Jornalistas & Cia - Imprensa Automotiva
 
 
 
 
 
 
 
 
 
São Paulo,

 


Em 1979, no auge do ressurgimento do movimento sindical brasileiro, Lula à frente, os jornalistas de São Paulo decidiram entrar em greve, desafiando a intransigência patronal nas negociações então estabelecidas e que tinham por motivação, além do momento político efervescente, um reajuste salarial fora de tempo. Foi uma greve histórica, que mobilizou centenas de profissionais sobretudo na capital paulista, porém desastrosa para a categoria, que viu, como nunca, a sanha patronal se debruçar sobre as equipes, num processo quase coletivo de demissões, que ceifou algumas centenas de cabeças redações afora. Foi um movimento que acabou mudando a vida de muita gente. Uma dessas pessoas era um ex-repórter esportivo, conhecido do público que acompanhava o futebol, e que galgara, na Globo, uma função de chefia, um cargo de confiança. Seu nome: José Hawilla, ou J. Hawilla, como sempre foi conhecido desde os tempos em que pisava os gramados, microfone à frente, entrevistando jogadores, treinadores e dirigentes esportivos. Despedido por ter participado da greve e sem conseguir emprego em outras emissoras (acabaria sendo recontratado pela própria Globo, três meses depois, mas aí já tinha decidido tomar outro rumo na vida), ele optou por seguir seu próprio caminho, ter seu próprio negócio. Foi quando tomou conhecimento da Traffic (pronuncia-se tráfic, como proparoxítona), modesta empresa que comercializava publicidade em pontos de ônibus e que foi o embrião daquela que viria a se transformar na maior empresa de marketing esportivo do País, com ramificações também no Exterior.
A greve fez o jornalismo esportivo perder um bom quadro, mas ensejou ao negócio esporte ganhar um empreendedor que transformaria em ouro quase tudo que tocasse, como fez com as placas nos campos de futebol, com os patrocínios para a Seleção Brasileira de Futebol, com campeonatos falidos e desacreditados como a Copa Sul-Americana, para ficar nos exemplos mais significativos e conhecidos.
Foi tão bem e ganhou tanto dinheiro que acumulou reservas para adquirir, com recursos próprios, sem um centavo de empréstimo, quatro afiliadas Globo no Interior de São Paulo, nas praças de São José do Rio Preto (sua cidade natal), Bauru, Sorocaba e Itapetininga, negócio cujo valor ele não revela, mas que o mercado estimou, à época em que foi realizado (2002), em R$ 120 milhões. Não satisfeito, decidiu ousar e criou, nesse mesmo circuito interiorano, a rede Bom Dia de jornais, a primeira do País com essa configuração, hoje circulando diariamente em três daquelas cidades (Rio Preto, Bauru e Sorocaba) e também em Jundiaí. Aos domingos, a rede se amplia e circula com edições também para as cidades de Itapetininga e Salto/Itu, além de um bem fornido caderno de Empregos.
Suas empresas empregam hoje cerca de 1.000 pessoas, mais de duas centenas delas jornalistas, que se distribuem pelas várias redações onde os veículos estão presentes. Seus negócios incluem a propriedade de times de futebol no Brasil e nos Estados Unidos e a administração de um fundo que captou R$ 40 milhões e foi criado para comprar e vender jogadores, em parceria com times como o Palmeiras.
Um dos times que ele administra é o Miami Futebol Clube, franquia de um time profissional na Flórida, nos EUA, que disputa atualmente o campeonato da liga dos Estados Unidos com esse nome. O outro é o Desportivo Brasil, que nasceu de um projeto social em Barueri e hoje, com 94 meninos, participa de competições sub-15, sub-17 e sub-20.
Cuidar de tantos e tão diferenciados interesses é para esse rio-pretense de nascimento tão importante quanto estar ao lado da família, dividindo os bons e maus momentos. Apaixonado por golfe e torcedor declarado do América de Rio Preto e do Palmeiras, Hawilla é casado há 31 anos com Eliani e tem com ela três filhos, uma menina, Renata, e dois rapazes, Stefano e Rafael, que, já homens, atuam ao seu lado nos vários negócios do grupo.

No moderno prédio que serve de sede para o grupo e que está estrategicamente localizado a pouco mais de 300 metros do Parque Ibirapuera, Hawilla recebeu na tarde do último dia 16 de janeiro (uma quarta-feira) os editores Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli e o assistente Luiz Anversa, para uma conversa de mais de duas horas, que teve como convidado especial outro protagonista da imprensa brasileira, Audálio Dantas, atual presidente da Representação São Paulo da ABI e dono de uma das mais ricas biografias da história do jornalismo. Na sala envidraçada de onde comanda seus negócios multinacionais, decorada com elegante simplicidade por elementos de seus dois esportes prediletos – quadros com fotos de seleções históricas de futebol e a bola da final da Copa de 1962, no Chile, autografada por todos os jogadores brasileiros, convivem harmoniosamente com uma estatueta do golfista australiano Jack Nicklaus e um minicampo de golfe –, Hawilla respondeu a todas as perguntas com afabilidade e bom humor, sem rodeios, escusando-se apenas de revelar valores de seus negócios. Falou deles, de jornalismo, de esporte, de família, mostrando que, além de bom e talentoso para ganhar dinheiro, não tem medo de desafios.
Falou, por exemplo, que a TV TEM já representa metade do Grupo Traffic e que a rede de jornais Bom Dia ainda opera no vermelho – como, aliás, já previa, pois é um negócio de maturação mais longa. Por conta disso, está investindo para, em dois anos, aumentar para 70 mil exemplares a circulação total dos jornais, nos dias de semana, atualmente em 25 mil, e para 90 mil aos domingos, contra os atuais 35 mil. Enfrentar esse desafio está, do lado operacional, a cargo de Flávio Pestana, executivo que contratou no final do ano exatamente com essa missão (executou funções semelhantes na Folha, Valor Econômico e Gazeta Mercantil), e, editorialmente, com Márcio ABC, tarefa que acumula com o comando do Bom Dia Bauru, onde está desde a criação do jornal. Matinas Suzuki Jr., que com Hawilla idealizou e montou a rede em 2005 e que desde então esteve à frente da operação dos jornais, deixou o dia-a-dia das redações e assumiu o Conselho Editorial. A meta de Hawilla é, sem dúvida, ambiciosa, mas ele diz não ter medo, acredita fortemente no futuro da rede (“ela não sofre com a chegada da internet, porque esta não tem características regionais”) e prevê começar sua expansão tão logo atinja o ponto de equilíbrio. E revelou qual a primeira cidade por onde pode dar início a essa ampliação: Marília.
O único momento da entrevista em que demonstrou algum pesar foi quando lembrou do período em que teve seus negócios investigados por conta da chamada CPI do Futebol, entre 2000 e 2001, pelo fato de ter sido mediador de um acordo milionário entre a CBF e a Nike. Teve a vida devassada, a Receita Federal ficou 13 meses na Traffic. Seu desabafo: “Tinha até sala e secretária. Foi horrível. Mas me senti glorificado, porque não acharam nem multa de trânsito. Em qualquer lugar do mundo, alguém que conseguisse fazer a seleção de seu país, que sempre dependeu de verbas do governo, arrecadar num único contrato U$ 160 milhões, como foi aquele com a Nike, então o maior contrato assinado por uma seleção de futebol em todo o mundo, seria tratado como herói. Eu, ao contrário, fui parar na CPI do Futebol”.
Hawilla só adotou um tom de voz mais veemente ao discorrer sobre o amadorismo dos dirigentes e da imprensa esportiva brasileiros – que ele considera responsáveis pelo pouco desenvolvimento do nosso futebol como negócio – e ao falar sobre política e políticos, dos quais garante querer distância. Da família, ao contrário, falou com carinho, afirmando que busca estar com ela o máximo que lhe permite a atribulada agenda. E riu muito ao confessar sua incompetência para viajar como turista: “Sou muito ansioso. Preciso ter alguma coisa para fazer, uma reunião, um negócio. Imagina, eu, quinze dias na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia... Fico louco!”

A seguir, a íntegra da entrevista.

 

Protagonistas ­– 2007 foi um dos melhores anos da história recente do País, no plano econômico. Foi também um ano de ouro para o Grupo Traffic? Gostaríamos que você fizesse um balanço do ano e as projeções para 2008.

Hawilla – Não diria que foi um ano de ouro. Foi um ano muito bom. Nós temos um grupo de empresas interligado, focado em marketing esportivo, em comunicação, que também é integrado por uma rede de televisão, outra de jornal e uma unidade de produção, a TV 7, que produz conteúdo para a televisão e cujo prédio está aqui ao nosso lado. Nela (TV 7), para se ter uma idéia, são geradas cerca de 350 partidas de futebol por ano para emissoras de todo o mundo. Recebe por satélite, edita, põe os caracteres – escalação, trio de arbitragem, quem saiu, quem entrou, etc. – e manda para as emissoras para as quais vendemos esses jogos. Nada a ver com a produção da TV TEM, outra operação nossa, que é totalmente independente, com emissoras afiliadas da Globo que também têm produção local. Nesta produzimos cerca de 9 horas semanais de programas, principalmente os jornalísticos, que ocupam cerca de uma hora por dia, de 2ª a 6ª. Ampliamos nossos negócios na área de marketing esportivo entrando diretamente no segmento de futebol. Na área de comunicação, depois de anos locando espaços para programas de esportes, primeiro na Band e depois na Record, demos um novo passo, comprando quatro emissoras de tevê no Interior de São Paulo, da Globo (em Rio Preto, Bauru, Sorocaba e Itapetininga), que têm uma área de abrangência de 318 municípios, com uma população de mais de 8 milhões de pessoas. Transformamos essas emissoras numa pequena rede do Interior, numa modesta rede, a TV TEM. E tendo esse apoio da televisão resolvemos abrir a rede Bom Dia de jornais, veículos com o mesmo nome, Bom Dia, o mesmo design e o mesmo modelo. Nessa área de mídia impressa ainda estamos patinando.

Protagonistas – E nas outras?

Hawilla – As outras vão bem.

 

“A Traffic trabalha em marketing esportivo com ênfase no futebol. O futebol é hoje um espetáculo basicamente de televisão. Nossos negócios, portanto, passam pelo marketing esportivo, pelo futebol e pela televisão. Esse ciclo nos deu a oportunidade e nos estimulou a entrar também no segmento jornal.”

 

Protagonistas – No caso da TV TEM, você adquiriu 100% do controle acionário ou a Globo continua tendo participação no negócio?

Hawilla – A Globo tem 10% e nós os outros 90%. Mas vejam que está tudo interligado. A Traffic trabalha em marketing esportivo com ênfase no futebol. O futebol é hoje um espetáculo basicamente de televisão. Nossos negócios, portanto, passam pelo marketing esportivo, pelo futebol e pela televisão. Esse ciclo nos deu a oportunidade e nos estimulou a entrar também no segmento jornal, mesmo sabendo que jornal é um negócio difícil, de longo prazo, que exige paciência, investimentos. Entramos no terceiro ano de operação dos jornais da rede Bom Dia e posso garantir a vocês que estamos satisfeitos. Achamos que estamos fazendo um produto bom, que tem agradado. Fizemos pesquisas no Interior e a aprovação é geral. Mas, comercialmente, ainda é complicado. Vocês sabem disso melhor do que ninguém. Vamos sofrer talvez mais um ou dois anos até chegar ao ponto de equilíbrio, ao ponto de obter resultados positivos.

Protagonistas – Quanto o grupo cresceu, no geral, em 2007? Você revela valores?

