Jornalistas & Cia - Imprensa Automotiva
 
 
 
 
 
 
 
 
 
São Paulo,

 

José Hamilton Ribeiro
O Repórter do Século

Aos 50 anos de carreira, esse caipira de Santa Rosa de Viterbo, pequeno povoado (como ele diz) próximo de Ribeirão Preto, no Interior de São Paulo, não se cansa de emocionar a quantos o vêem semanalmente no Globo Rural ou lêem nas reportagens e livros que tem publicado por todos esses anos. Com a simplicidade que lhe é peculiar diz que um bom repórter é aquele que tem a curiosidade para saber as coisas antes dos outros, a vontade de contar a história que viu e ouviu e a capacidade de contar isso bem. Prêmios não faltam em sua galeria. Só de Esso foram sete, entre individuais e coletivos. A esses se somam outros como Telesp, Vladimir Herzog, José Reis de Jornalismo Científico, CNA de Jornalismo, Imprensa Embratel, Cláudio Abramo de Jornalismo, Líbero Badaró, Personalidade da Comunicação e o recente Maria Moors Cabot, da Universidade de Columbia - uma das maiores honrarias do mundo, para um profissional de jornalismo.

Correspondente de guerra no Vietnam, pela sempre lembrada revista Realidade, ficou mutilado ao pisar numa mina, num episódio que marcaria para sempre sua vida. Enfrentou o infortúnio e o medo, trabalhando sempre e mais. E quando um dia lhe perguntaram se não era difícil ser repórter, fazer trabalho de campo, tendo esse problema físico, sem perder o bom humor ele sapecou: "Mais fácil ser repórter com uma perna só, do que com quatro".

Idealizador em 1991 da coluna Moagem (jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo), que deu origem em 1995 ao FaxMOAGEM, atual Jornalistas&Cia, e no final de 2005 a este PROTAGONISTAS da Imprensa Brasileira, José Hamilton Ribeiro acaba de lançar quatro livros inéditos, o último deles usado como título dessa edição, O Repórter do Século, da Geração Editorial, que reúne as sete matérias premiadas pelo Esso e mais a reportagem original publicada na revista Realidade, na qual ele relatou seu drama no Vietnam. São dessa mesma safra Música Caipira - As 270 maiores modas de todos os tempos (Editora Globo), livro que estava pronto havia três anos e que dá vazão ao carinho que ele tem pelas coisas do campo; Os Tropeiros - Diário da Marcha (Globo), escrito em um mês e meio para que pudesse ser lançado com a série ainda no ar (programa Globo Rural); e Livro das Grandes Reportagens (Globo), feito por Geneton Moraes Neto, do Fantástico, que reuniu sete repórteres que fizeram matérias para o programa e cada um desses repórteres faz um texto sobre o personagem que mais o impressionou. Um feito, segundo ele próprio diz, que pode talvez ser considerado um recorde e que só foi possível acontecer por ser ele um amador ("Sim, porque se eu fosse escritor profissional, jamais teria condições de fazer isso dessa forma; escritor profissional lança e trabalha um título por vez).
Pai de Tetê Ribeiro, que é casada com Sérgio Dávila, da Folha de S.Paulo e que como ele também foi correspondente de guerra, cobrindo o início da guerra do Iraque, e de Ana Lúcia, é casado há 43 com Maria Cecília e há mais de 25 anos com a Globo, onde está desde 1981, tendo começado pelo Globo Repórter, onde ficou um ano. Já em 1982 foi para o Globo Rural, convidado por Humberto Pereira e Gabriel Romeiro e de lá nunca mais se desgarrou, embora tivesse pelo caminho alguns interessantes convites para trocar de endereço.
Na morna tarde da última quarta-feira (20/12), ele recebeu a equipe de PROTAGONISTAS na redação do Globo Rural, no Brooklin, para uma conversa livre e solta de quase três horas e meia, da qual participaram os editores Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli e o assistente André Carbone. Conversa que só viria a ser interrompida pela rápida passagem de Humberto Pereira, diretor de Redação do Globo Rural, que não se furtou a contar a origem do programa: "A idéia do Globo Rural não foi do jornalismo, como muitos pensam, e sim da área comercial da emissora. Eles viam um grande potencial para produtos focados no campo, mas não tinham onde trabalhar essa publicidade. Insistiram com a Direção da Globo para que criasse um programa com esse perfil e a empresa entendeu que melhor do que colocar algum show sertanejo ou coisa do gênero seria um programa jornalístico. Deu tão certo que estamos aí até hoje, com uma audiência excepcional tanto no programa diário, que vai ao ar às 6h30 da manhã, quanto no semanal, que vai ao ar aos domingos às 8 horas."
Zé Hamilton falou de seus medos, de suas convicções, do que pensa do jornalismo de hoje, de sindicato, de patrões, de diploma, dos salários dos parlamentares (que defende, sejam elevados), e até revelou o segredo da caçada ao Tirisco, que há anos empreende em Santa Rosa de Viterbo, e a fórmula que ele desenvolveu e que considera ideal para se fazer uma boa reportagem.
Nesse especial de final de ano, PROTAGONISTAS escolheu o homem que de certo modo lhe deu vida e o oferece como presente de Natal para os leitores. Leia sem moderação... e sem pressa. E se puder imprima e a deguste com vagar nesses dias de preguiça e férias.

 

PROTAGONISTAS – Você gosta de brincar com a sua longevidade como repórter. Conte um caso desses.
José Hamilton Ribeiro – ...Eu me lembro que comecei assim: “Não sei se é o lugar certo nem o momento. Mas eu não resisto e vou falar. Eu quero fazer uma queixa. Tem gente de má índole dizendo por aí que eu sou um repórter tão antigo que fiz a reportagem da primeira missa do Brasil. (risos) Pura maldade dessa gente! Agora, a primeira missa de Brasília eu fiz mesmo...” (risos) A reportagem da primeira missa de Brasília, que foi em maio de 1957... Não sei se era 12 ou 13 de maio...
P – Era um canteiro de obras ainda?
JHR – Acho que antes até... Era a primeira missa de Brasília e eu fui fazer a reportagem para a Folha. Estou curioso de ir lá na Folha ver, porque estou pensando o seguinte.... Eu entrei na Folha em junho de 56. Em maio de 57 eu não tinha 21 anos e não tinha um ano de Folha. Até hoje me pergunto como a Folha me mandou cobrir, em Brasília, uma solenidade desse porte. Há duas possibilidades: primeira, a Folha era tão ruim na época que mandava qualquer um (risos); a segunda possibilidade – aí é uma sofisticação política – é que a Direção da Folha achava que aquilo não tinha importância nenhuma, uma papagaiada que ia dar em nada e podia mandar um principiante para fazer a matéria...
P – Tem uma terceira possibilidade: a de que eles acreditavam num repórter jovem. Quem era o editor-chefe na época?
JHR – Não lembro. O diretor de Redação era o Mário Mazzei Guimarães. Eu sei que anos depois a Veja fez uma matéria sobre o espírito de Brasília, o que significou aquele momento, e citou aquela minha matéria da Folha. Porque eu dizia na matéria que nós chegamos em Brasília de manhã, a missa era à tarde, sem hotel reservado. Mal tinha hotel em Brasília. Chegamos lá num tipo de pensão, um hotelzinho de madeira, e o cara disse: “Não tem quarto. Mas até a hora de vocês virem dormir eu faço um”. (risos) E fez. Quando chegamos à noite para dormir tinha um quarto lá. A Veja citou isso na matéria. Um hotel fazer um quarto de manhã para a tarde... Era o espírito de Brasília.
P – Foi seu primeiro emprego?
JHR – A Folha? Não. Eu comecei em 55, no jornal O Tempo. Vocês não conhecem a história do jornal O Tempo, não é? Do Hermínio Sacchetta, grande comunista. Ele era secretário da Folha quando ela foi vendida para o José Nabantino Ramos, de porteira fechada. Então, o Sacchetta, muito comunista, e sobretudo uma pessoa admirável, um líder magnético, carismático, reuniu a Redação da Folha e falou que era uma sacanagem o jornal ser vendido de porteira fechada, jornalista ser vendido como cabeça de gado. “Eu não aceito isso!” Aí metade da Redação saiu com a chegada do grupo do Nabantino. O Sacchetta arranjou um cara de dinheiro e fez um jornal, O Tempo, com metade da Redação da Folha. E esse jornal era muito bem feito para a época. Acho que não durou dois anos, porque era um empreendimento muito precário para enfrentar a grande imprensa de São Paulo, mesmo naquela época. Eu comecei lá, nesse jornal do Sacchetta. Metade da Redação saiu e foi que nem greve de estudante. Na hora de fazer greve, todo mundo faz. Mas depois da primeira semana, a mãe chega para a filha e pergunta se ela não vai para a escola. “Não, a gente está em greve”. “Como, greve? Que greve? Esses comunistas ficam fazendo greve toda hora. Larga a mão disso! Vai lá!”. Aconteceu isso com a turma que saiu da Folha. Acho que as mulheres apertaram os caras: “Como!? Você saiu da Folha e vai ficar nesse jornalzinho?” Aí eles foram voltando para a Folha.
P – E o Nabantino foi aceitando...
JHR – Foi. Era gente experiente. Foram voltando e O Tempo precisou de gente e começou a pegar o que havia. Eu era estudante da Cásper Líbero e comecei lá em 55. Em junho de 56 fui para a Folha.
P – Você chegou a se formar?
JHR – Não. Quando eu estava na virada do penúltimo para o último ano (naquela época eram três anos), era vice-presidente do Centro Acadêmico. Assembléia e tal, resolve o Centro Acadêmico fazer uma greve na Cásper Líbero. O objetivo era modesto: substituir todos os professores. (risos) Os estudantes decidiram que os professores eram todos ruins. Queriam o Hideo Onaga, o Mazzei, os grandes jornalistas, não aqueles professores que estavam lá. Quando a greve estalou e parou a escola, o presidente do Centro Acadêmico, que era um rapaz chamado Agnaldo, deu uma tremida, amarelou e renunciou ao cargo. Eu era vice e assumi. Conseguimos segurar a greve uma semana. Foi aquilo que eu falei: no começo da semana seguinte, como a maioria da classe era de mulheres...
P – Já naquela época??!!
JHR –  É já naquela época. Mas penso que, naquela época, a mulher era mais submissa em casa. Então, deve ter acontecido isso: o pai ou a mãe devem ter dito que elas iam perder o ano. Eu sei que no começo da semana seguinte foi entrando um, entrando outro e na metade da semana a greve já tinha furado. Aí fizemos uma assembléia melancólica para acabar com a greve – “A luta continua”, né? (risos) –, ela acabou e a diretoria da escola chamou quatro pessoas, que considerava responsáveis por aquela balbúrdia. Disseram que não iam nos expulsar, mas que não aceitariam a nossa matrícula no ano seguinte. Então, eu não me formei. Voltei para a Cásper Líbero anos depois como professor. Na primeira reunião da Congregação de que participei, falei: “Tenho o dever de avisar vocês de que eu saí dessa escola praticamente como um mau elemento. É bom que vocês saibam, porque vai que alguém lembre...” (risos) Além de mim, os outros três eram o Paulo Patarra, que veio a ser editor-chefe da Realidade, depois de passar pela Última Hora, grande jornalista; uma moça linda que se chamava Judith e que veio a ser mulher do Patarra, a Judith Patarra, ótima jornalista, trabalhou até outro dia na Caras; e o José Carlos Del Fiol, que terminou o jornalismo, foi trabalhar na Folha, depois fez Direito e se dedicou à advocacia. Então, dos quatro que eles expulsaram, três deram certo na profissão.
