Edição 1.557A - pág. 17 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A muito claro durante a pandemia, quando a quantidade de vacinas distribuídas ou de médicos enviados foi desigual, atendendo precariamente a regiões mais afastadas e periféricas. A gente tem essa lição que fica de que o nosso papel como jornalista não é simplesmente trazer os fatos de maneira crítica, mas também pensar em como essa informação vai atingir de maneira diferente os diferentes públicos”. Paralelamente, aproximar a cobertura científica da população, por meio de uma linguagem mais acessível e com um olhar mais crítico, deixou de ser uma escolha editorial para tornar-se um compromisso com a democratização do conhecimento. “A ciência é complexa e a gente sabe que os cientistas precisam utilizar termos técnicos. Então, nosso papel muitas vezes é fazer essa ponte entre o que eles estudam e o que a sociedade precisa entender daquilo, o que no final é a premissa do bom jornalismo, independentemente da área”, defende Natalia Cuminale, do Futuro da Saúde. Para Claudia Collucci, a simplificação da linguagem científica é necessária para tornar o conteúdo compreensível ao público, mas, se feita de forma inadequada, pode gerar sensacionalismo, falsas promessas e interpretações erradas: “Um bom jornalismo científico deve combinar linguagem acessível, transparência sobre as evidências e cautela na interpretação. Isso permite que o público compreenda avanços científicos sem criar expectativas irreais”. Criador de uma publicação com foco em Ciência, Theo Ruprecht acredita que o formato do podcast acaba sendo um grande aliado para levar informações densas com objetividade ao seu público, inclusive com a possibilidade de explicar com mais profundidade termos técnicos e ritos científicos: “O podcast é uma mídia absolutamente espetacular para isso, porque garante uma taxa de adesão muito acima da média já que permite ouvir quando você está fazendo outras tarefas do cotidiano que não dividem a sua atenção. Por isso nós temos mais tempo para explicar e dar a oportunidade para as pessoas entenderem temas mais complexos a partir de uma narrativa bem construída, é claro, quase como as adotadas nos podcasts de true crime, que fazem tanto sucesso”. Por fim, humanizar as narrativas do setor de saúde é fundamental não apenas para que dados e estatísticas ganhem rosto, contexto e impacto real na vida das pessoas, mas também para aproximar a realidade dos diferentes públicos às questões que são, ou deveriam ser, universais. Para Luana Viana, o principal desafio ainda está na forma como temas sensíveis são tratados. Nesse sentido, diz que trabalhar ao lado de uma referência como o médico Drauzio Varella tem sido uma escola como nenhuma outra. “A primeira lição que aprendemos ao trabalhar com ele é que não devemos nunca culpabilizar as pessoas. Isso nos ajuda a nos aproximar ainda mais de toda a população, com uma linguagem mais inclusiva. Obesidade, por exemplo, não é só sobre emagrecer e falar para fazer exercício. E se estamos falando com uma mãe solo, que não tem rede de apoio? Que horas ela vai fazer exercício? Precisamos entender que o contexto social está diretamente ligado ao que vamos escrever sobre saúde. Como propor tratamentos mirabolantes se muitas das pessoas não tem sequer dinheiro para uma alimentação saudável? Abordar esse e tantos outros assuntos sem culpabilizar o indivíduo é fundamental para uma cobertura mais humana e acolhedora”, conclui. Ana Bottallo, em seus tempos de pesquisa científica
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