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São Paulo,

 

Álvaro Augusto Teixeira da Costa
Associados: um toque mineiro na missão de levar adiante a saga de um Chatô na Era da internet

Quando, em outubro de 1924, Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o Chatô, comprou O Jornal, no Rio de Janeiro, e começou a construir o que, décadas mais tarde, viria a ser a Rede Diários e Emissoras Associados, provavelmente tinha já consciência da importância da comunicação para a integração do País. O que certamente ele não imaginava é que erigiria um dos mais poderosos impérios de comunicação da história do País, que no seu auge chegou a ter mais de cem jornais e emissoras de rádio e de tevê espalhados por todo o território nacional – dois de seus veículos mais famosos foram a TV Tupi e a revista O Cruzeiro – e que marcaria indelevelmente, para o bem e para o mal, o jornalismo brasileiro. Poderoso e influente, de Chatô muita coisa se disse, sobretudo dos métodos pouco ortodoxos de que se teria valido ao longo da vida para obter o que desejava, fosse no plano econômico, político ou social. Se muitas dessas histórias são ou não folclóricas, uma coisa sobre ele se pode garantir: Chateaubriand foi inegavelmente o principal responsável pelo desenvolvimento do mercado publicitário brasileiro. Em 1959, já com problemas de saúde, tomou uma decisão inédita e surpreendente, e que vigora até hoje, também para o bem e para o mal: transformou seu império empresarial num condomínio acionário e dividiu o seu controle entre 22 funcionários de sua confiança. Essas cotas são incomunicáveis, inalienáveis e intransferíveis. A idéia de Chateaubriand era que o grupo de empresas de comunicação que formou crescesse e se perpetuasse não como um patrimônio ou negócio repassado por herança familiar, mas por colaboradores que seriam eleitos em reconhecimento às contribuições para o sucesso dessas empresas. Chatô morreu em 1968, aos 75 anos, antes das falências da revista O Cruzeiro (1975) e da TV Tupi (1980), que marcaram a derrocada do seu império. Embora longe daqueles tempos áureos, hoje os Diários Associados ainda constituem o sexto maior grupo de comunicação do País, composto por treze jornais (cujos carros-chefes são o Estado de Minas e o Correio Braziliense), oito emissoras de rádio, quatro de tevê e três portais de internet, com o quarto a caminho – na última 3ª feira (29/8), com uma festa em Brasília, o grupo fez uma pré-estréia do portal de classificados Associados.com (de carros, imóveis e empregos), em que deposita grandes esperanças de sucesso, lançando o site exclusivo de automóveis, chamado Vrum.
À frente desse grupo está hoje o engenheiro Álvaro Augusto Teixeira da Costa, mineiro de 63 anos de idade, dois filhos e três netas, atleticano doente, que vive e respira jornal e jornalismo desde os primeiros anos de vida, por influência direta do pai, Geraldo Teixeira da Costa, que foi editor-chefe do Estado de Minas e um dos principais colaboradores de Chateaubriand, tendo sido ainda o idealizador do Correio Braziliense.
Ele nunca teve outro emprego na vida. Seu primeiro contato com o jornal, segundo lembra, aconteceu aos quatro anos de idade, quando, levado para a Redação pelo pai, ficou ali brincando de jornalista, até que o velho, vendo o entusiasmo e também o desperdício, pediu para ele não gastar papel. Nunca mais ele esqueceria esse ensinamento.
Álvaro está no Diário desde 1965, quando foi contratado, aos 22 anos, como engenheiro. Em 1975 foi nomeado diretor industrial dos Diários Associados em Minas, cargo que exerceu até abril de 2000. Posteriormente foi nomeado diretor-executivo do Grupo Associados Minas até que, em 2002, depois de liderar um movimento contra a gestão do então presidente Paulo Cabral de Araújo, com a renúncia deste foi eleito o principal executivo do grupo.
Hoje ele preside um grupo com 35 veículos, 5 mil funcionários, faturamento superior a R$ 500 milhões e líder, no segmento de jornais, em dois dos mais importantes mercados regionais brasileiros: Minas Gerais e Distrito Federal. Administra, ainda, uma organização com pendências jurídicas que se arrastam há anos e que ainda preocupam, mas mostra-se confiante em zerar esse passivo em no máximo três anos.
Com olhos no futuro, jura que não pensa em se aposentar tão cedo. Ao contrário, mostra-se extremamente empolgado com os novos negócios do condomínio, entre eles o portal de classificados que está às vésperas de lançar – o Associados.com – e mesmo com a expansão do jornal Aqui para as outras praças onde os Diários estão presentes, além de Belo Horizonte e Brasília, onde o título já foi lançado.
Passional, como ele mesmo reconhece, recebeu, na manhã do último dia 21 de agosto, na ampla sala que ocupa na Presidência do Estado de Minas, em Belo Horizonte, os editores Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli, para uma conversa de quase três horas, na qual falou de jornalismo, de mercado, de ética, de poder, de investimentos, de política e até mesmo de família. Afável e bem humorado, demonstrou pequena irritação apenas em dois momentos: quando pedimos para falar sobre o Governo Lula e principalmente quando o assunto foi Nélson Tanure, dono da Companhia Brasileira de Mídia. Mas foram rompantes muito ligeiros, amplamente compensados pela alegria de falar dos planos da empresa, do futuro do País, das novas gerações de jornalistas, do governador Aécio Neves e da própria família, sobretudo das netas pelas quais nutre uma paixão avassaladora.
Sobre Chatô, fica claro nas palavras do atual presidente da Comissão Executiva dos Diários, que ele não é apenas uma figura histórica, mas uma permanente fonte de inspiração onde bebem todos os condôminos, “principalmente por sua ousadia, sua visão ampla das coisas do mundo, do Brasil. Tanto que não ousamos sequer pensar em alterar o seu pensamento com relação à estrutura empresarial por ele deixada”.
Protagonistas chega, desse modo, à 7ª edição, recheado de novidades e também com uma síntese do pensamento e da opinião de um dos mais importantes líderes da imprensa brasileira dessa década.
A íntegra da entrevista você confere a seguir.
Boa leitura!

 

Jornalistas&Cia – Vamos começar por uma panorâmica sobre o tamanho real do condomínio dos Diários e Emissoras Associados hoje. Quantos veículos, empresas, qual o faturamento, quantos funcionários tem, cidades em que está presente...
Álvaro Teixeira da Costa – Nosso grupo é grande. Temos hoje treze títulos de jornais, oito estações de rádio, quatro de televisão – uma em Minas, duas na Paraíba e uma em Recife – e portais de internet.

J&Cia – Que são quais?
ATC – O Uai, o CorreioWeb e o DPNet, do Diário de Pernambuco. Nosso grupo tem cerca de 5 mil funcionários e faturamento acima de meio bilhão no ano passado. Então, é um grupo interessante, que se distribui pelo Centro-Oeste, o Leste e o Nordeste, em várias áreas de atuação.

J&Cia – E desse número de funcionários, você saberia precisar quantos são jornalistas?
ATC – Não, não saberia, mas temos muitos... Talvez sejamos um dos grupos que mais emprega jornalistas. Porque como o jornalismo tem muito foco local, nos obriga a ter em todas essas praças redações bastante grandes.

J&Cia – Além de mídia, em que áreas o grupo atua?
ATC – Temos uma fazenda em Minas, participação em empresa de tevê a cabo, a TV Cidade, junto com a Band e com o SBT, e aqui em Minas a Way e a Brasil Telecom, que estamos agora vendendo. Há mais algumas coisas, mas é basicamente isso.

J&Cia – Olhando essa geografia da mídia, salvo engano, não há outra experiência brasileira em termos de gestão de empresa semelhante à dos Diários, com o sistema de condomínio.
ATC – Não é único só no Brasil, não. Esse é um sistema único no mundo.(risos)

“A descentralização salvou os Diários Associados, porque se o grupo tivesse uma gestão centralizada, quando houve a falência dos nossos veículos em São Paulo, todo o conjunto teria falido.”

J&Cia – Passados mais de 40 anos desde que Assis Chateaubriand criou esse sistema condominial, o que você apontaria de mais positivo e de mais negativo nessa experiência, em um conglomerado tão diversificado como esse, pelo menos geograficamente?
ATC – Os pontos negativos são os que exatamente criam dificuldades. É preciso cuidado para que não se cometam enganos, como os cometidos há pouco tempo, pela gestão passada. Num processo muito simples, a escolha de um condômino, por desejo do nosso fundador, recai sobre aquele funcionário que se destaca durante a sua carreira e, portanto, merece ser eleito para a nossa confraria. E, nessas circunstâncias, supõe-se que ele assim continuará atuando. A tendência moderna, porém, é de que o acionista dê lugar ao gestor profissional e fique só no conselho, cobrando resultados para que se ganhem dividendos. Penso, no entanto, que precisamos ter um certo cuidado nesse sentido, pois me parece um contra-senso retirar da operação um funcionário que se destaque para ficar apenas no conselho. Isso num grupo com as nossas características não funciona. Queremos manter um sistema híbrido, com uma certa gestão profissional, mas sem desprezar a participação efetiva desse membro eleito para o condomínio. Vale também ressaltar os benefícios trazidos pelo processo de administração descentralizada. Falo isso porque, hoje, a centralização de gestão é moda, porém não era e pode vir a não ser de novo, dependendo dos rumos da ciência da administração. A descentralização, no nosso caso, salvou os Diários Associados, porque se o grupo tivesse uma gestão centralizada, quando houve a falência dos nossos veículos em São Paulo, todo o conjunto teria falido.

J&Cia – Em que ano foi isso?
ATC – Foi em 1980, quando perdemos a Rede Tupi. Uma obra política do general Figueiredo, para atender a alguns apaniguados dele (risos). A expressão é de outros... Na verdade, o grupo tinha um passivo infinitamente menor do que o menor dos passivos dos grupos de comunicação de hoje. Era um passivo ridículo, tanto que já foi totalmente pago. Hoje, eu desafio que haja um só credor dos Diários Associados nesse País. Não há. Pagamos tudo e já há muito tempo. Se fosse um passivo expressivo não teríamos conseguido saldar.

