Edição 1.581 - pág. 10 ANOS 100 ANOS DE RÁDIO NO BRASIL A partida de Claudio Carsughi, aos 93 anos, em 10/9, consuma muito mais do que a despedida física do decano que cobriu a Copa de 1950, revolucionou o jornalismo automotivo na revista Quatro Rodas e marcou época no rádio e na televisão brasileira. A notícia confirmada por sua filha Claudia, após quase um mês de internação por infecção respiratória, impõe ao campo da comunicação um silêncio desconfortável. Com Carsughi, apaga-se a luz de uma linhagem discursiva irrepetível: a do jornalista que dominava a língua como um lorde e esgrimia ideias com uma polidez de contornos quase vitorianos. Não haverá reposição para o “Mestre”. Não porque a profissão tenha esgotado sua cota de talentos individuais, mas porque desapareceu o ecossistema cultural e formativo capaz de gestar figuras dessa envergadura. Carsughi não foi produto de laboratórios de métricas, nem forjou sua dicção em oficinas de personal branding. Sua erudição não veio de recortes rápidos de enciclopédias virtuais. Ela nasceu do barro e da graxa: formou-se no asfalto das estradas, no cheiro de gasolina das pistas de corrida, nas arquibancadas lamacentas do futebol e no pulsar das redações barulhentas do Século XX – temperada pelo rigor acadêmico de sua veia de engenheiro e lapidada muito antes da era dos cliques, das redes sociais e das respostas pré-fabricadas da internet. A esgrima sem sangue Na história da retórica clássica, a verdadeira virtude do orador reside no domínio do ethos e da ponderação. Carsughi era um espadachim do pensamento. Quando entrava em uma divergência analítica – fosse sobre a calibragem aerodinâmica de um monoposto de Fórmula 1 ou a disposição tática de um clássico europeu –, jamais recorria ao golpe baixo, à interrupção estridente ou ao sarcasmo fácil. Por Álvaro Bufarah (*) O último cavalheiro da palavra A morte de Claudio Carsughi e o ocaso da elegância no jornalismo EBC na Rede Claudio Carsughi Sua arma era o florete, nunca o tacape: •O contraditório fidalgo: Carsughi concedia ao adversário o benefício da escuta integral. Ao refutar uma tese, começava quase sempre validando a premissa do colega para, em seguida, desconstruí-la camada por camada, valendo-se de lógica cartesiana, dados irrefutáveis e uma afabilidade desarmante. Saía vitorioso do embate sem deixar o opositor humilhado. •A linguagem de precisão cirúrgica: Em suas intervenções, não havia adjetivo ornamental ou advérbio vadio. O sotaque toscano não era mero charme sonoro; era o veículo de uma sintaxe impecável, de quem pensava antes de formular a frase e escolhia o termo exato – a palavra justa – para cada nuance do fato. •A finura do humor: Seu riso era inteligente, sutil, pontuado por uma ironia refinada que iluminava os absurdos do esporte e da política esportiva sem jamais descer ao terreno da ofensa pessoal. Era o humor dos sábios, que acolhe e faz refletir, antítese perfeita do cinismo contemporâneo. O abismo da ausência: por que não há escola para o gênio? As faculdades de jornalismo ensinam técnicas de apuração, teorias da notícia, gestão de redes e produção multimídia. Mas nenhuma academia – e muito menos o ecossistema das redes sociais – consegue ensinar nobreza de espírito, tempo de maturação e profundidade contemplativa. A contemporaneidade premia o ruído, a reação espasmódica de cinco segundos e a polarização encenada dos mesões de Acervo Jovem Pan Carsughi, Aluani Neto e Emerson Fittipaldi
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