Jornalistas & Cia - Imprensa Automotiva
 
 
 
 
 
 
 
 
 
São Paulo,

 

Roberto Civita
"Eu gosto é de fazer revista"

Após superar a mais grave crise de sua história, a exemplo do que aconteceu com várias das empresas de comunicação que fizeram investimentos nos anos 90, o Grupo Abril volta a viver um grande momento – para o bem dele próprio e também do mercado, que havia muito se ressentia da falta de iniciativas e da ousadia da empresa líder no segmento de revistas. Os resmungos e aflições do período de ajustes deram lugar a um clima de relativa euforia, sobretudo entre aqueles que estão no comando das várias operações.
Com a capacidade de investimentos retomada, a Abril pisa novamente no acelerador. Vem aí, por exemplo, a Revista da Semana, fruto de investimentos de R$ 15 milhões, que chegará às bancas no final de agosto. Em outubro, será a vez de um novo título no segmento de femininas (ainda mantido em segredo). E há ainda um terceiro lançamento, do qual pouquíssimo se sabe – fala-se numa revista mais ousada do que Vip, o que tem levado a especulações de que poderia ser um título focado no público gay; e fala-se também que poderá ser uma primeira experiência da Abril com um título exclusivamente na web; mas todos os que tem algum acesso ao projeto dizem que será uma grande surpresa.
O Grupo também está investindo forte no Núcleo de TV, que além da MTV terá novos canais por assinaturas, dois deles já em vias de estrear: o Fiz, com conteúdo produzido pelo próprio público a partir de temas como humor, esportes etc., e o Ideal, focado em carreiras e gestão, que vai estrear em 12 de setembro.
Fonte de permanentes preocupações para a organização, a TVA também conta os dias para passar a operar no azul: a parceria com o Grupo Telefônica, recentemente aprovada pela Anatel, permitirá à empresa ter maior competitividade e um enorme alargamento das atuais fronteiras de atuação, o que deve resultar num significativo crescimento de mercado e, por extensão, de receita e lucro.
À frente desse império editorial e de comunicação está o ítalo-americano-brasileiro, se assim o podemos chamar, Roberto Civita, nascido em 1936, em Milão, e que viveu de 1939 a 1949 em Nova York, quando, com a mãe Sylvana e o irmão Richard, a um chamado do pai, Victor Civita, já então no Brasil, mudou-se para São Paulo, para assistir, de camarote, ao lançamento do Pato Donald e, com ele, ao nascimento da Editora Abril. Voltou depois para os Estados Unidos para estudar, até regressar em definitivo ao Brasil, na segunda metade dos anos 60, trazendo na bagagem idéias que contribuiriam para mudar radicalmente o perfil do jornalismo brasileiro, sobretudo no segmento de revistas. Foram tempos em que a Abril lançou títulos como Realidade, Veja, Exame e Playboy, entre outras, valorizando o jornalismo de texto, de apuração rigorosa de informações, de independência editorial – uma revolução para os padrões da época.
É do alto do Edifício Abril, na Marginal do Pinheiros, e de seus 70 anos, mais de 40 deles dedicados a fazer revistas (coisa de que mais gosta, segundo ele mesmo enfatiza), que Civita comanda um grupo de empresas que faturou em 2006 R$ 2,5 bilhões, gerando emprego para um exército de quase 6 mil profissionais. Jóia da coroa, a Editora Abril detém 50% do mercado brasileiro de revistas (algo da ordem de 200 milhões de exemplares por ano). Sozinha, a empresa responde por 80% das receitas da corporação, tendo, no ano passado, publicado 318 títulos, dos quais 111 regulares e 207 edições one shot e especiais. São 45 redações que, em conjunto, empregam cerca de mil jornalistas, 60% deles (possivelmente um pouco mais) mulheres. Fazem parte desse império também as editoras Ática e Scipione, líderes no segmento de livros didáticos.
Na manhã do último dia 19 de julho, dois dias após o terrível acidente com o vôo JJ 3054 da TAM, que matou quase 200 brasileiros, Civita recebeu os editores Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli (dois ex-repórteres da Abril, que trabalharam juntos, em meados dos anos 70, em revistas como Placar e TV Guia, esta última de curta duração), no 19º andar do Edifício Abril, para uma conversa sobre jornalismo, jornalistas, mercado editorial, política e, claro, revistas. O acidente aéreo, obviamente, entrou na pauta, como não poderia deixar de acontecer, tal o abalo que provocou em todo o País. Acompanhado pela assistente Meire Fidelis e, parcialmente, pelo diretor secretário editorial Sidnei Basile, o encontro teve como convidado especial o professor Carlos Chaparro, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, a ECA/USP, cuja valiosa contribuição poderá ser percebida ao longo desta edição.
Na ampla e sóbria sala de reuniões, de onde, emoldurada pelo conjunto de vidraças, se tem uma vista espetacular da Marginal do Pinheiros, difícil de imaginar por quem por ela só trafega, o encontro, inicialmente programado para uma hora e meia, estendeu-se por mais de duas, ainda assim sem esgotar a 'ambiciosa pauta' levada pelos entrevistadores. Pontual, Civita ocupou a cabeceira da imensa mesa oval, tendo ao fundo uma estante decorada com os vários troféus recebidos por ele e pela Abril ao longo dos anos.
Não houve assunto tabu, mas não houve também respostas diretas para algumas perguntas. Se o assunto era ainda confidencial, ele não titubeava: "Disso não falo por enquanto". Mas trocava a negativa por informações valiosas sobre o tema. Se a colocação era pontual, como uma crítica a um ou outro posicionamento de Veja, por exemplo, ele optava por contextualizar e explicar com clareza a missão e o espírito da revista, evitando analisar questionamentos específicos. Se o assunto era complexo e merecesse reflexões, ele indagava e anotava, mostrando-se aparentemente disposto a levá-lo para dentro da empresa para ser melhor debatido.
Confiante num novo ciclo de expansão dos negócios da Abril, Civita considerou ter equacionado bem, na organização, a questão da gestão, mas disse ter ainda pela frente o desafio de encontrar alguém para sucedê-lo na área editorial. Ele, que passou, como filho, por um difícil processo décadas atrás, quando os negócios do grupo foram divididos pelo pai, Victor Civita, entre ele e o irmão Richard, agora se vê, aos 70 anos, na contingência de cuidar disso. Coincidentemente, com dois filhos homens. Problema: os filhos, aparentemente, não têm a mesma vocação no que diz respeito à questão editorial. Giancarlo, o sucessor no comando do grupo, é um gestor muito criativo, focado em resultados, mas revela poucos pendores pela área editorial. Victor Civita Neto, o segundo filho, é um entusiasta das novas mídias, mas igualmente não se envolve em discussões a respeito do conteúdo. Ambos, obviamente, têm lugar na empresa, mas falta alguém com o perfil de editor – ao menos, de editor ao estilo dele próprio, “esquizofrênico”, como brinca, por ter que dividir o cérebro em duas partes e esquecer o lado comercial quando toma decisões editoriais. Dois de seus principais executivos na área editorial – Thomaz Souto Correa e José Roberto Guzzo – já se aposentaram. O terceiro, Tales Alvarenga, morreu prematuramente no ano passado. Qualquer que seja o nome, no entanto, uma coisa parece certa: precisará ter paciência, porque Civita não dá a mínima indicação de que queira se aposentar. Ao contrário, diz que vai morrer trabalhando e que fazer revistas é o grande prazer de sua vida.
Ao final da conversa, já com gravador desligado e mesmo com o horário estourado, ele responde a duas outras indagações: que considera positiva a entrada de Nelson Tanure no mercado editorial, dizendo-se fascinado por ver alguém com essa capacidade de recuperar empresas destroçadas, coisa que ele, pessoalmente, se considera incapaz de fazer ("a única ressalva é que precisa fazer bem feito"); e que sabe ter um grande desafeto na vida, muito conhecido de todos, mas que sobre ele não fala. Quem quiser arriscar um palpite...
Quando a entrevista termina, fica em todos aquele gosto de quero mais. E a sensação de que, assim como a Abril, Roberto Civita também vive um momento particularmente bom. Tanto que até Lula mereceu dele palavras elogiosas, que certamente não estarão nas próximas páginas de Veja.
Boa leitura!

Jornalistas&Cia – Em 2006, o Grupo Abril cresceu 8,4% sobre 2005, com uma receita líquida de R$ 2,5 bilhões, contra R$ 2,3 bi. Desse total, R$ 1,9 bi foram gerados pela Editora Abril, que cresceu 8,1% sobre 2005. Como está 2007? Será um ano de bons resultados e conquistas? A empresa espera repetir ou mesmo superar 2006?

