Jornalistas&Cia 1535A

Edição 1.535 - pág. 6 ANOS ESPECIAL Mas não eram apenas as pautas o alvo da ira dos agentes da repressão. Havia uma guerra de bastidores dentro do regime, um enfrentamento entre uma linha que pregava o início de uma abertura controlada e outra ala, que desejava radicalizar a perseguição a opositores da ditadura, enxergando comunismo em todos os lugares. “Desde o fim do milagre econômico, com a crise do petróleo, a inflação vinha subindo, embora os índices oficiais fossem maquiados, e o descontentamento da população redundou na eleição de oposicionistas em todo o País no pleito de 1974 para o Congresso Nacional”, diz Claudio Cerri, que trabalhou na TV Cultura entre 1972 e 1974 e, no começo de outubro de 1975 estava na redação do Jornal da Tarde. O resultado das eleições de 1974 acendeu um alerta nas alas mais radicais da ditadura. Entre os eleitos, estavam políticos ligados à direção do Partidão, então clandestino, que se abrigaram no grande guarda-chuva oposicionista do MDB. O regime havia derrotado as guerrilhas e a luta armada urbana no auge da repressão do governo Médici, mas a crise econômica e a ameaça real de vitórias expressivas da oposição, em eleições que pareciam controladas para dar hegemonia à Arena, provocaram reações nos mais profundos porões da ditadura. Operações paramilitares como a Oban – Operação Bandeirante, financiada por empresários e órgãos de repressão como o DOI-CODI e o DOPS, queriam entrar em ação para perseguir aqueles que lutavam pela democracia ocupando espaços em suas atividades profissionais, candidatando-se em eleições locais e nacionais, tentando retomar a mobilização do movimento estudantil, atuando nas oposições sindicais e nas pastorais sociais da Igreja Católica. Gabriel Priolli recorda que no primeiro semestre de 1975 os estudantes da Escola de Comunicações e Artes da USP, a ECA, entraram em greve, algo que não acontecia no movimento estudantil desde os tempos do AI-5 (1968). “Foi um semestre praticamente inteiro de greve, com uma mobilização que rendeu a criação do DCE Livre, da USP, ainda clandestino, e se espalhou por outras universidades do País. Não por coincidência, boa parte dos alunos e alguns professores trabalhavam na TV Cultura e havia uma ligação muito forte entre a TV e a ECA”, ressalta, lembrando que no começo do segundo semestre, com a retomada das aulas, Herzog começaria a lecionar na cadeira de Telejornalismo, depois de um movimento em que alunos pediram sua contratação. Foi um curto período de convivência, como recorda José Vidal Pola Galé, que era aluno da ECA e trabalhava na Agência Folha: “Tivemos pouco contato, porque logo depois do início do semestre letivo fui levado ao DOI-CODI e fiquei preso por um longo tempo, quase sem notícias do que acontecia fora do cárcere”. Essa confluência chamou a atenção do aparelho repressivo, que voltou suas baterias para os jornalistas, com a criação da Operação Jacarta, como lembra Luís Nassif. “Os dias que antecederam a morte de Vladimir Herzog foram pesados. Eu morava em um pequeno apartamento na região da Liberdade. Toda manhã acordava, passava em frente à banca de revistas, temendo ler alguma notícia de prisão de colegas. Era o fantasma de todos os jornalistas, uma suposta operação, articulada pela José Vidal Pola Galé

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