J&Cia – Se você considerar os últimos seis anos, quatro deles foram muito duros para a mídia...
ATC – Não tenho dúvida.

J&Cia – Os grandes grupos ficaram endividados, como é público e notório. Os Diários, nessa fase, conseguiram uma boa sobrevivência?  
ATC – Não tínhamos um endividamento alto quando veio essa crise, que teve início exatamente em 13 de janeiro de 1999, com a disparada do dólar. O conglomerado estava razoavelmente capitalizado e o nosso nível de endividamento não era alto, como não é hoje e nunca foi. Somos conservadores em termos de alavancagem de recursos; isso tem grandes desvantagens, mas há a vantagem de, numa hora de crise, podermos superá-la com mais facilidade. Tanto que, na época, eu fui até favorável à não participação do BNDES, por temer interferências em pilares da mídia, como a independência e a liberdade de imprensa. Andei na contramão de todo o mercado, que praticamente exigiu a participação do BNDES para que se compensasse o alto nível de endividamento provocado pelo desequilíbrio cambial. A nossa superação, nesse sentido, foi mais tranqüila, não só porque tínhamos baixo nível de endividamento mas também porque estávamos capitalizados. Mas igualmente sofremos com a crise, como todos. E, ainda, para piorar, tivemos uma crise interna muito profunda, em que houve a substituição da antiga gestão pela atual, em decorrência de vários fatores. Chegamos a um ponto em que um grupo não concordou com o rumo que a gestão estava tomando, reagimos e a substituímos. E hoje, creio eu, estamos em um período de paz e prosperidade. (Nota da Redação: a gestão anterior foi a de Paulo Cabral de Araújo, que presidiu o condomínio dos Diários Associados por 22 anos, até se demitir em 1º/11/2002.)

J&Cia – Foi nessa época que houve uma tentativa de venda do Estado de Minas para a RBS?
ATC – Não houve tentativa, houve uma decisão de venda, e um dos grupos que se interessou nessa época foi a RBS. Houve uma decisão do condomínio de vender o grupo e, ao mesmo tempo, fazer um acordo com a família Chateaubriand. A venda foi frustrada porque o mercado estava muito complicado e porque há aspectos jurídicos bastante complexos para que essa venda possa ser concretizada.

“Chegamos a um ponto em que um grupo não concordou com o rumo que a gestão estava tomando, reagimos e a substituímos. E hoje, creio eu, estamos em um período de paz e prosperidade.”

J&Cia – Então não era só a venda do Estado de Minas, era do grupo?
ATC – Era do grupo. Mas, evidentemente, as chamadas “jóias da coroa”, o Estado de Minas e o Correio Braziliense, eram as que mais interessavam. O Estado de Minas estava numa situação relativamente tranqüila nessa época, mas o Correio passava por uma fase bastante delicada. Foram vários os fatores que levaram o nosso grupo de Minas a reagir contra os rumos que a gestão estava tomando. E decidimos que não concordaríamos com a tese, que iríamos mudar aquela história e realmente mudamos. Houve depois um acordo bastante leonino com a família Chateaubriand que nós conseguimos neutralizar até com ações judiciais, pessoais, sócios contra sócios, contra a gestão anterior, mas levamos a melhor e hoje estamos navegando em mares mais tranqüilos.

J&Cia – Você consegue imaginar os Diários daqui a 40, 50 anos?
ATC – Não consigo. Como eu pretendo começar a pensar em me aposentar somente daqui a 40 anos... (risos) Tenho 63, então daqui a 40 anos eu não faço muita idéia. Mas temos feito os nossos exercícios de planejamento estratégico em limites de 5, 10 anos. E vemos um grupo bastante interessante e promissor no futuro. Estamos planejando o nosso crescimento, pensando em expandir os nossos negócios, temos algumas propostas já colocadas internamente e algumas metas que estamos perseguindo. E pretendemos deixar para os próximos condôminos uma empresa moderna em sua gestão, apesar dessas, eu não diria dificuldades, mas dessas características específicas do nosso grupo. Vamos ter que continuar gerindo nosso próprio negócio e não vejo alternativa melhor. É um grupo que vai se posicionar no mercado com força e com expressão cada vez maiores. Eu sou bastante otimista quanto a isso.

J&Cia – E com esse mesmo sistema?
ATC – Sim. Não passa pela nossa cabeça nenhuma alteração, embora até tenhamos chances, nesses processos contra a família Chateaubriand, de rever essa história do condomínio. Mas a cultura de seguir esse desejo, essa orientação e até essa imposição do nosso fundador, é bastante forte dentro do grupo. É uma regra que seguimos com muito rigor e carinho.

J&Cia – Você tem tido um envolvimento muito grande e tem dedicado uma boa parte do seu tempo a questões jurídicas. Como andam as demandas, sobretudo em relação à família?
ATC – Estamos dando passos bastante importantes, já ganhamos muita coisa importante, perdemos outras, mas creio que nos próximos dois ou três anos o nosso nível de problemas jurídicos vai ser igual a zero. É uma meta que eu tracei para mim mesmo e o grupo todo está trabalhando nesse sentido, e acredito que conseguiremos terminar isso antes dessas pendências completarem 50 anos (risos).

J&Cia – Tem idéia de fazer algum acordo?
ATC – Estamos sempre abertos a acordos. Mas temos uma dificuldade porque, num acordo proposto pela gestão anterior – e este é um dos pontos que gerou aquela revolta dos mineiros –, os valores eram muito altos, fora da realidade. Há também um fator extra que são as divergências internas na família, que começam, pelo visto, a ser superadas. Se isso ocorrer, o acordo fica mais tranqüilo. Mas não perco meu tempo em esperar um acordo. Continuo atrás de decisões jurídicas porque entendo que temos um bom direito, sempre tivemos um bom direito, e vamos atrás de resultados positivos, como já temos alcançado.

“Estamos dando passos bastante importantes, já ganhamos muita coisa importante, perdemos outras, mas eu creio que nos próximos dois ou três anos o nosso nível de problemas jurídicos vai ser igual a zero. É uma meta que eu tracei para mim mesmo e o grupo todo está trabalhando nesse sentido.”

J&Cia – Hoje, ou desde sempre, como é que funciona basicamente o condomínio?             
ATC – São 22 membros. As vagas são preenchidas pelos condôminos remanescentes por meio de eleição, de uma lista tríplice, na qual são considerados aqueles funcionários de melhor desempenho, de mais dedicação. Existem dois níveis no condomínio: as chamadas comissões plenárias, que são aquelas que se reúnem no fim do ano para apreciar o desempenho do período e propor o orçamento do ano seguinte, e em abril, quando são feitas a consolidação dos números anteriores, a escolha dos novos integrantes e outras coisas necessárias ao condomínio; e temos a comissão executiva, formada pelos principais executivos, que se reúne praticamente uma vez por mês para fazer uma ­­­­overview das dificuldades de cada área, analisar os balancetes, as providências que estão sendo tomadas, os desempenhos, enfim, os problemas de cada região, e que funciona como se fosse o conselho de administração de um grupo qualquer, que analisa os resultados e traça rumos e metas.

J&Cia – Quantos são os executivos que estão na operação do condomínio?
ATC – São poucos. São sete ou oito na executiva, mais dois ou três convidados. Da ordem de dez, doze...

J&Cia – Hoje são 17 condôminos e há cinco vagas, é isso?
ATC – Nós temos sete vagas. Hoje estamos exatamente tentando uma vitória jurídica em alguns pontos para que as eleições sejam mais tranqüilas e com menos dificuldades jurídicas. Se não houver solução jurídica num prazo curto, vamos ter que preencher esse quadro porque não convém ficar muito tempo com essa quantidade de vagas em aberto, embora o nosso regulamento não estipule um prazo.

J&Cia – Onde são feitas as reuniões do condomínio?
ATC – Em Brasília. Nós mudamos a sede dos Diários do Rio de Janeiro para Brasília.  A sede era no Rio, por escolha de Chateaubriand, mas entendemos que foi pelo fato de ter sido o Rio a Capital Federal. Fomos para Brasília porque é a capital. Esse foi, não digo a lei, mas o espírito da lei criada pelo Chateaubriand, de ser na capital da República. Então, por motivos mais ou menos óbvios, nos reunimos em Brasília com muita freqüência. É importante dizer que hoje o nosso grupo tem paz interna.

J&Cia – Apesar das divergências entre os condôminos?
ATC – Não, não há mais. Houve muita. Com a substituição da gestão anterior, saíram dois, que foram, digamos, as peças mais divergentes desse processo, e o presidente antigo se aposentou.

J&Cia – Ele é condômino? Tem voto?
ATC – Ele é condômino, tem voto, mas não está na gestão, está tendo uma conduta absolutamente ética nesse processo, não opina.

J&Cia – As gestões têm mandatos?
ATC – A gestão da Presidência é renovada a cada três anos. A da Executiva é a cada quatro anos. São renovadas em eleições e não há divergências hoje, profundas, no condomínio.

J&Cia – Até porque quando há a gente fica logo sabendo...
ATC – Ah, é!. Não há como esconder... (risos)

J&Cia – Você é presidente do Correio, diretor-executivo do Estado de Minas e vice-presidente da Plenária...
ATC – E presidente da Executiva; quer dizer, é um negócio um pouco complicado, né? (risos)

“Nós preferimos (o termo) condôminos, não comunheiros, embora sejam sinônimos. Comunheiro vem de comungar, de um bem, de um ativo, todos fazem parte de um ativo. Condômino foi o nome preferido pelos próprios escolhidos pelo Chateaubriand, que entenderam que o grupo deveria se chamar condomínio.”