Hawilla – Não revelamos valores, mas todas as empresas cresceram. Por isso eu digo que não foi um ano de ouro, mas foi um ano muito bom. A Traffic é uma empresa que vive de eventos esportivos. Em 2007 ela fez a Copa América, na Venezuela. Foi um sucesso comercial, de público, de audiência. Comercializamos a competição para mais de 200 países do mundo inteiro. Teve uma repercussão fantástica, um sucesso.

Protagonistas – E para 2008?

Hawilla – Em 2008 temos a Copa Libertadores da América, a Sul-Americana e a Eliminatória para a Copa do Mundo, que também é um grande evento.

Protagonistas – Alguma ação na Olimpíada?

Hawilla – Não. Olimpíada é mais um evento de televisão, de quem compra os direitos. Além de se ser uma competição dita amadora.

Protagonistas – E Copa do Mundo (de futebol)?

Hawilla – Nas Copas nós sempre pegamos algumas coisas assim, digamos, paralelas. Coisas menores, mais de clientes que querem fazer ações do que os jogos. Como aconteceu nas outras. Fazemos um trabalho muito bem feito, que tem tido resultados positivos. Assumimos uma parte das seleções, um subproduto, digamos assim, a comercialização, na área de promoções, de vários clientes, que têm interesse em ações de comunicação na Copa.

Protagonistas – São ações que envolvem a televisão? Porque você começou com esse negócio de anúncios em campos de futebol...

Hawilla – Placas em campos de futebol....

Protagonistas – É isso ou há mais alguma coisa?

Hawilla – Não. Nós não fazemos isso. Quem faz é a Fifa. Ela detém cerca de 95% da Copa do Mundo. Hoje praticamente domina a comercialização do evento. Sobra muito pouco para todos os outros players do mercado. Então, o que fazemos? Pegamos períodos de treinamento de algumas seleções, principalmente da América do Sul. E fazemos ações de marketing e de comunicação para alguns clientes. Nessa última Copa, por exemplo, fizemos uma ação de marketing muito forte para a Vivo, como também fizemos antes para a Nike e outros clientes. A Vivo era patrocinadora, mas queria fazer ações, lá na Alemanha, independentemente do que fazia em vídeo, na Globo.

 

“Politicamente, (o jornal) não tem efeito para nós, pois vivemos na capital e o jornal fica no Interior. O que buscamos mesmo com ele é mercado, ampliação de mercado. Porque a televisão ajuda o jornal e o jornal ajuda a televisão.”

 

Protagonistas – O que você fez exatamente para a Vivo?

Hawilla – Levamos cerca de 190 convidados dela para a Alemanha, montamos hospitality center, essas coisas. Sou mais da área de produção, comercial, e não acompanho de perto isso. Só sei que foi muito bem feito porque o cliente gostou.

Protagonistas – Qual o peso hoje dos negócios de comunicação, sobretudo TV TEM e rede de jornais Bom Dia, na composição do faturamento do grupo?


Hawilla – A tevê é muito forte, seria uns 50%. O jornal, como eu disse, ainda está engatinhando, não tenho expectativas. Quando se fala em participação, está se falando em resultado. E o jornal ainda não tem resultado, ainda depende de investimentos.
Protagonistas – Ainda não está no azul?

Hawilla – Não. Estamos projetando um investimento, de novo, para 2008. Para chegar ao break even ou até no azul em 2009.

Protagonistas ­– E politicamente, como veículo de prestígio para a empresa, qual é o peso? Porque tem isso também, não é? Pode não dar lucro, financeiramente, mas...

Hawilla – Olha, politicamente, não tem efeito para nós. Nós vivemos na capital e o jornal fica no Interior. O que buscamos mesmo com ele é mercado, ampliação de mercado. Porque a televisão ajuda o jornal e o jornal ajuda a televisão. É a tal da cross media de que se fala. Nós estamos no segundo mercado do Brasil, que é o Interior de São Paulo. O que pretendemos? Ampliar a nossa participação nele com os impressos.

Protagonistas – Há projeto para pelo menos mais um jornal este ano?

Hawilla – Este ano, não sei. Mas queremos ampliar a nossa participação em outras cidades. Os locais onde estamos são cidades importantes e há outras em nossa área de cobertura que estão no nosso projeto de ampliação.

Protagonistas – Fale uma. Qual vai ser a primeira?

Hawilla – Pensamos muito em Marília, que tem um mercado muito bom, um comércio muito bom. E é uma cidade também muito efervescente em política.

Protagonistas – Mas a TV TEM não está instalada lá...

Hawilla – Está em Bauru, mas cobre Marília.

Protagonistas – Você disse efervescente... Até incendeiam os jornais lá! (risos)

Protagonistas – Que tipo de reação o Bom Dia vem enfrentando nas cidades onde circula, principalmente dos veículos com os quais concorre?

Hawilla – De muita preocupação. Porque, de qualquer forma, nós vamos tirar mercado de quem já está lá. Onde nós entramos, tem jornal de 100 anos – o Cruzeiro do Sul, de Sorocaba –; tem o Diário da Região, com quase 70 anos, lá em Rio Preto; tem o Jornal da Cidade, em Bauru, que tem também sessenta e tantos anos. São jornais de famílias locais, tradicionais, de peso político na cidade, que vivem lá. É por isso que eu digo que eles têm uma relação política muito mais acentuada na cidade do que nós.

Protagonistas – Vocês são recebidos como intrusos, aventureiros?

Hawilla – Não, não. Felizmente, somos reconhecidos como pessoas do ramo, do meio. Não só por termos a TV TEM na cidade, como por tudo que fizemos e fazemos nesse meio. Acho que há um reconhecimento muito grande, todo mundo aplaude, todo mundo apóia, todo mundo gosta, é unânime, só o concorrente é que não. Isso é natural.

Protagonistas – De certo modo, vocês até têm contribuído para eles melhorarem, não é?

Hawilla – Eu falo para os concorrentes, quando tenho oportunidade de conversar, que no fim vai contribuir muito para eles. Porque isso aqui só vai para a frente quando tiver gestão.

Protagonistas – Na época do lançamento, chegamos a ouvir de vários deles que a chegada da rede Bom Dia estava obrigando todos a se mexerem para não ficarem para trás. Com um detalhe adicional: você é um homem do Interior, não está indo da capital para lá. Está, de certa forma, voltando às origens.

Hawilla – É verdade.

Protagonistas ­– O noticiário de cada região em que circulam os jornais da rede Bom Dia é reproduzido em todos os outros?

Hawilla – Só lá. O de Rio Preto é só para Rio Preto. Há uma redação local em cada lugar: Rio Preto, Bauru, Sorocaba e Jundiaí. Nesta cidade, que fica mais perto de São Paulo, funciona também a nossa Central de Edição Compartilhada (CEC), que faz o noticiário nacional, internacional, político e de variedades. Editorial é só para Rio Preto, formador de opinião é só para lá (vai apontando nos jornais as seções que são locais e de rede). Ponto de Vista, Quem Sabe Sabe, Banda Larga são gerais. O jornal tem 40% de conteúdo geral e 60% local. Temos um Esporte forte e eu diria que 70% dele é geral (também aponta as seções). O Alberto Helena Jr. faz um comentário exclusivo para nós, mas é geral. Variedades também é forte. Aqui escrevem o Arnaldo Jabor, o Drauzio Varella, o Veríssimo, cada dia um. As mesmas colunas que eles publicam em outros jornais. Só o Alberto Helena é exclusivo.

Protagonistas – Vamos fazer um contraponto aqui. Dos mais importantes empresários de Comunicação do País, salvo engano, você é hoje o único que vem da base, do chamado “chão de fábrica” do jornalismo. Temos também o Mino Carta, na CartaCapital, mas ele não se considera empresário e além disso desde jovem ocupou cargos de chefia e direção. Foi difícil essa transição? Quais os principais desafios que você enfrentou desde que decidiu deixar de ser empregado, para ser dono de seu próprio negócio?

Hawilla – Não sei... (pausa) O desafio foi crescer. Não tive barreiras, assim, que me impedissem de crescer. Eu precisava era tocar a vida para a frente. Injetar combustível e ir fazendo as coisas, realizando. Tivemos alguns percalços, diria assim, na nossa vida, na Traffic. Quando assumimos, por exemplo, o esporte na Record, muitos anos atrás, para fazer a Olimpíada, foi um desafio muito forte. Depois, quando entramos na América do Sul, para internacionalizar a empresa e começar a fazer eventos internacionais, foi outro desafio. Mas nós nunca tivemos medo de ir para a frente, porque sabíamos que poderíamos crescer nesse segmento. Como não estamos tendo medo, agora, do jornal. O Bom Dia é um grande desafio na nossa vida, mas eu não tenho medo. Vivo de motivar o meu pessoal. A minha função aqui dentro é só motivar o pessoal (risos). Não deixar desanimar. Não que haja um ambiente de desânimo, mas eu percebo que as pessoas sentem dificuldades. Porque estamos enfrentando jornais tradicionais, de 70, 100 anos; é uma mídia que está caindo, o meio está em decadência porque os próprios jornais contribuem para isso, porque divulgam isso permanentemente. Mas eu não tenho medo. Acho que isso aqui vai virar um negócio muito importante, uma mídia muito importante. Até porque, tenho a percepção – e isso passo muito para o meu pessoal – de que a internet não nos ataca. A internet ataca o Estadão, a Folha, o Globo, porque eles são jornais nacionais, jornais da capital. Aqui a gente fala da rua do cidadão, do bairro do cidadão, e a internet não fala disso. Damos o serviço e a informação que ele quer ver. Falamos do clube social dele, do clube de futebol, da festa do bairro, da iluminação. A internet não dá isso e não vai dar nunca. Então, acho que, não tendo a concorrência da internet, é um grande caminho que temos a seguir nessa comunicação com a população do Interior.

 

“Acho que isso aqui vai virar um negócio muito importante, uma mídia muito importante. Até porque, tenho a percepção (...) de que a internet não nos ataca. A internet ataca o Estadão, a Folha, o Globo, porque eles são jornais nacionais, jornais da capital. Aqui a gente fala da rua do cidadão, do bairro do cidadão, e a internet não fala disso.”

 

Protagonistas – Você acha que isso pode acontecer, de um modo geral, com a chamada imprensa regional? Em função da internet, que é essa coisa universal, o futuro da comunicação local é a mídia impressa?

Hawilla
– Não tenho dúvida. Não só a mídia impressa como a mídia regionalizada. Esse é o futuro. Seja a televisão, seja o jornal. Rádio não.

Protagonistas
– Você visitou jornais regionais fora do País? Por exemplo, nos Estados Unidos? Porque lá são um sucesso...

Hawilla
– Visitei. Visito na Europa. E, vejam só, somos concorrentes de nós mesmos, no Interior. A nossa televisão é que concorre com o jornal, em termos de serviço e de notícia. E ela tem um adicional que é o entretenimento, a programação da Globo, que é a melhor do mundo. Tanto é que as audiências que há no Brasil não acontecem em nenhum outro lugar do planeta. Quando o garoto quer saber de alguma coisa que está acontecendo em Bauru, por exemplo, ele não vai na internet procurar. E não irá daqui dez anos. Não vai existir internet regionalizada. E nós vamos fazer no jornal um classificado regionalizado, de imóveis, de carros. Isso o pessoal não vai achar na internet. O que precisamos é criar leitores novos. Por isso o jornal tem o formato da era da internet: muitas chamadas, muitas cores, muitas notícias curtas. São 20 ou 25 chamadas na capa. E serviços: loteria, previsão do tempo, dólar...

Protagonistas
– Qual é a tiragem da rede Bom Dia?

Hawilla – Média de 25 mil durante a semana e 35 mil aos domingos.

Protagonistas – E com que meta você trabalha, pelo menos no médio prazo?

Hawilla – Passar para 70 mil, em dois anos, nos dias de semana e 90 mil no domingo, o que já seria um número excepcional.