P – O resto ninguém sabe quem é...
JHR – Ah, é! O critério lá não estava muito legal, não é? (risos) Mas a primeira reportagem que eu fiz para a Folha não foi essa da missa, que eu me lembre. Foi sobre o Padre Donizette Tavares de Lima, de Tambaú. Toda a imprensa estava dando notícias de lá, de caravanas para Tambaú. Eu fui fazer uma matéria lá, mas pegando por outro lado. O padre fazia os milagres dele e não cobrava nada. Mas tinha gente que jogava dinheiro e eu fui atrás disso. Descobri que havia uma equipe que juntava o dinheiro em sacos e aí chamava o padre para saber o que fazer com aquilo. Era quando os interesses afloravam. Um dizia: vamos comprar uma fazenda. Compravam a fazenda e aí iam ao cartório registrar e ficavam contando aqueles sacos de dinheiro. Ou comprar uma casa. A minha matéria, portanto, foi no contrapé daquela história dos milagres. Ele fazia milagres de dia, mas não descuidava dos sacos de dinheiro de noite.
P – Como é que você conseguiu entrar lá?
JHR – A minha cidade, Santa Rosa de Viterbo, é vizinha de Tambaú. Eu já havia jogado futebol em Tambaú. Era zagueiro do segundo time do Santa Rosa. Quer dizer, conhecia a cidade, algumas pessoas, tinha amigos, por lá. Como era muito perto, a cidade de Santa Rosa acompanhou o tal fenômeno e seus desdobramentos. A minha família, meus conhecidos, sabiam todos os detalhes. Fofoca desse tipo, em cidade pequena, é um rastilho. Então, eu fiquei sabendo que tinha esse negócio, esse esquema. Cheguei em Tambaú, procurei gente que eu conhecia...
P – Foi você quem sugeriu a pauta?
JHR – Não, eu fui fazer uma matéria sobre o padre, sobre o fenômeno. O jornal me pautou para ir lá ver o que estava acontecendo. Aí saiu a matéria na Folha e eu fui procurado, uns dois dias depois, por um cara que não sei mais quem é, interessado em fazer um livrinho com a tal matéria. Três dias estava o livrinho na rua, com a verdadeira história do padre de Tambaú, e o que estava por trás daqueles milagres. Um livrinho de folhas moles, sem capa dura, tipo cordel, mas em prosa. E sem assinatura. Alguns dias depois, estou na Folha, liga uma pessoa, um tal padre Picão. Disse: “Aqui é o padre Picão. Eu queria saber se foi você mesmo quem escreveu esse livro do padre de Tambaú”. E eu disse: “Mas que livro? Não estou sabendo de livro nenhum...” Eu estava certo de que era uma patrulha da Igreja querendo pegar o cara que estava falando mal de um padre. Aí neguei tudo: não sei quem é, nunca vi esse livro. Muitos anos depois, esse Davi Picão virou bispo (acho que está em Santos) e a gente sabe hoje que é um bispo muito progressista, muito aberto. E ele queria saber de coisas desse livro não para perseguir o autor, mas porque queria investigar, era a Igreja querendo saber o outro lado da coisa, mas eu neguei tudo. (risos) Rasguei todos os livros que eu tinha e não ficou nenhum de recordação.
P – Você veio para São Paulo para fazer Jornalismo ou começou treinando em algum lugar e depois passou para a profissão?
JHR – Eu vim para São Paulo depois de terminar o 2º grau. Naquela época era Clássico e Científico, de três anos. Eu fiz em Casa Branca, que era um lugar onde havia escolas boas antigamente. Pegava aquela região de Santa Rosa, de Tambaú. Era uma capital regional do ponto de vista de escola. Casa Branca não tinha um Ginásio e sim um Instituto de Educação. Tinha curso de Sociologia, Clássico, Científico, curso de professor, era quase uma míni-universidade. E tinha um jornalzinho dos estudantes. Um dia alguém falou que eu gostava de ler e escrever e me convidaram para fazer um artigo. Eu fiz e acabou que fiquei ali no jornalzinho, ajudando a fazer. E coincidiu com um momento agudo da política brasileira, que foi o suicídio do Vargas. Um momento de muita comoção popular. Tínhamos também o Carlos Lacerda e o Samuel Wainer, dois caras diferenciados, digladiando. Lacerda tinha arranjado uma rádio lá no Rio de Janeiro e falava horas e horas. Todo mundo ligava naquela rádio e ouvia aquelas barbaridades. Tudo mentira, né? Mas ele falava bem, era um tribuno arrasador e se dizia jornalista. De vez em quando eu ouvia também o Samuel Wainer, que era bom toda vida. Aquele debate todo e depois culmina com o suicídio do Vargas... Aquilo me tocou de tal maneira que eu fiquei ligado nesse negócio de jornalismo já por aí...
P – Você estava na escola...
JHR – Estava terminando o 2º grau. Terminei em 54 e em 55 vim para São Paulo. Entrei na Cásper Líbero e já no primeiro ano comecei a trabalhar profissionalmente.
P – Você tinha onde ficar aqui em São Paulo ou veio com a cara e a coragem?
JHR – Primeiro fiquei na casa de parentes. Mas assim que arrumei emprego fui morar em pensão. Depois, quando melhorou o salário, dividindo apartamento com outro. E aí, conforme o salário, melhorando o apartamento. Outro dia, conversando com um colega, lembrei que nessa época, no começo da minha vida profissional, e solteiro ainda, de uma maneira ou de outra eu convivi com pessoas que hoje são, um, presidente de tribunal, outro, reitor da USP, o terceiro, general, um quarto, embaixador, e eu, repórter. Tem alguma coisa errada comigo! (risos)
P – Você acaba de lançar o seu quarto livro em dois meses, O Repórter do Século, com as sete matérias com que ganhou o Esso e uma oitava do Vietnam. Essa do Vietnam foi a reportagem da sua vida, por tudo que aconteceu?
JHR – De certa maneira sim, porque ela me custou parte do corpo. Então, é uma reportagem que me marcou, até fisicamente. Mas não é uma reportagem que eu releio. Tem algumas outras que às vezes eu vou reler.
P – Dessa safra das melhores quais você gosta de reler? São as premiadas ou são outras?
JHR – Algumas premiadas, outras não. Tem uma que eu gosto, chama O coronel não morre. O perfil de um coronel lá do Nordeste.
P – Está onde? Na Realidade?
JHR – Na Realidade. Ele dizia: “Revólver, automóvel e mulher, só zero km”. E era um homem já de 70 anos. Um coronel daqueles que não tem mais. Dessa eu gosto. Tem uma que também ganhou o Prêmio Esso, que é a de transplante de rim. Da Realidade, também. Tem uma de Quatro Rodas que eu vou reler, porque é um documento da época em que estavam fazendo a Belém-Brasília. Não tinha nem pista definitiva, que dirá asfalto. Eu me lembro que passei numa vila, chamada Araguaína, que era um areal, parecia um Saara de areia, o carro atolava na areia... Nós encontramos um cara amarrado na árvore. Acho que numa briga tinha matado alguém, a polícia pegou, não tinha cadeia e aí amarraram na árvore até chegar transporte de outra cidade para levá-lo para a cadeia. É um momento do Brasil que a gente não vê mais. Hoje Araguaína é uma capital regional, deve estar toda asfaltada. Nunca mais voltei lá, mas sempre leio que é uma cidade importante, mudou até o Estado, agora é Tocantins. Essa eu vou reler. Vou reler a primeira missa de Brasília. E tem algumas da revista Globo Rural. Mas isso é uma deformação minha, porque eu fui criado na grande reportagem... Aliás eu chamo de grande reportagem não só as que ocupam aquele baita espaço, mas a que tem pesquisa, tem os vários lados, tem tratamento de texto, os vários temas. Eu tenho até uma fórmula. Querem saber qual é?
P – Sim, obviamente...
JHR – A fórmula da grande reportagem... Infalível! E que eu uso desde sempre. Vou mostrar para vocês.
(Escreve a fórmula GR = BC+BF )
                                            (TxT’)n
P – Pode traduzir?
JHR – A grande reportagem é igual a um bom começo mais um bom final. Precisa ter um bom começo para prender a atenção do leitor. E um bom final para o cara se sentir recompensado, dizer “puxa vida, que pena que acabou”. Mas o que é que põe no meio? Aí é que está! T, que é trabalho, vezes T’, que é talento, elevados à potência n, de necessária. (risos) Quanto de talento, quanto de trabalho? O necessário. Quanto é isso? Aí varia, né? Eu me lembro que a rainha Elizabeth uma vez saiu com um carro Rolls Royce do palácio, parou e um jornalista perguntou para ela: “Majestade, qual é a potência do seu carro?” “A necessária.” Ponto final. (risos). Então, essa é a potência necessária para fazer uma reportagem.
P  – Você é daqueles que acham que os fatos não devem atrapalhar uma boa história?
JHR – Quando você vai compor uma grande reportagem, seja na revista, seja na televisão, você vai lidar com vários fatos, uma sucessão de fatos, de acontecimentos, de depoimentos. E na hora da edição deixa de lado alguma coisa – um fato, um acontecimento, um personagem – para privilegiar outras em busca de contar uma boa história. Isso é, portanto, relativo. Nesses 50 anos de jornalismo, eu tenho 25 de imprensa escrita e 25 de tevê. Qual é a diferença? Do ponto de vista da forma, cada veículo tem os seus macetes. Agora, do ponto de vista do conteúdo são iguais. Só que na televisão é mais difícil enganar. Veja o caso do Jason Blair (N. da R.: Jason Blair, acusado de ter fabricado informações e testemunhos), no The New York Times, que inventava uma história, um entrevistado, uma situação e tinha um texto ótimo. Com esse desempenho, ele conseguiu ludibriar por mais de um ano o NYT, que tem um patrulhamento editorial rígido. Na televisão seria muito mais difícil.
P – Você nunca trabalhou em rádio?
JHR – Pois é! Eu pulei um pedaço aí. Quando eu estava no jornal O Tempo, e ganhava pouco e não recebia (risos), arranjei um emprego na Rádio Bandeirantes, da meia-noite às 6 da manhã. Porque de hora em hora a Bandeirantes dava as notícias e tinha que ter lá um redator para escrever as notícias de hora em hora. Nos primeiros dias, fiquei acordado para fazer as notícias a cada hora. Depois me falaram: “Deixa disso! Deixa as notícias todas prontas e vai dormir. Todo mundo faz isso!” (risos). Bem eu fui colega lá do Muibo Cury, que é funcionário da Bandeirantes, é locutor do jornal falado da Bandeirantes até hoje. Ele era da madrugada também, porque estava começando. E esse período da madrugada era bom porque às 4 horas da manhã começam os caipiras. Um pessoal genial, que na época eu não soube valorizar. Trabalhei junto do Ted Vieira, do Vieira e Vieirinha, João Pacífico, Capitão Furtado, gente que hoje eu venero como de grande importância para a cultura brasileira. Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco... Um dia, o Muibo, que também tocava violão, procurou o Ted Vieira e disse: “Eu tenho idéia de uma música. Será que o senhor não podia olhar para mim?” Aí mostrou para ele os versinhos, tocou no violão e o Ted falou: “Aí vai dar uma musiquinha. Me dá dois dias que eu dou uma arrumada nela. Se você gostar...” Deu uma arrumadinha e mostrou para ele: é João de Barro, um clássico da música caipira, que é do Muibo Cury, dessa época da Bandeirantes, com o Ted Vieira, que na época era o campeão da música caipira, um grande nome da música popular, que fez Menino da Porteira, Rei do Gado, Cavaleiro Errante e outros vários clássicos.