J&Cia – Achamos interessante um termo, “comunheiros”. Ainda se usa isso, entre vocês?
ATC – Nós preferimos condôminos, não comunheiros, embora sejam sinônimos. Comunheiro vem de comungar, de um bem, de um ativo, todos fazem parte de um ativo. Condômino foi o nome preferido pelos próprios escolhidos pelo Chateaubriand, que entenderam que o grupo deveria se chamar condomínio.

J&Cia – Você acha que hoje o Chateaubriand teria criado um condomínio?
ATC – Creio que sim. Acho até que ele seria um pouco mais específico, pois o nosso regulamento, devido ao tempo, à época, peca um pouco por omissão em alguns pontos.

J&Cia – E esse regulamento tem possibilidade de ser mudado ou é pétreo?
ATC – Existem as cláusulas que nós consideramos pétreas, mas evidentemente a Comissão Plenária pode fazer mudanças, se houver consenso, como foi o caso dessa mudança da sede.

J&Cia – As decisões são por maioria simples?
ATC – Maioria simples para leis, digamos assim, do condomínio. Apenas para punição de condôminos, caso de expulsão, tem que ser de dois terços.

J&Cia – Voltando aos planos, gostaríamos que você falasse do novo portal de classificados, que será inaugurado ainda este mês. Como é essa experiência, o que você está imaginando?
ATC – Nossa empresa tem essa cultura, essa característica, de ser pioneira em tecnologia. Nós fomos o primeiro grupo a implantar um sistema de computação total. Implantamos a primeira rede local, chamada LAN, em que ninguém acreditava.

J&Cia – Isso foi quando?
ATC – Isso foi em 1988. E falar de rede local em 1988...

J&Cia – É, em 1988 era tudo mainframe, aqueles terminais gigantescos...
ATC – Terminal burro, não tinha o Windows, tinha o DOS, que era meio complicado. A briga era por causa da tela verde...

J&Cia – Nessa época você era diretor industrial, é isso?
ATC – É, diretor industrial... Eu gerei essa confusão toda (risos). Fomos os primeiros a fazer paginação integral, a implantar terminal de computação, essas coisas todas...

“Esse nosso portal está pronto, está desenvolvido, com uma tecnologia super de ponta e vai criar um grande impacto no mercado. Temos um modelo de negócio diferenciado, no qual a participação de afiliados nesse portal será efetiva, uma participação societária. É isso que está fazendo com que o negócio seja diferenciado.”

J&Cia – Em Minas?
ATC – Sim, em Minas. Nós chegamos até a representar um grupo grande americano, e vendemos essa tecnologia para praticamente todo mercado brasileiro, que adotou essa rede local de PC. Principalmente pelos classificados, na época, foi uma revolução. A empresa tem mais ou menos esse perfil. E agora parece-me que vamos dar também um salto além. Esse nosso portal está pronto, está desenvolvido, com tecnologia de ponta e vai criar um grande impacto no mercado. Temos um modelo de negócio diferenciado, no qual a participação de afiliados será efetiva, uma participação societária. É isso que está fazendo com que o negócio seja diferenciado. Porque, desde o início da internet, há tentativas no mercado de se copiar o modelo de televisão, por meio de quotas, e todos seriam afiliados; a gestão seria basicamente a do cabeça de rede, com a marca, a tecnologia, o know how, e os afiliados teriam uma participação menos efetiva. Isso não é o melhor e a internet democratizou esse processo no mundo. Se você quer fazer um grande projeto tem que trazer pessoas e empresas que participem efetivamente da criação da marca e da valuation dessa marca; isso é fundamental para que qualquer processo de internet dê resultado. Acho que nós vamos ser muito felizes porque o mercado, baseado exatamente nessa rede de pré-impressão que nós tivemos, adquiriu confiança nos nossos movimentos de tecnologia e sabe que está lidando com um grupo que cumpre o que promete e que é transparente. O mercado já tem experiência, porque na época desse sistema de pré-impressão havia muitos picaretas na praça e diversos jornais perderam muito dinheiro investindo em tecnologia que não conheciam. Nós, da área tecnológica, ficávamos às vezes discutindo coisas sem a menor importância justamente porque não sabíamos o que eles queriam. Foi uma fase muito dura de aprendizado. Eu me lembro das discussões: se hifeniza, se não hifeniza; se hifeniza com quantos por cento de erro; se parte a tela, se não parte; um negócio completamente ultrapassado, mas foi interessante. O nosso grupo acertou na escolha daquela tecnologia, tanto que transferiu boa parte dela, conquistando a confiança do mercado. Estou confiante de que o mesmo vá ocorrer agora, no caso do portal de classificados.

J&Cia – E tem data já para apresentar?
ATC – Temos, agora no fim do mês de agosto.

J&Cia – E quais são os parceiros já fechados?
ATC – Eu vou revelar na hora certa.

J&Cia – Mas há parceiros já acertados?
ATC – Inúmeros.

J&Cia – São parceiros regionais?
ATC – Sim, regionais. São os maiores jornais de cada praça, com os quais estamos concluindo os contatos, numa fase já bastante adiantada.

J&Cia – Você acha que a internet, em termos de negócio, até mesmo aqui nos Diários, poderá ficar maior do que o jornal impresso?
ATC – Em termos de negócio, eu não tenho a menor dúvida. O nosso portal Uai tem uma rentabilidade extraordinária. Embora seja um negócio menor, a rentabilidade dele é maior em termos percentuais.

J&Cia – Qual o faturamento?
ATC – Eu não guardo... Tenho um livrinho ali a que eu preciso recorrer a cada vez ... Eu sou de origem de tecnologia, sou engenheiro, mas não guardo números... É uma desgraça (risos). Não tenho senha nem em computador. Senha bancária só tenho uma e em um banco apenas, porque se não estou frito (risos). Mas acredito que internet é um grande negócio. Não vai ser, já é um grande negócio. É preciso ter foco, saber o que extrair dela. Não é um site de sexo que vai dar dinheiro, não é por aí. É preciso que seja um portal de utilidade para a população. Esse de classificados é um exemplo típico.

J&Cia – Ele tem sinergia com os veículos?
ATC – Total. Você pode escolher o veículo em que vai publicar, na própria internet. Se quiser anunciar na internet, no rádio, no jornal e na tevê, ou só na internet, com vídeo, sem vídeo, com link para bancos financiadores... O negócio é infinito.

J&Cia – Você tem algum horizonte de curva de crescimento?
ATC – Creio que em classificados em algum momento a internet vai ultrapassar o jornal. Não tenho a menor dúvida.

(Sobre o portal Associados.com) “Você pode escolher o veículo em que vai publicar, na própria internet. Se quiser anunciar na internet, no rádio, no jornal e na tevê, ou só na internet, com vídeo, sem vídeo, com link para bancos financiadores... O negócio é infinito.”

J&Cia – Cinco anos, talvez?
ATC – Talvez. É a experiência do cars.com, dos Estados Unidos. É muito rápido. E o cars.com é uma empresa de um grupo de jornais e domina o mercado americano.

J&Cia – Esse de classificados é inspirado...?
ATC – Ele tem muita coisa da experiência do cars.com. E vai ter links para oficinas, peças, financiamentos, tributos. Você faz um requerimento: eu quero as ofertas de um Golf ano 2003 a 2005, numa área de 150 km do meu município, cor azul, com até tantos mil km e pago até tantos mil reais; e espera o retorno das ofertas. Daquelas ofertas, abre um link para o financiamento, faz uma simulação de quanto vai pagar de prestação, de seguro, IPVA ali da sua região e aí fecha negócio. Isso também vai ser para imóvel. Você pode ter a imagem do imóvel.

J&Cia – Como será a seleção de parceiros para esse tipo de negócio? Porque o consumidor precisa ter alguma segurança em relação a uma compra que faz sem ver a mercadoria.
ATC – O mercado de carros, por exemplo, está muito concentrado em agências. A venda de pessoa física para pessoa física caiu muito, por causa dos riscos de assalto. Então, o vendedor prefere entregar o carro para uma agência. Isso facilita um pouco essa história. Nós não vamos nos empenhar a ponto de cadastrar vendedores pessoas físicas. Mas temos que fazer, por exemplo, uma triagem para links de peças. Mas há as montadoras, bancos, que têm credibilidade. Já no site de empregos teremos um elemento facilitador, com os interessados conversando entre si dentro dos nossos arquivos. Temos as nossas salvaguardas. O mercado imobiliário é mais seguro, não tem assim tantos problemas. Mas, realmente, no retalho a internet ainda é dor de cabeça.

J&Cia – Qual o tamanho desse negócio?
ATC – (risos) A gente prefere deixar acontecer.

J&Cia – Mineiramente...
ATC – Mineiramente.

J&Cia – E em termos de números de classificados, você pode dar uma idéia?
ATC – Nas grandes praças, calculamos 200 mil classificados por semana em cada uma. Se somarmos oito a dez praças, poderemos chegar a 2 milhões de classificados por semana. Estou falando em termos de classificados impressos. Mas há, no caso de carros, o chamado produto de pátio. Uma agência de automóveis anuncia três ou quatro automóveis. O camarada acessa pra ver aquele e aparecem outros. Quer dizer, o arquivo multiplica por dez, vinte. No caso imobiliário é a mesma coisa. Então, é um negócio interessante.

J&Cia – Por enquanto são carros, imóveis e empregos?
ATC – Isso. Vamos começar com o de carros. O portal se chama Vrumm!, dirigido a jovens. Qual é a importância desse projeto? É que você usa o seu parceiro, com a força regional que ele tem, para entrar no todo e vender. Nós não temos a menor condição de conhecer, de captar as ofertas de um mercado, por exemplo, de Goiânia, de Salvador. Não temos veículo lá. Mas o veículo de lá também não tem a menor idéia de como captar as ofertas do Estado de Minas, de Belo Horizonte. Está na hora de juntar essas forças. É o win-win.

