Jornalistas&Cia 1411

Edição 1.411 página 15 100 ANOS DE RÁDIO NO BRASIL Por Álvaro Bufarah (*) (*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo. Estamos vivenciando um boom do uso das ferramentas de Inteligência Artificial em diversos segmentos da sociedade. Evidente que esse processo também chegou aos meios de comunicação, como o rádio. Nesta semana, dando continuidade à pauta, vamos tratar especificamente sobre este aspecto do uso destas tecnologias. Cristiano Stuani, administrador, especialista em radiodifusão e professor universitário, comenta que esses recursos, embora agora tenham ganho mais visibilidade, na realidade são um “novo, velho conceito”, pois muitas das utilidades já trazidas pela tecnologia para o nosso cotidiano já incluem o uso de IA. “O Google já é uma inteligência artificial e existe, está entre nós há um bom tempo”, comenta o gestor de rádio. “Os GPSs dos carros, o Waze, o Google Maps, todos são ferramentas de inteligência artificial. E ainda podemos incluir na lista a Alexa e vários aplicativos das redes sociais. Não é uma coisa tão nova, só que agora está sendo apresentada de uma forma até assustadora. É por isso que todo mundo talvez esteja se mexendo e todo mundo perdido. Eu costumo pensar e falar que a inteligência artificial é um tsunami, que está vindo uma onda e a gente, sentado na areia olhando aquilo, fala ‘Ah, meu Deus, e aí?’ Não tem mais volta, já está presente”. Mesmo com tanto barulho sobre esse tipo de tecnologia, o especialista afirma que o Brasil ainda está na estaca zero para a implantação nas emissoras de rádio. Isso porque ele ministrou recentemente um treinamento sobre o uso do ChatGPT para radialistas e percebeu que muitos não tinham sequer ideia do que era essa ferramenta. Quando apresentados às facilidades do uso da IA vários profissionais ficam assustados com a possibilidade de perderem seus empregos. Porém, para Cristiano, esse processo ocorrerá de outra forma, pois muitas funções deixarão de existir, mas outras serão criadas. Muitos processos serão otimizados e muitas tarefas operacionais serão automatizadas. Para ele as emissoras serão praticamente automatizadas em toda a sua estrutura, tendo mais possibilidades de uso dessas tecnologias para a gestão, produção, edição e veiculação de conteúdo. Mas para que isso ocorra o especialista sugere que todas as partes envolvidas sentem para discutir como fazer o processo de implantação sem solavancos. Dentro disso, ele inclui a necessidade de regulamentação do uso das ferramentas de inteligência artificial no Brasil, tal qual estão fazendo na Europa e Estados Unidos. “Esse uso não tem volta”, afirma Cristiano. “Por isso, temos de avaliar de forma positiva e analisar como podemos melhorar a performance do setor e das emissoras o mais rápido possível. Eu ainda não conheci uma emissora de rádio ou uma empresa de comunicação que esteja de fato aplicando alguma ferramenta de inteligência artificial na sua estrutura”. Especialmente no mercado de radiodifusão, ele diz que fica decepcionado ao ver que poucos profissionais buscam capacitação sobre Os riscos do rádio robotizado Cristiano Stuani novas tendências, sejam tecnológicas ou empresariais: “A gente tem que ser realista, pois temos uma cultura de não se especializar tanto nas coisas. E quando eu vejo o mercado de rádio, fico ainda decepcionado de perceber que, apesar de mais de 5.000 rádios, é pequeno o número de radialistas que se empenham em estudar algo novo. De forma geral, temos uma cultura que mantém os profissionais dentro de uma bolha e impede que eles saiam para buscar novos conhecimentos em outras áreas”. Já há testes de uma tecnologia denominada RadioGPT, com a qual é possível criar uma emissora em que o sistema 100% automatizado busca informações, levanta dados, escreve textos e grava com vozes sintetizadas. Embora pareça bem real, para Stuani ainda falta a vivacidade do locutor humano, da interação e do improviso. Ou seja, ao utilizarmos essas ferramentas para tirarmos todos os profissionais do ar acabamos por montar uma emissora “pasteurizada”, sem vida. Com isso, vamos na oposição das tendências apresentadas na última NAB 2023, que trouxe foco para a experiência do ouvinte. Diante desses fatos, é perceptível que ainda não temos uma solução de curto prazo, mas há possibilidades reais de melhorar as programações com o uso dessas ferramentas expandindo as ações dos profissionais do rádio. Com isso, poderemos deixar ações mais operacionais e repetitivas para a IA e os profissionais poderão ter mais tempo para pesquisas, produção de textos e entrevistas, edição e pós-produção, com mais qualidade. Para o especialista, uma das possibilidades de uso é a criação daqueles boletins com informações nacionais que entram nas programações das emissoras no interior do Brasil. Atualmente, a pequenas e médias emissoras dependem, em geral, de material vindo de grandes redes (como Jovem Pan, BandNews e CBN). Com a IA podem passar a produzir material mais adaptado a sua audiência sem depender de redes. Para Cristiano, talvez 25% da programação de uma rádio podem ser desenhados, construídos através de uma inteligência artificial, tendo o foco em melhoria do material e não na substituição dos profissionais. De toda forma, temos de repensar o rádio brasileiro com urgência antes que a tecnologia avance e transforme o que conhecemos em poeira... Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

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