Jornalistas&Cia 1557A

Edição 1.557A - pág. 11 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A “As pessoas estão muito mais preocupadas com a sua própria forma de envelhecimento. Podemos perceber isso no aumento da procura de informações sobre emagrecimento e como melhorar o estilo de vida. Mas infelizmente ainda é comum percebermos a busca de esclarecimentos em lugares errados, com informações tendenciosas, que acabam sendo perigosas para a saúde”, afirma Luana Viana, do Portal Drauzio Varella. Já a cobertura de Ciência, historicamente pautada pela tradução de conceitos complexos para o grande público, passou por uma maturação forçada sob a pressão da Covid-19. Se antes o foco recaía quase exclusivamente em dar visibilidade aos resultados de pesquisas, o cenário pandêmico exigiu uma postura muito mais assertiva e escrutinadora. O jornalista deixou de ser apenas um condutor de descobertas para se tornar um avaliador crítico do processo científico. “Eu acho que a principal lição para o jornalismo especializado em Ciência no pós-pandemia é que a cobertura do setor ganhou um pouco mais de razoabilidade e crítica, melhorando a sua qualidade”, defende Theo Ruprecht, do Ciência Suja. “Um caso claro recente foi o da cobertura da polilaminina. Enquanto a imprensa de maneira geral mergulhou de cabeça e criou um grande alvoroço em cima do tema, os jornalistas que atuam na cobertura da área, em sua maioria, foram mais ponderados, porque sabiam que a pesquisa ainda precisava passar por muitos ritos antes de poder ser comprovada”. A própria ideia da criação do podcast Ciência Suja, como explica Ruprecht, surgiu desse incômodo de encontrar maneiras de cobrir o setor de maneira mais crítica e apresentar os riscos quando a área não é encarada com seriedade. “Eu tinha um incômodo sobre a forma como a cobertura da Ciência era muito pautada pela conclusão e pelo resultado. Se a pesquisa fosse legal e a conclusão fosse bombástica, ganhava repercussão, com as reportagens informando dados quase que automáticos, como número de pessoas, tamanho da eficácia etc. Desse incômodo, decidimos criar um canal que cobrisse ciência pelo lado mais crítico, quase como faz o jornalismo político. Lançamos então o podcast para falar sobre casos em que a ciência foi deturpada, mostrando os riscos que podem surgir quando a gente não cobre Ciência de maneira responsável e os riscos que isso traz para a sociedade”. “A cobertura de Ciência é sensível e perigosa quando feita de forma superficial, como ocorre especialmente com estudos inconclusivos sobre assuntos de grande repercussão ou o uso indiscriminado de medicamentos”, acrescenta Daniel Stycer, editor-chefe do The Conversation Brasil. Lançada em 2011 na Austrália, a plataforma especializada na cobertura científica chegou ao Brasil em 2023 e atua como uma agência de notícias gratuita sobre o tema. Ela também está presente em Reino Unido, Estados Unidos, África do Sul, França, Canadá, Indonésia, Nova Zelândia e Espanha. Vencedor do Prêmio Esso de Divulgação Científica em 1998, Stycer lamenta que a área ainda sofra com falta de investimentos, algo que pouco evoluiu ao longo das últimas décadas. “O setor carece de mais profissionais preparados, de melhores estruturas de divulgação nas universidades e de uma cultura que é muito comum no Estados Unidos e na Europa, mas praticamente inexistente no Brasil, que é o chamado give back, quando exalunos contribuem financeiramente com suas universidades permitindo o investimento em pesquisas, melhoria das estruturas e criação de bolsas de estudo”. Theo Ruprecht Daniel Stycer

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