“Nós sempre tivemos o nosso jornal popular, que é o Diário da Tarde, aqui em Minas Gerais. Mas o mercado começou a exigir um produto menor e mais barato. Então, foi nesse sentido que decidimos lançar primeiro aqui esse jornal, e o nome Aqui é exatamente para que fosse um nome nacional, não um nome regional, para ser implantado em todo o grupo.”

J&Cia – Quanto foi investido nesse projeto?
ATC – Estamos investindo mais ou menos 5 milhões de dólares. Não é um investimento nominalmente muito grande, mas para internet é significativo.

J&Cia – Basicamente é para desenvolver tecnologia, programas...
ATC – Sim. Fomos buscar consultores internacionais. Fica caro eliminar os picaretas do processo. Há muitos picaretas nos Estados Unidos.

J&Cia – Há quanto tempo estão montando esse projeto?
ATC – Ah, já tem um ano e meio. E não é fácil, não. Porque a tecnologia é complexa. Porque você tem que oferecer algo mais do que o que há por aí. Se não você não consegue. Tem que fazer um negócio realmente importante. Esse negócio, em que estamos com todo o carinho, é um dos que eu posso falar. Os outros eu não conto. (risos)

J&Cia – Falando ainda nessa questão de novos negócios, os Diários têm um investimento recente, de dois anos para cá, que é o jornal popular Aqui. Fale um pouquinho dele e se já existem planos de lançar uma terceira edição, fora Brasília e Minas.
ATC – O Aqui foi mais ou menos uma evolução, uma imposição do mercado, uma evolução dos jornais ditos populares. Nós sempre tivemos o nosso jornal popular, que é o Diário da Tarde, aqui em Minas Gerais. Mas o mercado começou a exigir um produto menor e mais barato. Como temos intenção de levar a experiência para todas as praças onde o grupo está presente, optamos por um nome generalista, nacional, que é o Aqui. Já implantamos em Belo Horizonte e Brasília e o próximo deve ser no Nordeste. A experiência tem sido muito boa. É um negócio pequeno, que deve ser encarado como um negócio pequeno, que agrega ao nosso portfólio, mas ainda não o consideramos um negócio fundamental para o grupo; é um complemento infinitamente menor do que os nossos outros produtos em termos de números. Mas o lançamos com muito sucesso, está tendo uma boa acolhida. Sempre dou o exemplo de um empregado lá de casa que fala “esse jornal eu consigo ler”.

J&Cia – E as operações se pagam?
ATC – Ah, não! A gente ainda perde algum dinheiro. Mas é natural que num negócios dessa natureza se perca algum dinheiro. Mas é uma coisa inexpressiva em relação ao todo.

J&Cia – Como é distribuído hoje o faturamento do grupo?
ATC – A área de jornal representa atualmente 80%, contra 20% para rádio e televisão.

J&Cia – E o Estado de Minas é o carro-chefe em termos de faturamento?
ATC – É o maior faturamento, um pouco maior do que o do Correio Braziliense. Correio e Estado de Minas são os dois maiores faturamentos.

J&Cia – Mas o Correio vem de uma fase de prejuízos...
ATC – Muitos. Foi uma fase muito delicada. Mas interessante que a reação foi numa velocidade muito maior do que a gente esperava. Tivemos um desempenho tão interessante, tão extraordinário, que, só para vocês terem uma idéia, em fins de 2002 estávamos com dificuldade de crédito para pagar o 13º e em junho de 2003 distribuímos o primeiro bônus do Correio Braziliense. Uma virada realmente rápida. Conseguirmos resultado em junho de 2003 para distribuir o primeiro bônus do Correio Braziliense em toda a sua história. E foi um marco tão positivo que até forçamos um pouco a barra para que a auto-estima dos colaboradores aumentasse.

“Tivemos um desempenho tão interessante, tão extraordinário, que, só para vocês terem uma idéia, em fins de 2002 estávamos com dificuldade de crédito para pagar o 13º e em junho de 2003 distribuímos o primeiro bônus do Correio Braziliense.”

J&Cia – O Ricardo Noblat (Nota da Redação: ex-diretor de Redação do Correio Braziliense), em artigos que escreveu logo após ter deixado o jornal, afirmou que a nova gestão seria dócil com o governador Joaquim Roriz, para poder beneficiar-se da publicidade do Governo do Distrito Federal e que a gestão anterior caiu exatamente por pautar sua atuação por uma total independência editorial e postura crítica em relação ao governo local.
ATC – O mercado não sinalizou nada nesse sentido, quer dizer, os nossos leitores continuam... Pelo contrário, reconquistamos inúmeros leitores que já haviam abandonado o Correio por causa daquela linha editorial (Nota da Redação: denúncias feitas pelo jornal contra o ex-governador Roriz, sobretudo em relação a grilagem de terras no DF).

J&Cia – Você tem os números de circulação, quanto era e quanto é hoje?
ATC – Nós temos crescido, digamos, o dobro da média do mercado desde 2002. Não é um número muito grande, mas é significativo. O mercado cresce 1,5%, nós crescemos 3%; é o dobro, mas não é assim um número expressivo. É claro que, ao dirigir um latifúndio feito um jornal, pode-se ter visões as mais diversas possíveis, e a gente tem que respeitar. Mas fazemos pesquisas e com 40 anos de mercado sabemos quando um produto está agradando ou não. Acho que pelo menos para isso temos uma certa sensibilidade. Aqui, em Belo Horizonte, não somos alvo de elogios fáceis quando vamos a determinados lugares e, com freqüência, não há necessidade disso. Mas, em Brasília, não. A recepção é de tal ordem que não temos sossego quando vamos a um evento. Todos são unânimes: “Parei de ler, agora estou lendo. Puxa, como está melhor!”; “O jornal agora deixou de ser um jornal regional para ser realmente um jornal da Capital da República”. Nós temos um foco federal muito maior do que o jornal tinha. Quer dizer, o jornal tinha um foco regional, provinciano, muito ruim. Eu me lembro que dedicava 80% do seu primeiro caderno à política local, para prejudicar lá um possível candidato ou um candidato que iria ser eleito, no caso, o Roriz. Sendo que, ao mesmo tempo, existia uma briga federal de eleição, do José Serra com o Lula, que era muito pouco focada pelo jornal. A própria cobertura do jornal era muito regionalizada. São coisas do arco da velha. Quando houve aquela célebre primeira página de e-mails no Correio Braziliense, e-mails com suspeitas, não concordando com a mudança da gestão, com a saída de determinados elementos e tal... Isso foi uma página realmente negra no jornalismo brasileiro. (Nota da Redação: No auge da crise que culminaria com a saída de Paulo Cabral e de Ricardo Noblat do jornal e durante a qual o governador Roriz tentou interromper as denúncias do CB por via judicial, a primeira página da edição do dia 25/11/2002 reproduziu diversos e-mails que teriam sido enviados por leitores, com manifestações contra a já anunciada saída dos dois profissionais, contra mudanças no projeto editorial do jornal e ameaçando o cancelamento de assinaturas.)

J&Cia – Foi naquela época?
ATC – Foi naquela época sim. E foram muitas e profundas as emoções (risos).

J&Cia – Falando em emoções, vamos fazer uma ilação: Assis Chateaubriand e Roberto Marinho foram os reis da mídia, dois dos brasileiros mais poderosos do século XX...
ATC – Eu tenho a minha preferência entre os dois (risos).

J&Cia – Mas a pergunta é a seguinte: há algum novo rei da mídia a caminho?
ATC – Não. Nem há mais lugar para isso. Porque o Chateaubriand pegou um país que, no início do século, começou a ser um país de ponta, de bom desenvolvimento, mas com dificuldade de integração. O país era continental e tinha muita dificuldade de integração. A grande visão e o grande objetivo do Chateaubriand foram que o Brasil formasse realmente um país. Uma federação, com todos conhecendo o que se passava no país. Essa foi uma contribuição fundamental, tanto que na estratégia dele havia um jornal em cada capital.

“A grande visão e o grande objetivo do Chateaubriand foram que o Brasil formasse realmente um país. Uma federação, com todos conhecendo o que se passava no país. Essa foi uma contribuição fundamental, tanto que na estratégia dele havia um jornal em cada capital.”

J&Cia – Ele tinha uma visão de estadista?
ATC – De estadista, de largo espectro.  Ele se intitulava, “com muita honra, repórter do Alto Madeira”, um jornal de Roraima, coisa que espelhava a estratégia dele de integração nacional. E com o pioneirismo em televisão, rádio; ele usou muito o rádio. Mas tinha o objetivo de desenvolver o País. E um espírito público muito elevado. Ele não ligava para dinheiro, não sabia o que era o dinheiro, não se preocupava com esse negócio de dinheiro. Ele se preocupava com o País. Evidentemente, não deve ter acertado todas as suas teses. Mas muitas acertou, como, por exemplo, o museu (Nota da Redação: o Museu de Arte de São Paulo – Masp, por ele fundado com Pietro Maria Bardi em 1947). Ele dizia que não poderia existir um país que não tivesse um museu expressivo. Até quando foi senador, em certo momento ocupou a tribuna para dizer que um país em cujo Senado a privada era suja não podia ir para a frente (risos). Ele fez até pronunciamento desse tipo. Era realmente um patriarca e foi um estadista até morrer. Roberto Marinho foi mais empresário, foi mais aquele homem de grupo, de fazer uma empresa forte...

J&Cia – Mais voltado para os próprios negócios...
ATC – Voltado mais para os próprios negócios, para resultado, ganhar dinheiro. E fez um trabalho também muito expressivo, interessante.

J&Cia – Você chegou a ter algum contato com Chateaubriand? Conviveu com ele?
ATC – Tive. Ele morreu em 68, eu nasci em 43. Vocês fazem as contas aí.

