, noite de 4ª.feira (1/11/1972). Jogo duro, disputadíssimo, o Timão esforçado frente à Academia de Dudu, Leivinha e Luiz Pereira. Graças à pressão da torcida – os palmeirenses não ocupavam dez por centro da arquibancada – a jornada foi mosqueteira, com um gol aos 24’ do 2º, do ponta-esquerda Marco Antonio, crioulo retinto que passou pouco tempo pelo Parque. Eu tinha pedido ao fotógrafo Wilson Chumbo para me conseguir a camisa do SuperZé, pois pretendia enviá-la a meu irmão Humberto Kinjô, exilado como muitos brasileiros, desde 1969. Eufórico com o 1 a 0, Chumbo me entregou o troféu, que foi envelopado daquele jeito, jaqueta suada e suja, e despachada pelo correio.

Em 1968, Humberto havia ficado vários meses preso no Dops, enquadrado na Lei de Segurança Nacional. À época, militava na Ação Popular, coordenando o núcleo de jornalistas. Trabalhava como secretário da Última Hora, depois de ter passado pela Folha e pela agência J. Walter Thompson, como redator. Antes, fora o primeiro nisei a atuar em política universitária, participando da gestão de José Serra na UNE, gestão, por sinal, atropelada pelo golpe.

Quando aconteceu o golpe no Chile, em 11 de setembro de 1973, meu irmão conseguiu refúgio num convento católico, ali permanecendo por várias semanas, enquanto amigos contatavam embaixadas em busca de asilo. A alternativa demorou, mas apareceu, e Humberto foi aceito na embaixada do Panamá, já superlotada. Na pequena valise em que transportou duas mudas de roupa, não esqueceu de levar a camisa do SuperZé. Nostalgia de corintiano.

Os dias passavam, e nada do salvo conduto para sair do país. Durante as manhãs, Humberto e outros refugiados passeavam pelo jardim. Foi assim que conheceu o soldado que montava guarda na entrada da embaixada. Trocou algumas palavras amistosas, ficou sabendo que o soldado era fanático por futebol. Mais, que torcera pela Seleção Tricampeã. Mais, que Rivelino, chamado por ele simplesmente de ”Patada”, tinha sido a sensação da Copa de 70 e, desde então, seu ídolo máximo. Futebol e Seleção passaram a animar as conversas fortuitas dos dois, um de cada lado da grade. Certo dia, Humberto soube que companheiros chilenos precisavam desesperadamente de asilo. O Exército estava em seu encalço e, um a um, vinham caindo os aparelhos onde buscavam refúgio.

Zé “Rivelino” Maria

Humberto propôs conversar com o soldado, quem sabe ele pudesse facilitar a situação, já que sua presença e de outros fardados no portão tinha exatamente o objetivo de barrar novos ingressos. Ninguém entrava sem se identificar e todo veículo era revistado.

“Tenho uma camisa do Rivelino”, provocou Humberto. O soldado arregalou os olhos, quis saber detalhes, pediu para ver. Na manhã seguinte, meu irmão chegou junto à grade com o troféu, uma camisa branca encardida, mas autêntica. Ao ver o número 2, o chileno se desinteressou. Foi aí que Humberto desferiu o golpe final, gol de placa. Do nada, explicou que o Corinthians, sem títulos havia 20 anos, apelava para qualquer recurso para ganhar. Um deles era trocar a numeração do time, jogo a jogo. “Uma tática para confundir o adversário”, argumentou Humberto, “por isso o Rivelino jogou esse jogo com a camisa 2 e a defesa do outro time não sabia o que fazer. E o Corinthians ganhou.”

O soldado fez cara de quem não acreditou nem um pouco. Mas o que interessava a ele, entediado daquela rotina, era possuir a camisa do time em que Rivelino jogava. Pediu a camisa como regalo. Humberto disse que claro, daria com o maior prazer, desde que em troca recebesse um favor. Qual?, indagou o chileno.

“Deixar entrar duas ou três pessoas aqui na embaixada”.

Em nenhum hipótese, respondeu o soldado, invocando a pátria, a hierarquia, a Santa Madre. Aos poucos, porém, foi admitindo a hipótese, já picado pela tentação de ter a camisa 2. Quando a negociação, finalmente, chegou ao ponto, combinou-se que o carro conduzindo os dois ou três refugiados deveria chegar ao portão no início da noite, no sábado seguinte. Ele trocaria de turno e plantão. Na hora acertada, o carro parou, o motorista mostrou os documentos, o soldado pediu que abrisse o porta-malas. Apenas olhou de relance, e autorizou o ingresso em território panamenho. Sob uma manta escura, três militantes estavam escondidos. E assim ganharam o direito ao asilo, graças à camisa 2 de Zé Maria. Ou melhor, Rivelino.

