Edição 1.557A - 7 de abril de 2026 ANOS Momento de celebrar o jornalismo que ajuda a salvar vidas DIA DO JORNALISTA ESPECIAL
Edição 1.557A - pág. 2 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Momento de celebrar o jornalismo que ajuda a salvar vidas Especial é dedicado aos jornalistas especializados em saúde, ciência e bem-estar, a cada dia mais imprescindíveis na valiosa missão de levar informação confiável e combater fake news Nesta terça-feira (7/4) os jornalistas brasileiros celebram o seu dia, numa efeméride que foi criada para homenagear a data de fundação da ABI, 108 anos atrás, em 7 de abril de 1908, no Rio de Janeiro, cidade que continua a abrigar a sede da instituição, em seu belo, ousado e histórico prédio no centro, da cidade. Neste ano, nossa escolha recaiu sobre um tema que cresce cada vez mais em relevância e pertinência e que continua a enfrentar a incompreensão e mesmo o desprezo de parte da sociedade, em especial os chamados negacionistas: o jornalismo especializado em saúde, ciência e bem estar ou simplesmente o jornalismo que ajuda a salvar vidas. Decidimos ouvir alguns dos nomes que mais têm se dedicado à cobertura desse segmento do jornalismo, incluindo alguns dos nomes que tem se destacado no Prêmio Einstein +Admirados da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar, que este J&Cia tem a honra de organizar, para ouvir de quem está no calor da luta suas considerações sobre onde estamos indo bem, onde precisamos melhorar, o que pensam dessa atividade e, mesmo, no caso dos campeões da premiação, um pouco de suas aptidões e gostos pessoais. Também fomos a campo ouvir alguns executivos de empresas que têm organizado premiações jornalísticas focadas na área, para avaliar os benefícios que esse investimento tem trazido para as causas que abraçam e para a reputação das marcas, reservando para a parte final da edição uma síntese das principais premiações dessa área em curso no País. O trabalho contou ainda com uma entrevista especial com a pesquisadora Helena Dutra Lutgens, presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo, que mostra a situação de penúria e descaso do poder público para com essa categoria profissional, que, historicamente, tem sido essencial para o desenvolvimento da ciência não só para o Estado de São Paulo, mas para todo o País. É a nossa contribuição e o nosso reconhecimento a todas e todos os profissionais que incorporaram a ciência em seu dia a dia, levando para a sociedade informações valiosas e úteis para uma vida melhor e mais saudável. Ficam aqui também registrados os nossos agradecimentos à equipe de J&Cia que cuidou com carinho e esmero desse especial, integrada pelo editor executivo Wilson Baroncelli, pelo editor assistente Fernando Soares e pelo repórter e coordenador do Portal dos Jornalistas Victor Félix Arakaki. E a todas as marcas que responderam ao nosso convite, apoiando a iniciativa Boa leitura! E se gostarem, compartilhem!!! Eduardo Ribeiro ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A
Edição 1.557A - pág. 4 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Em 5 de maio de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional relacionada à Covid-19. Terminava ali a pandemia mais mortal desde a Gripe Espanhola, ocorrida cem anos antes, e que, segundo a OMS, ceifou mais de sete milhões de vidas em todo o mundo, 10% delas só no Brasil. Uma conta difícil de digerir, uma vez que detemos apenas 2,5% da população mundial, mas que poderia ter sido ainda pior. Em um país governado por negacionistas da ciência e da eficácia das vacinas, os esforços da classe médica em não deixar a população desamparada, mesmo colocando suas próprias vidas em risco; da classe científica, ao produzir em tempo recorde uma vacina capaz de proteger as pessoas; e da imprensa, que trouxe luz e informações em um período de obscurantismo, foram fundamentais para que esse número não fosse ainda maior. Diante da crise de transparência nos dados oficiais e do avanço da desinformação, a imprensa brasileira assumiu um protagonismo vital na linha de frente do combate à pandemia. Um marco desse esforço, por exemplo, foi a criação do Consórcio de Veículos de Imprensa, coalizão inédita entre os principais grupos de comunicação do País, que passou a coletar dados diretamente com as secretarias estaduais de saúde, garantindo à população acesso a números precisos sobre casos de contaminação e óbitos por Covid-19. Somado a isso, o trabalho de jornalistas especializados em Saúde e Ciência tornou-se o principal antídoto contra o obscurantismo, traduzindo complexidades científicas, combatendo a desinformação e reforçando métodos de prevenção baseados em evidências, mesmo quando elas ainda não eram claras. “Eu lembro que o principal desafio, em um primeiro momento, foi fazer uma cobertura praticamente no escuro, de algo com que o mundo estava aprendendo a lidar simultaneamente. Como poderíamos noticiar uma informação confiável se, no início, nem os especialistas sabiam direito do que se tratava?”, lembra Diogo Sponchiato, redator-chefe da Veja Saúde. “Depois veio a necessidade de fazer uma cobertura fora da redação, que era algo novo pra gente, e por fim todo o apelo emocional de enfrentar uma situação que estava custando a vida de milhares de pessoas e que a gente não sabia quando acabaria”. Em meio a uma avalanche de informações desencontradas, embates políticos e a propagação de notícias falsas, o jornalismo especializado em Saúde e Ciência ascendeu ao papel de protagonista na imprensa brasileira. Foi um período de relevância máxima para a profissão, embora alcançado, infelizmente, a um custo humanitário com que ninguém gostaria de ter arcado. “Acho que a cobertura do setor amadureceu sob vários pontos de vista durante a pandemia”, afirma Claudia Collucci, O jornalismo que salva vidas Como a pandemia mudou para sempre o patamar do jornalismo especializado em Saúde e Ciência, editorias que seguem em alta, mas agora com outros olhares e desafios Com mais de 700 mil mortos, Brasil viu seus cemitérios colapsarem durante a pandemia Alex Pazuello/Semcom/Prefeitura de Manaus