Protagonistas – Foi em função disso, para alavancar essa circulação, que você trouxe o Flávio Pestana? Porque o Matinas Suzuki Jr. é um homem de conteúdo, de redação. Então, consolidou o conteúdo e agora...

Hawilla – Mas o Matinas tem uma visão muito ampla do negócio jornal. Ele assumiu o Conselho Editorial. Saiu da operação do dia-a-dia e foi para o Conselho; por isso trouxemos o Pestana.

Protagonistas – Matinas ficou mais na orientação, de vislumbrar desenvolvimento...

Hawilla – ... noções, caminhos, discutir o jornal, o modelo, o que estamos fazendo, para onde queremos ir. O Conselho se reúne mensalmente para discutir isso.

 

“Sempre que encontro antigos diretores (da Globo), como o Armando Nogueira, eles lembram que contribuíram para que eu virasse empresário (risos). Dizem que se não tivessem me mandado embora eu estaria lá até hoje. E é verdade.”

 

Protagonistas – Numa entrevista que você deu ao Carlos Maranhão da revista Veja, publicada nas páginas amarelas, em 1999, já empresário reconhecido, você afirmou que participou da histórica greve dos jornalistas de 1979 e que foi ela, de certo modo, que o impulsionou para o mundo dos negócios, por conta do período de desemprego que enfrentou. Se não fosse aquela greve, o jornalismo esportivo teria chances de ainda contar com J. Hawilla, ou ser dono de seu próprio negócio era uma coisa que você já estava determinado a fazer?

Hawilla – Não. O que me motivou a sair para a vida empresarial, digamos assim, foi aquela greve. Porque, praticamente recém-casado, com um filho de seis meses, senti que iria ficar eternamente dependente do humor do patrão, que poderia perder o emprego a qualquer momento. Então, comecei a tentar coisas. Três meses depois voltei para a Globo. Mas ela entendia, naquele momento, que eu tinha um cargo de confiança – era diretor de Esportes aqui em São Paulo – e não poderia ter participado daquela greve da forma como participei. Hoje entendo que era um pensamento justo. Isso não partiu dos donos, mas dos diretores. Sempre que encontro antigos diretores, como o Armando Nogueira, eles lembram que contribuíram para que eu virasse empresário (risos). Dizem que se não tivessem me mandado embora eu estaria lá até hoje. E é verdade.
Protagonistas – Ao fundar a rede Bom Dia de jornais no Interior de São Paulo, não há como negar que você ousou e inovou. O único outro grupo que tem alguma abrangência regional no Interior paulista é a RAC – Rede Anhangüera de Comunicação, mas mesmo ela não tem grande expressão fora da Região de Campinas. Por que, na sua opinião, até hoje nenhum outro empresário de Comunicação apostou neste promissor e próspero mercado caipira?

Hawilla – Vou responder com outra pergunta: por que nunca ninguém fez uma rede de jornais? A Anhangüera, que você citou, não é uma rede. Ela tem vários títulos: Gazeta não sei do quê, Diário não sei do quê... Cada cidade, um jornal, um título. Nós apostamos numa rede. Esse era o meu sonho, o desafio que eu tinha, como disse a vocês. Quando compramos a TV TEM, da mesma forma, achei que poderíamos crescer muito mais se houvesse unidade, um corpo só. Porque eram TV Modelo, em Bauru, TV Progresso, em Rio Preto, TV Aliança Paulista, em Sorocaba, e RIC, em Itapetininga. Então, formamos uma rede, com a mesma cara, a mesma cor, o mesmo propósito. Da mesma forma que o jornal. Eu só admitia criar um jornal se pudesse fazer uma rede, como a que estamos fazendo. E depois descobri que é a única rede do Brasil.

Protagonistas – Quem tentou uma coisa assim, talvez não muito parecida, foi a Folha, naquela época da regionalização. Mas ela ficou muito com a cara de coisa de São Paulo que ia para o Interior, ao contrário do Bom Dia.

Hawilla
– Porque ela se chamava Folha de S.Paulo. Esse é o problema.

Protagonistas – Isso leva a uma outra questão. O que significa no Brasil esse promissor e próspero mercado caipira, em termos de riqueza, de promessa de negócios?

Hawilla
– Hoje, não sei se vocês sabem, ele passou a capital em varejo. Vejam como ele é promissor. Porque lá (no Interior) as pessoas trabalham anonimamente. Não saem na Exame, na Veja, nos cadernos de Economia da Folha, do Estado. Mas há grandes empresários, grandes empresas, e médios empresários aos montes, que trabalham anonimamente. E ganham dinheiro e investem. Aquilo faz a máquina rodar. O Pão de Açúcar tinha cinco lojas em Bauru e ele concorre com Wal-Mart, com Carrefour e com uma rede local, que é maior do que todos eles lá, chamada Confiança. Vejam que varejo é esse! Por que esse negócio pulsa dessa forma? Porque tem gente lucrando!

 

“Formamos uma rede (de tevê), com a mesma cara, a mesma cor, o mesmo propósito. Da mesma forma que o jornal. Eu só admitia criar um jornal se pudesse fazer uma rede, como a que estamos fazendo. E depois descobri que é a única rede do Brasil.”

 

Protagonistas – Por falar nisso, alguns desses vêm do plano local para o nacional. O Magazine Luiza não é um desses?

Hawilla
– Vêm. Tem vários desses: Lojas CEM, Colombo. E na verdade nem precisam da capital. Aqui, é lógico, é o maior mercado, mas, como falei, este ano o Interior já passou a capital em varejo. E estamos falando do Pão de Açúcar, que tem um PIB maior do que o da Bolívia, só para vocês terem uma idéia. E lá tem gás, petróleo... O Pão de Açúcar tem varejo. E a grande base do Pão de Açúcar é o Interior. Ele abre uma loja grande no Interior a cada mês.

Protagonistas
– A imprensa regional, com raras exceções, depende diretamente da publicidade local, inclusive e sobretudo a oficial. É uma condição que faz dela uma imprensa muitas vezes chapa branca, atrelada aos interesses de quem a financia, o chamado “poder paroquial”. Denúncias, quando são feitas, em geral têm como alvo grupos políticos ou empresariais “inimigos”. Dá para fazer jornalismo investigativo e independente na imprensa regional, ainda que diretamente contra o poder constituído (empresários, autoridades e políticos locais, por exemplo)?

Hawilla
– Fizemos muito isso no jornal. Mas sentimos que não é a vocação dele. Nem das cidades nem dos jornalistas que formamos lá. Nós resolvemos diminuir muito isso. Não que se deixe de fazer, mas se faz muito menos do que antes. Porque não há essa vocação. É mais quando cai no colo uma notícia; aí a gente vai atrás, apura e faz um escândalo. Mas, na verdade, aquela coisa sistemática, permanente, de se fazer uma matéria por mês, uma matéria por semana, isso não dá para fazer no Interior. Não há conteúdo para isso. Nem vocação. Não tem jornalista, não tem cabeça, não tem cultura para esse tipo de coisa.

Protagonistas
– A tevê exerce alguma influência nessa direção?

Hawilla
– Não. Eu, pelo menos, não sinto isso. É que o nosso caso é diferente, porque, ao contrário dos demais donos de jornal e de rádio, nós não moramos naquelas cidades. Embora ali no Interior não haja essa vocação para o jornalismo investigativo, de denúncia, também não temos porque impedir que se divulgue o que é importante para as comunidades. Nossos editores têm autonomia e liberdade. Se alguém quer reclamar de alguma coisa que divulgamos tem todo o direito de fazê-lo, mas a pressão, que muitas vezes funciona nos veículos dominados pelas famílias locais, no nosso caso inexiste. Não adianta reclamar comigo. Até porque eu não tenho linha editorial própria, de chegar para o meu editor de Bauru, de Sorocaba ou de Rio Preto e dizer assim: “apóie tal coisa, faça tal coisa”. Eu não tenho interesse algum...

Protagonistas
– Você não entra nessas questões?

Hawilla
– Zero, zero. Às vezes, um editor me pergunta: “qual é a sua orientação nesse caso?” Se vire, meu amigo, você é pago para isso! Você é o editor do jornal, você conhece o meio! Eu não conheço, não posso ir lá dar um palpite, mandar seguir tal coisa, fazer... Essa é a grande conquista, o grande patrimônio dos nossos jornalistas. Não sofrem nenhum tipo de influência do dono.

Protagonistas
– Mas cabe aí mais uma referência ao mercado caipira. Há um ditado que diz que é o olho do dono que engorda o boi. Você de vez em quando não dá uma olhada geral, diz “olha, isso aqui...”?

Hawilla
– Sempre. Todo dia.

Protagonistas – Mas não com interferência na linha editorial?

Hawilla
– Zero. Mas no comercial, sim. No comercial eu interfiro. Baixou o faturamento, chamo a turma aqui e vamos conversar. Isso aí é permanente, é o nosso trabalho. Qualidade editorial é o Matinas quem vê. Agora está no lugar dele o Márcio ABC, editor-chefe do Bom Dia Bauru. Porque ele está desde o começo no projeto, conhece o DNA, a essência do jornal.

Protagonistas – Já houve casos de ameaças a jornalistas, por denúncias?

Hawilla – Não. De vez em quando um liga para reclamar. Eu ouço, não é? O que posso fazer?

Protagonistas – Os profissionais que você emprega no Bom Dia são locais?

Hawilla – De 80% a 90% são locais ou da região.

Protagonistas – Quando a rede Bom Dia foi lançada, tinha 120 jornalistas. Esse quadro se mantém estável?

Hawilla – É mais ou menos isso.

Protagonistas – Você pode revelar quanto o grupo investiu na rede Bom Dia até hoje?

Hawilla ­– Habitualmente, não revelo isso. Acho que não acrescenta nada. Mas creio que temos já um patrimônio, uma grife, uma marca que vale acima do que investimos.

Protagonistas – Você fala isso baseado em pesquisas?

Hawilla – Baseado na penetração do jornal, na influência do jornal, no faturamento...

Protagonistas – O jornal roda onde hoje?

Hawilla – Rio Preto é a única praça que tem gráfica própria. Em Bauru, temos uma gráfica terceirizada. Jundiaí e Sorocaba rodam na Gazeta Mercantil.

Protagonistas – O que mais o agrada no jornal e o que acha que ainda precisa ser melhorado editorialmente?

Hawilla – O que mais me agrada é a comunicação rápida que o jornal propõe para o leitor. Se o leitor dispensar de manhã, na casa dele, 20 minutos, ele vai ler o jornal inteiro, vai gostar do jornal e vai sair de casa bem informado. Num jornal de alcance nacional ele vai levar de 45 minutos a uma hora, praticamente o mesmo tempo que levará para se informar bem pelos telejornais. Sobre o que melhorar, eu diria que falta no Bom Dia uma ação politicamente mais forte, um noticiário político local mais forte.

Protagonistas – Por falar nisso, você lê cada uma dessas edições? Lê no papel ou na internet?

Hawilla – Leio. No papel.

 

“Se o leitor dispensar de manhã, na casa dele, 20 minutos, ele vai ler o jornal inteiro, vai gostar do jornal e vai sair de casa bem informado. Num jornal de alcance nacional ele vai levar de 45 minutos a uma hora, praticamente o mesmo tempo que levará para se informar bem pelos telejornais.”

 

Protagonistas – Por uma questão cultural?

Hawilla – Jornal é hábito, não é? Por isso é difícil mudar, por exemplo, o leitor do Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, para o nosso jornal. Temos que trabalhar na conquista dele por muitos anos. Por quê? Porque ele está habituado a ler aquele jornal. Eu tenho o hábito de acordar de manhã e ler a Folha e o Estado em casa. Não consigo ler na internet. Acesso bem a internet, trabalho bem com ela, mas para ler jornal eu gosto de pegar na mão.