J&Cia – O seu pai, Geraldo Teixeira da Costa, foi o mentor do Correio Braziliense, não é? (Nota da Redação: Geraldo Teixeira da Costa foi editor-chefe do Estado de Minas e um dos principais colaboradores de Assis Chateaubriand.)
ATC – Foi (risos). Foi num congresso em Guarujá, talvez o único dos Diários Associados naquela época. Ele fez uma proposição, que está narrada no livro do Glauco Carneiro, de que a capital estava saindo e era preciso que os Diários Associados tivessem um jornal lá, que poderia ser rodado nas oficinas de Goiânia – porque na época tínhamos um veículo em Goiânia, hoje não temos mais. E essa proposição foi aceita. Evidentemente, não deve ter sido isso que levou o Chateaubriand a se decidir. Mas foi a semente plantada naquele momento – isso foi em 1957 –, que depois germinou, quando ele, que era contrário à construção da capital em Brasília, acabou se rendendo aos argumentos do Juscelino e abraçou a causa. E colocou para rodar o Correio Braziliense no dia da inauguração. Isso marcou a cidade e o Correio é realmente um jornal da capital.

J&Cia – Estávamos falando dos novos expoentes da mídia. Você não vê ninguém?
ATC – Não. Eu não vejo mais esse tipo, porque não é democrático. Acho que não dá mais para ter um grupo hegemônico, tão personalista. Creio que o mercado deve ser dividido, precisa ter vários players. Poderes muito concentrados em um certo grupo não é bom para o País. Foi bom naquela época, porque pelo menos tinha alguém investindo pesado e orientando a comunicação num país jovem. Mas acho que hoje não... Vamos pegar o caso, por exemplo, dos Estados Unidos. Lá existem leis que não favorecem, ao contrário, impedem esse tipo de concentração.

J&Cia – Nesse sentido o condomínio é mais democrático?
ATC – Não tenham dúvidas, porque aqui as decisões são todas colegiadas, discutidas, aprovadas ou não.

J&Cia – Há duas questões que gostaríamos que você analisasse. Uma é a chegada do Nelson Tanure à mídia, uma figura que vem de outra área, um capitalista que viu oportunidade de negócio na mídia. É polêmico, muita gente desconfia das suas intenções, mas ele aí está e, depois de entrar na mídia impressa, prepara-se para desembarcar na televisão, com a compra da CNT. A outra questão é o fenômeno que o Ruy Mesquita, num pronunciamento que fez num congresso nosso (Nota da Redação: pronunciamento feito ao receber, em 2004, o Prêmio Personalidade da Comunicação, durante o 7º Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas), chama de “murdochização da imprensa”, ou seja, o jornalismo subjugado pelos homens de negócios.
ATC – Eu prefiro não entrar nesse assunto do Tanure. Primeiro porque não o reconheço como homem do mercado. Segundo, não reconheço que haja alguma expressão e também não reconheço que haja critérios seguidos pelo mercado, de forma que nesse assunto eu gostaria de passar por cima.
(Nota da Redação: a simples menção do nome de Tanure, na entrevista, mudou por instantes o humor de Álvaro, que não quis dar seqüência ao tema. O que poderia ser explicado pelo muito que se falou sobre o eventual interesse do empresário pelos Diários e por supostas negociações que ele teria entabulado com Gilberto Chateaubriand, um dos herdeiros e condômino do Grupo, visando assumir o controle do condomínio, conforme rumores que se espalharam pelo mercado, anos atrás).

“Eu prefiro não entrar nesse assunto do Tanure. Primeiro porque não o reconheço como homem do mercado. Segundo, não reconheço que haja alguma expressão e também não reconheço que haja critérios seguidos pelo mercado, de forma que nesse assunto eu gostaria de passar por cima.”

J&Cia – E com relação à questão da “murdochização” da imprensa, quer dizer, a imprensa virando negócio?
ATC – O lucro sempre, é preciso dizer, foi perseguido pelas empresas jornalísticas e é só pegar esse livro com que vocês acabaram de me presentear (A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira, de Engel Paschoal) para se comprovar isso. Uma das frases mais interessantes ditas pelo Frias, registrada no livro, é “um capitalista que não dá lucro é um pecado capital” (risos). Frias foi, digamos, um precursor de resultados positivos em grupos de comunicação. Acho que o lucro é perseguido pelo mercado de comunicação no mundo inteiro há muitos anos, inclusive no Brasil, isso não é novidade. Eu me lembro de algo muito interessante, de quando nós refizemos o primeiro planejamento estratégico do Correio Braziliense. Você pega o planejamento estratégico anterior, faz uma revisita e a partir daí desenvolve as suas metas, as suas idéias, a sua visão, a sua missão etc. E no planejamento estratégico que nós encontramos no Correio Braziliense tinha lá uma frase da qual rimos muito e que, evidentemente, mudamos: “O jornalismo é um bom negócio”. (risos) Não pode, né? (risos) O jornal é um bom negócio, não o jornalismo. E estava escrito no nosso planejamento estratégico. Quer dizer, muitos usam esse como seu lema. Não é por aí, o jornal é um bom negócio, tem que ser um bom negócio, o jornalismo não. O jornalismo é uma coisa mais nobre, tem uma dimensão muito maior do que se pode imaginar. E vejo isso também com muita naturalidade, que todos busquem resultados.

J&Cia - E em relação ao capital estrangeiro?
ATC - Creio que a participação de capital estrangeiro na mídia é um negócio polêmico. Não gosto quando se fala nesse assunto porque não acredito que haja grupos internacionais aplicando recursos em mídia para obter retorno financeiro. Não acredito que alguém não esteja querendo ser contemplado com retorno político. E retorno político em mídia significa perda de isenção. Então, eu observo com muito cuidado, acho que as nossas leis ainda não chegaram num ponto de tranqüilidade. Vejo isso com preocupação, penso que esse modernismo de ampliação de portfólios dentro da mídia tem algumas dificuldades, embora reconheça que esse é um caminho natural.

J&Cia – Quando você diz portfólios, está se referindo à propriedade cruzada, ou seja, grupos detendo jornais, rádio, televisão etc?
ATC – É. Coisas desse tipo. O País precisa amadurecer um pouco mais.

J&Cia – Vamos colocar uma pimentinha aí, nessa questão de propriedade cruzada e poder. A Igreja Universal, que tem hoje um poder imensurável na mão, é dona de três redes de tevê, de dezenas de emissoras de rádio, jornais, inclusive o Hoje em Dia, de Belo Horizonte, além de uma bancada política, com deputados, senadores e candidatos também a cargos executivos. Outras igrejas seguem o mesmo caminho. Queria que você analisasse um pouco esse fenômeno, comparando-o com o que se passou nos EUA, que, após se defrontar com fenômeno parecido, fez uma dura legislação para conter essa fúria.
ATC – É, lá os chamados pastores eletrônicos sumiram, não é? Não têm mais aquela expressão que tinham anteriormente. Esse é um caso típico nesses meus temores dentro desse processo de mídia. Não há dúvida que é um exemplo que deve ser levado em conta e que deve ser analisado de uma maneira profunda. Acho complicado.

J&Cia – Os executivos dos veículos têm pensado, debatido esse assunto?
ATC – Infelizmente, não. Não tenho ouvido falar disso nas nossas associações. Acho que há um descontentamento explícito, geral, mas há ainda uma atuação muito limitada. Isso é uma dificuldade porque gera uma concorrência desleal e desqualificada.

J&Cia – É, porque a fonte de financiamento de um veículo normal a gente sabe qual é...
ATC – Bom, se vocês quiserem ir um pouco mais longe, vamos viajar na maionese. Se a Al Qaeda comprar aqui meia dúzia de estações de rádio, de televisão, já pensaram o que viraria esse pacato País? Já que a legislação permite pelo menos 30%... Então, são fatos que é preciso analisar com maturidade. Antes que se pense em resolver problemas próprios e pontuais, como é o caso de participação estrangeira, e até de ambições maiores, é importante que se tenha um pouco mais de espírito público nessa história. O exemplo da Al Qaeda é bastante significativo.

“Se a Al Qaeda comprar aqui meia dúzia de estações de rádio, de televisão, já pensaram o que viraria esse pacato país? Já que a legislação permite pelo menos 30%... Antes que se pense em resolver problemas próprios e pontuais, como é o caso de participação estrangeira, e até de ambições maiores, é importante que se tenha um pouco mais de espírito público nessa história.”

J&Cia – Que princípios norteiam o jornalismo praticado pelos Diários? Como vocês fazem, para, no dia-a-dia, garantir a prática do bom jornalismo?
ATC – Temos uma linha editorial, um manual de estilo e de ética, e reuniões de pauta com freqüência. Defendemos sempre a livre iniciativa, a democracia, a isenção política... Não existe isenção completa, a gente tem que admitir isso, e me lembro que ouvi isso, não vou citar a fonte, de um grande publisher da indústria brasileira. Ele falou que o jornal tem a cara daquele que o publica, daquele que está na frente. É inevitável que cada jornal tenha a característica do seu dono, do seu gestor do momento. Mas é preciso cuidado, para que o bem comum não venha a ser subjugado pelos interesses pontuais e pessoais e para que o jornalismo não perca a isenção. Claro que não vamos defender candidaturas de Delúbios e companhia. Nessa área a gente não pode ser isento, tem que ser combativo. Creio que o nosso grupo está seguindo essas premissas.

J&Cia – Qual a sua avaliação sobre a atuação da mídia na crise política que envolveu o Congresso e o Governo Lula? Você acha que a mídia sai engrandecida? Ela cumpriu bem o seu papel?

ATC – Eu diria que acertou 80% dos seus alvos. Vejo algumas distorções, vejo a martirização de peixes pequenos, de gente com participação menor e um certo esquecimento de alguns graúdos nessa história. Infelizmente, a mídia cometeu esses erros. E como bom mineiro eu posso dizer que o foco em Minas Gerais foi muito maior do que deveria ser, para que determinadas regiões fossem livradas da parcela de culpa que tinham nesses episódios desagradáveis. Esses foram os 20% em que a mídia errou.

