Edição 1.533 - pág. 39 ANOS Na época, além do bloquinho de anotações, os repórteres tinham uma agenda de papel onde eram anotados os nomes das fontes, seus telefones, endereços e outras informações úteis na hora de redigir a matéria. Nos dias atuais, as anotações e a agenda de fontes estão todas guardadas dentro do celular. Pelo que me lembro, desde que tive meus primeiros celulares sempre tive medo de perder informações na hora de trocar o aparelho por um novo. Medo que foi aumentando à medida que surgiam aperfeiçoamentos técnicos que garantiam o armazenamento de novas e diversificadas informações. Lembro de uma troca de aparelho que fiz em 2018. Foram duas semanas de caos na minha rotina de repórter. Várias informações simplesmente desapareceram. Foi esse medo que senti no início de julho, quando o meu celular simplesmente “deu os doces”, gíria de redação para descrever pane. Tinha um compromisso agendado entre os dias 10 a 13, em São Paulo, no 20º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Estavam dentro do meu celular todas as informações sobre a minha participação no evento (passagens aéreas, hospedagem, roteiro das palestras de que participaria e outras). Além da minha agenda de fontes, informações sobre um novo livro que comecei a escrever e do blog Histórias Mal Contadas. Uns quatro dias antes de viajar para São Paulo levei celular a uma loja de consertos da qual sou antigo freguês. Em nome da minha fidelidade com a loja pedi ao técnico que me desse a real sobre o meu aparelho. Ele explicou: “Tem conserto. Mas não tem como garantir que o defeito não volte”. Eu perguntei. “Por que não tem garantia?”. Ele respondeu: “Ele é muito velho e tem um exagero de dados armazenados”. No dia seguinte comprei um aparelho novo e me preparei para o pior. Fazendo várias anotações em um bloco de informações para ter como garantia caso desaparecesse algum dado na transferência para o novo equipamento. Comprei o celular em uma das lojas da operadora da qual sou cliente. Fui atendido por um jovem que iniciou a conversa falando sobre a capacidade técnica do celular que tornava o seu preço uma barganha. A primeira pergunta que fiz foi sobre a transferência de dados. Ele respondeu: “Uma nova lei proíbe que a operadora faça a transferência dos dados entre os aparelhos. Agora, quem faz é uma consultora do fabricante do aparelho. Ela vai estar na loja amanhã, às 10h30min”. O “amanhã” era véspera da minha viagem para São Paulo. Confesso que não dormi direito à noite preocupado com a transferência de dados. Era confortado com a certeza de que, se desse errado, eu tinha as anotações que fiz no bloco. Faltando alguns segundos para as 10h30min eu estava na loja, onde fui recebido pela consultora. Relatei que era um velho repórter que tinha um drama com a transferência de informações. Ela disse: “Fica tranquilo, hoje é feito por um aplicativo”. Perguntei quanto tempo duraria a operação. “Em média, duas horas”, respondeu. A transferência de dados começou pelas 10h40min e foi terminar pelas 19h15min. Arredondando, durou 10 horas. Durante todo o tempo a consultora ficou conversando comigo, dizendo que tudo iria dar certo. Eu insistia na pergunta sobre o motivo da demora. Ela respondeu que era devido ao excessivo volume de informações que estavam sendo transferidas. Lembrei que havia feito uma faxina no aparelho. Ela perguntou: “O senhor colocou no lixo?”. Respondi que sim. “Limpou o lixo?”, foi a próxima pergunta. Respondi que não. “Deveria ter limpado”, ela explicou. “Sabe quantas fotos estão sendo transferidas?” Disse que não sabia. “Estão sendo transferidas 34.804 fotos”, afirmou, me mostrando o número no aplicativo de transferência. A minha preocupação seguinte foi com as senhas dos aplicativos, como Facebook, WhatsApp, Uber e outros que eu não lembrava. Ela me disse para eu ficar tranquilo que o problema seria resolvido. No final da transferência, a consultora falou de uma maneira que me faz lembrar das minhas filhas. Ela disse: “Posso dar um conselho para o senhor?” Respondi que sim. “O ideal é trocar de celular de dois em dois anos para evitar dores de cabeça na hora da transferência de dados”. Pedi para uma das filhas fazer o check-in da passagem aérea no meu novo celular. Ouvi dela umas dicas de como usar o novo aparelho. E fui à luta. No fim, deu tudo certo em São Paulo. Talvez na próxima troca de celular já exista uma nova tecnologia.
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