Edição 1.557A - pág. 36 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A publicou sobre a pesquisa em 7 de março, o Estadão informou que a pesquisadora disse à reportagem que todos os pacientes tratados com a polilaminina tiveram o diagnóstico de choque medular descartado antes da aplicação da substância, já que, sem essa informação, não seria possível saber se os doentes que melhoraram tiveram eventual benefício da droga experimental ou melhorariam de qualquer jeito. Divulgação prematura Para Claudia Collucci, repórter da Folha de S.Paulo especializada em saúde, mestre em história da ciência pela PUC-SP e pósgraduada em gestão de saúde pela FGV, tricampeã do Prêmio Einstein +Admirados da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar, é bem complicado divulgar, com método e eficiência, questões de saúde e ciência, especialmente em situações em que as histórias envolvem sofrimento humano, decisões clínicas complexas e grande impacto social: “Acho que voltamos a enfrentar esse desafio recentemente, na cobertura da polilaminina, uma substância ainda experimental apresentada como uma promessa para reverter lesões medulares. É claro que todo mundo está na torcida para que a substância se mostre segura e eficaz. Mas é imperativo obedecer ao rito da ciência, às fases da pesquisa clínica. Não dá para queimar etapas, por mais esperançoso que pareça o tratamento. Então, ficou muito clara nessa cobertura a diferença de abordagens entre o jornalista especializado em saúde e aquele generalista. Além de jornalista, sou historiadora da ciência. E, nesse percurso de estudo e de trabalho, já me deparei com inúmeras terapias que se mostravam muito promissoras nas fases iniciais e que não sobreviveram aos ensaios clínicos”. Também Mariana Varella, editora-chefe do Portal Drauzio Varella, mestre em ciências e doutoranda em Saúde Global Claudia Collucci na cerimônia de entrega do Prêmio Einstein 2025 Jurandir Santana pela Faculdade de Saúde Pública da USP, considera ter sido prematura a divulgação do estudo. No Linkedin, ela publicou que o trabalho de pesquisa, independentemente da área, é algo maçante e, muitas vezes, pouco recompensador. E que não importa se o pesquisador gosta da sua pesquisa, se crê nos dados que levanta, se acredita que ela vai dar certo: “Toda pesquisa deve seguir o método científico e se basear nas melhores evidências. Até o fim de todo o processo, há incertezas, por isso não é comum que pesquisadores divulguem dados iniciais ainda não submetidos a todos os estudos. Isso pode levar ao que estamos assistindo agora: judicialização, esperança em pacientes, desinformação e pressão política que podem comprometer a qualidade do trabalho”. “Perguntas e dúvidas não significam ataque pessoal à pesquisadora ou à sua equipe e que são legítimas. É preciso apoiar esta e outras pesquisas. Contudo, não é possível dizer que uma substância tem efeito terapêutico antes dos estudos de segurança e eficácia. É isso que especialistas e pesquisadores estão pedindo a todos, incluindo leigos, imprensa e todo mundo que se preocupa com a forma como a pesquisa vem ganhando projeção: calma e rigor, pelo bem da própria pesquisa com a polilaminina, da ciência e da população”. Carlos Orsi, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, afirma em artigo na revista que o nível de ruído em torno do assunto só te m aumentado e que os estudos encabeçados por Tatiana Sampaio já viraram até combustível para a aparentemente inesgotável sede de polarização política das redes, com uma torcida alucinada tentando empurrar vozes mais críticas ou cautelosas para o canto dos “traidores da Pátria”. Autor de Ciência no Cotidiano (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, entre outros livros sobre ciência, Orsi diz que comoção pública em torno de medicamentos ou tratamentos ainda não devidamente testados é sempre preocupante: “A história da ciência em geral, e da medicina em particular, está repleta de fenômenos e curas que foram abraçados pela opinião pública antes do tempo e que acabaram frustrando expectativas ou, até mesmo, causando danos”. Ele cita como exemplos nos últimos dez anos a fosfoetanolamina, a cloroquina e a invermectina. “O fato de Mariana Varella Linkedin
RkJQdWJsaXNoZXIy MTIyNTAwNg==