Jornalistas&Cia 1533

Edição 1.533 - pág. 38 ANOS Estresse com a segurança e exatidão da informação são parte da vida do jornalista. Não sei com precisão qual é o número exato de pessoas envolvidas com o problema. Mas sei que faço parte de um grande contingente que empurra para a frente a hora de trocar o telefone celular velho, desencorajadas pelo medo de perder dados na hora da transferi-los para o novo aparelho. Vivi a experiência recentemente e acredito ser a minha obrigação como repórter fazer um relato do que aprendi para ajudar as pessoas a dar um drible de craque no medo. Para não escrever bobagens, não vou me aprofundar nas questões técnicas da operação. Vamos conversar sobre o assunto. Antes vou fazer um relato para explicar ao leitor que não é jornalista sobre os medos que acompanham a vida profissional dos repórteres. Comecei a trabalhar em redação em 1979 e fiquei por lá até 2014. Logo nos primeiros passos na profissão entendi que era necessário se especializar em alguns assuntos para ser relevante para o leitor. Tornei-me referência em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras com os países vizinhos, em especial o Paraguai. Por conta disso, Carlos Wagner n A história desta semana é de autoria de Carlos Wagner (carloswagnerreporter@ gmail.com), que foi por muitos anos repórter especial de Zero Hora, em Porto Alegre. Ela a publicou em seu blog Histórias mal contadas e nos autorizou a reproduzi-la. Por que os velhos repórteres têm medo de trocar o celular por um novo? Anna Tarazevich sempre viajei muito pelos rincões do Brasil e da América do Sul. E foi em uma dessas viagens que bati de frente com “o maior de todos os medos” presentes no cotidiano do repórter: perder o bloquinho de anotações. Na época, aprendi com os colegas mais experientes que cada bloco deveria ser numerado pela ordem em que fosse usado. E que as anotações deveriam ser escritas com uma letra que não deixasse dúvidas na hora de redigir a matéria. Porque, ao redigir a matéria, não tinha mais como entrar em contato com a maioria dos entrevistados. O celular ainda não existia e mesmo os telefones fixos eram raros. No meu caso, em uma viagem de três semanas eram preenchidos uns 30 blocos de 40 páginas. Nas viagens, fazia parte da rotina do repórter, antes de fechar a bagagem pela manhã no hotel, verificar se todos os blocos de anotações estavam na mala. À medida que o final da apuração se aproximava aumentava o estresse com a segurança das anotações. Vou contar um episódio que vivi em uma manhã, na hora de acertar as contas na recepção de um hotel em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Eram os dias finais de uma viagem de dois meses pelos sertões do Brasil trabalhando em uma reportagem sobre as famílias dos gaúchos e seus descendentes que haviam migrado para as fronteiras agrícolas, como eram chamadas as regiões escassamente povoadas do território brasileiro. Na hora de verificar a bagagem que tinha sido trazida do apartamento por um funcionário do hotel notei a ausência das minhas botas, que eu usava na hora de transitar pelas lavouras. O carregador da bagagem voltou ao apartamento para verificar se as botas tinham ficado para trás. Instantes depois, ligou de lá avisando a portaria que as botas não estavam no apartamento. A notícia causou uma pequena discussão minha com as funcionárias do hotel. Foram poucos minutos de bate-boca, mas que na ocasião pareceram intermináveis. Tudo acabou quando uma funcionária se debruçou sobre o balcão e me perguntou: “Por acaso as suas botas não são estas nos seus pés?” Eram. “São, me desculpem”, respondi, envergonhado. Claro, o meu estresse com a bagagem era causado pelos bloquinhos de anotações. Com diferentes versões, a história das botas é contada ainda hoje nas mesas dos botecos entre os jornalistas.

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