P – Na época você não valorizou, mas valorizou agora, com o livro sobre música caipira. Antes tarde do que nunca, como dizia vovó. (risos)
JHR – Mas eu poderia ter encostado num cara desses e aprendido tanta coisa...
P – Mas o que explicava, por exemplo, esse seu afastamento do meio?
JHR – Eu tinha 20 anos então...
P – Estava querendo reformar o mundo, não ouvir música caipira...
JHR – Eu vivi nessas madrugadas de rádio dois fenômenos. Primeiro, o das mulheres que telefonam para a rádio de madrugada. Mulheres solitárias... Às vezes fica um romance, só por telefone. Uma ou outra propicia um encontro, mas a maioria liga por solidão. Elas sabem que na rádio tem um cara de madrugada, que sempre tem alguém que atende o telefone... Dependendo do cara, a coisa segue ou não. Se deu certo hoje, amanhã ela liga de novo. Às vezes forma assim uma amizade, até um romance, no plantão da madrugada. Outro fenômeno foi uma coisa que, a primeira vez que vi, fiquei muito espantado. Estava no meu plantão, da meia-noite às 6, e teve aquele problema em Santos – vocês também não vão lembrar... Desabou o morro (N.R.: Morro de Santa Terezinha) e foi uma tragédia. A certa altura, começa gente a telefonar perguntando o que estava acontecendo em Santos. Eu não sabia e nem podia recorrer a plantões de televisão que não existiam naquela época. Mas ligo daqui, ligo dali, acabei sabendo... Falei com a delegacia, com uma porção de lugares, para obter informações e percebi que a coisa era muito maior do que se podia imaginar e estava acima das minhas limitadas possibilidades de ação, no plantão. Foi quando liguei para o chefe do Departamento de Jornalismo da Rádio Bandeirantes, que nem lembro mais quem era (e se lembrasse também não revelaria). Ele falou: “Zé Hamilton, continua seus telefonemas que eu estou indo para aí”. O cara chegou lá pelas 3 e meia. Pegou dois vigilantes, mandou um ficar correndo daqui para lá, o outro bater numa caixa, tropeçar numa lata e ele fez uma transmissão direta do morro de Santos lá do corredor da Bandeirantes. (risos) Fez uma sonoplastia e transmitiu direto dali. Ao vivo. Naquele tempo isso era possível; hoje acho que rádio não faz mais isso.
P – Depois do episódio do Vietnam, como foi a sua readaptação à atividade profissional, e à própria vida?
JHR – No Vietnam eu tive dois medos e meio. O primeiro medo foi de morrer. Eu tinha a sensação de que iria morrer abandonado naquele país distante, e ninguém ia ficar sabendo. Depois que eu recebi tratamento médico e percebi que não ia morrer mais, veio o segundo medo, que era o de não poder ganhar a vida com o meu trabalho, me tornar dependente, incapaz. Porque eu não sabia qual era a extensão do estrago que tinha sido feito. O primeiro medo, o de morrer, os médicos resolveram. O segundo, eu tive que batalhar com ele. E comecei a fazer isso ainda no hospital. Tanto que a primeira reportagem da revista Realidade eu escrevi ainda dentro do hospital. A segunda que saiu, eu ainda estava no hospital, mas já nos Estados Unidos. E a terceira foi sobre o assassinato do senador Robert Kennedy, porque eu estava nos Estados Unidos – coincidiu, né? – e a revista me pediu para fazer uma reportagem. Eu fiz de muletas, ainda não tinha a perna mecânica. Depois disso, quando eu vi que podia continuar trabalhando, mesmo com uma perna mecânica, que podia ganhar a vida com o meu trabalho, aí veio um meio medo, que é uma coisa mais psicológica, um “grilo”. Eu não queria ficar carimbado como um cara que foi para a guerra, sofreu um acidente e depois não fez mais nada. Quando voltei do Vietnam passei uns anos trabalhando como louco, participando de todos os concursos e prêmios de jornalismo, supercompetitivo internamente para fazer uma reportagem boa. Foi para mostrar que eu podia fazer jornalismo independentemente do Vietnam.
P – Aí embalou nesse ritmo e não parou mais, não é? (risos)
JHR – Aí é que eu tive uma inclinação para uma coisa que eu gosto que é o jornalismo científico. Tanto que dos meus sete prêmios Esso, quatro são de temas científicos. Reportagens de medicina ou de saúde pública, de sociologia médica, sociologia de saúde.
P – Nas reportagens que faz para o Globo Rural, e nas demais que já fez vida afora, você consegue transformar assuntos complexos em coisas surpreendentemente simples. Não falta isso naquela sua fórmula: saber fazer a coisa de tal forma que a maior parte das pessoas entenda?
JHR – Justamente. Isso me leva a três raciocínios. Antes daquela fórmula, o que é ser repórter? Que condições ele precisa ter? Primeiro, a curiosidade, para saber as coisas antes dos outros. A segunda, a necessidade que tem de contar isso para os outros. Porque, não adianta nada ter a informação e sonegá-la, ser avarento com ela e não passar para o outro. Um cara assim nunca vai ser jornalista. E a terceira é saber contar. Então, ter curiosidade para saber, gostar de contar para os outros e saber contar, ter jeito para contar. Porque às vezes o sujeito tem uma história ótima, mas não sabe contar, você não quer saber daquela história porque não acaba nunca, é sem graça... Aí, tem uma outra coisa de que me lembro e que todo mundo pergunta: o que a Realidade teve de diferente, que a tornou, naquela época, uma referência no jornalismo brasileiro? Não sei se perdura, mas naquele momento teve uma repercussão. Acho que há duas coisas aí. A primeira delas foi a ousadia das pautas. Era muito criativa nos assuntos e publicava um assunto que a turma tinha interesse em ver naquele momento. Respondia a um anseio do leitor. Não adianta você pegar uma revista e ela só ter matérias que não te interessam. Por que você vai ler? Na Realidade, a impressão era de que todas as matérias interessavam, te diziam alguma coisa. A segunda foi a edição de texto. O texto tem que ser escorreito, limpo, proporcionar uma leitura agradável. Eu sei de um professor aí que diz que o texto da revista Realidade era um texto de jornalismo literário, chegava quase a ser literatura. Essa mágica do texto da Realidade se atribui a uma pessoa, que é o Sérgio de Souza. Naquela época, a marca do jornalismo de então era a do copidesque, sobretudo da escola do Jornal do Brasil... O que era o copidesque? Era um cara que escrevia muito bem, rápido, esperto, que pegava o texto de um repórter, com as informações boas, mas muito mal ajambradas, reescrevia aquilo e punha mais ou menos dentro de uma fórmula, para o jornal ficar bem uniforme (escola americana). Mas isso homogeneizava o jornal, ele ficava igual do começo ao fim. E, de certa forma, matava o repórter. Tanto que na fase mais gloriosa do Jornal do Brasil o copidesque era mais valorizado do que o repórter. A Realidade fez o quê? Esse tratamento de texto que o Sérgio descobriu – não sei se ele descobriu, se alguém conversou com ele ou se ele discutiu com alguém – realça o seu texto, mas não o deturpa. Então, o Sérgio pegava um repórter como eu, como o Luiz Fernando Mercadante, como o Narciso Kalili, como o Roberto Freire, como o Carlos Azevedo, como o José Carlos Marão, cada um escrevia de um jeito e ele mantinha o jeito de cada um. Ele mexia de uma forma que não alterava os respectivos estilos. Você abria a Realidade: reportagem do Luiz Fernando Mercadante, era do Luiz Fernando Mercadante, tinha aquele carimbo, aquela qualidade de texto, aquele texto machadiano dele. Pegava um texto do Roberto Freire, era do Roberto Freire. Pegava uma reportagem minha... Cada uma era identificada. Em todas elas tinha a mão do Sérgio, mas ela não aparecia. Muitas vezes - aconteceu comigo e com vários outros –, ele chamava e dizia: “Não está legal. Escreve de novo”. E dava umas dicas: “Olha, esse personagem que está no meio, talvez seja melhor vir para o começo, abrir com ele. Aí vai levando...” e não sei o quê, discutia e pedia para escrever de novo.
P – Você tem falado com ele?
JHR – Não. Estou com saudades dele. Vou lá visitá-lo qualquer dia (N.R.: Sérgio de Souza é editor da Caros Amigos). Aí você reescrevia e ele dizia que ainda não estava legal. De outras vezes, você entregava o texto e ele dizia, de primeira: “É isso aí”. Como aconteceu muitas vezes comigo. Uma outra coisa que a Realidade teve, por ser uma revista mensal, era um tempo maior para a elaboração das matérias. Era uma revista que dava tempo até demais para o repórter, chegando muitas vezes, apesar desse tempo, a não ter matéria. Aconteceu comigo. Fui pautado para fazer uma reportagem sobre “como era ser preto em São Paulo”. (risos) Mas para fazer essa reportagem, eu tinha que ser preto. Na filosofia da Realidade daquela época, eu tinha que ficar preto. Eu tinha um amigo que era professor de Dermatologia da USP aqui em São Paulo e o procurei dizendo que queria ficar preto. “Como é que eu faço?”, perguntei. “Bom, preto é uma questão de melanina, de pigmento, né? Então, vamos fazer um tratamento para aumentar a sua melanina. Se a minha teoria estiver certa, você vai ficar preto. (risos) Não sei se para sempre ou por um período”. Aí fiz o tratamento com ele. Não deu certo, não aconteceu nada. Depois de trabalhar um mês lá com ele para ficar preto e não dar certo ele disse: “Olha, eu tenho um amigo lá em Ribeirão Preto que tem uma outra técnica”. Eu liguei e fui para lá. Eram uns banhos de permanganato, que deixavam a água uma Coca-Cola. Fiz o experimento, ficando imerso lá umas duas horas para ver se impregnava a pele com aquela coisa. E não fiquei preto. (risos) A terceira alternativa foi maquiagem. Fui a um maquiador de novela, da TV Excelsior, o melhor maquiador de novela que tinha no Brasil naquela época, ele me maquiou e eu fiquei preto. Mas aí não tive segurança. Você sai maquiado na rua as pessoas percebem, principalmente as mulheres. E mais ainda: você está no meio de uma função qualquer na rua e começa a derreter a maquiagem. (risos) Aí não deu para segurar. Cheguei lá depois de dois, três meses e disse: “Não fiquei preto”. Então, não tem matéria. E ninguém me cobrou nada. (risos) A Realidade acabou fazendo essa matéria não aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos, porque lá o preto não precisa ser preto de cor, né? Você está andando com um preto na rua, você é preto, independentemente de você ser preto ou não. O próprio Sérgio é bem moreno. E tinha um fotógrafo da Realidade, o George Love, que era americano e preto. Foram os dois para os Estados Unidos e ambos circularam como pretos. Então o Sérgio pôde fazer a matéria sobre como é ser preto nos Estados Unidos. Mas aqui no Brasil não conseguimos fazer. (risos)
P – Só essa tentativa já daria uma bela reportagem, a matéria sobre o making off da matéria. (risos) Ainda sobre o Vietnam, Zé, como foi voltar lá 30 anos depois?
JHR – A Globo, quando completou 30 anos, fez uma série chamada Contagem Regressiva, que começou quinze dias antes e terminou no dia do aniversário. E cada dia o programa abordava um tema. Na reunião de pauta levantaram quais os temas principais desse período. Quando chegaram ao capítulo guerra, acharam que a guerra mais importante daquele período tinha sido a do Vietnam e então me mandaram para lá, para contar a história da primeira viagem e ver o Vietnam em paz. Só posso dizer que a segunda viagem doeu mais do que a primeira.
P - Reavivou lembranças?