J&Cia – Você pode dar algum exemplo?
ATC – Eu não poderia dizer assim com profundidade, porque não estudei, mas vou chutar. E, por favor, digam que isso é um chute. Exigiram de um banco mineiro todas as informações e todas as movimentações e isso foi entregue. E do Banco do Brasil nada, nenhuma exigência maior de entregar documentação de movimentações e ficou por isso mesmo. Essa é uma das críticas que eu faço. Não estou defendendo essa ou aquela instituição. Estou me referindo à desigualdade no tratamento da mídia e dos políticos em relação a determinadas instituições. Que, digamos, foram os bois-de-piranha nessa história.

J&Cia – E em relação aos principais veículos dos Diários, você ficou satisfeito com a cobertura?
ATC – Fiquei. Demos grandes colaborações e a nossa cobertura foi contundente...

J&Cia – Ficaria também nesses 80 e 20%?
ATC – Ah, também! Sem dúvida. Acho que exageramos em algumas coisas, aliviamos em outras que não deveríamos ter aliviado, mas na média fomos bem. Demos muitas contribuições, muitos furos...

J&Cia – O caso dos vampiros...
ATC – Os vampiros, as ambulâncias... O principal deputado ameaçou um nosso jornalista de morte. Esse Capixaba, que é mineiro. Teve o caso da madeira, no Pará, as contas publicitárias do Duda Mendonça... Fomos nós que descobrimos o nome da conta e assim por diante.

“Quem diz que faz sinergia com rapidez e facilidade, eu não acredito. Quero ir lá ver. Acho que as diferenças culturais das próprias empresas são muito grandes para que a gente almeje sinergias perfeitas. Mas essa na área de Redação me surpreendeu positivamente pela velocidade e pela qualidade.”

J&Cia – Vamos falar um pouco sobre a questão da sinergia. Vocês têm uma experiência muito interessante, com a vinda do Josemar Gimenez (Nota da Redação: profissional contratado seis anos atrás como diretor de Redação do Estado de Minas e que em 2002 assumiu também o Correio Braziliense), que é fazer um time de repórteres especiais atuando simultaneamente para os dois jornais. Com 35 veículos, vocês têm um planejamento para incrementar a sinergia?
ATC – O caso Estado de Minas/Correio Braziliense é um dos pontos positivos que alcançamos com uma certa velocidade. Mas o processo sinérgico é muito complexo. Quem diz que faz sinergia com rapidez e facilidade, eu não acredito. Quero ir lá ver. Acho que as diferenças culturais das próprias empresas são muito grandes para que se almeje sinergias perfeitas. Mas essa na área de Redação me surpreendeu positivamente pela velocidade e pela qualidade. Foi fundamental, evidentemente, termos um comando único. É importante termos um único diretor nos dois jornais e, com isso, irradiar essa prática para os outros jornais do grupo. Há casos bastante interessantes, em que você pode juntar suas forças nas reportagens especiais, investigativas, com o que tem de melhor nos dois jornais, e ter um grupo coeso, único... E estão aí as repercussões, a bem dizer, do nosso acerto. Há ainda algumas dificuldades. Vejo às vezes uma dificuldade no Estado de Minas, que dá um foco muito nacional, quando deveria ser um pouco mais regional... Essa é a batalha diária que temos. Mas o processo sinérgico é lento e tem de ser compactuado com as pessoas que dele vão participar para ser duradouro. Aliás, não acredito em sinergia manu militari. Não funciona. As pessoas até aceitam, mas não dá o resultado que se espera. Não há como, sentado aqui em Belo Horizonte, eu ter condições de acompanhar o cotidiano de um jornal em Recife. Mesmo estando em sintonia, seguindo uma mesma orientação, os interesses regionais são diferentes. Daí ser muito melhor um modelo híbrido, combinando a orientação geral com autonomia local. Há casos, é claro, em que é possível uma sinergia efetiva, como em cadernos de turismo, veículos, informática, até internacional... embora até mesmo internacional às vezes demande interesses diferenciados. Mas, enfim, esse é um assunto em que há muito a caminhar, porque são coisas realmente muito complicadas. Se pegarmos o exemplo do próprio Nordeste, vamos ver que há diferenças profundas de um Estado para outro.

J&Cia – Muito bairrismo, não é?
ATC – Que é a mola mestra de qualquer veículo regional. O que seria de um jornal se não fosse o bairrismo? Seria um jornal amorfo, nacional, que não teria nenhuma influência na sua região. Essa regionalização é importante para que se tenha um produto forte.

J&Cia – Vocês fazem alguma reunião periódica entre os executivos de Redação?
ATC – Fazemos a cada três meses aproximadamente. Vem todo mundo. O Josemar também visita os outros veículos, conversa com os executivos. E temos links permanentes, ligados 24 horas. Troca-se muita experiência, informação. A comunicação rápida hoje facilita muito essa história. É um meio de transporte. Eu trabalho em Belo Horizonte e em Brasília e não faz a menor diferença. A única dificuldade é levantar mais cedo, coisa que não gosto de fazer (risos). Chego ao escritório lá em Brasília por volta de 10 horas. Aqui também chego nesse horário. Não há nenhuma diferença, a não ser de ambiente, o que às vezes me deixa meio confuso. (risos)

J&Cia – E a família?
ATC – Como meus filhos estão casados e com vidas próprias, minha família hoje somos eu e a minha mulher. E ela me acompanha nas idas e vindas entre Belo Horizonte e Brasília, até porque comanda um projeto de responsabilidade social muito interessante, nos dois jornais, chamado Correio Solidário e, aqui, em Belo Horizonte, Jornada Solidária.

“O que seria de um jornal se não fosse o bairrismo? Seria um jornal amorfo, nacional, que não teria nenhuma influência na sua região. Essa regionalização do jornal é importante para que se tenha um produto forte.”

J&Cia – O nome dela é...?
ATC – Nazaré Teixeira da Costa. A Jornada Solidária aqui do Estado de Minas tem 41 anos ininterruptos. São voluntários que fazem algumas ações sociais. Então, Nazaré vai lá também para trabalhar. A gente alia o útil ao agradável.

J&Cia – Qual é a sua visão sobre o futuro da mídia impressa, em particular os jornais?
ATC – Acho que o jornal está perdendo um pouco, mas vai se fixar num patamar de grande importância, por muito tempo ainda. Como falei, a minha visão é de, no máximo, 40 anos, quando pretendo começar a pensar em me aposentar (risos).

J&Cia – Seus inimigos vão adorar... (risos)
ATC – É, eles não vão ficar muito satisfeitos. Vou dar uma de Fidel Castro e até os 100 anos vou questionar um bocadinho (risos). Eu sou de uma geração em que o jornal tinha uma importância política bem mais expressiva. Todo mundo esconde um bocadinho, mas vamos dizer a verdade: o jornal já teve uma força maior. É formador de opinião e vai continuar a sê-lo ainda por muito tempo, porém menos do que já foi um dia. Não vai ser como o rádio, que tinha tudo e hoje é muito pequeno. Isso não vai acontecer com o jornal, até porque a mídia impressa ainda não explorou tudo o que poderia explorar. Eu vejo esse futuro com muito otimismo, mesmo admitindo que a gestão tenha que ser cada vez mais sofisticada para que o lucro continue a existir. Não há empresa sem lucro.

J&Cia – O Nelson Sirotsky e o Otávio Frias Filho, por exemplo, em entrevistas que concederam anteriormente a esta série, acreditam que, ao contrário do que se passa nos grandes centros mundiais, a mídia impressa poderá ainda crescer substancialmente no Brasil. Isso porque estamos, em tese, longe de ter chegado ao pico de circulação. Poderemos crescer tanto pela recuperação da economia quanto pela elevação dos padrões de educação da sociedade brasileira. E é o que os motiva a continuar investindo na mídia impressa, ainda que num cenário internacional desfavorável. O que você pensa disso?
ATC – Não tiro a razão deles, embora eu não seja tão otimista. Eu conheço esse posicionamento do Nelson; do Otávio, não. Acho que temos chances de crescer em circulação, mas existe o chamado gap tecnológico. Isso prejudica um pouco. Quando um país alcança determinado nível de tecnologia e o povo acompanha os modernismos, o país que está menos avançado tende a pular etapas para atingir aquele desenvolvimento. Ou seja, o nosso jovem, muito jovem, no Brasil já passa mais tempo no computador do que na televisão. É claro que essa massa ainda a ser alfabetizada é um prospect no futuro, mas acredito que para esse tipo de nicho de jornal popular.

J&Cia – Há também a se considerar a questão do foco editorial dos jornais. Há uma propensão de deixaram de ser o registro dos fatos de ontem para serem o olhar de amanhã de seus leitores...
ATC – Eu tenho uma turma aqui que acompanha o mercado internacional mais de perto do que eu. Houve um caso da Copa do Mundo muito expressivo. Aquele centro-avante da seleção inglesa, o Rooney, se machucou e um dos jornais ingleses deu ao resultado do jogo ¼ de página e dedicou oito páginas à contusão do jogador. Ou seja, está claro que resultado de jogo é commodity, porque a imensa maioria das pessoas já tem essa informação. Já o que vai acontecer com jogador gravemente contundido é a notícia que mais interessa aos leitores. É por aí.

“Acho que temos chance de crescer em circulação, mas existe o chamado gap tecnológico. Quando um país alcança determinado nível de tecnologia e o povo acompanha os modernismos, o país que está menos avançado tende a pular etapas para atingir aquele desenvolvimento. Ou seja, o nosso jovem, muito jovem, no Brasil já passa mais tempo no computador do que na televisão.”

J&Cia – Como serão os investimentos dos Diários no futuro?
ATC – Vamos desenvolver novas mídias e aumentar o nosso portfólio de algumas mídias tradicionais.

J&Cia – Qual é o tamanho do investimento, percentualmente falando, em tecnologia, treinamento...?
ATC – Cerca de 15% do nosso faturamento é destinado a investimentos. Deveremos investir cerca de 50 milhões de dólares nos próximos cinco anos.

