Edição 1.543 - pág. 29 ANOS lutando para manter a caminhada em linha reta. Estava dando os primeiros passos para se adaptar à sua nova condição de mobilidade. Falo bastante com ele ao telefone e percebo que sua energia, agora aos 70 anos, vem continuamente sendo renovada. Como eu disse, resignação. A nova condição não tem volta. Então, ou você se adapta a ela, ou morre, ainda que em sentido figurado. Ele se adaptou, felizmente para nós, seus amigos. Mas eu não sei se me adaptaria. Não sei se conseguiria deixar de ver a novela, saber se está sol apenas olhando pela janela, saber que aquele barulho são as ondas batendo, acompanhar os pés de alface crescendo na horta, deliciar-me com a beleza feminina passeando na praia, escrever, escrever e escrever, corrigindo meu próprio texto, escolher as imagens que vão ilustrar a postagem, mexer com as imagens no Photoshop, rabiscar a aprender a pintar com aquarela, dirigir pelo trânsito caótico, jogar paciência spider no celular, fotografar a natureza, que parece cada vez mais exibida e fotogênica... Não sei realmente se conseguiria. Em tempo: para me ajudar com as expressões latinas evanescat lux (evaneçase a luz, o oposto de faça-se a luz – fiat lux) e fiant tenebrae (façam-se as trevas), contei com a sabedoria e boa vontade do sobrinho Marcello Peres Zanfra, doutor em Letras Clássicas pela USP. Às vezes, fico pensando como seria perder a visão depois de velho. É claro que deixar de contar com qualquer dos sentidos ou faculdades motoras e intelectuais deve ser difícil – só para comparar: fiquei apavorado quando perdi o olfato por um único dia, por causa da Covid –, mas ficar sem enxergar deve ser o pior dos calvários. Fiant tenebrae, façam-se as trevas, ao contrário da ordem divina para o surgimento da luz. Se você perde o movimento das pernas, passa a se mover com uma cadeira de rodas. Se fica surdo ou mudo, pode expressar-se por sinais ou pela escrita. Mas, e se ficar cego? Passa pela minha memória um trecho da peça O milagre de Anne Sullivan, que assisti na minha adolescência, em que Hellen Keller aprende a se comunicar por pressões nas palmas das mãos... Mas ela nasceu assim! Era cega, surda e muda de nascença! Portanto, por ser deficiente desde o berço, não teve a supressão dos sentidos através dos anos e não teve de aprender a viver sem eles. Mas quando isso acontece quando alguém já viveu parte sua vida – mais da metade, às vezes – e tem de se acostumar à ausência de algo que fazia parte de sua tarefa de viver? O inspirador desde texto é o amigo Assis Ângelo, jornalista tarimbado, pesquisador e estudioso da cultura popular, que há mais de dez anos teve descolamento de retinas e perdeu a visão dos dois olhos. Trabalhador incansável, ele não parou até hoje. Aliás, está até produzindo mais. Mas é claro que não consegue fazer as coisas sozinho: depende de alguém para ler para si, depende de alguém para digitar seus textos, depende de alguém que substitua a função de seus olhos – embora ele diga que não está enxergando, mas que não perdeu a visão. Aprendi com ele que a adaptação ao novo estágio da vida depende de resignação. Quando o visitei, logo no início do trauma, peguei-o medindo os passos entre o sofá da sala e a porta do apartamento e entre a porta do elevador e a portaria do prédio, ainda manuseando tropegamente a bengala apropriada e n A história desta semana é de Marco Antonio Zanfra ([email protected]), nosso assíduo colaborador. Ele diz que o texto não faz exatamente o estilo de um Memórias da Redação, “mas lembrei-me dele quando soube da homenagem, em maio de 2025, ao incansável Assis Ângelo com o Prêmio Notório Saber pelo Governo do Estado de São Paulo. Escrevi no início de 2023, inspirado exatamente por ele, ao ter perdido a visão depois de velho. Se couber a publicação...” Evanescat lux Jorge Araújo Assis com o mais recente livro de Zanfra, lançado em 18/10, e em casa, no dia anterior
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