Protagonistas – Você falou que lê o Estado e a Folha. Mas que títulos da imprensa regional considera referência e gosta de acompanhar?

Hawilla – Dos três jornais que citei, considero o Diário da Região, de Rio Preto, muito bom, o melhor, depois o Jornal da Cidade, de Bauru, e o Cruzeiro do Sul, de Sorocaba. Não todos os dias, mas pelo menos uma vez por semana eu acompanho para ver a diferença. Quer dizer, a diferença já está no modelo, não é? Acho o modelo standard antiquado. Na Europa, 80, 90% dos jornais são no formato berliner. Nos Estados Unidos, o USA Today é assim, tem em todas as cidades, é o 2º ou 3º colocado em todas as cidades, só que é o 1º nacionalmente. Nosso objetivo é semelhante. Não queremos brigar para ser o 1º nessas cidades. Queremos ser o 2º, mas um 2º com uma boa tiragem, uma boa leitura e um bom faturamento. Porque, na soma, nós vamos ser maiores do que todos.

Protagonistas – Você está conseguindo comercializar a rede?

Hawilla – Claro. Temos um Comercial aqui. Editamos um caderno de Empregos fortíssimo no domingo, que circula em todas as praças. E queremos evoluir cada vez mais com ele. Está tendo muito boa aceitação.

Protagonistas – Ribeirão Preto, que é uma praça que numa determinada época chegou a ter seis ou sete jornais diários, não tem um Bom Dia?

Hawilla – Nós não temos televisão lá. Estou privilegiando a área de cobertura da TV TEM para solidificar o projeto. Quando conseguir entrar no azul, começarei a expansão gradual.

Protagonistas – Em 1999, você vendeu 49% da Traffic ao fundo de investimento americano Hicks, Muse, Tate & Furst (HMTF), ficando com os 51% restantes e mantendo a gestão. Consta que, quando montou a TV TEM, em 2002, o fez em sociedade com o seu filho, Stefano. Você tem sócios internacionais no empreendimento? Qual é a composição acionária do Grupo hoje?

Hawilla – Na Traffic voltamos a ter 100% porque em 2001 nós recompramos os 49% que tínhamos vendido para o HMTF. Na TV TEM são 90% e no Bom Dia, 100%.

Protagonistas – Você tem três filhos, não é? Seus outros filhos estão participando do negócio?

Hawilla – Os dois meninos estão. O Stefano está morando e trabalhando em Miami, onde há mais de 20 anos temos uma empresa de marketing esportivo igual à Traffic do Brasil, que faz eventos de futebol na América Central, no Caribe e na América do Norte. O Rafael cuida da imobiliária, em Rio Preto. E a Renata ainda é muito nova.

 

“Era um negócio limpo (o de placas nos campos de futebol), que dava um retorno brutal para os clientes. E nosso sucesso foi tão grande que começou a incomodar a Globo. Eu próprio recebi vários recados do Boni pedindo mudanças, em função da pressão que eles vinham sofrendo dos anunciantes.”

 

Protagonistas – É uma multinacional! (risos) Quando você comprou a Traffic, tinha dois sócios. Quem eram e por onde andam?

Hawilla – Um, com quem, aliás, falei agora há pouco, era o Cyro José. Quando comprei a Traffic, estávamos ambos na Globo. Ele morava no Rio, propus que entrasse na sociedade e ele ficou com uma parte. O outro, Paulo Roberto, era especializado em vender publicidade e foi convidado porque a Traffic era uma empresa de publicidade em pontos de ônibus (aliás esta é a razão de se chamar Traffic). Os antigos donos – quatro sócios – tinham outros negócios, entre eles uma construtora, e não se interessavam muito por aquilo. A empresa estava lá meio abandonada. Um amigo meu, o pai do Luciano Szafir, esse ator, me deu a indicação, fui ver e fechei o negócio. Aí convidei o Cyro e o Paulo. Ficamos uns dois anos, um negócio cruel, muito trabalho e pouca rentabilidade, até que comecei a comprar espaços em campos de futebol para fazer essas placas de publicidade. Primeiro foi São José dos Campos, depois Ribeirão Preto, depois Campinas. Comecei a mudar esse negócio. Porque ele não existia na maioria dos estádios; e, onde existia, era muito amador. Era uma montanha de placas, cada uma de um tamanho, com larguras e alturas diferentes, todas amontoadas atrás do gol, porque era na base da permuta. O camarada dava cinco sacos de cimento para o clube e ganhava uma placa no campo. Aí esqueciam a placa e pelo tempo de exposição acabava ficando desbotada. Quando entrei nesse negócio, decidi mudar isso tudo, profissionalizar. Comecei a fazer contratos anuais. Chegava ao clube e propunha um contrato de três, cinco anos, pagando xis por mês, para ter exclusividade total. Aí eu tirava tudo aquilo, limpava, pintava o estádio de branco. Comecei a fazer uma fileira só, tudo do mesmo tamanho – 7 m por 0,90 m – e aquilo começou a chamar a atenção.

Protagonistas – Na área internacional já era assim?

Hawilla – Também era fraco nesse segmento, mas vi um jogo na Holanda uma vez, que me chamou a atenção. Era um negócio limpo, que dava um retorno brutal para os clientes. E nosso sucesso foi tão grande que começou a incomodar a Globo. Eu próprio recebi vários recados do Boni pedindo mudanças, em função da pressão que eles vinham sofrendo dos anunciantes. Por exemplo, a Ford anunciava na televisão, mas lá no campo tinha uma placa da Volkswagen que aparecia o jogo todo. E não tinha jeito de tirar. Ou seja, aparecia na televisão mais a marca da Volkswagen, com as placas, do que as da Ford, com os anúncios tradicionais. Foi um período muito próspero para nós. Crescemos muito com esse negócio; chegamos a ter 25 estádios no Brasil. Os principais estádios, com contratos de dez anos, exclusivos. Era Maracanã, Mineirão, Morumbi, no Norte e no Nordeste, Castelão, Albertão, todos aqueles estádios. Além de crescer, a empresa tinha uma rentabilidade fantástica com esse negócio. Porque não tinha passado, ninguém conhecia o preço disso, o valor. Então, o preço que eu colocasse era o que valia. Fui vendo qual era o teto desse negócio ao subir e subir o preço. Nós começamos a profissionalizar a CBF, na época presidida pelo Giulite Coutinho. Onde a Seleção Brasileira jogava – por exemplo, no Mato Grosso –, eu ia lá pessoalmente e comprava o espaço do estádio em nome da CBF. Só para aquele jogo, independentemente dos outros que tínhamos, permanentes. E ele podia vender para mim ou para outro. Naturalmente, vendia para mim porque era a única empresa que fazia isso. Começamos então a comprar os estádios nos jogos da Seleção também no Exterior. O cliente não sabia o valor daquilo; só sabia que explodia na televisão. E era um negócio permanente. O vendedor falava assim para o cliente: “daqui dez anos, quando passar o vídeo desse jogo, a sua marca vai estar lá”. (risos)

Protagonistas – Por falar nisso, qual placa vale mais, a que está nas proximidades do gol?

Hawilla – Do gol e do meio do campo. Mas depois disso nós evoluímos para fazer marketing esportivo mesmo. Começamos a comprar eventos grandes, dar um tratamento melhor e fazer uma comercialização internacional deles.

Protagonistas – Hoje você ainda atua no segmento de placas?

Hawilla – Não.

 

“Porque não tinha passado, ninguém conhecia o preço disso (das placas), o valor. Então, o preço que eu colocasse era o que valia. Fui vendo qual era o teto desse negócio ao subir e subir o preço. Nós começamos a profissionalizar a CBF, na época presidida pelo Giulite Coutinho.”

 

Protagonistas – O que aconteceu com esse mercado? Ele se diluiu?

Hawilla – Ele integra os campeonatos. Por exemplo, o Campeonato Brasileiro é do Clube dos Treze, que vende para a Globo. O Campeonato Paulista é da Federação Paulista. Foi isso que nós iniciamos lá atrás, quando colocamos na cabeça da CBF que ela deveria fazer isso. Vendem um pacote, junto com os direitos de televisão, com as placas incluídas. Hoje só fazemos o eventual, como a Copa Libertadores da América, a Sul-Americana, que são nossas, compramos da Confederação Sul-Americana de Futebol.

Protagonistas – Você é quem vende para a Globo, para a Band?

Hawilla – Eu vendo as placas, não os direitos.

Protagonistas – E quando a compra envolve os direitos?

Hawilla – Aí nós é que vendemos.

Protagonistas – A Sul-Americana, por exemplo?

Hawilla – Nós compramos da Confederação Sul-Americana de Futebol e vendemos para as televisões de todo o mundo.

Protagonistas ­– Em algumas entrevistas que você concedeu, ao ser questionado sobre a licitude dos negócios da Traffic, afirmou que tudo o que tem e construiu foi com honestidade. De fato, mesmo denunciada em algumas ocasiões, a Traffic até hoje não foi condenada em qualquer processo. Você mesmo chegou a ser convocado e compareceu a uma CPI no Senado (a CPI do Futebol) e acabou fazendo do limão uma limonada. Ou seja, saiu fortalecido do episódio. Mas tem gente que não consegue acreditar que uma pessoa vinda de baixo, como você, consiga enriquecer honestamente num ambiente tão propício a negócios pouco transparentes como o futebol. Qual a receita, se é que há alguma?

Hawilla – A receita é a que sempre foi: trabalhar honestamente, não fazer negócios errados. Nessa CPI em que fomos incluídos, devassaram a minha vida, viraram do avesso. E não acharam nem multa de trânsito. E não acharam porque não tem, porque não fizemos nada que não fosse absolutamente claro. E é possível, nesse meio, trabalhar de forma absolutamente clara. Só que trabalhamos menos do que poderíamos. Por um lado, em função desse aspecto, e, por outro, por causa do amadorismo dos dirigentes do futebol. O marketing esportivo poderia ser muito maior se o ambiente fosse outro.

Protagonistas – Você diria que, olhando para trás, quando começou, e hoje, houve uma evolução? Ela é significativa? Em quê ainda precisa evoluir o profissionalismo nos negócios do esporte?

Hawilla – Evoluiu muito pouco. Vou tentar passar para vocês a minha idéia sobre isso. Até agora, não houve uma percepção dos clubes de futebol sobre o marketing esportivo. Eles acham que marketing é vender os direitos de televisão, vender patrocínio na camisa, confundem propaganda com marketing. Poderíamos estar hoje em outro patamar, recebendo verbas importantes, que não chegam por desconhecimento e também por outras razões, outros fatores. O futebol tem dirigentes amadores, que vêm da camada social do clube, do conselho. Em geral, o presidente é um sócio que se candidatou, foi eleito e está interessado em manter o seu cargo e ganhar o jogo de domingo. O que eles querem é ganhar o jogo de domingo. Ganhou o jogo, não importa como, está tudo bem. Eles não vêem o marketing como uma fonte de receita importante. Vou dar um exemplo fatal. O Corinthians vai disputar a série B. Vai lotar todos os estádios em que jogar, muito mais do que se estivesse na série A. Vai lotar os estádios de São Paulo, o Pacaembu, o Morumbi, os estádios do Norte e Nordeste. Vai apaixonar o Brasil. Vai dar uma audiência na televisão pelo menos 30% maior do que se estivesse na série A. Hoje, na série A, o Corinthians, jogando em Recife, consegue vender 50% dos ingressos. Na série B, vai vender 100%. Eles não sabem o que fazer com isso!

Protagonistas – Você não está entregando o ouro falando isso? Dando a dica para alguém fazer?

Hawilla – Eles não têm essa percepção, não têm essa cabeça. Não sabem fazer produtos para licenciar. Preferem deixar nas mãos dos piratas, a pirataria faz isso e vende. Vocês podem ter certeza disso: o Corinthians vai apaixonar o Brasil inteiro e disputar o título da série B.

