Jornalistas&Cia 1470

Edição 1.470 página 5 De Londres, Luciana Gurgel Para receber as notícias de MediaTalks em sua caixa postal ou se deixou de receber nossos comunicados, envie-nos um e-mail para incluir ou reativar seu endereço. Em meio às preocupações da indústria de mídia com a perda de audiência, a CNN Internacional escolheu trilhar um caminho ousado: passará a cobrar pelo acesso a conteúdo digital a partir do fim deste ano. A aposta na força da marca para angariar usuários pagantes é de Mark Thompson, um executivo de mídia britânico com passagens pela BBC e pelo New York Times, case de sucesso em assinaturas: bateu 10 milhões em janeiro de 2024. Embora a CNN atravesse dificuldades financeiras e a introdução do paywall seja parte de um plano de Thompson para equilibrar as contas, o risco é grande. A edição 2024 do Digital News Report do Instituto Reuters, publicada em junho, dedica um capítulo ao tema. Embora no passado a venda de assinaturas fosse parte importante da receita das empresas jornalísticas e ainda seja vista como oportunidade depois que os investimentos em publicidade foram absorvidos pelas plataformas digitais, o leitor não parece estar muito disposto a pagar para ler notícias que muitas vezes chegam de graça na sua caixa postal ou nos feeds das redes sociais. O estudo constatou que a maioria dos entrevistados (57%) não considera a hipótese de desembolsar qualquer valor. Somente 17% se mostraram abertos a pagar alguma coisa, mas não muito. A adoção de paywall pode resultar na fuga de leitores habituais, reduzindo o tráfego e consequentemente afetando a receita de propaganda. A CNN aparece no relatório do Instituto Reuters como uma das que oferecem todas as notícias ou a maior parte delas livremente, com a expectativa de vender publicidade em torno delas − situação que pode mudar no fim deste ano. Enquanto leitores se mostram reticentes a pagar por notícias, CNN aposta no paywall Outros veículos que fazem o mesmo são a RTL da Alemanha e a Sky News britânica. No caso do Reino Unido a batalha por pagamento é árdua, já que a BBC oferece jornalismo de alta qualidade em seus meios digitais sem paywall. Isso pode explicar por que o país é o último entre 20 nações em uma análise sobre intenção de pagar por notícias: 69% dos entrevistados disseram que não pagam, nem pagarão, ou poderão vir a pagar um valor muito pequeno. O Brasil não foi destacado nesse recorte do relatório, que traz a Finlândia em primeiro lugar. Ainda assim, apenas 43% dos entrevistados finlandeses se disseram abertos a investir em uma assinatura. O New York Times é listado no relatório como praticante de um modelo híbrido, oferecendo algumas notícias gratuitamente e o restante apenas para assinantes. Mas engana-se que pensa que todos os leitores estão pagando caro para ter acesso ao jornalismo do Times ou de outros grandes como ele. O Reuters destaca que muitos assinantes não pagam o preço integral, já que muitas organizações oferecem descontos ou períodos de teste como uma forma de encorajar as pessoas a abrirem a carteira. É uma prática comum nos EUA, e isso pode ter inspirado a CNN. Os três jornais mais proeminentes − New York Times, Washington Post e Wall Street Journal − oferecem valores bem baixos durante o primeiro ano, contando com que o leitor vai se acostumar e continuar. Só que o que custa barato ou nada pode não gerar percepção de valor ou criar fidelidade. O estudo do Instituto menciona uma entrevistada que não renovou a assinatura do Cincinnati Enquirer depois de um período inicial de US$ 1 por nunca ter usado a assinatura − quantos de nós já fizeram o mesmo? A onda de assinaturas pagas ganhou tração na pandemia, quando notícias confiáveis viraram realmente uma questão de vida ou morte. Mas o momento agora é outro. Os influenciadores com canais próprios em redes sociais, vários egressos de grandes empresas jornalísticas, atraem mais público do que grandes marcas de notícias e são vistos como confiáveis, sendo ou não. É diferente da “bagunça” da pandemia. Os canais são estruturados, com programas bem produzidos em áudio e vídeo, muitas vezes competindo com seus ex-empregadores. A conta de influenciador de notícias mais mencionada pelos entrevistados americanos é a de Tucker Carlson, ex-Fox News, com 11,6 milhões de seguidores no X. Outro que não cobra por acesso é Anderson Cooper, da própria CNN, que ficou em 7º lugar entre os influenciadores mais citados. Mark Thompson prometeu uma renovação no jornalismo da CNN, com novos produtos em vídeo oferecendo notícias e análises, aproveitando os talentos da rede, e isso seria a isca para vender assinaturas. A aposta é alta, sobretudo em um ambiente polarizado, em que a emissora é frequentemente atacada por Donald Trump. Independentemente do resultado das eleições, a narrativa trumpista contra a mainstream media, destacando a CNN nos ataques, é mais um elemento que pode afetar a disposição de uma parte do país em dar dinheiro a uma emissora “inimiga”.

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