Edição 1.557A - pág. 6 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A repórter especial de Saúde da Folha de S.Paulo, eleita três vezes a +Admirada Jornalista de Saúde, Ciência e Bem-Estar do Brasil. “Ela evidenciou o papel estrutural do sistema público de saúde e reforçou sua importância. Reportagens passaram a discutir com mais frequência temas como financiamento do SUS, filas e acesso a procedimentos, falta de profissionais, desigualdades regionais etc”. “A imprensa fez um trabalho muito interessante de cobertura durante a pandemia, principalmente porque enfrentava uma questão de desinformação institucional”, acrescenta Theo Ruprecht, fundador do podcast Ciência Suja. “Foi um momento muito delicado, em que surgiram diversas iniciativas que ajudaram a dar contexto e fazer ponderações mesmo diante de muito afã. A prova disso está no fato de a população inteira não ter tomado cloroquina, mesmo com a orientação do presidente da República. Isso se deve em boa parte à imprensa especializada, que mostrou não haver nenhuma evidência científica que justificasse o uso daquele medicamento”. Bióloga com mestrado e doutorado em Zoologia e Paleontologia pela USP, Ana Bottallo dedicou os primeiros anos de sua carreira profissional à pesquisa científica, mas o desejo de comunicar os avanços do setor além das publicações técnicas a levou a se inscrever no Programa de Trainee em Saúde e Ciência da Folha, em 2018. Aprovada, passou alguns meses imersa na redação, mas a primeira oportunidade de fato, na própria publicação, surgiu apenas em 2020, no início da pandemia, para uma vaga temporária em uma editoria emergencial recém-criada para a cobertura da pandemia. O que era para ser um trabalho de três semanas foi ampliado para três meses e acabou se tornando definitivo. “Foi um grande desafio me adaptar ao tempo do jornalismo”, lembra. “Enquanto no mundo acadêmico a gente chega a levar mais de um ano para redigir um manuscrito, ou algumas semanas ou meses para preparar um artigo científico, eu tive que me adaptar a um trabalho que precisava ficar pronto em questão de horas. Mas o que me marcou mesmo foi a intensidade da cobertura. Foi uma vivência pela qual poucas pessoas passaram. Talvez algo só visto na cobertura de guerras. Eu me lembro de acordar, começar meu dia de trabalho e ir dormir pensando na Covid, acompanhando de perto o trabalho do Consórcio de Imprensa e conversando sobre isso com os meus familiares e amigos. Foi uma cobertura que acabou se entranhando de forma muito intensa na nossa vida”. E ainda que não houvesse um consórcio formal entre os jornalistas especializados em Saúde e Ciência, a gravidade da crise sanitária e essa intensidade da cobertura da pandemia forjaram ainda que inconscientemente uma rede invisível de cooperação para combater o obscurantismo promovido pelo governo e a falta de conhecimento global sobre a doença. Isso fez com que jornalistas e publicações da área também se unissem para encontrar a melhor forma de informar a população com qualidade, rapidez e rigor técnico. “Nos dez anos em que venho atuando especificamente nessa área, pude perceber que ela é muito colaborativa e isso cresceu ainda mais nos últimos anos por causa das diversas batalhas que foram travadas, especialmente contra a desinformação e a Covid”, relembra Luana Viana, chefe de Redação e Redes Sociais do Portal Drauzio Claudia Collucci com o troféu de +Admirada Jornalista da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar 2025 O então presidente Jair Bolsonaro “oferece” cloroquina para uma ema no Palácio do Alvorada. Ela recusou Sérgio Lima/Poder360 Luana Viana
Edição 1.557A - pág. 8 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A A Cargill ocupa uma função central na cadeia de suprimentos ao conectar quem produz alimentos com consumidores em todo o mundo. Nessa jornada para a construção de uma cadeia de fornecimento cada vez mais resiliente e acessível, nós reconhecemos e celebramos a missão dos profissionais do jornalismo que se dedicam à informação de qualidade e à transparência. cargill.com.br Semear a informação para colher uma sociedade melhor para todos Varella. “Em Saúde, uma informação errada pode custar diretamente a vida de muitas pessoas, talvez por isso a gente perceba a importância de tantas trocas, com veículos dos mais diferentes portes e focos”. Para Diogo Sponchiato, essa colaboração pôde ser percebida ainda mais entre veículos de Saúde e Ciência, que passaram a se conectar com mais frequência para trocar informações, analisar a relevância dos estudos que surgiam e levar conteúdo de qualidade ao público. “Ela validou também a relevância do espaço de Saúde nos veículos, embora, na minha visão, o número de profissionais dedicados à área tenha se mostrado inferior à necessidade para uma cobertura consistente e ampla. Mas, de maneira geral, evoluímos e saímos ainda mais criteriosos, tanto na avaliação das fontes quanto na análise de estudos”. Entre ensinamentos, lutas conjuntas, dificuldades e mudanças de comportamento, o jornalismo especializado em Saúde e Ciência evoluiu naquele período e hoje, três anos após o fim da pandemia, mesmo com uma queda natural na visibilidade, a cobertura dessas áreas não mais voltou aos patamares de antes da Covid. “Com o fim da pandemia, temas relacionados à Saúde deixaram de fato de ser a manchete do noticiário principal com tanta frequência e perderam um pouco do protagonismo imediato. Mas, acompanhando o setor, a gente tem visto que ainda assim ela entrou de vez no centro do debate e do interesse da sociedade”, explica Natalia Cuminale, fundadora da plataforma Futuro da Saúde. “Acredito que as pessoas estão Nathalia Cuminale
