Nelson Sirotsky
RBS: ventos empreendores que sopram do Sul
À frente desse grupo, há 15 anos, está Nelson Pacheco Sirotsky, filho do pioneiro Maurício Sirotsky Sobrinho, falecido precocemente em 1986, aos 60 anos de idade – a quem sucederia em 1991 –, e sobrinho de Jayme Sirotsky, que dirigiu a corporação entre 1986 e 1991.
No segmento da Comunicação, a RBS está, seguramente, entre os dez maiores grupos do País, ao lado de nomes conhecidos como Globo, SBT, Record, Band, Abril, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo. Não é pouco para quem optou por uma atuação predominantemente regional, numa empresa tipicamente familiar e que faz parte de um setor que historicamente enfrentou sérios problemas de gestão. No caso da RBS, a exemplo de outros grupos de mídia do País, o calcanhar de aquiles foram os investimentos na área de telefonia, no processo de privatização levado a cabo no Governo FHC, quando se acreditava, no Brasil, em função do que diziam os experts internacionais, que o caminho natural das empresas de Comunicação seria a propriedade das telefônicas. Um erro que custou caro a muitas organizações, mas que já faz parte do passado. Apesar dos sobressaltos e percalços enfrentados, a RBS saiu desse processo amadurecida e com boas razões para intensificar ainda mais sua atuação onde já era extremamente forte.
Parceira histórica da Globo no Sul do País, a RBS zela com esmero por essa parceria, cujos resultados têm se mostrado excepcionais para ambas. Se de um lado temos uma RBS na ponta dos cascos e pronta para investir e ganhar mercado tanto no Sul quanto além fronteiras, de outro, vamos encontrar uma RBS cautelosa e preocupada em não atravessar o caminho da Globo nos demais mercados fora do Sul. A empresa já tem, por exemplo, uma emissora de rádio em São Paulo (adquirida de Orestes Quércia) e é certo que tem analisado outras possibilidades de investimentos no Estado, sobretudo no segmento de jornais, mas não se espere que dessas negociações surja algum empreendimento que vá conflitar com os interesses diretos da Globo. Isso é fora de cogitação, ao menos no cenário atual.
Com cerca de mil jornalistas atuando nas suas dezenas de veículos, de um total que já supera 5 mil funcionários, a rede gaúcho-catarinense, salvo engano, é a segunda maior empregadora da categoria no País, atrás apenas das próprias Organizações Globo. Nem por isso (ou até por isso) tem vida fácil no relacionamento sindical, acusada muitas vezes de monopolista, pela ampla liderança que exerce nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde seus veículos circulam com larga penetração em todas as camadas da população.
Outra acusação que a empresa tem enfrentado – hoje menos – é de que seria tendenciosa eleitoralmente, buscando favorecer as candidaturas de seu interesse no plano político-partidário. Num dos episódios mais agudos, ocorrido nas eleições de 2002, envolvendo a divulgação de pesquisas eleitorais com resultados que se mostraram equivocados, a empresa, sem prejuízo de outras providências, decidiu pôr seu comportamento a prova, dali para a frente, criando um Guia de Ética e Responsabilidade Social, que, desde então, passou a nortear suas ações e a ser uma espécie de bíblia em termos filosóficos e de comportamento, sobretudo nas práticas do jornalismo, com a reafirmação de compromissos com isenção, independência, pluralidade e imparcialidade.
Os jornalistas da RBS têm, dentro da organização, uma avenida de possibilidades e uma política de cargos e salários que permite aos mais talentosos construir uma carreira relevante. Em Zero Hora, especificamente, uma curiosidade salta aos olhos, pelo ineditismo, oportunidade e pragmatismo: os office-boys do jornal são recrutados entre os estudantes de jornalismo e todos têm de ser bilingües. Eles são contratados com a perspectiva de entrarem para a redação, depois de formados, caso demonstrem qualidades para isso. São mais de 20 estudantes selecionados anualmente para a equipe e que no trabalho de office-boy (ou girl) vão circular permanentemente pelo ambiente de jornalismo, conhecendo a alma da empresa e do jornal. Todos prontos para agarrar a primeira oportunidade surgida, o que geralmente acontece, considerando-se a multiplicidade de vagas existentes no grupo.
O pontapé inicial da Rede Brasil Sul se deu em 1957, quando Maurício Sirotsky Sobrinho aceitou associar-se a outros três amigos para comprar a Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, a mais antiga do Estado, fundada em 1927. Ele já dispunha de razoável experiência na área e era um dos principais radialistas da época, com o Programa Maurício Sobrinho, nome que adotou porque Sirotsky era muito difícil de pronunciar. Mais tarde, o irmão Jayme Sirotsky entrou no negócio, quando foi fundada a TV Gaúcha, Canal 12, em 1962. Pouco tempo depois, em 1964, a tevê foi vendida para a Excelsior, do Grupo Simonsen, contra a vontade de ambos. Minoritários, foram votos vencidos, mas o apego ao projeto lhes valeu um convite para nele continuarem como diretores contratados. Três anos depois, de volta a Porto Alegre, eles viabilizaram a retomada do controle da emissora, adquirindo-a dos novos proprietários, que, àquela altura, eram Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, do jornal Folha de S.Paulo. Nasciam, ali, os contornos iniciais do Grupo RBS, que, três anos depois, assumiria também o controle de Zero Hora, jornal do qual já eram sócios e que havia sido lançado em 1964 por Ary de Carvalho, após o fechamento da Última Hora gaúcha.
Foi na chuvosa tarde de 27 de julho passado que Jornalistas&Cia encontrou Nelson Pacheco Sirotsky para esta sexta entrevista da série PROTAGONISTAS da Imprensa Brasileira, na sede da RBS, em Porto Alegre. Em sua ampla sala de três ambientes no 6º andar do edifício da RBS, com paredes revestidas de madeira, rodeado de livros, troféus e lembranças da família e do pai, durante mais de duas horas ele teve uma conversa bem-humorada e descontraída com os editores Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli, acompanhado de Anik Suzuki, sua assessora de comunicação. Falou, entre outros assuntos, sobre os negócios da RBS, planos e políticas da empresa, suas relações com o corpo de quase mil jornalistas que lá trabalham, o futuro da mídia em geral e da mídia impressa em particular, a convergência e a personalização dos meios de comunicação, tevê digital no Brasil, jornais gratuitos e populares, o perfil do jornalismo brasileiro no Século XXI, futebol, ética, família e sucessão, política – e se mais não disse foi porque o tempo não permitiu. Aos 53 anos de idade, 30 dos quais casado com Nara, ele dá seqüência ao pujante empreendimento iniciado pelo pai e continuado pelo tio e segue os passos de ambos no campo institucional, como presidente da ANJ - Associação Nacional de Jornais. Otimista, afável e falante, a única pergunta a que, educadamente, se recusou a responder, sobre os boatos de que a RBS estaria negociando a compra da Rede Anhangüera de Comunicação (RAC), do Interior de São Paulo, acabou indiretamente respondendo: sua declaração “sobre a Rede Anhangüera eu não falo nada”, em bom jornalismo significa que as negociações existem.
Coincidentemente, esta entrevista vai circular às vésperas do pagamento da primeira parcela do PPR, o Plano de Participação nos Resultados que a RBS implantou há anos e que repassa para os funcionários, na forma de salários extras, parte dos lucros obtidos no exercício. Como as metas da organização até junho foram atingidas, a empresa anunciou para esta 6ª.feira (4/8) o pagamento de meio salário a todos os seus 5 mil funcionários. Se fechar o ano conforme o planejado, cada funcionário poderá ganhar, no total, até três salários extras, dependendo de cumprir as regras que estipulam, por exemplo, que só tem direito ao PPR quem entrou na organização até abril do ano considerado. Dos três salários, um é de lei para todos, se as metas forem cumpridas; e os outros dois são condicionados ao desempenho específico de cada uma das empresas/veículos do Grupo. O acerto final, neste caso, será feito em fevereiro de 2007, como ocorreu em fevereiro deste ano em relação ao exercício de 2005.
Boa leitura!
Protagonistas – Vamos começar pelo básico. Como está sendo o ano de 2006 na RBS e qual o cenário para 2007? Se você puder falar um pouquinho da curva de crescimento da empresa nesses últimos anos...
Nelson Sirotsky – A RBS, a exemplo de todas as empresas de mídia do nosso País e até do mundo, no final da década de 90 e no início da década de 2000, sofreu o impacto das crises macroeconômicas, das novas tecnologias e das novas oportunidades, sofreu o impacto da desregulamentação, mesmo que parcial, do ambiente institucional do Brasil. Nós tivemos anos difíceis, de 2000 a 2002. De 2003 para cá, temos experimentado um processo de recuperação expressivo em nossos resultados. Isso decorre de uma série de circunstâncias de mercado e também da profissionalização da empresa. Ajustamos ainda mais o foco estratégico e melhoramos a gestão. E os resultados estão aí, com melhorias contínuas desde 2003. Nos últimos três anos, houve a retomada do crescimento, da produtividade e da lucratividade. E 2006 não está sendo diferente. Continuamos num ciclo de retomada de crescimento e de geração de resultados.
P – Para todos os segmentos?
