Jornalistas&Cia 1518

Edição 1.518 - pág. 33 ANOS de autoria de Fernando Pacheco Jordão, um dos integrantes da diretoria liderada por Audálio e autor, quatro anos depois, do livro Dossiê Herzog: prisão, tortura e morte no Brasil. O teor do manifesto tinha uma breve introdução e oito perguntas básicas, quase óbvias, para desmontar a farsa do IPM. Fiz três cópias e repassei duas aos meus dois repórteres na sucursal de Veja – Pedro Maciel e Adélia [Dedé] Porto da Silva. Fomos os primeiros a assinar, junto com os outros integrantes de revistas da Editora Abril, cuja sucursal eu chefiava, incluindo jornalistas efetivos, colaboradores freelancers e antigos integrantes da equipe que sempre circulavam por lá. Abriam a fila os fotógrafos Ricardo [Kadão] Chaves, Olívio Lamas e Assis Hoffmann, os repórteres da revista Placar Divino Fonseca e Mário Marcos de Souza, os colaboradores da Exame Maria Iara Rech e Affonso Ritter e minha secretária, Rejane Baeta. Coletar assinaturas para um documento que confrontava diretamente uma investigação viciada do Exército sobre a morte de Herzog só podia ser uma responsabilidade coletiva, nunca individual. Um exemplo é que em dezembro, quando o manifesto começou a correr as redações de São Paulo, o meu repórter Pedro Maciel casualmente estava lá, fechando uma matéria. Na sede paulistana da Veja, no prédio da Abril na Marginal do Tietê, o secretário de redação, o gaúcho Paulo Totti, era o encarregado de colher as assinaturas. Quando Maciel se dispôs a assinar, ali mesmo, o experiente Totti observou: “Pedro, se assinares aqui, tu serás o único gaúcho em uma lista de jornalistas paulistas. E isso vai te expor muito. É melhor esperar que o manifesto chegue a Porto Alegre, para assinar lá”. Audálio nos deu uma semana de prazo, mas achei que a tarefa deveria ser cumprida em um ou dois dias, no máximo, para atrair menos atenção, devido à delicadeza do momento, reduzindo assim nossa presença nas redações. Decidi concentrar nosso esforço – eu, Pedro e Dedé – em cinco desses jornais, que reuniam o maior contingente de jornalistas: os três da Caldas Júnior (Correio do Povo, Folha da Tarde e Folha da Manhã), a Zero Hora e o CooJORNAL. Dedé, a mais simpática do trio, ficou encarregada de visitar a CooJORNAL, a primeira cooperativa de jornalistas do País, fundada em agosto de 1974 na esteira de uma crise na Folha da Manhã, quando 21 jornalistas (1/3 da redação) se demitiram em protesto contra a demissão do repórter Caco Barcellos, autor de uma vigorosa matéria contra a violência policial. Os 66 jornalistas que fundaram a cooperativa se multiplicaram até chegar a 314 associados, editando 33 jornais e boletins para sindicatos, empresas privadas e outras cooperativas, garantindo o sustento de quase 100 jornalistas que realizavam a utopia de uma empresa sem patrões, fazendo um jornal de jornalistas. O CooJORNAL se orgulhava de ter “o maior expediente do mundo”, com mais de 300 jornalistas sem patrão e sem hierarquia, todos nivelados pelo cooperativismo. O jornal, assim, era um bravo integrante da chamada “imprensa nanica”, ao lado de publicações do centro do País como Movimento, Opinião, Versus, Em Tempo, Bondinho, Ex e o venerando O Pasquim, o irreverente semanário carioca que chegou a vender 200 mil exemplares, um sucesso de banca que afrontava a condição de “nanico”. O mensário CooJORNAL se caracterizava por uma pauta criativa, centrada em fatos históricos, remontando episódios e citando personagens da oposição, dissidentes e pensadores de esquerda, que irritavam os militares. Um bom retrato do jornal foi desenhado pela própria Agência Central do SNI, na Informação Confidencial nº 031, de 19 de agosto de 1980, que registrou com inusual precisão: O periódico CooJORNAL, editado pela Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, caracteriza-se por divulgar artigos hostis ao governo. Apesar de a referida publicação ter tiragem de, A cooperativa e seu pequeno jornal: ‘artigos hostis’ e ‘repercussão nacional’, segundo o elogio do SNI Arquivo Coojorna

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