Roberto Civita
– O ano está razoavelmente bom; aliás, exatamente dentro da nossa previsão. Esperamos um crescimento da ordem de 10% na Editora. No Grupo, talvez a mesma coisa. Nos últimos anos, por causa do endividamento e da necessidade de pagar os juros, a Abril teve que enfatizar a geração de caixa. Os juros andavam muito altos, na estratosfera, ao ponto de quase acabarem com todas as empresas de comunicação que tinham feito investimentos. A desvalorização do real, de um lado, e a quase triplicação da taxa de juros, de outro, fizeram com que todo mundo que estava endividado – no nosso caso, por causa dos investimentos feitos na TVA – tivesse grandes dificuldades para pagar os juros, o serviço da dívida. Todo mundo teve que fazer acrobacias. No nosso caso, tivemos que forçar a geração de caixa, sacrificando investimentos. Esta situação, felizmente, acabou. Não que o caixa tenha deixado de ser importante, mas a nossa ênfase agora vai se transferir para a última linha do balanço, para o lucro e a rentabilidade da empresa. Ou seja, estamos dando menos ênfase ao Ebitda (N da R.: Earnings before taxes, interest, depreciation, amortization) – acho que, em português, é Larjida, mas ninguém fala isso, só o Estadão (risos) – e mais ao lucro contábil mesmo. Isso empresarialmente, não jornalisticamente. Vamos ter um ano bom, bem melhor do que o ano passado para o Grupo.

J&Cia
– O Grupo, aliás, vem de duas importantes negociações, que lhe permitiram equacionar o endividamento e retomar a capacidade de investimentos: a venda de 30% do capital para o grupo sul-africano Naspers, em maio de 2006; e a associação da TVA com o grupo Telefônica, cuja operação foi aprovada no dia 18 de julho, pela Anatel. De empresa endividada, a Abril passa a ser um grupo capitalizado, com força para voltar a crescer e inovar. É isso?

RC
– Exatamente isso. Primeiro, nós vendemos 30% do capital do Grupo para a Naspers, no ano passado. Isso foi resultado de uma necessidade de nos capitalizarmos por causa daquele grande endividamento, que conseguimos reduzir em parte. Esta operação da Telefônica é a venda de uma parte da TVA, não da totalidade, uma associação. Vou explicar de um jeito simples, para todo mundo entender. No mundo todo, a tevê por assinatura, hoje, não consegue sobreviver sozinha. Nem no Brasil nem na China nem em qualquer outro lugar que eu conheça. Por que não? Porque, com a convergência tecnológica, as pessoas querem telefonia, banda larga, tevê por assinatura e outras coisas tudo junto, de um mesmo provedor. Se, de um lado, existe uma Telefônica, com banda larga e telefonia e, de outro, uma empresa de televisão por assinatura, elas são, virtualmente, obrigadas a casar, mesmo que não queiram. Elas têm que! A Telefônica precisa de tevê por assinatura e nós precisamos de uma associação com uma grande empresa de telecomunicações. Não há escapatória. A Net teve que fazer a mesma coisa. Não há como evitar isso. A Anatel aprovou a associação e deixou claro que não está satisfeita com apenas dois grupos no setor; vai procurar um terceiro, para estimular a concorrência.

J&Cia
– Com isso, a abertura do capital da Abril é página virada?

RC
– Ah, sim... Porque era abrir o capital ou vender para a Naspers. Resolvemos vender para a Naspers não por uma questão de preço, mas de visão. O mercado de capitais, especialmente a Bolsa, foca em resultados de curto prazo. Nossos novos sócios focam em resultados de longo prazo. E eu, a família, os dirigentes da Abril preferimos uma visão de longo prazo. Eu acho uma praga esse negócio de resultado trimestral. É um mal necessário, mas é uma praga. Não discuto, reconheço, não quero mudar o mundo, mas se eu puder fixar cinco, dez, vinte anos à frente, em vez de pensar em duas semanas ou três meses, prefiro.

J&Cia
– Até porque esse gerenciamento de curto prazo ganha um outro sentido, passa a ser coordenado com uma visão estratégica, não?

RC
– E ser editor... A única coisa importante que vou falar hoje, o resto vocês podem descartar (risos), é que ser um editor responsável consiste essencialmente, na minha visão, em saber equilibrar não apenas o curto e o longo prazo, mas os dois lados da equação, que são o conteúdo e o negócio. Esta é a questão essencial. Não estou querendo impor esta visão a ninguém, mas digo que sem conseguir esse equilíbrio ao longo dos anos, primeiro, não se tem sucesso e, segundo, não se é um bom editor. É simples assim.

J&Cia
– Onde está a fronteira entre o negócio e o conteúdo?

RC
– Passei as últimas cinco décadas – não exclusivamente, mas freqüentemente – dedicado a esta questão: como manter o equilíbrio? Tenho algumas respostas, que levei décadas para aprender. Na escola é fácil, mas na vida é difícil. Na escola dizem: separe as duas coisas. Fácil, não? Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e pronto! Só que na vida real é mais complicado. Então, o que fizemos? A primeira coisa, ainda na década de 50... Meu pai fundou a empresa em 1950 e ao longo daquela década já estava esboçado esse approach. Quando começamos a fazer revistas mais sofisticadas e mais complicadas – primeiro revistas, depois enciclopédias e livros didáticos, mas principalmente revistas –, tivemos que separar claramente, e erguemos quase um muro chinês, enorme, entre as redações e a parte comercial. E como isso funciona na essência, há 40 anos ou mais? As redações são blindadas, ou fazemos o possível para blindá-las, não contra os colegas da área comercial, mas contra coisas do dia-a-dia. Primeiro, a pressão dos anunciantes. Anunciante gosta muito de anunciar, mas também de ver as suas coisas bem tratadas nas publicações, no rádio, na televisão. É perfeitamente compreensível que queira isso. Portanto, é necessário extremo cuidado do lado de cá. O que você precisa fazer? Só falar das coisas que, na minha opinião... Quer dizer, na opinião de quem está fazendo a revista, não na minha, do Roberto Civita, porque essas decisões são tomadas nas 45 redações desse prédio, que conhecem a regra, a filosofia, o princípio da Abril nisso: você não precisa publicar nada por causa de alguém ser anunciante; você precisa publicar aquilo que interessa ao seu leitor, usando a sua avaliação, não a do departamento comercial. Então, a primeira coisa é a parte editorial ser independente da publicidade. A segunda é a independência em relação ao Governo, tão fundamental quanto a primeira, em certas revistas. Obviamente, o Governo, os governantes têm interesse... Não estou falando no Governo Federal, mas nos governos municipais, estaduais e federal. Deus e todo mundo que tem algum poder adora aplauso e odeia crítica. Simples assim. Então, o que é preciso fazer? Nós temos uma posição definida e a mantemos. E se o Governo ficar irritado, lamento. Se o Governo parar de anunciar, pena.


J&Cia – E ele pára de anunciar?

RC – Ah, pára! Desde o advento dos militares até hoje, o Governo, quando está irritado, pára de anunciar. E você ou aprende a conviver com isso ou deixa de ser independente. Isso pode custar caro em ambos os casos, mas faz parte da definição que tem de ser tomada antes de começar. Uma vez definido, pode-se dizer: estamos fazendo as revistas para os leitores, não para agradar anunciante nem Governo nem os amigos... Esse é um outro problema que editor tem: amigos (risos). Até eu ainda tenho alguns (risos). Mas, o que acontece? Um dos seus amigos se mete em encrenca e você tem que contar. Então, perde o amigo! Certa vez, um amigo nosso, amigo de Veja e da Abril, um homem que respeitávamos e admirávamos muito, se meteu numa encrenca. Grande encrenca. E os amigos dele se juntaram para pressionar a imprensa a não publicar a história. E era uma história escabrosa. Aí o Elio Gaspari (N. da R.: ex-diretor de Redação de Veja) disse: “Olha, temos que pensar assim: o leitor não está nos pagando para inventarmos lorota ou esconder alguma coisa; está nos pagando para contarmos a verdade”. Alguém, então, falou, não foi o Elio: “A regra é assim: se o sujeito estiver a 50 metros da praia ou menos, a gente lhe joga um salva-vidas; se está a mais de 50 metros da praia, o nosso salva-vidas não chega. No caso, ele está a muitas centenas de metros da praia (risos)”. E, pronto, publicamos! Então, essa regra da distância que você está da praia é importante. Se é amigo, está a menos de 50 metros da praia, a gente joga o salva-vidas, mas se é grave, não há o que fazer. Estuprou a freira na escada da catedral, vai fazer o quê? (risos) Tem que publicar!