NS – Para a empresa como um todo e para todos os veículos de uma maneira particular. Claro que há um desvio ou outro. Nós temos hoje mais de 50 veículos de comunicação e isso não é um processo homogêneo. Mas, de um modo geral, temos observado um processo de retomada muito importante e este ano, novamente, deveremos ter crescimento de receita na ordem de 5 a 8%. O que é razoável, depois de anos seguidos com um crescimento contínuo bastante mais expressivo. Mas o que é importante é o crescimento de resultados e estes foram da ordem de 30 a 40%, o que significa que esse processo de ajustes, de maior produtividade da empresa, foi mantido em 2006. Vamos ter um ano muito bom, em que o resultado operacional deve ser de 25 a 30% maior do que o de 2005 e o resultado final ainda melhor, já que o nível de endividamento da empresa diminuiu sensivelmente nos últimos anos e sua saúde econômico-financeira está muito melhor. Então, o ano de 2006 vai ser muito bom e a perspectiva para 2007 também é muito boa. Acho importante ressaltar que de 2003 para cá a atividade de mídia no nosso País tem tido uma retomada, na média, muito significativa, seja no rádio, na televisão, no jornal e também na internet, que começa a crescer... E como estamos em todos os ambientes, nossos resultados são muito bons.
| Nós vamos ter um ano muito bom, em que o resultado operacional deve ser de 25 a 30% maior do que o de 2005 e o resultado final ainda melhor, já que o nível de endividamento da empresa diminuiu sensivelmente nos últimos anos e sua saúde econômico-financeira está muito melhor. |
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P – Você acha que em 2006 há algum segmento – no geral, não só na RBS – que está melhor do que os outros?
NS – Não. Em rádio nós estamos muito bem. Televisão, no todo, nós também estamos muito bem. Somos essencialmente parte da Rede Globo de Televisão, embora tenhamos duas operações de televisão independentes da relação com a Globo, que são a TV Com e o Canal Rural. Mas em televisão estamos muito bem como um todo, com alguns impactos negativos sobretudo no Interior do Rio Grande do Sul, eu diria que em decorrência de uma questão econômica daqui: estiagem, problemas com os setores agroindustrial e agrícola, que têm gerado dificuldades pontuais em algumas de nossas emissoras. Mas essas questões específicas não são suficientes para dizer que o setor televisão está com problema, pelo contrário, observa-se um crescimento importante na área. Quanto aos jornais, temos tido a boa ventura de continuar crescendo tanto em circulação... Circulação física dos nossos jornais, seja dos produtos tradicionais como a Zero Hora, o Diário Catarinense, seja dos novos produtos como o Diário Gaúcho, o que nos motiva inclusive a continuar com novos lançamentos. Mais adiante vamos falar sobre isso, sobre o novo jornal em Florianópolis. Então, em jornal temos tido um crescimento importante na área de circulação – se comparado com os demais indicadores do País –, e na área de publicidade o anúncio classificado é o que mais sofre, é o mais impactado pelas novas tecnologias, pela pulverização da concorrência, com a internet. Nós não somos diferentes, sofremos o impacto. E a publicidade geral, nos cadernos do jornal, ela mais ou menos que acompanha a curva da economia. Se a economia cresce, crescemos juntos, se ela cai, nós caímos. O que é positivo para a RBS como um todo é que, no conjunto, nos últimos anos temos observado um ciclo de crescimento tanto das receitas quanto dos resultados.
P – E o perfil desse faturamento?
NS – Em receita, temos 45% do faturamento vindos das operações de televisão, da parceria com a Globo, através das nossas afiliadas; em torno de 42 ou 43% vêm dos jornais...
P – Bem equilibrado, não?
NS – Sim, é verdade. Temos também cerca de 6% gerados pelo segmento de rádio e o resto são os outros negócios: a TV Comunitária, o Canal Rural, editoras, gráficas, internet, eventos, tudo entra nesse campo.
P – Em março passado você completou 15 anos como presidente do grupo.
NS – Nossa, 15 anos? Eu não me tinha me dado conta de que são 15 anos já... É, passaram 15 anos...
| A RBS não quer ser o maior grupo de multimídia do País, isso é um posicionamento estratégico claro e definido. Nós queremos estar entre os melhores grupos de multimídia do País. E aí há uma relação completamente diferente entre ser o maior e ser o melhor. Queremos estar entre os melhores. |
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P – Pois é. E em agosto do próximo ano serão 50 anos de RBS. Nesse período o grupo alcançou a liderança em vários segmentos em que atua, conquistou o respeito e a admiração de boa parcela da comunidade onde está presente, freqüenta a lista dos maiores grupos de mídia do País, e recentemente, salvo engano, entrou para o clube do bilhão de reais em negócios...
NS – É, o nosso número é em torno de 1 bilhão de reais.
P – E não pára de crescer. Então a pergunta é, assim, uma provocação: onde a RBS quer chegar? A RBS quer ser o maior grupo de multimídia do País e quais os planos nessa direção?
NS – Não. A RBS não quer ser o maior grupo de multimídia do País, isso é um posicionamento estratégico claro e definido. Nós queremos estar entre os melhores e aí há uma relação completamente diferente entre ser o maior e ser o melhor. Entendemos que é possível estabelecer indicadores em todos os campos, como nos de gestão, econômico-financeiros, de audiência, de nível de satisfação do público, de fidelidade, de relação com os nossos funcionários... Queremos ter excelência em tudo o que fazemos e todo o nosso empenho é para que os indicadores da RBS sejam de classe mundial, comparados com os das melhores empresas de multimídia do mundo. Essa é a nossa referência, em termos de performance, de qualidade da nossa operação. Consideramos possível perseguir essa missão sem ser a maior e estando num campo de atuação geográfico limitado, como é o nosso caso. Operamos essencialmente no Sul do País – Rio Grande do Sul e Santa Catarina –, embora tenhamos operações fora daqui, como o Canal Rural, que não é uma operação local, não é uma operação regional... Mas nós achamos que é possível fazer a essência dessa empresa de excelência tendo como referencial básico os mercados onde atuamos, que são mercados significativos, que representam em torno de 12% da economia nacional. Quando analisamos isso – temos ao nosso alcance 10% da população brasileira –, percebemos que estamos, na verdade, atuando num território e numa economia maiores do que os do Chile, num mercado do porte de meia Argentina, num horizonte comparável a países europeus importantes como a Bélgica. Então, existe aqui um mercado muito significativo. E o nosso desafio é realmente oferecer, através daquilo que fazemos, esse nível de excelência para esse mercado. O nível máximo de excelência que se pode perseguir. E, a partir dessa visão, nos transformarmos e sermos uma das melhores empresas de multimídia do Brasil. É isso que nós queremos ser e é para isso que trabalhamos. Isso não significa que não aproveitemos oportunidades, quando elas acontecem, que possam nos tirar dos territórios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Agora mesmo estamos estudando, planejando alguns movimentos, examinando algumas oportunidades fora dessa área, mas na essência o que nós buscamos é esse nível de excelência.
| Sobre a Rede Anhangüera eu não falo nada. O que eu digo é que a RBS examina, dentro dessa visão de excelência que nós perseguimos, as oportunidades que possam surgir no nosso País. |
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P – A propósito disso, em São Paulo os boatos têm sido muito fortes sobre a compra da Rede Anhangüera de Comunicação pela RBS. O que há de verdade nisso? Ou melhor, o que dá para falar nesse momento? (risos)
Nota da Redação: sediada em Campinas, no Interior de São Paulo, a RAC publica os jornais Correio Popular, Diário do Povo, Gazeta do Cambuí, Gazeta de Piracicaba, Gazeta de Ribeirão, a revista Metrópole e é proprietária da Agência Anhangüera de Noticias (AAN), do portal Cosmo On Line e da gráfica e bureau GrafCorp.
NS – (longa pausa e um suspiro) Sobre a Rede Anhangüera eu não falo nada. O que eu digo é que a RBS examina, dentro dessa visão de excelência que nós perseguimos, as oportunidades que possam surgir no nosso País. É importante falar que nós temos uma parceria estratégica muito forte, de mais de 40 anos, com a Rede Globo de Televisão, que é uma referência nessa questão de excelência, além de ser a maior. Então, o que eu digo é que a RBS examina essas alternativas e só fará negócios, em qualquer região do País, se essa oportunidade agregar valor a esse foco de excelência que buscamos e se ao mesmo tempo não representar nenhum tipo de conflito com essa parceria que temos com a Globo. Então, dentro disso, examinamos tudo. Algumas coisas são possíveis, outras não, alguns dos boatos podem ter algum tipo de fundamento, outros não têm... Sempre olhamos pela ótica de que, sim, é possível ter uma empresa de excelência, fazer parte do clube do bilhão, fazer parte do grupo seleto das principais empresas de mídia do Brasil, independentemente de ter a sua sede em São Paulo ou no Rio de Janeiro. É possível e a RBS é uma demonstração clara disso.
P – A RBS tem uma rádio em São Paulo, não tem?
NS – Surgiu uma oportunidade – a freqüência de rádio é um bem escasso – e nós compramos essa freqüência de rádio do Quércia. É a Nossa Rádio 91.3 e está arrendada, neste momento, para uma dessas igrejas... Atualmente, estamos planejando a melhor maneira de operação dessa rádio para que ela agregue valor a esse conceito de excelência a que me referi anteriormente.
| (...) existe ainda um espaço muito grande para o jornal nesse País – na medida em que o País cresce, melhora o nível de renda, melhora o nível de cultura, o nível de formação da sociedade brasileira. E nós somos, na prática, exatamente isso. |
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P – Em termos de perspectivas, considerando-se, de um lado, o excepcional e veloz avanço da tecnologia, com plataformas cada vez mais sofisticadas e interativas, e, de outro, as radicais mudanças de hábitos das populações das grandes cidades, sobretudo no consumo de informação, para onde você acha que aponta a mídia? E como a RBS se prepara para esse cenário?