Edição 1.557A - pág. 9 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Além de elétrico, Chevrolet / TETO SOLAR PANORÂMICO: Melhor experiência a bordo / CHEVROLET INTELLIGENT DRIVING: Sistema de auxílio ao motorista / TELA MULTIMÍDIA DE 15,6”: Mais interatividade Desacelere. Seu bem maior é a vida. Os veículos Chevrolet estão em conformidade com o Proconve - Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores. SAC: 0800 702 4200. Conforto e segurança ao dirigir FAÇA O TEST DRIVE E CONHEÇA. Juntos na direção™ NOVO CHEVROLET CAPTIVA EV ESPAÇO PARA A VIDA ACONTECER. cada vez mais atentas aos movimentos, querendo entender mais de ciência, de vacina, de rito científico, como vem ocorrendo neste momento, por exemplo, em relação à eficácia da polilaminina”. A pandemia, com todos os desafios e sofrimentos que trouxe, evidenciou o quanto a Saúde, ou a falta dela, impacta a vida das pessoas. Tanto que, mesmo com o seu fim, a procura da população por informações relacionadas ao tema seguiu alta, porém com novos olhares. Discussões sobre saúde mental, estética e envelhecimento floresceram no pós-pandemia, enquanto lutas antigas, especialmente em relação às fake news, continuam sendo o principal desafio para os profissionais que atuam no setor. Luta pela sobrevivência dá lugar à busca pela qualidade de vida Com o arrefecimento da emergência sanitária global, o jornalismo de Saúde pode finalmente experimentar uma fase de redescoberta e expansão. O cenário pós-pandemia permitiu que especialistas ampliassem o olhar para além do vírus, trazendo luz a temas que amadureceram no debate público. Assuntos como os novos paradigmas da longevidade, as controvérsias em torno das terapias de emagrecimento e a crise silenciosa da saúde mental ganharam profundidade e relevância. “Acho que os sentimentos de medo, de perda, de insegurança e de ansiedade, criados ou ampliados com a pandemia, acabaram, vamos dizer assim, fazendo florescer crises de saúde mental, tanto de ordem de fórum privado como de fórum público”, explica Diogo Sponchiato, da Veja Saúde. “Escalou isso para o problema de saúde pública que de fato é. Hoje você pega muitos estudos mostrando aumento de prevalência de ansiedade, depressão, principalmente no cenário pós-pandemia, e tem um desafio aí, que é muitas vezes essa
Edição 1.557A - pág. 10 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A subjetividade do diagnóstico ao lidar com temas que ainda têm o verniz de tabu. Felizmente, essa pauta conseguiu ocupar seu espaço de uma maneira muito mais forte e atender a uma demanda da própria sociedade”. Além de ampliar a cobertura sobre temas que de certa forma foram impulsionados durante a Covid, o fim da pandemia também trouxe de volta ao debate outras questões de saúde que foram relegadas ao segundo plano durante aquele período, como lembra Claudia Collucci: “Diversas doenças e problemas estruturais de saúde que haviam perdido espaço durante a pandemia voltaram ao noticiário, como câncer e atraso em diagnósticos, doenças cardiovasculares, obesidade e doenças metabólicas, entre outras. A crise sanitária também escancarou o impacto da desinformação, especialmente em temas como vacinas e tratamentos sem evidência, e as desigualdades sociais, raciais e territoriais no acesso à saúde”. Uma amostra de como os últimos anos têm sido marcados por uma profunda mudança na percepção pública sobre o cuidado com a saúde. Se antes a busca por informações era quase toda direcionada à cura de doenças, com o tempo esse foco passou a ser dividido com outras prioridades, como encontrar caminhos para uma vida mais equilibrada e longeva. Diogo Sponchiato
Edição 1.557A - pág. 11 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A “As pessoas estão muito mais preocupadas com a sua própria forma de envelhecimento. Podemos perceber isso no aumento da procura de informações sobre emagrecimento e como melhorar o estilo de vida. Mas infelizmente ainda é comum percebermos a busca de esclarecimentos em lugares errados, com informações tendenciosas, que acabam sendo perigosas para a saúde”, afirma Luana Viana, do Portal Drauzio Varella. Já a cobertura de Ciência, historicamente pautada pela tradução de conceitos complexos para o grande público, passou por uma maturação forçada sob a pressão da Covid-19. Se antes o foco recaía quase exclusivamente em dar visibilidade aos resultados de pesquisas, o cenário pandêmico exigiu uma postura muito mais assertiva e escrutinadora. O jornalista deixou de ser apenas um condutor de descobertas para se tornar um avaliador crítico do processo científico. “Eu acho que a principal lição para o jornalismo especializado em Ciência no pós-pandemia é que a cobertura do setor ganhou um pouco mais de razoabilidade e crítica, melhorando a sua qualidade”, defende Theo Ruprecht, do Ciência Suja. “Um caso claro recente foi o da cobertura da polilaminina. Enquanto a imprensa de maneira geral mergulhou de cabeça e criou um grande alvoroço em cima do tema, os jornalistas que atuam na cobertura da área, em sua maioria, foram mais ponderados, porque sabiam que a pesquisa ainda precisava passar por muitos ritos antes de poder ser comprovada”. A própria ideia da criação do podcast Ciência Suja, como explica Ruprecht, surgiu desse incômodo de encontrar maneiras de cobrir o setor de maneira mais crítica e apresentar os riscos quando a área não é encarada com seriedade. “Eu tinha um incômodo sobre a forma como a cobertura da Ciência era muito pautada pela conclusão e pelo resultado. Se a pesquisa fosse legal e a conclusão fosse bombástica, ganhava repercussão, com as reportagens informando dados quase que automáticos, como número de pessoas, tamanho da eficácia etc. Desse incômodo, decidimos criar um canal que cobrisse ciência pelo lado mais crítico, quase como faz o jornalismo político. Lançamos então o podcast para falar sobre casos em que a ciência foi deturpada, mostrando os riscos que podem surgir quando a gente não cobre Ciência de maneira responsável e os riscos que isso traz para a sociedade”. “A cobertura de Ciência é sensível e perigosa quando feita de forma superficial, como ocorre especialmente com estudos inconclusivos sobre assuntos de grande repercussão ou o uso indiscriminado de medicamentos”, acrescenta Daniel Stycer, editor-chefe do The Conversation Brasil. Lançada em 2011 na Austrália, a plataforma especializada na cobertura científica chegou ao Brasil em 2023 e atua como uma agência de notícias gratuita sobre o tema. Ela também está presente em Reino Unido, Estados Unidos, África do Sul, França, Canadá, Indonésia, Nova Zelândia e Espanha. Vencedor do Prêmio Esso de Divulgação Científica em 1998, Stycer lamenta que a área ainda sofra com falta de investimentos, algo que pouco evoluiu ao longo das últimas décadas. “O setor carece de mais profissionais preparados, de melhores estruturas de divulgação nas universidades e de uma cultura que é muito comum no Estados Unidos e na Europa, mas praticamente inexistente no Brasil, que é o chamado give back, quando exalunos contribuem financeiramente com suas universidades permitindo o investimento em pesquisas, melhoria das estruturas e criação de bolsas de estudo”. Theo Ruprecht Daniel Stycer