J&Cia – Esse é um problema histórico. O projeto europeu, neoliberal, assentado numa filosofia de competição associada a uma visão social, de bem-estar social e de cidadania, em 1970, no seu embrião, gerou, pela unanimidade dos países então participantes, um documento em que se propunha que as redações deveriam ser independentes em relação às empresas e em relação aos governos. Claro que é uma coisa muito difícil, que a cultura também era diferente da cultura brasileira, mas resultou em alguns mecanismos, como, por exemplo, os comitês de redação; os acordos que acabaram sendo chamados de estatutos setoriais; a famosa cláusula de consciência; os comitês de regulação, de vigilância, que não são nem do governo, nem dos jornalistas, nem das empresas, mas da sociedade; os estatutos dos jornalistas etc. Quer dizer, criaram-se mecanismos para que esses princípios fossem viabilizados. Que mecanismos a Editora Abril tem para que as redações possam realmente ser independentes? Ou isso é uma coisa que funciona apenas dentro de tradições culturais da empresa?


RC – Eu acredito na iniciativa privada. Tem imperfeições, injustiças, mas acredito que a iniciativa privada é a única forma de produzir riqueza, de trazer progresso, desenvolver países, fazer chegar o bem-estar ao maior número possível de pessoas. Isso para mim é crença. Dentro da livre iniciativa, dizer para alguém que ele tem que fazer uma redação, um jornal, uma revista, uma televisão, o que seja, e que não pode influenciar o que publica, para mim é besteira, absolutamente besteira. Eu não estaria no ramo. Não teria perdido o tempo da minha vida. Para quê eu iria fazer isso? Só como negócio? Não me interessa. Aliás, há mil outros negócios melhores do que ser editor. Eu não estaria aqui. Meu pai, acho que não teria estado. E, que eu saiba, ninguém que conheço estaria, se não tivéssemos alguma influência. Deixe-me colocar assim: os princípios básicos da Abril atravessam já três ou quatro gerações de jornalistas. Estamos falando de gente que estava com 20 ou 30 anos na década de 50. E depois quem veio em 60, 70, 80, 90, 2000... Não sei quantas gerações. Toda semana eu almoço com a cúpula de uma redação. Então, num ano eu consigo dar a volta. Mas levo um ano. O que acontece? Estou falando com gente que tem 30, 35, 40 anos. Para mim, é uma nova geração. Para eles, obviamente, há os meninos de 22. Eles e elas. Tem mais elas. Temos mais jornalistas mulheres do que homens.

J&Cia – O senhor tem os números?

RC – Algo como 60% a 65% de mulheres de um total aproximado de mil jornalistas. Todo ano, quando vamos recrutar 60 ou 70 jovens para o Curso Abril de Jornalismo, com concorrentes do País inteiro, os melhores são mulheres. E eu estou avisando os homens para tomarem cuidado (risos). Se eles não se cuidarem, nós, daqui uma ou duas gerações, vamos servir de enfeite.

J&Cia – Embora o comando ainda seja mais masculino, não é?

RC – Ah, sim... Mas nas revistas femininas elas mandam em todas. E está certo, não está? Como é que vamos fazer de outro jeito? Não interessa o sexo, a cor, se é verde, marciano... Interessa é ser competente. Mas, voltando à pergunta anterior, eu diria que o melhor mecanismo para assegurar a independência é uma direção que acredite nisso. Você pode me perguntar: mas e se a direção não acreditar nisso? Eu vou lhe dizer: lamento, isso é muito triste, mas vai afundar, porque vão se prostituir. E, se vão se prostituir, na iniciativa privada, vão perder a credibilidade e acabar fechando. O que é ótimo. É assim que tem que ser: ou você faz direito ou não continua.

J&Cia – O Grupo Abril passou pela experiência de ter, por um período, um comando executivo extra família. Primeiro com Ophir Toledo e depois com Maurizio Mauro. Hoje, esse comando está de novo com a família, o senhor como presidente do Conselho de Administração do Grupo e presidente executivo da Editora Abril e Giancarlo, seu filho, como presidente executivo do Grupo Abril. O hiato se deu num dos momentos mais difíceis da história da empresa. Gestões familiares têm dificuldade em lidar com as crises?

RC – Gestão familiar, não sei, mas vou falar de mim. Nós tínhamos que gerar mais caixa. E para isso precisávamos fazer cortes e parar de investir. Tínhamos que dizer: não se pode mais comprar computador, viajar para não sei onde e temos que cortar x pessoas. Eu havia contratado uma consultoria para ajudar a pensar no que fazer e eles disseram que eu deveria cortar um monte de gente. Eu olhei o cara e disse: não vou fazer isso. Mas nem a pau! Eu, que construí isso durante tantos anos, não vou fazer os cortes. Venha e faça você! Foi assim que o Maurizio veio. Ele veio para fazer. Mas a direção editorial não entrou nem com o Ophir nem com o Maurizio. A direção editorial estava separada e continuou comigo. Ou seja: se família tem dificuldade, eu não sei; eu teria tido. No caso, a família era eu e eu não queria cortar mil, duas mil pessoas. Não teria coragem, não ia conseguir. O que eu fiz? Continuei me preocupando com o conteúdo. Isso, sim, você pode separar, a linha editorial e a administração de custos.

J&Cia – As empresas familiares são uma espécie de instituição secular no jornalismo, no Brasil e no mundo. Basta olharmos para uma grande empresa jornalística e lá estará, historicamente vinculada a ela, uma família. Recentemente, aliás, consta que o senhor fez um tour por grandes empresas de mídia na Europa e nos Estados Unidos e constatou exatamente isso: todos os grupos que zelam pela sua linha editorial tem sempre um sobrenome por trás.

RC – Eu não diria que precisa ter. Diria que nunca vi, nada que eu respeito, que não tivesse.

J&Cia – Aí tem essa questão do conteúdo e da administração.

RC – Espere, há uma exceção... The Economist, lembrei agora. Eles montaram um esquema maravilhoso, que permite a independência editorial sem uma família controladora. Mas o esquema só pode ser montado na Inglaterra... (risos)


J&Cia – E o Le Monde?

RC – Lá quem manda são os jornalistas, mas a empresa não funciona, porque falta o outro lado. O problema é o equilíbrio entre as duas coisas. Você tem que saber equilibrar, e essa é a parte difícil. Para ser um grande editor precisa ser esquizofrênico (risos). É claro que estou exagerando um pouquinho, mas precisa. Você tem que tomar decisões, dividir o seu cérebro em duas partes, fazer um muro entre o lóbulo direito e o esquerdo. Quando vou para as reuniões de Veja, esqueço e tenho que esquecer as implicações comerciais. Se vai vender ou não, se vai ou não perder anunciantes, se vai ou não irritar o Governo. Esquece! Tem que fazer o que tem que ser feito. Quando volto para o meu andar – porque não faço essas reuniões na minha sala, faço na redação –, aí digo: Ih! Tomamos umas decisões que vão ser complicadas do outro lado (risos). Mas é preciso separar. E se não for esquizofrênico, não dá para fazer isso.

J&Cia – Conheci empresários que fazem isso: ambientes diferentes para decisões diferentes. Não se tomam determinadas decisões na sala da presidência, mas na área técnica, e vice-versa. E isso tem uma influência grande, digamos, na lucidez da decisão.

RC – Tem, mas não é lucidez. É vestir o chapéu... De um lado, você tem que pensar no leitor, no país, na sua obrigação...

J&Cia – Vamos ver se o senhor concorda com esta afirmação. O cerne do conflito está em que os veículos, em si, são negócios; portanto, são produtos da empresa. O jornalismo, em si, não pertence à empresa, pertence à sociedade, ao país. É um objeto abstrato. A notícia, quando circula, não o faz porque está no jornal, mas por um ambiente abstrato; ela produz efeitos que não são mensuráveis, tem causas que não são conhecidas. E o que produz a transformação não é o veículo em si, mas a notícia que ele põe para circular. Então, poderíamos dizer que o cerne do conflito é este: quando se trata da viabilização do negócio, está se tratando da empresa, mas quando se trata de zelar pelo jornalismo, está se tratando da sociedade.