NS – Em 1991, quando assumi a Presidência da empresa, já se falava de novas mídias, novas tecnologias, de convergência, de novas oportunidades. Falava-se até na perspectiva de desaparecimento de determinadas mídias em que nós estávamos. Uma das primeiras coisas que fiz quando assumi foi trazer, pela primeira vez ao Brasil, em momentos diferentes, dois especialistas em "futurologia". Um foi o professor Alvin Toffler (N. da R.: canadense, autor, entre outros, de “O Choque do Futuro” e “A Terceira Onda”) que veio aqui e fez um seminário sobre o futuro. E do seminário do professor Toffler o que nós aprendemos – e foi uma coisa muito forte para a vida da RBS – foi que as empresas ganhadoras, no futuro, seriam aquelas que tivessem a capacidade de se ajustar à nova realidade, com velocidade. Quem consegue se ajustar com velocidade, tem chance de continuar sobrevivendo; quem não consegue, acaba tendo o risco de desaparecer. Foi efetivamente um ensinamento valioso. Não temos a capacidade – como ninguém tem – de prever o impacto da tecnologia no futuro. Bill Gates não sabe isso, ninguém sabe. Nós, obviamente, também não temos. Mas temos, isso sim, a capacidade de ter uma empresa organizada e ajustada que possa responder, com rapidez e agilidade, aos desafios impostos por essas tecnologias. Claro, em benefício dos nossos negócios. A segunda pessoa que trouxemos foi o professor Nicholas Negroponte (N. da R.: cientista estadunidense, um dos fundadores e professor do Media Lab, o laboratório de multimídia do Massachusetts Institute of Technology – MIT, cujo livro mais famoso é “A vida digital”). A internet estava no início e o Negroponte era uma daquelas pessoas que estava começando a transformar a internet, de um instrumento acadêmico, num instrumento de mídia massificada, de penetração mundial. Era 1991. E o Negroponte nos disse o seguinte: “Olha, a mídia toda vai convergir para a internet. Não vai existir, no futuro, a separação entre o rádio, a televisão, o jornal, a mídia segmentada. Tudo vai ser uma coisa só, vai ser internet”. Ele é futurólogo e disse também: “Faço uma recomendação a vocês: vendam os jornais o quanto antes porque em dez ou quinze anos o jornal vai desaparecer”. Prestamos muita atenção no que o Negroponte disse, na linha de, olha, vai ter um impacto tecnológico fantástico no nosso negócio e nós temos que aproveitar esse impacto tecnológico no benefício da empresa. Mas vamos somar o que ele disse com o que o Alvin Toffler falou e talvez a melhor atitude não seja vender o jornal neste momento, porque o jornal neste momento é um negócio bom, que está crescendo e se desenvolvendo. Agora, talvez se chegar o momento de ter que vender, de ter que fechar – nós bem que pensamos –, precisaremos ter agilidade suficiente para fazer isso com absoluta naturalidade. Felizmente, não vendemos os nossos jornais. Pelo contrário. Diante da realidade do mercado brasileiro e das oportunidades que existem no País, começamos a entender que há ainda um espaço muito grande para o meio jornal se expandir – na medida em que o País cresce, melhora o nível de renda, melhora o nível de cultura, o nível de formação da sociedade brasileira. Esse foi o caminho que escolhemos e que nos transformou no segundo maior grupo editor de jornais do Brasil em exemplares, atrás apenas de O Globo, que também edita o Extra e o Diário de S.Paulo. Então, o que digo é isso... Para onde vai? Vai para um lugar diferente, que ninguém sabe ao certo qual é. O que estamos fazendo? Nos posicionando para estar em todos os lugares onde exista oportunidade. Estamos presentes na televisão massificada e na televisão segmentada, pois acreditamos que haverá, a partir da tecnologia, um impacto muito grande na maneira de se fazer televisão, sobretudo a partir da chegada da televisão digital, de alta definição, que vai proporcionar interatividade e a existência de múltiplos canais...
P – E quanto aos jornais impressos, especificamente?
NS – O jornal impresso vai continuar existindo. Eu tenho convicção pessoal de que o ser humano precisa da leitura no papel. Ele faz a leitura no papel há 400 anos e nesses 400 anos, se olharmos para trás, o impacto da tecnologia no processo de distribuição de informação foi extraordinariamente grande... Imaginem o início da televisão, vis-à-vis o papel. A televisão te dá a imagem, o áudio, a beleza... A leitura no papel te dá a imaginação. São duas relações diferentes. Naquele momento em que surgiu a televisão – e ela surgiu no Brasil em 1950 – se poderia prever que ia terminar tudo, os jornais, os livros... Tudo iria para a televisão, as histórias poderiam ser narradas pela televisão... Mas nada disso ocorreu porque há espaço para todos. A minha convicção é de que a leitura, o ato da leitura no papel é eterno, é uma necessidade do ser humano... É através da leitura que o ser humano se insere no seu ambiente, na sua comunidade, que forma a sua opinião, constrói os seus conceitos, as suas ideologias, os seus princípios. É a leitura que oferece isso. Acredito na leitura do papel, forever. Porque o ser humano sempre vai precisar ou vai querer uma informação no papel para que possa exercer plenamente o instinto de percepção. O nosso desafio é entender a evolução desse ser humano, identificar e acompanhar a mudança de hábitos, de costumes, as vontades... Como editores de jornais temos a obrigação de perceber e acompanhar essa evolução e oferecer a esse ser humano exatamente algo que esteja adequado ao momento que ele está vivendo. E não tem nada a ver, na minha visão, com o futuro do jornal no papel ou não, mas sim com o futuro da nossa capacidade de conhecer o nosso consumidor – o ser humano – e aquilo que ele quer num determinado momento. Claro, levando em consideração que ele continuará a ver televisão, a acessar a internet, a ouvir o rádio... Temos convicção de que o futuro será diferente, mas seja ele qual for, para uma empresa como a RBS, o grande desafio não é saber qual é a tecnologia que será utilizada, mas sim acompanhar a evolução do seu consumidor para entregar aquilo que ele quer. E temos exemplos muito positivos disso. O Diário Gaúcho foi feito sob o impacto da internet, das novas tecnologias, e acabou pegando um público que tinha vontade de exercer esse espírito de percepção a que me refiro mas não tinha renda para isso. No momento em que conseguimos fazer um produto adequado, numa relação econômica pertinente, vende 150 mil exemplares por dia, sem assinatura, apenas em banca. É o jornal mais vendido em Porto Alegre. Então, onde nós acertamos? Acertamos em fazer o produto adequado, no nível de preço adequado, que o público estava querendo. Acredito no futuro de todas as mídias e sei que muitas outras virão. O celular vai se transformar numa mídia, os laptops já são uma mídia, tudo é mídia. De nossa parte o que queremos é estar posicionados para oferecer ao nosso público a solução que ele quer, independente da mídia.
| Eu acredito na leitura do papel, forever. Isso que dizer que eu acredito que o ser humano sempre vai precisar ou vai querer uma informação no papel para que possa exercer plenamente esse instinto de percepção. |
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P – E por que não revista, que é a única área em que vocês não estão presentes?
NS – Revista, vamos dizer assim, também é um campo importante de distribuição de informação, em que nós nunca estivemos – ou melhor, tivemos uma rápida experiência, com uma revista direcionada para o público jovem, chamada E Aí, que não circula mais – por não termos encontrado uma equação econômica que justificasse o investimento. Mas também, com a mesma visão, eu acredito que existe uma possibilidade concreta para o mercado de revistas. Não encontramos ainda a melhor equação para entrar nesse segmento, por envolver um ciclo de produção diferente do que os de nossas atuais atividades ... Temos um ciclo de 24 horas de levar informação e serviços para o público, que é o jornal, e temos outro ciclo de 24 horas de levar informação, serviço e entretenimento, através da televisão, da internet e do rádio. Nesse ciclo mais longo, quinzenal, semanal ou mensal, nós, a RBS, ainda não encontramos uma equação que nos pareça interessante do ponto de vista empresarial. Por isso não fizemos ainda. Mas não descarto que amanhã ou depois, se encontrarmos, a gente faça.
P – A mídia impressa, pela qual vemos que você é apaixonado, foi uma das que mais sofreu com essas mudanças e é possivelmente a que tem os maiores desafios pela frente. Como será essa mídia no futuro, em termos editoriais, de circulação e publicidade? Você arrisca alguma...?
NS – Arrisco, sim. Acredito que o jornal impresso vai sobreviver. É óbvio que ele vai disputar, cada vez mais, o tempo dos consumidores com outras mídias. E aí vem o grande desafio de quem faz jornal, que é o de oferecer um produto adequado para o seu público. Eu entendo que, cada vez mais, o jornal no papel tem que ser um veículo de utilidade, de prestação de serviço e tem que se relacionar de maneira interativa com o leitor. E para isso existe hoje uma ferramenta nova, que aumenta a sua penetração, que é a internet. Acho que essa complementariedade do jornal impresso com o jornal online é uma oportunidade extraordinária para preservar o jornal impresso. Para mim isso não é uma ameaça, é uma extraordinária oportunidade, desde que se mudem os conceitos sobre o quê colocar na versão impressa, já que, realmente, outros meios oferecem esse ciclo de levar informação pura e simples para os consumidores. Nós somos bombardeados hoje na internet, no rádio, na televisão, no ciclo online. A qualquer hora temos a informação desejada. Quero dizer o seguinte: é óbvio que todas as informações que eu leio de manhã no jornal que eu faço – todas, sem exceção – eu já sei. E aí está o ponto: o jornal tem que me trazer algo mais do que isso, tem que me trazer utilidade, tem que saber interpretar aquela informação que eu tenho, independentemente do meu perfil psicográfico... O jornal tem que saber interpretar para o leitor aquela informação que ele já tem. E, ao mesmo tempo, oferecer a ele a oportunidade de se manifestar. Acho que cada vez mais esse é um processo de mão dupla. Talvez a principal modificação que tenhamos, na questão da comunicação como um todo, é que a comunicação de massa – que existe e vai continuar existindo – tende a transformar-se numa comunicação individualizada, em que cada pessoa será efetivamente única. Quer dizer, eu não sou só parte do grupo A/B, com mais de 50 anos, sexo masculino; sou um indivíduo que tem nome, sobrenome, endereço e importância na relação com esse meio. Os jornais precisam incorporar essa relação individual, abrindo espaços para o leitor, criando possibilidades de interatividade com ele, interpretando os fatos a partir do perfil de cada um. É essa equação, a meu ver, que vai garantir a sobrevivência do meio. Quem não conseguir se adaptar a isso corre sérios riscos de desaparecer; quem se adaptar, acho que tem uma oportunidade fantástica pela frente.
| É óbvio que todas as informações que eu leio de manhã no jornal que eu faço – todas, sem exceção – eu já sei. E aí está o ponto: o jornal tem que me trazer algo mais do que isso, tem que me trazer utilidade, tem que saber interpretar aquela informação que eu tenho, independentemente do meu perfil psicográfico |
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P – Numa entrevista de sete anos atrás você já falava isso. Dizia que a comunicação, daqui a 50, 100 anos, vai chegar num patamar de personalismo muito grande.
