Edição 1.555 - pág. 28 ANOS n A história desta semana é novamente uma colaboração de Plínio Vicente da Silva ([email protected]), que foi chefe de Reportagem do Estadão e correspondente do Grupo OESP em Boa Vista. Hoje é assessor especial da Prefeitura e decano dos jornalistas de Roraima. Publica quinzenalmente no J&Cia o Tuitão do Plínio, onde se dedica a ensinar aos focas a arte de escrever histórias em apenas 700 caracteres, incluindo os espaços. Plínio Vicente da Silva O colibri e o sorriso do menino Nas manhãs em que os papagaios se ajuntam numa algazarra onomatopaica para vir bicar os frutos da mangueira no fundo do quintal daqui de casa, ainda bem cedo, ao perceber os primeiros raios de claridade, caneca de café na mão, gosto de sair ao relento para olhar o céu e saber como será mais um dos meus dias. Neste final de fevereiro encontrei o firmamento coberto de nuvens, que assim ele se mostra nesta quadra em que se aproxima o início do inverno amazônico; Recebi no rosto as carícias de uma brisa manhosa, um pouco mais fria. Para os roraimenses nativos e também os roraimeiros, gente que veio de fora, mas fincou raízes nesta terra e já mora aqui de vez, acostumada com os costumes e saberes locais, esse vento constante, friorento no comecinho das manhãs, tem um nome: cruviana. Está no Aurélio, mas explicando melhor: são os alísios que vêm do hemisfério Norte. Como nesta época do ano lá é inverno e aqui se vive ainda pleno verão, o vácuo quente atrai essa corrente que atravessa uma fenda do Maciço das Guianas e desce pelos vales dos rio Tacutu e Branco para varrer boa parte de Roraima. Voltando à brisa que acariciava meu rosto, ela me dizia, em correntes ritmadas, umas mais velozes, outras mais lentas, que a chuva não tardará; de início leve e espaçada, as primeiras águas de março, para agudizar-se em abril, quando muito mais dela cairá dias afora e nos meses mais à frente. Então me veem pensamentos soturnos, que me obrigam a trocar o sorriso pelo ar de preocupação. A região do extremo Norte transformase, em período alongado, num cenário quase sempre cáustico, chão ressequido durante o verão, com queimadas destruindo pedaços da Amazônia, fazendo com que ela fique desprotegida durante boa parte do tempo. Isso porque nesse interregno é quando somente três chuvas caem de novembro a janeiro: primeiro a do caju, quando essas fruteiras florescem a toda força, espalhadas não só pelos pomares, mas também adornando ruas e avenidas de Boa Vista; a de dezembro, que o povo daqui chama de chuva do Boiaçu, porque, diz a lenda, desperta a mãe-d´água do seu sono nas profundezas do rio Branco; e a primeira do ano, quando as mangueiras, igualmente plantadas nos pomares, nos fundos de quintais e nas calçadas, mostram a pujança do florescer para assim cachear os galhos mais tenros. Então, assim como se dá no Nordeste, bastam alguns dias de chuva para que o lavrado daqui, como a caatinga de lá, de vegetação seca, agonizante, quase esturricada por vários meses de um verão escaldante, cubra-se com um manto verde que renasce milagrosamente por obra da Natureza. Daí, com a chegada do inverno regional e a volta do verde, a natureza faz outras vidas ganharem alento. Por conta da repetição desse milagre, sempre me vem do jardim o aroma de jasmineiros que, junto com a laranjeira, fazem explodir as flores aprisionadas em milhares de botões. O perfume dessa mistura me inebria, pois o inverno aquoso também faz os canteiros rirem pela boca das onze horas; já as carreiras de pequenas calêndulas parecem formar corais e a velocidade das asas ajuda o colibri a permanecer suspenso no ar enquanto colhe, de flor em flor, o néctar que o sustenta; e aqui e ali borboletas doidejam como pétalas vivas, animadas, que se desprendem das hastes. Nesse embalo repito dia a dia o mesmo ritual: bebo o último gole da fusão de rubiácea e ao levantar o olhar para certo lado da vizinhança, dou com o de alguém que me fita sempre, infalivelmente; meneio com a cabeça um cumprimento quase involuntário e sou por ele bem pago, porque recebo Agência Brasil
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