RC – Eu não vejo esse conflito. O que eu concluí até aqui é que, a curto prazo, você às vezes até tem um conflito. Mas essa não é a essência do dia-a-dia, não é o problema central. Não é todo dia que se tem o conflito. Uma vez estabelecida a linha – aqui, estou falando da Abril –, o número de conflitos vai se reduzindo, porque todo mundo, lá fora, já entendeu: “Não adianta, eles são assim, então, não tem jeito”. Vou dar um exemplo concreto. Quando Veja tinha dez anos, ainda era uma criança – agora está fazendo 40 e acho que está na maturidade plena –, eu recebia telefonemas a semana inteira, ou visitas, de gente que queria alguma coisa na revista, ou queria evitar que saísse alguma coisa. Nas sextas-feiras, eu recebia pedidos para incluir algo, ou não incluir algo. E na segunda-feira eu recebia telefonemas dizendo: “Poxa, precisava ter publicado aquilo?” (risos) Não estou exagerando. Passei anos recebendo esses telefonemas. A minha resposta na segunda era sempre a mesma: “Não é verdade?” E o sujeito falava: “Sim, mas precisava publicar?” E eu: “Precisava”. E na sexta, quando pediam para incluir algo... Lembro que uma vez um banqueiro me ligou dizendo que ia inaugurar a agência nº 963 ou algo assim: “Acho que é uma nota interessante para a sua revista”. Eu perguntei: “Ah, você acha? Você tem lido muitas notícias ultimamente sobre inauguração de agências?” Ele fez um silêncio e depois respondeu: “Não!” E eu disse: “Pois é... Por que será que não?” (risos) O número 900 e não sei quanto, ou mesmo mil, dois mil, é importante para ele, não para o leitor. Uma vez que você comece a dizer isso ao longo dos anos – e não só eu, os diretores de Redação, outros dirigentes da empresa –, os telefonemas acabam, param. Ninguém mais liga para se queixar, para pedir coisas, porque sabe que não adianta... Então, voltando à sua pergunta sobre o conflito: ele existe se deixarmos que exista; se fizermos o contrário, dizendo “não, é assim, os princípios são claros, nós somos assim”... Pronto! O que acontece? Acontece que, em vez de um conflito, vamos ter um círculo virtuoso. Por quê? A reputação da publicação cresce, o respeito aumenta, os anunciantes percebem que ela é virtuosa e insistem em anunciar por causa da credibilidade. Posso contar dias de histórias nesse sentido. Descobrimos, ao longo do tempo, que quanto mais entramos nesse círculo virtuoso, mais as duas coisas se reforçam, não são antagônicas. Isto é importante; o resto, não. Isto é o que deveria se ensinar nas escolas de jornalismo. É preciso que a vida real chegue às escolas de jornalismo, porque eu acho que não chegam. Nós recebemos dezenas de jovens todos os anos aqui, das melhores escolas de jornalismo do Brasil – o maior contingente é da USP, sempre, porque é a melhor escola de jornalismo do País e por isso lá entram os melhores candidatos –, e descobrimos que é preciso ensinar tudo da vida real para eles, tudo. "Senta aí, meu filho, que vamos contar a história desde o começo". Podem saber muita coisa, mas não sabem nada que ajude a fazer a revista (risos).

J&Cia – Queríamos saber agora das novidades. Vem aí uma revista importante da Abril, a The Week brasileira, é isso?

RC – Não vou falar do que vai sair até que saia. Mas temos duas novas revistas para o segundo semestre e outros lançamentos. Isso faz parte do dia-a-dia da editora. Temos 45 títulos básicos e centenas de edições especiais, filhotes e subprodutos, e de vez em quando surge uma boa idéia ou uma nova oportunidade e resolvemos acrescentar mais uma. De vez em quando fechamos uma, também, quando ela não anda, não vende, quando ninguém anuncia. Mas faz parte da vida. Você tem que plantar, criar, experimentar. Não há pesquisa que possa garantir se uma nova fórmula vai pegar ou não. Pode fazer quantas quiser. E olha que fazemos pesquisas desde há muito tempo. Elas te dizem que "ah, sim, bacana, gosto muito, vou comprar", depois não compram. Ou "não, esse não é o meu tipo de negócio e coisa e tal", e depois funciona. Nós temos que fazer, ir tateando, mexendo, porque depois é que se descobre o que não funciona, o que não está dando certo. Nós fazemos pesquisa o tempo todo para saber, não se a pessoa comprou a revista, mas o que leu nela, onde parou de ler, o que pulou, o que não quer saber, o que fascina e quer saber mais. O grande teste é pôr na banca e ver se alguém compra, e ver se na semana seguinte... Porque você consegue vender qualquer coisa na primeira edição. Basta gastar dinheiro, anunciar na tevê, fazer barulho. Vender o nº 1 é fácil. Vender o nº 2 é mais complicado. Vender o nº 8 é pior ainda e essa é a hora do vamos ver. Então, só falo dessas novas revistas no ano que vem.

J&Cia – Mas uma delas vem daqui uns dois meses, é isso?

RC – Sim, vamos lançar no segundo semestre várias coisas novas, divertidas.

J&Cia – Um delas é feminina, não?

RC – Uma feminina, uma geral e uma surpresa.

J&Cia – E como estão os resultados da Sou+Eu?

RC – Menos do que esperávamos. Talvez mais do que merecemos (risos). É uma revista feita pelas leitoras. E nós achávamos que ia arrebentar. A turma que fez estava esperando 300, 400 mil exemplares por semana. Estamos vendendo algo como 100 mil. Não arrebentamos nada. Mas não vamos quebrar por causa disso. E valeu a experiência, porque estamos aprendendo muito sobre interatividade com leitores.

J&Cia – Que áreas editoriais e tecnológicas a Abril considera prioritárias para investir?

RC
– Internet.


J&Cia – E editorialmente, que nichos?

RC – Vamos dizer assim: não dá mais para estar na mídia sem internet. Não dá mais para falar de informação, comunicação e entretenimento sem falar de internet. Internet é a maior revolução na área de comunicação desde Gutenberg. Ponto. Ou você está lá ou morre.

J&Cia – O senhor já falou tempos atrás que, se tivesse que começar hoje, começaria pela internet, só não saberia como pagar o aluguel. Hoje já dá para pagar o aluguel? Como está o faturamento da mídia digital?

RC – You Tube não é um veículo tradicional e é um enorme sucesso. Second Life não é um veículo tradicional e é um enorme sucesso. São vários. Há coisas que foram inventadas só para a internet, que não têm nada a ver com veículos tradicionais, e estão indo muitíssimo bem. Difícil é, para os veículos existentes, da mídia tradicional, encontrarem o seu caminho na internet. Isso é mais difícil. Qual é a maior invenção na internet? Provavelmente o Messenger. Eu não tenho os números, mas provavelmente é o que mais se usa na internet, as pessoas se comunicando entre si. É o grande meio de comunicação entre as pessoas no mundo inteiro. Fantástico! Então, a interatividade é a essência da internet e ela muda tudo. Por quê? Nos bons tempos, havia 20, 30 jornais e 30 ou 50 revistas no País, cinco ou seis canais de televisão, centenas de rádios e acabou! Era isso. E quem decidia o que o público ia ver, ouvir, ler e saber eram poucas centenas de pessoas. Poucas, os chamados gatekeapers. E hoje, como é? Hoje, há milhões de pessoas determinando o que você vai ler, ver, ouvir. Milhões. E o controle disso passou de nós para o público. Esta é a revolução. Sendo que eles decidem o que querem ler, quando querem, de que jeito querem, no celular ou no laptop, ou imprimem, porque querem ler impresso... Ou – porque eu não gosto disso tudo, quero ler na minha revista, não quero me chatear buscando mil fontes, fico louco – pago para escolherem para mim. É isso que eles estão fazendo. Então, você tem que se adaptar. Tem que perguntar: o que os leitores de Claudia, Playboy, Quatro Rodas, Veja ou Exame querem saber, além daquilo que publicamos? E como eles querem interagir conosco? O que querem nos dizer? Em que querem opinar? Eles não querem só ler você, querem estar lá, participar. Isso muda o jogo. É um outro jogo. E graças a Deus há jovens que entendem esse jogo. Para eles é normal. Nasceram com isso. Chegam aqui e dizem: "Ah, isso não é problema!" Mas como para mim é, eu pergunto: "Como é que se faz, nessas circunstâncias?"

J&Cia – Fazendo uma associação entre essa visão do mundo novo com o antigo, esse fenômeno da internet – que é de difusão, de uma capacidade plena de difusão e de interação –, isso fortalece ou enfraquece a tradicional mídia impressa?

RC – A primeira coisa que acontece é ameaça. Tem gente que diz: "eu não preciso mais do jornal para ter notícias". Não é verdade? Mas é uma ameaça menor para as revistas, porque nós não estamos nesse negócio de dizer o que aconteceu. Quanta gente foi para a televisão terça-feira à noite, quantos foram para o rádio, quantos foram para a internet para saber o que estava acontecendo com aquele desastre terrível em Congonhas?


J&Cia – Um desafio e tanto para Veja...

RC – Veja tem uma dificílima tarefa, agora. Porque terça à noite, quarta, quinta, sexta-feira, tanto a televisão, quanto o rádio, os jornais e a internet saturaram a cobertura disso. O que Veja vai fazer? Temos de nos afastar disso tudo e tentar entender o desastre de um ângulo mais distante, com mais perspectiva, reflexão e análise. É a única coisa que se pode fazer com uma periodicidade semanal. Mas, voltando à internet, ela é para quê? É para notícia, o dia inteiro? Fantástico! Mas para entender, eu diria que complica. Você tem muitas alternativas.

J&Cia – Ela serve para entender, porque a gente pesquisa nela coisas que já foram publicadas sobre diversos assuntos...

