Jornalistas&Cia 1581

Edição 1.581 - pág. 23 ANOS simplesmente, “naufragara”. No entanto, vale observar que o rigor do português culto não é dominante, nem unânime, nem único. Desafia o narrador/autor. Não vamos tratar aqui da eliminação de verbetes sob policiamento social. Claro que mulato, criado-mudo e judiar tornaram-se por outros critérios politicamente indigestos, embora não o fossem no cenário em que viveu Monteiro Lobato. Porém, é chato reconhecer que no País empregamse menos tempos verbais e menos proparoxítonas, frequentemente abreviadas ou ignoradas, especialmente quando um escritor quer dar veracidade a um diálogo entre populares. A rarefação se verifica mesmo em Portugal, que vem perdendo batalhas, mas defende heroicamente sua língua, pois ainda chama mouse de camundongo, clicar de premer, ou premer o camundongo. Entre nós, o número de verbetes desconhecidos pelo leitor só faz crescer. Para o escritor, virou sacrilégio usar ágape em vez de jantar, “Premer o camundongo” hyperscience.com Especial borzeguins em vez de botas, tálamo em vez de leito. A palavra de sentido desconhecido acaba, negativamente, por distrair o leitor que poderia estar se emocionando com a narrativa, mas tem de parar e buscar no dicionário um possível entendimento. Leitor buscar significados é um sonho de escritor, um parceiro cada vez mais raro na velocidade do cotidiano. Porém, o que se vê é a crescente insuficiência do leitor, trazendo para baixo a suficiência do escritor, mesmo no jornalismo que decifra enigmas enquanto o artista os ergue. Urge que o personagem falante não se ridicularize num texto, não se desqualifique com os artifícios adotados pelo escritor. É sacralizada a voz verossímil do protagonista. Erros gramaticais, verbos mal conjugados, palavras inexistentes, nada disso estraga o literário se o autor/narrador dominar seu teclado sem menosprezar, sem desrespeitar quem fala. Todavia, a fala tem se apequenado. Assim, numa editora que prepara o livro para seguir à gráfica, o texto do autor arrisca-se a ser guilhotinado para evitar adversidades na compreensão do público. O drama atinge o tradutor que, às vezes, enche o pé da página com notas elucidativas. O jornalista, então, nem se fale. É tolo pensar que o emagrecimento do coloquial preserva intacta a arte. Se arte é inovação, também é resistência, é um corpo antropológico e político. Haverá quem enxergue neste processo mais beleza, mais envolvimento, mais participação e até menos desigualdade. Por mim, registro a tristeza do reducionismo, a equalização pelo rasteiro, contra a qual no momento há que travar a campanha do impossível. (*) Paulo Ludmer é engenheiro, professor, jornalista, escritor com livros em www.pauloludmer.com.br.

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