Edição 1.446 página 21 Ivete Vargas morreu: quem herdará o PTB? Naquele escaldante início de verão de 1984, para qualquer jornalista da reportagem geral, cobrir enterro só não era pior do que enfrentar borrachada da polícia em passeata que descambasse em violência. Mas ainda estávamos no regime militar e as manifestações pelas diretas eram restritas a ambientes controlados. Então, a primeira opção era mais simples, até porque se resumia a registro numa revista quinzenal, como Visão, e de especialização em economia. E o cemitério ficava próximo da redação refrigerada, o que me tomaria menos tempo de exposição à canícula. Assim, com o fotógrafo Alberto Jacob Filho (futuro presidente de nosso sindicato, e filho do grande Alberto Jacob, da melhor fornada do JB), rumei para o São João Batista para cobrir o enterro da roliça deputada federal, sobrinha de Getulio, que herdara a sigla, após vale-tudo feroz com Brizola. Que foi, aliás, a primeira personalidade política com que me deparei ao entrar no grande pórtico do SJB, onde se concentrava a barulhenta claque sindicalista, pronta para homenagear a líder. Amável, o então governador justificava a presença nos funerais da adversária: “Rival político não é inimigo, che!”. Como cobrira sua campanha para o governo do Rio e me afastara por ter torcido o tornozelo, Brizola me identificava, me cumprimentou e disse n A história desta semana é de uma estreante neste espaço. Beatriz Marinho, carioca do Flamengo, cursou Jornalismo na Federal (hoje UFRJ) e Economia na Candido Mendes. Estagiou no Correio da Manhã e na Tribuna da Imprensa. Antes mesmo de se formar, profissionalizou-se depois de uma entrevista com o cirurgião Christian Barnard, o primeiro no mundo a realizar um transplante de coração. Foi então contratada pela sucursal do Estadão no Rio. Em 1972, casou-se, mudou para São Paulo e trabalhou nas revistas técnicas da Abril e na Exame, até 1985. Morou nos Estados Unidos com o marido, também jornalista. Teve um escritório de comunicação, que atendeu a governos estrangeiros, empresas na área de petróleo e fez muitos eventos. Realizou seminários para a terceira idade na Universidade da Califórnia. Por último, até 2010, editou uma série para a Rio Gente de Sucesso, entrevistando personalidades. Beatriz Marinho Nem elefante, nem leão o que me repetiria à exaustão toda vez que nos encontramos depois: “Poxa, naquele tempo, você estava voando baixo”, no sotaque gaúcho, cheio de nuances inconfundíveis. De repente, chegou Sarney, futuro vice-presidente de Tancredo Neves, que tentava desvencilhar sua ostensiva trajetória política de direita (homem de confiança dos militares, presidente do PDS etc.), bandeando-se para a esquerda “confiável” ao compor a chapa com o mineiro. Na verdade, visava também o day after de sua sobrevivência no ramo, driblando resistências de quem chegasse ao poder, no fim do ciclo autoritário. Fato é que, no cemitério, naquela balbúrdia, o que menos chamava atenção era a defunto, suposto pretexto de reunião dos opostos. O jornalista Sebastião Nery animava rodinhas com seus “causos” pitorescos e aqueles gestos descontrolados (atendia pelo apelido de “couro curto”), mas dominava a cena com explicações políticas nem sempre lógicas, mas muito bem construídas e principalmente folclóricas. Àquela altura, ombreava com Brizola as rédeas do recém-criado PDT, em Lisboa, no ano de 1979. Dividia o show a pelegada trabalhista, na prática mais interessada em saber o número do túmulo de Ivete, para posterior fezinha no bicho, do que no enterro propriamente dito. Mas me distraí mesmo, fixada no “Ribamar” do Maranhão, que adotara o nome pomposo de um ex-patrão paterno (Sir Ney), mais compatível a um político que sempre teve pretensões a voos mais altos na política nacional. José Sarney vestia um jaquetão, sua marca registrada. Observei sua cabeleira e o bigode fartos, meticulosamente grisalhos da rinsagem. No couro cabeludo e entre nariz e boca, a pele avermelhada denunciava aplicação recente. Entre uma e outra citação literária “de sua lavra medíocre” (como implicava seu feroz crítico Millôr Fernandes), elogiava, sem convicção, a quase esquecida razão de estar ali naquele calor infernal; fazendo política, naturalmente. Não perdia uma, aliás: e deu certo, porque em menos de dois anos depois, pela morte de Tancredo Neves, Ivete Vargas e Leonel Brizola
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