JHR – De um lado, isso. De outro lado, o seguinte: a guerra do Vietnam foi feita dentro de um calor romântico. Porque era um país pobre, com uma ideologia igualitária, humanística, solidária, contra o inimigo externo, poderoso e diabólico. Ao lado de ser o pobre contra o rico, era também um ideário romântico, uma outra forma, um homem novo, igualitário, que o Vietnam ia fazer depois de ganhar a guerra dos Estados Unidos. Uma sociedade fraterna, para a frente, de valorização do ser humano. Isso foi a guerra do Vietnam. Quando eu cheguei lá na paz, encontrei o quê? Um país policialesco, uma ditadura militar das mais primárias, um comunismo de camisola que estava atrás do próprio comunismo, mais primitivo do que qualquer um que falasse em comunismo naquela época, e um dos países mais miseráveis do mundo. O general Vo Nguyen Giap, que foi o herói da guerra, está vivo até hoje e que ainda é dirigente lá, deu uma entrevista para o Jaime Spitzcovsky, que era da Folha de S.Paulo, e disse que dos 200 países mais organizados daquela época, o Vietnam era o terceiro de baixo para cima. Quer dizer, mais miseráveis que o Vietnam só havia mais dois, segundo o general Giap. E esse país miserável foi capaz de ganhar a guerra, mas não soube o que fazer com a paz. Ver esse Vietnam com dois milhões de pessoas que tiveram que fugir do país, com milhões que foram talvez assassinadas e outras tantas que foram perseguidas foi uma grande decepção. Aquele povo que era para ser um povo libertário, que buscava um novo homem, era um povo escravo, todo mundo com medo da polícia. E nós, jornalistas, tínhamos um intérprete oficial e um camarada do Exército junto, o tempo todo. Liberdade de imprensa? Mas o que é isso, liberdade de imprensa?
P – Tudo ficção... Mas isso mudou, não é?
JHR – Pois é. Em 95, já havia sinais de uma abertura econômica no Vietnam. Tanto que a reportagem terminou com isso: “Esse país que viveu guerra, agora não tem mais guerra. A guerra agora é essa” e a câmara abria num anúncio da Coca-Cola e outro da Pepsi, lá em Saigon. Era o começo de uma abertura econômica, não política. Essa abertura continuou, tanto que o Vietnam está crescendo hoje a 7% ao ano, é um dos Tigres Asiáticos. Ainda não fez uma abertura política, mas abertura econômica fez. Tanto que, outro dia vi uma matéria na Newsweek cujo título é assim: “O Norte (que é Hanói) ganhou a guerra e o Sul (Saigon) está ganhando a paz”. O Norte já era comunista, antes da guerra, e era uma economia estatal e o sul era uma economia capitalista, aberta. Depois de alguns anos do fim da guerra eles foram abrindo a economia e os empresários do Sul começaram a crescer dentro do Vietnam. Tanto que o primeiro-ministro é um cara do Sul, e parece que o presidente também. Os dois líderes importantes do Vietnam são do Sul, não são mais do Norte.
P – Zé, você tem aí quatro livros em dois meses. Há mais algum a caminho?
JHR – Isso é capaz de ser um recorde. Porque, por exemplo, o Millôr; ele está lançando seis livros este mês. Mas são seis reedições, não tem nenhum livro novo. O escritor profissional não lança três, quatro livros. Ele lança um, trabalha aquele um, vai promovendo aquele livro, depois tira um tempo para fazer o seguinte. Então, para lançar quatro livros de uma vez, em primeiro lugar, não pode ser escritor profissional.
P – Tem que ser repórter. (risos)
JHR – E amador. Mas porque saíram quatro ao mesmo tempo? O livro do caipira (Música Caipira – As 270 maiores modas de todos os tempos, Editora Globo) estava pronto havia três anos. Só que o processo de edição demorou muito, saiu agora e coincidiu com o livro dos Tropeiros (Os Tropeiros – Diário da Marcha, Editora Globo), que foi feito às pressas, esse sim um livro-reportagem concluído no espaço de um fechamento de reportagem do Globo Rural. Porque a idéia do Humberto Pereira (N.R.: diretor de Redação do programa Globo Rural) era de que o livro saísse com a série ainda no ar. Eu tive um mês e meio pra fazer o livro e os dois acabaram saindo juntos. O terceiro livro, que é o Livro das Grandes Reportagens (outro título da Editora Globo), foi feito por Geneton Moraes Neto, do Fantástico, que reuniu sete repórteres que fizeram matérias para o programa e cada um desses repórteres faz um texto sobre o personagem que mais o impressionou. E esse livro O Repórter do Século (Geração Editorial) também estava sendo feito havia três anos; não foi um livro que eu escrevi, ele reúne as minhas sete reportagens que ganharam o Prêmio Esso, mais a do Vietnam, da Realidade. Quer dizer, não foi um texto novo. O que eu fiz foi um making off de cada matéria, contextualizando-a e, quando foi o caso, em que o assunto ficou muito defasado, procurei atualizar. Saíram ao mesmo tempo, mas não foram escritos ao mesmo tempo.
P – Agora vamos fazer uma provocação. Para muitos você é um dos maiores repórteres da história do jornalismo brasileiro. Quem é o Zé Hamilton na opinião do Zé Hamilton?
JHR – Eu tinha colocado isso no meu roteiro: “O que você tem de diferente como repórter?” Penso que fui beneficiado pelas circunstâncias. Porque o repórter não é um lobo solitário, não é um aventureiro, um livre-atirador. Ele depende de uma estrutura atrás, de chefia de reportagem, de edição e de veículo – você precisa ter onde publicar. De que adianta ser um grande repórter e não ter onde publicar, não ter condições de fazer reportagem? Fui beneficiado pelas circunstâncias. Primeira delas: entro na Folha no momento em que ela estava passando do jornal que chamava Folha da Manhã para Folha de S.Paulo. Era uma transição de um jornal de São Paulo para um jornal do Brasil, de âmbito nacional. Então, fez parte da estratégia econômica da empresa na época valorizar o repórter, valorizar a reportagem. Foi uma época em que a Folha valorizou muito a dupla repórter-fotógrafo. Mandavam viajar para todo lado. Estando na Folha, eu vou para a Editora Abril, no momento em que a Abril estava começando. Ela tinha revistas de quadrinhos, fotonovelas e revista de cama, mesa e banho – Cláudia, Manequim, revistas femininas. Não tinha nenhuma revista masculina. Mas era plano da empresa ter revistas masculinas e de interesse geral. Quando lá cheguei, todos os títulos editados eram americanos ou europeus. A Abril comprava os direitos e no lugar de redação tinha basicamente uma equipe de tradutores. O pessoal traduzia aquelas reportagens, tinha uma assessoria de português que dava uma melhorada no texto, mas não tinha produção jornalística local. Quando eles foram fazer a primeira revista masculina, que foi a Quatro Rodas, não era só para fazer uma revista. Era um laboratório jornalístico da editora para o futuro. Tanto que eles chamaram para editar Quatro Rodas, que é uma revista de automobilismo, um cara que nem sabia dirigir, que é o Mino Carta. Ele não entende nada de mecânica até hoje. O Mino fez da Quatro Rodas uma revista exitosa de automobilismo e turismo, mas fez sobretudo um laboratório de texto. Começa que ele chamou uma equipe boa: o Sérgio de Souza, o Narciso Kalili, o Paulo Patarra, o Carlos Azevedo, o Audálio Dantas... E esse laboratório da Quatro Rodas vai dar origem à Realidade. Foi a equipe da Quatro Rodas que foi fazer a Realidade. A equipe foi e me deixou para trás. Sabe por quê? O raciocínio foi esse: nós não podemos levar toda a equipe para fazer Realidade e deixar desamparada a Quatro Rodas; alguém tem que ficar. Me deixaram para trás e eu fiquei segurando a barra na Quatro Rodas, mas antes de sair o primeiro número já me chamaram para a Realidade. Eu fui antes de sair o primeiro número, mas não participei da criação dela. Depois veio Veja – porque o Mino foi fazer a Veja – e o Mino foi fazer o Jornal da Tarde também. São os quatro grandes veículos dos anos 60 no Brasil.
P – Veja, especificamente, se transformaria num fenômeno editorial.
JHR – Como tiragem, é a maior revista brasileira. Não está numa boa fase jornalística nem editorial muito brilhante, mas é de longe a maior revista brasileira de todos os tempos. E eu acho que saiu daquela escola o próprio Globo Rural. Saiu indiretamente, porque o Humberto Pereira e o Gabriel Romeiro, que são os dois chefes originários daqui, vieram dela. Hoje tem um terceiro, o Lucas Battaglin, que veio depois, não participou da criação do programa. Mas tanto o Humberto quanto o Gabriel foram da Realidade também. E eu vim puxado por eles. Mas, então, eu chego na Editora Abril no momento em que ela está explodindo e se preparando para ser a maior editora da América Latina, fazendo com as revistas o que os jornais do Rio fizeram no jornalismo diário. A grande reforma do jornalismo brasileiro, que está vigorando até hoje, foi feita nos jornais do Rio pelo Pompeu de Souza, Samuel Wainer, Alberto Dines, Amilcar de Castro...
P – O Jânio de Freitas...
JHR – O Jânio é um pouco mais novo, veio depois. Tem mais um outro... Como é que ele chama? Jardim...
P Reynaldo. Está fazendo 80 anos esta semana.
JHR – O Jânio é mais novo do que esse pessoal. Então, foi logo depois da guerra que alguns jornalistas importantes como o Dines, o Pompeu, o Amilcar eu não sei, foram fazer estágio no jornalismo americano e trouxeram de lá essa fórmula de reportagem que está em vigor até hoje nos jornais diários. A grande reforma nos jornais diários foi o Rio que fez. A grande reforma nas revistas foi a Abril. Tanto que, quando sai a revista Realidade, as maiores revistas brasileiras eram Cruzeiro e Manchete, ambas do Rio. E hoje o Rio não tem mais revistas. Revista é São Paulo. Tanto que a Editora Globo, que tem a pretensão de ter boas revistas, veio para São Paulo.
P – Você falou um pouco da sua chegada ao jornalismo, em que o Brasil vivia aquele momento especial da política, com Getúlio, mas teve alguém que te inspirasse, alguém da família?
JHR – Não, não tive. Eu sou de uma cidade muito pequena. No meu tempo, Santa Rosa tinha 3 mil habitantes. Era uma cidadezinha rural. O que eu trago de lá é esse som de música caipira. Não tinha escritor nem jornalista. Mas só para terminar aquele negócio da circunstância. Fui para a Folha no momento em que ela estava crescendo, fui para a Abril quando ela estava crescendo – faz quatro Rodas, Realidade e Veja. Aí chega o tempo da ditadura militar, da censura, quando a imprensa silenciou por uma ou outra razão, eu fiquei sem ar aqui em São Paulo e fui para o Interior mexer com forma, já que não era possível mexer com conteúdo. Então, fui reformar jornais em Ribeirão Preto, depois Rio Preto e depois Campinas. Estava em Campinas, em 82, quando teve a abertura, e eu vim para a TV Globo fazer telejornalismo. Você pode xingar a TV Globo com quantos adjetivos quiser, mas como telejornalismo é a grande escola brasileira. Então, eu vim para o lugar onde estão os melhores profissionais de telejornalismo brasileiro e um lugar inquieto, que está sempre querendo mexer, querendo mudar, ir para a frente, não é um lugar acomodado.
P – Você falou do período da ditadura. Você teve algum problema naquela época?
JHR – Objetivamente, eu tive três problemas. Um belo dia, estou na minha casa, um colega me ligou e disse: “Prenderam fulano, prenderam sicrano e você está na lista. Então, some por uns dez dias”.
P – Você estava onde, nessa época?