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Edição 1.557A - pág. 13 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A A pandemia agora é outra Em um cenário em que a desinformação se propaga com a velocidade superior à de um vírus, a cobertura de Saúde invariavelmente acaba sendo uma das mais atingidas no jornalismo. Impulsionadas por interesses econômicos e políticos, as notícias falsas exploram a vulnerabilidade de pacientes e familiares, oferecendo muitas vezes curas milagrosas e tratamentos sem evidência científica. “O jornalismo está refém de uma situação em que sempre terá que correr atrás das notícias falsas para poder desmascará-las”, afirma Diogo Sponchiato, da Veja Saúde. “Antes mesmo de podermos agir para publicar informações relevantes, precisamos reagir publicando esclarecimentos sobre a veracidade ou não de muito conteúdo que é distribuído no ambiente digital. Esse trabalho aumentou muito durante a pandemia e confesso que, pela dinâmica de consumo de informação hoje pelas redes sociais, não vejo um cenário de muita melhora. Acho que vamos continuar tendo que travar essa dura batalha contra as fake news por muito tempo ainda”. E quando essa batalha é pessoal e vai além de informações falsas sobre tratamentos, doenças e medicamentos, atingindo diretamente a imagem de profissionais da área? Esse é um problema recorrente para a equipe do Portal Drauzio Varella. Fundada pelo médico e cientista Drauzio Varella, uma das vozes mais respeitadas na difusão de informações sobre saúde, ciência e bem-estar no Brasil, capaz inclusive de furar bolhas nos mais variados espectros políticos, a publicação viu crescer nos últimos anos os casos de montagens usando a imagem e a voz de seu criador para vender medicamentos ou tratamentos “milagrosos”. “Diariamente, a gente recebe até 50 mensagens de pessoas perguntando se algo é verdade, mostrando anúncios falsos com a cara do Doutor Drauzio”, alerta Luana Viana, que também é responsável pelas redes sociais da plataforma. “Isso começou em 2018, mas piorou muito nos últimos anos com as deep fakes, onde ele aparece em vídeo e é muito mais difícil de distinguir. E ainda que a gente não consiga desmentir, nossa intenção é pelo menos plantar a dúvida para que as pessoas não acreditem em tudo que assistem na internet. Se a gente coloca para as pessoas pensarem de forma mais crítica, já é um grande caminho”. Esse problema escalou de tal forma que motivou a abertura de um processo movido por Drauzio Varella contra a Meta, dona das plataformas Facebook, Instagram e Whatsapp, por causa da exibição de anúncios falsos com a sua imagem. “Fui obrigado a contratar um escritório de advocacia para tentar tirar do ar essas propagandas, porque a gente tentava explicar, olha, isso aí é absurdo, eles não davam nem bola nem respondiam, você mandava um e-mail e xplicando que aquilo era falso, eles nem não se davam ao trabalho de responder”, declarou Drauzio em entrevista ao Fantástico. Segundo um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que analisou quase 170 mil anúncios no Facebook e no Instagram, mais de 76% são enganosos. E entre os mais de 6 mil analisados individualmente, cerca de 5 mil eram golpes Equipe do Portal Drauzio Varella, com Luana Viana ao centro, celebra a conquista do prêmio +Admirados de Saúde na categoria Áudio, com o podcast Drauziocast Anúncios falsos de saúde explodem nas redes e usam imagem de famosos Reprodução/TV Globo
TOP 10 ENTRE AS EMPRESAS DE MELHOR REPUTAÇÃO DO BRASIL.
Edição 1.557A - pág. 15 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A relacionados à saúde e, neste caso, a imagem de Drauzio Varella era a que mais aparecia indevidamente nos anúncios. São golpes que, apesar do cunho publicitário, impactam diretamente na produção de conteúdo jornalístico e atingem em cheio redações, cada vez mais enxutas e que ainda assim precisam despender um tempo precioso para checar e desmentir desinformações. Esforço esse que consome recursos raros, que poderiam ser aplicados na busca por novos enfoques, na exploração de temas de interesse público e na cobrança por políticas governamentais mais eficazes. Ter fôlego para ir além do óbvio tornou-se um privilégio para poucos, mas que faz toda a diferença, como explica Claudia Colucci: “Como repórter especial, tenho mais tempo para apurar as minhas reportagens e, com isso, não sofro tanta pressão com as redes sociais. Consigo ter o tempo necessário para checar os fatos, ouvir diferentes fontes. Isso é fundamental porque, muitas vezes, elas apontam exageros na interpretação, limitações metodológicas ou conflitos de interesse envolvidos em informações divulgadas nas redes sociais, por exemplo. Isso, sem dúvida, contribui para uma cobertura mais equilibrada”. Mas a verdade, infelizmente, é que essa realidade é cada vez mais rara nas redações brasileiras, que paralelamente sofrem com o quadro desinformativo que vivemos. E, para piorar, o combate a esse mal direcionado a informações sobre Saúde esbarra em uma questão cruel para os profissionais da área: ao desmentir uma fraude, o jornalismo muitas destrói a última barreira de esperança de quem anseia por uma saída, ainda que inexistente, para doenças graves. Assim, a mentira não apenas desorienta o sistema de saúde, mas afeta o lado emocional de uma população que, entre o fato e o alento, torna-se alvo fácil para a desinformação. “Falamos com pessoas que estão sofrendo e procuram uma cura, e quando a gente vai desmentir não é fácil, porque estamos Evoluir exponencialmente. Imaginar parcerias de impacto. Inaugurar iniciativas de valor. Essa é a AXIA.
