Jornalistas&Cia 1577

Edição 1.577 - pág. 36 ANOS Era a manhã de 12 de agosto de 1981. Eu chegava às 7h na reportagem geral do Jornal do Brasil, que funcionava na Avenida Brasil, 500, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio. Era o que se conhece como foca, iniciante no jornalismo, e havia começado o estágio na redação do JB em 1º de julho daquele ano. Naquela hora da manhã, a redação ainda estava vazia e era comum o tilintar de telefones. Não existia e-mail nem smartphone. Telex e telefone fixo eram o único ponto de contato com o mundo exterior. Quando o telefone tocava, não havia dúvida de que o primeiro a atender era o estagiário. Estavam lá apenas o pauteiro, o chefe de Reportagem e um ou outro repórter. Ninguém se mexia ao ouvir tocar o telefone. Do outro lado da linha certamente estaria o “mala” do leitor, como costumávamos classificar quem tentava falar com a redação nas primeiras horas do dia. Um absurdo a classificação, pois muitas vezes esse leitor tinha alguma informação relevante para dar ao jornal. E naquela vez não foi diferente. – Alô, redação do Jornal do Brasil, bom dia! – disse, solícito (na verdade eu sempre adorei atender a telefonemas, sobretudo de estranhos) – Bom dia. Nós somos um grupo de estudantes da faculdade de Direito da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), que retomou a tradição do golpe do “pindura”, instituído na comemoração da implantação dos cursos jurídicos no Brasil, dia 11 de agosto, quando se comemora o Dia do Advogado. – Pindura? Mas o que é isso? – perguntei, atônito. – O “pindura” é um golpe dado todo ano pelos estudantes de Direito em restaurantes. A gente come e bebe à vontade e na hora de pagar a conta, n A história desta semana é novamente uma colaboração de Jorge Antônio Barros, que trabalha na comunicação do Crea-RJ (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro), e mantém a página Quarentena News, que reúne no Facebook jornalistas e acadêmicos. Ex-O Globo, JB e O Dia, é um dos fundadores da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Jorge Antônio Barros A retomada do “pindura” no Dia do Advogado anunciamos o “pindura” – disse o estudante Otávio Leite, mais tarde eleito deputado federal pelo PSDB. – Manda um repórter pro Le Pré Catelan que nós vamos dar uma entrevista exclusiva pra vocês. Foi aí que caiu a ficha. Me senti como aquele repórter que atendeu a um telefonema anônimo dado para a redação em setembro de 1969, anunciando onde estava o comunicado dos guerrilheiros que haviam sequestrado o embaixador dos EUA, Charles Elbrick. Essa história pode render bela matéria, pensei com minhas teclas da máquina Olivetti. Os estudantes de Direito da Uerj estavam fazendo história porque retomavam uma prática dos universitários que foi banida pela ditadura militar, sob a alegação de que o “pindura” ameaçava a pátria e a família. Obviamente que o golpe atingia diretamente o caixa dos restaurantes. E muitos dos donos haviam apoiado o golpe de 1964. Mal desliguei o telefone, avisei ao grande e saudoso pauteiro Luciano de Moraes, em tom de “pare as máquinas”, que era preciso mandar uma equipe para o restaurante Le Pré Catelan, que funcionava no então hotel Rio Palace, no posto 6, em Copacabana. À época, era um dos restaurantes mais caros e sofisticados do Rio de Janeiro, primo do Le Pré Catelan parisiense. Um local onde meu salário de estagiário não permitiria que passasse nem na porta. Eu tive a perspicácia de não pedir para fazer a matéria porque era um reles estagiário e o tema requeria sem dúvida um repórter mais experiente. Quando Luciano percebeu que não havia nenhum outro repórter na redação, não teve dúvidas. “Pega carro e fotógrafo e corre pro local, Jorginho”, ordenou Luciano. Sorrindo por dentro, parti. No local, entrevistei os estudantes que estavam eufóricos com o “troféu”: a retomada do golpe do “pindura” com uma conta astronômica (algo em torno de R$ 1 milhão, no dinheiro de hoje). Eles comeram e beberam do bom e do melhor da gastronomia francesa, tudo regado a scotch e vinhos importados. O chef responsável pela cozinha era o francês Claude Troisgros, que havia

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