JHR – Na Abril. Então eu sumi. Fiquei uns dez dias escondido. Depois liguei pra ele e perguntei como é que estava a barra. “Limpou, já passou” – ele disse. Então, voltei. O segundo foi o seguinte: eu fui escolhido como paraninfo da turma – não lembro o ano – de Jornalismo da FAAP, onde eu dava aula. Fui para lá convidado pelo Perseu Abramo. Aí a diretoria proibiu festa de formatura se eu fosse paraninfo. Então a turma decidiu que não teria festa; se formava sem festa. Mas além de não me deixarem ser paraninfo, me demitiram de lá. E o chefe do departamento era o Perseu Abramo. Aí o Perseu me ligou, eu fui lá falar com ele e ele me disse: “Olha, Zé Hamilton, você foi demitido”. Eu perguntei: “E você, vai fazer alguma coisa?” Ele disse: “Eu não vou fazer nada, porque eu já fiz. Eu já pedi demissão também”. E todo o pessoal que ele tinha levado pediu demissão junto.
P – Esse era o Perseu...
JHR – Esse era o Perseu.
P – E o terceiro...?
JHR – Eu era editor-chefe da Realidade e o Carlos Azevedo, que era repórter, era um dos subversivos mais procurados. Apareceu lá um cara dizendo que era delegado do Dops. Me avisaram: “Olha, o fulano de tal vai falar com você”. Chegou o cara, fechou a porta: “É o seguinte: nós queremos o Azevedo. A ordem que nós temos é para matar. No primeiro entrevero, é para matar. Mas se você me entregar o Azevedo eu garanto que ele vai ser preso, não vai sofrer nada e vai ser processado, com advogado, tudo limpo. Você tem que me dar o endereço dele.” Falei: “Eu não sei” Ele falou: “Olha, o senhor não vai me enganar. Se não me der esse endereço em 48 horas, eu prendo o senhor”. Passaram 48 horas e era blefe, o cara não me procurou mais. Mas eu passei 48 horas bem apertado.
P – Você chegou a conversar com o Azevedo sobre isso?
JHR – Sim, depois... Um outro episódio engraçado foi quando descobri que o presidente do Partido Comunista, que era “perigosíssimo”, estava foragido no prédio em que eu moro. Ele morava lá. (risos) A gente se conhecia de vista, mas eu não sabia quem era. Eu o encontrava no elevador. Depois que passou o episódio, um dia ele falou: “Pô, você não lembra que a gente se cruzava no elevador?” E eu disse: “Um perigoso subversivo no meu prédio? Se eu soubesse, te entregava.” (risos)
P – Quem era?
JHR – Moacir Longo.
P – Zé fala um pouquinho como era o seu tempo de menino lá em Santa Rosa de Viterbo?
JHR – Jornalista tem história, não? Você sabe por que minha cidade se chama Santa Rosa de Viterbo?
P – Fica onde? Perto de Ribeirão Preto?
JHR – É, na região de Ribeirão. Formou-se lá um povoadozinho...Aí a comissão dos moradores fundadores resolveu comprar uma imagem de Nossa Senhora. Passa por lá um mascate, um malandro, que tinha uma imagem bonita e vendeu como sendo de Nossa Senhora. A turma comprou como sendo de Nossa Senhora. Puseram no altar, festa e tal. O primeiro padre que chegou lá disse: “Essa não é Nossa Senhora. Essa é Santa Rosa”. Mas que Santa Rosa? Santa Rosa de Lima, Santa Rosa de Pádua? “Não, Santa Rosa de Viterbo”. Uma raridade, pois não existe outra imagem de Santa Rosa de Viterbo no Brasil. Como é que foi aparecer lá? Sendo que Viterbo é uma cidade da Itália na qual, em determinado momento, os papas passaram a morar, por causa daquelas brigas internas da Igreja. Eles tinham um palácio regra três lá. É uma cidade antiga – eu não fui lá, mas já vi fotos – e tem uma Santa Rosa de lá. E, para não confundir com Santa Rosa de Lima, que é muito mais conhecida, do Peru, nem com Santa Rosa de Pádua, ficou Santa Rosa de Viterbo. Então, a cidade se chama Santa Rosa de Viterbo por causa da imagem. Mas, a minha infância...
P – É, como é que foi?
JHR – Uma cidade, quase um povoado, uma vila... Uma cidade pequena, rural, minha família era de agricultores...
P – Você capinou muito?
JHR – Capinei, capinei muito... Teve uma época, em que eu já estava no Grupo (N. da R.: Grupo Escolar, equivalente ao período que vai hoje da 1ª à 4ª série do Ensino Fundamental), em que eu queria assistir o Carnaval no Rio. Eu ouvia falar no Carnaval do Rio, aquela mulherada pelada... (risos)
P – Não tinha televisão, como é que você sabia?
JHR – Ah, jornal, revista O Cruzeiro, rádio... Aí eu falei com o meu pai e ele disse: “Você ficou maluco! Não vai de jeito nenhum! Primeiro, porque é perigoso você ir para o Rio. Segundo, porque eu não vou te dar dinheiro, nem tenho”. Então eu arranjei um emprego na Prefeitura para capinar a rua da cidade, aquelas calçadas...
P – Você tinha o quê, 14, 15 anos?
JHR – Menos. Olha, capinei uns dois ou três meses, até chegar o Carnaval. Aí o meu pai, em reconhecimento ao meu esforço, liberou e eu acabei indo para o Carnaval no Rio, mas que eu não lembro mais... (risos)
P – Não lembra do Carnaval no Rio? Nem da viagem?
JHR – Lembro só da preparação dela. Não lembro se fui sozinho, se era uma turma. Lembro só da preparação da viagem, da viagem em si mesma não lembro mais...
P – Você foi para a escola cedo, no período normal? Porque, geralmente, no Interior o pessoal atrasava...
JHR – Olha, na minha cidade só tinha o 1º Grau, só Grupo, da 1ª à 4 ª série. A partir da 5ª série, eu já tive que sair da cidade. Fui primeiro para São Simão, depois para Franca, para um colégio interno, de padres, depois para Ribeirão, para fazer 2º Grau, que seria o Ginásio... Depois, o Colégio eu fui fazer em Casa Branca. Então, eu saí de casa muito cedo, com 11 anos, porque a cidade não tinha nem Ginásio.
P – Ainda que você tinha uma família que te apoiava, que valorizava isso...
JHR – É, valorizava... A minha mãe tinha uma fazenda, que meu pai herdou. A fazenda foi consumida porque éramos em casa oito filhos. Eu era o quinto. Chegou uma hora em que estavam quatro ou cinco estudando. E era caro. Então, quando apertava, o meu pai vendia um pedaço da fazenda. O último ele vendeu quando eu já estava formado e como parte do pagamento entrou uma chacarazinha na cidade, que nós temos até hoje. A parte que era original da minha mãe foi vendida assim, aos poucos.
P – E você vai sempre lá?
JHR – Vou sempre que posso. A casa onde eu nasci ainda está lá. Minha mãe morreu, meu pai morreu, mas ainda tenho uma irmã que mora lá e mantém o fogo aceso, como a gente costuma falar...
P – E a tal frutinha que só tem lá?
JHR – Não é uma fruta, é uma caça. O tirisco.
P – Conta essa história do tirisco. Todo mundo diz que é mentira. (risos) Nunca ninguém viu um tirisco.
JHR – Caçada de tirisco é uma caçada virtual, na boa. (risos) As pessoas que chegavam na cidade de visita – amigos, né? – a gente levava para caçar tirisco. Era um complô em que a cidade inteira entrava. Porque o cara era convidado e a história era muito mirabolante e o sujeito ficava em dúvida. Digamos assim: você é meu amigo de Santa Rosa e levou um amigo de outra cidade. Ele está na sua casa, conhece a sua mãe, a sua irmã, o seu pai. Então, a turma do bar – é sempre coisa de bar, né? – convida para caçar tirisco, ele fica em dúvida. Chega em casa e pergunta para sua mãe, uma senhora de respeito: “Estão me convidando para caçar tirisco...” E ela: “Ah, bom, maravilha! Uma coisa...” Todo mundo bancava a história. (risos) Aí, quando o cara estava no bar a gente perguntava para o dono: “Ô, fulano! Se a gente caçar tirisco hoje você faz?” “Faço!” “Mas não tem na geladeira?” ”Não, o último passou um viajante aí e comeu. Vocês têm que caçar.” Era um complô da cidade toda. Um dos últimos que a gente levou para caçar foi o Franco Paulino, vocês conhecem?
P – Não.
JHR – O Franco Paulino era uma repórter da Última Hora, muito inteligente, chegado à música. Depois ele foi para o Rio de Janeiro, passou para a publicidade e hoje é um publicitário de sucesso, tem a sua própria agência. Ele foi um dos últimos que eu, pessoalmente, levei para caçar tirisco. A caçada era o seguinte: a gente levava o cara para um lugar bem escuro do cerrado, de noite. Levava um saco, com uma armação de arame para a boca do saco ficar aberta, e um lampião de gás ou uma vela, uma lamparina. Então, o convidado ficava ali com o saco e a lamparina tomando conta e os outros iam tocar o tirisco. E ele tinha que ficar ali com o saco aberto e a lamparina acesa, batendo uma caixa para chamar o tirisco. (risos) Os outros iam lá cercar. Então, o que acontecia? O cara ficava lá tomando conta, a gente reunia os outros e voltava para cidade e ficava lá no bar tomando cerveja. Largava o cara lá no mato, sozinho, batendo aquela caixa até cansar e não aparecia nada. (risos) Aí, desconfiado, começava a gritar: “Ô, fulano!” E nada. Depois, claro, pegava o rumo da luz da cidade, chegava no bar e tomava aquela vaia. (risos) Não pode entregar toda a história, não, porque eu acho que o pessoal ainda continua “caçando”. (risos)
P – Mas o pessoal não perguntava que tipo de bicho era?
JHR – Perguntava.
P – E o que vocês falavam?
JHR – Ah, tinha toda uma teoria. (risos) Mais ou menos do tamanho de um coelho, mas não era coelho. Tinha rabo, não tinha rabo, e fazia uma vocalização assim, tinha um gritinho... “Quando você ouvir esse gritinho é porque ele está chegando.” Às vezes alguns faziam esse gritinho antes de ir embora, para animar o camarada. (risos) Mas o Franco Paulino, eu me lembro bem, que levamos para um lugar pela linha do trem. Fomos pela estação, seguimos pela linha do trem e depois entramos no cerrado, andando bastante para desorientar um pouco. Mas ele tinha a referência da linha do trem. Eu não sabia, mas uns dias antes tinha havido um roubo de dormentes da linha do trem. Eles pegaram o cara mais bravo da cidade, um cara feroz, que chamava Tinga, para vigiar a linha. De repente vem aquele homem sozinho pela linha, um saco na mão, uma lamparina... É o ladrão de dormentes! (risos) E foi para cima do Paulino. “Tá roubando dormentes?” Deu um atrito lá. Quando o visitante chegava no bar, era aquela confraternização. No primeiro momento, ele ficava chateado, mas depois entrava no clima e acabava dando risada. E depois ficava armando para pegar o próximo. (risos)
P – Houve um certo período da sua carreira em que você não foi repórter. Nessa sua ida para o Interior você chegou a ser chefe de Redação, mas logo voltou. Você não gostou de ser chefe?
JHR – Olha, nesses períodos em que eu fui chefe de Redação nesses jornais do Interior, eu sempre fiz reportagem. Tanto que em um dos prêmios Esso é do tempo do jornal de Rio Preto. Eu era chefe de Redação do jornal e fiz a reportagem premiada. Até então, o jornal nunca tinha ganho um prêmio Esso; eu não sei se ganhou mais. Em Ribeirão, a gente já tinha pego uma menção honrosa, uma coisa que normalmente não tem.
