Jornalistas&Cia 1557A

Edição 1.557A - pág. 39 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A A grande questão aí é investir em pesquisa pública, em ciência pública. E o Brasil, especialmente o Estado de São Paulo, não tem feito isso na medida que deveria fazer. J&Cia – De maneira mais ampla, como a senhora avalia hoje a qualidade da divulgação científica no Brasil e, em especial, no Estado de São Paulo? Helena – Hoje, a qualidade da divulgação científica no Brasil, em especial no Estado de São Paulo, é muito restrita. Você vai procurar um assunto sobre ciência e ele está lá num cantinho meio escondido do veículo de notícias, normalmente como uma pequena nota. A ciência não tem grande espaço na mídia e nem as mazelas que os cientistas têm enfrentado aparecem. De modo que, se a sociedade não conhece as suas instituições de pesquisa, os seus cientistas e os trabalhos que eles desenvolvem – e a importância disso para sua própria qualidade de vida, seja na saúde, na agricultura, no meio ambiente, nas finanças – ela não compreende esse impacto. Cientistas estão trabalhando no sentido de trazer soluções para os problemas da sociedade, mas a própria sociedade desconhece esse trabalho, porque ele não tem espaço na mídia, a menos que seja uma notícia que traga uma novidade imensa, como foi o caso da polilaminina. Uma solução para uma questão crucial, como foi a vacina da Covid-19, ou mais recentemente a vacina da dengue, que teve alguma divulgação, mas não tanta – como se a dengue não matasse suficientemente. De modo geral, a imprensa espera um grande furo. O dia a dia do pesquisador, que está no laboratório estudando bactérias, vírus, mudanças climáticas e seus impactos, isso não é considerado assunto. Há uma barreira na imprensa sobre o que é notícia e o que não é. Da mesma forma que não se leva para a sociedade o trabalho cotidiano dos pesquisadores, também não se leva o impacto das políticas de governo que desmantelam estruturas de pesquisa, cortam orçamento, alteram carreiras e fragilizam a ciência. Isso não chega à sociedade como deveria chegar, com o impacto que deveria ter. Mostrando: essa política vai alterar a produção científica, vai alterar o serviço que é prestado à população. Esse serviço é a busca de soluções para problemas como segurança alimentar, saúde, meio ambiente, água. Os cientistas estão buscando soluções, mas não vão poder continuar da mesma forma porque o recurso foi cortado, porque a carreira foi fragilizada, porque não há reposição salarial. E, ao mesmo tempo, quando vão divulgar seus resultados, não se entende que isso seja notícia. J&Cia – A senhora acompanha as mudanças recentes na estratégia de comunicação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, incluindo a reorganização da Revista Pesquisa Fapesp e a integração com a Agência Fapesp e o boletim Pesquisa para Inovação? (Ver J&Cia 1.553) Helena – O que está sendo chamado de reorganização da revista Pesquisa Fapesp é, na verdade, o desmonte de uma estrutura de uma instituição pública, de uma revista com mais de 25 anos de sucesso na divulgação científica, para “uberizar” esse trabalho. Essa questão da terceirização de um trabalho que é desenvolvido por uma fundação pública é uma linha de governo, um objetivo, um princípio: a terceirização dos serviços públicos. Isso está sendo feito com a Fapesp, como está sendo feito com os institutos públicos de pesquisa e com as universidades. É retirar da sociedade o serviço público e precarizar os resultados desse mesmo serviço. J&Cia – A APqC tem acompanhado o debate sobre a carreira de pesquisador científico no estado. Qual é hoje a situação atual do Projeto de Lei Complementar 9/2025 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, cuja votação havia sido suspensa em agosto do ano passado? Houve avanços ou novas negociações desde então? Helena – O Projeto de Lei Complementar 09/2025, infelizmente, foi aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em outubro do ano passado. A votação foi suspensa em agosto, mas retomou e avançou dentro da Alesp, a despeito de toda a categoria – ou da grande maioria dos pesquisadores – ser contrária a essa mudança. Os pesquisadores mostraram ao governo, em reuniões com a Poder360

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