Jornalistas&Cia 1446

Edição 1.446 página 12 Por Assis Ângelo PRECIO SIDADES do Acervo ASSIS ÂNGELO Contatos pelos [email protected], http://assisangelo.blogspot.com, 11-3661-4561 e 11-98549-0333 A França vivia o auge da prostituição no século 18. No século 19, o Brasil já recebia do Leste Europeu mulheres que caíam no campo movediço da prostituição. Enganadas. Vinham essas mulheres da Rússia e também da Galícia e da Polônia. Grosso modo, eram de origem humilde e até analfabetas. Convencidas pela lábia macia de proxenetas judeus, essas mulheres, na maioria judias, eram encaminhadas para a prostituição em bordéis do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. A Argentina era também um dos destinos delas. Entraram para a história da vida brasileira como “polacas”. O articulista Luis Krausz identificou muita coisa importante nesse mundo ainda nebuloso, principalmente no que diz respeito ao judeu no Brasil. Na edição de 1º de setembro de 1996, o Jornal Folha de S.Paulo trouxe texto assinado por Krausz. Já nas primeiras linhas desse texto, intitulado Memórias Deterioradas, lê-se: “... As primeiras 67 prostitutas judias de nacionalidade polonesa desembarcaram no Rio em 1867. Logo foram apelidadas de polacas. A estas seguiram-se centenas, que, no decorrer das cinco ou seis décadas subsequentes, estabeleceram-se no Rio, em Santos e em São Paulo…” Eram no Rio divididas em três categorias: a primeira se achava na região da Lapa. A segunda, na região de Botafogo e a terceira, mais simples, comum e barata, tinha o Centro carioca como área de atuação. As polacas da Lapa eram confundidas conscientemente por alguns fregueses como parisienses. Manter relações sexuais com uma parisiense era o que de melhor podia-se fazer. Top, como se dizia. O cachê alcançava os píncaros. Os judeus aliciadores de polacas integravam uma organização criminosa chamada Zwi Migdal. Ainda no seu artigo, Krausz destaca: “A comunidade judaica local era ainda muito pequena e pouco organizada para poder tomar medidas efetivas contra a Zwi Migdal. Em 1913, a Jewish Association for the Protection of Girls and Women (Associação Judaica para Proteção de Meninas e Mulheres), baseada em Londres, enviou seu secretário- -geral, Samuel Cohen, a Buenos Aires para avaliar a situação do tráfico de brancas na América do Sul. Os resultados desta visita foram limitados. Em 1936, o escritor judeu austríaco Stefan Zweig visitou a zona Licenciosidade na cultura popular (XILV) (continuação da edição 1.445) do Mangue, no Rio de Janeiro, onde se concentrava a prostituição. Em seus diários encontra-se a seguinte anotação: ‘Mulheres judias da Europa Oriental prometem as mais excitantes perversões... que destino levou estas mulheres a terminarem aqui, vendendo-se pelo equivalente a três francos?’“. Stefan Zweig suicidou-se em Petrópolis, no dia 18 de fevereiro de 1942. É dele o livro Brasil: O País do Futuro. Por que Zweig se suicidou? Curiosidade: foi no Mangue que o sanfoneiro Luiz Gonzaga iniciou a sua carreira de sucesso e fama, como Rei do Baião. No terceiro volume da série Millennium, A Rainha do Castelo de Ar, escrita pelo jornalista sueco Stieg Larsson (1954-2004), o tráfico de mulheres para a prática sexual forçada é abordado de modo o mais oportuno e terrível possível. As principais personagens da trama são Lisbeth Salander, Mikael Blomkvist e Erika Berger, que prendem com facilidade a atenção do leitor. Atualíssimo, como se vê. Quem começa a ler a série Millennium dificilmente para até para comer, tão convincente e agradável é a leitura. Nessa leitura, o leitor vai se deparar com misóginos decididos a tudo, até a matar. Em série. Nessa série Millennium o leitor vai encontrar comportamentos horrorosos da parte de muitos personagens que permeiam a trama, que aqui e acolá pouco diferem da vida real: advogado torturador e tal e tal. Lisbeth, uma personagem que surge de modo secundário, transforma-se em heroína. Larsson morreu sem desfrutar do sucesso da obra que criou. O alterego do autor é muito bem representado pelo herói, bonitão e mulherengo, Mikael. Mikael é um repórter investigativo, vejam vocês! Realismo puro, que convence e empolga o leitor. Na Suécia, desde 1999, é crime alguém pagar pra fazer sexo. Não é incomum infidelidade feminina levar à prostituição, isso todo mundo sabe. Há situações registradas pela imprensa e abordadas no teatro, cinema e livro em que a infiel, quando não espancada, é posta para fora de casa. Desamparadas, muitas mulheres optam por trilhar esse caminho. No livro Lucíola, de 1862, o autor José de Alencar (1829-1877) conta o caso de Lucíola, Lúcia ou Maria da Glória que cai na prostituição em busca de dinheiro para cuidar da família infectada pela febre amarela que matara a mãe e os irmãos. Sobraram o pai e uma irmã, Ana. A personagem-título tinha 14 anos de idade quando o pai descobre que ela estava se prostituindo. Sem considerar as razões, ele a expulsa de casa. O resultado disso é que a menina segue sua vida num bordel. Lúcia/Lucíola deu-se bem no “mau caminho”. Pois é, essa é uma história muito antiga e recorrente. (Continua na próxima edição) Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora https://herdeirodeaecio.blogspot. com/2015/03/zwi-migdal.html Polacas

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