Jornalistas&Cia 1557A

Edição 1.557A - pág. 38 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Conversamos com Helena Dutra Lutgens, presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), que tem posições muito claras sobre esses temas e tem buscado uma aproximação com a imprensa com o objetivo de melhorar a qualidade da divulgação de pesquisas junto à sociedade. Jornalistas&Cia – A repercussão recente em torno da polilaminina, pesquisada como possível terapia para lesões medulares, reacendeu o debate sobre a divulgação de resultados científicos ainda em fase experimental. O que esse episódio revela sobre a forma como ciência e saúde vêm sendo comunicadas no Brasil? Helena Dutra Lutgens – Pesquisadores, de modo geral, cientistas, costumam dialogar apenas com seus iguais e divulgar seus dados dentro da sua esfera da ciência, daqueles que entendem a sua linguagem, daqueles que compreendem o que está sendo pesquisado ou a importância dos seus resultados, sempre em revistas científicas devidamente qualificadas. Essa é a grande cobrança sobre os cientistas: publicarem em periódicos qualificados. Isso traz notoriedade ao cientista – ter um artigo aceito por periódico com qualificação A, B ou C. Porém, isso não permite o diálogo entre a ciência e a sociedade. E a sociedade é impactada pelos resultados da ciência. Falar da polilaminina é algo óbvio: um resultado como esse vai impactar a vida de muitas pessoas, positivamente – há essa esperança. Então é natural que as pessoas se animem e se comovam com resultados apresentados pelos pesquisadores. Garantir investimento em ciência depende da opinião pública O que não é interessante não é apresentar dados preliminares – é apresentá-los sem dizer que são preliminares. É preciso dizer: temos aqui um resultado bom, interessante, que traz esperança. Porém, precisamos de mais investimento na própria pesquisa para seguir. J&Cia – Na sua avaliação, quais são os principais riscos quando pesquisas preliminares ganham grande exposição pública antes de validação científica mais ampla? Helena – Não apresentar dados preliminares seguramente não traria para a pesquisadora, no caso da polilaminina, o investimento na pesquisa de que ela precisava. Ela relata a luta nos 25 anos de estudo dessa substância para poder manter esse trabalho, inclusive pagando do próprio bolso algumas necessidades que surgiram nesse caminho. O investimento em ciência, o investimento na pesquisa pública, é que deveria ser a pauta – e não a questão se houve ou não sensacionalismo por parte da pesquisadora. Houve um primeiro momento em que se fez uma grande exposição dessa pesquisadora, inclusive da sua vida pessoal, dos seus hábitos – se ela toma cerveja, se gosta de carnaval, se dança. Houve um endeusamento da pesquisadora e, em seguida, esse ídolo foi derrubado, colocando em dúvida todo o trabalho: se havia grupo controle, se não havia, se foi ético, se não foi ético. Ou seja, um grande mérito. A doutora Tatiana tem dois grandes méritos: a descoberta da polilaminina para uso terapêutico em lesões medulares, com grandes possibilidades de sucesso, e também o mérito de trazer o debate sobre ciência para o público geral. J&Cia – Nesses casos, como deveria se dar o equilíbrio de responsabilidades entre pesquisadores, instituições científicas, assessorias de comunicação e jornalistas? Helena – A questão é que as pessoas discutem e debatem aquilo que não conhecem, não buscam conhecer para poder opinar – se a cientista foi ética, se fez grupo controle ou não. Primeiro é preciso saber o que é um grupo controle, qual a importância disso, qual a necessidade desse método e, principalmente, que não existe um único método científico. Nesse sentido, o equilíbrio de responsabilidades entre pesquisadores, instituições científicas, comunicação e jornalistas está justamente nisso: na hora de divulgar dados preliminares, divulgá-los com responsabilidade, dizendo que são dados preliminares, que o estudo precisa avançar, que precisa de investimento. Sem tirar o mérito do trabalho, sem desmerecer o pesquisador e também sem endeusar um pesquisador. Helena Dutra Lutgens Silvio Dutra/Divulgação

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