Jornalistas&Cia 1411

Edição 1.411 página 14 PRECIO SIDADES do Por Assis Ângelo Acervo ASSIS ÂNGELO Contatos pelos [email protected], http://assisangelo.blogspot.com, 11-3661-4561 e 11-98549-0333 Do poeta repentista Oliveira de Panelas: Toca-me com teus seios de suavíssima pluma! Deixa-os destilar os meus lábios sequiosos Pingos de essências; o mel dos desejosos Amantes que não sei se há em parte alguma! Roça-me com teu ventre em maciez de bruma E logo após retoma em ritmos calorosos Mergulha nos instantes de anseios ardorosos Repete uma vez mais... mais outra vez... mais uma!!! Tu sufocas-me, e eu te canso, e te alivio. Desnuda, e nessa pausa de transe e tresvario, Arpejos sussurrantes, corpo esclarecido. Após o néctar-êxtase, sã, a consciência volta, Restaura nossos Eros e cada um se solta Na paixão do mais belo amor que foi vivido! Soneto, como tal conhecemos, formado por dois quartetos e dois tercetos, foi uma criação do italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Houve um tempo em que virou moda mundo afora e no Brasil, inclusive. Oliveira de Panelas, nas horas vagas poeta de bancada, deita e rola, como nesse campo rolaram muitos outros grandes poetas. Incomum, no caso, é a temática aqui abordada por Panelas: o lirismo erótico como no soneto inédito Néctar-Êxtase, que publicamos aqui. Esse tema também foi original e genialmente abordado por um dos poetas mais completos da nossa língua portuguesa: Olavo Bilac. É de Bilac o livro Contos para Velhos, publicado em 1897. Os cordelistas, também chamados de poetas de bancada, e os repentistas, ao som de viola, também costumam desenvolver poemas de duplo sentido. O sexo e o palavrão têm uma relação íntima, desde que o mundo é mundo. O resultado disso se acha em todo canto, incluindo na literatura popular e erudita, no teatro, cinema, dança, música, nas artes em geral. Perguntei a Oliveira: Como você vê essa relação na poética de improviso ao som de viola? Ele: Existe no reino da cantoria cantadores que gostam de versos mais picantes na hora em que estão fazendo um desafio, mas não chega a ser “boca suja”. Na cantoria, a plateia, de uma maneira geral, não absorve essa temática. Mas tem muitos deles que mesmo sendo proibidos chegam raras vezes a ultrapassar os limites. A não ser um trabalho de encomenda; aí o sujeito se solta todo! Licenciosidade na cultura popular (X) Eu: Qual a sua opinião a respeito das músicas de duplo sentido? Ele: Eu acho a música de duplo sentido uma responsabilidade muito grande. Ou é bem feita ou descartável. Eu gostava de Genival Lacerda. Tem muitos outros, mas não lembro agora. Eu: Você foi amigo de Ariano Suassuna, o poeta repentista mais estimado. Suassuna dizia muitos palavrões? E você, quando leva uma topada, diz o quê? Aleluia? Ele: Sim, Ariano tinha uma grande amizade por mim, e a recíproca era verdadeira. Nos três anos em que fui seu convidado nas suas aulas espetáculo nunca ouvi nenhum. Mas em algum momento tudo pode acontecer. Eu sempre chamo o famoso: “Eita, porra!” Mas, por paradoxal que venha a parecer, logo me arrependo e chamo o nome de um santo (risos). Eu: Você e Otacílio Batista estiveram várias vezes cantando para Roberto Carlos, na casa dele. Roberto tem muitas músicas que falam de sexo e coisa e tal. Aliás, não só Roberto, mas muitos outros artistas, como Tom Zé, Rolando Boldrin, Rita Lee, Isaurinha Garcia, Wando, Chico, Caetano... Roberto diz muito palavrão? Ele: Acho muito bonito quem sabe colocar o sexo nas músicas que canta. Um erotismo apaixonante e sensual. Pois partindo para o chulo perde o sentido. Roberto, não deu tempo ouvir nenhum palavrão dele não. Mas, sendo na hora certa, todo mundo diz. Eu: Conte um caso inusitado envolvendo um palavrão. Ele: Olhe, um caso inusitado, eu não lembro agora, mas que o palavrão já me tirou muitíssimas vezes do prego isso não tenha a menor dúvida. Não adianta ser hipócrita, todo mundo tem seu palavrãozinho de estimação. Eu tenho e gosto deles pra lascar! (risos). Na noite de 13 de julho de 2022, no Qualistage, no Rio de Janeiro, Roberto Carlos, nervoso com uma fã, disse: “Cala a boca, caralho! Porra!”. Dias depois ele voltou ao tema, se desculpando: “Foi sem querer”. Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora Ilustração de Fausto Bergocce Oliveira (esq.), Roberto Carlos e Otacílio Batista Assis (esq.) e Oliveira de Panelas

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