Jornalistas&Cia 1388

Edição 1.388 página 27 Nosso estoque do Memórias da Redação continua baixo. Se você temalguma história de redação interessantepara contar mande para [email protected]. A vida corria mansa na pacata vila de Guatapará, pequeno distrito de Ribeirão Preto, com uma população de mais ou menos 800 habitantes. Gente simples, a maioria talhadores da roça e das olarias, ainda sequer imaginavam que não muitos anos mais tarde votariam em plesbicito pela emancipação e criação do novo município. Eu, de minha parte, já um arremedo de jornalista com algumas reportagens no currículo, publicadas em O Diário, jornal da “Capital do Café”, vivia entre as margens do Mogi Guaçu e a estação. Prédio imponente, de concreto e aço, abrigava as plataformas onde estacionavam os trens da Cia. Paulista que trafegavam entre São Paulo e Barretos, e vice-versa − e os da Cia. Mogiana, que levavam para Ribeirão passageiros e cargas transbordados todos os dias, de segunda a domingo. Não havia muita diversão na vila além de pescarias, banhos de rio, jogos de futebol e uns bailecos nos fins de semana, animados por uma vitrola e LPs, que eu só ficava olhando, porque as sequelas da polio me impediam de dançar. Todavia, pelo menos duas vezes por ano um senhor de nome Negrito Landa, dono de um pequeno circo, aportava na vila, armava a estrutura quadrangular num terreno baldio e ficava por ali por pelo menos um mês. Assim, todo fim de semana e nas vésperas de feriados ele abria as portas para apresentar os mesmos números que todos nós já conhecíamos: mágicas, malabarismos, palhaçadas e patacoadas e pequenas peças de teatro encenadas pela própria família. Um desses atores era o filho, a quem n A história desta semana é novamente de Plínio Vicente da Silva ([email protected]), assessor da Prefeitura de Boa Vista. Ele foi chefe de Reportagemdo Estadão e correspondente do jornal em Roraima, onde mora desde abril de 1984. Por causa do tamanho, publicamos a primeira parte nesta edição e a segunda virá na próxima. Plínio Vicente da Silva A noite em que ganhei um beijinho doce − I chamávamos de “Negritinho”, rapazola moreno, cabelos negros lisos, boa pinta, charmoso. Desde a primeira vez que ele veio à vila nos tornamos amigos, mas desta vez a rapaziada passou a ter raiva dele, até mesmo eu. É que, enciumados, nos revoltamos pelo fato de que uma das meninas vila, minha amiga de infância, de quem preservo a identidade por razões obvias e a quem adorávamos por conta de seu jeito sempre alegre e um sorriso lindo, apaixonou-se por ele. Chegou a dizer que estava encantada com o circo, com o rapaz do circo e ia embora com eles. Foi a gota d’água. Para nossa felicidade, ela não foi. Isso depois de uma tremenda bronca que recebeu da mãe, junto com a ameaça de uma reprimenda física − a qual, numa época em que não havia ainda o politicamente correto e nem o ECA, chamávamos de surra. Aos sábados, no entanto, o circo lotava. Quase sempre por conta de atrações que vinham de fora e também quase sempre formadas duplas e trios cantadores de música caipira. E o porquê desse sucesso? Simples: numa época em que a bossa-nova ainda dava seus primeiros acordes, o gênero sertanejo raiz era quase que totalmente predominante no gosto da população local. Nessas ocasiões a plateia ficava lotada. Tudo por conta dos artistas e pelo resultado da divulgação boca a boca, no máximo por panfletagem, quando o marketing digital e as redes sociais eram bruxarias e coisas de outro planeta. Moradores locais disputavam ingressos até com gente de fora, pois vinha povo até das fazendas para assistir aos shows de gente famosa, quase sempre duplas ou trios masculinos. Entretanto, foi uma dupla feminina que acabaria marcando a minha vida e escrevendo uma página da minha história em meados de 1960. Sei disso porque, tendo já completado 18 anos, iria votar pela primeira vez para presidente. Então, certo dia, com o circo de volta, veio a notícia de que na noite do sábado seguinte o palco seria ocupado por Marilene e pela sanfoneira Mary, as Irmãs Galvão. Foi um frenesi geral entre nós, pois elas cantavam um grande sucesso, Beijinho Doce. Foi um tal de correr atrás de ingresso, pois certamente a lotação se esgotaria. Como esgotou. Eu, sem dinheiro, ganhei um de cortesia do galã “Negritinho”. (continua...) ruadeletras.files.wordpress

RkJQdWJsaXNoZXIy MTIyNTAwNg==