Edição 1.557A - pág. 16 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Há 38 anos lado a lado com o jornalismo de qualidade Neste Dia do Jornalista, nosso reconhecimento aos profissionais que, todos os dias, defendem a liberdade de expressão, combatem a desinformação e promovem o diálogo que fortalece a democracia e uma sociedade mais justa. 1988 2026 tirando a esperança da pessoa que está sofrendo com aquilo”, lamenta Luana Viana, do Portal Drauzio Varella. Especialista na cobertura de cuidados paliativos e luto, Juliana Kunc Dantas, diretora de comunicação do movimento inFINITO, alerta que, quando uma cobertura envolve assuntos que são tabu, e que mexem diretamente com a saúde física ou mental das pessoas, a precisão da linguagem, mais do que nunca, não é luxo e sim indispensável, inclusive para desmentir informações falsas: “Termos imprecisos ou expressões ultrapassadas podem afetar diretamente a vida das pessoas e o curso do cuidado. É urgente que estejamos todos na mesma página para conseguir superar vícios como ‘perdeu a luta contra o câncer,’ por exemplo. Humanizar a cobertura e cuidar da linguagem é justamente um dos pilares que garantem a objetividade”. As lições para manter o protagonismo É evidente o quanto o jornalismo brasileiro avançou nos últimos anos na cobertura de Saúde e Ciência, mas alguns cuidados ainda são necessários para que estas áreas mantenham seu protagonismo perante a sociedade. Olhar para além dos grandes centros e considerar os desafios enfrentados em outras regiões do País, por exemplo, é essencial para construir um retrato mais justo, diverso e representativo da realidade brasileira e evitar a desigualdade de acesso estrutural e de tratamentos. “O jornalismo precisa oferecer à população orientações básicas que muitas vezes as pessoas não têm, especialmente em regiões onde os acessos não são iguais, como no Norte, por exemplo”, destaca Ana Bottallo. “Quando olhamos a realidade nas comunidades amazônicas ou em cidades com pouca assistência, percebemos a distância da realidade em que elas vivem. Isso ficou Juliana Kunc Dantas
Edição 1.557A - pág. 17 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A muito claro durante a pandemia, quando a quantidade de vacinas distribuídas ou de médicos enviados foi desigual, atendendo precariamente a regiões mais afastadas e periféricas. A gente tem essa lição que fica de que o nosso papel como jornalista não é simplesmente trazer os fatos de maneira crítica, mas também pensar em como essa informação vai atingir de maneira diferente os diferentes públicos”. Paralelamente, aproximar a cobertura científica da população, por meio de uma linguagem mais acessível e com um olhar mais crítico, deixou de ser uma escolha editorial para tornar-se um compromisso com a democratização do conhecimento. “A ciência é complexa e a gente sabe que os cientistas precisam utilizar termos técnicos. Então, nosso papel muitas vezes é fazer essa ponte entre o que eles estudam e o que a sociedade precisa entender daquilo, o que no final é a premissa do bom jornalismo, independentemente da área”, defende Natalia Cuminale, do Futuro da Saúde. Para Claudia Collucci, a simplificação da linguagem científica é necessária para tornar o conteúdo compreensível ao público, mas, se feita de forma inadequada, pode gerar sensacionalismo, falsas promessas e interpretações erradas: “Um bom jornalismo científico deve combinar linguagem acessível, transparência sobre as evidências e cautela na interpretação. Isso permite que o público compreenda avanços científicos sem criar expectativas irreais”. Criador de uma publicação com foco em Ciência, Theo Ruprecht acredita que o formato do podcast acaba sendo um grande aliado para levar informações densas com objetividade ao seu público, inclusive com a possibilidade de explicar com mais profundidade termos técnicos e ritos científicos: “O podcast é uma mídia absolutamente espetacular para isso, porque garante uma taxa de adesão muito acima da média já que permite ouvir quando você está fazendo outras tarefas do cotidiano que não dividem a sua atenção. Por isso nós temos mais tempo para explicar e dar a oportunidade para as pessoas entenderem temas mais complexos a partir de uma narrativa bem construída, é claro, quase como as adotadas nos podcasts de true crime, que fazem tanto sucesso”. Por fim, humanizar as narrativas do setor de saúde é fundamental não apenas para que dados e estatísticas ganhem rosto, contexto e impacto real na vida das pessoas, mas também para aproximar a realidade dos diferentes públicos às questões que são, ou deveriam ser, universais. Para Luana Viana, o principal desafio ainda está na forma como temas sensíveis são tratados. Nesse sentido, diz que trabalhar ao lado de uma referência como o médico Drauzio Varella tem sido uma escola como nenhuma outra. “A primeira lição que aprendemos ao trabalhar com ele é que não devemos nunca culpabilizar as pessoas. Isso nos ajuda a nos aproximar ainda mais de toda a população, com uma linguagem mais inclusiva. Obesidade, por exemplo, não é só sobre emagrecer e falar para fazer exercício. E se estamos falando com uma mãe solo, que não tem rede de apoio? Que horas ela vai fazer exercício? Precisamos entender que o contexto social está diretamente ligado ao que vamos escrever sobre saúde. Como propor tratamentos mirabolantes se muitas das pessoas não tem sequer dinheiro para uma alimentação saudável? Abordar esse e tantos outros assuntos sem culpabilizar o indivíduo é fundamental para uma cobertura mais humana e acolhedora”, conclui. Ana Bottallo, em seus tempos de pesquisa científica
Edição 1.557A - pág. 18 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Jornalismo local, pautas sub-representadas e desafios da profissão: o trabalho de cobertura fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília exemplo, a saúde mental dos cidadãos do Sul do País após as tragédias climáticas e enchentes dos últimos anos? Ou a revolução no trabalho de medicina realizado no Nordeste depois de surtos como zika e dengue? Ou mesmo as particularidades de inúmeras populações amazonenses quando falamos sobre saúde e bem-estar? Foi pensando nesse trabalho que J&Cia conversou com Cinthya Leite (Pernambuco), Silvia Lisboa (Rio Grande do Sul) e Daniela Branches (Amazônia) sobre o trabalho de cobertura e os principais desafios da rotina do repórter nessas regiões, além de temas específicos dessas localidades que acabam não tendo tanta atenção na imprensa nacional. Um trabalho de constância: o jornalismo de Saúde no Nordeste – Cinthya Leite (Jornal do Commercio) Jornalismo de Saúde é, acima de tudo, constância. Independentemente da região ou localidade, é uma editoria que deve ser trabalhada com comprometimento, atualização permanente e rigor na apuração, pois trabalhamos com vidas. É assim que descreve Cinthya Leite, repórter do Jornal do Commercio, de Pernambuco, o trabalho do jornalista de Saúde, Ciência e Bem-Estar. “Estar no Nordeste nos coloca muito próximos de realidades que mostram com clareza como as políticas de saúde impactam a vida das pessoas”, declara Cinthya. “Essa proximidade com o cotidiano da população acaba sendo uma grande força do O jornalismo de Saúde, Ciência e Bem-Estar tem muitas particularidades. Ao escrevermos sobre doenças, tratamentos, pesquisas e qualidade de vida, estamos falando de temas do interesse de toda a sociedade. Afinal, saúde é para todos, e do interesse de todos. Mas, ao analisarmos o panorama de perto, é impossível desconsiderarmos as particularidades de cada estado e região no trabalho de cobertura da imprensa. Saúde e Ciência têm, sim, temas de abrangência nacional, mas é importante também mostrar o que está acontecendo em suas cidades e regiões especificamente. Mais do que isso: por que não estão estampados nas páginas principais dos grandes jornais do Brasil assuntos mais específicos e locais, como, por
