Jornalistas&Cia 1551

Edição 1.551 - pág. 26 ANOS Anos mais tarde me reconciliei com os salesianos, quando, também em Mato Grosso, conheci o missionário Cesar Albisetti (cuja eventual canonização o Vaticano discute). Como Levi Strauss antes dele o padre se apaixonou pelos bororo, mas pelos Orári Mogó-Dóge, levantou seu estranho costume de limparem os ossos dos falecidos que então enfeitam de penas para os ritos fúnebres finais. Orgulhoso, o padre me mostrou um crâneo humano bem ‘patriótico’, pois decorado com penas verdes de papagaio e amarelas de ararajuba. Padre Albisetti estava mergulhado em sua grande obra, ‘Enciclopedia Bororo’ que, anos depois, soube que fora publicada, cujo primeiro volume é um catatau com 1.050 páginas. O que me interessou, porém, é que, ao levantar o vocabulário bororo, língua do grupo Macro-Jê, o padre identificou nove palavras iguais e com o mesmo significado de palavras do grego antigo. Lembro que meus olhos de repórter brilharam, mas ele logo jogou água fria na alma do jornalista, dizendo: “Nem sonhe em escrever que descobri serem os bororos descendentes dos gregos. Sou cientista, tudo que sei é que as palavras nas duas línguas são iguais e tem o mesmo sentido. Esse é o fato, mas paro aí, não tiro conclusões”. Nunca mais vi o padre, que morreu aos 89 anos e foi enterrado tão longe da Milão onde nasceu, mas no Brasil que tanto amou. Fico pensando no contraste. Dois padres da mesma ordem religiosa, um buscava desacreditar e destruir a cultura dos parecís enquanto o outro achava a cultura dos índios tão importante, que fez uma enciclopédia para preservá-la. Esse estava mais próximo de Anchieta o qual, antes de ensinar português aos índios, aprendeu a falar sua língua e a seus alunos, curumins, ensinava canções religiosas vertidas para o tupi. E é pena, mas minha memória de velho não guarda mais a oração a Nossa Senhora, em tupi, escrita por ele, que um dia eu soube e começava assim: ‘Tupãsi poranguetê,’ isto é, Mãe de Deus, muito formosa. Luiz Roberto de Souza Queiroz Estadão/YouTube n Reproduzimos a continuação de uma história de Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto, falecido em 17 de julho passado, que publicamos em J&Cia 1.538. Ele certamente foi o mais assíduo colaborador deste espaço, tanto que ainda temos no estoque algumas histórias que nos enviou e que vamos publicar de vez em quando em homenagem a ele. Como é o caso desta, enviada em 5 de junho passado. u Aproveitamos para pedir aos leitores e leitoras que enviem colaborações para este espaço, pois estão se esgotando as que temos. A caveira enfeitada de penas Jornalistas&Cia é um informativo semanal produzido pela Jornalistas Editora Ltda. • Diretor: Eduardo Ribeiro ([email protected] – 11-99689-2230) • Editor executivo: Wilson Baroncelli ([email protected] – 11-99689-2133) • Editor assistente: Fernando Soares ([email protected] – 11-97290-0777) • Repórter: Victor Felix ([email protected] – 11-99216-9827) • Estagiária: Hellen Castro ([email protected] - 11-97770-8574) • Editora regional RJ: Cristina Vaz de Carvalho 21-99915-1295 ([email protected]) • Editora regional DF: Kátia Morais, 61-98126-5903 ([email protected]) • Diagramação e programação visual: Paulo Sant’Ana ([email protected] – 11-99183-2001) • Diretor de Novos Negócios: Vinícius Ribeiro ([email protected] – 11-99244-6655) • Departamento Comercial: Silvio Ribeiro ([email protected] – 19-97120-6693) • Assinaturas: Armando Martellotti ([email protected] – 11-95451-2539) Padre César Albisetti Enciclopédia Bororo

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