RC – Exato. Mas tem gente que não quer... É preciso fixar na população. Há seis bilhões de seres humanos neste planeta. Eles não são todos iguais. Um bilhão e tanto já estão na internet. Mais do que isso assistem televisão. O número que lê é muito menor. E o número que lê jornal diário é menor ainda. Então, podemos dizer ok, vamos aceitar o mundo como ele é: as pessoas se informam, se entretêm, se comunicam, se divertem como quiserem. Maravilha! Sou a favor disso. Sou a favor da liberdade, da livre iniciativa, da democracia e acho que essas coisas são como são. O que nós podemos fazer? Nós precisamos nos adaptar. Quando falo nós, não é só a Abril, é toda a mídia tradicional que tem que se adaptar à nova tecnologia e ir tateando até descobrir o caminho.

J&Cia – Mas já está pagando a conta? O aluguel?

RC – Depende do que se inclua na conta. Se fizermos a conta incluindo as assinaturas que vendemos na internet, já estamos no azul. Se tirarmos essas assinaturas – porque vendemos muitas na internet, e que não venderíamos sem a internet, não a esse custo e com essa facilidade e velocidade –, aí estamos no vermelho. Então, depende de como se faz a conta. Aliás, na vida sempre depende de como se faz a conta (risos).


J&Cia – Nessa comparação mídia impressa e internet, temos aí sempre um desafio que é a circulação, as tiragens da mídia impressa. Como está a curva do meio revista no Brasil e quais as tendências para os próximos anos? A Abril tem 50% do mercado, é isso?

RC – Tenho uma boa e uma má notícia (risos). A má notícia é que o mercado está parado, estagnado. O total de exemplares vendidos no Brasil está parado em torno de 400 milhões por ano. Há anos. A boa notícia, pelo menos para mim, é que a nossa fatia está aumentando (risos). É isso. Nós estamos crescendo e o mercado, não. E deixem-me dizer por quê, pois esse é o meu assunto favorito: porque estamos fazendo revistas que eles querem ler. Só por isso (risos). Ninguém compra uma única revista neste País – e nós vendemos quase 200 milhões de revistas por ano – para me agradar. Ninguém está pensando "ah, eu vou fazer uma contribuição para pagar o aluguel do Roberto" (risos). Eles compram porque querem, porque gostam e confiam, porque precisam. Então, continue fazendo o que as pessoas precisam, querem, desejam, que vai ao encontro de suas necessidades, e elas continuarão comprando.

J&Cia – Veja, por exemplo, já está há um bom tempo no patamar de um milhão, um milhão e cem...

RC – Um milhão e cem.

J&Cia – O senhor acredita que ela bateu no teto?

RC – Nós poderíamos aumentar a circulação de Veja investindo dinheiro em vender assinaturas, em promover os exemplares da banca. Se você investe, gasta na promoção, vende mais. A pergunta é se interessa fazer isso, porque o custo de aumentar a circulação pode não valer a pena. Isso para qualquer veículo impresso, porque há um custo físico. Vamos pegar Veja, que é um bom exemplo. A produção física de Veja é extremamente cara. Rodamos em três gráficas diferentes no Brasil; daqui a pouco, vamos fazer em quatro. Muito de Veja tem que andar de avião para chegar no fim de semana no Brasil inteiro. Mobilizamos 165 caminhões todo final de semana, grandes caminhões. Temos um exército de gente que entrega a revista sábado e domingo, em casa. Isso custa caro. Se vendermos a assinatura a um preço inferior ao seu custo, quem tem que pagar a conta é o anunciante. Se, para aumentar a circulação de Veja em mais 100 mil exemplares, precisarmos aumentar a tabela, é necessário perguntar antes se os anunciantes vão achar que o aumento de preço vale a pena. Desculpem a aula de publishing, mas é preciso fazer a conta de quanto custa aumentar a circulação, versus o que você pode cobrar por isso do anunciante e do leitor. Vender mais é fácil: corte o preço que você vende mais. Promova, e você vende mais. Ponha mais vendedores na rua, e você vende mais assinaturas. Vale a pena? Esse é o outro lado do cérebro, que precisa fazer cálculos, não é?

J&Cia – Num movimento natural, que não exija um aporte de investimento, num cenário de recuperação econômica, de melhoria na educação, mais leitores entrando no mercado, o senhor acredita que ela cresça?

RC – Veja ainda tem muito mais leitores no papel do que visitantes no seu site. Temos revistas que têm muito mais visitantes no site do que leitores no papel. Então, acho que Veja pode crescer ainda, na medida em que o Brasil se desenvolva, especialmente no plano educacional, porque ela exige um nível educacional que as escolas brasileiras, infelizmente, não vêm produzindo.


J&Cia – Vamos falar um pouquinho de Veja. Implacável com os poderosos, é do seu DNA essa linha agressiva, sobretudo nos casos de denúncias, escândalos. Dois casos que chamam a atenção, para exemplificarmos: Duda Mendonça, que a revista chamou de publicitário bandido, e uma capa com o presidente da República tomando um pé no traseiro. Situações como as descritas contam com o seu aval? O senhor eventualmente as critica, mesmo de forma reservada, quando discorda do que foi publicado? Nesses dois casos, Veja agiu de forma correta?

RC – A postura de Veja é basicamente de que a lei deve ser cumprida e que o Brasil precisa acabar com a corrupção em todos os níveis. Estamos atrasando o desenvolvimento do País e sendo extremamente injustos com a população na medida em que permitimos que os governantes cuidem de seus interesses ao invés dos interesses da população, e na medida em que se desvia dinheiro de recursos públicos, que são escassos e preciosos, para favorecer seja quem for, e não ao interesse público. Essa é a postura básica da revista. Não podemos também esquecer que Veja é uma publicação nacional. Se eu tivesse um jornal, estaria diariamente chateando o governo municipal e eventualmente o estadual. Sendo uma revista nacional, temos de ficar, dentro do possível, nos assuntos que interessem ao País e não à comunidade de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, de onde for. Primeiro, temos essa limitação. Acho que cada veículo deve definir o seu raio de ação. Essa é a primeira questão. A segunda: faz 40 anos que nos preocupamos não só com denúncias, mas em apontar as coisas. Acho que essa é a função da imprensa, é servir como consciência, como cão de guarda, alarme, fiscal do país. Mas ela não faz só isso. Se fizesse só isso não teria um milhão de exemplares de circulação e cinco, oito milhões de leitores. Porque cansa, as pessoas não agüentam. Se você faz só escândalo, só denúncia, depois de três, cinco ou sete semanas, elas dizem “chega, quero ver outra coisa”. Isso aconteceu em 2005 no Brasil. O povo cansou da corrupção, não agüentava mais ouvir falar daquele escândalo do mensalão.

J&Cia – Teve alguma pesquisa?

RC – Nem precisa fazer pesquisa, as pessoas param de comprar (risos). E você vê nas urnas o que acontece, na audiência da tevê... o povo acaba se cansando. Então, tem que ficar entre as denúncias, que são fáceis... Nós não precisamos nem trabalhar, elas aparecem, não temos nenhuma preocupação se vamos ter escândalos para denunciar nos próximos cinco ou dez anos. Essa é uma das poucas preocupações que não temos. Mas a revista não pode só fazer isso, tem que divertir, entreter, informar, explicar coisas, falar de economia, de trabalho, diversão, criança, viagem...

J&Cia – Saúde...

RC – Também, claro. Se alguém tem um problema de saúde, está muito mais interessado nele do que na roubalheira do senador X. Então, nesse contexto, se você disser que fomos injustos com alguém ao longo de 40 anos, ah, inevitavelmente! Erramos muito? Não. Acertamos 99% das coisas que falamos. Erramos nos fatos? Não. Nunca denunciamos nada que não fosse assim. Erramos em interpretações? Algumas vezes, sim. Acontece, não somos infalíveis. Aliás, não conheci ninguém que fosse. Então, especificamente o caso A, B ou C, podemos discutir, mas existem mil outros. A colocação é: isso é relevante, as implicações são importantes para o País?

J&Cia – O senhor disse que a lei deve ser cumprida, pois sem lei não há democracia. A lei deve ser para todos.

RC – Sim, a lei deve estar acima dos governantes.

J&Cia – E acima da imprensa também.

RC – Sim.