NS – Nós estamos indo por esse caminho, eu não estava errado. Se eu tivesse dito uma coisa absurda, ia falar agora: esqueça o que eu disse. (risos). Eu falei porque acredito mesmo. Acho que o ambiente tecnológico que se está criando favorece a que essa personalização da comunicação seja uma realidade em qualquer mídia. Para mim esse é ponto. É na televisão que você está recebendo em casa, é no rádio que você está ouvindo de uma forma individualizada, é obviamente na internet em que você está interagindo, e é no jornal que você recebe na sua casa. Eu realmente acredito – e a tecnologia está favorecendo esse esforço – que o cidadão, por exemplo, o assinante da Zero Hora (nós temos mais de 150 mil assinantes) possa dizer assim “Do jornal que vocês fazem, do menu diário, eu quero receber, na versão impressa, esses artigos, essas seções... “ A tecnologia está favorecendo isso. É claro que a questão do individual é força de expressão. Acho impossível editarmos 150 mil jornais diferentes todos os dias, mas não acho impossível editarmos 10 mil versões diferentes do mesmo jornal e que nessas haja um perfil em que as pessoas possam decidir se querem receber os comentários de nosso colunista Paulo Santana, o noticiário econômico e uma edição de 48 páginas... Essa é uma tendência, a meu ver, irreversível e que decorre exatamente da brutal evolução da tecnologia. Agora mesmo, no Brasil, a televisão digital vai começar a dar os primeiros passos e a interatividade será um dos diferenciais.
| Creio que o governo acertou, porque o modelo da televisão digital brasileira garante uma televisão gratuita para toda a população, mas agora em alta definição, em multicanais, com mobilidade, portabilidade. |
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P – Foi boa a decisão do governo?
NS – Foi muito boa porque assegura para o Brasil a preservação da televisão gratuita. Se nós olharmos o nosso País como um todo, a televisão gratuita é o principal instrumento de entretenimento e lazer da população. Nesse modelo, o único custo que o camarada tem, para ter televisão de graça em casa, é o de comprar o aparelho. Acho que isso tem um significado social de muita relevância para a sociedade brasileira. A televisão cumpre esse papel: de levar o lazer gratuito para a favela, para a classe rica... E ela cumpre isso brilhantemente, conversando de forma simultânea tanto com as populações das favelas quanto de bairros ricos como o Morumbi, em São Paulo. Esse é um feito da televisão brasileira nesses seus 50 anos de existência. Creio, portanto, que o governo acertou, porque o modelo da televisão digital brasileira garante uma televisão gratuita para toda a população, mas agora em alta definição, em multicanais, com mobilidade, portabilidade. O cidadão vai ter apenas o custo de comprar ou o aparelho ou o conversor, mas vai receber gratuitamente, não vai precisar pagar por impulso, não vai precisar pagar para a companhia telefônica. Sob esse aspecto, o governo acertou plenamente na escolha do modelo japonês. Agora o desafio sai do governo e vem para quem faz televisão. Ele agora é nosso: temos de pegar e fazer com base econômica uma televisão de alta definição digna, uma televisão de multicanais digna, oferecer serviços, entender a interatividade como uma oportunidade.
P – Voltando à questão dos jornais, o que você pensa dos jornais gratuitos? Em São Paulo acaba de ser lançado o Destak, e sabe-se que há no mundo cerca de 160 jornais gratuitos. Como é que você analisa isso, até como presidente da ANJ?
NS – Os jornais gratuitos são uma realidade no mundo. Tivemos um encontro da Associação Mundial de Jornais no mês passado, em Moscou, e um dos relatórios apresentados dá conta de que os jornais gratuitos representam cerca de 15% da circulação de jornais no mundo inteiro. Têm um peso importante, portanto. Eles estão concentrados em grandes mercados, sobretudo nas cidades onde um sistema de transporte urbano, com grandes aglomerações de pessoas de todas as classes sociais, favorece a distribuição (metrôs, subways, ônibus). No Brasil, temos apenas uma grande concentração urbana comparável com os mercados onde os jornais gratuitos estão dando certo, que é exatamente a cidade de São Paulo. É a única concentração urbana com um serviço de transporte público eficaz que não é restrito à classe C/D, embora mesmo em São Paulo o transporte público seja mais utilizado pelas classes C/D do que pelas classes A/B. O metrô já pega um perfil um pouco diferente. São Paulo, portanto, tem uma oportunidade clara para isso. No que me diz respeito, estou acompanhando com particular atenção esse movimento do grupo português Cofina, que lançou o jornal Destak. Vou colocar o tema separado da questão ANJ: pessoalmente, acho uma oportunidade como qualquer outra, que obviamente tem de ser viabilizada sob uma ótica econômica de publicidade. Para se fazer um jornal bem feito e distribuir gratuitamente, é preciso ter uma receita de publicidade, que é a única possível. Quando se encontra essa equação... O grupo que melhor opera jornais gratuitos no mundo é o sueco Metro, que tem operação na Suécia, na Espanha, no Chile e até chegou a tentar uma operação na Argentina e outra no Brasil, que não deram certo. Na Argentina, chegaram a fazer – e veja que o sistema de transporte público na Argentina, sob o ponto de vista do perfil do usuário, é bem melhor do que o nosso –, mas quebraram a cara, tiveram que fechar a operação. E por quê? Porque não encontraram a resposta publicitária necessária para viabilizar o projeto. No Brasil, a minha inclinação é achar que, por essa deficiência do sistema de transporte público, vai demorar um pouco para os jornais gratuitos acontecerem. Como ANJ, nós acompanhamos, mas a ANJ, estatutariamente, define que dela só participam jornais com circulação paga. Porque, realmente, o viés do jornal gratuito – não estou olhando a questão do Destak, especificamente –, o viés de quem faz jornal pago e jornal gratuito é diferente. O que você pode fazer para obter publicidade num jornal, entre aspas, gratuito, os limites da sua responsabilidade ética como editor de um jornal gratuito são muito diferentes dos de um jornal pago, são relações distintas, na nossa visão. Por isso, na ANJ só congregamos os jornais pagos. De todo modo, vamos acompanhar o que vai acontecer em relação aos jornais gratuitos no nosso País.
| Para se fazer um jornal bem feito e distribuir gratuitamente, é preciso ter uma receita, uma receita de publicidade, que é a única possível. Quando se encontra essa equação... |
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P – Nessa linha ainda, gostaríamos que você comentasse a questão do formato. O tablóide, todos sabemos, na Zero Hora deu certo, mas agora está chegando o formato berliner, cujo exemplo mais conhecido aqui é o do JB. Você acha que isso pode dar uma mexida aí, vamos dizer, até em hábitos de leitura?
NS – É inevitável, quando o tema é formato, se falar de tablóide, de tablete, que é o tablóide pela metade (risos); falar do berliner, que o JB fez, que o La Vanguardia, de Barcelona, usa, que alguns jornais alemães usam; e o formato tradicional, o standard, que a maioria dos jornais do mundo adota. Eu acho que o formato é um dos elementos de adaptação, de ajuste do jornal, na visão do que o consumidor quer. Eu não tenho dúvidas de que aquele ato nobre de ler é muito mais fácil para o consumidor no tablóide – e eu falo aqui como consumidor, que leio os dois tipos de jornais. Pega o Estadão... Eu leio o Estadão todas as noites, leio a Folha, leio O Globo, e leio a Zero Hora de manhã, que recebo em casa. É muito mais fácil de ler a Zero Hora, pelo formato. No avião, é muito mais fácil ler a Zero Hora. Então, achar que o público tem resistências ao formato A, B, C ou D é de uma miopia extraordinária. O público se preocupa com a utilidade, com a facilidade no consumo de determinada coisa e com o conteúdo daquilo que está lá...
P – Quem tem resistência a mudanças de formato são os donos dos jornais?
NS – É, a dificuldade de pegar e tomar a decisão. Nós tomamos a decisão e para nós foi simples. Quando compramos o Jornal de Santa Catarina, o formato era standard. Consideramos – por experiência, por pesquisas, por prática – que o formato tablóide é mais adequado, mais útil, mais simples, de mais fácil manuseio para o leitor do que o formato standard. Chegamos lá, fizemos uma pesquisa em Blumenau, para tentar entender se para aquele público, que estava com um jornal de mais de 40 anos, em formato standard, faria diferença ter um outro... e o que descobrimos, o que o público nos disse, foi aquilo que já imaginávamos: olha, não faz a menor diferença; nunca experimentamos o outro; se vocês estão dizendo que é melhor...; o que importa é o conteúdo, a qualidade do conteúdo, do serviço que o jornal presta. E mudamos, simplesmente mudamos.
P – Há economia de papel nisso?
NS – Não, não. Só muda o formato.
P – No caso do berliner, em relação ao standard...