Protagonistas – Vamos montar uma empresa só para faturar em cima disso... (risos)

Hawilla – Outro ponto da falta de cabeça dos dirigentes é o seguinte: as empresas não investiam, não “linkavam” a sua marca mais fortemente ao futebol pela falta de transparência e de seriedade e também da desorganização. O máximo que elas faziam era o patrocínio. Ficavam quietinhas, patrocinavam a camisa para aparecer na televisão, só isso. Não faziam ações de marketing em cima daquilo. O que aconteceu? O futebol ganhou organização, ganhou seriedade. O Corinthians caiu e caiu mesmo, ninguém contestou. Caiu e vai disputar a série B. Há dez anos isso não aconteceria. Eles iriam inventar uma virada de mesa. Diriam “ah, sócio-fundador não pode cair” ou “o time já foi campeão brasileiro e não pode cair”. Iam inventar qualquer coisa para ele não cair. Hoje, o time cai e todo mundo aceita e fica quieto. Isso é um sinal de amadurecimento da organização do futebol. O futebol está se organizando, está tendo mais credibilidade. O regulamento do campeonato já é o mesmo há seis, sete anos. Pontos corridos. Antigamente, cada ano era um regulamento, um modelo de disputa. E essa organização, esse crescimento, essa seriedade que o futebol ganhou, os dirigentes não sabem vender para fora, não conseguem passar para os clientes.

Protagonistas – Ao longo desses dois anos de existência do Bom Dia, pelo menos em duas ocasiões, circularam rumores de que você poderia vender os jornais. Falou-se até em conversações com a RBS, grupo gaúcho que tem demonstrado um interesse histórico pelo mercado paulista. Embora não esteja a venda, uma boa oferta pode mudar o curso da história, para a rede Bom Dia?

Hawilla – Não é só para a rede Bom Dia, é para tudo, não é? Uma boa oferta pode levar uma parte da Traffic, da tevê, da minha casa, da produtora, enfim, de tudo, não é? É o mercado... Como eu posso dizer: “resisto a qualquer oferta e não vendo nada”. Não dá para falar isso. Hoje em dia o negócio é muito dinâmico.

Protagonistas – Mas você chegou a ser sondado?

Hawilla – Não. Nós tivemos uma conversa muito superficial com o pessoal da RBS antes de lançar o jornal. Estávamos entrando, compramos o primeiro jornal, a Folha de Rio Preto, e eles vieram aqui conversar. São amigos meus, batemos um papo, só isso.

Protagonistas – É muito comum hoje, com essa coisa da globalização da economia, muita gente não resistir à tentação de embolsar milhões de dólares de uma oferta de compra. Colocar o dinheiro no bolso e ir passear pelo mundo. Essa possibilidade não o tenta?

Hawilla – Qualquer coisa pode acontecer. Só que, botar o dinheiro no bolso e passear pelo mundo eu não vou fazer nunca. Sou inquieto por natureza.

 

“O futebol está se organizando, está tendo mais credibilidade. O regulamento do campeonato já é o mesmo há seis, sete anos. Pontos corridos. Antigamente, cada ano era um regulamento, um modelo de disputa. E essa organização, esse crescimento, essa seriedade que o futebol ganhou, os dirigentes não sabem vender para fora, não conseguem passar para os clientes.”

 

Protagonistas – Vai lançar mais jornais... (risos)

Hawilla – Vou fazer qualquer coisa. Mas não vou ficar tomando sol na praia 2ª e 3ª feira.

Protagonistas – Tem evoluído a questão da publicidade integrada no grupo, tevê e jornal, a chamada cross media?

Hawilla – Tem mais na Traffic com os jornais, mas na tevê, não. Porque optamos por não fazer isso para respeitar os nossos sócios, a Globo. Nós não podemos fazer isso. A Globo é um sócio excepcionalmente bom, a gente se relaciona muito bem. Eu criei uma relação histórica com a Globo, pois trabalhei quase dez anos lá. Quando saí e montei a empresa, fiquei com essa relação comercial com eles, de vender produtos durante 20 anos...

Protagonistas – Foi concorrente em alguns momentos, também, não é? Quando estava na Band...

Hawilla – Certo... Mas agora sou afiliado, parceiro e sócio deles e prezo e respeito muito isso.

Protagonistas – Como foi o namoro com a Globo? Como começou tudo isso?

Hawilla – Isso foi público. Houve um momento em que a Globo anunciou que ia se desfazer de algumas afiliadas. E quando houve isso eu me interessei. Fui procurar a Globo para saber com quem eu deveria falar sobre isso.

Protagonistas – Estava cheio de dinheiro... (risos)

Hawilla – Cheio não digo, mas tinha umas reservas. Aí começamos a conversar e felizmente deu certo.

Protagonistas – O fato de você ser afiliado tem algumas regras, não é? Elas o impedem, por exemplo, de ampliar a rede?

Hawilla – Depende de para onde se vai ampliar a rede. Nó precisamos estar sempre em sintonia com a Globo. E eu não posso atropelar outro afiliado, outro colega meu, na região dele. As boas maneiras e a ética do negócio já indicam isso.

Protagonistas – Existem também restrições de legislação para se ter um número xis de emissoras ou afiliadas? Qual é o limite?

Hawilla – Sim. São duas por estado e cinco no total. Não tenho certeza. Eu tenho duas e o meu filho tem duas.

Protagonistas – Houve uma notícia de que você teria comprado uma parte da TV Panorama, repetidora do sinal da Globo em Juiz de Fora (MG), em abril do ano passado. É verdade?

Hawilla – Estávamos negociando, mas acabou não dando certo.

Protagonistas – E no caso do impresso tem algum limite?

Hawilla – Eu vou sempre respeitar... Por exemplo, o Audálio falou de Ribeirão Preto. A EPTV tem um jornal lá. Eu não vou abrir um jornal lá sem ela. Se amanhã ela topar fazer uma associação, aí, tudo bem. Porque, eticamente, fica muito complicado para mim, que tenho uma relação tão estreita com ela, ir fazer concorrência lá. Mas amanhã, se estiver no nosso projeto, eu for lá e ela aceitar, fazemos juntos.

 

“A EPTV tem um jornal lá (em Ribeirão Preto). Eu não vou abrir um jornal lá sem ela. Se amanhã ela topar fazer uma associação, aí, tudo bem. Porque, eticamente, fica muito complicado para mim, que tenho uma relação tão estreita com ela, ir fazer concorrência lá.”

 

Protagonistas – Numa conta hipotética, hoje você dedica quanto do seu tempo ao negócio mais editorial, que são tevê e jornal?

Hawilla – Metade do tempo.

Protagonistas – A chegada da TV Digital, muda muito a vida da organização? Há investimentos conjuntos com a Globo ou são individuais?

Hawilla – A Globo tem os investimentos dela e nós, na medida do possível, vamos tentando fazer os nossos. Quero ver se até o fim deste ano digitalizamos a emissora de Sorocaba, que seria a 1ª, mas pretendo fazer uma por ano.

Protagonistas – São investimentos muito altos? Existem linhas de financiamento para isso?

Hawilla – São investimentos altos. Existem financiamentos para equipamentos, mas por um período curto, acho que termina esse ano. Então, é preciso sair correndo para comprar equipamentos em 2008. Não sei se compensa...

Protagonistas – Por falar nisso, os investimentos que você fez na compra da tevê e na montagem da rede de jornais foram próprios ou você recorreu a investidores, financiamentos?

Hawilla – Nem investidores nem empréstimos. Tudo investimento próprio.

Protagonistas – Os banqueiros não tiveram participação? Não são seus sócios?

Hawilla – Até agora, não. Mas eu não repilo.

Protagonistas – Nos seus negócios falta o rádio. Vimos em outras entrevistas que você sempre fala com carinho sobre rádio. Você tem planos para isso?

Hawilla – Eu tinha um plano. Chegamos até a contratar pessoas para desenvolver o projeto também de uma rede de rádio no Interior. Mas acho que o rádio está sofrendo mais do que o jornal. Os números são muito pequenos. É um negócio muito grande, muito trabalhoso, muito complicado e com números pequenos.

Protagonistas – Pouco retorno?

Hawilla – Não é retorno. O dinheiro destinado para o rádio é muito pequeno.

 

“Chegamos até a contratar pessoas para desenvolver o projeto também de uma rede de rádio no Interior. Mas acho que o rádio está sofrendo mais do que o jornal. Os números são muito pequenos. É um negócio muito grande, muito trabalhoso, muito complicado e com números pequenos.”

 

Protagonistas – A publicidade no rádio paga pouco?

Hawilla – Muito pouco. Hoje em dia o rádio tem que ser reinventado. Por exemplo, a Globo inventou a CBN. Uma grande sacada. É um rádio dinâmico, informativo. De uma certa forma, é a reinvenção do rádio, porque é uma rede, com afiliados no Brasil inteiro. O meu projeto era mais ou menos como esse, no Interior de São Paulo. Não era uma criação minha, era uma imitação do que há nos Estados Unidos, do que fez a CBN. É ter uma emissora âncora e afiliar 40 ou 50 emissoras pelo Brasil todo e fazer uma programação só, fazer uma venda de 40 ou 50 emissoras pelo Brasil todo. Mas acabou não dando certo. A Band, por exemplo, lançou a Rádio Trânsito, que também é uma reinvenção do rádio. O rádio tem que ser reinventado, tem que ter novidade.

Protagonistas – Quem são, na sua opinião, os dirigentes esportivos mais competentes do País, aqueles que têm efetivamente contribuído para mudar para melhor a imagem e as condições do esporte brasileiro?

Hawilla – Não sei... Acho que os dirigentes do São Paulo são muito preparados, o Palmeiras está com uma geração de dirigentes muito boa. No Sul do País temos no Atlético Paranaense, no Coritiba, no Grêmio e, principalmente, no Internacional, dirigentes bons, modernos e ativos.

Protagonistas – E saindo do futebol?

Hawilla – O Carlos Arthur Nuzman é um dirigente muito competente, o Ricardo Teixeira é dirigente internacionalmente muito competente, tem uma atuação muito boa e forte na defesa dos interesses do futebol brasileiro no campo internacional. Na área nacional ele entregou mais para o Clube dos 13. São poucos, com pouca renovação e mudança.

Protagonistas – Há alguma explicação para isso? É pela falta de interesse?

Hawilla – Não é falta de interesse. É gente que se apega muito. O futebol , sendo sério e do jeito que ele está se transformando, como eu disse, respeitando as regras, com seriedade, sendo um meio mais transparente, mais honesto... Porque a corrupção é muito pouca. Pelo menos nós que somos do meio não ouvimos falar nisso, o que já é um ótimo sinal, um bom caminho. Então, fazendo-se essa assepsia no futebol, em termos de seriedade e honestidade, de um lado, e de cumprimento de regras, de outro, pode-se, evidentemente, atrair gente nova. Porque tem muita gente boa que adora, que ama futebol e que gostaria de estar como dirigente, mas não entra com medo de se comprometer.

Protagonistas – Como romper as panelinhas, então?

Hawilla – É como a política partidária. Você quer ser deputado, senador? Eu??!! Vou me sujar naquele meio??!! É complicado, não é?

 

“O que sobra no Brasil? Sobra o terceiro escalão de jogadores. Eu defendo uma mudança na legislação para segurar o jogador aqui um pouco mais. O clube formador precisaria ter mais recursos para não permitir que o jogador saísse do Brasil e fosse para Ucrânia, por exemplo. Por que a Ucrânia pode pagar mais do que o Brasil?”

 

Protagonistas – Entre os atletas das várias modalidades, incluindo futebol, quem você destacaria como exemplos?