Edição 1.557A - pág. 19 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Na Honda, que sonhamos. a inovação move o futuro Cada um tem o seu jeito de sonhar. A Honda sonha com o futuro da mobilidade. Aqui, o presente se move para alcançar um amanhã mais seguro, sustentável e eficiente. Enquanto inovamos, o futuro que sonhamos acontece. jornalismo regional e ajuda a trazer para o debate nacional experiências, problemas e soluções que muitas vezes nascem longe dos grandes centros”. Um dos grandes desafios também enfrentados pelo repórter de Saúde no Nordeste é seguir cobrindo as consequências de crises sanitárias e epidemias, e não “abandonar” o assunto depois que a situação foi controlada, pois muitas famílias ainda sofrem os impactos do que aconteceu. Para a repórter, infelizmente, depois que o pico de crises passa, a imprensa nacional deixa de dar a devida importância a esses temas, e então cabe ao jornalismo local informar a população sobre o que está acontecendo. “Um exemplo muito claro foi a epidemia de zika e o aumento dos casos de microcefalia, no final de 2015. Houve um aumento incomum de bebês nascendo com microcefalia em Pernambuco e, na época, ainda havia mais perguntas do que respostas sobre o que estava acontecendo. A partir dali o tema ganhou dimensão internacional. Mas, como costuma ocorrer em grandes emergências sanitárias, a atenção diminuiu depois que o pico da crise passou. Quem cobre saúde localmente sabe que a história não terminou ali. As famílias continuam enfrentando desafios enormes no cuidado dessas crianças e muitas dessas trajetórias permanecem pouco visíveis fora da região”. Ainda sobre a cobertura de crises sanitárias do tipo, Cinthya explica que as especificidades locais, como costumes, cultura e aspectos socioeconômicos, influenciam diretamente a agenda de cobertura de saúde na região: “No Nordeste, os determinantes sociais da saúde aparecem no dia a dia da cobertura. Muitas doenças e condições de saúde têm relação direta com fatores sociais, ambientais e econômicos. As arboviroses são um exemplo claro disso. Dengue, zika e chikungunya não são apenas questões biológicas; estão associadas a condições de moradia, saneamento, urbanização e desigualdades históricas. Quando
Edição 1.557A - pág. 20 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A cobrimos Saúde, aqui, é impossível dissociar a doença do contexto social em que ela acontece. Por isso, tento sempre trazer esse olhar para as reportagens: compreender que saúde também é resultado das condições de vida da população”. A propósito da cobertura de epidemias como dengue, chikungunya e zika, para Cinthya o trabalho feito durante essas crises foi um verdadeiro marco no jornalismo de Saúde do Nordeste e na trajetória profissional dela: “Em 2015, publiquei no Jornal do Commercio a primeira reportagem alertando para o aumento incomum de casos de microcefalia em Pernambuco, quando médicos e pesquisadores ainda tentavam entender o que estava acontecendo. Foram semanas de investigação jornalística intensa, tentando juntar as peças de um quebra-cabeça que a própria Ciência ainda estava montando. Aquela cobertura mostrou, de forma muito clara, a importância do jornalismo local em momentos de emergência sanitária. Estávamos no epicentro de uma crise que depois mobilizou o mundo inteiro. Também foi um grande aprendizado sobre como traduzir descobertas científicas em tempo real e, principalmente, sobre a responsabilidade de contar histórias humanas em meio a uma crise de saúde pública”. “Quem está nas redações regionais acompanha de perto como as políticas públicas chegam – ou não chegam – à população. No caso da saúde, os impactos das decisões tomadas em nível nacional manifestam-se de maneiras muito diferentes pelo País. Ao longo desses 23 anos cobrindo saúde, vejo que o jornalismo local tem um papel importante de dar visibilidade a essas realidades e de manter temas relevantes na agenda pública, mesmo quando eles já saíram do radar nacional”. Sobre pautas subrepresentadas de Saúde do Nordeste na imprensa nacional, a repórter do Jornal do Commercio cita a diversidade da região, que nem sempre é explicada e destacada quando o olhar vem de fora: “Desigualdades em saúde acabam sendo retratadas de forma simplificada. O acesso a serviços especializados no interior, por exemplo, ou os desafios de regiões com menor estrutura assistencial. Também há questões como doenças negligenciadas, saúde mental e os impactos das condições sociais na saúde que poderiam ser abordadas com mais profundidade”. Cinthya fez praticamente toda a sua carreira no Jornal do Commercio. São 23 anos trabalhando como repórter especializada em Saúde. É a maior campeã da categoria Regional Nordeste do Prêmio Einstein +Admirados da Imprensa de Saúde, Ciência e BemEstar, com o total de três troféus e presença constante entre os +Admirados do Setor. Cinthya em audiência pública sobre as filas no SUS para a cirurgia bariátrica em Pernambuco Cinthya Leite Igo Bione
Edição 1.557A - pág. 21 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Os impactos das enchentes no Rio Grande do Sul na cobertura de saúde – Silvia Lisboa (Fronteira) Ao falarmos especificamente sobre desastres ambientais, o jornalismo deve, mais do que nunca, exercer sua função de prestador de serviços à sociedade, informando o que está acontecendo e trazendo (sempre que possível) soluções para os problemas. Para Silvia Lisboa, sócia-fundadora do estúdio de reportagens Fronteira, em casos como o das enchentes devastadoras no Sul do País, a imprensa tem um papel muito importante de auxiliar a população, informando como se organizar e lidar com o que está acontecendo. Porém, o mais importante, segundo a repórter, são as repercussões depois da cobertura das enchentes. É essencial que, após o trabalho, o jornalismo consiga explicar para as pessoas o que aconteceu, como aconteceu, e o mais importante, as consequências na sociedade, na economia, na vida e na saúde da população: “Nosso desafio é não deixar que essa tragédia seja esquecida. A grande lição que fica é a importância do meio ambiente para a saúde das pessoas e as consequências de catástrofes. E, infelizmente, mesmo depois de tudo o que aconteceu, a gente ainda tem uma tendência a negligenciar essas questões. Então, é essencial entender a importância disso tudo, e o jornalismo é protagonista nesse sentido: em fazer as pessoas entenderem esse cruzamento entre saúde e meio ambiente”. Sobre o trabalho do dia a dia do jornalista no Rio Grande do Sul e pautas sub-representadas na imprensa nacional, Silvia destaca que um dos grandes desafios é conseguir emplacar pautas locais para que tenham a devida importância e repercussão nos grandes veículos brasileiros: “Quando falamos de saúde, estamos falando de pautas que interessam ao público