NS – Em relação ao standard, sim. Eu não sei se o JB diminuiu ou manteve o mesmo número de páginas. Isso depende do projeto gráfico. Se ele manteve o mesmo número de páginas e mudou o formato, ele reduziu o custo. Mas, no nosso caso, nunca pensamos nisso sob a ótica do custo. Nós bolamos um projeto: esse aqui é um jornal de 24 páginas, esse aqui é um jornal de 48 páginas... Então, aquela experiência de Blumenau fortaleceu uma convicção que tínhamos de que o público aceita o formato; o que ele não aceita são deformações do conteúdo. E lá em Blumenau, com a mudança aumentou 12% a circulação. Mais gente começou a se interessar em ler o jornal pelo formato.
| Consideramos – por experiência, por pesquisas, por prática – que o formato tablóide é mais adequado, mais útil, mais simples, de mais fácil manuseio para o leitor do que o formato standard. |
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P – Jornal popular. Vocês tem a experiência do Diário Gaúcho e vem agora o Hora de Santa Catarina. Há jornais populares vendidos a R$ 0,25, a R$ 0,50 e que, vistos de fora, mais parecem operações para garantir mercado, para marcar posição do que para ganhar dinheiro, ser uma coisa rentável. Como é no caso da RBS?
NS – Nós olhamos o chamado jornal popular como uma oportunidade extraordinária, para atender a um público que não é um tradicional leitor de jornal, mas olhamos sempre sob a ótica econômica. É um projeto que precisa ter viabilidade econômica. Claro que se pode começar um jornal com R$ 0,25, como começamos o Diário Gaúcho, mas no business plan que se monta para o projeto há um momento em que precisa ter uma equação de receita de publicidade, de receita de circulação. Isso é o que forma a equação da viabilidade econômica. No caso de nossos jornais populares – lançamos um, vamos agora lançar outro e temos outros projetos –, eles têm foco empresarial, têm foco econômico, voltado para um público não leitor de jornal. Não fazemos jornais para ocupar espaços, para ocupar mercado, não precisamos mais disso. Qualquer projeto empresarial da RBS tem um foco empresarial. Volto ao início da nossa conversa. Excelência de gestão significa rentabilidade dos seus negócios, retorno do capital investido, significa geração de lucro todos os anos, de preferência lucros crescentes para poder reinvestir no próprio negócio, para poder continuar crescendo. Não lançamos nada por romantismo ou utopia. Claro que levar informação, serviço e entretenimento para o público é uma missão eticamente importante. E é isso, aliás, o que nos diferencia das outras empresas, mas no sentido empresarial, propriamente dito, somos iguais a qualquer outra. Temos que buscar resultado, temos que buscar produtividade, porque isso é o que remunera o capital do acionista da empresa.
P – Tivemos o lançamento de uns 20 ou 30 jornais populares nesses últimos quatro anos. Eles já são expressivos na circulação total do meio jornal?
NS – A circulação dos jornais brasileiros aumentou, porém de 1999 até 2004, houve uma queda – estou falando dos jornais auditados pelo IVC. De 2004 para cá temos observado uma recuperação. Em 2005 cresceu 4,5% e boa parte desse crescimento é decorrente da participação dos jornais populares. Aqui no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio, em Minas, Brasília, Santos, Campinas. Assim dito, eles estão efetivamente contribuindo para o aumento da circulação dos jornais brasileiros.
| Os nossos jornais populares – lançamos um, vamos agora lançar outro e temos outros projetos – eles têm foco empresarial, têm foco econômico, voltado para um público não leitor de jornal. |
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P – O Ruy Mesquita, quando recebeu o nosso Prêmio de Personalidade da Comunicação, em 2004, disse, num depoimento até emocionado, que a “murdochisação” da imprensa estava transformando o jornalismo em um negócio como outro qualquer e acabando com a alma desse mesmo jornalismo. Perdemos nossa alma?
NS – A alma do jornalismo, permanece a mesma. A alma das empresas jornalísticas, esta sim, mudou. As empresas jornalísticas do século passado, do início do Século XX, eram utopias... A origem da imprensa no nosso País, diferentemente do mundo, foi constituída de utopias políticas, era a expressão de uma utopia política que se transformou, mais ou menos nas décadas de 50 e 60, em empresas jornalísticas com um viés político, com uma relação política, mas aí já voltadas para uma circulação mais ampla, para a proliferação das idéias de uma maneira massificada, não apenas segmentada. A visão mais empresarial desse negócio começa a surgir na década de 50, mas ainda muito ligada ao pensamento do dono do jornal, das pessoas que escreviam ou da ideologia que aquele grupo de pessoas representava. Esse é o jornalismo do Brasil nas décadas de 50 e 60. No início do Século XXI existe um outro ambiente no jornalismo, nas empresas jornalísticas. É um ambiente competitivo. Existem empresas tecnicamente mais preparadas, mais qualificadas no ambiente da sua gestão, com capacidade para absorver as novidades tecnológicas, para ganhar escala, para proliferar número de títulos. Realmente mudou o perfil das empresas. O jornalismo de hoje é o de serviço, de utilidade, de interatividade, é um jornalismo plural, aberto, crítico. Ele é muito mais amplo. Eu não ouvi o discurso do dr. Ruy Mesquita, mas não me surpreende a visão dele, porque ele é um dos remanescentes daquele jornalismo de uma outra época. Um cara maravilhoso, mas de um jornalismo de uma outra época. Vocês estavam aqui mostrando um livro sobre o sr. Octavio Frias de Oliveira, um senhor de 93 anos, que também é remanescente de uma outra época. Façam para o Luís Frias a mesma pergunta. É diferente a visão dele, porque hoje é um ambiente empresarial de jornalismo mais competitivo, outro tipo de desafio. Mas a função do jornalismo permanece inalterada.
P – Um fenômeno como a chegada do Nelson Tanure ao jornalismo, vindo de área muito distinta do jornalismo, você considera bom?
NS – Eu considero absolutamente normal, desde que dentro das regras do mercado. Desde que ele, na condução da empresa Jornal do Brasil ou Gazeta Mercantil, se enquadre dentro dos limites éticos que se exige de quem é editor de jornal. Esta missão de servir o público, de oferecer a ele uma visão plural dos acontecimentos, de não manipular, de não mexer, de ser útil, tem que estar presente. Porque no momento em que o empresário vem para o jornal, independentemente do setor, e muda o viés dessa missão do jornalismo, aí nós estamos com um problema sério. E precisamos ter muito cuidado com isso. Agora – não vou fazer nenhuma crítica ao Jornal do Brasil, vou fazer uma crítica conceitual –, quem editar jornal e não compreender a missão do jornalismo, não vai ter êxito como empresa jornalística. Pode até ter êxito nos seus outros negócios, nos seus outros interesses. E nós conhecemos inúmeros casos no nosso País de empresários, políticos, que se utilizam do meio jornal para outros fins que não o jornalismo. Essas pessoas não têm sucesso no ambiente de jornalismo, de empresa jornalística.
P – Você tem aqui cerca de mil jornalistas empregados, não é? Salvo engano, é o segundo maior empregador de jornalistas do País.
NS – Eu não sei quem é o primeiro...
P – Pela lógica, é a Globo.
NS – É, as Organizações Globo, como um todo.
| O jornalismo de hoje não é o jornalismo político, ideológico, parcial que se tinha 50 anos atrás. O jornalismo de hoje é o jornalismo de serviço, de utilidade, de interatividade, é um jornalismo plural, aberto, crítico. Ele é muito mais amplo. |
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P – Isso tem um lado bom, que é a questão da geração de empregos, mas tem um lado ruim: a dependência de uma categoria a uma grande empresa. Quando perde o emprego, fica difícil se recolocar. Gostaríamos que você falasse um pouco dos planos de carreira na RBS, sua relação com o sindicato...
NS – Nós respeitamos aqui as atividades profissionais como um todo. Respeitamos os nossos jornalistas, numa relação de trabalho, dentro dos limites éticos... Se alguém brigar comigo – eu não brigo com as pessoas (risos) –, não vai ter problema, se for uma briga pessoal, de trabalhar aqui nos nossos veículos. Não tenho nenhum tipo de restrição, ninguém tem bola preta aqui. Claro que nós podemos ter conflitos profissionais. A nossa relação com esse ambiente de trabalho, e o fato de sermos a principal empresa que emprega, está amadurecendo. Acho que esse é um processo contínuo e todos nós que estamos nele envolvidos amadurecemos. As empresas amadureceram nas relações com os seus funcionários; os sindicatos, lentamente – e alguns um pouco mais lentos do que eu gostaria –, também vão amadurecendo, para se estabelecer uma nova relação, uma relação de cooperação e não de conflito. Esse é um grande desafio. Ontem, por exemplo, dia 26 de julho, foi um dia importante para esse processo de evolução. No meu entendimento, de uma maneira irresponsável, a Fenaj encaminhou um projeto de lei, o PLC 079/04, que ampliava a reserva de mercado para o exercício das funções da atividade de jornalismo, das 11 atuais para 23. Digo que foi de uma maneira irresponsável porque se fez de forma corporativista e fora da nossa realidade, da época em que estamos vivendo. Fomos surpreendidos com essa evolução e não teve outra alternativa a não ser pleitearmos o veto... E não foram apenas as categorias patronais que assim agiram. Outras categorias profissionais que também se sentiram violentadas se manifestaram publicamente contra... Não restou outra alternativa ao presidente da República que não a de vetar o projeto. E vetou ontem. Foi um dia importante porque, como conseqüência desse amadurecimento, sentaram-se na mesma mesa, no Ministério do Trabalho, em Brasília, representantes da Fenaj, ANJ, Abert, Aner, Sindicato dos Radialistas, Conselho Federal dos Relações Públicas, para, em conjunto, começar a tentar fazer uma discussão cooperativa, e não conflitante. Cooperativa: será que nós somos capazes de produzir uma legislação que atenda a nossa realidade de agora, o nosso desafio de agora, que atenda tanto os jornalistas, como os radialistas, os relações públicas? É uma evolução e temos que saudar isso. Volto ao nosso caso específico: a RBS está evoluindo na relação com os seus colaboradores como um todo, e com os jornalistas de uma maneira particular. Não vivemos num mar de rosas nessa relação, nem com os sindicatos nem com os colaboradores, mas temos uma evolução. Todas as partes envolvidas têm hoje a clara percepção de que esse espírito cooperativo tem que liderar os nossos esforços, prevalecendo sobre aquele espírito conflitivo, de disputas. Não que este também não deva existir, em certos momentos. É natural que ocorram os conflitos, sobretudo na hora de estabelecer um dissídio, uma discussão econômica... Nós, na RBS, estamos muito atentos a essa relação, estamos valorizando muito um trabalho feito já há alguns anos, de medir o índice de satisfação dos nossos colaboradores. Com relação aos jornalistas, especificamente, teremos novidades em breve. Estamos no meio de um processo que vai medir qual é a percepção dos nossos mil jornalistas em relação à empresa, o nível de satisfação deles. O trabalho está sendo realizado por uma antropóloga que faz um trabalho focado, com o objetivo de traçar o perfil de nossos profissionais, quais são as demandas deles, as principais reivindicações que eles têm, qual o nível de satisfação... E no momento estamos pondo em prática um plano de ação que vai desde coisas extremamente simples, como melhorar a qualidade do banheiro que o jornalista usa, até coisas mais sofisticadas, como o nível de informação que ele quer ter sobre a empresa. Fantástico o trabalho. E – não sei se para alegria ou decepção deles – já foi possível descobrir que os jornalistas da RBS são tão críticos quanto todas as demais categorias presentes no dia-a-dia da organização. Ou seja, no fundo eles são muito parecidos com as demais categorias. Esse trabalho já mostrou isso.
