Edição 1.555 - pág. 29 ANOS outro com os juros que vêm junto com o esgarçar de seus lábios infantes; ou porque aquele sorriso é sempre fresco e perfumado como a manhã desta estação ou porque o momento se torna alegre e animador como a alegria que desabotoa os lábios do menino que passa, pedalando sua bicicleta a caminho da escola. O certo é que essas manifestações da natureza, que me são ofertadas ao começar um novo dia, me fizeram descobrir como Deus tem sido generoso ao me dar tanto mais do que creio merecer. Depois, descobri também que se Ele me deu tanto é porque teve um motivo maior, pois que nenhuma dádiva divina nos chega às mãos se não fizermos por merecê-la e se não for para dividi-la com aqueles que não a têm. A Amazônia é um extenso cenário de belezas, incontáveis e indescritíveis, patrimônio construído pela natureza generosa. Mas por aqui o inverno não é estação de poesia, embora se cantem loas aos bens que ele traz àqueles que tiram na terra o único meio do seu sustento. Assim como ocorre em cidades pelo Brasil afora, também em Roraima, muito mais particularmente em bairros periféricos de Boa Vista, as águas derramadas pelas tempestades são ameaças sinônimas de calamidades. Então, me vejo pensando nas famílias que, confrontadas com as enxurradas e alagamentos, acabam perdendo tudo ou, por milagre, não tudo, mas quase tudo. Como jornalista procuro ajudar da maneira que posso a combater a inércia da sociedade, preguiça que a leva a não lutar para acabar de vez com os motivos tão óbvios que geram todo esse sofrimento. Afinal, são tragédias anunciadas que testemunho há mais de quatro décadas, desde que aqui cheguei para ficar, em 1984. Dramas que se repetem e produzem vítimas, as quais, reiteradamente, tornam-se indefesas se não acudidas pelo poder público e por aquela parte das próprias gentes que ainda é capaz de ter algum amor no coração e guardar na alma relances de solidariedade. Esses quadros catastróficos mexem com a minha sensibilidade e nestes anos todos jamais ignorei o estado de fatalidade que atinge as famílias carentes, aquelas mais expostas a esses alagamentos, que demoram horas para escoar, impedidos que são pela topografia plana do traçado urbano. Muitas delas moram precariamente em áreas invadidas, onde ergueram um humilde teto em terreno impróprio para habitação. Com a certeza de que estes são males inevitáveis quando postos diante da inoperância de quem deveria regrar e disciplinar a ocupação do solo urbano, não me resta alternativa senão a de me entregar como voluntário à luta, até mesmo uma batalha, buscando minorar o sofrimento dessa gente. Aflige-me, entretanto, a expectativa de que, por quase seis meses, de meados de março a meados de setembro, o período será sempre de chuvas intensas. Obstáculos que mais ou menos me limitam a fazer o que gostaria para contribuir e assim deter a parcela de poder que gostaria de assenhorear para fazer mais do que faço. Então, resta-me tão somente juntar minhas mãos às daqueles que, cada um à sua maneira, vão levar socorro e conforto a esses desabrigados. Certamente Deus continuará me abençoando como faz todas as manhãs, quando junta nas minhas retinas o colibri passeando sobre as plantas do meu jardim e o sorriso do menino inocente que passa na rua, em frente à minha casa. De que recompensa maior preciso eu para ser feliz? N. do A. – Com referência a informações constantes no texto acima, criticando a ocorrência de alagamentos no perímetro urbano da capital de Roraima e os graves problemas causados à população, me foi esclarecido que: antes da chegada do período chuvoso, a Prefeitura de Boa Vista vem intensificando a realização das obras de drenagem, as quais têm transformado antigos pontos de alagamento em soluções definitivas; a gestão municipal já eliminou 45 pontos, com 151,7 km de drenagem instalados, garantindo mais segurança, mobilidade e tranquilidade para os moradores da região; a previsão é que os trabalhos estejam concluídos até o fim de março, quando então começam as chuvas do inverno amazônico, sendo que, na sequência, será feita a recomposição asfáltica nos trechos afetados pelas obras, assegurando a recuperação completa da via. Alagamento recente na Rua HC-13, no bairro Senador Hélio Campos, zona Oeste de Boa Vista Ailton Alves/Rede Amazônica
RkJQdWJsaXNoZXIy MTIyNTAwNg==