Hawilla – Acho que a referência no futebol brasileiro é o Rogério Ceni, goleiro do São Paulo. O Káká tem um bom-mocismo exagerado, que passou do ponto e já está sofrendo contestações. E esse vínculo tão grande, tão forte que ele tem com a Igreja Renascer, que tem lá os seus problemas, pode vir a prejudicar a imagem dele. No momento não, porque ele foi eleito o melhor do mundo. Então, se esquece tudo e se passa por cima de tudo. O futebol brasileiro tem algumas referências na parte de treinadores, como agora o futebol paulista, que tem quatro treinadores muito bons (Luxemburgo, no Palmeiras; Leão, no Santos; Muricy, no São Paulo; e Mano Menezes, no Corinthians). O Felipão e o Parreira são outras duas boas referências. Mas precisava mudar a legislação para segurar mais jogadores aqui, para melhorar o espetáculo no Brasil. O espetáculo ficou muito fraco porque o jogador que atua no Brasil é de terceira categoria. As estrelas do Brasil, que hoje são cinco ou seis – Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Robinho e agora o Pato –, essas estrelas vão sair do Brasil de qualquer forma, independentemente da legislação. Depois vêm os jogadores intermediários de nível alto, que vão para a Europa, como Lúcio e Dida, jogadores da Seleção Brasileira. Depois vêm jogadores medianos, abaixo desse segundo nível, que estão indo para Croácia, Rússia, Ucrânia, Japão, Emirados Árabes, para todo lado. Então, o que sobra no Brasil? Sobra o terceiro escalão de jogadores. Eu defendo uma mudança na legislação para segurar o jogador aqui um pouco mais. O clube formador precisaria ter mais recursos para não permitir que o jogador saísse do Brasil e fosse para Ucrânia, por exemplo. Por que a Ucrânia pode pagar mais do que o Brasil?

Protagonistas – Por causa daquilo que você falou, de que os clubes não conseguem transformar a pouca organização em dinheiro...

Hawilla – É lógico. E o que acontece? Isso reflete na audiência, na exposição na mídia, em quantidades de páginas de jornal, em anunciantes e em empresas que querem apoiar o futebol. Porque o futebol de baixa qualidade tem outro valor.

Protagonistas – E da imprensa esportiva, quem são os melhores, na sua opinião?

Hawilla – Sinceramente, eu não teria nomes para dizer, pelo menos hoje.

Protagonistas – O jornalismo esportivo que você conheceu de perto por mais de uma década, primeiro como repórter e depois como executivo, mudou muito desde então? Está igual, melhor ou pior do que no tempo em que você pisava os gramados?

Hawilla – Acho que mudou muito pouco. Não teve uma evolução nem uma involução. Teve uma alteração muito pequena. Acho que a televisão toma conta do futebol e ela faz um trabalho bem feito, a Globo principalmente. Então, hoje, a Globo, por meio do canal aberto, que passa os principais jogos, e dos canais a cabo, onde, além dos jogos, passa uma série de programas esportivos, ela faz uma coisa saudável, transmite uma comunicação muito boa, muito útil. Nesse aspecto nós evoluímos. Principalmente nessa quantidade de programas bons que a tevê a cabo faz. Porque a velha mesa-redonda continua a mesma coisa, ela não evoluiu, não mudou. Continua aquele bate-papo...

Protagonistas – O esporte virou um meganegócio em todo o mundo e quem comanda hoje o show é efetivamente o dinheiro. O jornalismo esportivo tem uma grande dificuldade em lidar com essa situação, na medida em que ao mesmo tempo em que precisa ser crítico, analítico, imparcial etc., vê-se também na contingência de valorizar o espetáculo, estimular a presença de público, motivar os negócios, do qual depende. Há críticos severos de certas condutas, como por exemplo Juca Kfouri, que usa grande parte de seus espaços para denunciar as práticas que considera erradas e lesivas ao interesse do público. Na sua opinião, onde está a fronteira entre jornalismo e entretenimento e como você e seus veículos lidam com esta questão?

Hawilla – Meus veículos têm liberdade total para trabalhar da forma como bem entenderem. Parte de nós a orientação, e disso não abro mão, para que os jornalistas, não só os esportivos, se preparem, se informem, se atualizem para não escrever besteira. Eu acho esse ponto fundamental. Agora, o jornalismo esportivo tem dois lados. Na televisão, ele é entretenimento, tem que ser valorizado, porque se está vendendo aquilo. No jornal é outra coisa. Na televisão, ele tem que ser levantado, divulgado, falado, promovido para ter mais audiência. É assim que se vende futebol na televisão. Mas não pode deixar de haver o crítico lá na televisão, que vai criticar o espetáculo. Mas não é desmoralizar ou destruir o espetáculo. Eu vejo mais como um entretenimento do que um jogo que merece ser esculhambado, destruído. No dia seguinte, no jornal, podem-se fazer as críticas que se acha que devem ser feitas ao espetáculo. Mas nunca deixando de observar o lado show, espetáculo, entretenimento. Uma vez eu disse, e muita gente não entendeu, até me criticou, que o narrador de futebol tem que ser um animador de auditório, tem que levantar aquele show. É o caso do Galvão Bueno. O Galvão, eu sempre digo, não é um narrador e sim um comunicador. Eles às vezes até extrapola, exagera, mas é um comunicador. Mas ele não pára de falar e é bem informado, sabe tudo daquilo que está transmitindo. E está levantando o negócio, jogando para a frente. É disso que o futebol precisa, no lado da televisão, do entretenimento.

 

“Uma vez eu disse, e muita gente não entendeu, até me criticou, que o narrador de futebol tem que ser um animador de auditório, tem que levantar aquele show. É o caso do Galvão Bueno. O Galvão, eu sempre digo, não é um narrador e sim um comunicador.”

 

Protagonistas – E o jornalista que faz propaganda? Você defende jornalista fazendo propaganda, como nas mesas-redondas esportivas, ou é um crítico dessa postura?

Hawilla – Qual é o problema? Não tem problema nenhum, zero de problema. Teria problema se ele fizesse propaganda de um dirigente ou de alguma coisa que interferisse na opinião dele. Mas, se ele fala bem da água de coco, do xampu, do creme de barbear ou da loja de pneus, qual é o problema que isso tem? Não tem problema nenhum. Não está interferindo na conduta profissional dele...

Protagonistas – Compras de direitos de competições, parcerias com clubes de futebol... Quais os principais negócios em que a Traffic está atuando, sabendo-se que estamos às vésperas das Olimpíadas de Pequim e que em 2010 vamos ter a primeira Copa do Mundo de Futebol na África?

Hawilla
– Temos alguns grandes eventos como a Copa Libertadores da América, a Copa Sul-Americana e a eliminatória para a Copa do Mundo. Fora isso, abrimos um braço no futebol. Compramos a franquia de um time profissional na Flórida, nos EUA, o Miami Futebol Clube, e estamos disputando o campeonato da liga dos Estados Unidos com esse nome. Paralelamente a isso, montamos aqui em São Paulo um time chamado Desportivo Brasil, que nasceu de um projeto social nosso em Barueri. Estamos construindo o centro de treinamento em Porto Feliz. Por enquanto, estamos no centro de treinamento do José Roberto Guimarães, o técnico de vôlei, em Barueri. O São Paulo estava lá, mas saiu e nós entramos. Começamos com um projeto social para formar atletas e homens, um projeto da Traffic, um sonho antigo meu. Nada dessa demagogia de “tirar os meninos da favela para não se drogar”. A idéia é pegar esses meninos e dar uma formação de atletas e de homens para eles. O que nós fazemos lá? Nós damos a escola, com vans que levam e trazem os garotos, alimentação da melhor qualidade, com acompanhamento de nutricionista, médico e preparadores de todo o tipo – tem oculista, laboratório, dentista, tem tudo. Damos curso de inglês e espanhol. Fazemos palestras sobre comportamento, economia, sexo, mercado internacional... Enfim, estamos preparando os meninos. Até curso de boas maneiras, de etiqueta social, como sentar, comer, pegar nos talheres, nós damos. Grandes jogadores de clubes internacionais não sabem pegar no talher para comer! Estamos preparando isso. E isso desemboca no futebol, é natural, e acabou virando o Desportivo Brasil, que é esse time de sub-15, sub-17 e sub-20 que nós temos. São 94 meninos.

Protagonistas – A parceria com o Palmeiras é uma extensão desse projeto?

Hawilla – Não. A parceria com o Palmeiras é outra coisa. Não é nem uma parceria, é um fundo de investimentos que criamos, e o futuro do futebol vai ser esse aí, podem ter certeza. É um fundo onde os investidores colocam dinheiro e querem lucro. Nós compramos os jogadores que o Palmeiras pede. O Palmeiras quer determinados jogadores mas não tem dinheiro para comprar. O fundo compra, põe lá e vai comercializar esses atletas daqui um, dois ou três anos. E a receita disso vai ser distribuída entre os investidores. É só isso. Não temos ninguém na comissão técnica ou na diretoria, não temos mando, nada disso. E não tem nada a ver com a Parmalat. Porque, quando foi para o Palmeiras, ela assumiu a direção de futebol do clube, como a MSI fez com o Corinthians. Não vamos assumir, não temos nada a ver com o Palmeiras, com o dia-a-dia do Palmeiras. O fundo apenas compra os jogadores e o Palmeiras é que paga o salário.

 

“O Palmeiras quer determinados jogadores mas não tem dinheiro para comprar. O fundo compra, põe lá e vai comercializar esses atletas daqui um, dois ou três anos. E a receita disso vai ser distribuída entre os investidores. É só isso. Não temos ninguém na comissão técnica ou na diretoria, não temos mando, nada disso.”

 

Protagonistas – E isso você pode fazer com qualquer outro time?

Hawilla – Com qualquer outro. Tanto é que fizemos um fundo de R$ 40 milhões e não há R$ 40 milhões em jogadores para comprar para o Palmeiras. Vamos usar no máximo R$ 20 milhões. Então, começamos a comprar participação de jogadores em outros clubes. É só isso. E é dinheiro qualificado, de origem, não é dinheiro que vem sem origem, de lavagem, sem explicação. O dinheiro é de investidores que estão aqui.

Protagonistas
– Quem coordena esse fundo?

Hawilla
- A Traffic, com o Fernando Gonçalves como executivo principal.

Protagonistas
– É uma operação inédita no Brasil?

Hawilla
– É, mas já estão fazendo em outros lugares, como Minas Gerais, e já vieram buscar o nosso modelo. É o futuro do futebol. Não tem segredo, funciona como um fundo imobiliário. Só que, em vez de comprar imóvel, compra jogador.
Protagonistas – Mas você transmite esse know-how? Afinal, é uma idéia sua...

Hawilla
– É uma idéia, mas não dá para proteger, registrar, cobrar royalties...

Protagonistas
– Isso pode contribuir para elevar o nível de tudo...

Hawilla – De tudo. Pode melhorar o futebol com isso. Mas tem um problema, que é sempre importante dizer: isso é uma base. Vamos comprar sete, oito, dez jogadores para o Palmeiras, não sei. O Palmeiras vai formar um timão, devendo ganhar títulos. Mas daqui um tempo o fundo vai começar a vender esses jogadores. E se o Palmeiras não se preparar para colocar substituto na hora em que o fundo tirar um jogador, ele vai ter um down muito forte. Como aconteceu quando a Parmalat saiu de lá, vendeu todos os jogadores e o time foi para o buraco. Então, o Palmeiras tem que se preparar. Mesma coisa que faz no dia-a-dia dele. Por exemplo, o clube comprou o Valdivia. Ele vai vender o Valdívia, todo mundo sabe disso; no fim do Campeonato Paulista, no fim do ano, no ano que vem ele vai vender o Valdívia. Quando for vender o atleta, precisará ter um substituto para ele. Com o fundo é a mesma coisa. O Palmeiras já está avisado de que precisa ir montando uma equipe substituta, para depois não dizer que foi pego de surpresa. O que estamos fazendo é uma base para disputar campeonatos e, possivelmente, ganhar títulos.

