Jornalistas&Cia 1586

Edição 1.586 - pág. 34 A era Louzeiro Foi graças a José Louzeiro (grande professor, grande figura) que não passei o resto da vida escrevendo notinhas sociais. De vez em quando, ele me mandava produzir uns especiais para a edição de domingo. Numa das célebres reuniões que fazia com a redação, ainda na antiga casinha, ele elogiou meu texto diante de todo mundo. A matéria saiu em página inteira, capa de caderno, com diagramação especial e crédito. Foi meu momento de glória. Obrigada por restabelecer minha autoestima, velho amigo e guerreiro. Não foram poucas as vezes que Louzeiro (1932-2017) me levou para tomar uma Crush no bar do Roberto, onde me dava dicas de como aguentar a pressão machista e preconceituosa daquele universo então masculino. Segundo ele, eu tinha bom texto; devia seguir em frente. Apesar de todo o esforço em provar o contrário, eu ainda seria, por muitos anos, a burguesinha filha de Maria. Entrei e saí do Diário algumas vezes: passei por Folha de Utinga (com o velho Manieri), Folha de São Bernardo, Folha do ABC. Mas é da época de Louzeiro que tenho mais saudades, quando vivi algumas das melhores histórias. Profissional respeitado, o secretário de redação tanto elogiava como esculhambava. Costumava proteger os repórteres das namoradas ciumentas: quando alguma ligava, mesmo que fossem três da manhã, Louzeiro mandava avisar sempre que o cara estava na rua a serviço. Ou quase sempre. Uma vez Bola, repórter de Polícia, saiu com o fotógrafo Claudinho Polesi para uma matéria. Os dois viviam atrás Lucia Sauerbronn n A história desta semana, de Lucia Sauerbronn, teve a primeira parte publicada em J&Cia 1.585. Como o texto é longo, combinamos reproduzi-lo em três edições consecutivas. Ele recupera o início da trajetória de Lucia no Diário do Grande ABC, na região metropolitana de São Paulo. Embora escrita há quase 20 anos, segue atual, fazendo referência a diversos colegas da imprensa paulista, muitos ainda em atividade. Do DGABC Lucia seguiu para a TV Globo, depois o Estadão e em 1980 criou a Escrita Comunicação, dedicada a publicações empresariais, que manteve até 2012; hoje atua como freelancer. Jornalismo em 15 mil toques (Parte II) de um rabo de saia. Na tarde seguinte ainda não tinham aparecido. Louzeiro não teve dúvida: mandou avisar as famílias de que eles tinham sumido, era melhor procurar nos hospitais e necrotérios. Foi um tumulto. Só à noitinha, quando apareceram na redação com a maior cara de ressaca lavada, é que os dois se deram conta de que teriam muito a explicar em casa. Nem tudo, porém, era brincadeira. O Diário era a único recurso de que a população dispunha para se defender. Na metade de década de 70, era comum denunciarmos a poluição da Refinaria de Capuava, hoje, Petroquímica. No bairro, as grades de ferro enferrujavam em semanas; para se proteger, toda família mantinha em casa um passarinho. Quando caíam mortos, asfixiados, era sinal de que a qualidade do ar tinha passado do limite suportável. Era hora de chamar o jornal. Serviço público de primeira. A Cetesb logo instalou ali uma central de controle de poluição. Na Coluna do Ramalhinho (personagem criado pelo Rubinho) a gente publicava as mazelas da cidade: buracos na rua, muros de arrimo caídos, bueiros destampados. As prefeituras tomavam providência. Também cobríamos as enchentes, que eram terríveis. As piores aconteciam no córrego dos Meninos, divisa de Santo André com Rudge Ramos: os bombeiros iam de barco resgatar crianças e mulheres grávidas. Quando as águas baixavam, o ambiente era desolador: colchões, sofás, eletrodomésticos, roupas, brinquedos, tudo chafurdado naquela lama fedorenta. De casa nova Nessa época, o jornal dava sinais de que iria crescer. E muito. Profissionalizar a redação era fundamental. Contrataram um sujeito arrumadinho, que veio do Rio, se não me engano, Amaury Cunha. O cara, todo engravatado, mandava e desmandava na redação, passando por cima do Louzeiro. Viraram inimigos mortais. Louzeiro não se cansava de dizer que bastava um incompetente

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