J&Cia – Um outro assunto que tem chamado muito a atenção do mercado é o jornal gratuito. São 160 no mundo. Em São Paulo já há uma experiência com o Destak. Você vê isso como uma tendência?
ATC – Não. Não acredito em jornal gratuito nesse modelo europeu. Por vários motivos. Acredito no jornal gratuito no modelo americano, porque lá os jornais com esse perfil são segmentados e focados (neurologistas, advogados etc). Mas fora dessa segmentação, o jornal gratuito não tem aquela condição de surpreender, de investigar, de dar o furo. Esse é ainda um grande apelo de um jornal. Fora o aprofundamento e as análises, que são fundamentais. Ou não é verdade que só conseguimos entender determinados fatos depois de ler no jornal? Isso acontece comigo, com todo mundo. Por que é que esse fato aconteceu? Vou saber no jornal, nas revistas. O jornal gratuito vai ser uma enchente de commodities sem nenhum interesse. Não vai ter uma redação investigativa. Vai pegar umas agências mais baratas, releases...

J&Cia – Você não acha que o mercado anunciante pode se seduzir por essa proposta?
ATC – Aí é o mercado que vai dizer. Porque o mercado anunciante precisa ter fidelidade. Não sei se jornal gratuito conquista fidelidade. Não tem IVC. Você lê o jornal gratuito todo dia? Você lê o jornal gratuito que recebe em casa?

J&Cia – Você pelo menos acompanha esses movimentos? O Aqui pega já uma faixa...
ATC – Acompanho. O Aqui está nessa faixa, custa barato. De barato para zero é um pulo (risos). Mas você não consegue ter um grande jornal, com profundidade, de graça. Como o Estado de Minas, Correio, jornais do Rio, São Paulo...

J&Cia – Quer dizer que não faz parte dos planos dos Diários um jornal gratuito?
ATC – Decididamente, não.

“O jornal gratuito vai ser uma enchente de commodities sem nenhum interesse. Não vai ter uma redação investigativa. Vai pegar umas agências mais baratas, releases...”

J&Cia – Mudando para política, qual a sua opinião sobre o Governo Lula?
ATC – A minha opinião é complicada. Acho que ele começou o seu governo da pior forma possível e imaginável. E está, agora, num processo de aprendizagem. Ele e o grupo que levou para o Planalto não tinham a menor noção do que iam encontrar, o que tinham que fazer e como se gerencia um país tão complexo e tão diferente como o nosso. A visão era paulista e de extrema pobreza do Nordeste, esquecendo que o Brasil não é só paulista nem só extrema pobreza do Nordeste. Os colaboradores iniciais foram extremamente ruins, sem excluir ninguém. Ele está aprendendo agora que não se põe um país para funcionar apenas com agências reguladoras, com políticas econômicas convencionais, com imposições de condutas próprias para a sociedade. É preciso harmonia, é preciso conhecer as dificuldades para encontrar soluções. Acho que agora ele aprendeu. Se daqui para frente vai aplicar o que aprendeu, só o tempo dirá. Mas eu espero que isso ocorra.

J&Cia – De 0 a 10, que nota você daria?
ATC – Para os dois primeiros anos, meio. De dois anos para cá... não vou dar nota, vamos esperar um pouquinho. (risos)

J&Cia – Você já decidiu o voto para presidente?
ATC – Não. Não decidi. Aliás, não sei se vou votar para presidente. Para governador já decidi. Vou seguir a esmagadora maioria dos mineiros, que quer um novo mandato para o governador Aécio Neves.

J&Cia – Se você votasse em Brasília quem seria o seu candidato lá?
ATC – Em Brasília eu não analisei justamente porque não voto lá. Mas acho que há bons nomes. Fica difícil dar uma opinião. Eu costumo dizer que tenho, pessoalmente, o direito de optar para quem dou o meu apoio ou o meu voto. Mas eu só tenho, na certa, um candidato em quem vou votar com entusiasmo: é o nosso governador aqui. O voto é consciente e eu sei que o resultado vai ser o melhor possível. Para presidente a minha tendência é não votar.

J&Cia – Agora que você tem ficado muito na ponte aérea, quais diria que são as principais diferenças de fazer jornal em Brasília e em Minas?
ATC – São muito grandes. Dois mundos completamente diferentes. Culturas totalmente diferentes. Daí o perigo do excesso de sinergia. Você trazer de lá pra cá, levar daqui pra lá, mesmo sem querer. Aí você compreende melhor. Brasília é outro mundo, é outra cabeça, são outros anseios, outras dificuldades. Vou citar um exemplo que talvez seja bastante significativo. Lendo lá no Correio, no início da minha gestão, uma Carta de Leitor, eu me deparei com um leitor indignado com o fato de Brasília ter um outdoor fora de legislação na entrada do Parque Municipal da cidade. Pois bem, Belo Horizonte tem 30 mil outdoors fora de padrão (risos). São coisas completamente diferentes. Lá fez-se uma obra bastante polêmica, a chamada Terceira Ponte, a ponte Juscelino Kubistcheck, em que houve muita acusação de superfaturamento, a “ponte dos 10%”. Eu sou engenheiro e me disseram que foram pagos pelo governo estadual R$ 180 milhões. Nos Estados Unidos, essa ponte teria custado 1 bilhão de dólares. Se me dessem R$ 180 milhões para fazer aquela ponte, eu, que sou engenheiro, não faria, não correria esse risco. É uma ponte sobre um lago artificial; portanto, a sua fundação... É preciso ler a história dessa ponte. Nenhum engenheiro calculista brasileiro quis calcular. Ela teve que ser calculada por um engenheiro alemão, que encontrou lá 16 qualidades diferentes de solo. Então tem fundação de 50 metros de profundidade, outras de 3, e num lago artificial; quer dizer, nada sedimentado, nada consolidado. A ponte de Chicago, um pouco maior, custou 2 bilhões de dólares, e é uma ponte que tem essas características. Na época, o Correio Braziliense quase inviabilizou a construção dessa ponte dizendo que ela tinha sido orçada por R$ 40 milhões e que custou R$ 180. Orçar por R$ 40 milhões uma ponte daquelas? Eu só atribuo a quê? A uma estratégia do construtor para conseguir a obra e depois aumentar o preço. Porque é impossível você fazer uma ponte daquelas por R$ 40 milhões. São essas coisas que precisamos compreender e saber gerenciar e não levar a opinião pública toda contra aquele negócio sem que as informações estejam corretas e completas. Aqui em Belo Horizonte é outro problema, completamente diferente. Aqui nos deparamos com um centro completamente desfigurado, uma cidade sem investimentos, você tem que puxar por uma aplicação mais ampla, principalmente do Estado. Um Estado que teve um retrocesso enorme com governos anteriores, inclusive rompendo com mecanismos internacionais de investimento, que o governo atual teve que reatar (Nota da Redação: decretação da moratória feita por Itamar Franco, no período em que governou Minas Gerais, antecedendo Aécio Neves). Conseguiu agora a aplicação de um recurso internacional sem contrapartida, que é o coroamento de qualquer gestão pública; a contrapartida é a qualidade da gestão daquele recurso. Mesmo porque o Estado não teria o recurso para fazer essa aplicação. E as aplicações no GDF, qualquer obra lá precisaria 50% de contrapartida; quer dizer, vai fazer uma obra de R$ 100 milhões tem que ter R$ 50 milhões no caixa. É um Estado, entre aspas, que tem o seu custeio feito pela União. Lá não se paga por segurança, saúde e educação; é tudo federal. E não tem rodovia. Eu tenho que distribuir o Correio Braziliense num raio enorme, de 80 km (risos). Minas tem 853 municípios. São diferenças abissais. E o interessante dessa aplicação de recursos é isso: lá no GDF você tem dinheiro a rodo, pode gastar. Aplicou o recurso, todo mundo vê. É realmente uma cidade maravilhosa, que arrecada o imposto estadual e o municipal. Tudo num só caixa.

“Eu tenho que distribuir o Correio Braziliense num raio enorme, de 80 km (risos). Minas tem 853 municípios. São diferenças abissais.”

J&Cia – Aqui você tem o governo estadual e a prefeitura. Quando precisa beliscar você belisca?
ATC – Muito, muito. Beliscamos bastante. Modéstia às favas, essa obra da duplicação da Antonio Carlos, que é de acesso ao aeroporto da Pampulha, a revitalização dessa área foi toda conseqüência de pressões que o Estado de Minas fez nesse sentido, tanto na área do governo do Estado como no governo municipal.

J&Cia – O seu voto não interfere...?
ATC – Não. O Estado de Minas exigiu uma solução desse transporte aéreo de Belo Horizonte e de sua iluminação. A iluminação de Belo Horizonte hoje é conseqüência de uma campanha que nós fizemos, de que um Estado que tem a Cemig não podia ter uma capital com o menor nível de iluminação do País. Isso foi uma das coisas que ajudamos a mudar na capital, por força da pressão do jornal. Cheguei a falar ao governador, no início da sua gestão, que era impossível atrair investidores e investimentos com o  estágio de degradação apresentado pela cidade. O jornal foi fundo nessa questão, mostrando ao governo, por exemplo, que 40% dos imóveis, ao longo da avenida Antonio Carlos, estavam sendo literalmente abandonados, porque não havia condição de qualquer microempresa se estabelecer no meio daquela favela. Mostramos fotos e fotos de imóveis depredados, abandonados. Também temos criticado a questão de cultura do Estado, que achamos que não está indo como deveria estar.

J&Cia – Você tem uma formação de engenheiro mas acabou se encontrando na imprensa...
ATC – Eu nasci em jornal. Por quê jornal? Se você me perguntar qual é a mais antiga lembrança que tenho desde que nasci, eu me vejo com quatro ou cinco anos sentado na redação do Estado de Minas brincando naquelas máquinas Remington, das bolinhas pretas, pondo papel e dedilhando nas pretinhas e meu pai chegando e falando: “Meu filho, não gasta papel!” Quer dizer, eu nasci com essa frase: não gasta papel (risos). Esse negócio de papel me persegue desde que eu nasci.