J&Cia – Pois a lei diz o seguinte: gravações, mesmo autorizadas pela Justiça, não podem ser divulgadas se não servirem como prova em processo. A regulamentação de um preceito constitucional estabelece isso. No entanto, vulgarizou-se a transcrição de declarações de gravações, o que é uma transgressão à lei. Há aí um conflito jurídico, talvez, com a Lei de Imprensa, mas a lei estabelece isso. Inclusive, a gravação que não puder ser usada como prova tem que ser destruída. A imprensa está desrespeitando a lei, talvez para o bem da Nação, talvez para que a lei mude, não sei. Eu gostaria de saber, por exemplo, se as redações aceitariam ter gravadas e divulgadas as suas conversas, os seus acertos com as fontes etc. O que seria muito agradável para o público. A lei também diz que é um direito constitucional a inviolabilidade de uma porção de coisas, inclusive da honra etc. Quando se divulgam coisas sem ter a certeza de que são verdades, corre-se o grave risco de desrespeitar a lei. Por causa disso há uma grande quantidade de processos em cima das publicações. Depois da Constituição de 1988, quando, em vez de usar a Lei de Imprensa para processar os jornais, passou-se a usar a Lei de Responsabilidade Social, a quantidade de processos aumentou tremendamente, inclusive já com algumas sentenças pesadas. Isto levou as empresas jornalísticas a tomar cuidado com as imprudências, porque o jornalismo é por si um clima de impulsos para as imprudências. Hoje, o chamado Direito Preventivo entrou nas redações e eu gostaria de saber como isso se dá na Abril. Que cuidados a Abril tem para cumprir a lei e que cuidados tem para que as imprudências jornalísticas não terminem em processo?

RC – Ótima pergunta. Deixe-me começar pelo fim. Boa notícia, ganhamos muito mais processos do que perdemos, 90% nessas áreas. Agora, do outro lado, quais são os cuidados. Fazemos duas coisas. Primeiro: estamos fazendo curso interno para os diretores de redação e redatores-chefes sobre o que eles têm que saber da Lei de Imprensa e das leis que a cercam. Isso é treinamento obrigatório. O Jurídico organizou o curso, estamos fazendo para todo mundo e não é voluntário; tem que ir. Segundo: todas as redações têm acesso a advogados aqui dentro, que opinam sobre o que se pode ou não dizer. Isso o tempo todo.  Mas em Veja, por exemplo, temos uma advogada lá, do Jurídico, que está à disposição da redação e lê as coisas que eles escrevem. Aí sugere mudar tal palavra, tirar outra, para evitar processos. E para cumprir a lei, claro, não só para evitar processos. Por exemplo: isso você não pode dizer porque não tem prova; diga “parece que” ou “tudo indica que” ou “as aparências sugerem”, mas não diga “fulano fez isso à noite...”. Essas são as duas coisas básicas que fazemos. Que mais fazemos... (pensando) Deveríamos fazer um debate, você tem razão. Isso eu não havia pensado, mas deveríamos fazer um debate aqui dentro sobre o uso de gravações, porque nunca fizemos. Tenho que pensar nisso, vou promover.

J&Cia
– Essa foi uma conquista importante da democracia, o direito à privacidade. Está se vulgarizando esse princípio. Pode ser que seja bom...

RC – Você tem toda a razão, mas a gente tenta não utilizar gravações assim, à toa. Porque o sujeito com a namorada...

J&Cia – Porque por trás dessas gravações há sempre um interesse. Elas não chegam de graça às redações. Então é uma coisa que, a mim, como cidadão, preocupa. Outra coisa que me preocupa como leitor da Veja é a mistura, na minha opinião pouco inteligente e perigosa, que Veja faz de argumentação com narração. É comum a gente começar a ler uma reportagem com um adjetivo chamando o sujeito de ladrão, e xingando. Às vezes a gente não sabe se está lendo um editorial ou uma reportagem. Isto rouba eficácia ao texto, rouba eficácia à credibilidade da revista. Essa mistura de argumentação com narração é inevitável, mas me parece que no caso de Veja o que se sobrepõe a uma reportagem é a perspectiva argumentativa e não a narrativa. É um grande perigo para a revista. A mim, como leitor, é uma coisa que desagrada profundamente, porque o ajuizamento do repórter se coloca acima dos fatos. Sou assinante de Veja há 20 e poucos anos e não sei se isso preocupa o senhor ou não. A mim incomoda como assinante.

RC – O senhor é muito crítico, experiente, bem informado e inteligente. E tem uma visão muito objetiva disso, vista de fora. Primeiro: a objetividade no ser humano é virtualmente impossível de alcançar, inclusive no jornalista. A gente deveria se esforçar para ser objetivo, acho que tem a obrigação de ser. Eu fico incomodado quando leio, não só em Veja como em qualquer lugar, em outras revistas e jornais, uma coisa que começa parecendo uma reportagem e acaba parecendo um editorial. Aí eu digo “Não pode fazer isso. Não deveria”. Eu concordo plenamente.


J&Cia
– A questão não é moral, é técnica. É de comunicação.

RC
– Mas não deveria. Não pode começar contando uma história e terminar xingando a mãe de seja lá quem for. Por definição, não deve. Mas, por outro lado, os leitores clamam, não são como o senhor, querem que a sua revista se indigne. Eles querem. Os brasileiros, hoje, não posso falar de outras partes do planeta, mas os leitores de Veja querem a indignação de Veja. Eles ficam irritados conosco quando não nos indignamos. Estou tentando explicar, não justificar. Acho que Veja se encontra toda semana na difícil posição, de um lado, de saber que reportagem é reportagem e opinião é opinião, sendo que não tem editoriais além daquele da frente; e, de outro, sabendo que os leitores... É só ler as cartas, duas mil por semana, nós publicamos uma enorme quantidade de cartas justamente para que se possa sentir o cheiro do enxofre e da pólvora. E acho que quem está escrevendo ou editando se encontra em posição difícil de decidir o quanto deve deixar entrar a emoção e a indignação e o quanto não. É difícil. Eu reconheço que esta talvez seja a nossa maior questão, não a das gravações. Veja tem uma posição clara, ninguém duvida de como ela se situa. Tem gente que não a suporta e não a tolera, não quer ver nem pintada. A esquerda acha que somos de direita, a direita acha que somos de esquerda, os liberais acham que somos contra, e deve ter as mães carolas que acham que somos anti-religião. Deve haver de tudo, entre os que não querem saber da revista. Mas a torcida é de cinco, seis, sete, oito milhões de pessoas por semana. Eles gostam, e a gente faz para eles (risos). Mas reconheço a sua posição...

J&Cia
– Acho que há outras maneiras de se fazer a mesma coisa, é um problema técnico, de linguagem, de que o jornalismo não se divide em opinião e informação, mas em argumentação e narração. Elas estão sempre inevitavelmente misturadas, mas quando se está lidando com narração a informação é que tem que ser colocada em evidência e não a opinião.

RC
– Vou convidar o senhor (N. da R.: Carlos Chaparro) para um debate com os editores de Veja sobre isso. Vamos promover esse debate e eu quero ouvir. Mas vou ficar quieto (risos).

J&Cia
– Colocando uma pimentinha, vamos falar sobre Diogo Mainardi. Como diria o Collor, a presença dele na revista é nitroglicerina pura. Ele é pautado ou escreve da cabeça dele?

RC
– Totalmente não pautado.

J&Cia – Tem algum problema para a imagem da revista? Ele é o mais lido?

RC – Sim, é o mais lido. Não é o mais ponderado (risos). Mas acho que o Diogo acrescenta a Veja o extremo da indignação. E ele é lido por isso. A gente precisa ter colunistas como o Diogo. Nós temos o príncipe dos colunistas brasileiros, na minha avaliação, que é o Roberto Pompeu de Toledo, ponderado, elegante, inteligentíssimo, e é sempre um grande prazer ler os quase “ensaios” que escreve. A mesma revista tem Lia Luft, Cláudio Moura Castro, Stephen Kanitz, e tem o Diogo Mainardi, que eu acho ótimo. Como você disse, pimentinha, é isso mesmo! Eu penso numa revista como um grande buffet, como daquelas churrascarias que têm mesas com dez metros de saladas, queijos, verduras, alcachofras... Eu penso numa revista assim, você tem que colocar um pouco de tudo. Ninguém come aquilo tudo, vocês nunca estiveram num balcão desses e pegaram tudo o que tem. Pegam meia dúzia de coisas e voltam contentes para a mesa. Tem gente que gosta de pimenta. Então, nós lhes damos o Diogo.

J&Cia – Mas é tudo da cabeça dele?

RC – Da cabeça dele, e sai da frente (risos).


J&Cia
– O senhor não tem aquela conversinha com ele de vez em quando?

RC – Eu falei com o Diogo uma vez na minha vida, e foi só para conhecer. Não me meto. É o canhão solto no convés de Veja (risos).

J&Cia – Em mares nada calmos... (risos)

RC – A vida não pode ser toda regrada, não se pode fazer tudo certinho. Professor, não sei se o senhor concorda, mas de vez em quando temos que ter uns arroubos, e o senhor Mainardi é o nosso arroubo semanal.

J&Cia – Mudando de assunto, Realidade fez escola mas nunca mais o Brasil conseguiu produzir uma revista com as características dela. Há algumas tentativas, como a Caros Amigos, com uma década de vida, a Piauí, com a parceria da Abril, e, agora, a Brasileiros, uma iniciativa do ex-diretor de Redação de IstoÉ, Hélio Campos Mello. Mas nenhuma grande editora, sobretudo a líder, se interessa mais por esse nicho. Há alguma razão? Do ponto de vista econômico, ela não se sustenta mais? Mudaram a linguagem, os tempos?