Protagonistas
– Foram superadas aquelas questões relativas à parceria com a CBF, que vieram à baila na CPI do Futebol, no início da década, principalmente a intermediação do acordo com a Nike, que rendeu à seleção brasileira um patrocínio de US$ 160 milhões e uma comissão à Traffic? Como foi a experiência de ser objeto de uma investigação pública? Sua vida e seus negócios enfrentaram problemas ou mudaram por causa disso?

Hawilla
– Mudaram. Fomos convocados para essa CPI por causa do nosso relacionamento com a CBF e a gente só estava trabalhando. Nós éramos, e eu tenho orgulho de dizer isso, os primeiros e os maiores geradores de recursos para a CBF, porque antigamente a CBF dependia de verba de governo. Ainda na época do Giulite Coutinho começamos a levar patrocinadores, esse esquema de placas em campos de futebol, a dar um tratamento mais profissional à Seleção Brasileira, como vender o fornecedor de camisas... Porque, antes, a Topper dava uniforme e não pagava nada; nós começamos a profissionalizar isso. E coordenamos essa venda para a Nike por valores recordes no mundo. Em vez de sermos homenageados, fomos levados para a CPI. Isso é o que fazem alguns coleguinhas aí, que querem enxergar o lado errado do negócio. O contrato que fizemos foi legítimo, o melhor contrato do mundo, foi provado na época. A minha vida foi devassada, a Receita Federal ficou 13 meses aqui dentro – tinha sala, com secretária – e não pegaram nem multa de trânsito. Eu me senti glorificado, porque são poucas pessoas no Brasil que passaram por esse crivo. Mas foi experiência muito ruim, sem dúvida nenhuma.

 

“A minha vida foi devassada, a Receita Federal ficou 13 meses aqui dentro – tinha sala, com secretária – e não pegaram nem multa de trânsito. Eu me senti glorificado, porque são poucas pessoas no Brasil que passaram por esse crivo. Mas foi experiência muito ruim, sem dúvida nenhuma.”

 

Protagonistas – Em novembro, você ofereceu um jantar ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira, logo depois da escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014, ao qual compareceram também o governador José Serra, o prefeito Gilberto Kassab, o ministro de Esportes, Orlando Silva, cartolas e empresários. Como a Traffic pretende atuar em termos de negócios nesse projeto?

Hawilla – Sinceramente, não sei. Acho muito cedo e acho que ninguém sabe, nem a própria CBF. O que se fala é em construção de estádios. Não se sabe o que vai sobrar para o local, porque é tudo Fifa, direito de televisão, patrocinador, publicidade no estádio, o jogo, é tudo Fifa. Eles vêm aqui vistoriar estádio, hotel, aeroporto...

Protagonistas – Quanto movimenta uma Copa do Mundo? Você tem idéia desse número?

Hawilla – Eu posso dizer o seguinte: é um crescimento enorme para o País. Porque os governos estaduais e o federal vão antecipar muitas obras. Precisa fazer um trem da Estação da Luz até o aeroporto, em 2020: eles vão fazer antes. Precisa fazer uma rodovia; eles vão fazer antes. Olimpíadas e Copa do Mundo preparam as cidades. Vocês viram o que o Pan fez com o Rio de Janeiro? Transformou a cidade. O Rio de Janeiro hoje é uma maravilha de equipamentos esportivos e de avenidas e rodovias, de tudo. E foi com o Pan, que é um evento de menor porte.

Protagonistas – Aquele jantar foi um investimento para a sua empresa?

Hawilla
– Não, foi só um jantar que oferecemos. Convidamos autoridades e empresários importantes de São Paulo. Porque, de uma forma geral, os empresários vão fazer parte de alguma coisa da Copa do Mundo e nós queríamos que o Ricardo Teixeira conhecesse os empresários e que os empresários conhecessem o Ricardo Teixeira. Tinha gente de hotelaria lá, por exemplo, que quer expandir. Não tem nada a ver com a CBF, mas ela vai dar as indicações para eles, como “nós vamos precisar de tantos leitos em Salvador, de tantos leitos não sei onde”. E se vai conversando sobre isso. A idéia foi essa, de se fazer um jantar num momento propício, em que o Brasil tinha acabado de ser escolhido como sede da Copa do Mundo de 2014.

Protagonistas – E o golfe?

Hawilla – O golfe é religião.

Protagonistas – Mas é negócio, também, porque você tem um empreendimento lá em Rio Preto.

Hawilla
– Eu tenho um empreendimento em Rio Preto como outro qualquer, um condomínio.

Protagonistas
– Mas é seu, como pessoa física, ou é da Traffic?

Hawilla
– É de uma empresa nossa. Uma imobiliária onde trabalha meu filho Rafael. O nome é Praterra e a sede é em Rio Preto. Nós estamos fazendo lá um condomínio, com campo de golfe, que devemos lançar em março ou abril. O golfe no Brasil, como negócio, é zero. Mas é um fator de venda para o condomínio, como quando se fazem duas ou três quadras de tênis, duas ou três piscinas. Hoje, ele é um diferencial.

Protagonistas – É o único empreendimento imobiliário no País com campo de golfe?

Hawilla – Não, tem vários. No Norte e Nordeste todo mês sai um.

Protagonistas – Todo mês? Mas não se ouve falar...

Hawilla – É porque são condomínios fechados.

Protagonistas – Porque, no Brasil, o golfe, como esporte institucionalizado, não tem muita repercussão. Mas está cheio de gente praticando...

Hawilla – Só aqui em São Paulo tem as Quintas da Baronesa, em Itatiba, que têm um campo maravilhoso e já estão fazendo o segundo. Em Porto Feliz, tem a fazenda Boa Vista, que é da JHS, e também estão fazendo o segundo. Tem alguma coisa do Trump, acho que em Valinhos, e outra do Bordon, chamado Haras Larissa, um condomínio de casas maravilhoso, com campo de golfe. Nesse mercado de alto luxo, hoje o diferencial é ter campo de golfe.

Protagonistas – Jornalista, aliás, de um modo geral, não sabe lidar bem com dinheiro. E você, ao se tornar empresário e empreendedor, fez aflorar esse seu lado árabe, digamos assim. Lidar com dinheiro, com lucro, com riqueza continua sendo uma coisa difícil no Brasil?

Hawilla – Para quem não tem talento para isso, é difícil. Para quem tem vocação, não. Todo negócio tem suas complicações e a pessoa tem que descobrir o caminho. Tem que ter ambição, sorte, competência e uma série de coisas para começar na vida empresarial.

Protagonistas – Mas como jornalista você é uma das poucas exceções. Há o Chateaubriand, Roberto Marinho... (risos)

Hawilla – Sou bem pequenininho...

Protagonistas – Jornalista, de um modo geral, não sabe nem negociar salário.

Hawilla – É, não sabe. Para se ter uma idéia, quando estava Globo, eu é que orientava meus companheiros ali – ou tentava orientar – em negócios, como comprar carro...

Protagonistas – Você já era bom nisso, então?

Hawilla – Acho que era, não sei. Para renovar contrato... Eles pegaram a mania de me consultar, sei lá por quê, acho que para não comprarem nenhum terreno encalhado. (risos)

Protagonistas – De um a dez, que nota você daria para o jornalismo brasileiro hoje?

Hawilla – Acho jornalismo brasileiro muito bom. Falo da grande imprensa, não é? Daria nove.

Protagonistas – E para imprensa esportiva?

Hawilla – Daria seis...

 

“O esporte é do treinador, da comissão técnica, não é das pessoas que fazem negócios. Os jogadores que entram em campo não são de responsabilidade do presidente ou do vice, ou do presidente de marketing. Aqueles caras estão lá para trazer recursos para o clube. A imprensa brasileira está muito atrasada nisso.”

 

Protagonistas – Temos muito o que avançar ainda...

Hawilla – Eu acho. Tem muito o que crescer e evoluir, tem muito o que entender. Porque o futebol é negócio, geração de recursos, e não se vêem jornalistas esportivos que entendam de negócios. Eles ainda se assustam ou se escandalizam com o lucro dos outros. Uma empresa que vai gerar recursos, lucros para o clube, os jornalistas não querem saber do lucro do clube e sim do lucro do outro. Colocam em suspeita, não aceitam, são muito atrasados nesse aspecto, não evoluíram. Nos EUA, no esporte de um modo geral, os profissionais de imprensa querem saber quanto custa, qual a dimensão do negócio. Na Europa, também: querem saber quanto custa, como é que se faz, como é a porta de saída, o quanto se pode vender. Por quê? Porque o esporte é do treinador, da comissão técnica, não é das pessoas que fazem negócios. Os jogadores que entram em campo não são de responsabilidade do presidente ou do vice, ou do presidente de marketing. Aqueles caras estão lá para trazer recursos para o clube. A imprensa brasileira está muito atrasada nisso. Nós já divulgamos 200 vezes por meio de nossa assessoria que esse negócio com o Palmeiras é um fundo, como eu expliquei para vocês. Um fundo que tem dinheiro colocado por investidores. Os jogadores que o Palmeiras ou outro clube peça, o fundo vai e contrata. Na hora da venda desses atletas, a rentabilidade do negócio será distribuída entre os investidores do fundo. Até agora eles não falam isso.

Protagonistas – Por falar em assessoria, a sua assessoria de imprensa é interna ou terceirizada?

Hawilla – Era terceirizada. Agora eu estou pedindo mais uma colaboração, do que uma contratação, do Roberto Benevides. É um sujeito sério, conhece esporte, conhece as redações, os principais jornalistas. Que é para divulgar esse negócio do fundo para ver se sai direito.

Protagonistas – Na comparação com a imprensa internacional, ela tem já esse cacoete?

Hawilla – Há muito tempo! Tem jornalistas especializados em Marketing, jornalista esportivo de Economia...

Protagonistas – Onde, na sua opinião, se pratica hoje o melhor jornalismo esportivo do mundo?

Hawilla – Não acompanho muito, mas acho que a Espanha tem um bom jornalismo esportivo. O pior de todos é na Inglaterra. Lá, eles querem massacrar o jogador.

Protagonistas – Deve ser influência dos jornais de escândalos...

Hawilla – Eles só buscam isso...

Protagonistas – Por falar em escândalos, o ciclo de escândalos tem sido o principal combustível do chamado jornalismo investigativo. E ele parece infindável. Como disse a nós recentemente o Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, é pauta segura para muitos anos de Veja. O Brasil teria ficado mais corrupto ou, ao contrário, mais democrático?

Hawilla – Acho que a salvação, a mola propulsora que está levando esse país para frente são a imprensa e a Polícia Federal. Porque é a imprensa que revela os escândalos e a Polícia Federal que prende. E são duas instituições em que a população confia. Então, a imprensa vai continuar sempre divulgando com mais precisão esses escândalos. Não acho que o Brasil ficou mais corrupto. Acho que ficou menos. O que acontece é que a imprensa e a Polícia Federal têm independência. As denúncias são mais divulgadas e apresentadas à população. Há cinco anos, se alguém falasse em grampo era um escândalo, o sujeito entrava na Justiça contra a polícia por causa disso. Hoje o País todo está grampeado. Pegam traficante, político corrupto, diretor de estatal, pegam todo mundo e a imprensa divulga. Antigamente tinha tudo isso, e até mais, e não pegavam. O grande trabalho e valor da imprensa é esse, o de divulgar tudo isso.
Protagonistas – Seus negócios, embora privados, acabam sofrendo influência e algum impacto da área política, sejam pelos interesses em jogo, ou mesmo por conta de estar na rota direta da chamada paixão nacional, o futebol. É reconhecida sua habilidade e seu talento para negócios. Eles são também muito necessários nas relações com políticos e com a política? Você mantém uma agenda específica nessa área? Faz lobby?
Hawilla – Zero. Não tenho nada com político, não preciso deles e não tenho o menor interesse em política.

