Edição 1.411 página 25 Agradecemos aos leitores que enviaram colaborações para recompor minimamente o nosso estoque do Memórias da Redação. Se você tem alguma história de redação interessante para contar mande para [email protected]. Eu era editor do jornal Diário do Interior, em Ji-Paraná, Rondônia. Cheguei à cidade e acompanhei toda a montagem do jornal. Simultaneamente, fazia o noticiário da Rádio Alvorada. E, claro, conversava com as pessoas, conhecendo uma nova cultura. Gente diferente, com outras referências e muito bom papo. É claro que num país tão grande as conversas tomam vários rumos e muita coisa que se fala por lá não se conhece por aqui. Uma delas é que vez ou outra chovia peixe. Quando alguém falava a respeito é claro que eu ria e provocava: − Como pode chover peixe? Nunca consegui ter uma resposta definitiva. Havia várias hipóteses, todas um pouco difícil de acreditar. Nunca na minha vida havia visto ou ouvido falar que chovia peixe. Pra mim era mais uma história que vinha de gerações e as pessoas iam falando umas para as outras. Em um domingo, estava em casa e o Júlio Júnior, que era gerente da Rádio Alvorada, me telefonou: − Zé, choveu peixe lá no transmissor da rádio. Ia desligar o telefone quando ele pediu que eu fosse lá constatar. A informação era segura. É bom lembrar que naquela época a emissora AM precisava de uma torre enorme. Da base dessa torre saiam cabos enterrados, fazendo um círculo. Por esse motivo não se podia plantar nada naquela área. Era só capim, roçado vez ou outra. Ainda incrédulo, fui até a torre. Lá encontrei um casal jovem que me atendeu com muito carinho. Disse que era da rádio e do jornal e que ficara sabendo que teria chovido peixe durante a madrugada. Eles, com a maior naturalidade, conformaram a informação. Perguntei ainda indignado: − Mas onde estão esses peixes? O rapaz, sempre observado atentamente pela esposa, apontou em volta da casa e disse: − Caíram aí no capim. Antes de irmos à caça dos peixes a esposa ainda lembrou: − Quando eu era criança a gente colocava bacia no quintal para pegar os peixes. Confesso que, se pudesse, daria uma grande gargalhada. Mas fomos caminhando pelo capim, observando atentamente. De repente o rapaz se n A história desta semana é novamente de Zeca Pontes (José Carlos Pontes − [email protected]), atualmente vivendo em Votuporanga (SP), que atuou em diversos veículos da capital e do interior de São Paulo e foi colunista do J&Cia Auto. Chovendo peixe agacha e pega um pequeno peixe. Talvez o correto fosse dizer que era minúsculo. Mas, peixe. Andamos mais um pouco e outro, depois mais outro. Comecei a ficar em dúvida se aquilo era mesmo verdade e por um instante pensei que poderia ser alguma brincadeira que estariam fazendo comigo. Então sugeri, apontando para o outro lado, na tentativa de constatar que haviam jogado alguns peixes só ali, para me enganar. Fomos para o outro lado e novos peixes foram encontrados. Não havia dúvida, havia mesmo chovido peixe. Eu estava convencido. Agradeci ao casal e fui para casa. Naquela época a empresa de aviação Taba distribuía gratuitamente o nosso jornal aos passageiros que faziam o trajeto Porto Velho-JiParaná. E na terça-feira o nosso gerentegeral, Luís Rivoiro, acompanhado do Ernesto Carlos Costa, o Kalô, estava na fila para entrar no avião. Ao ver a distribuição do jornal, falou com orgulho, para todos escutarem: − Sou um dos responsáveis para que este jornal exista. Rivoiro vangloriava-se de fazer parte daquela equipe, afinal era o primeiro jornal diário do interior de Rondônia. Mas, ao se acomodar na poltrona, ao lado do Kalô, ele se preparou para ler o jornal, quando deparou com a manchete de primeira página: “Choveu peixe em JiParaná”. Ele dobrou o jornal, acomodou-se melhor e falou pra o Kalô: − Vamos fingir que estamos dormindo, mas quando chegar em Ji-Paraná eu mato o Zé Carlos. Até hoje sofro com gozações a respeito desta manchete, mas que choveu peixe em Ji-Paraná, isso choveu. Eu vi. (NdaR.: O fenômeno ocorre quando um tornado ou um vento muito forte se forma com grande velocidade em lugares abertos, recolhendo pequenos objetos e animais, como rãs, peixes e aves, suspendendo-os a grandes altitudes. Quando o vento diminui, os animais caem.) Zeca Pontes
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