| A RBS está evoluindo na sua relação com os seus colaboradores como um todo, e com os jornalistas de uma maneira particular. Não acho que a gente viva um mar de rosas nessa relação, nem com os sindicatos nem com os colaboradores, mas temos uma evolução. |
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P – Como a RBS articula os comitês editoriais de seus vários veículos?
NS – A experiência da RBS é diferenciada, porque ela é uma experiência multimídia. Nós fazemos uma operação integrada. A Globo, por exemplo, não tem uma operação integrada. A Folha tem duas operações distintas, o UOL e a Folha. Nós não, nós temos uma operação integrada, toda debaixo da marca RBS, com as marcas próprias dos jornais, das rádios, das televisões. Mas temos dois fóruns em que procuramos estabelecer conceitos de sinergia, referenciais comuns, princípios comuns. Os dois são presididos por mim. Essa é a minha função aqui na empresa; eu sou o guardião desses princípios editoriais e de qualidade, que são expressos nesses dois fóruns da empresa. O Comitê Editorial se reúne toda terça-feira, aqui na minha sala; fazemos uma reunião em que se sentam os editores dos nossos principais veículos. Na quarta-feira há uma reunião em Santa Catarina, com o grupo de lá – às vezes eu participo por teleconferência. Depois fazemos três reuniões por ano desse Comitê, ampliado, em que reunimos 40 pessoas, incluindo alguns subeditores, para discutirmos a pauta de integração de todos os veículos. E fazemos um encontro anual, reunindo entre 300 e 400 pessoas... Este ano serão 600, no ano que vem prometi que serão todos os 1.000. Discutimos a linha editorial da empresa e o que entendemos que deve ser valorizado, em função do que o nosso público quer, independentemente do veículo, se é jornal, se é rádio, se é televisão. Avaliamos se estamos afinados com os preceitos sobre os quais falei no início da nossa conversa: serviço, utilidade, pluralismo, abertura, busca da verdade, qualificação da informação etc... Paralelamente, fazemos também discussões sobre o exercício ético da função de uma empresa jornalística, até onde podemos ou não podemos ir, quais os limites, até que ponto se divulga ou não se divulga um seqüestro em andamento, até onde se dá ou não o nome de um denunciado. Entra todo mundo: tevê, rádio, jornal, internet. Essa discussão, ao final, é transformada numa coisa concreta chamada Guia de Ética e de Responsabilidade Social, que é publicada. O Comitê Editorial faz essa reflexão sinérgica em cima da linha editorial da empresa e dos limites éticos da nossa atuação. O outro fórum é mais recente, também com o mesmo propósito de ter sinergia, de troca de experiências, de compartilhamento voltado para a qualidade, excelência dos nossos produtos de rádio, televisão, jornal e internet. Chama-se Comitê de Qualidade de Produto, em que fazemos também um fórum de discussões voltado para qualificar os nossos produtos. Volto ao início: uma empresa de excelência é uma empresa que precisa ter qualidade evidente em tudo aquilo que faz. Estamos trabalhando agora em diretrizes de qualidade para os nossos veículos, queremos ter indicadores de qualidade para tudo aquilo que fazemos, queremos ter referenciais das melhores práticas para determinados produtos, sejam eles de informação, de lazer, de serviço ou entretenimento. Se a discussão se dá em torno desses dois comitês, a execução dessas políticas, ao contrário, é totalmente descentralizada; a filosofia e os princípios são integrados pelos comitês, mas descentralizados pelos veículos, porque cada um tem uma linguagem diferente, um público diferente, uma abordagem diferente.
P – Mas a sinergia é uma realidade na RBS, não é verdade?
NS – Isso é uma outra maneira que temos de qualificar a nossa informação. Por exemplo, agora temos uma pessoa lá no Oriente Médio, o editor de Mundo da Zero Hora, o Rodrigo Lopes. É um profissional qualificado, treinado, que está fazendo matéria para a televisão, para a internet, para o rádio e para o jornal. Está dando uma informação diferenciada para o nosso público.
| Os princípios, os valores, os códigos, as referências éticas de funcionamento desta empresa de comunicação são da nossa família. E nós somos uma família de comunicação, que tem o seu processo de formação na comunicação, no jornalismo. |
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P – Empresa familiar. Vocês têm conceitos, parâmetros para pessoas da família que queiram trabalhar nas empresas do grupo. Vamos fazer uma provocação para você diretamente. Você pensa – não em aposentadoria, porque é muito novo –, mas em deixar a operação do grupo? Passa pela sua cabeça?
NS – Passa, passa... Vamos dizer assim... Empresa familiar é outro tema fascinante... Vamos lá.... Essa aqui é uma empresa familiar. Cem por cento da propriedade dessa empresa é de uma família, de famílias que têm o mesmo sobrenome, Sirotsky. Eu entendo que, enquanto nós preservarmos esse conceito de propriedade desta empresa, enquanto tivermos pessoas capacitadas e qualificadas para exercerem funções profissionais dentro da empresa, isso é saudável para esse negócio. Nós temos hoje, na operação da empresa, quatro pessoas da família: eu; um sobrinho, que é o nosso diretor em São Paulo, o Eduardo (Eduardo Sirotsky Melzer); uma jornalista nossa, que está até licenciada, pois vai fazer um MBA fora; e um primo que trabalha em Santa Catarina. Isso de uma família de 45 pessoas. Por que entendemos que a família deve estar dentro da empresa, desde que tenha qualificação para isso? Porque os princípios, os valores, os códigos, as referências éticas de funcionamento desta empresa de comunicação são da nossa família. E nós somos uma família de comunicação, que tem o seu processo de formação na comunicação, no jornalismo. Nesse sentido, penso que, num caso como o nosso, o ideal é efetivamente combinar a profissionalização da gestão com a participação na empresa de seus proprietários, que carregam consigo, por formação, todos esses princípios éticos que são fundamentais para o exercício da função de jornalismo. Achamos que esse é o nível de excelência que deve ser perseguido. Pelo lado da família, nesse caso, o grande desafio é ter as pessoas qualificadas para esse tipo de exercício. Por isso, estabelecemos regras muito rígidas, que são aplicadas na prática, para que aqui entrem as pessoas que estejam qualificadas a contribuir e a agregar valor a essa relação.
P – Vocês estabeleceram cinco pontos, é isso?
NS – Os critérios que temos hoje para ingresso das pessoas na empresa são: mínimo de 25 anos, curso superior...
| Dentro das nossas regras, até para evitar qualquer nível de tensão nessas questões familiares que vêm para dentro da empresa, eu tenho que estar muito bem informado de tudo o que está acontecendo com as pessoas da família, para que eu possa administrar, fora da empresa, os eventuais conflitos. |
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P – Não são 27?
NS – Não, 25. Eu sei porque tenho uma filha que está louca e se preparando para vir trabalhar aqui, e ela tem 24 anos. Não está pronta ainda, falta um ano de trabalho dela fora. Mas, continuando: idade; curso superior; pós-graduação em escola reconhecida; experiência profissional fora da RBS, bem-sucedida, comprovadamente bem-sucedida; e a última coisa, a mais importante: tem que ter uma vaga e haver um convite. Não adianta dizer “olha cumpri tudo isso aqui, estou me apresentando”. Tem que receber um convite da empresa e, preferencialmente, não meu. Temos um exemplo objetivo da aplicação dessas regras: o Eduardo. O Pedro Parente (vice-presidente da RBS) já estava aqui e precisávamos de uma pessoa para São Paulo. O Eduardo, meu sobrinho, estava morando em Nova York. Eu só disse uma coisa para o Pedro: “Olha, tem um guri da nossa família, chamado Eduardo, é muito bom, meu sobrinho, filho de minha irmã, está se preparando, acho que ele tem o DNA da comunicação e está em Nova York. Entrevista ele, vai lá conversar com ele”. O Parente voltou e falou: “Vou contratá-lo. Posso?” Pode! Mas por que então ele perguntou se podia? Porque dentro das nossas regras, para evitar tensão dentro da empresa, eu tenho que estar muito bem informado de tudo o que está acontecendo com as pessoas da família, para poder administrar, lá fora, os eventuais conflitos. Isso serve para quem entra, para quem é promovido, para quem é demitido, para quem vai receber aumento.
