Edição 1.581 - pág. 22 ANOS O brasileiro utiliza hoje um vocabulário 30% menor do que dez anos atrás, mesmo sendo a língua prenhe, incorporando novas palavras em constante aprendizagem. As consequências são imprevisíveis. Palavras consideradas empoladas hibernam nos dicionários com efeitos sobre a literatura de ficção. Por sua vez, palavras descarnadas se banalizam em moda. Junto-me a especialistas brasileiros do porte do historiador Caetano Galindo ou do jornalista Sergio Rodrigues, que acolhem mudanças que se vão introduzindo no português-brasileiro coloquial. Este processo pertence à natureza democrática da língua, sendo imprudente alienarse à sua evolução, seus desdobramentos na literatura e dimensões antropológicas. Filólogos analisam com propriedade as transformações, causas e possíveis consequências do emagrecimento da língua até então chamada de culta, sob os efeitos das onipresentes telas dos celulares nas novas gerações. Assiste-se à destruição da ponte entre a escrita manual e a teclada, fenômeno que não se limita à caneta e ao computador, transcendendo dimensões físicas e humanas. É universal a substituição de gírias de geração em geração. Também o Especial Traças comem o dicionário Por Paulo Ludmer, especial para J&Cia (*) Paulo Ludmer progresso tecnológico requer novos termos. A historicidade apresenta a cada tempo a adoção de temas que se alteram nos interesses compartilhados entre quem escreve e quem lê. Hoje, no Brasil, valoriza-se abordar a inclusão social; a desigualdade/concentração de renda; o racismo; a misoginia; a esfera da identidade; a influência colonial e direitos dos povos originários, entre outros itens. É ingênuo esboroar-se contra esta realidade. Nosso cancioneiro cultua o aforisma de que o caminho se faz caminhando. Por sua vez, ser humano contém ambivalências. A um só tempo, insatisfeitos, poetas, artistas e ensaístas acadêmicos instigam pessoas à nobre luta pelo impossível. Ora, a diminuição do vocabulário utilizado pelos brasileiros atinge a literatura do País. Os escritores terão de lidar com as espumas dessas ondas imparáveis. Pode muito bem acontecer de a escrita vir a ser mais comunicante, será necessariamente diferente. Melhor? Pior? Veja-se o exemplo do hebraico, uma língua de poucas palavras, hoje buscando intencionalmente incorporar a musicalidade superior do ídiche (uma mistura de alemão, hebraico e aramaico, uma língua judaica de resistência dos oprimidos pela perseguição antissemita na Europa). O dizer enxuto atende ao mais valioso patrimônio: o tempo, a duração. E o leitor será melhor atendido, sem perda de compreensão, pela brevidade. Em decorrência, frequentemente se cultua em oficinas de escrita criativa o lema da concisão, ou seja: convém dizer tudo o que se deseja rapidamente, no mínimo de palavras, sem gorduras, às vezes incorrendo noutro problema que é o hermetismo, a economia de índices a serem preenchidos pelo leitor. Um parágrafo pode ser longo, mas tem de ser necessário, indispensável, verdadeiro. Quando uma palavra ultrapassa o dique do silêncio ela importa mais. É evidentemente mais pobre, mais coloquial, o uso de dois ou três verbos passíveis de serem substituídos por um único totalmente preciso. No Brasil, em contraponto, cada vez mais se usam verbos auxiliares na mais ampla gama de suas aplicabilidades. Assim, em vez de “tinha afundado no mar”, cabe, Marcos Santos/USP Imagens
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