Jornalistas&Cia 1580

Edição 1.580 - pág. 44 ANOS A morte recente de Carlos Monforte, meu companheiro de Redação do Estadão em meados da década de 1970, me remete a um episódio marcante para mim. O 31 de julho de 1989 foi uma segundafeira. Havia um ano eu trocara o jornal pelo Departamento de Comunicação Social da Salles Interamericana, então uma das maiores agências de publicidade do País, dirigida pelos irmãos Mauro e Luís Salles. Pouco antes do meio-dia Mauro me chamou: “Luís foi sequestrado”. A partir dessa frase vivemos 65 dias de tensão. A par da agência ter de seguir seus processos – e teve recorde de faturamento no período –, tínhamos de administrar o evento incômodo. A mim coube o contato com a imprensa. Por recomendação de Mauro, eu tinha de estar 24 horas/dia à disposição dos coleguinhas. Sobretudo para contestar boatos, que não faltavam. Em um acordo tácito, ninguém divulgou o sequestro. A divulgação, como se comprovou após alguns dias, geraria oportunistas, atravessadores. Mas veio o imprevisto: Carlos Monforte, a partir de Brasília, apresentava o Bom Dia Brasil, e o quadro final era mostrar a manchete dos principais jornais. A última manchete dessa edição foi do Jornal de Brasília, concorrente do Correio Brasiliense: “Publicitário Luís Sales sequestrado em São Paulo”. Corri para a agência e perguntei a Mauro: “E agora?” Ele respondeu: “Não há nada a fazer, a boiada estourou”. Enquanto a família negociava às turras com os sequestradores, eu tentava administrar a imprensa e os boatos gerados por atravessadores. Um deles procurou o Diário do Grande ABC, propondo fazê-lo intermediário. O pessoal n A história desta semana é uma colaboração de Chico Ornellas, uma lembrança de Carlos Monforte, falecido em Brasília em 31/8 (ver J&Cia 1.579). Chico ([email protected]), que trabalhou por mais de 40 anos no Estadão (onde por muitos anos liderou o Curso de Focas do jornal), é conhecido por seu trabalho de resgate da história e da memória de Mogi das Cruzes (SP). Gincana dos sequestradores desse jornal me procurou e os levei a Mauro. Este pediu que os atravessadores dissessem qual cor da bota que Luís usava no momento do sequestro. Voltaram alguns dias depois com a resposta: “Marrom”. “Esquece – disse Mauro – Luís nunca usou botas”. Outro atravessador, identificando-se como Ramon, condicionou a prova de vida pedida pela família à publicação de um anúncio nos classificados do Jornal do Brasil. O anúncio foi publicado, mas não houve prova de vida que informasse o nome da cachorrinha de Luís quando criança. Assim correram 65 dias até o pagamento do resgate de US$ 2,5 milhões. O pagamento foi uma gincana armada pelos sequestradores. A família devia providenciar uma perua Quantum Santana de cor beje e acondicionar o valor do resgate em três sacos de acampamento. Então um único motorista devia se dirigir a um orelhão no bairro do Paraíso e recolher uma mensagem que havia sobre o aparelho. A mensagem o remetia a um túmulo no Cemitério da Consolação. Dalí, o portador e a Quantum foram para um ponto no bairro do Jabaquara. Em seguida, atravessando algumas ruas na contramão, o pagador chegou ao alto de uma escadaria e foi orientado a abandonar a Quantum, descer a escada e tomar um outro carro que havia com a chave no contato. Levando as sacolas com US$ 2,5 milhões. Do Jabaquara foi para a Rodovia dos Imigrantes, estacionou no meio de um viaduto e seguiu a pé, sem olhar para trás. No final dessa tarde Luís Sales tomou um táxi e voltou para casa. Esse sequestro sucedeu ao de Beltran Martinez, três anos antes, vice-presidente do Bradesco, e antecedeu ao de Abilio Diniz, dono do Pão de Açucar, seis meses depois. NdaR: Luís Salles faleceu em 2017 Luís Salles João Sal/Folhapress Chico Ornellas Carlos Monforte

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