Quanto a Humberto, conseguiu salvo-conduto para o Panamá, e de lá seguiu para a Colômbia, onde se casou e teve dois filhos, Esteban e Juliana. Com a anistia, retornou ao Brasil, após 12 anos de exílio.

 
A saga do clã Miyagui

Quando o primogênito Takao Miyagui apresentava A Voz do Nikkey, um programa para jovens na rádio Santo Amaro, o caçula Paulo, mal entrado na adolescência, foi atraído por aquele mundo mágico das ondas sonoras. Conseguiu um emprego de office-boy. Quando não estava a serviço na rua, passava horas vendo e ouvindo, com admiração juvenil e alguma inveja, profissionais que faziam da voz o seu ofício. O melhor deles, além do irmão, era Boris Casoy, que narrava partidas de beisebol, disputadas no estádio do Bom Retiro. Como??!! O inventor do bordão Isso é uma vergonha! transmitindo aquele esporte que só americano (e japonês, fica-se sabendo agora) entende? Paulo explica:

“Parece incrível, mas o Boris, naquele tempo, década de 1960, até gostava de assistir beisebol, yakyu, como nós chamamos. E o comentarista era Emílio Matsumoto! Dava audiência, pode acreditar... O Boris também era locutor da rádio Eldorado, no tempo em que a Eldorado tinha um padrão de qualidade absoluto, na emissora até os comerciais eram lidos ao vivo pelo locutor.”

Matsumoto, ou Matsu, como era conhecido nas redações, impostava sua voz de barítono e mandava sua mensagem pelo ar. Nessa época, Matsu era advogado do INPS, ocupação que trocaria por um convite para ser redator do Jornal da Tarde, transferindo-se depois para Veja, da qual foi um dos fundadores e um dos principais editores. Na década de 1980, tornou-se alto executivo da NEC, até falecer, em 2000.

Se a dupla Boris-Matsu entendia as regras do beisebol, não vem ao caso. O interessante é a rádio Santo Amaro ter reunido uma dupla de grandes jornalistas em torno de um jogo tão exótico que ainda hoje não consegue cooptar senão jovens da própria colônia.

A Santo Amaro funcionava num pequeno estúdio na praça da Liberdade e pertencia a dois irmãos, Mário e Koei Okuhara, que fizeram história na mídia eletrônica. Paulo, o moleque office-boy, também gostava de ouvir as reportagens de Gil Gomes, que ensaiava as primeiras matérias de polícia. Takao, o mais velho, já se dividia entre a rádio e uma revista chamada Nikkey, onde o drama existencial dos jovens niseis era debatido em textos apaixonados. O dilema, naquele tempo, era: integrar-se ou se preservar? O funcionamento de uma rádio só para esse público era, claramente, preservacionista. “Foi uma fase de transição”, lembra Paulo, que gostou tanto do primeiro emprego que nunca mais abandonou o meio, porque a emissora foi vendida no início dos 70.

Koei, que era seu tio, vendeu a Santo Amaro e comprou a Apolo. Paulo o acompanhou, a essa altura como produtor e contato comercial. O outro tio, Mário, seguiu caminho paralelo: virou diretor de uma gravadora de música nipônica e, em seguida, arrendou um espaço num canal de televisão para transmitir o Imagens do Japão, de excelente ibope nas manhãs de domingo, quando tudo começou. Típico programa de nicho, que sobreviveu a mudanças de emissoras graças ao carisma da apresentadora Rosa Miyaki, vista como uma Hebe Camargo da colônia. Imagens só não resistiu ao advento do cabo e do satélite, que trouxe online a programação da NHK (Nihon Hoso Kiokai), a principal rede do arquipélago. Koei empresariou, em 1971, a vinda de Misora Hibari, a maior cantora do Japão do pós-guerra. Os shows num fim de semana superlotaram o ginásio do Ibirapuera e se transformaram num dos maiores sucessos de público já ocorridos ali.

Paulo Miyagui é um resistente desse nicho. Takao, o irmão, enveredou ainda nos tempos de rádio Santo Amaro para a grande imprensa. Migrou para o Jornal da Tarde, como repórter, depois revista Manchete, Folhas, e fez carreira. O caçula, até hoje, mais de quatro décadas passadas, segue fiel ao meio. De 2ª a 4ª, apresenta o programa Rádio Nikkey, transmitido pela Imprensa FM. De 22h à meia-noite, oferece um cardápio variado, baseado em informação, prestação de serviço, música e bate-papo com os ouvintes. E que audiência é essa?