Edição 1.557A - pág. 22 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A em âmbito nacional, é um interesse mais amplo. De certa forma, os grandes problemas relacionados à saúde são problemas que competem a todos os estados. O grande desafio é: mostrar que existem também profissionais competentes fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília, e mais: abordar temas locais que possam também ser destacados na imprensa nacional. Um interesse para além do estado, não apenas regional e que seja significativo para o País inteiro”. Silvia destaca, por exemplo, questões agrícolas, pois o Rio Grande do Sul é um estado muito agrícola. A repórter tem atuado para ressaltar consequências à saúde pelo uso excessivo de agrotóxicos, por exemplo. Outra questão é a terceirização da saúde no Sul do País e a má gestão por parte do Sistema Único de Saúde (SUS) em hospitais e unidades básicas de saúde de alguns estados, como é o caso do Rio Grande do Sul, segundo a jornalista. E um terceiro tema é a saúde indígena no estado: “Os indígenas do Rio Grande do Sul vivem de forma muito precária. Acho que falta ainda ao jornalismo dar a devida atenção a esse tema, sobre como vivem essas comunidades. Estamos produzindo matérias sobre o assunto, e observamos que os dados de saúde sobre essas comunidades seguem de mal a pior, então seria um tema importantíssimo de ser repercutido também em nível nacional”. Nesse sentido, reitera a importância do jornalismo local como solução para tornar essa cobertura de Saúde mais inclusiva e ampla: “A cobertura local de fato causa transformações, tem um impacto real, permite engajamento maior das pessoas em alguns assuntos. É fundamental para aproximar as pessoas, porque no final é localmente que a gente pode agir. As pessoas se interessam muito mais sobre o que está acontecendo bem próximo delas. Uma simples informação pode ajudar a prevenir uma doença, a se tratar melhor, a esclarecer certas coisas que elas não sabiam, buscar tratamento... Ou seja, conscientizar-se sobre as questões, mas também entender quais são os problemas mais macro para poder agir melhor e buscar soluções”. Silvia Lisboa é sócia-fundadora do estúdio de reportagens Fronteira, que colabora com veículos de todo o País. Antes do Fronteira, foi repórter da revista Amanhã e de Zero Hora. É figura constante do Prêmio Einstein +Admirados da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar, tendo aparecido nos TOP 3 profissionais da Região Sul em três edições da premiação. Dificuldades geográficas: O jornalismo da Amazônia – Daniela Branches (TV Amazonas/Globo) Daniela Branches tem pela frente, diariamente, a complexidade da Amazônia durante suas coberturas, principalmente em pautas relacionadas à saúde e à ciência. Afinal, a floresta que é considerada o pulmão do mundo, é prato cheio de assuntos de interesse não só local e nacional, mas também internacional. Porém, com pautas interessantes vêm também muitos obstáculos que tornam o cotidiano do repórter na Amazônia um grande desafio. “No meu caso, as dificuldades logísticas são o maior deles”, declara Daniela. “As peculiaridades regionais, geográficas, como grandes distâncias, é difícil e até inexistente o acesso a determinados locais... tudo isso torna a cobertura desafiadora”. A repórter também destaca problemas financeiros, no sentido Silvia Lisboa durante o trabalho no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul. Essa foi uma das regiões mais afetadas pela enchente de 2024 Silvia Lisboa
Edição 1.557A - pág. 23 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A de altos investimentos necessários para coberturas em locais mais distantes de Manaus: “Transporte fluvial e aéreo, principalmente. Tudo isso deve ser levado em conta para termos acesso aos lugares. Até para a imprensa amazônica é difícil dar visibilidade a muitos problemas que existem”. As especificidades de cada comunidade, o cotidiano de cada população, bem como a relação deles todos com a natureza e a floresta influenciam as pautas de Saúde, segundo a repórter: “A pouca ou quase nenhuma estrutura vivida em algumas localidades mostra a realidade e nos ajudam a contar histórias da pouca atenção à saúde na Amazônia”. Daniela, assim como as outras colegas, valoriza o trabalho da imprensa amazonense e do jornalismo local para dar visibilidade a pautas que acabam não tendo destaque na imprensa nacional: “São os diferentes lugares que formam o Brasil e assim deve ser no jornalismo. Cada um na sua região de trabalho, buscando informações que possam se integrar aos acontecimentos do País”. Sobre exemplos de pautas extremamente diversas da região amazônica que podem e devem ser melhor abordadas pelo jornalismo de Saúde, Daniela destaca, por exemplo, doenças tropicais e picadas de cobra, descobertas científicas de novas espécies da riquíssima fauna e flora da Floresta Amazônica, ataques de animais como onças, entre outros. “Infelizmente, apenas dão atenção se algo fora do comum ocorrer, e isso precisa mudar, para que tenhamos uma imprensa de certa forma mais justa e democrática. Mas, por aqui, seguimos com nosso trabalho de mostrar o que de fato está acontecendo, e transformar e apoiar a vida das pessoas”. Daniela tem mais de 26 anos de trabalho no Grupo Globo, atuando na TV Amazonas, afiliada da emissora na Amazônia. Venceu em duas edições o Prêmio Einstein +Admirados da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar na categoria Regional Norte. Daniela durante a cobertura da vinda do ex-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a Manaus Daniela Branches
