Jornalistas&Cia 1388

Edição 1.388 página 4 era jornalista. Meu primeiro trabalho em redação foi no Jornal da Semana, emPedro Leopoldo, editado por Beto Braga e Murilo Albernaz, dois jornalistas com os quais aprendi muito. Murilo foi um dos fundadores do Movimento, jornal que fazia oposição à ditadura militar. J&Cia − Ser jornalista sempre foi um sonho? Márcia − Eu nunca sonhei em ser jornalista. Quando criança, sonhava em ser astronauta. Embora nunca tenha sonhado, sempre tive certeza de que seria jornalista. Talvez por ser muito boa em redação, gostava de escrever e contar histórias; então, o jornalismo é a profissão perfeita para mim, mesmo quando não sonhava ou não sabia, ainda. J&Cia − Você é autora de dois livros, Morro do Papagaio: a cidade de cada um e Maria Mazarello: preto no branco, lutas e livros. Como a literatura entrou em sua vida? Márcia − A literatura entrou na minha vida na infância, quando escrevi um texto para Deus. Eu tinha oito ou nove anos. A redação foi muito elogiada por minha professora de português, dona Heloísa. Foi um reforço positivo para que continuasse a escrever. E percebi ali que a escrita é um lugar de invenção, que me permitia até falar com Deus. Desde então, nunca parei. Escrevo todos os dias. A escrita é parte de mim. J&Cia − Há alguma inspiração, principalmente no jornalismo literário? Márcia − Lima Barreto foi minha primeira referência em jornalismo literário, sem que eu soubesse muito bem o que era o jornalismo literário. Quando li, pensei que queria escrever como ele. Quando descobri Machado de Assis, fiquei encantada com a literatura, mas intuía que nunca escreveria como ele. Todas as vezes que leio Machado de Assis acho que nunca poderei escrever como ele; na verdade, poucas pessoas podem. Então, quando li Lima Barreto vi que poderia ser escritora. Muitos anos depois, li FernandoMorais, Chatô − o rei do Brasil, e foi muito importante para mim e minha formação. Há uma lista enorme de referências. Recentemente, li Temporada de Furacões, da Fernanda Melchor, uma jornalista mexicana. Fiquei muito impactada com a literatura dela. São três jornalistas, de tempos e lugares diferentes, que transitam entre a literatura e o jornalismo, que me inspiram, porque é um lugar que eu gosto de ocupar. J&Cia − Em suas produções você aborda questões de gênero, raça e racismo religioso. Quando começou seu engajamento em prol dessas causas? Márcia − Não consigo precisar exatamente. Omeu engajamento em prol dessas causas se deu pela experiência, certamente, mas ganhoumaterialidade quando consegui elaborar sobre essas questões. Então, é ummovimento de vivência e reflexão e essas tomadas de posição sempre têm relação com um autor ou um livro que li. Não sei dizer cronologicamente. Contudo, sempre foi esse movimento de uma leitura que ressignificou minha experiência e vice-versa. J&Cia − A pesquisa Perfil Racial da Imprensa Brasileira, deste J&Cia, aponta apenas 20,1% de jornalistas pretos nas redações. Algumas empresas têm trainees e vagas exclusivas para pessoas negras, considerando as políticas de ação afirmativa. Como essas vagas contribuem para um jornalismo mais diverso? Márcia − A comunicação e o jornalismo não são apenas campos profissionais ou locus para informar as pessoas. Como postula Muniz Sodré, são espaços em que criamos vínculos pelos quais passam todas as nossas relações. A comunicação midiática atravessa a formação social, o tecido social. Então, é preciso que seja diversa e plural para a sociedade também ser diversa e plural. Entendo que as redações precisam espelhar a diversidade do mundo para a cobertura jornalística dar conta de toda a complexidade da nossa existência. Porém, o jornalismo é campo de disputas e muitas vezes as escolhas comerciais se sobrepõem à pluralidade. Por isso, tento colaborar, puxando a discussão da diversidade no campo do jornalismo, quer seja como jornalista ou como professora de Jornalismo, como integrante de umcoletivo de jornalistas negros e negras. Temos de avançar do ponto de vista quantitativo com um número maior de jornalistas negros na redação e temos de avançar também na discussão das questões étnico-raciais na redação. É fundamental termos mais jornalistas pretos nas redações, mas não basta. É preciso que o jornalismo assuma uma postura antirracista. Defendo que a luta antirracista deve ser um compromisso como a pluralidade e a liberdade de expressão. J&Cia − Quais foram as melhores coisas que a sua carreira lhe proporcionou? Márcia − Poderia citar prêmios, viagens, promoções, mas são todas conquistas passageiras. O maior bem de um jornalista é o compromisso com a notícia, com a informação, mesmo quando (ou principalmente) no trabalho cotidiano, longe dos holofotes. Essa é a conquista que busco todos os dias. J&Cia − O que ainda tem em seu planejamento e expectativas? Márcia − Estou na escrita do meu terceiro livro, cujo título provisório é Vidas Inteiras, que escrevo em coautor ia com Gabriel Araújo e Vinícius Luiz. Estamos fazendo uma grande reportagem sobre as cotas raciais no Brasil, a partir de histórias de vidas. Minha expectativa é que essa obra tenha muitos leitores e leitoras. J&Cia − Mulher, preta, origem humilde... O que mudou e ainda deve mudar? Márcia − Costumo dizer que a falta não me define. O que muitas pessoas veem como algo limitador, vejo como potência e possibilidade. Então, tenho muito, mas muito orgulho mesmo de ter nascido no Morro do Papagaio e digo que lá sempre fui vista de forma inteira e plena. É o olhar de fora que pode tentar me diminuir ou duvidar da minha capacidade. Há 15 anos não vivo mais no morro, mas o carinho e o orgulho que as pessoas de lá têm por mim me impulsionam. E, na visibilidade que conquistei, reverbero que a mulher negra é o esteio deste país. E quis ocupar o lugar da intelectualidade para dizer isso, como escritora, jornalista e doutora. Entretanto, não perco a conexão comasmulheres negras que trabalham como domésticas e que devem ser reconhecidas e valorizadas. Celebro ser mulher e negra. Demos tanto ao Brasil! Agradeço a Deus e a Nossa Senhora Aparecida por tudo que conquistei, mas não é sobremim. Temos de falar de nós! Amudança tem de vir para todas as mulheres negras: respeito e plenitude. conitnuação - Nacionais

RkJQdWJsaXNoZXIy MTIyNTAwNg==