P – Hoje não tem mais...
JHR – Então, mesmo quando eu era chefe de Redação eu fazia reportagem. Acho que sou um pouco inquieto. O ambiente da redação me oprime um pouco. E acho outra coisa: o repórter tem que estar onde está acontecendo a coisa, não tem outro jeito de ser repórter. Então se acostuma...
P – Você conseguiu fazer o seu pé-de-meia financeiro como repórter? Ou acha que desperdiçou a chance de ser um grande magnata da imprensa se tivesse seguido outros caminhos?
JHR – Olha, tem uma história que eu gosto muito. Quando eu estava nos Estados Unidos, depois do Vietnam, fazendo tratamento, me visitou o Victor Civita, o presidente e criador da Editora Abril. E ele me contou da Veja, quando estava a ponto de ser lançada. Ele me mostrou o número zero, aqueles projetos da Abril... E aí eu falei: “Seu Victor, e a redação?” Ele disse: “Zé, 95% é comunista”. (risos) “Mas, seu Victor, não é perigoso?”. “Não. Perigoso é redação de direita, porque a redação de direita, se faz uma revista boa, no dia seguinte ele fala: ‘Pô, esse cara está ganhando dinheiro com o meu trabalho’. Aí ele vai e faz a revista dele. E o de esquerda fica. (risos) Tentando consertar o mundo, ele fica na redação”.
P – Não olha tanto o salário...
JHR – Briga até por salário e tudo. Mas quer salvar o mundo. O cara de direita quer fazer a revista dele e ficar rico, não quer salvar o mundo. Mas a única coisa que eu me queixo é que hoje a aposentadoria é muito baixa. A hora que eu parar de trabalhar, vou ter dificuldade para me manter. Veja só, o que eu ganho no INSS, que vai ser a minha aposentadoria quando eu parar de trabalhar, não dá para pagar o condomínio do meu prédio. Então esse esquema é meio complicado.
P – É, tem que fazer aquele negócio de previdência privada e custa uma fortuna.
JHR – Eu fiz previdência privada, me dá um reforçozinho, mas nunca vai ter o padrão que eu tenho estando trabalhando. Mas como não estou com pressa de parar nem de morrer, eu vou tocando.
P – E a emissora também não está com pressa em te botar para casa, né?
JHR – Ah, vou contar uma história para vocês. Morrer só em último caso, como dizia o Mário Zan. (risos) Bom, mas no ano passado, teve um seminário da Globo, negócio interno dos jornalistas da Globo, e eu fui convidado e estava lá assistindo. Cinco minutos antes do final o cara parou e falou: “Vamos parar um pouco o seminário para assistir um vídeo.” Aí tinha um vídeo de 40 segundos sobre mim. Aí o cara falou que eu estava completando 50 anos de jornalismo, todo mundo bateu palmas e tal. A Folha até deu uma notinha sobre isso. Na outra semana o Otávio Florisbal, diretor da Globo, me convidou para almoçar no restaurante Vip da emissora aqui em São Paulo. Chamou o Carlos Schroder, a Alice Maria, o Humberto Pereira, o Gabriel Romeiro e o Lucas Battaglin. A Alice e o Schroder vieram do Rio para isso. A moça do banco, a Mariana, do Bradesco interno aqui, me encontrou dois dias depois e perguntou: “Zé Hamilton, você tá doente?”. Eu disse não, estou normal. Aí ela retrucou: “É que funcionário velho, em firma grande, quando começam a fazer homenagem é porque vai ser mandado embora ou tá com câncer”. (risos)
P – Mas no seu caso não é nem uma coisa nem outra. O pessoal sabe o valor que você tem. Agora, indo por esse caminho – você já deve ter respondido isso umas vinte vezes:  o que explica a longevidade do Globo Rural? Não do programa, mas da equipe.
JHR – Aí é uma questão de personalidade do Humberto Pereira e do Gabriel Romeiro. Por formação, eles são teólogos, filósofos e psicólogos. Eles tem muita vivência de problemas humanos, acho que do confessionário. Ele era o Fradinho. Sabe o Fradinho do Henfil? Então, era o Humberto. Ele era do convento, depois o Henfil o conheceu, aquele frei comprido lá, e fez o Fradinho, inspirado na figura física do Humberto. O Cumprido. Então, um pouco é pela formação cultural, psicológica e humana deles. E um pouco, também, no tipo de programa do Globo Rural, eles sabem que alguma experiência, formação específica, é importante.
P – Mas nunca surgiu tentação no caminho? Convites?
JHR – Eu recebi dois ou três convites para sair daqui. Um deles foi para dirigir o Diário Popular, não nessa fase agora, antes de ser vendido para o Quércia. Eu cheguei a assinar um contrato. Eu vim falar com o Humberto, já com o contrato assinado, e ele falou: “Rasga esse contrato porque eu não quero que você saia daqui, não vou deixar você sair daqui. Mesmo porque nós vamos lançar a revista e você vai ser o editor-chefe da revista Globo Rural.” Uma outra vez fui convidado e participei de um concurso para professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina. Passei no concurso, para ir para lá dar aula. Mas aí não pude ir por um problema de família. Em um momento antes, também, fui convidado para voltar para Campinas, para dirigir o Correio Popular, numa proposta até meio mirabolante. Foram essas três propostas para sair aqui do Globo Rural.
P – Você é uma pessoa preocupada com a formação do pessoal mais jovem. Nesses 50 anos, o que falta e o que existe hoje que é melhor do que era naquela época em que você começou? O que você acha que falta a esse pessoal que está chegando ao mercado para avançar na profissão, fora a fórmula mágica de fazer uma boa reportagem?
JHR – Bem, eu só posso dar um depoimento sobre como era o jornalista quando eu comecei e como é o jornalista hoje. Então vamos pegar a redação da Folha de S. Paulo, onde eu comecei. Pois O Tempo era uma coisa provisória, precária... A Folha não, já era um grande jornal quando eu comecei. Meu primeiro turno de trabalho na Folha foi de noite. Não de madrugada como era na Bandeirantes. Eu chegava às 6 horas da tarde.
P – Para fazer o fechamento...
JHR – É, era das 6h à meia-noite. Porque antigamente os jornais fechavam por esse horário, de 11h30 à meia-noite. Quando eu entrei na redação e vi aquele material humano, quase fui-me embora. Era gente muito feia, muito mal vestida. A maioria tinha dentes precários. E depois eu vim a saber que havia na redação da Folha dois caras que falavam inglês, e eram considerados de outro mundo. Eu me lembro até hoje o nome deles. Um era o Aidam, e o outro era o Crestana.
P – O Francisco Crestana?
JHR – É, Francisco Crestana. Então, dois falavam inglês. Ah, outro detalhe: não tinha nenhuma mulher. Não que a Folha não tivesse mulher, já tinha, mas não à noite. De tarde. Ou cuidava do Suplemento Feminino, ou cuidava, como a Helena Silveira, de crônica literária. Depois foi fazer crônica de tevê, mas na época fazia crônica literária. Numa redação de cem, havia três mulheres. Hoje, você entra na redação da Folha, a maioria é mulher, e é uma moçada bonita, bem vestida. Você não acha um dente cariado na Folha hoje, será que acha? E tem algum que não fala inglês na Folha, hoje?
P – Deve haver dois.
JHR – É capaz de ter dois. Pode ser que não fale, mas que lê inglês, que opera computador e conhece todo esse vocabulário do computador. Então, o material humano do jornalista hoje é cem vezes melhor. Agora, se você me perguntar: o diploma é importante para o jornalista? Eu digo assim: não. O diploma é importante para o País. Para o jornalista pouco faz se precisa ou não diploma. Mas se o País exigir que para ser jornalista o cara tem que fazer quatro anos de universidade, o jornalista sempre será melhor do que era no meu tempo, em que o jornalista era recrutado a troco de um prato de comida. Porque quem era jornalista? Era o cara que entrava como porteiro, como office-boy, como motorista. Posso até citar os nomes. Audálio Dantas... Ele entrou na Folha como ajudante de laboratório, era um auxiliar de laboratório. O Gil Passarelli, que foi o fotógrafo mais importante da Folha, entrou como motorista e depois passou para porteiro. O Percival de Souza, entrou como office-boy. Hoje o cara começa com quatro anos de universidade. Olha, para o País é melhor ter um jornalista com essa formação do que um pobre diabo que vai buscar emprego a troco de um prato de comida.  
P – Na sua época de foca, Zé, você chegou a ser pautado para entrevistar a calandra?
JHR – Não. Esse trote da calandra, no meu caso, não vingou. Me pegaram em outros, que eu não me lembro agora. Porque a memória só reforça o lado bom, não é? (risos) Porque senão você não vive...
P – Já que estamos nesse negócio de evolução, como você vê o futuro? Estamos falando de conteúdo e de tecnologia também.
JHR – O jornal avançou, do ponto de vista tecnológico, mas regrediu, do ponto de vista editorial. Hoje essa tecnologia é tão exigente que a redação fecha 8h da noite. O jornal de domingo vai para as bancas no sábado. Quer dizer, isso é um retrocesso imenso. Então tem hora que a tecnologia compromete o conteúdo. Se ela não for bem usada, compromete o conteúdo.
P – Usada a favor, não é?
JHR – É... Agora, a coisa mais fantástica que aconteceu nesse período em que eu estou de olho aberto para o mundo... Porque até uma certa idade você só quer saber de biscate, né? (risos) Então, a coisa mais fantástica foi o desmoronamento do império soviético...
P – Retomando a questão sindical, o que você pensa dessa história do Conselho Federal de Jornalistas?
JHR – Do ponto de vista do profissional, é completamente dispensável. Eu acho que a luta do profissional não vai ser melhor com uma entidade a mais. Será melhor fortalecer a entidade que já existe, que é a Fenaj. Do ponto de vista do profissional, melhor seria fortalecer a Fenaj do que criar uma nova entidade. Agora, do ponto de vista político, eu acho que alguma espécie de controle, pela sociedade, dos meios de comunicação seria saudável. Não sei se isso viria via Conselho, mas alguma coisa para evitar os abusos, os preconceitos, o exagero. Isso ao nível político.
P – Tem um conselho lá, que é um conselho de comunicação, é integrado por...
JHR – Já tem um, que não funciona. Vai fazer mais um?
P – Você acha que as entidades sindicais pararam no tempo, ou algumas evoluíram e outras não? Claro, tendo como base o próprio sindicato dos jornalistas, que a gente conhece razoavelmente bem.
JHR – O sindicato é uma instituição em crise. Está num momento de mudança. Pode mudar para melhor ou pode até piorar, mas está em um momento de crise.
P – E os patrões da mídia?
JHR – Pior do que ser explorado por um patrão capitalista é não ser explorado por um patrão capitalista. (risos) Porque o desemprego é o pior de tudo. A imprensa livre é um subproduto do capitalismo. Fora do capitalismo não há imprensa livre.
P – Quais são os jornais que você lê diariamente?
JHR – Leio a Folha e o Estado. Não que eu leia de cabo a rabo os dois, mas vejo a Folha e o Estado. Aqui na Globo dou uma olhada n’O Globo e no JB. E aí como eu viajo muito sempre que chego nas cidades eu dou uma olhada nos locais.
P – E rádio e tevê, do que você gosta? Além do Globo Rural, é claro.
JHR – Na tevê eu gosto de jornalismo, de esporte ao vivo, e dessas emissoras de documentário, National Geographic, Discovery, History Channel, Animal Planet.
P – Você consegue arranjar um tempinho para ver?