P – Já houve casos de demissão?
NS – Já... Mas podemos perguntar diferente: alguém já saiu da empresa? Já. Nós tínhamos mais pessoas da família dentro da empresa. Por uma compreensão coletiva – esse é um mérito que temos, como empresa familiar –, foi possível se estabelecer os parâmetros atuais e com isso deixaram a organização algumas pessoas da família. E o mais importante: saíram numa boa, entendendo o processo. São pessoas que estão felizes, hoje, fora daqui. Isso é muito bom. Mas quero voltar aqui à pergunta sobre se eu penso em parar. Ainda hoje estava tratando desse assunto com o meu analista (risos). Acho que, na medida em que o tempo passa, embora eu seja jovem – quer dizer, não tão jovem assim com meus 53 anos –, tenho já 35 anos de atividade dentro da empresa. É muito tempo vivendo num ambiente só. Tenho refletido muito sobre isso, até porque, felizmente, por circunstâncias da vida, a questão material não é o drive da minha vida. A pergunta que me faço é sobre qual é o nível de contribuição que efetivamente eu posso dar para esta empresa, independentemente do cargo que ocupe - presidente, presidente do Conselho, conselheiro ou até nenhum. O que está muito claro para mim é que efetivamente quero e vou continuar aqui enquanto puder dar uma contribuição. Mas esta contribuição, na medida em que o tempo passa, que a experiência aumenta, ela é cada vez menos operacional e cada vez mais conceitual. Hoje a principal contribuição que posso dar para uma empresa de comunicação como a nossa é de valores, é de princípios, de crenças, de disposição de fazer as coisas, de coerência. Nesse sentido, eu pretendo continuar contribuindo sempre. Agora, função operacional, se eu vou continuar a ser presidente? O pessoal até achou muito engraçado que eu, um dia desses, num seminário interno... Eu trouxe o professor John Davis, nosso consultor nessa área de empresa de família, para fazer um seminário de um dia com os executivos da empresa, porque é preciso que eles entendam o que se está fazendo, no âmbito da família. Em determinado momento, eu coloquei em discussão se era bom ou não eu continuar na Presidência da empresa. Coloquei a discussão para todo mundo: “Eu queria ouvir a opinião de vocês”. E não era figuração, não, pois eu queria ouvir a opinião deles, para saber se achavam melhor eu sair agora e botar o Pedro Parente de presidente e tal. As pessoas ficaram muito surpresas, algumas com vergonha de participar daquela discussão. E eu coloquei a discussão com muita naturalidade, porque, realmente, depois de 35 anos de trabalho e de eu ter sido presidente da empresa por 15 anos, o que está em jogo para mim não é o cargo nem a recompensa do cargo; o que está em jogo para mim é a possibilidade de continuar contribuindo. Enquanto tiver essa possibilidade, vou tocar. Não me vejo na posição de presidente da empresa por mais 20 anos, não me vejo mesmo! Vai chegar o momento em que... há outros.
| A pergunta que me faço é sobre qual é o nível de contribuição que efetivamente eu posso dar para esta empresa, independentemente do cargo que ocupe - presidente, presidente do Conselho, conselheiro ou até nenhum. |
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P – Mas você ainda não planejou com objetividade isso?
NS – Não, mas vai chegar o momento. Eu tinha planejado isso quando contratei o Pedro Parente. Eu o contratei com a clara visão de, em dois ou três anos, passar a Presidência para ele. Há mais ou menos um ano e meio (vai fazer quatro anos que o Pedro está conosco) eu cheguei para ele e disse: “Precisamos articular para você assumir a Presidência da empresa, vamos nos organizar para isso”. Ele me fez uma pergunta: “Nelson, você poderia me dizer por quê deveríamos fazer isso?” (risos) Ele me fez essa pergunta. Eu falei: “Quando te contratei estabeleci o compromisso de que você assumiria a Presidência da empresa em dois ou três anos”. Ele disse: “Olha, Nelson, acho que esse é o tipo da discussão burra. Se quiser conversar eu converso. Mas é uma discussão burra. Está funcionando tão bem assim... Estou tão confortável com o nível de contribuição que consigo dar à empresa, com a minha ambientação, tão confortável com aquilo que estou fazendo... Vejo você tão confortável naquilo que está fazendo... O resultado dessa combinação é uma empresa cada vez melhor... Por quê nós vamos mudar isso? Deixa eu pensar melhor um pouquinho”. (risos)
P – É um outro olhar, né?
NS – Na realidade, o que para outras empresas é um tabu, uma discussão, hoje, para nós, não é. O que não quer dizer que amanhã... Pode ser amanhã.
P – Do ponto de vista pessoal, você é uma pessoa realizada?
NS – Toda pessoa que responder sim à sua pergunta está liquidada. Para mim, a realização do ser humano – é um conceito filosófico – só acontece na morte. Eu sou uma pessoa muito feliz em cima das coisas que eu já tive capacidade de fazer. Eu fiz muitas coisas, profissionais e pessoais, nesses 35 anos na RBS, em 15 anos na Presidência. Mas acho que há muitas coisas a serem feitas. Um dia desses falei... Até me emocionei, mas é verdade... Não lembro onde, mas falei sobre perpetuidade da empresa. Acho que nós podemos ter a visão de chegar aos 100 anos como empresa, pujante.
Protagonistas – O seu pai já falava isso...
NS – O meu pai falava como uma utopia. Eu olho isso como uma coisa concreta. Acho que essa empresa pode chegar aos 100 anos e as coisas que eu estou fazendo hoje, do ponto de vista das nossas relações societárias, do foco da empresa, da estratégia, para onde nós vamos, elas estão sendo decisivas para que a empresa consiga chegar lá nos 100 anos. Talvez eu não vá ver a empresa chegar aos 100 anos, estou com 53, 103 é dureza (risos). Claro que esse conceito de realização, para mim, não é nunca uma coisa definitiva, porque o ser humano evolui a todo instante, nas suas relações pessoais e profissionais, nas suas relações afetivas, acho que tudo isso é um processo que, na somatória, gera a realização, mas a realização plena, infelizmente, se dá na morte, porque ela encerra a capacidade de continuar realizando. Então, cada dia tem que realizar, tem que fazer, ir tocando... Vou dar um exemplo bem singular. Hoje de manhã, estava me preparando para vir para cá – tinha ido ao analista, de abrigo, calção por baixo, cheguei em casa às 9h30 –, ia entrar no banho, estava de calção e camiseta, e a minha filha, que está de férias aqui, mora em São Paulo, perguntou: “O que você vai fazer agora?” Vou trabalhar. Ela chegou pra mim: “Vamos fazer ginástica juntos?” Fechado! Coloquei os tênis, liguei pra cá avisando que ia chegar às 11h30. Para mim isso é parte da realização. Curtir uma hora e meia de ginástica com a minha filha, estava maravilhoso, conversando, batendo papo. O conceito de realização para mim tem esse significado, não é só a empresa. É um processo contínuo de um todo. E eu acho que estou realizando coisas na minha vida e quero continuar realizando por muito tempo
| Acho que essa empresa pode chegar aos 100 anos e as coisas que eu estou fazendo hoje, do ponto de vista das nossas relações societárias, do foco da empresa, da estratégia, para onde nós vamos, elas estão sendo decisivas para que a empresa consiga chegar lá nos 100 anos. |
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P – Vamos falar um pouco de capital estrangeiro. A RBS chegou a ter conversas com grupos estrangeiros, chegou a ter propostas?
NS – Todos os grupos estrangeiros estratégicos, que têm interesse no Brasil, na área de mídia, conversaram com a RBS. A legislação brasileira é suficientemente inteligente para não permitir que empresas sérias, como a RBS, se prestem a simulações para passar por cima dela. Na realidade, eu não acredito que nenhum grupo estrangeiro sério, estratégico, na área de mídia, queira entrar no Brasil sem participar da gestão das empresas. E a legislação brasileira é clara, estabelece um limite de 30% sem possibilidade de participação na gestão. Os contatos com a RBS não geraram nenhum tipo de resultado porque os grupos que nos procuraram queriam coisas que nós não podíamos oferecer, ou seja, um processo de participação e gestão. Não estou fazendo nenhuma crítica ao movimento que a Abril fez; a Abril fez rigorosamente dentro da legislação, associando-se a um grupo financeiro e não a um grupo estratégico. Grupos financeiros estiveram vários por aqui. Nós, nesse momento, não temos necessidade de aportar capital. Por não termos essa necessidade, não estamos procurando. Amanhã, se tivermos necessidade, por qualquer razão, não teremos nenhum tipo de preconceito em ir buscar, sempre respeitando a legislação local. Considero-a muito boa porque no nosso setor, por conta da nobreza da nossa função – nós contribuímos para a construção dos valores, dos princípios da sociedade e da cultura brasileira –, acho que tem que haver um cuidado muito grande para impedir a invasão de uma cultura externa que possa comprometer a própria construção da sociedade brasileira.
P – Você falou de uma função social da mídia. Acredita que a mídia brasileira cumpre bem essa função social?
NS – Sim. De uma forma geral, penso que cumpre brilhantemente. Sobretudo nos últimos 20 anos, desde a redemocratização do País, a mídia brasileira cumpre na plenitude essa função. Nada aconteceu neste Brasil, em termos de fortalecimento das nossas instituições, de valorização dos nossos princípios, de discussão dos nossos grandes temas, que não tenha sido provocado pela mídia nesses últimos 20 ou 25 anos.
| Nada aconteceu neste Brasil, em termos de fortalecimento das nossas instituições, de valorização dos nossos princípios, de discussão dos nossos grandes temas, que não tenha sido provocado pela mídia nesses últimos 20 ou 25 anos. |
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P – Como você classificaria os jornais brasileiros, hoje, em termos mundiais? Temos jornalismo de Primeiro Mundo?