“Eu diria que a maioria que ouve o programa é formada por não-japoneses, gente interessada na cultura e nas artes, especialmente neste ano do centenário – esclarece Paulo. Não se trata, portanto, de um nicho fechado. A cultura nipônica agrada o público brasileiro, e, hoje, ela vive um momento de valorização.”

Retorno compensador

Um destaque da Rádio Nikkey é o DJ pop Junji Yokochi, segundo Paulo o maior especialista em se tratando dos sucessos do momento em Tóquio e arredores. Aos sábados, a partir de 19h30, Paulo Miyagui e Mieko Senaha apresentam a TV Nikkey, transmitida pelo canal 9 da NET ou 72 (ou 99) da TVA. Em meia hora, o programa jornalístico traz reportagens que têm a ver com a cooperação entre os dois países, além de entrevistas e amenidades. Ele desempenha em português, ela em japonês.

Os patrocinadores, segundo Paulo, estão satisfeitos, sinal de que o retorno é compensador. Como o esquema é modesto, obriga-se a acumular funções, fazendo textos, apresentando, entrevistando e, claro, vendendo seu peixe junto às agências. Toyota e Banco Real figuram entre os apoiadores da programação, que rende ao radialista muitas oportunidades para apresentar shows e eventos.

A vocação dos irmãos nasceu com o pai, Shosei Miyagui, repórter do Okinawa Times, em 1937, quando decidiu emigrar para o Brasil. Tinha 24 anos e logo começou a trabalhar na Livraria da Paz, especializada em obras japonesas e instalada na região do Mercadão, onde também morava. Após a guerra, lançou jornais – Kyuyo Shimpo e Bunka Times são dois desses títulos – que lhe custaram ameaças de morte da Shindo Renmei, por divulgar a derrota do Japão na 2ª Guerra. Batalhador incansável das causas de Okinawa, situada no extremo sul do País, por muitos anos foi correspondente do jornal que o revelara como repórter. Coordenou a instalação do Museu de Okinawa em Diadema e por essa e outras iniciativas mereceu a Medalha do Imperador, em 1988. O clã Miyagui continua ativo, pois Jô, neto de Shosei, filho de Takao, empalmou o bastão e prossegue a trajetória.

 
Onde tudo começou

Em 1912, os imigrantes passaram a residir na rua Conde de Sarzedas, no bairro da Liberdade, região central da cidade de São Paulo. Era uma ladeira íngreme e na baixada havia um riacho e toda uma área de mangue.

Um dos motivos de procurarem as casas da rua Conde de Sarzedas era que quase todas tinham porões, e os aluguéis dos quartos no subsolo eram incrivelmente baratos. Nesses quartos moravam apenas grupos de pessoas. Para aqueles imigrantes, aquele cantinho da cidade significava esperança por dias melhores. Por ser um bairro central, de lá poderiam se locomover facilmente para o centro e também para os locais de trabalho.

Os japoneses se reuniam, preparavam o missoshiro (sopa de massa de soja) e assavam sardinhas para as refeições. Em meio ao cheiro característico desses produtos, eles acabaram por formar gradativamente uma sociedade, pequena ainda, chamada de “rua dos Japoneses”. Daí começaram a surgir a primeira hospedaria, um empório, uma casa que fabricava tofu (queijo de soja), outra que fabricava manju (doce japonês) e também firmas agenciadoras de empregos. Em 1915 foi criada a Taisho Shogakko (Escola Taisho), que ajudou na educação dos filhos dos japoneses (então, em número aproximado de 300 pessoas). No dia 14 de junho de 1915 foi criado o Consulado Geral do Império do Japão em São Paulo, no número 297 da rua Augusta. Em 1918, foram inauguradas a Casa Mikado e a Casa Tokyo, que vendiam móveis de fabricação própria. Em 1932, já eram cerca de 2 mil japoneses. Os imigrantes vinham diretamente do Japão para São Paulo, e também do interior, após encerrarem o contrato de trabalho na lavoura. Todos vinham em busca de uma oportunidade na cidade. Cerca de 600 japoneses moravam na rua Conde de Sarzedas. Outros moravam nas ruas Irmã Simpliciana, Tabatinguera, Conde do Pinhal, Conselheiro Furtado, Tomás de Lima (onde, em 1914, foi fundado o Hotel Ueji, pioneiro dos hotéis japoneses em São Paulo) e Estudantes, todas na região do bairro da Liberdade.

Os japoneses trabalhavam em mais de 60 diferentes atividades, mas quase a totalidade dos estabelecimentos funcionava para atender quase que exclusivamente a coletividade japonesa.

(extraído do site www.fecap.br)

 


 
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