RC
– Fico muito satisfeito com essa pergunta e fico mais ainda por encontrar, 40 anos depois, gente que vem me dizer: “Você tem que fazer Realidade de novo”. Para mim, é uma grande alegria. Morro de saudades de Realidade. Eu adorei, foi um dos melhores momentos da minha vida e possivelmente da vida de todos os que estavam na redação naquela época. Mas não dá mais para fazer. Não pelo assunto, mas pela velocidade das coisas. A grande mensal não existe mais no mundo. Não tem! A velocidade do mundo faz com que as semanais estejam com dificuldades. Isso de chegar e abalar as coisas com grandes reportagens acabou. Primeiro, as pessoas não têm mais tempo de ler as grandes reportagens, e nem vontade. Nós medimos onde elas param de ler e ficamos aflitos com isso. Às vezes pensamos: “O melhor do texto está lá no último terço”, só que elas não lêem o último terço. Elas largam. Alguém disse uma vez que a coisa mais fácil de um leitor fazer na vida é parar de ler. Então, qual é o desafio para todos nós? É, primeiro, fazer com que ele comece a ler cada matéria, não importa em que meio; segundo, que continue lendo. E que não nos largue, porque se ele disser “isso não quero ler, aquilo não quero ler, isso é chato”, não vai comprar a revista por muito tempo e nós não vamos ter revista. Então, Realidade, hoje, venderia no Brasil, com muito esforço, 100 mil exemplares. E a um custo alto. Teria pouca publicidade e uma vida muito difícil, além de um esforço muito grande. Então, não fazemos. Eu adoraria. Sacudia o Brasil, fazia a terra tremer, fez a cabeça de uma geração.

J&Cia
– Uma revista com um milhão de assinantes, a maioria são assinantes, será que ela não está equivocada quando se propõe a atingir um leitor que se cansa de ler? E os que fazem questão de ler?

RC
– Mas nós publicamos matérias longas sempre que achamos que o assunto é importante. Por exemplo, esta semana (N.R - edição de 21 de julho) Veja vai dar 30 páginas ao desastre. Agora, quem vai ler 30 páginas eu não sei, mas nós vamos dar.

J&Cia – De 1 a 10, que nota o senhor daria para o jornalismo brasileiro hoje?

RC – Está brilhante, melhor do que jamais vi.

J&Cia – Quase 10?

RC – Não. Calma, eu não disse isso (risos). Mas eu nunca vi melhor. Estou orgulhoso do jornalismo brasileiro. Tem mais gente fazendo coisas bem feitas do que jamais teve.

J&Cia – Em todas as mídias?

RC – Outra noite vi o Jornal da Globo quatro horas depois do acidente e fizeram uma cobertura estupenda. Coisa de gente grande em qualquer lugar do mundo. Os jornais do dia seguinte deram um show de competência, foram maravilhosos. Eu fico muito orgulhoso. Não vou lhe dizer que fico orgulhoso de tudo, há coisas que acho desprezíveis, mas não vou falar delas agora. Mas você me perguntou como anda, e anda muito bem. A nova geração está melhor do que se podia esperar, considerando a educação que eles tiveram.


J&Cia
– O senhor afirmou no ano passado, em entrevista ao Knowledge@Wharton, informativo mantido pela Universidade de Wharton, dos EUA, onde o senhor se formou, "que o atual governo de Lula, e o governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, embora tenham ambos pressionado a imprensa, interrompido vez por outra a publicidade oficial, além de reclamar muito etc., nunca censuraram coisa alguma”. Afirmou também que “eles têm sido notavelmente, e quase que de forma inimaginável, pacientes, tolerantes e ‘atentos à lei’ no que diz respeito à Constituição, a despeito de tudo o que a mídia fez para chamar a atenção para as atividades corruptas e desonestas do Governo”. E considerou isso um avanço extraordinário em relação ao que viu e vivenciou nos tempos da ditadura militar. O País de fato amadureceu nas suas relações institucionais?

RC – Eu confirmo exatamente isso. Apesar de atritos, irritações, xingamentos, não tem tido cerceamento da liberdade de imprensa. Agora, tem punição? Tem. Tem sanções? Tem. Você paga pelas suas críticas? Paga. Perde anúncio, primeiro. Depois, se quer um favor, é melhor não pedir. A melhor coisa que um editor pode fazer na vida é não precisar de favor e nunca pedir. Não depender do Governo. O único jeito de ser independente do Governo é não depender dele.

J&Cia – Uma vez, conversando com um executivo da Abril, ele me disse que em mais de duas décadas nunca viu o senhor derrubar uma matéria que estivesse bem apurada e fundamentada, mesmo que ela contrariasse diretamente os interesses comerciais.

RC – Aliás, eu sempre pergunto primeiro: “Vocês têm certeza? Tem como provar isso?” (risos).  Se tivermos certeza e é grave, vamos publicar. Isso é o que eu chamo a separação de Igreja e Estado. Tem que fazer.

J&Cia – Ele disse que você paga um preço por isso. Só não disse qual é esse preço.

RC – Pago. O preço é ganhar menos. Aí é uma escolha de vida. E acho que ganho menos a curto prazo, a longo prazo a empresa vale mais.

J&Cia – Tanto que são quase 60 anos...

RC – Nunca fiz nada na vida somente para ganhar dinheiro. Faço porque acho divertido, porque quero ou porque acho necessário. Mas isso é um problema para os acionistas, porque isso é a minha visão, acho que se os meus filhos e a Naspers lerem essa entrevista eles vão ficar aflitos. Então, deixa eu colocar aquela frase: evidentemente que nós precisamos ter equilíbrio entre resultado e conteúdo. Isso é mais correto, se não, vão me chatear. (risos)


J&Cia
– O que o senhor acha do governo Lula? Votou nele?

RC – Imagina! (risos) Tá maluco? (risos) Não, mas acho que tivemos muita sorte. Eu e muita gente estávamos muito preocupados com o que viria com o Lula. E o que descobrimos é que o Lula é um homem de bom senso, equilibrado, moderado, não é ideólogo, é pragmático. O Brasil ganhou na loteria ao eleger Lula, porque era loteria. Poderia ter sido um desastre, poderíamos ter tido um Chávez. E tivemos um Lula, que, na minha opinião, a única coisa que não está fazendo e deveria fazer – e não entendo por que não faz – é promover as reformas. Porque ele tem maioria no Congresso, tem 70% de popularidade, sabe o que está errado e precisa ser consertado, sabe que isso contribuiria para acelerar o desenvolvimento do País. Nós estamos crescendo 4,5% esse ano, mas poderíamos estar crescendo 7 ou 8%, facilmente, só removendo barreiras. E o Governo não faz, não entendo por quê. Aliás, se o presidente um dia me receber será o meu único assunto com ele. Eu queria que ele me explicasse.

J&Cia
– Em que áreas?

RC – Vamos pegar um caso específico. Temos impostos demais no Brasil. Temos 60, 70, 80 tributos e impostos no Brasil. É uma loucura o sistema fiscal brasileiro. Deveria ser simplificado. Qualquer idiota sabe disso! Não precisa ser gênio financeiro ou fiscal para isso. Mas não se simplifica. Por quê? Porque cada coisa em que se quer mexer afeta alguém que está interessado em manter aquilo, mas não é o povo, é um grupo de interesse. Veja a legislação trabalhista: 50% dos brasileiros, mais ou menos a metade, não têm carteira assinada. Por quê? Porque a legislação trabalhista torna tão caro ter um empregado com carteira assinada que metade dos empregos do Brasil não tem carteira assinada. É um absurdo! Inimaginável, intolerável, inadmissível! O que fazemos? Nada, deixa assim. Por quê? É interesse de quem? Certamente não é da maioria. Por que não usar a força e a popularidade, a maioria no Congresso, para fazer as coisas? Grandes líderes não se fazem somente por serem populares, mas também por fazerem o que precisa ser feito.


J&Cia
– O Brasil assistiu nas últimas décadas à explosão das igrejas evangélicas. Elas entraram com muito vigor na mídia e na política, duas áreas estratégicas. Temos aí o exemplo da Igreja Universal, que vai crescendo dia a dia e já começa, com a Record, a ameaçar a Rede Globo. Como o senhor analisa isso?