Edição 1.557A - pág. 24 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A A apuração rigorosa e o combate à desinformação são pilares do jornalismo, especialmente na cobertura de ciência, saúde e bem-estar. É preciso ter mais atenção ainda às informações que são publicadas, pois estamos tratando de vidas, da saúde das pessoas, e qualquer publicação equivocada pode ser fatal. Essa reflexão se torna ainda mais importante com a ascensão das redes sociais e dos influenciadores digitais como formadores de opinião. J&Cia conversou com Taise Spolti, colunista do UOL Viva Bem e influenciadora de bem-estar, que esteve na lista dos +Admirados Jornalistas da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar. Ela falou sobre o papel dos criadores de conteúdo no combate à desinformação, especialmente sobre saúde, e também sobre responsabilidade pelo conteúdo publicado nas redes sociais. Leia na íntegra a seguir: Jornalistas&Cia – Explique como funciona sua rotina de trabalho, desde a ideia para um vídeo sobre saúde, a apuração e checagem de informações, até a publicação do conteúdo. Jornalismo x influenciadores e o combate às fake news sobre ciência, saúde e bem-estar Taise Spolti Instagram Taise Spolti – Estou muito imersa nesse mundo, sou formada em educação física e nutrição, então sempre analiso os assuntos sob duas perspectivas. A primeira: o que eu posso ensinar? E a segunda: o que está rolando no mundo, que eu me sinto obrigada a comentar? Ou seja, as matérias abordam tópicos sobre os quais quero ensinar, comentar e compartilhar, baseando-me no que vivo no meu dia a dia no consultório, ou pautas de assuntos mais virais na internet em que eu, como profissional, tenho interesse em comentar, esclarecer e passar essa informação adiante. Outro ponto é a cobertura de eventos e congressos a que sou convidada. Então crio estratégias textuais para compartilhar os assuntos abordados neles. Já na apuração e checagem dessa informação minha base é a ciência e a prática clínica. J&Cia – Como é possível conciliar o lado de influenciadora, buscando audiência e visualizações, mas também o lado jornalístico, com apuração, checagem, ética e responsabilidade sobre as informações e conteúdo que é publicado? Taise – Eu me coloco sempre como profissional da saúde em primeiro lugar. Está na minha rotina a responsabilidade com a ética da classe de que faço parte. Sendo assim, todas as matérias, vídeos, posts de Instagram, serão escritos de modo a me fazer entendida da melhor forma, tal como quando falo com um paciente. Afinal, a boa comunicação depende de ser entendida completamente, e também de facilitar a compreensão do assunto por parte das pessoas. J&Cia – De que forma os influenciadores podem ajudar a disseminar conteúdo de qualidade e bem-apurado, além de combater a desinformação? Taise – Para quem não é da área da saúde e gosta de compartilhar suas rotinas ou opiniões, que é o caso do influenciador, minha orientação é colocar-se no papel de autovigilância. Ou seja, aquela informação que você está dando pode, em menor ou maior grau, fazer mal para alguma pessoa? Se sim, você vai se responsabilizar se for apontado como culpado? Essa autocrítica pode ajudar. O ideal é buscar orientação de especialistas e firmar parcerias com profissionais qualificados antes de divulgar informações de saúde. J&Cia – Você já precisou corrigir fake news e comentários mentirosos entre seus seguidores sobre determinado assunto relacionado à saúde? De que forma podemos lidar com comentários ou mensagens que trazem informações equivocadas ou teorias conspiratórias? Taise – Já precisei combater, assim como já passei por
Edição 1.557A - pág. 25 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A situações de profissionais com conflitos de interesse combatendo uma matéria que publiquei. Minha postura foi a de não combater, mas, sim, chamar pra conversar e apontar os erros caso a pessoa estivesse a fim. Mas é muito complicado, pois é justamente nas redes que esses conflitos engajam as contas que querem que isso aconteça. E tudo isso acaba tirando o foco de assuntos importantes de ciência e saúde. Minha dica é: não morda a isca. J&Cia – Que dicas você dá para jornalistas que pretendem também atuar como influenciadores nas redes, principalmente ao trabalhar com conteúdo sobre saúde? Taise – Atuar com saúde nas redes sociais deve ser visto como trabalho e não como aventura ou desejo incansável por encher a agenda com pacientes ou contratos. Num mundo onde tudo pode ser facilmente pesquisado, destaca-se quem tem senso crítico, base de conhecimento, know how. Justamente por ser muito fácil todo mundo saber de tudo um pouco, o ideal é que o profissional se especialize no seu nicho e saiba muito daquilo. E jamais, jamais, perca a ética em busca de likes. Para além do jornalismo Bate-papo com os vencedores do Prêmio Einstein Não poderíamos fazer um especial dedicado à cobertura de Saúde, Ciência e Bem-Estar sem destacar os vencedores do Prêmio Einstein, realizado pelo Einstein Hospital Israelita em parceria com este Jornalistas&Cia, que destaca o trabalho realizado por profissionais e veículos do setor. A proposta, porém, é um pouco diferente desta vez. Já conhecemos os nomes, seus textos, suas falas, suas coberturas e os serviços prestados à sociedade. Mas o que eles fazem depois que desligam os computadores, fecham os blocos de nota, guardam os gravadores, deixam as redações? Quem são as pessoas por trás da profissão, dos repórteres? Para isso, conversamos com os primeiros colocados de todas as edições do Prêmio Einstein para falar, é claro, sobre o que pensam da cobertura de Saúde, Ciência e Bem-Estar nos dias de hoje e os caminhos da profissão, mas também sobre seus livros e filmes favoritos e o que gostam de fazer quando não estão trabalhando. Confira a seguir as conversas com os três grandes campeões do Prêmio Einstein +Admirados da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar: Claudia Colucci (2025, 2024 e 2022), André Biernath (2021) e Paula Felix (2023). Claudia Colucci Jornalistas&Cia – Como se especializou na cobertura de Saúde, Ciência e Bem-Estar? Claudia Colucci – Sempre tive um interesse genuíno pela área de saúde. Sem saúde, não somos nada. Desde a faculdade lia muito assuntos relacionados à área. No início de 2000, fiz um mestrado em história da ciência e depois uma pós-graduação em gestão em saúde. Essas duas especializações me trouxeram muitos conhecimentos, desde o entendimento sobre os limites do fazer científico até a complexidade das políticas públicas de saúde. J&Cia – Como você enxerga o setor nos dias atuais? Quais são os principais desafios na rotina do repórter de Saúde, Ciência e Bem-Estar? Claudia – Acho que a rotina reúne desafios clássicos do jornalismo – traduzir ciência complexa sem distorcer, avaliar a qualidade da evidência, evitar o sensacionalismo, lidar com pressões de interesses econômicos e institucionais, combater desinformação, dar dimensão humana às histórias e lidar com a incerteza científica. J&Cia – Cite uma cobertura de que gostaria de participar ou uma notícia que gostaria de dar em primeira mão. Claudia – São várias notícias que eu gostaria de dar, mas citaria a cura definitiva do Alzheimer. Há várias drogas promissoras, algumas capazes de desacelerar a progressão da doença em estágios iniciais, mas nenhuma delas é capaz de reverter os danos já causados. Taise Spolti1 PlayBT
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