J&Cia – Que análise você faz dessa nova safra de jornalistas, dessa nova geração que está chegando ao mercado?
ATC – Eu sou um entusiasta dessa nova turma. Às vezes me arrepio com os arroubos, até por ser de uma época mais tranqüila, mas essa nova geração tem a minha admiração. Ela é muito importante, sabe da força que tem e está buscando colocar essa força a serviço do bem comum. Eu gosto muito.

J&Cia – É uma geração talentosa?
ATC – Ah, muito! Tem repórteres aqui que são os terrores dos corruptos...

J&Cia – E quanto à questão do diploma?
ATC – Para mim, o diploma é uma coisa absolutamente secundária. Não correndo risco de vida, acho que o diploma não significa muita coisa. Eu mesmo tenho há pouco tempo o título de aprendiz de rábula, na área jurídica, e me vejo muito bem nessa área, não tenho dificuldade. O jornalismo depende muito do editor, da pessoa, da cultura pessoal, do entusiasmo e do espírito público. Isso é fundamental. Na escola ele vai desenvolver a técnica de comunicação. Não estou relegando a importância da escola; acho que o desenvolvimento da técnica é muito importante. Mas não é condição si ne qua non.

“Eu me vejo com quatro ou cinco anos sentado na redação do Estado de Minas brincando naquelas máquinas Remington, das bolinhas pretas, pondo papel e dedilhando nas pretinhas e meu pai chegando e falando: ’Meu filho, não gasta papel!’ Quer dizer, eu nasci com essa frase: não gasta papel (risos).”

J&Cia – No caso do Estado, do Correio, que estão mais sob a sua direção, como é que se dá essa busca de talentos? Há algum convênio com universidades, algum programa...?
ATC – Os nossos estagiários, poucos, são todos indicados pela universidade. Nós temos aqui um convênio com a Universidade Católica, antigo, e lá no Correio também, em que o número de vagas é preenchido por indicação da universidade. E nós acatamos, podendo, no futuro, contratar ou não esse profissional.

J&Cia – Na sua opinião, qual é o melhor jornal do mundo?
ATC – Eu poderia citar cinco, mas fico com o Estado de Minas e o Correio Braziliense (risos). Depois dos dois a gente tem o Diário de Pernambuco... É muito difícil saber qual é o melhor jornal do mundo. Eu tenho aqui as minhas preferências, mas tenho também as minhas críticas.

J&Cia – Mineiramente, você não põe azeitona na empada dos outros...
ATC – Eu não gosto de diminuir o encalhe dos outros (risos).

J&Cia – Em que jornais você passa os olhos diariamente, além dos próprios?
ATC – No Globo e no Estadão. Na Folha, quando enfoca alguma coisa envolvendo Minas ou o Distrito Federal, mas é menos freqüente.

J&Cia – Os Diários chegaram a estabelecer algum tipo de compromisso na cobertura das eleições, algum decálogo, normas de conduta?
ATC – A principal base é que seja uma cobertura equânime, igual. Não ser omisso e analisar aquele momento, aquele fato, da maneira mais profunda possível. Estamos adotando este ano, por sugestão do Josemar, a medição da área atribuída a cada político. Principalmente no Correio Braziliense, os candidatos estão elogiando. Isso é raro. Eu só admito nessa hora dois fatos: ou todos os candidatos elogiam ou todos criticam, pois é sinal de que está bom (risos). E eles estão elogiando.

J&Cia – Você exerce algum tipo de interferência no dia-a-dia das redações?
ATC – É muito raro. Não é todo dia, mas os principais fatos eu gosto de saber e sou informado no dia anterior. Só fatos realmente diferenciados. No dia seguinte sou bastante crítico. (risos)

J&Cia – O Assis Chateaubriand ainda é uma figura inspiradora dentro do condomínio?
ATC – É uma figura histórica mas também é inspiradora. É como eu falei: não ousamos sequer pensar em alterar o seu pensamento com relação à estrutura empresarial por ele deixada. E ele é fonte de inspiração na sua ousadia, na sua visão ampla das coisas do mundo, do Brasil. Sempre nos baseamos nessa história. E na defesa da livre iniciativa. Nós temos uma trajetória muito boa nesse sentido, tanto o Correio Braziliense como o Estado de Minas. Coisas do tipo: a Mannesmann e a Fiat se instalaram em Minas Gerais por pressão do Estado de Minas, que defendeu inclusive a concessão de benefícios fiscais para a instalação de grandes empresas. Também defendemos empresas quando fica claro que elas são atacadas de uma maneira injusta... Como foi o caso desse episódio que citei, da crise política, em que se atacaram empresas mineiras, esquecendo as demais. E não fazemos isso para inocentá-las, mas sim procurando o sentido da justiça para todos... Essas são atitudes inspiradas no legado que ele nos deixou.

“Principalmente no Correio Braziliense, os candidatos estão elogiando (a cobertura política). Isso é raro. Eu só admito nessa hora dois fatos: ou todos os candidatos elogiam ou todos criticam, pois é sinal de que está bom (risos). E eles estão elogiando.”

J&Cia – Com a falência da Tupi, vocês ficaram fora de São Paulo, onde tinham uma presença muito forte. Vocês têm planos para o Estado?
ATC – Ah, claro, claro! Mas estão entre aqueles sobre os quais eu ainda não posso falar. Estamos procurando parceiros, agregando forças, mas sem dúvida São Paulo está nos nossos planos.

J&Cia – De curto, médio ou longo prazo?
ATC – Aí é o mercado... Se depender de mim, é curtíssimo.

J&Cia – Fora do trabalho, que coisas o atraem? Cultura, esporte, arte, futebol. Você torce para o Cruzeiro, é isso? (risos)
ATC – É provocação... (risos). Sou atleticano. Eu gosto de esportes, mas a minha fase atual é de curtir muito as minhas netas...

J&Cia – Quantas netas?
ATC – Três. Curto a minha família, minha mulher, meus filhos, minhas noras. Leio coisas voltadas para a história recente do País e de política. Estou lendo agora o livro do Domingos Meirelles sobre o Estado Novo, 1930, é impressionante. E gosto de música, de ópera. Sempre que posso assistir eu vou. Eu ia muito a Nova York na época do dólar a R$ 1 só para assistir ópera no Metropolitan. Hoje está a 2 e é mais difícil...

J&Cia – Quando tem chance vai ao Mineirão?
ATC – Não, é muito raro. Acho que eu não me lembro da última vez que fui. O último jogo que assisti foi Brasil e Chile, em Brasília. Mas assisto vôlei com mais freqüência. Gosto de tudo quanto é esporte.

J&Cia – Praticou algum na juventude?
ATC – Joguei futebol e vôlei. Meus dois filhos jogavam basquete. Eu ia muito com eles. Briguei muito em quadra, xinguei muito juiz (risos).

J&Cia – Não parece...
ATC – Brigo, brigo assim de... Eu sou o tipo do mineirão, mesmo. Custo a entrar numa briga, mas quando entro vou com tudo, brigo pra valer, não tem conversa (risos).

J&Cia – Como se daria um eventual processo de sucessão nos Diários? Quer dizer, daqui a 40 anos? (risos)
ATC – Quando nós mudamos essa gestão eu fiz com que o processo de sucessão fosse o mais natural possível. Defendo essa tese: a sucessão deve ocorrer sempre com naturalidade. Sou partidário do permanente aperfeiçoamento da cultura, não de rompimento, de grandes arroubos, de grandes saltos. Pode dar certo, não estou dizendo que dá errado. Mas o preço às vezes é maior do que o benefício. Acredito que a sucessão aqui deverá se dar naturalmente, e torço para que isso aconteça. Mas faço igual ao nosso vice-presidente Alencar; se você perguntar a ele se está pretendendo parar na política, ele diz: “Ah, eu tô. Não tenho mais nada pra almejar. Talvez eu participe só das próximas três ou quatro eleições.” (risos)

J&Cia – Vamos a um rápido pingue-pongue? Um jornalista...
ATC – Geraldo Teixeira da Costa, meu pai.

J&Cia – Uma reportagem inesquecível...
ATC – O ciclo do ouro de Minas Gerais é uma recente e bastante interessante, do Estado de Minas.

“Eu acho que a sucessão aqui deverá se dar naturalmente, e torço para que isso aconteça. Mas faço igual ao nosso vice-presidente Alencar; se você perguntar a ele se está pretendendo parar na política, ele diz: ‘Ah, eu tô. Não tenho mais nada pra almejar. Talvez eu participe só das próximas três ou quatro eleições.’ (risos)”

J&Cia – Um estadista...
ATC – Gandhi.

J&Cia – Um político contemporâneo...
ATC – Aécio Neves.

J&Cia – Um ator e uma atriz...
ATC – Dá um tempinho... Fernanda Montenegro. Mas tem uma dupla de atores da qual sou fã incondicional: Stan Laurel e Oliver Hardy, o Gordo e o Magro. Acho que são melhores do que o Carlitos.

J&Cia – Uma qualidade...
ATC – Perseverança.

J&Cia – Um defeito...
ATC – A intolerância.

J&Cia – Uma canção...
ATC – Rosa, de Pixinguinha.

J&Cia – Uma paixão...
ATC – Minha família.

J&Cia – Uma cidade...
ATC – Belo Horizonte.

J&Cia – Um autor...
ATC – Machado de Assis.

J&Cia – Um hobby...
ATC – Ópera.

J&Cia – Um vício...
ATC – Eu fui tabagista... Não tenho pequenos (risos).

J&Cia – Um amor...
ATC – Minha mulher.

J&Cia – Um sonho...
ATC – Paz e igualdade.

 
 


 
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