RC – Sou a favor da multiplicidade dos meios. Quanto mais, melhor. Se tiver das igrejas, dos partidos, das universidades, dos sindicatos, de todo mundo que quiser fazer, tant meilleur, como dizem os franceses. Tanto melhor. Acho que a democracia se fortalece com a multiplicidade dos meios. Portanto, a internet é uma benção nesse sentido, porque permite que todos se manifestem. Agora, quando você chega na televisão aberta... Estamos com a MTV, que não é relevante para fazer a cabeça do Brasil. Mas quando você chega a um número limitado de freqüências, aí complica-se o jogo, e eu não tenho uma solução, não sei o que fazer. São quantas freqüências de rede? Seis ou sete, não sei bem. Então, como é que o País distribui essas freqüências? Qual é o critério para distribuir? Confesso que não tenho uma resposta. Sei que é uma preocupação, ou deveria ser, da sociedade discutir isso. Acho que, felizmente, mais uma vez, as novas tecnologias vão permitir uma multiplicidade ainda maior, seja com a televisão por assinatura, que hoje já tem 150 canais, seja agora com a tevê digital, que vai multiplicar o número de canais, aumentar a oferta e equilibrar o jogo. Ou seja, as pessoas vão mais uma vez se distribuir de acordo com o que elas querem ver. No fim das contas, penso que precisamos confiar no bom senso do público. A igreja X tem rádios e televisões? Tudo bem. Ela tem vantagens fiscais? Bem, isso é uma outra questão, que alguém tem que ver. Se há abusos, é preciso mudar a lei. Mas isso é outra questão, não tem nada a ver com os veículos em si. Se as pessoas gostam daquilo e curtem, que assistam. Às vezes eu digo que é uma pena as pessoas não estarem assistindo Hamlet na televisão. Mas elas não estão e não querem assistir Hamlet na televisão! (risos) Eles querem ver novela. O que se pode fazer? O mundo é assim...

J&Cia – Uma outra questão que passa por aí é a dívida que todos nós temos com a juventude brasileira. A Abril tem feito investimentos na Fundação Victor Civita, fundada e idealizada por seu pai e continuada pelo senhor. O senhor acredita num avanço a médio prazo nesse campo?

RC – Se o Governo não fizer, não vai ser feito. Todas as fundações, institutos e toda a sociedade civil reunidos não vão consertar a educação pública brasileira se o Governo não estabelecer as diretrizes corretas. Depois de séculos fazendo mal feito, começou com o governo Fernando Henrique um movimento muito salutar de colocar as crianças na escola. Colocaram 97 ou 98% das crianças na escola. Mas qual foi o preço disso? O que aconteceu nessas últimas décadas? À medida que o número subiu, a qualidade desceu. Porque é muito mais fácil construir escolas, colocar criança dentro e dar merenda do que ensinar direito, preparar professores. Só no Ensino Fundamental do Brasil são 1,7 milhão de professores. Aliás, a Fundação Victor Civita só se preocupa há 20 e tantos anos com esses professores, mais nada. Não se preocupa com nada além de tentar municiar esses professores, ajudá-los a ensinar melhor. Mas a educação foi piorando de qualidade nos últimos 10 ou 20 anos, e eu reclamei que nós não estamos conseguindo ser eficazes. A Claudia Costin, que dirigiu a Fundação até a semana passada, respondeu que estaria pior ainda se nós não estivéssemos aqui. Mas deixa isso de lado. O ministro Fernando Haddad, com uma pequena equipe – eu digo com conhecimento de causa –, conseguiu implementar uma nova diretriz para o ensino fundamental que, na minha opinião, conserta e melhora dramaticamente o ensino fundamental nos próximos... Bom, vamos levar uma geração. Se tudo for bem, vamos levar 20 anos, mas em 20 anos, se continuarem por esse caminho, a gente estará ensinando às crianças o que elas precisam saber. Não é uma coisa que se faz de um ano para o outro. Infelizmente, sacrificamos gerações, e o próprio País, com isso. Porque, sabe o que falta no Brasil, hoje? Não é emprego e sim gente que se possa empregar com o nível de competência para os empregos que estão surgindo. Mão-de-obra barata e desqualificada há, mas qualificada... Não temos ensino técnico. Todo mundo quer ir para a universidade, e precisamos dos técnicos do meio. Enfim, o Governo tem sido cego – não este governo, os governos, ao longo de séculos. Agora, graças aos dois últimos governos, à sociedade, e à mídia também, as pessoas estão começando a se conscientizar sobre duas coisas novas: educação e meio ambiente. Nós não fazemos só escândalo (risos). A Abril inteira faz isso. Este ano publicamos, em três meses, 240 páginas editoriais, em todas as revistas da casa, só sobre o meio ambiente. E no ano que vem vamos fazer a mesma coisa. Todas as revistas vão se dedicar a conscientizar os pais sobre o que eles têm de fazer com referência à educação dos seus filhos. Mas não é só a Abril, está todo mundo falando sobre educação e meio ambiente, e a população está cada vez mais conscientizada. Eu acho que isso, sim, é um papel importante dos meios de comunicação.

J&Cia – A cultura da violência não atrapalha esse esforço pela qualidade da educação? Porque eu tenho vários amigos professores de Ensino Fundamental aqui em São Paulo, onde não existe esse problema da formação deficiente dos professores. Hoje, os professores são pagos e todos têm curso superior, pelo menos em São Paulo. Foi o que os professores me disseram. Mas eles vivem apavorados, pois são agredidos. A cultura da violência invadiu as escolas.

RC – Aí não adianta falar só sobre qualidade de professor; você tem que parar e dizer "vamos fazer o quê?" É preciso combater a violência. Temos que chegar às casas. Aí a imprensa não resolve. Você tem razão, nós temos que falar mais disso, a gente fala de educação e esquece disso.

J&Cia – Há boas escolas, bons modelos de educação, mesmo na periferia, muitos dos quais poderiam ser promovidos para funcionarem com paradigmas do que é possível, estimular os professores a acreditarem que é possível. Se umas funcionam tão bem assim e outras não, por que será, se os ambientes são os mesmos?

RC – Eu vou atrás disso.

J&Cia – Você é mais jornalista ou mais empresário?

RC – Eu nunca tive que responder a essa pergunta (risos), mas diria que não sou nem um, nem outro; sou editor. Acho que consegui um equilíbrio. Meu maior orgulho, além de ter almoçado dez mil vezes com todo mundo que você possa imaginar, é de ter conseguido manter esse equilíbrio por tanto tempo nessa empresa.

J&Cia – Vamos a um rápido pingue-pongue. Você disse, tempos atrás, que um dos seus sonhos era se aposentar e passar uma temporada na Inglaterra fazendo um curso sobre poesia de Shakespeare.

RC – Meu sonho nunca foi me aposentar. Eu queria, sim, ter tempo para fazer isso (risos). Eu pretendo morrer aqui, queiram ou não queiram. Eu achei que se passasse um tempo em Nova York sem fazer nada eu adoraria, que se alugasse uma vila na Toscana e passasse uma temporada lá com vinho e uva, eu adoraria. Mas o que aconteceu? Eu odiei (risos). Em duas semanas estava desesperado e fui embora. Aluguei apartamento, uma vila, fiz tudo bonitinho, só que depois de duas semanas o que eu tinha para fazer? Queria voltar. Eu gosto é de fazer revista!

J&Cia – Mas pelo menos experimentou.

RC – Sim, e o curso em Cambridge que quero fazer leva duas ou três semanas. E quero fazer, mas não mais do que isso.


J&Cia
– Você participou de uma sucessão na Abril, ao lado de seu irmão Richard, com o seu pai, Victor, e agora está na mesma situação em que seu pai estava. A sua sucessão na Abril está encaminhada?

RC – O Giancarlo já é o presidente executivo do Grupo. A minha sucessão agora tem que ser do lado editorial, disso eu preciso cuidar, mas do lado de negócios a empresa está melhor cuidada pelo meu filho do que jamais foi por mim.

J&Cia – Finalizando. Um líder.

RC – Churchill.

J&Cia – Um autor.

RC – Shakespeare, de longe.

J&Cia – Uma cidade.

RC – Para viver, Londres, e para trabalhar, São Paulo.

J&Cia – Música e autor.

RC – Mozart.

J&Cia – Intérprete?

RC – Olivier. (N. da R.: Lawrence)

J&Cia – Um grande jornalista.

RC – Jornalistas que me ocorrem são aqueles que transformaram reportagens em livros. Mas uma jornalista que eu leio todo dia é Dora Kramer. Acho fantástica. E os editoriais do Estado, acho os melhores da imprensa brasileira.

J&Cia – Uma reportagem?

RC – Nenhuma. Livros me marcam, reportagens não.

J&Cia – Paixão.

RC – Fazer revista.

J&Cia – Um sonho?

RC – Ver o Brasil realmente melhor governado, com melhor distribuição de renda, as pessoas vivendo melhor. Porque a qualidade de vida aqui está deteriorada. Não é possível, temos que consertar isso.



 
 


 
Publicidade


Copyright© 2004 - Jornalistas & Cia | Todos os Direitos Reservados -
All Rights Reserved