NS – Ah, temos! Temos exemplos, aqui, de cases que são conhecidos como referenciais de bom jornalismo, de boas empresas, de boas estratégias. A gente tem orgulho, por exemplo... No mês passado, em Moscou, na reunião da Associação Mundial de Jornais, o Marcelo Rech vai lá e faz uma apresentação sobre uma estratégia de atingir o público jovem da Zero Hora. Eu estou lá no ônibus do congresso, senta do meu lado um camarada do interior da Suécia, olha para o meu crachá e diz: “Ah, o senhor é da Zero Hora, daquele case que eu assisti ontem? Que maravilha! Será que o senhor me daria a oportunidade de visitar o seu jornal”? (risos) Então, eu acho que, como tem o caso da Zero Hora, tem o da Folha, do Estado, do Globo, inúmeros casos de jornais que cumprem com brilhantismo não apenas esse papel social, mas estratégias empresariais, estratégias de transformação, de ajuste à realidade. Acho que a mídia brasileira cumpre muito bem esse papel e acho que todo o processo de formação de opinião, de formação de cultura e de valores passa pela mídia e a mídia está respondendo com muita competência a essa missão.
P – A RBS, segundo o seu Guia, não tem nem apóia candidatos, partidos, defendendo aí uma isenção muito grande. Mesmo assim, arriscamos: você é Lula, Alckmin ou Heloísa Helena?
NS – Eu, como cidadão, vou votar numa dessas três pessoas para presidente.
P – Pelo menos já decidiu?
NS – (pausa e risos) Não decidi ainda, quero aguardar a campanha eleitoral para ver como é que vai ser. Mas não vou declarar o meu voto, porque ele acaba se confundindo com a pessoa jurídica e não tem muito sentido. Agora, eu asseguro que os veículos da RBS cumprem plenamente aquele conceito. E é por isso que eu tenho hoje legitimidade para conversar, com responsabilidade, com serenidade, com qualquer uma dessas três pessoas. É exatamente por nós cumprirmos rigorosamente essa eqüidistância, esse papel nobre, essa função social que nós temos, que os candidatos vêm aqui e eu converso com a mesma naturalidade com a Heloísa Helena, com o Lula e com o Alckmin, sem violentar nenhum daqueles princípios que adotamos em nossa organização.
P – Já que estamos na seara da política, qual é a sua opinião sobre o Governo Lula?
NS – No campo da liberdade da informação, da liberdade de expressão, enfim, no campo da comunicação eu só tenho a elogiar o presidente Lula. Tenho a elogiar porque era uma preocupação, antes de o Lula assumir, sobre como seria a questão da liberdade de imprensa e como o seu governo iria reagir a essas questões da crítica, do pluralismo. Nos dois ou três momentos, desses quase quatro anos, em que, de alguma maneira, ele pôde se manifestar e agir, objetivamente, na defesa da liberdade de expressão como um dos sustentáculos da democracia brasileira, ele o fez. Eu cito a atuação dele no episódio do Conselho Federal de Jornalismo, que embora tenha sido uma iniciativa do Executivo, quando ele, alertado que foi pela própria sociedade, dos riscos que aquele conselho poderia representar para o próprio exercício do jornalismo, não teve nenhuma dificuldade em retirar o esforço que fazia para a aprovação do projeto. Ele teve um outro momento muito importante quando assinou a Declaração de Chapultepec, em que se colocou ao lado de mais de 60 chefes de Estado que assumiram mundialmente o seu compromisso com a liberdade de informação e de expressão. E ontem, quando ele vetou integralmente o Projeto de Lei 079/2004, que de alguma maneira era uma ameaça a esse livre exercício do direito à informação. No campo da comunicação, portanto, acho que o Governo Lula merece aplausos. Nos outros campos, acho que o Lula fez um bom governo. No econômico, em que também havia grandes preocupações, ele soube manter um processo econômico de responsabilidade e isso é refletido hoje com a valorização da nossa moeda, com o fluxo de capitais que vêm para o País, embora por um preço ainda muito alto, por causa da taxa de juros; então, a responsabilidade econômica dele tem que ser reconhecida. E acho que ele ficou devendo no campo social, no sentido de que os esforços que foram feitos - e alguns eu reconheço - não foram suficientes para reverter um quadro de pobreza e de desigualdades em nosso País; o Brasil é um país muito desigual. Mas acho que o saldo do Governo Lula é bom, é positivo.
P – Numa entrevista a Carta Capital, às vésperas da Copa de 1998, quando lhe perguntaram: Zagallo?, você respondeu: eu prefiro o Luís Felipe. Era uma premonição? (risos)
NS – Agora vocês vão me perguntar: Dunga? (risos) Eu preferia Luís Felipe porque eu o conhecia e acho que era o comandante ideal. Primeiro, acho que futebol é uma coisa muita séria aqui no Brasil. Eu não levo futebol na brincadeira. É através dele que o Brasil é respeitado lá fora. Talvez seja o único elemento de diferenciação da sociedade brasileira no contexto mundial. Acho importante o Brasil ir bem na Copa do Mundo, um momento relevante. Da mesma maneira que acho que a televisão aberta cumpre um papel de entretenimento para a sociedade, o Brasil ir bem no futebol também desempenha esse papel. O futebol brasileiro tem que ser o melhor do mundo, sempre. É a minha lógica. Dentro disso, lá em 98 eu achava o Luís Felipe melhor do que o Zagallo. Por conhecer o trabalho do Luís Felipe no Grêmio – eu sou torcedor do Grêmio – eu o achava um técnico com todas as qualidades pessoais para dirigir a seleção brasileira, que é uma seleção com talentos diferenciados mas que precisam ser administrados. São seres humanos com as suas idiossincrasias, com seus egos, e precisam de um gauchão lá, firme... Agora botaram outro gauchão. Eu nunca vi o Dunga como treinador, torço por ele, para que dê muito certo e que sob o domínio do Dunga lá em 2010 a gente retome a hegemonia do futebol mundial, porque eu estou muito chateado de a Itália ter ganho essa Copa do Mundo.
| Eu não levo futebol na brincadeira. É através do futebol que o Brasil é respeitado lá fora. Talvez seja o único elemento de diferenciação da sociedade brasileira no contexto mundial. |
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P – Vamos terminar com um rápido pingue-pongue. Um grande homem e uma grande mulher...
NS – Um grande homem... eu vou citar meu pai, Maurício Sirotsky Sobrinho, que foi um camarada diferenciado, com quem aprendi muito, um cara à frente da sua época. E uma grande mulher é a minha mulher, Nara. Ela tem sido uma grande companheira. Sou casado com a mesma mulher, incrivelmente, há 30 anos. E, nesses 30 anos, a Nara também evoluiu e conseguiu compreender o significado de estar do lado de um cara como eu, dinâmico, que gosta de fazer coisas... E ela cumpre um papel de equilíbrio no meu processo de realização, na minha família, com os meus filhos.
P – Um livro inesquecível...
NS – Vou colocar um bem recente, do Thomas Friedman, "A Terra é plana". É um livro muito inteligente, em que ele explica a globalização e os impactos da globalização sobre o mundo. Tudo está no mesmo nível. É um contraponto à história do Cristóvão Colombo, que chegou na América e começou a globalização e a Terra virou redonda; agora parece que há o processo inverso, em que a Terra fica plana, é tudo igual. Acho esse livro muito significativo. Vou citar um outro livro, que me chamou muito a atenção, que é "Chatô, o rei do Brasil", do Fernando Moraes. Ele relata muito bem o personagem – não que isso signifique uma admiração minha ao personagem, quero deixar bem claro (risos). Aquela narrativa do Fernando Moraes retrata muito bem o significado do jornalismo naquela época, que é exatamente o oposto do jornalismo que hoje procuro liderar, procuro fazer.
P – Um autor...
NS – Vamos homenagear Mário Quintana, que estaria fazendo 100 anos nesse 30 de julho. Vamos homenagear o maior poeta gaúcho no seu centenário. Um cara muito bacana, aqui da nossa comunidade, que teve uma dimensão maior.
P – Uma música...
NS – Estou numa fase meio xarope de música, estou gostando de música clássica. Vamos colocar a música brasileira. A música popular brasileira, como o nosso futebol, é um grande referencial nosso lá fora. Então, a música popular brasileira como um todo.
P – Um cantor e uma cantora...
NS – Cantor coloca... Eu gosto muito, mas é meio cafona: o Emílio Santiago. Cantora é Elis Regina.
P – Uma idade...
NS – A que se tem.
P – Um lugar...
NS – A minha casa, em Porto alegre.
P – Um filme...
NS – Um filme que me marcou muito, há muitos anos, de que eu me lembro sempre que me fazem essa pergunta, chama-se A Sociedade dos Poetas Mortos. É um filme muito bonito, que trata do conflito de um jovem, da influência do pai sobre ele, de uma educação rígida. Aquele filme me marcou muito.
P – Um estadista...
NS – Winston Churchill, talvez o maior do século passado, por seu papel na II Guerra Mundial. Brasileiro eu colocaria Getúlio Vargas.
P – Um político...
NS – Tancredo Neves. Ele viveu todas as fases da história recente do País e cumpriu um papel importantíssimo na nossa História.
P – Um amor...
NS – Já homenageei minha mulher lá... O amor pela vida.
P – Um hobby...
NS – Tênis.
P – Um vício...
NS – Trabalho.
P – Um sonho...
NS – A serenidade. |