Jornalistas&Cia 1535A

Edição 1.535 - pág. 7 ANOS ESPECIAL repressão, destinada a eliminar de uma vez milhares de opositores do regime”. O nome Operação Jacarta não era um acaso, como lembra Cerri. Fazia alusão ao assassinato em massa de militantes do Partido Comunista da Indonésia, cujo resultado foi a morte de pelo menos meio milhão de pessoas, com algumas contagens falando em até 1 milhão de vítimas. Campanha infame contra os jornalistas Pressionados pela conjuntura econômica e política nacional e pela comunidade internacional – à qual chegavam constantes denúncias de violações dos direitos humanos, com forte repercussão de casos como o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, os assassinatos de estudantes como Alexandre Vannucchi Leme, militantes como Carlos Marighella e Stuart Angel Jones –, os representantes da linha dura do regime, liderados pelo general Silvio Frota, precisavam de um pretexto para colocar seu aparato de terror em andamento. E a encontraram nas colunas publicadas no jornal Shopping News por Claudio Marques, um notório anticomunista, que acusava sistematicamente o jornalismo da TV Cultura de apologia ao comunismo, apelidando a emissora de “Vietcultura”, em alusão ao Vietnã do Norte, então em guerra contra os Estados Unidos. As colunas de Marques reverberavam na Assembleia Legislativa paulista, onde os deputados José Maria Marin e Wadih Helou faziam discursos inflamados contra os jornalistas da emissora estatal e cobravam sua demissão, acusando também o governador Paulo Egydio Martins e o secretário estadual de Cultura, José Mindlin, de acobertar “um bando de comunistas”. Foi nesse contexto que jornalistas da TV, assim como de outros veículos, começaram a ser levados à sede do DOI-CODI para depoimentos. Muitos deles ficaram presos por semanas, meses, inicialmente de forma não oficial, como aconteceu com Pola Galé: “Eu estava no DOI-CODI sem uma acusação formal, foi só depois de algumas semanas que me levaram ao DOPS, na Luz, e abriram um processo na Justiça Militar, onde fui finalmente julgado, antes de ser posto em liberdade”. Alguns jornalistas escaparam da prisão, mas não do medo e da apreensão permanentes. Foi o caso de Fernando Morais. “No final da tarde do dia 24 de outubro, oficiais do exército foram à minha casa. Não me encontraram e foram então para a sede da editora onde eu trabalhava. Lá foram recebidos pelos meus chefes, Samuel Wainer, Domingos Alzugaray e Luís Carta. Enquanto Alzugaray e Carta enrolavam os militares com cafezinhos, Samuel Luís Nassif Fernando Morais

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