Protagonistas – Não batem à sua porta...

Hawilla – Lógico, mas é mais o pessoal do Interior. Quando chega época de eleição, é uma romaria, todos vêm aqui, candidato a governador, candidato a prefeito, a deputado, para falar e não sei o quê... Mas eu tenho interesse zero em políticos.

Protagonistas – Você não faz nenhum tipo de lobby para as suas empresas?

Hawilla – Nada. Para que eu preciso?

Protagonistas – Legislação, por exemplo.

Hawilla – Nada. Para a legislação de televisão, a Globo é que faz, as televisões é que fazem. Não tenho por quê fazer isso. Tem gente que fala “você precisa de dois ou três deputados lá em Brasília”. Eu??!! Pra quê??!! Não tenho interesse nisso.

Protagonistas – O que você pensa do sistema de representação política do Brasil? E dos nossos políticos?

Hawilla – Eu penso – e é uma opinião geral isso – que o Congresso Nacional, o Senado e a Câmara sofrem sistemática e permanentemente um descrédito geral. E isso irradia para outras áreas de ministérios e governo e de poder político. É permanente. Mas como os políticos não estão muito interessados nisso, eles têm lá a avaliação deles. Tem político que ficou 15 dias na mídia com escândalos sobre ele e no fim ainda achou que foi bom, que lhe deu visibilidade.

Protagonistas – Falem mal, mas falem de mim...

Hawilla – Mas é falar mal do lado ruim, da ladroagem, da corrupção, da falta de decência no desenvolvimento do cargo dele. E no fim da história o cara acha que foi bom. Já teve gente que falou isso. Quer dizer, de um lado temos essa falta de compostura, e, de outro, muito poucos políticos bons, em quem a gente realmente acredita e confia.

Protagonistas – O Brasil assistiu nas últimas décadas a explosão das igrejas evangélicas, hoje presentes em todo o País sob as mais distintas denominações. Cada vez maiores, se transformaram em negócios bilionários, com ramificações em várias áreas. Na mídia, são donas de jornais, revistas e redes de emissoras de rádio e tevê. Também estão cada vez mais fortes na política, participando do jogo parlamentar e mesmo no Executivo. Você acredita que elas constituem uma ameaça à livre iniciativa? Fazem concorrência desleal aos meios de comunicação independentes? Qual o seu pensamento nesse campo?

Hawilla – Uma ameaça é. De concorrência desleal, não cabe a nós falar. Isso é preciso ser visto de que forma eles avançam, crescem e evoluem. É preciso haver sempre uma concorrência a altura da sua, lutando com as mesmas armas. Por aí é que tem ser visto esse negócio.

 

“Sentimos um pouco hoje a falta de mais jornalistas qualificados no Interior. Acho que a maioria dos jornalistas qualificados vem para a capital ou está de olho na capital. O Interior não precisa de jornalistas mais qualificados, mas, sim, de mais jornalistas qualificados.”

 

Protagonistas – Do ponto de vista da legislação, você não acha que essa questão do religioso influindo na comunicação, que vai influir na sociedade, de um modo geral, não merece atenção?

Hawilla – Acho. Como acho que vai acabar sendo controlado. Como se controla tudo. Por exemplo, não pode anúncio de cigarro, não pode bebida de alto teor alcoólico, não pode não sei o quê antes das dez horas da noite... Isso vai acabar sendo regulamentado.

Protagonistas – Olhando as novas gerações, você diria que o jornalismo brasileiro está em boas mãos?

Hawilla – Acho que está, sim. Essa geração vem sendo fornada há um bom tempo.

Protagonistas – Nos seus veículos, você procura equilibrar experiência com juventude? Tem algum filtro? Procura fazer algum curso de atualização? Como você trabalha essa meninada – já que a trabalha bem no esporte – ou pensa trabalhá-la no jornalismo?

Hawilla – Sentimos um pouco hoje a falta de mais jornalistas qualificados no Interior. Acho que a maioria dos jornalistas qualificados vem para a capital ou está de olho na capital. O Interior não precisa de jornalistas mais qualificados, mas, sim, de mais jornalistas qualificados. As faculdades soltam um grande número de jornalistas, mas sem o preparo necessário. Como o mercado é restrito, seletivo, para onde vai toda essa gente? Acaba indo para a assessoria de imprensa de uma loja, de um deputado, do prefeito... Às vezes um enorme talento está num cargo de menor expressão. Porque não há esse filtro.

Protagonistas – No caso da rede Bom Dia, você puxou o patamar salarial um pouco acima do mercado local?

Hawilla – Puxamos, até para termos melhor qualificação dos jornalistas, caso contrário não tiraríamos nada dos concorrentes. Nós também não poderíamos fazer um jornal com jornalistas totalmente desconhecidos na cidade. Podemos levar um editor, levar dois ou três, mas a base tem de ser de profissionais que conhecem e são conhecidos na cidade. Profissionais com fontes, que possam ligar para o presidente da Câmara e ele atender.  Eu quero sempre, cada vez mais, pagar melhor, para subir esse teto, esse patamar.

Protagonistas – Porque a única maneira de levar jornalistas para o Interior é tendo salário e emprego...

Hawilla – É lógico. E a internet não está fazendo esse trabalho. Ela está contratando redator, para ficar só redigindo. Não é jornalista. É gente que é paga por hora, para ficar lá redigindo quatro horas por dia. Jornalista, como sabemos, e vocês mais do que eu, precisa ter aquele talento próprio para o ofício, saber compor e construir uma notícia. Não é ficar redigindo.

Protagonistas – Embora você seja novo ainda, pensa em sucessão, em maior profissionalização do grupo?

Hawilla – Até agora não pensei. Sou supersticioso. (risos)

Protagonistas – Como você se define politicamente? Tem algum partido de preferência?

Hawilla – Não. Eu gostaria muito que os meios de comunicação que nós controlamos apoiassem abertamente políticos honestos, mas o Brasil não está preparado para isso. O público brasileiro não está preparado. A gente vê nos EUA um jornal do porte do New York Times assumir abertamente o apoio a um candidato: fulano é melhor para o país, por causa disso, daquilo e daquilo outro. Vai chegar o momento em que o brasileiro estará culturalmente preparado para isso. Se hoje a gente sair apoiando um candidato, dali para a frente tudo o que noticiarmos a respeito de política as pessoas vão sentir e entender como coisa manipulada, vão dizer que estamos comprometidos com o candidato tal. E começam a circular boatos de que fizemos acertos... Longe disso! Precisamos ter isenção absolutamente total e mostrar que temos essa isenção. Mas isso é um sonho, não é?

Protagonistas – Ideologicamente, você tem alguma posição?

Hawilla – Não tenho uma posição ideológica. Acho que o Lula está fazendo um ótimo governo...

Protagonistas – Você votou nele?

Hawilla – Não. Mas acho ele um excelente presidente, passou a fase do mensalão. Acho que o Serra é um excelente político, sou fã dele. É desses que aparecem poucos por aí.

Protagonistas – Seria o seu candidato para a próxima eleição presidencial?

Hawilla – Não estou fazendo uma revelação, mas uma avaliação, como vocês, como cidadão comum. Qualquer um hoje avalia o Lula como um bom presidente, da mesma forma que avalia o Serra como um bom político.

Protagonistas – Você pensa algum dia em entrar para a política? Ser, por exemplo, prefeito de São José do Rio Preto?

Hawilla – Não! Imagina! Eu nunca vou entrar nisso.

Protagonistas – Você consegue conciliar trabalho e família? Como é a sua vida nesse sentido, já que você parece ter um ritmo frenético de trabalho?

Hawilla
– Mas eu vivo muito para a família, sou muito ligado à família. Temos uma relação muito íntima e muito sólida, eu, minha mulher e meus filhos.

Protagonistas – Primeiro casamento?

Hawilla – Primeiro e único. Dia 6 de fevereiro completaremos 31 anos de casamento.

Protagonistas – Mas você consegue reservar uma parte do seu tempo para viajar com a família, jantar em casa, fim-de-semana?

Hawilla
– Consigo sim. Viajar é meio complicado porque eu não sei viajar como turista. (risos) Se eu não tiver alguma reunião, algum negócio, vou virar um cara desagradável. Eu preciso ter alguma coisa para fazer. Imagina, eu, quinze dias na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia... Fico louco! (risos)

Protagonistas – Tem uma média de quanto tempo passa fora do Brasil por ano?

Hawilla
– Uns quatro meses, mas tudo tiro curto. Sou muito ansioso, não tenho paciência para ficar muito tempo nos lugares passeando. Me sinto feliz assim. Me satisfaz.

Protagonistas
– Você teria uma definição-síntese para o Brasil?

Hawilla
– Acho que o Brasil precisa de organização e seriedade. Se o Brasil caminhar, porque nós melhoramos muito já, estamos melhorando e se continuar melhorando nesses dois aspectos, ele vai ser uma potência gigantesca a médio prazo.

Protagonistas
- Quais suas preferências culturais e artísticas?

Hawilla
– Sou apaixonado por cinema. Mas vou muito pouco ao cinema, assisto mais em casa. Gosto muito de teatro, mas de comédia. Não gosto de peças pesadas. Eu procuro fazer tudo que possa me relaxar. O trabalho é massacrante e eu não vou sair daqui depois do expediente para sofrer, não é? Como o golfe. Adoro golfe, mas faço dele um relax. Não é competição. Se não eu fico louco, o dia inteiro competindo.

Protagonistas - Além do golfe, pratica ou praticou algum outro esporte?

Hawilla
– Joguei futebol muito tempo, um pouquinho de tênis... Depois de velho a gente começa no golfe, que dá pra jogar até os 90 anos, não é? (risos)

Protagonistas – Você investe em arte?

Hawilla – Não, eu tenho alguns quadros, mas não considero como investimento. Gostaria muito de fazer e investir em cinema. Um dia vou fazer isso. Acho que ainda não estou maduro, não tenho tempo.

Protagonistas – Gostaríamos de encerrar essa nossa conversa com um pingue-pongue. Vamos a ele?

Hawilla – Claro.

Protagonistas - Um líder ou ídolo...

Hawilla – Roberto Marinho

Protagonistas – Um livro, um autor...

Hawilla – Eu gostei muito de Códigos da Vida, de Saulo Ramos. É preciso ler este livro. Li uma porção de livros ultimamente, mas esse foi o de que mais gostei. Comprei 12 exemplares para dar para os amigos. Achei de uma lucidez fantástica para se comunicar.

Protagonistas – Uma cidade...

Hawilla – Rio de Janeiro, sou fã da cidade.

Protagonistas – Um país...

Hawilla – Brasil.

Protagonistas – Uma cor...

Hawilla – Azul.

Protagonistas – Um craque...

Hawilla – Pelé.

Protagonistas – Uma música, um compositor...

Hawilla – O Chico Buarque marcou a minha vida. Mulheres de Atenas...

Protagonistas – Uma mulher...

Hawilla – A minha. Eliani.

Protagonistas – Um intérprete...

Hawilla – Tony Ramos.

Protagonistas – Um jornalista...

Hawilla – Paulo Francis.

Protagonistas – Uma reportagem...

Hawilla – Há poucos dias eu estava recordando de uma que me marcou realmente, mas agora não consigo lembrar.

Protagonistas - Uma paixão...

Hawilla – A vida.

Protagonistas – Um sonho...

Hawilla – Ser correto em tudo aquilo que fizer, com amor, dedicação, entusiasmo e vontade.

 


 
 


 
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