Jornalistas&Cia 1554

Edição 1.554 - pág. 34 ANOS da queda abrupta do real eram mais nítidos, no encontro do estado com Paraná e Argentina. Lá, mesclavamse cidades de cada lado e cidadãos circulavam sem barreira. Com Magoo, motorista do jornal, cruzei 750 quilômetros das BRs 282 e 280 em 12 horas, saindo cedo de Florianópolis e chegando de noite em Dionísio Cerqueira (SC). Cortei todo o estado numa linha horizontal entre os seus extremos leste e oeste, com breves paradas em Lages, capital do pinhão, e Chapecó, capital da suinocultura. Fui trajado de colono, com bota e chapéu. No dia seguinte, com poucos metros a pé acessava três cidades, três estados e dois países. Uma só rua ligava os municípios de Barracão (PR), Dionísio e Bernardo de Irigoyen, este já em território argentino. Nessa peculiar área fronteiriça do Brasil vendiam-se fartas mercadorias de todo Mercosul e eram aceitos pagamentos em espécie tanto em reais quanto em pesos e dólares. Sem se dar conta, moradores e visitantes iam de país ou estado a outro nos afazeres rotineiros. Casas, lojas e calçadas compunham cenário de convívio entre legislações, línguas e moedas. Dessa geografia incomum, o que mais me impressionou foi perceber o contraste entre a robustez da antiga escola básica argentina e a arquitetura pífia de sua equivalente no lado brasileiro. Para compor a reportagem, ouvi autoridades, economistas e personagens de ambas as nacionalidades. Seus relatos ajudaram a relatar não só um capítulo decisivo da economia, mas também seus reflexos na vida do povo. Delmo Moreira, o nosso talentoso chefe na matriz paulistana, chamava esse tipo de investida de “operação pé no barro”, essencial ao bom jornalismo. A imagem que mais me marcou dessa cobertura local foi a de dezenas de trabalhadores descendo de ônibus fretado de Salto, interior da Argentina. Em poucos minutos, o bagageiro estava abarrotado – sobretudo de latões de óleo de soja. Estava ali a síntese de como grandes decisões econômicas em Brasília atravessam a fronteira e chegam aos lares de gente simples. No mesmo gancho do câmbio desvalorizado, a sucursal de Belo Horizonte foi atrás de outro ângulo. Em Governador Valadares (MG), a reportagem da Gazeta foi verificar in loco o efeito positivo sobre o mercado imobiliário da cidade do aumento repentino e substancial no valor em reais das constantes remessas de dólares pelos milhares de seus imigrantes nos Estados Unidos. A súbita e expressiva perda de valor do real foi logo chamada pela oposição de estelionato no pleito de outubro de 1998, que reelegeu FHC. A acusação era que o governo escondeu a gravidade da crise cambial e manteve a divisa valorizada artificialmente só para garantir a vitória nas urnas, promovendo o ajuste doloroso imediatamente após a posse do segundo mandato. O medo da volta da hiperinflação levou o Banco Central a elevar em março de 1999 a taxa básica de juros (Selic) para incríveis 45% anuais, encarecendo crédito e freando o consumo das famílias. Dessa turbulência emergiu o novo marco da política macroeconômica do País. para restaurar a credibilidade perdida, o tripé formado por metas de inflação, câmbio flutuante e busca de superávit fiscal primário, pilares da estabilidade nos anos seguintes. Lançado em 1º de julho de 1994, no governo Itamar Franco, o real chegou valendo praticamente um dólar, o preço do quilo de frango à época. Estavam sepultadas três décadas de inflação crônica e planos fracassados. Mas com o dólar hoje na casa de R$ 5,30, a moeda acumula desvalorização nominal superior a 400% frente à divisa americana desde o seu lançamento. Silvio, na tríplice fronteira Jornalistas&Cia é um informativo semanal produzido pela Jornalistas Editora Ltda. • Diretor: Eduardo Ribeiro ([email protected] – 11-99689-2230) • Editor executivo: Wilson Baroncelli ([email protected] – 11-99689-2133) • Editor assistente: Fernando Soares ([email protected] – 11-97290-0777) • Repórter: Victor Felix ([email protected] – 11-99216-9827) • Estagiária: Hellen Castro ([email protected] - 11-97770-8574) • Editora regional RJ: Cristina Vaz de Carvalho 21-99915-1295 ([email protected]) • Editora regional DF: Kátia Morais, 61-98126-5903 ([email protected]) • Diagramação e programação visual: Paulo Sant’Ana ([email protected] – 11-99183-2001) • Diretor de Novos Negócios: Vinícius Ribeiro ([email protected] – 11-99244-6655) • Departamento Comercial: Silvio Ribeiro ([email protected] – 19-97120-6693) • Assinaturas: Armando Martellotti ([email protected] – 11-95451-2539)

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