Edição 1.557A - pág. 40 ANOS ESPECIAL D I A DO J O R N A L I S T A Casa Civil, em debates na Alesp e em audiências públicas, que essa mudança precariza uma carreira fundamental para o desenvolvimento científico do estado. Os institutos públicos de pesquisa de São Paulo atravessam séculos – muitos remontam ao século XIX, anteriores à própria universidade em São Paulo. A estruturação da carreira veio com a Lei 125 dos anos 1970, que completou 50 anos em 2025. Houve uma mudança sem ouvir a comunidade científica, assim como ocorreu com a revista da Fapesp. São ações autocráticas, que extinguem instituições, mudam carreiras e mexem em estruturas importantes. A lei foi aprovada, mas sem regulamentação. Até o momento, não há definição de como será o novo regime de trabalho, que depende de decreto. A lei entrou em vigor em 1º de dezembro e, até agora, não há esse decreto. Também não há definição da comissão que avaliará os cientistas. Tudo isso foi feito sem participação dos pesquisadores. J&Cia – Em um ambiente de grande circulação de informação – e também de desinformação –, qual deveria ser o papel conjunto de pesquisadores, jornalistas e instituições científicas para garantir que a ciência chegue ao público com rigor e responsabilidade? Helena – O estreitamento da relação entre pesquisadores, jornalistas e profissionais da comunicação poderia garantir uma maior integração entre esses profissionais. Os jornalistas, a partir de uma maior compreensão do trabalho das instituições científicas e dos profissionais que atuam nelas, poderiam levar ao público esses trabalhos e seus resultados. Bem como aquelas ações de governo que desestabilizam esse trabalho, que precarizam esse trabalho, que retiram da sociedade um serviço que ela usufrui no dia a dia. Quando uma pessoa senta para comer um prato de feijão ou tomar um café, ela precisa saber que aquilo é resultado de pesquisa – da melhoria do alimento, da produtividade, do acesso. Quando é vacinada e salva de uma doença, precisa saber que isso é resultado de pesquisa pública. Quando usufrui de um parque, de melhor qualidade ambiental, de unidades de conservação, precisa saber que isso é resultado do trabalho de instituições públicas. Quando recebe um alerta da Defesa Civil, precisa saber que há cientistas trabalhando com dados climáticos, mapeamento de risco. Mas isso não chega à sociedade. Um pouco por conta dos veículos de comunicação, que priorizam mensagens de alto impacto, e um pouco pelos próprios cientistas, que falam mais entre si. Há também o receio da exposição. A doutora Tatiana, por exemplo, recebeu críticas e teve sua vida exposta. Existe o risco de não divulgar por estar em fase experimental, mas é importante divulgar – explicando o método, os possíveis resultados e as limitações. As certezas vêm aos poucos. Também é importante divulgar quando uma hipótese não é comprovada – isso também é resultado científico. Muitas linhas de pesquisa foram interrompidas com a extinção de instituições como o Instituto Florestal, o Instituto de Botânica e o Instituto Geológico em São Paulo. Outras foram interrompidas com mudanças em órgãos como a Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Outras estão sendo interrompidas com mudanças na carreira, aposentadorias sem reposição e ausência de concursos. A sociedade não sabe avaliar essas perdas, porque não conhece essas instituições – muitas vezes nem sabe que elas existem, como o Instituto Adolfo Lutz ou o Instituto Agronômico de Campinas. Então, quando perde, não percebe de onde vinha aquele benefício. Garantir investimento em ciência depende da opinião pública. A vontade política nasce da pressão popular. Se a sociedade não conhece suas instituições de pesquisa, não haverá pressão para defendê-las. Jutta Benzenberg |Banco Mundial
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