Jornalistas&Cia 1518

Edição 1.518 - pág. 32 ANOS Luiz Cláudio Cunha Geraldo Magela/Agência Senado n Continuamos a reproduzir − em capítulos, por causa do tamanho − texto que Luiz Cláudio Cunha (cunha.luizclaudio@gmail. com) publicou no Observatório da Imprensa em homenagem a Vladimir Herzog, cuja morte nos porões da ditadura completa 50 anos em setembro próximo. As outras partes estão em J&Cia 1.509, 1.510, 1.511, 1.512, 1.513, 1.514, 1.515, 1.516 e 1.517. u Cunha era chefe da sucursal de Veja em Porto Alegre e tinha 24 anos em dezembro de 1975 quando recebeu de Audálio Dantas, então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, a tarefa de coordenar a coleta de assinaturas no Sul para o manifesto contra o IPM do “suicídio” de Herzog. u Autor de Operação Condor: O sequestro dos uruguaios, Cunha trabalhou em diversos outros veículos, como os jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Correio Braziliense, Zero Hora, Diário da Indústria e Comércio, e as revistas IstoÉ, Afinal e Playboy. Naqueles tempos em que mataram Vlado (parte 10) Esse era o terreno, agreste como o sertão alagoano, que Audálio Dantas me propunha percorrer, em dezembro de 1975, para recolher assinaturas para o manifesto que contestava o IPM do “suicídio” de Vlado. O pedido poderia ter sido feito ao bravo presidente do Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre, João Borges de Souza, mas a precaução era a mesma exigida em São Paulo: era preciso cautela, para não expor o sindicato numa atividade politicamente provocante e dar aos militares o pretexto fácil da intervenção. Isso explica por que Audálio telefonou para mim, e não para o João Borges, um dos 1.004 ilustres signatários do manifesto Em Nome da Verdade. Três anos depois do assassinato de Vlado no DOI-Codi, a agência do SNI em Porto Alegre fez uma avaliação secreta sobre a imprensa gaúcha. Com todos os preconceitos e vícios típicos da ditadura, o relatório enviado à Agência Central em Brasília, em 20 de novembro de 1978, reflete a visão que o aparato repressivo do regime tinha da mídia de Porto Alegre, que certamente era muito parecida com a que visitamos nos idos turbulentos de dezembro de 1975. [24] Esse era o perfil que o SNI fazia dos principais jornais gaúchos, pouco depois da morte de Vladimir Herzog: 1. Correio do Povo: é o jornal mais tradicional do RS, que se mantém dentro de uma linha de jornalismo conservadora, apresentando as notícias de forma realista, séria e sem deturpações. Geralmente assume O retrato da mídia pelo SNI posicionamento concordante com o Governo Federal. Possui muito boa credibilidade junto à opinião pública; 2. Folha da Tarde: vespertino de linha apolítica. Usa de linguagem moderada e imparcial nos seus artigos. Não faz oposição ao governo; 3. Jornal do Comércio: jornal inteiramente dedicado a assuntos da área econômica. É bastante favorável ao Governo Federal. 4. Folha da Manhã: matutino que frequentemente apresenta notícias e reportagens de conteúdo crítico contrário ao governo. Através de artigos, manchetes sensacionalistas e charges, distorce os fatos, apresentando-os com inverdades ou meias verdades; 5. Zero Hora: jornal de grande circulação no Estado. Em seu editorial posicionase, geralmente, favorável ao Governo Federal. Porém, no seu todo o jornal dá maior destaque para a oposição e para qualquer assunto ou movimento contrário ao governo e ao Regime Político atual. Salienta-se, também, que ZH é o único jornal do Estado que divulga notícias da Agência NOVOSTI (APN) da UNIÃO SOVIÉTICA que, muitas vezes, são incluídas no noticiário de outras agências internacionais, intercalando-se o texto das mesmas, fato ocorrido particularmente nos recentes incidentes do AFEGANISTÃO. 6. CooJORNAL: encontra-se dentro da mesma linha de orientação dos demais jornais da imprensa “ALTERNATIVA”, que atuam no País, apresentando conteúdo frontalmente contrário ao governo, às suas instituições e ao Regime Político implantado em 31 MAR 1964. [25] Logo depois do inesperado telefonema de Audálio, peguei o texto enviado por telex pelo Sindicato de São Paulo, intitulado Em Nome da Verdade,

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