JHR – Sempre que eu acho hora, vejo. Eu caço coisas...
P – Da tevê aberta tem algum programa de que você gosta?
JHR – Dou uma peruada nos jornalísticos.
P – E a internet? Você foi seduzido por ela?
JHR – A internet, como o telefone, é uma ferramenta necessária para o jornalista. Mas não dispensa ir ao lugar. Para a atividade de repórter, é uma ferramenta que você tem que usar com parcimônia. Porque ela te dá muita informação boa mas pode te induzir a erros terríveis. É uma fonte para ser usada com parcimônia.
P – Você pensa em ter um blog?
JHR – Não.
P ­– Nem se te encherem muito o saco?
JHR – Não. Porque tem que alimentar várias vezes por dia, para fazer uma coisa de qualidade.
P – Pelo que se sabe, a cada ano se formam cinco mil jornalistas pelas diversas faculdades do País. Muitos nem chegam a exercer a profissão. Você acha que o jornalismo estará bem amparado no futuro?
JHR – Uma vez, quando eu estava na diretoria do Sindicato dos Jornalistas, cheguei a propor numa assembléia que arranjássemos meios, uma lei que restringisse o número de vagas em escolas de jornalismo, para não haver esse excesso de oferta. Isso não é ruim para a empresa, e sim para o ser humano que entra com a ilusão de uma profissão e depois não tem emprego, não tem guarida nela. Para as empresas é muito bom que haja a superoferta. Eu achava que cada Estado deveria ter um número de vagas proporcional ao mercado existente. Mas levei uma vaia tão grande... Aí fico pensando: será que é correto isso continuar acontecendo, sem que o Estado tome qualquer providência? Acho isso uma crueldade.
P – Muitos chamam a isso de estelionato educacional...
JHR – Então, se houvesse menos vagas, essa seleção já estaria no vestibular. Aqueles poucos que conseguissem se formar quase que certamente teriam trabalho. Eu acho que está acontecendo no jornalismo é o reforço dessa atividade lateral que é a assessoria de comunicação, consultoria. É uma coisa lateral e que está crescendo muito. E que não deixa também de ser um trabalho digno. Mas não é bem jornalismo, é outra coisa.
P – No seu dia-a-dia no Globo Rural, em que fonte você bebe para tirar essa energia toda para a reportagem? Onde você se retroalimenta?
JHR – Olha, eu tenho uma listinha de mais ou menos dez reportagens que eu quero fazer. Aí, quando eu faço uma, eu risco aquela e ponho outra. (risos) E sinto que não vai dar tempo de fazer. Tenho que fazer mais rápido.
P – Mas não vai dar tempo por quê? São muito trabalhosas?
JHR – É aquela coisa de repórter, você quer saber uma coisa para contar. Eu fico sabendo de uma coisa interessante, fico louco para fazer uma reportagem para contar para os outros. Eu fico com essa necessidade. Com isso, a minha listinha nunca termina. Risco uma, às vezes ponho uma ou até duas. Faz uns 15 anos que eu estou querendo fazer uma reportagem sobre a Guerra do Paraguai. Acho que vou conseguir esse ano. Seria com um enfoque no rural, para o Globo Rural.
P – Só para a gente dar um pouco de risada Zé. No começo dos anos 90, quando você integrou a diretoria do Sindicato dos Jornalistas, dividindo o comando com o Antonio Carlos Fon, você foi, ao lado dele, o maior fiador da nova fase do Jornal Unidade. Foi uma fase muito rica do jornal, na qual não faltaram colaboradores famosos e tampouco polêmicos. Uma das matérias antológicas daquela fase foi o Tratado Geral do Passaralho, até onde sabemos de sua autoria. Que bicho é esse afinal? (risos)
JHR ­– Pois é... Eu fui convidado agora pela Editora Globo para fazer mais um livro, a seleção das melhores reportagens da revista Realidade e da revista Globo Rural, de várias reportagens. Eu quero por uma da Folha e o Tratado Geral do Passaralho, do jornal Unidade. Vai ser engraçado numa coletânea uma reportagem de jornal do Sindicato.
P – Ela foi antológica... (risos)
JHR – O passaralho, assim como a liberdade de imprensa, é um subproduto do capitalismo. O patrão tem o direito de mandar embora e usa esse direito sem nenhum constrangimento, sem nenhuma cerimônia.
P – Mas como surgiu essa expressão?
JHR – A origem do passaralho eu não consegui descobrir, nem naquela matéria. O que a gente localizou foi a época em que ele surgiu. Surgiu na Abril, a figura do passaralho, o desenho dele. Quando eu cheguei na Abril eu fui perguntar sobre essa história, alguém falou que veio da Folha ou do Estado ou do Rio. Ninguém sabe mesmo a certidão de nascimento...
P – Cara de Pasquim, não é?
JHR – Não, foi bem anterior ao Pasquim. Vou lá no Sindicato reler.
P – Uma invenção sua também para o Unidade, a coluna Moagem vai completar 17 anos de vida agora em março. Dela nasceu Jornalistas&Cia e por extensão este Protagonistas. Vamos recapitular? Por que Moagem?
JHR – O termo moagem é muito comum no Mato Grosso do Sul. Tem um dia para capar o gado numa fazenda, um dia de muito trabalho muito pesado. Aí termina e a turma reúne em torno de um chope, uma cerveja, uma carne e é hora de contar os casos, as novidades, quem comprou o quê, quem vendeu o quê, quem vai casar, quem não vai. Isso se chama moagem. Eles dizem que depois da capação lá na fazenda vai ter uma moagem boa.
P – Você havia dito que era também depois de um casamento, num velório...
JHR – É, em todas as ocasiões em que surgem as novidades que as pessoas ficam sabendo, ficam em dia com as notícias da tribo.
P – Quando você a criou, você tinha certeza de que iria cair no gosto popular como caiu?
JHR – Eu achava que não tinha erro. Porque eu reparei que o jornal dos jornalistas só falava dos outros, não falava dos jornalistas. É difícil falar dos jornalistas. Então, você chega lá na Folha e já te dizem: “Ô, você sabe quem vai pro Estado, quem vai pra Globo? Sabe quem foi convidado?” Precisa ter um lugar para essas notícias e não há lugar melhor do que o jornal do sindicato. O engraçado é que na diretoria da época, naquelas circunstâncias da época, o maior apoio para o Unidade, inclusive para essa coluna, veio de um cara que era gerente lá, o Oswaldo Braglia Jr. Ele percebeu e dava o maior apoio. Tanto que uma das coisas que eu gostaria de ter no Moagem – e que em certo momento tinha, mas depois parou – era publicar a foto do cara que se sindicalizava. Mas teve alguém lá que achou que aquilo era indevido, era invasão de privacidade, e proibiu. Tanto que não se dá mais.
P – Você acompanhou os anos dourados, os anos de chumbo e a redemocratização do País. Que Brasil é esse, afinal?
JHR – Eu estive agora no Tocantins. Eu não conhecia Palmas – Las Palmas. Fiquei decepcionado. Eu pensei que quem nascesse em Palmas seria palmeirense; não é.  (risos) Perderam a chance, um estado novo, todo mundo palmeirense. (risos) Chama palmense, olha! Acho que o Brasil é um país atrasado, que cresce de maneira retardada. Acho que foi o último país do mundo a abolir a escravatura. Quatrocentos anos de escravatura... E você pega a Nova Zelândia, um país de 200 anos, de Primeiro Mundo... Então, o Brasil é um país atrasado, retardado, mas em crescimento, que tem potencial. É lento, mas vai realizando esse potencial. O destino do Brasil é ser uma grande potência. É o destino...
P – Se o governo não atrapalhar... (risos)
JHR – Se o governo não retardar muito....
P – Você considera o jornalismo brasileiro corajoso, audacioso?
JHR – Eu acho o jornalismo brasileiro medíocre. Eu gostaria de ter mais no jornal, mais no telejornal. Não sei exatamente como eu faria se fosse diretor de Redação de um jornal... Mas se você pegar o melhor jornal do Brasil, ele não satisfaz. Como consumidor de jornalismo, eu não me satisfaço. É difícil um telejornal que eu veja inteiro. Até pelas chamadas você já vê que estão embromando. Aliás, como diz o fabricante de lingüiça, 95% de tudo é enchimento. (risos)
P – É difícil ser jornalista no Brasil?
JHR – Acho que é muito prazeroso ser jornalista no Brasil. As pessoas recebem bem. Fora um ou outro caso, as pessoas recebem bem o jornalista. Falo pela minha experiência pessoal.
P – O tipo de veículo que você faz também...
JHR – Mas já fiz jornal diário. O brasileiro em geral recebe bem o jornalista. Quando uma família está traumatizada por causa de um crime, por exemplo, aí é outra coisa. O jornalismo é uma profissão considerada socialmente. Não é uma coisa que a sociedade veja com maus olhos. Talvez veja até o jornal. Vê pior o jornal do que o jornalista.
P – É porque não nos conhece o suficiente. (risos) Você tem uma filha jornalista (Tetê Ribeiro), um genro jornalista (Sérgio Dávila) – seu genro foi para a guerra. É muita adrenalina para uma família só. O que vocês conversavam nesse período?
JHR – Minha mulher é que fala: “Mas, que família, hem? O marido e o genro...”
P – E a filha, né?
JHR – Mas a filha não foi para a guerra. Então, uma filha é jornalista e a outra fez Filosofia, mas no momento não atua na área, está fazendo uns artigos de free-lancer de revista... O negócio de jornalismo, de repórter principalmente, é uma questão de vocação. Acho que eu e o Sérgio Dávila somos bem resolvidos psicologicamente no sentido da vocação. Eu acho o Sérgio um repórter, um cara voltado para a reportagem, voltado para a notícia, tem o fogo da notícia. Então, como diz o Adib Jatene, o ideal é o camarada trabalhar no que gosta, porque aí a vida fica prazerosa mesmo no trabalho. Porque a pessoa que trabalha no que não gosta, a vida fica um tormento. Acho que no caso lá de casa essa parte... Tem o problema de ganhar pouco, né?, mas essa parte psicológica é boa.
P – Vamos para a política. Em quem você votou na última eleição?
JHR – Não votei, estava viajando.
P – Se votasse, seria em quem?
JHR – No Alckmin.
P – Como você analisa o Governo Lula. Você acredita que nesse segundo mandato a gente terá melhores dias pela frente?
JHR – Eu acho que o Governo Lula pode surpreender, para cima ou para baixo. Mas, na medida em que ele se alia ao PMDB, como parece estar claro, tenho a impressão de que vai ser um mandato menos traumático do que foi o primeiro. Pode ser que ele faça um governo muito melhor do que eu estou pensando, mas pode fazer muito pior, muito mensalão, muito dossietário, sanguessugas... Mas penso que, com a aliança com o PMDB, do ponto de vista institucional, vai ser melhor. O primeiro foi muito traumático, foi muito de aprendizado, vamos dizer assim.
P – Você acha que a imprensa teve um papel importante. Como você analisa? Foi boa a cobertura, foi exagerada, foi errada?
JHR – Penso que a imprensa, nessa questão dos escândalos, ficou muito aquém. Esteve aquém das CPIs e aquém da Polícia Federal. Imagine o dossiegate na mão do Bernstein, do Woodward. Eles já saberiam de onde esse dinheiro saiu, quando saiu. Já saberiam tudo. O Washington Post já teria publicado tudo. A imprensa, nesses casos, esteve sempre a reboque ou das CPIs ou da Polícia Federal. Então, esteve sempre aquém.
P – Politicamente, como você se situa?
JHR – Quando abriram os arquivos da polícia política, me passaram um trechinho em que eu era chamado de comunista perigoso. Eu participei do Festival da Juventude Comunista em Moscou, quando estudante. Os meus ídolos, tanto no jornalismo como na política, eram comunistas. Mas, com o desabamento do império soviético... Ou melhor, com o desencanto em relação ao comunismo, à prática do comunismo, eu – que não cheguei a me filiar ao Partido Comunista, era uma linha auxiliar, vamos dizer assim, simpatizante – penso que essa democracia social tipo sueca, tipo britânica, uma democracia social que dê saúde, escola, uma aposentadoria digna, amparo mínimo para os idosos e para as pessoas que não podem se sustentar sozinhas, sem sacrificar a liberdade individual, seja a melhor. Porque o comunismo soviético dava emprego, pleno emprego, mas sacrificava a liberdade. Por isso não deu certo. O problema do capitalismo é esse: o emprego. Um pai desempregado, não há coisa pior. Não há tragédia pior para o ser humano do que um pai desempregado sendo humilhado pela mulher, pelos vizinhos, pelos filhos. Os filhos cobram, o cara não arranja emprego... Mas, enfim, o problema do capitalismo é emprego. Hoje a minha posição política é a seguinte: uma social-democracia, que dê saúde, educação e uma vida digna na velhice e sem sacrifício da liberdade.
P – Como você vê a militância política e seus desdobramentos no jornalismo?
JHR – A grande militância política no jornalismo que eu vi foi a do Partido Comunista, do Pecegueiro. Especialmente na Folha, quando eu entrei, você sabia quem eram os líderes. Eram pessoas influentes, importantes. Depois que passou a hora do Pecegueiro, do pecezão, a próxima militância que surgiu foi a do PT, da formação do PT dos primeiros anos, que era muito atuante. Hoje não é mais. Os jornalistas não são mais tão atuantes e fervorosos como eram. Nós estamos num momento de mudança, mas não sei para onde.
P – Mas você considera boa essa mudança, em tese, pelo menos?
JHR – Eu acho que o jornalismo é uma função política. O sujeito que é jornalista está trabalhando para mudar o mundo, não tenha dúvida. Ele quer mudar o ser humano, o mundo. Quando eu trabalhava em Ribeirão Preto, o dono do jornal era também dono de uma usina de açúcar e tinha uma fábrica de implementos agrícolas. Ele se chamava Luiz Antonio Ribeiro Filho. Era um cara muito atuante nas empresas dele, tanto na usina como na fábrica e no jornal. Um belo dia, ele me falou: “Zé Hamilton, eu não entendo uma coisa. O pessoal da usina, termina o serviço às 6 horas, pega o carrinho e vai para casa, jantar com a mulher e as crianças, aí leva no quarto e dá um beijo. O pessoal da fábrica de implementos a mesma coisa, vai todo mundo para casa. Os jornalistas fecham o jornal, vão todos para o bar discutir. A gente chega lá meia-noite, 1 da manhã, está todo mundo lá, só discutindo o jornal. Que negócio é esse?” Eu falei: “Olha, Luiz Antonio, a diferença é que jornalista está mudando o mundo, quer consertar o mundo. Tem que trabalhar todo dia, o dia inteiro e de noite também. E tem lugar melhor para consertar o mundo do que num bar? (risos) Não tem.”
P – As novas gerações não estão mais fazendo isso...
JHR – Não dá tempo. Os horários...
P – Você faz coro com a mídia nas duras críticas contra o Parlamento?
JHR – Quando eu vejo no jornal: plenário vazio – fotografia de plenário vazio –, deputado não trabalha. E no outro dia: deputado quer aumento de salário, está trabalhando de madrugada para fazer um projeto de aumento de salário. Olha, isso é chefe de Reportagem ruim, que não é criativo, não busca assunto para o jornal do dia, vai atrás disso. Manda um fotógrafo lá, fotografa e mete o pau nos deputados. A coisa mais fácil que tem é meter o pau no Legislativo. Porque o Legislativo não tem agência de publicidade para programar os jornais. O Executivo tem, né? Falar mal do Executivo? Vai devagar, porque se não eles tiram o anuncio da Caixa Econômica, do Banco do Brasil, da Petrobras. O Legislativo não tem isso, né? Também não fala de juiz porque se não amanhã você desquita e ele mete uma pensão em cima de você. A mulher pede tudo o que você ganha e o juiz dá. Ele vai te perseguir amanhã. E jornalista separa, né?
P – Muito!
JHR – Agora, de deputado e senador pode falar à vontade, porque não te afeta nada. Então, quando eu vejo no jornal críticas ao Legislativo, é chefe de Reportagem ruim e diretor de jornal desqualificado politicamente. Porque o emprego mais importante do País é o de deputado e senador. Eu estou delirando agora porque eles estão querendo se igualar aos ministros do Supremo. Não é que eles tenham que se igualar, eles têm que ganhar o dobro dos ministros do Supremo. Porque um ministro do Supremo é um burocrata, que vai ganhando cargos dentro do estamento dele, através de puxação de saco, de patota, é um cara que tem aposentadoria integral para o resto da vida e quando chega a ministro do Supremo já empregou a cunhada, o sobrinho, o neto, subneto, subgenro, todos no Judiciário. Então, ele faz três ou quatro anos de Supremo para chegar ao salário máximo, se aposentar com aquilo e viver mais 20, 30 anos ganhando aquilo. O deputado ganha pouco, quando é demitido pelo povo não tem nem Fundo de Garantia, sendo que é o emprego mais importante do País. Salários do Governo deveriam ser, em primeiro lugar, presidente da República – tinha que ganhar muito mais do que ganha o Lula. Um absurdo, o cara ser presidente da República e ganhar um salário que, parece, é de R$ 8 mil ou R$ 12 mil. Então é melhor não ganhar nada, o Estado paga tudo. O servidor público, ou ele ganha bem para defender o emprego dele, ou, ganhando mal, vai tirar por fora, vai roubar ou vai fazer licitação fraudulenta... Eu acho sinceramente que o maior salário do Brasil deve ser do presidente, em segundo lugar deputado e senador, em terceiro lugar os ministros do Supremo e os ministros do Governo. E vai descendo aí. Porque deputado federal é um servidor qualificado que foi escolhido pelo povo. E o povo tem direito de mandar ele embora daí a quatro anos se ele pisar na bola, enquanto esse juízes corruptos ficam aí a vida toda e ninguém fica sabendo. Vocês já repararam? Juiz corrupto é preso vendendo sentença; quando muito ele é afastado e aposentado com o salário integral. O deputado, se perde a eleição, vai para casa e não tem como pagar a campanha. Se for honesto. Se for roubar, aí não precisa ganhar nada. Se o deputado não ganhar bem – a campanha é cara –, ele vai tirar de outro lugar. Ou ele rouba do Governo, ou ele pega de empresas para fazer lobby ou coisas desonestas. Então, eu acho que o mais certo é ele ganhar bem institucionalmente para honrar aquele salário. Mas também acho que precisa haver esquemas para cassar o deputado desonesto rapidamente. Ele tem que dar exemplo para o País.
P – Você nunca se interessou por política partidária? Nunca ninguém te convidou para concorrer a algum cargo?
JHR – O pessoal do PC me convidou, depois um amigo que mexe com política me convidou. Mas eu não tenho disciplina para fazer política partidária. Você tem que saber direito o programa do partido, ir às convenções, às assembléias, reuniões. Para ser, tem que ser direito. Para ser assim de passada, nunca quis não.
P – Estamos chegando ao final e vamos fazer um pingue-pongue. É mais para divertir mesmo. Uma cor...
JHR – Amarela.
P – Um livro...
JHRO ABC da Literatura, do Ezra Pound.
P ­- Um autor...
JHR – Gabriel Garcia Marquez.
P – Uma canção...
JHRA promessa do Batistinha, uma moda de viola. São três autores, um deles é o Marrueiro, daquela dupla Sulino e Marrueiro.
P – Um esporte...
JHR – Para ver, é futebol; para praticar, é natação.
P – Um líder...
JHR – Aí varia ao longo do tempo, né? Uma pessoa de quem eu goste das idéias... Ah, põe o Caetano Velloso.
P – Um político...
JHR – Waldyr Pires.
P – Você gosta dele?
JHR – Gosto. Mas, cá entre nós, no Governo Lula, tem algumas pessoas que eu contesto mas tem outras que são ilibadas. Marina Silva, Tarso Genro...
P – É um pessoal de caráter, de princípios... O problema do Waldyr é que ele está se queimando muito com essa história do apagão.
JHR – Está num momento político terrível, num inferno astral... Mas é um homem de uma grandeza, de uma finura...
P – Um vício...
JHR – (risos) Vício...? Vício é uma coisa que você está acostumado a fazer?
P – Pode ser no sentido figurado também, não literal.
JHR – Um vício não é no mau sentido, uma coisa ruim?
P – Não necessariamente... Sexo, por exemplo. (risos)
JHR – Outro dia me perguntaram o que significa entrar nos 70 anos. Eu falei: “Entrar nos 70 não é nada. Duro é sair do 69.” (risos) Mas um vício...?
P – Tem gente que é viciada em trabalho, em comer chocolate...
JHR – Coisa que você faz compulsivamente, né?
P – Se você procurar bastante, acha.
JHR – É comer amendoim. É a coisa mais compulsiva que eu faço.
P – Uma virtude... Não necessariamente sua.
JHR – Acho que é a tolerância. Eu não tenho muita, mas admiro nos outros.
P – Um provérbio... Que você siga, pratique, fale...
JHR – Um que eu acho muito expressivo é “No capitalismo não tem almoço grátis”.
P – Uma reportagem inesquecível. A gente já falou de algumas, mas tem alguma, de alguém, sua...?
JHR – Pois é, parece demagogia, mas a reportagem inesquecível é a que eu vou fazer. Porque, geralmente, uma pessoa que está apaixonada jornalisticamente por um personagem, está na cabeça nesse momento, né? Você está pensando na reportagem que você está fazendo, não na que já passou. É a Marilei de Blumenau.
P – Quem é a Marilei de Blumenau?
JHR – Depois vocês vão ficar sabendo. (risos) É uma reportagem que estou fazendo.
P – Um amor...
JHR – Cavalos.
P – Uma paixão...
JHR – Adriana Calcanhoto. Vai dar problema isso lá em casa. (risos) Não conheço ela.
P – Um lugar inesquecível...
JHR – Cuba.
P – Um sonho...Ganhar o Prêmio Esso aos 85? (risos)
JHR – Morar numa casa numa praia. Uma praia bem simples.
P – E, para encerrar, família...
JHR – Família é a chave da segurança psicológica de uma pessoa.
P – A sua te acompanhou?
JHR – Acompanhou. Me deu segurança psicológica. Não é fácil.
P – Você é casado com a mesma mulher?
JHR – Com a mesma mulher.
P – Há quantos anos?
JHR – Eu casei em 63... 43 anos.
P – O nome dela é...?
JHR – Maria Cecília. Uma vez a gente fez um balanço com o pessoal da antiga revista Realidade e só tinha eu casado com a mesma mulher. Mas tem uma pergunta aqui que você não fez...
P – Vamos lá...
JHR – Nesses 50 anos de jornalismo, o que você aprendeu? (risos)
P – É...
JHR – Eu aprendi duas coisas. Primeira: azeitona preta é tingida. Segunda: em geral, nos banheiros, água quente é na torneira da esquerda. (risos) Fora disso, tenho que aprender tudo de novo. A minha mulher foi em duas ou três palestras em que eu falei isso. Aí ela disse pra mim: “Mas, Zé Hamilton, você só fala isso!” “Ué, eu só aprendi isso!” (risos). Estou sendo honesto. Ela queria que eu falasse uma coisa em cada lugar.


 
 


 
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